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quarta-feira, 14 de fevereiro de 2024

EXPOSIÇÃO: "O Atelier sem o seu Artista: Uma Ode a Francisco Félix"



EXPOSIÇÃO: “O Atelier sem o seu Artista: Uma Ode a Francisco Félix”,
Fotografia | João Falcão
Museu da Olaria - Sala da Capela
10 Jan > 31 Mar 2024


Lugar de visita obrigatória em qualquer deslocação a Barcelos, o Museu da Olaria tem para oferecer, por estes dias, “O Atelier sem o seu Artista: Uma Ode a Francisco Félix”. Trata-se de uma exposição onde coabitam o atelier, a obra, e o que ficou por terminar. Tal é possível graças às imagens capturadas por João Falcão nos últimos dois anos do atelier após a partida de Francisco, seu avô. Cada imagem revela as peças inacabadas, os espaços agora vazios, os utensílios que ainda guardam a marca do artista, e até o par de sapatos com que trabalhava e que permanece como um eco silencioso da sua presença. Exposição do domínio dos sentidos, esta “ode a Francisco Félix” leva o visitante ao encontro das peças que compõem o seu legado. Cada obra é mais do que argila moldada; é a expressão da criatividade de Francisco Félix que transcende o tempo e a ausência física.

Pequenos galos de Barcelos em barro cru ou pintados de todas as cores, músicos no coreto ou em arruada, moldes, presépios, cabeçudos, uma virgem sem cabeça (ou será um Santo António?), uma Santa Isabel, um capacete da corporação de bombeiros de Barcelos. No coração da exposição encontramos as peças que Francisco Félix deixou, muitas delas por concluir. Todas são promessas por cumprir, formas que aguardam a transformação no calor do forno. Este é o atelier como um palco da criatividade. A sensação de ausência intensifica-se nos retratos que pendem da parede, o olhar nostálgico do fotógrafo a render homenagem a um tempo e um lugar habitados por um ser único que tanto lhe diz. Reter aquelas imagens e juntar-lhe os objectos que se oferecem ao nosso olhar é perceber quanto amor existe em cada peça saída das mãos do artista. É ver a paixão com que se dá forma, cor e vida a um pedaço de barro. É celebrar o processo criativo que transcende a vida de Francisco Félix e se torna signo e símbolo de toda uma região.

Falecido em 2021 com a idade de 87 anos, Francisco Félix foi uma figura multifacetada, autor conhecido por criar peças de artesanato únicas. Cresceu numa família com tradição na cerâmica e acompanhou, desde muito novo, os seus pais na produção e venda de cerâmica em feiras por todo o país. Depois de casado, estabeleceu a sua própria oficina no lugar de Aldeia, em Galegos Santa Maria e mais tarde trabalhou na fábrica familiar “Sociedade Decorativa de Louças de Barcelos, Lda.” em Manhente. Quando se aposentou, criou o seu próprio ateliê, onde continuou a criar peças únicas. Com a ajuda da esposa, especialista em pintura, dedicou-se então à produção de peças de decoração, nomeadamente o Galo de bico aberto, tão característico, mas também os coretos, os músicos, os presépios, e as estatuetas. Francisco Félix foi, sem dúvida, um artesão talentoso, que contribuiu significativamente para a promoção e preservação da tradição figurativa em Barcelos, tendo colaborado com outros artistas e deixado um legado duradouro no mundo do artesanato.

domingo, 4 de setembro de 2022

EXPOSIÇÃO DE PINTURA: "Alma Portuguesa"


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EXPOSIÇÃO DE PINTURA: “Alma Portuguesa”,
de Maria do Carmo Vieira
Galeria Municipal de Arte, Barcelos
02 Jul > 18 Set 2022


“Alma Portuguesa”. Cada um de nós terá para ela, certamente, uma definição diferente. Nela encontrará algo a acrescentar às suas infinitas peculiaridades, sublinhará o seu jeito único de se afirmar, enunciará os seus paradoxos, as suas incongruências. Perante o misterioso e desconhecido, mencioná-la pode ser a escapatória perfeita. Ou um simples subterfúgio. Fernando Pessoa encontrou-a no sal, que no mar “são lágrimas de Portugal”. Miguel Torga espantou-se com a facilidade com que chegamos a umas termas, sentamo-nos, voltamo-nos para o vizinho da direita e, sem dizer água-vai, contamos-lhe a vida. Teixeira de Pascoaes realçou a indecisão e inquietação que lhe são próprias, “como as nuvens em que as suas montanhas se continuam e as ondas em que as suas campinas se prolongam”. Vergílio Ferreira destacou a tendência “pela espera de um milagre ou pela descompressão de uma anedota”. Enquanto Miguel Esteves Cardoso exaltou essa capacidade de ser português sem deixar de ser outras coisas, o sermos portugueses por sermos tudo menos portugueses. Afinal, em que ficamos?

“Alma Portuguesa” é o título da exposição de pintura de Maria do Carmo Vieira que, por estes dias, ocupa o belíssimo espaço da Galeria Municipal de Arte, em Barcelos. Um título legitimado pelo interesse da artista em, também ela, encontrar uma resposta que, no mínimo, apazigue essa inquietação de procurarmos saber quem somos e qual o lugar que ocupamos nesta estória que é de todos, afinal. Abraçar com o olhar, de uma só vez, Florbela Espanca e José Afonso, Natália Correia e Eugénio de Andrade, Sophia de Mello Breyner e José Saramago, Teolinda Gersão e Júlio Resende, Agustina Bessa-Luís e Nadir Afonso, e tantos, tantos outros vultos maiores da cultura portuguesa, leva-nos por caminhos feitos de orgulho e brio, alguma vaidade, muita integridade e nobreza. Mas estendamos os olhos para todos os outros rostos que, anónimos, nos observam também. São eles a Amélia e o Laurindo, a Rosa e o Diamantino, a Maria, o Jaime e o Abílio, a Graça, o João, a Margarida. A Maria do Carmo. Rostos marcados pelas mesmas rugas, pela profundidade dos mesmos olhares, pela mesma certeza do lugar ao qual pertencemos, pelo mesmo amor àqueles a quem chamamos pai, mãe, irmão, avô. São eles que juntam o pão que cozem, a terra que semeiam, as casas que erguem ou o peixe que apanham aos livros que outros escrevem, às músicas que se compõem, aos quadros que se pintam. É nessa mescla tão rica que encontramos (?) a nossa alma.

Seguimos por caminhos em cujos sons e tons nos reconhecemos, que juntos soubemos construir e juntos trilhamos desde tempos imemoriais. Caminhos que valem a pena, caminhos de não pequena alma. Alma portuguesa, tão sabiamente representada na arte de Maria do Carmo Vieira. Venham comigo. De mansinho, aproximemo-nos deste quadro. Não vou dizer quem é, todos sabemos quem seja. Conseguem imaginar o trabalho da artista, a forma como, com a espátula, preenche de cor uma primeira camada sobre a tela? E logo outra, e outra ainda, todas diferentes? Ainda a espátula, agora mais pequena (por vezes muitíssimo mais pequena), escavando à superfície, retirando aqui, acrescentando além, compondo, remisturando, criando novas formas e texturas. Indo mais fundo no vincar de uns lábios que se querem grossos e carmesim, num rosto que se apoia na mão, numas pestanas escassas e espessas, nas pérolas de um colar apenas ao de leve vislumbrado. Agora mais fundo ainda, nesse sopro de vida que empresta verdade à figura que parece querer saltar da tela. Verdade que é alma (“alma portuguesa”, será?). Por ela continuaremos a defender, a debater, a porfiar, a discorrer, a batalhar. Se a algum lado chegaremos, nunca o saberemos. Uma certeza teremos, porém: Da cabeça para o coração e do coração para a cabeça, ela esteve - e está (!) - inteira na arte de Maria do Carmo Vieira. Isso sente-se e vê-se, nos ilustres como nos anónimos, que à nossa juntam a sua alma. Não há como o negar.

sexta-feira, 2 de setembro de 2022

EXPOSIÇÃO DE CERÂMICA: "Santo António, p'ARTES de mim"


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EXPOSIÇÃO DE CERÂMICA: “Santo António, p’ARTES de mim”
Colecção de Alexandre Correia
Museu de Olaria, Barcelos
09 Jun 2022 > 05 Fev 2023


Até ao início de Fevereiro do próximo ano, está patente no Museu de Olaria, em Barcelos, a exposição “Santo António, p’ARTES de mim”, do colecionador Alexandre Correia. Trata-se de um vasto conjunto de peças das mais diversas proveniências e cujas formas, cores, materiais, suportes e linguagens estéticas são bem a demonstração da riquíssima iconografia associada ao Santo, afirmando-o como uma das mais marcantes figuras do nosso imaginário colectivo. Do figurado de Barcelos de Júlia Côta ou dos Irmãos Mistério aos Bonecos de Estremoz de Jorge da Conceição ou Madalena Bilro, dos trabalho em ferro e pedra de Luís Pinheiro à arte popular de Idalécio Metalúrgico, passando por grandes mestres barristas, como o caldense Fernando Miguel, a micaelense Isabel Silva Melo, a nazarena Lourdes Sobreiro, o pacense Júlio Campos Leal ou o tirsense Delfim Manuel, entre tantos outros, é a riqueza do nosso artesanato que se afirma de forma tão singular, na certeza da admiração e espanto em cada figura representada.

Partilhando a sua vida com Santo António desde os quatro anos, Alexandre Correia herdou a imagem do Santo que o avô tinha na cabeceira, sendo este o ponto de partida de uma colecção que se inicia, verdadeiramente, em 2014, e conta já com um número superior a um milhar de peças. E se a intenção de perpetuar a memória do avô está na génese da colecção, percebemos hoje que o seu propósito permitiu estabelecer e estreitar laços de amizade entre o colecionador e os artesãos, de cujas mãos, com imaginação e muito amor, brotam tão delicados quanto preciosos trabalhos. Esta relação cimenta-se na visita assídua a mais de duas centenas de ateliês e oficinas dos artistas, espaços de engenho e criatividade onde a magia acontece todos os dias. Os desafios lançados aos artesãos estão na origem de muitas das criações que acabam por se tornar peças únicas e exclusivas, tendo por base o respeito pela essência, a originalidade e a arte que caracteriza cada um dos artistas.

Do conjunto classicista à representação puramente naïf, do barro cru ao vidrado mais colorido, “Santo António, p’ARTES de mim” possui essa particularidade de nos tocar pelo detalhe, tornando reconhecível, senão o seu autor, pelo menos a origem da peça. Aceitar o desafio é, no mínimo, tentador. Não há como escapar ao Menino ao colo, ao hábito franciscano, ao evangelho ou ao lírio numa mão, elementos iconográficos incontornáveis deste que é conhecido como “santo casamenteiro” e “fazedor de milagres”, sobretudo tratando-se de causas perdidas. Já encontrar Santo António levado num andor por quatro mafarricos, num barquinho com pescador e varina, entre músicos num coreto, sentado num pedestal embelezado de azulejos, carregando o Zé Povinho ou de braço dado com uma baiana, num misto de irreverência e devoção, leva-nos numa viagem de Norte a Sul do continente e às Ilhas, redescobrindo a secularidade das artes passadas de geração em geração e o quanto a tradição tem ainda um peso significativo na nossa História e na nossa cultura. A não perder!

domingo, 25 de outubro de 2020

CERTAME: Encontros da Imagem de Braga 2020


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CERTAME: Encontros da Imagem – Festival Internacional de Fotografia e Artes Visuais 2020
Braga, Barcelos, Guimarães, Porto e Avintes (vários locais)
11 Set > 31 Out 2020


“Genesis é tudo isso: a origem ou criação e, como em todas as criações e também na arte, a génese sucede à destruição. Com cada criação surgem novos significados, outros juízos de valor, outras teorias científicas, novos mitos, novos algoritmos e, insidiosamente, velhos erros e revivalismos que atrasam os significados desta comunidade do futuro que, com o seu desleixo e as suas utopias de felicidade, não as quis e não as quer perder. Mudanças, deslocações de povos, efeitos de catástrofe ou de perseverança, criação e destruição, - o alfa e o ómega de uma cultura – e que, consensualmente, nos aparecem como a essência das novas artes visuais.”

É sob o negro manto pandémico do novo coronavírus que tem lugar a 30ª edição dos Encontros da Imagem de Braga. Distribuído por vinte e três espaços diferentes, em Braga, Guimarães, Barcelos, Porto e Avintes, com um total de 36 exposições de 68 artistas, o maior Festival de Fotografia do país propõe um conjunto de reflexões profundas sobre temas candentes da actualidade, das tremendas alterações climáticas a uma poluição galopante, da irracionalidade política, governada pela finança, a um individualismo de vincada auto-estima. Esta marca é tão forte que as narrativas expressas nos vários projectos fotográficos tornam-se sujeito e complemento de si próprias, em permanente estado de (re)construção, fazendo com que Génesis, mais do que uma palavra, surja como um símbolo do que podemos e queremos em relação ao futuro.

Entre o Mosteiro de Tibães e a Galeria do Paço, passando pela Casa dos Crivos, Museu dos Biscainhos, gnration, Edifício do Castelo, Museu Nogueira da Silva e Theatro Circo, a minha “peregrinação” a Braga saldou-se pela visualização de 22 exposições, às quais acrescentaria “Estado do Tempo”, exposição da Colecção Encontros da Imagem, patente na Casa da Cultura de Avintes e sobre a qual me debrucei em crónica anterior aqui no blogue. Do que ficou visto, permito-me destacar as exposições “Love, Live, Refugee”, de Omar Imam, patente no Theatro Circo e “ReGenesis”, de Gonçalo Delgado, que se apresenta na Casa dos Crivos. Trent Davis Baley, com “The North Fork” (Mosteiro de Tibães) e ainda “Forest Family”, de Touko Hujanen e “Where The River Runs Through”, de Aaron Vincent Elkaim, ambos na Galeria do Paço, são exposições igualmente dignas de nota e das quais falarei separadamente ao longo dos próximos dias.

Pela mensagem fortíssima, importa referir “Wahala”, projecto que levou Robin Hinsch a países como a Índia, a Nigéria, a Polónia e a Alemanha, os combustíveis fósseis no cerne das suas (e nossas) preocupações. Hugo Delgado chama à discussão um conjunto de imagens muito fortes que reflectem o quotidiano das populações em tempo de pandemia, intitulando-o “Descontinuidade”. “Transatlántica”, de Elsa Leydier, questiona a influência política da fotografia na representação dos territórios. Com “The White Line”, Rosa Rodriguez conduz-nos aos lugares que o homem foi incapaz de conquistar e moldar ao seu gosto. João Ferreira propõe-nos “O Paraíso Segundo José Maria”, acompanhando os romeiros que percorrem a Ilha de S. Miguel ao som de orações. Felipe Romero Beltran apresenta "Redución", Prémio de Fotografia Contemporânea da Galiza 2019, questionando os procedimentos de redução policial e sua carga a pessoas ilegais em território espanhol. Finalmente, “(Sobre)viver”, de Nina Franco, na qual a autora aborda a violência contra a mulher e o feminicídio através de diversos meios como a fotografia, a instalação, o vídeo, a pintura e a performance. Muito e bom para ver nestes Encontros quase a chegarem ao fim.