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segunda-feira, 29 de setembro de 2025

EXPOSIÇÃO DE PINTURA: "Olhares Sem Tempo" | Maria do Carmo Vieira



EXPOSIÇÃO DE PINTURA: “Olhares sem Tempo”,
de Maria do Carmo Vieira
Centro de Reabilitação do Norte
23 Set > 31 Out 2025


Depois de “Reabilitação / Valadares”, de Agostinho Santos, o Centro de Reabilitação do Norte volta a abrir o seu espaço às artes plásticas, recebendo a exposição “Olhares Sem Tempo”, conjunto notável de pinturas da autoria de Maria do Carmo Vieira. São quinze retratos de crianças em cujos rostos, pequenos e calados, se inscrevem marcas fundas de um mundo desigual. Crianças que carregam, no silêncio dos olhos, a herança amarga da exclusão: vítimas da guerra e da fome, das desigualdades sociais, da discriminação racial, da pobreza que se transmite de geração em geração como uma sentença. Cada rosto pintado é uma denúncia — não de uma tragédia longínqua, mas de uma realidade que persiste ao nosso lado, mesmo quando viramos o olhar. São rostos que nos perturbam porque revelam aquilo que preferíamos não ver: a infância roubada, os sonhos sonegados, o futuro comprometido antes mesmo de começar.

Busquemos cada pintura naquilo que tem para nos oferecer. Vistas de longe, nas suas formas e cores de uma grande autenticidade, representam um ideal de beleza e harmonia. Mas a série pede que nos aproximemos de cada retrato, queremos ver de perto a forma como a tinta se espalha sobre o papel e resulta em trabalhos tão apelativos. Muito depressa, porém, a curiosidade pela técnica cede lugar àquilo que cada pintura representa, testemunhos de afectos interrompidos que são, de vidas silenciadas, de esperanças adiadas. De tão próximos que agora estamos, os olhares destas crianças transferem para nós o peso do mundo. Olham-nos com olhos grandes e fundos, olhos que procuram respostas, olhos que exigem escuta. São olhares que atravessam o tempo e o espaço, que nos obrigam a sair da nossa zona de conforto e a reconhecer a urgência de agir.

A indiferença — esse gesto cruel de quem se habitua à dor dos outros — é, talvez, o maior dos males. Um mal terrível que a pintura de Maria do Carmo Vieira teima em combater. Porque atrás de cada rosto há uma história que não foi contada - no frio das fronteiras, na fome que não passa, na violência que se repete. Há uma infância que não chegou a acontecer, uma humanidade que nos foi arrancada a todos, e a isso não podemos ficar indiferentes. “Olhares Sem Tempo” não oferece respostas fáceis. Em vez disso, convida à reflexão — e, quem sabe, à responsabilidade. Porque nenhuma criança deveria crescer sob o peso do abandono ou do medo. Porque a arte, quando se torna espelho da injustiça e dá voz aos que a não têm, pode ser também instrumento de consciência. Ao dar rosto às vítimas invisíveis dos grandes desequilíbrios do mundo, estas obras devolvem-lhes a dignidade que lhes foi negada. E, ao fazê-lo, devolvem-nos também a capacidade de sentir, de cuidar, de transformar. Que estes “Olhares Sem Tempo” não passem por nós em vão. Que nos comovam. Que nos movam.

sexta-feira, 14 de março de 2025

EXPOSIÇÃO DE PINTURA: "Paisagens Humanas" | Do Carmo Vieira



EXPOSIÇÃO DE PINTURA: “Paisagens Humanas”,
de Do Carmo Vieira
Museu Municipal de Espinho
08 Mar > 12 Abr 2025


Onde quer que possamos apreciá-la, a arte de Maria do Carmo Vieira coloca-nos sempre perante os mistérios da vida, os seus dilemas e contradições, a sua emoção e dramatismo, a sua intimidade e sinceridade. Nascida “do encontro entre a arte, a memória e o compromisso”, a exposição “Paisagens Humanas”, patente até 12 de Abril nas galerias Amadeo Souza-Cardoso do Museu Municipal de Espinho, desdobra-se em tudo isto e mais ainda. Ela é o reflexo das inquietações humanistas da artista, do seu compromisso com o outro e com a natureza no seu estado mais puro, de um sentido do telúrico profundamente arreigado no gesto, de uma crença inabalável no divino. Como as marcas de uma vida, cada traço de cor que a artista espalha na tela é sinónimo do respeito pela individualidade do ser humano e pela sua dignidade enquanto pessoa. Ao mesmo tempo, fala-nos da revolta e do inconformismo de um espírito livre e do seu grito de denúncia que clama por mais justiça, equidade e humanidade.

Dividida em duas partes, “Paisagens Humanas” propõe um diálogo entre tempos, geografias e realidades. De um lado, retratos de um povo com as suas memórias, e autores portugueses, figuras que moldaram o nosso pensamento e a nossa cultura, capturados na sua essência e presença imortalizada. Do outro, rostos de crianças e mulheres em situação de conflito e deslocamento, habitantes de paisagens marcadas pela guerra, pela perda e pela resistência. Entre a celebração e a denúncia, a memória e a urgência do presente, o olhar do visitante é obrigado a transitar entre diferentes dimensões da existência humana, as pinceladas como uma interrogação sobre as histórias que cada rosto abriga ou o futuro que cada paisagem humana é capaz de desenhar. Homenageadas ou simplesmente evocadas em poemas visuais de grande expressão e significado, as figuras que nos observam ao longo das duas vastas galerias são a expressão da força e do poder da arte em quebrar silêncios, convidando-nos a ver, a sentir e, acima de tudo, a agir.

Abraçar com o olhar, de uma só vez, Florbela Espanca e José Afonso, Natália Correia e Eugénio de Andrade, Sophia de Mello Breyner e José Saramago, Júlio Resende e Agustina Bessa-Luís, e tantos, tantos outros vultos maiores da nossa cultura, leva-nos por caminhos de orgulho e brio, alguma vaidade, muita integridade e nobreza. Mas estendamos os olhos para todos os outros rostos que, anónimos, nos observam também. Rostos em quem vemos um pai ou uma mãe, um irmão ou um avô, mesmo que não reconheçamos neles aqueles que, pelo sangue, são nossos. São eles que juntam o pão que cozem, a terra que semeiam, as casas que erguem ou o peixe que apanham, ou que, simplesmente, sobrevivem do lado de cá do Mediterrâneo, tão perto e tão longe da “terra prometida”, tendo por denominadores comuns a guerra, a fome e o medo. Mas é também de esperança a pintura de Maria do Carmo Vieira, levando-nos a crer que os sorrisos se voltarão a acender nos rostos dos que sofrem e que todos voltaremos a dar as mãos num mundo livre de preconceitos, mais justo e melhor.

domingo, 4 de setembro de 2022

EXPOSIÇÃO DE PINTURA: "Alma Portuguesa"


[Clicar na imagem para ver mais fotos]

EXPOSIÇÃO DE PINTURA: “Alma Portuguesa”,
de Maria do Carmo Vieira
Galeria Municipal de Arte, Barcelos
02 Jul > 18 Set 2022


“Alma Portuguesa”. Cada um de nós terá para ela, certamente, uma definição diferente. Nela encontrará algo a acrescentar às suas infinitas peculiaridades, sublinhará o seu jeito único de se afirmar, enunciará os seus paradoxos, as suas incongruências. Perante o misterioso e desconhecido, mencioná-la pode ser a escapatória perfeita. Ou um simples subterfúgio. Fernando Pessoa encontrou-a no sal, que no mar “são lágrimas de Portugal”. Miguel Torga espantou-se com a facilidade com que chegamos a umas termas, sentamo-nos, voltamo-nos para o vizinho da direita e, sem dizer água-vai, contamos-lhe a vida. Teixeira de Pascoaes realçou a indecisão e inquietação que lhe são próprias, “como as nuvens em que as suas montanhas se continuam e as ondas em que as suas campinas se prolongam”. Vergílio Ferreira destacou a tendência “pela espera de um milagre ou pela descompressão de uma anedota”. Enquanto Miguel Esteves Cardoso exaltou essa capacidade de ser português sem deixar de ser outras coisas, o sermos portugueses por sermos tudo menos portugueses. Afinal, em que ficamos?

“Alma Portuguesa” é o título da exposição de pintura de Maria do Carmo Vieira que, por estes dias, ocupa o belíssimo espaço da Galeria Municipal de Arte, em Barcelos. Um título legitimado pelo interesse da artista em, também ela, encontrar uma resposta que, no mínimo, apazigue essa inquietação de procurarmos saber quem somos e qual o lugar que ocupamos nesta estória que é de todos, afinal. Abraçar com o olhar, de uma só vez, Florbela Espanca e José Afonso, Natália Correia e Eugénio de Andrade, Sophia de Mello Breyner e José Saramago, Teolinda Gersão e Júlio Resende, Agustina Bessa-Luís e Nadir Afonso, e tantos, tantos outros vultos maiores da cultura portuguesa, leva-nos por caminhos feitos de orgulho e brio, alguma vaidade, muita integridade e nobreza. Mas estendamos os olhos para todos os outros rostos que, anónimos, nos observam também. São eles a Amélia e o Laurindo, a Rosa e o Diamantino, a Maria, o Jaime e o Abílio, a Graça, o João, a Margarida. A Maria do Carmo. Rostos marcados pelas mesmas rugas, pela profundidade dos mesmos olhares, pela mesma certeza do lugar ao qual pertencemos, pelo mesmo amor àqueles a quem chamamos pai, mãe, irmão, avô. São eles que juntam o pão que cozem, a terra que semeiam, as casas que erguem ou o peixe que apanham aos livros que outros escrevem, às músicas que se compõem, aos quadros que se pintam. É nessa mescla tão rica que encontramos (?) a nossa alma.

Seguimos por caminhos em cujos sons e tons nos reconhecemos, que juntos soubemos construir e juntos trilhamos desde tempos imemoriais. Caminhos que valem a pena, caminhos de não pequena alma. Alma portuguesa, tão sabiamente representada na arte de Maria do Carmo Vieira. Venham comigo. De mansinho, aproximemo-nos deste quadro. Não vou dizer quem é, todos sabemos quem seja. Conseguem imaginar o trabalho da artista, a forma como, com a espátula, preenche de cor uma primeira camada sobre a tela? E logo outra, e outra ainda, todas diferentes? Ainda a espátula, agora mais pequena (por vezes muitíssimo mais pequena), escavando à superfície, retirando aqui, acrescentando além, compondo, remisturando, criando novas formas e texturas. Indo mais fundo no vincar de uns lábios que se querem grossos e carmesim, num rosto que se apoia na mão, numas pestanas escassas e espessas, nas pérolas de um colar apenas ao de leve vislumbrado. Agora mais fundo ainda, nesse sopro de vida que empresta verdade à figura que parece querer saltar da tela. Verdade que é alma (“alma portuguesa”, será?). Por ela continuaremos a defender, a debater, a porfiar, a discorrer, a batalhar. Se a algum lado chegaremos, nunca o saberemos. Uma certeza teremos, porém: Da cabeça para o coração e do coração para a cabeça, ela esteve - e está (!) - inteira na arte de Maria do Carmo Vieira. Isso sente-se e vê-se, nos ilustres como nos anónimos, que à nossa juntam a sua alma. Não há como o negar.