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domingo, 8 de fevereiro de 2026

EXPOSIÇÃO DE PINTURA E OBRA GRÁFICA: “Resist” | José Maia



EXPOSIÇÃO DE PINTURA E OBRA GRÁFICA: “Resist”,
de José Maia
Árvore – Cooperativa de Actividades Artísticas
10 Jan > 14 fev 2026


Numa altura em que está a chegar ao fim a exposição “Resist”, de José Maia, percebemos que o simbolismo das obras expostas e o valor das mensagens explícitas pode fazer com que se estendam por muito mais tempo nas nossas mentes. Não apenas pela força dos trabalhos do pintor e da sua valia artística, mas pela densidade ética que as sustenta. José Maia pertence a uma geração para quem a pintura nunca foi um exercício decorativo, mas um campo de fricção entre o mundo e a consciência. Ao longo de décadas de trabalho, exposições e ensino, José Maia construiu uma obra que se move entre o gesto e a reflexão, entre a memória individual e a ferida coletiva, reafirmando a pintura como linguagem viva, capaz de pensar o presente. Formado entre o Porto e Londres, traz consigo uma herança que cruza a exigência formal da pintura moderna com a urgência expressiva de quem viveu, observou e pensou a arte no centro de um dos momentos mais intensos da cultura europeia contemporânea. O contacto com figuras como Paula Rego, Francis Bacon ou Peter Blake não se traduz aqui em citação estilística, mas numa atitude: a recusa do conforto, a insistência na ambiguidade, a pintura como lugar de confronto.

No centro desta exposição impõe-se “Chuva Negra”, acrílico sobre tela com dez metros de largura, como um campo devastado que nos obriga a parar, a observar, a reflectir. A escala monumental não é excesso, é necessidade. A obra remete para a destruição provocada pela guerra — terras queimadas, vidas interrompidas, crenças estilhaçadas —, mas fá-lo sem recurso a uma narrativa directa. É a matéria pictórica que carrega o trauma: camadas densas, ritmos quebrados, uma atmosfera onde a cor se torna peso e a luz, ameaça. Em “Limbo”, óleo sobre tela, a atenção desloca-se para os migrantes, suspensos entre geografias, leis e esperanças. Aqui, a pintura torna-se espaço de espera e medo, de deslocação permanente. Essa mesma ética do olhar concentra-se nos dois pequenos óleos dedicados a Aylan Kurdi, cuja dimensão íntima contrasta violentamente com a magnitude da tragédia que evoca. Já em “Nove pombos”, a paz surge como imagem aprisionada, frágil, quase impossível, lembrando-nos que os símbolos mais universais também podem ser capturados, silenciados ou esvaziados.

Entre a vida e a morte, a ordem e o caos, “Resist” representa a revisitação de alguns dos males que atravessam as sociedades contemporâneas - guerra, migração forçada, perda de humanidade, anestesia moral - não para ilustrá-los, mas para os expor como feridas abertas. As dezassete obras reunidas nesta exposição recusam a neutralidade e convidam a uma tomada de posição activa. Como pode ler-se no texto curatorial, a arte aqui não é entretenimento: é resistência. Resistência à pressa, à superficialidade, à ideia de que tudo pode ser consumido e esquecido. A pintura de José Maia exige tempo, atenção e responsabilidade. Apoiar esta obra — olhá-la verdadeiramente — é um gesto cívico, quase político, no sentido mais humano do termo. Porque, num mundo onde a cultura é tantas vezes reduzida a produto, estas pinturas lembram-nos que a arte continua a ser um dos últimos espaços de liberdade, onde a beleza não consola, mas transforma. E onde resistir é, ainda, uma forma de dizer não.

sexta-feira, 21 de novembro de 2025

EXPOSIÇÃO DE PINTURA E OBRA GRÁFICA: “Armando Alves na Árvore”



EXPOSIÇÃO DE PINTURA E OBRA GRÁFICA: “Armando Alves na Árvore”,
de Armando Alves
Curadoria | Laura Castro, José Emídio
Árvore - Cooperativa de Actividades Artísticas
25 Out > 29 Nov 2025


Sessenta anos depois de ter inaugurado a sua primeira exposição na Cooperativa Árvore, Armando Alves regressa ao espaço que o viu nascer como artista. Aos 90 anos, feitos no passado dia 07 de Novembro, o pintor e escultor de Estremoz revisita a casa e o tempo das origens, numa mostra que condensa seis décadas de criação, dos anos 1960 à actualidade. A exposição, com curadoria de Laura Castro e José Emídio, é mais do que uma retrospectiva: é um reencontro com a própria ideia de fidelidade, uma palavra que atravessa toda a sua obra e biografia. A fidelidade ao Alentejo, à luz e ao silêncio da planície, mas também à disciplina do ofício e à geometria do olhar. Na Árvore, instituição que ajudou a fundar, Armando Alves mostra pintura e obra gráfica que testemunham um percurso raro, onde a clareza formal se alia a uma contenção poética, e a cor, sempre medida, abre espaço a uma emoção depurada.

Eugénio de Andrade escreveu que o pintor se “descobriu alentejano ao mesmo tempo que se descobria pintor”. Essa revelação continua a pulsar na sua obra, feita de horizontes longos e silêncios suspensos. José Saramago chamou-lhe “inventor de céus e planícies”, Herberto Helder viu-lhe “arco-íris em golpes vivos”, e Vasco Graça Moura destacou o “arco-íris de ofícios” de um criador múltiplo — professor, designer, editor, cenógrafo, escultor. A sua pintura, todavia, permanece como centro de gravidade de uma vida entregue à imagem e à forma. José-Augusto França via nela uma “disciplina gráfica” que purifica o olhar; Fernando Pernes intuiu “aproximações ao silêncio”. Tudo isso se revê agora nas obras expostas: janelas geométricas que filtram a luz, paisagens de latitude imprecisa, superfícies onde o rigor e a emoção se equilibram como duas faces do mesmo gesto.

Ver hoje Armando Alves na “sua” Árvore, é revisitar também uma ideia de tempo, o da persistência e do trabalho minucioso, alheio a modas e a pressas. No panorama português, a sua pintura ocupa um território singular: entre a herança modernista e uma abstracção lírica de raiz mediterrânica. Há nela uma lição de medida, um elogio da sobriedade, um entendimento quase ético da arte como construção e permanência. Nesta exposição da Árvore, cada quadro parece devolver ao visitante não apenas a história de um percurso individual, mas também a memória de uma geração que acreditou na arte como espaço de resistência e de comunidade. Aos 90 anos, Armando Alves continua a ser o que sempre foi — um artesão da luz, um desenhador de silêncios, um pintor fiel à beleza difícil da clareza. A mostra permanece patente ao público até 29 de Novembro.

quarta-feira, 3 de setembro de 2025

EXPOSIÇÃO: "O Atlântico que nos Une"



EXPOSIÇÃO: “O Atlântico que nos Une”,
de Antón Sobral, Chelo Rodríguez, Cristina Fernández Nuñez, David Pessegueiro, Eva Tarrío, Evelina Oliveira, Jose Molares, Luísa Gonçalves, Manuela Pimentel, Rosa García, Rui Aguiar, Rui Anahory
Árvore – Cooperativa de Actividades Artísticas
09 Ago > 20 Set 2025


Faz-se de palavras, sons e cores o fio invisível que une Portugal e a Galiza. Neles ressoam o pulsar de raízes ancestrais, as memórias da terra, a língua irmã que partilhamos, as melodias comuns que dançamos — como se de um relicário se tratasse: um relicário de histórias, dores, amores e mitos que atravessam fronteiras invisíveis. Nas duas margens do Rio Minho, celebra-se de igual forma a poesia de Rosalía de Castro, com a sua melancolia doce, e os versos de Miguel Torga, cânticos de amor à terra e à alma. Entoamos Uxía e, com ela, o silêncio dos campos e a força das gentes humildes; tal como cantamos Zeca Afonso, expressão viva de um povo que se abraça em dignidade e liberdade. Neste misto de história e cultura comuns — tendo a língua como alicerce — há também lugar para as artes plásticas e para a forma como interpretam “o Atlântico que nos une”: as tempestades, os ventos, a riqueza que do seu ventre retiramos, mas também a sua cólera, a sua força, e a dor que tantas vezes nos confronta e agride.

Patente na galeria principal da Cooperativa Árvore, “O Atlântico que nos Une” é uma exposição colectiva luso-galaica que resulta do trabalho de seis artistas portugueses e seis galegos. Todos diferentes na expressão e na forma de olhar o mundo, mas unidos nesta partilha do viver e do sentir que nos aproxima de forma profundamente fraterna. Antón Sobral, Chelo Rodríguez, Cristina Fernández Nuñez, David Pessegueiro, Eva Tarrío, Evelina Oliveira, Jose Molares, Luísa Gonçalves, Manuela Pimentel, Rosa García, Rui Aguiar e Rui Anahory dão testemunho, através das suas obras, de um mesmo sentimento de pertença e de celebração do muito que temos em comum. Entre a pintura e a escultura, apresentam obras irmanadas no encontro eterno entre passado e presente — um hino de saudade e de festa que transcende fronteiras geográficas para se enraizar no íntimo de quem as contempla. Na forma como convergem, os trabalhos estabelecem entre si um diálogo de cores, formas e texturas que evocam paisagens agrestes e rostos marcados pelo tempo.

Aos olhos do visitante, é o trabalho de pintores e escultores de ambos os lados da fronteira que se abre como uma terra única de fraternidade. No encontro de mãos que se querem livres, há um canto silencioso — uma prece visual pela preservação do que é genuíno e essencial, feito de identidades partilhadas. Como oradores do aço, do barro ou da areia da praia, Eva Tarrío, Rui Anahory e Jose Molares evocam a força bruta da natureza — mas também a sua fragilidade. Rosa García rasga o olhar sobre a floresta, Chelo Rodríguez introduz uma nota de diversidade, Cristina Fernández Nuñez abre uma janela sobre a paisagem, e Manuela Pimentel recorda-nos que “antes de tudo deve-se cuidar da alma”. Uns e outros contam histórias silenciosas — narrativas visuais que atravessam o tempo e a geografia, reforçando uma identidade plural e unida. Na sua arte encontramos a possibilidade de reconstruir e reinventar, num gesto criativo que homenageia a ancestralidade sem perder o impulso do novo. A exposição está patente até ao dia 20 de Setembro.

quarta-feira, 13 de agosto de 2025

EXPOSIÇÃO DE PINTURA E DESENHO: “Entre Pares” | Francisco Badilla, Sónia Teles e Silva



EXPOSIÇÃO DE PINTURA E DESENHO: “Entre Pares”,
de Francisco Badilla e Sónia Teles e Silva
Árvore - Cooperativa de Actividades Artísticas
26 Jul > 23 Ago 2025


Francisco Badilla e Sónia Teles e Silva apresentam, nas salas 2 e 3 da Árvore, “Entre Pares”, um diálogo intimista que marca a relação entre território e identidade. Partindo de experiências diversas, os artistas interagem por entre técnicas e entendimentos que se completam, para projectar uma espécie de jornada entre fábula e paisagem. Através dos espaços que ocupam e em que convergem, Francisco Badilla e Sónia Teles e Silva envolvem-nos nas suas vivências do quotidiano, apelando à observação daquilo que nos rodeia. Em Portugal há seis anos, o chileno Francisco Badilla coloca uma marca de intimidade num percurso artístico que se alarga com cada obra. Nos seus trabalhos, o imaginário surge como uma visão inconsciente, rostos, personagens e paisagens reconhecidos e acolhidos como seus. São imagens que vai coleccionando de um Portugal com história, carregado de nostalgia e habitado por lendas e cuja visão se expressa através do óleo e do carvão, em composições onde as figuras interagem e a paisagem dialoga com a modernidade.

Sónia Teles e Silva centra os seus trabalhos numa geografia precisa, a cidade do Porto que a viu nascer. Um Porto como pretexto para construir imagens com as quais sonha, encenando realidades únicas e irrepetíveis através do desenho. As narrativas controem-se para além da cidade de granito, das ruas e ruelas, do casario. Num Porto de jardins, a artista descubre a forma das árvores, das raízes e dos troncos, desenha plátanos, camélias, araucárias, magnólias, palmeiras, metrosíderos e a Ginkgo biloba. Desenha as estações do ano com as cores das folhas, ora verdes, ora douradas, ora castanhas e vermelhas, às vezes despidas, com os seus longos ramos em linhas que se estendem bem alto, em pontas que se desvanecem no céu. Casas e monumentos insinuam-se entre as árvores e o bronze das esculturas, esquecidas, funde-se com o verde dos jardins, ganham a patine da cor das folhas. Do coreto parece vir a música que chega gora aos nossos ouvidos.

Para Francisco Badilla, este país é visto como o último limite do Oeste europeu, marcado por tradições e por uma identidade profunda. No seu desenho, rostos e lugares antigos cruzam-se com elementos contemporâneos, num tempo que parece suspenso — como se certas coisas não mudassem, permanecessem. Há também uma certa incerteza, como se a realidade não fosse fixa: um espaço imprevisível, onde tudo pode transformar-se. Tal como sucede com o desenho de Sónia Teles da Silva, expressivo na inquietude dos melros pretos de bico amarelo, na placidez dos gatos que se deleitam ao sol ou na delicada linha do horizonte, entre o azul do céu e o azul do mar, só interrompida pelos barcos que rasgam o mar alto. Com ela seguimos viagem mar adentro, ao longo do paredão até ao farolim de Felgueiras. Imaginamos a luz acesa lá no alto, ouvimos o roncar do farol, sentimos o cheiro a maresia. Em dias de tempestade, deixamos de o ver, coberto pelas ondas estilhaçadas que se erguem entre o belo e o horrível. Onde acaba o mar? Onde começa o céu?

[Texto baseado na Folha de Sala da exposição, em https://arvorecoop.pt/wp-content/uploads/2019/01/Folha-de-sala-web.pdf]

segunda-feira, 4 de agosto de 2025

EXPOSIÇÃO: “Nada Foi Pós”



EXPOSIÇÃO: “Nada Foi Pós”,
de Boaventura Nzangela Simão, Domingos Barcas, Edson Chagas, Eugénio Duarte de Lemos, Francisco Van-Dúnen, Malangatana, Mário Tique, Roberto Chichorro, Samate Mulungo e Sansão Cossa
50 anos da Independência dos PALOP
Árvore - Cooperativa de Actividades Artísticas
28 Jun > 02 Ago 2025


Há cinquenta anos, nasciam cinco novas nações africanas – Guiné-Bissau, Moçambique, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Angola – com quem Portugal tem vindo a construir relações baseadas na cooperação, na amizade e no respeito. Em tempo de homenagem e celebração dos laços históricos, culturais e afectivos que nos ligam aos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa, a Árvore - Cooperativa de Actividades Artísticas manteve patente, ao longo de cinco semanas, a exposição “Nada Foi Pós”, conjunto de trabalhos fiéis ao princípio de que “a independência é parte de uma história que continua viva, onde a cultura se renova e afirma na memória e na arte”.

Assente numa longa trajectória de apoio da Árvore aos movimentos de libertação e à divulgação da Arte africana, a mostra une num abraço modernidade e tradição, propondo um diálogo criativo entre dois núcleos expositivos complementares, relacionando esculturas Tshokwe, que evocam rituais ancestrais, espiritualidade e a continuidade identitária entre passado e presente, com pinturas e fotografias que realçam cinco décadas de criação artística africana através de nomes marcantes como Boaventura Nzangela Simão, Domingos Barcas, Edson Chagas, Eugénio Duarte de Lemos, Francisco Van-Dúnen (Van), Malangatana, Mário Tique, Roberto Chichorro, Samate Mulungo e Sansão Cossa.

Paralelamente à exposição, decorreram performances e workshops dedicados à dança Makonde, além de debates com especialistas sobre os processos históricos de independência e os atuais desafios e projectos das novas nações africanas. “Memória das lutas pela independência”, “Memória das independências”, “Artistas e intelectuais pelas independências” e “As novas nações africanas nos últimos 50 anos e hoje” foram os temas em debate, pontos de partida para enriqueceras reflexões críticas sobre as lutas de libertação e o percurso independente em Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau (51 anos de independência), Moçambique e São Tomé e Príncipe.

sexta-feira, 14 de março de 2025

EXPOSIÇÃO DE PINTURA: "Paisagens Humanas" | Do Carmo Vieira



EXPOSIÇÃO DE PINTURA: “Paisagens Humanas”,
de Do Carmo Vieira
Museu Municipal de Espinho
08 Mar > 12 Abr 2025


Onde quer que possamos apreciá-la, a arte de Maria do Carmo Vieira coloca-nos sempre perante os mistérios da vida, os seus dilemas e contradições, a sua emoção e dramatismo, a sua intimidade e sinceridade. Nascida “do encontro entre a arte, a memória e o compromisso”, a exposição “Paisagens Humanas”, patente até 12 de Abril nas galerias Amadeo Souza-Cardoso do Museu Municipal de Espinho, desdobra-se em tudo isto e mais ainda. Ela é o reflexo das inquietações humanistas da artista, do seu compromisso com o outro e com a natureza no seu estado mais puro, de um sentido do telúrico profundamente arreigado no gesto, de uma crença inabalável no divino. Como as marcas de uma vida, cada traço de cor que a artista espalha na tela é sinónimo do respeito pela individualidade do ser humano e pela sua dignidade enquanto pessoa. Ao mesmo tempo, fala-nos da revolta e do inconformismo de um espírito livre e do seu grito de denúncia que clama por mais justiça, equidade e humanidade.

Dividida em duas partes, “Paisagens Humanas” propõe um diálogo entre tempos, geografias e realidades. De um lado, retratos de um povo com as suas memórias, e autores portugueses, figuras que moldaram o nosso pensamento e a nossa cultura, capturados na sua essência e presença imortalizada. Do outro, rostos de crianças e mulheres em situação de conflito e deslocamento, habitantes de paisagens marcadas pela guerra, pela perda e pela resistência. Entre a celebração e a denúncia, a memória e a urgência do presente, o olhar do visitante é obrigado a transitar entre diferentes dimensões da existência humana, as pinceladas como uma interrogação sobre as histórias que cada rosto abriga ou o futuro que cada paisagem humana é capaz de desenhar. Homenageadas ou simplesmente evocadas em poemas visuais de grande expressão e significado, as figuras que nos observam ao longo das duas vastas galerias são a expressão da força e do poder da arte em quebrar silêncios, convidando-nos a ver, a sentir e, acima de tudo, a agir.

Abraçar com o olhar, de uma só vez, Florbela Espanca e José Afonso, Natália Correia e Eugénio de Andrade, Sophia de Mello Breyner e José Saramago, Júlio Resende e Agustina Bessa-Luís, e tantos, tantos outros vultos maiores da nossa cultura, leva-nos por caminhos de orgulho e brio, alguma vaidade, muita integridade e nobreza. Mas estendamos os olhos para todos os outros rostos que, anónimos, nos observam também. Rostos em quem vemos um pai ou uma mãe, um irmão ou um avô, mesmo que não reconheçamos neles aqueles que, pelo sangue, são nossos. São eles que juntam o pão que cozem, a terra que semeiam, as casas que erguem ou o peixe que apanham, ou que, simplesmente, sobrevivem do lado de cá do Mediterrâneo, tão perto e tão longe da “terra prometida”, tendo por denominadores comuns a guerra, a fome e o medo. Mas é também de esperança a pintura de Maria do Carmo Vieira, levando-nos a crer que os sorrisos se voltarão a acender nos rostos dos que sofrem e que todos voltaremos a dar as mãos num mundo livre de preconceitos, mais justo e melhor.

quarta-feira, 12 de março de 2025

EXPOSIÇÃO DE PINTURA: "Deambulaia" | André Gigante



EXPOSIÇÃO DE PINTURA: “Deambulaia”,
de André Gigante
Árvore – Cooperativa de Actividades Artísticas
22 Fev > 15 Mar 2025


Apresentada pela primeira vez na Fundação Escultor José Rodrigues, em Junho de 2018, a mostra de pintura “Deambulaia”, de André Gigante, prossegue um caminho de itinerância dinâmico e vivo, voltando a apresentar-se no Porto, na luminosa galeria de exposições da Cooperativa Árvore. Firmemente enraizada no abstracionismo, com uma forte matriz expressionista, “Deambulaia” propõe-se desafiar os sentidos do visitante por meio de cores vivas e traços enérgicos que são aqui sinónimos de alegria, exaltação e liberdade. Nas texturas e nos matizes, no que mostra e no que sugere, na forma como as obras “dialogam” entre si e como interpelam o visitante, esta é uma série de trabalhos que traz consigo a surpresa a cada novo olhar, se oferece a um desvendar sereno e se abre ao interior de cada um pela forma como convoca e enlaça histórias e memórias e lança um convite à viagem e à descoberta.

“Deambulaia” tanto pode ser um passeio calmo e recolhido pela beira do mar ou o acompanhar do voo errático de um bando de estorninhos, uma andorinha que se eleva elegante e veloz ou uma mão que se abre a uma outra que se estende, os mastros agitados numa tarde de temporal ou o bater ritmado do coração. Excitados ante a surpresa, maravilhados ante a descoberta, mergulhamos o olhar no conjunto de trabalhos expostos e descobrimos um promontório rochoso que abriga uma baía de águas calmas, redes que se recolhem carregadas de promessas, o voo geométrico dos corvos-marinhos, artes de pesca espalhadas no areal, uma baleia no seu mergulho em apneia, uma onda que se desfaz em espuma ao chegar à praia, o grito louco das gaivotas. É esse o nosso olhar. Um olhar sem tempo, que é de agora, mas que é também de um tempo de memórias felizes. Nesse turbilhão, com tanto de inquietação como de fascínio, o visitante acaba, irremediavelmente, por se ver envolvido. Preso, mas livre.

Na pintura de André Gigante percebe-se com nitidez o seu olhar de fotógrafo, a obra como um detalhe, parte reduzida de um todo que se estende para lá da tela, que não está lá, mas está, ao mesmo tempo. Há nela, também, o seu lado de arquitecto, um conceito geométrico muito próprio que se evidencia em matéria de espaço, profundidade e proporção. Num tempo em que as fórmulas imperam sobre exercícios gastos pelo imediatismo das tendências, será possível ser livre sem a mente o ser? Diálogo aberto com o imaginário de cada um, “Deambulaia” é uma espécie de metamorfose transfigurada na individualidade do ser e que nos convida a descobrir o que se abriga do lado de lá do estereótipo, dos lugares comuns onde habitam os limites da percepção e nos confronta com dimensões, escalas, formas e espaços, tempos e histórias, sentimentos e tensões, ritmos e sonoridades. A série é um convite à nossa própria viagem, espaço de entrega e deambulação, ponto de encontro entre o deliberado e o aleatório, o meio do termo a meio do intelecto. Para ver só até ao próximo sábado.

segunda-feira, 29 de julho de 2024

EXPOSIÇÃO: "A Arte do Conflito"



EXPOSIÇÃO: “A Arte do Conflito”
Vários artistas
Tribunal da Relação do Porto
09 Mai > 15 Dez 2024


Desde tempos imemoriais que o conflito marca e define o mundo da Arte. Seja porque as várias manifestações artísticas são, elas mesmas, geradoras de conflitualidade – veja-se “A Origem do Mundo”, de Gustave Courbet, ou “A Fonte”, de Marcel Duchamp, por exemplo –, seja porque a produção artística decorre do próprio conflito – os trabalhos de Arte Urbana de Banksy ou de Bordalo II são prova disso mesmo –, a relação entre os conceitos é flagrante e tem funcionado como mola propulsora de novas correntes e movimentos artísticos. A argumentação sobre interpretações e atribuições, avaliações e questões de propriedade é contínua, alimentando conversas e controvérsias. Os próprios museus, verdadeiros templos da sociedade civil, consensuais e pacificadores, erguidos como símbolos de bem-estar social, são infraestruturas, muitas das vezes construídas sobre saques de guerra, pilhagens, invasões ou expropriações culturais. Como afirma o Papa Francisco, “uma vida sem conflitos não é vida” e, portanto, a Arte existe enquanto artífice da paz que a todos une.

Patente ao público no Tribunal da Relação do Porto, em estreita ligação com o recém-inaugurado Museu do Conflito, “A Arte do Conflito” é uma mostra colectiva que se debruça, muito justamente, sobre esta relação íntima. Organizada pela Cooperativa Árvore, em parceria com o Tribunal da Relação do Porto, a exposição reúne trabalhos de pintura, escultura, xilogravura, vídeo e instalação, realizados expressamente para o efeito por um corpo de vinte e um artistas – Acácio de Carvalho, Alberto Péssimo, Ana Torrie, Benedita Kendall, Diana Costa, Domingos Loureiro, Emerenciano, Evelina Oliveira, Filipe Rodrigues, Humberto Nelson, Jas, Joana Rêgo, José Emídio, Manuela Pimentel, Mário Bismarck, Nettie Bunett, Paulo Neves, Rute Rosas, Susana Bravo, Teresa Gil e Zulmiro de Carvalho. “Discursos de Poder”, “Justiça Cega”, “Além da Balança”, “Clemência e Justiça” ou “Conflito” são apenas títulos de algumas das obras expostas, espelho de uma unidade temática interpretada das mais variadas formas e que nos vem dizer que a Arte irrompeu no Tribunal.

Tomando conta dos belíssimos Passos Perdidos do terceiro piso, “A Arte do Conflito” estabelece um interessante diálogo com o conjunto de cinco painéis a fresco que dominam o espaço, da autoria de António Coelho de Figueiredo, que procuram representar os últimos destinos do Homem: Morte, juízo, inferno e paraíso, com um painel central intenso e vivo, no qual é representado Moisés a aceitar os Dez Mandamentos no Monte Sinai, numa referência ao Código Divino. A cada peça a sua leitura, mas é impossível não estabelecer relações entre uma venda nos olhos e uma balança de onde pendem flores, um conjunto de alvos e a palavra “inimigo”, uma mulher a afogar-se e um dedo que aponta. Como afirma José Igreja Matos, Presidente do Tribunal da Relação do Porto, “(…) um renovado alento emerge nas obras de arte agora expostas. É tempo de ir ao encontro de uma escolha que abjura a violência e celebra a paz, permitindo sair de nós mesmos, ao encontro do que é único, irrepetível.”

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2024

EXPOSIÇÃO DE PINTURA: "A Tentação dos Significados"



EXPOSIÇÃO DE PINTURA: “A Tentação dos Significados”,
de Benvindo de Carvalho
Cooperativa Árvore – Sala 1
13 Jan > 17 Fev 2024


Uma gaveta aberta, uma moldura, uma tina. Geométricas, as formas oferecem-se ao olhar do visitante de forma vaga, esbatidas pelos tons em vermelho que lhes emprestam um ar de irrealidade. Uma mancha mais clara pode ser tudo: um pano do pó ali pousado, um vestido deixado ao acaso, um saco de plástico desfeito. Reparo melhor. Talvez uma tina, sim. No espaço de um laboratório de fotografia… com aquela luz… o artista fora de cena… a imagem prestes a revelar-se. No aconchegante espaço da Cooperativa Árvore, é fácil perdermo-nos na contemplação dos trabalhos de Benvindo de Carvalho e cair na tentação de lhes atribuirmos um significado. Ancoradas na abstracção, levemente figurativas, as composições apelam à nossa sensibilidade e memórias, abrindo-se a múltiplas leituras, num raio de luz como na sombra disforme, nas linhas que divergem como nas texturas contrastantes. A legenda refere “Terra Queimada”, mas eu fico na minha: Uma tina é uma tina é uma tina.

O exercício prolonga-se por trabalhos com os sugestivos nomes de “Tarde de Verão”, “Lugar Esquecido”, “Horizonte Azul” ou “Cavalgando a Espuma”. Na cor – sempre a cor –, implícita nos títulos e explícita na tela, impera uma lógica que ultrapassa a mera sugestão e se apresenta de forma expressiva em paisagens vivas e livres. Benvindo de Carvalho convida a mergulhar na sua pintura, a desvendar os elementos que lhe servem de inspiração, a percebê-los no que encerram de enigma e fascínio, a partir em busca de outros objectos, de novas realidades. Propositadamente interrompidas (inacabadas?), as narrativas pedem um olhar que as prolongue, um coração que as complete. São poemas de esplendor e sombra, vertidos em palavras que tocam os sentidos e apelam à memória, trazendo com elas ternura e afecto, zelo e devoção.

Benvindo de Carvalho nasceu na freguesia de Abadim, concelho de Cabeceiras de Basto, em 1947. Obteve o Curso de Escultura da Escola Superior de Belas Artes do Porto e da Escola de Artes Soares dos Reis, tendo sido bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian em 1966/68. É co-fundador da Galeria do Barredo no Porto e Domus Arte em Matosinhos. Desde 1965, expõe escultura, pintura e desenho, tendo realizado dezenas de exposições individuais e participado em inúmeras coletivas e de grupo. Sobre ele, escreveu António Cardoso: “A geração de Benvindo de Carvalho é a de Graça de Morais, Carlos Carreiro… ou a do magistério de José Rodrigues, Ângelo de Sousa e Jorge Pinheiro (…). Sempre o vi e revi como pintor, entre sínteses, aflorações e fidelidades, num ‘fazer’ de sensibilidades (e alguma sensualidade) quase livre como Rimbaud, trabalhando livremente a contra-a-corrente, a bel-prazer…”. A exposição estará patente até 17 de Fevereiro.

quarta-feira, 11 de outubro de 2023

EXPOSIÇÃO DE DESENHO: "O Pão e a Culpa"


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EXPOSIÇÃO DE DESENHO: “O Pão e a Culpa”,
de Alberto Péssimo
Curadoria | Mário Bismarck
Cooperativa Árvore
09 Set > 07 Out 2023


O facto de ter chegado ao fim no passado sábado, não é motivo para que não dedique umas palavras a “O Pão e a Culpa”, exposição de desenhos de Alberto Péssimo que, ao longo de quatro semanas, ocupou o espaço da Cooperativa Árvore. Com curadoria de Mário Bismarck e a coordenação de Nuno Higino, a exposição parte do pão enquanto metáfora do desenho. Assim como o pão é um alimento fundamental para o ser humano, tendo a referência religiosa da Bíblia, também o desenho representa o mesmo para as artes, sendo esta a primeira forma de manifestação artística vista desde sempre. Já a culpa é uma referência para todos os artistas e autores que nunca se sentem totalmente satisfeitos com o trabalho elaborado, sendo esta mostra um extraordinário exemplo dessa insatisfação. Prova de inconsistência ou inconformidade, estes desenhos simbolizam histórias da vida de Alberto Péssimo e do seu percurso nas artes.

Segundo Bismarck, “em Alberto Péssimo, assim como nos grandes desenhadores, o desenho não é um ‘estilo’, é uma necessidade e uma urgência, ultrapassando a estabilidade (e a âncora) de um modus operandi, de um procedimento certeiro. Os desenhos sucedem-se e apresentam-se nas antinomias dos contrastes: pequenos e grandes, simples e complexos, lineares e de manchas, contidos e exuberantes, frágeis e imponentes”. Figurações, rostos, corpos, poses, trabalhados de forma expressiva e imediata, desfilam ao nosso olhar, exercendo um natural fascínio e constituindo-se em forte apelo aos sentidos.Isentos de estilo, como uma emergência do que importa dizer, os desenhos de Alberto Péssimo mostram-se em toda a sua força, espontaneidade e autenticidade. Trata-se ainda da junção de desenhos híbridos, pois mistura-se com a pintura, mas existe menos cor. Afinal de contas, o foco é mostrar o desenho como a primeira linguagem das artes.

Como refere o curador desta exposição, “os elementos visuais não podem ser traduzidos por palavras, (…), a única hipótese de usufruir das coisas visuais é ter contacto direto com elas”. Como a exposição já não está patente ao público, ficam estas poucas palavras e as imagens que podem ser percorridas na galeria. Resta acrescentar que Alberto Péssimo nasceu na Ilha de Moçambique em 1953 onde viveu até aos 8 anos. Em 1961, vem para Portugal tendo vivido na Benfeita (conselho de Arganil) e em Coimbra antes de se estabelecer no Porto, cidade onde vive atualmente. Bacharel na Escola Superior de Belas Artes do Porto, expõe regularmente a título individual e colectivamente, desde 1977. É professor no Colégio dos Órfãos do Porto, desde 1980. A sua acção docente estende-se, também, à "Árvore", cooperativa artística fundada em 1963.

quarta-feira, 29 de junho de 2022

EXPOSIÇÃO DE PINTURA: "Improviso à Sombra das Camélias"


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EXPOSIÇÃO DE PINTURA: “Improviso à Sombra das Camélias”,
de Maria Rosas
Árvore - Cooperativa de Actividades Artísticas
04 Jun > 02 Jul 2022


“O cenário desta exposição, a Cooperativa Árvore, remete à história da outrora Quinta das Virtudes com as suas exóticas camélias, apresentadas em 1865 na exposição internacional, no Palácio de Cristal, por José Marques Loureiro. Para além de todas as influências de mestres que adoro, de Klimt a Cézanne, passando por Júlio Resende e Kandinsky, este improviso fala de contemplação e simplicidade. Como a descoberta de um detalhe nos pode trazer memórias e preencher a alma. E o improviso flui, nem que seja sob a doce sombra das camélias”.

Escrito por Maria Rosas para a exposição que, até ao final da semana, pode ser vista na Cooperativa Árvore, o texto acima oferece-nos duas ou três pistas que importa explorar. Começando pela contextualização histórica e pelo magnífico espaço onde esta exposição está patente, é com emoção que percebemos a subtil ligação entre o dentro e o fora, os motivos vegetais que ressaltam da tela e as as árvores de flores intensas e vivas que, com as suas cores matizadas e suaves aromas, se projectam nos jardins da casa e se estendem a perder de vista. Partir à descoberta da árvore mais florida, da folha mais lustrosa, da flor mais delicada, é um exercício de prazer e fascínio que encontra eco nos motivos que espreitam em cada uma das telas, nos gradientes de luz, na exuberância da cor, no emaranhado das formas, na subtileza do traço. É nelas que percebemos a elegância e o brilho à superfície de uma pétala, no denteado de uma folha, na perfeição de uma gota de orvalho, nos efeitos do tempo e das estações que se sucedem.

Maria Rosas fala-nos de contemplação e simplicidade, de detalhe e improviso. E de memória, aqui a poderosa argamassa que permite ligar o todo com a força da beleza. Só por uma vez me tinha cruzado com o trabalho da artista, numa colectiva de excelente memória. Mas a memória a que Maria Rosas se refere no seu texto é a que remete para um tempo muito lá atrás, o caderno pautado à minha frente a encher-se de curvas e linhas desenhadas a bic laranja, que se avolumavam até não caberem mais na página. Não representando nada, nelas se abria o mundo todo, de sonho e fantasia feito. A artista fala-nos igualmente de Klimt e Cézanne, de Júlio Resende e Kandinsky. Directa ou indirectamente, as suas influências percebem-se nas composições construídas a partir do detalhe. Minuciosamente desenhadas, as pequenas construções vão crescendo quase aleatoriamente, como a planta que brota da terra e parte em busca de um caminho feito de luz. De todos os mestres citados, talvez seja Klimt aquele que se mostra mais presente. Talvez seja também por isso que eu gosto tanto de Maria Rosas. Talvez!…

terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

EXPOSIÇÃO: "Margens da Escrita" | Alexandra de Pinho



EXPOSIÇÃO DE PINTURA: “Margens da Escrita”, 
de Alexandra de Pinho 
Cooperativa Árvore 
29 Jan > 05 Mar 2022


Foi com deleite que, em Março de 2017, apreciei a exposição da artista plástica Alexandra de Pinho, no Museu Júlio Dinis, em Ovar. Intitulava-se “O Elogio à Carta | Poéticas da Conectividade” e constituiu uma experiência a tal ponto marcante que, nas raras vezes que voltei a cruzar-me com os seus trabalhos, sempre em contexto de exposições colectivas, experimentei a emoção do regresso a algo de meu, como uma luz de mil cores que se acendesse de novo bem cá no fundo e me enchesse de alegria. Sei hoje que, convocando gratas memórias, as “cartas” de Alexandra de Pinho são um verdadeiro “interruptor de felicidade”. Já o tinha intuído então, ainda que em contexto essencialmente nostálgico – as únicas cartas que agora recebemos resumidas a extractos bancários, facturas da água, recibos dos seguros ou notificações das Finanças. Confirmei-o agora, perante a cascata de emoções que voltou a desprender-se destas suas “Margens da Escrita”.

Com pequenos pedaços de tecido, linhas de várias cores, agulha e tesoura se “pintam” estes quadros. Percebo que há todo um labor prévio de recolha e selecção de sobrescritos que irão servir de base aos trabalhos. Parece-me ver a artista no seu afã de levar à prática o cuidado na avaliação de formatos, tamanhos, estados de conservação, texturas, cores, os próprios cheiros que se desprendem de cada elemento. O resultado final é espantoso. A minúcia no recorte, nas aplicações, no bordado, eleva o objecto artístico a um patamar superlativo. O rebordo desenhado, o timbrado do remetente, os selos que indicam a proveniência, a caligrafia cuidada que identifica o destinatário, tudo é tratado com rigor, perfeição e imenso carinho. Detalhado, o trabalho de composição revela um enorme cuidado e bom gosto na disposição dos elementos, oferecendo ao conjunto uma apresentação harmoniosa, coerente e viva. Acrescente-se a isto caixas de correio, pedaços de envelopes reaproveitados, notas nas margens dos livros, tiras de ECG ou mesmo um Bilhete de Identidade e temos uma noção clara do quão amplas podem ser as “margens da escrita”.

Se, no âmbito material, falo da sublimidade da arte têxtil de Alexandra de Pinho, elevando-a ao plano da pintura, é no domínio da imaterialidade que os seus trabalhos adquirem pleno significado ao evocarem factos, contarem histórias e convocarem memórias. Da cabeça para o coração, a passagem faz-se em sobressalto. As “cartas” que aqui vemos abrem portas e janelas dentro de nós, ao encontro de um tempo em que este era o recurso possível para encurtar distâncias ou matar saudades, desfazer pactos ou renovar juras de amor eterno. Esmerava-se a caligrafia, pesavam-se as palavras. Com impaciência aguardava-se a chegada do carteiro. Conjecturava-se quando a carta se atrasava.  Enviar ou receber uma carta era um exercício emocional de grandeza maior. Contribuir para a valorização das nossas memórias, tal é o enorme mérito desta exposição. Isso e a beleza que se derrama de cada quadro, no todo ou no seu mais ínfimo detalhe. Só até 5 de Março. A não perder!

terça-feira, 18 de janeiro de 2022

EXPOSIÇÃO DE PINTURA: “Ir, Ver, Perder, Olhar, Parar, Transformar” | Susana Bravo



EXPOSIÇÃO DE PINTURA: “Ir, Ver, Perder, Olhar, Parar, Transformar”,
de Susana Bravo
Cooperativa Árvore
06 Jan > 22 Jan 2022


“Mostra-me o que pintas, dir-te-ei quem és”. Assim, de improviso, o provérbio ocorreu-me mal me vi rodeado dos quadros de Susana Bravo que, por estes dias, preenchem uma grande parte da galeria de exposições da Cooperativa Árvore, no Porto. Através deles, das suas cores, da sua energia, da alegria que emanam, adivinha-se uma pessoa muito bonita, que da vida escolhe o lado bom e que no gosto da partilha encontra uma enorme satisfação. Embora o trabalho da artista não me fosse totalmente desconhecido, pela primeira vez tive a oportunidade de apreciar um conjunto significativo de obras suas reunidas num mesmo espaço e de perceber o quanto concorrem para a definição de um universo com tanto de metafóra como de verdade. Um universo feito de histórias e memórias, misterioso e onírico, onde o real e a ficção se passeiam de braço dado e os signos se vestem de encanto e beleza.

De forma natural, percebe-se em cada quadro uma compartimentação muito peculiar, levemente aparentada com as séries de “desenhos aos quadradinhos”. As histórias que se inscrevem em cada quadro fluem livremente ao sabor das memórias ou da imaginação do observador, por magia transportado ao azul do céu mais profundo, ao verde da mais luxuriante floresta, ao ocre do mais vasto e árido deserto. Num afago, os sentidos prosseguem a inebriante viagem que se vai preenchendo de sons e tons, texturas e aromas, à medida que os trabalhos vão desfilando ante o nosso olhar, cruzando-se, interceptando-se, dialogando entre si. Apetece brincar. Num assomo de irreverência, baralhamos as “peças” e fazemos aterrar um avião de papel no dorso de um pavão, pomos uma chávena florida na cúpula do Palácio de Cristal, enfiamos um gato na casa das bonecas ou calçamos uns patins a uma baiana. Por instantes somos meninos. E somos felizes.

Fórmulas que permitam descodificar as mensagens aqui inscritas, não há. E ainda bem. Todo o tempo é dado à fruição, as narrativas construídas ao gosto do visitante, ao ritmo das suas pulsões. Que até pode ver Warhol nuns carimbos que parecem repetir-se, AddFuel nos acetatos de uma fiada de azulejos, Emerenciano em esparsas “escripinturas”. Como pode ver Gauguin num cone fumegante, a famosa “Mãe de Whistler” na sua cadeira ou Chagall num pássaro fugidio. Esta liberdade que nos é dada de construirmos as nossas próprias emoções, de sonharmos os nossos maiores desejos e escrevermos os nossos mais belos poemas é o que de mais extraordinário a pintura de Susana Bravo tem para oferecer. Entrar no seu mundo é desprendermo-nos desse outro, tão cinzento e vazio de sentido, em que o nosso quotidiano tende a transformar-se. “Ir, Ver, Perder, Olhar, Parar, Transformar” é um extraordinário momento de vida. Só até ao próximo sábado.

sábado, 8 de agosto de 2020

Vemos, ouvimos e lemos... #8



1. Quase um preâmbulo do centenário de Cândido Teles, em 2021, a obra deste pintor e escultor ilhavense toma conta da sala de exposições temporárias do Museu Marítimo de Ílhavo por altura das comemorações do seu 83º aniversário. Nesse âmbito, hoje mesmo é inaugurada a exposição “Transparências da Ria e do Mar", que resulta da doação, pela família, de 121 obras do primeiro período pictórico do artista. Nas redes sociais, o MMI lança “O Homem Tranquilo”, um projeto fotográfico de Alexandre Sampaio, que dialoga com a obra do pintor e escultor Cândido Teles, nas representações que este faz da Costa Nova. Amanhã regressam as visitas "Sentidos de Mar", com um percurso pedestre, sobre o tema “Cândido Teles: a Costa Nova como (quase) nunca a viste…” - uma viagem que permitirá redescobrir a praia da Costa Nova pelo olhar do artista ilhavense. O programa completo pode ser consultado em https://museumaritimo.cm-ilhavo.pt/.

2. A Árvore - Cooperativa de Actividades Artísticas, CRL tem patente ao público a 34ª Exposição Coletiva dos Sócios da Árvore 2020. A mostra resulta de uma parceria com a Fundação Manuel António da Mota que acolhe pelo terceiro ano consecutivo esta exposição tão importante e tão simbólica de união e sentido cooperativo de todos os associados da Cooperativa, constituindo, em simultâneo, uma prova de resistência sobre este novo tempo. Saídos das mãos de 123 artistas plásticos, os trabalhos expostos no espaço da Fundação, ao Bom Sucesso, vão da Pintura à Escultura e à Fotografia. O acesso é livre e a mostra poderá ser visitada até ao dia 28 de Agosto de 2020. Para mais informações, consulte a página da Cooperativa Árvore em https://arvorecoop.pt/event/xxxiiii-exposicao-colectiva-dos-socios-da-arvore-2020/.

3.  Num ano em que faz mais sentido que nunca, o Cineclube do Porto volta a fazer férias em casa, trazendo “As Noites de Boris” até aos jardins da Casa das Artes. Dedicada ao formato da curta-metragem, a iniciativa abriu na passada quarta-feira com a exibição de três curtas de três realizadoras, numa celebração do cinema português no feminino. No próximo dia 12, abre-se espaço à Casa da Animação e ao Festival de Cinema de Animação OLHO com a exibição de curtas-metragens de cinema de animação cuja temática recai sobre os “mundos admiráveis”. No dia 19 de agosto o protagonismo vai para o BEAST – Festival Internacional de Cinema da Europa de Leste com uma espécie de “warm-up” do Festival que este ano teve que ser adiado para 2021. A fechar as Noites de Boris, na última quarta-feira do mês haverá uma sessão dedicada a Fernando Pessoa, com a exibição da curta-metragem de Eugène Green “Como Fernando Pessoa salvou Portugal” e a curta-metragem “Boca do Inferno” de Luís Porto, filmada na cidade do Porto e que contará com a presença do realizador. Mais informações em https://cineclubedoporto.wordpress.com/2020/07/30/as-noites-de-boris-2020-jardins-da-casa-das-artes/.

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

EXPOSIÇÃO DE PINTURA: "À Flor da Pele"


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EXPOSIÇÃO DE PINTURA: “À Flor da Pele”,
de Rosa Bela Cruz
Cooperativa Árvore
31 Out > 30 Nov 2019


Nunca é fácil controlar as emoções quando é de corações dilacerados que falamos. Quando, no recolhimento de uma sala, olhamos nos olhos a tristeza e a dor, o sofrimento e a morte. Quando vemos, num véu de noivado e em três rosas brancas, o amor adiado, os sonhos sufocados, as vidas desfeitas. Quando, naquela sala, percebemos que não estamos sós, que há olhares interrogativos que sobre nós se derramam: “Porquê eu?”. É de violência doméstica, verdadeira praga social do nosso tempo, que nos fala “Pesadelo”, a obra que domina o espaço da sala 2 da galeria de exposições da Cooperativa Árvore, um coração ferido bem no centro da tela, as vinte e oito facas a ele apontadas carregando em si os corpos das vinte e oito mulheres assassinadas, neste contexto, no ano findo.

O nó na garganta não se desfez ainda quando franqueamos a porta da sala 3. São muito belas as mulheres que nos recebem. À medida que nos aproximamos, não se adivinham, no rosto e na pose, sinais de intranquilidade, desconfiança ou medo. Sob um par de olhos que, intensos, perseguem os nossos passos, é por caminhos seguros que vamos ao encontro de cada uma destas obras. A complexidade inerente à figura feminina é aqui realçada pela forma como Rosa Bela Cruz trabalha as suas mulheres. O extraordinário domínio das colagens e texturas gráficas, aliado a um inegável bom gosto na combinação de tons e cores, confere ao conjunto uma nota, simultaneamente, de complexidade e leveza, neste paradoxo residindo, afinal, o mistério e fascínio do “eu” feminino.

Na forma, como na mensagem, “À Flor da Pele” não é propriamente uma surpresa. À excelente artista que é, junta Rosa Bela Cruz o facto de ser uma mulher de causas, não cessando de reflectir sobre a origem e consequência dos nossos actos e de exprimir as suas preocupações em telas delicadas e de uma enorme beleza. Elo mais fraco numa sociedade conservadora e machista, a mulher é, em Rosa Bela Cruz, sujeito primordial, figura central de um discurso de afirmação de princípios e valores que a distinguem como sublime e única, ao mesmo tempo reclamando igualdade, exigindo respeito, gritando justiça. Na sua mensagem simples mas extraordinariamente eficaz, é disso que esta exposição nos fala. À flor da pele ficam as emoções. No coração, bem fundo cravadas, as facas que ferem e matam.

domingo, 7 de abril de 2019

EXPOSIÇÃO DE GRAVURA E PINTURA: "Uma História de Linhas, Letras e Manchas"


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EXPOSIÇÃO DE PINTURA E GRAVURA: “Uma História de Linhas, Letras e Manchas”,
de Maria Afonso
Árvore – Cooperativa de Actividades Artísticas
29 Mar > 30 Abr 2019


Linhas, letras e manchas. Longas ou finas, curvas ou interrompidas, numa caligrafia escorreita ou tipografadas, polícromas ou esborratadas, não são elas a essência do desenho, da gravura ou da pintura? Não é da sua disposição ordenada sobre o papel ou na tela que a obra adquire forma e sentido, revelando-se ante o olhar – quantas vezes curioso, quantas vezes atónito - do criador? Transpondo estes ingredientes para um conjunto diversificado de suportes, Maria Afonso quis vincar o seu significado e importância, a sua essência, desconstruindo-os em pequenos retalhos pulsantes de vida. São eles a alma de uma bela história que, ao longo do mês de Abril, pode ser “escutada” na Cooperativa Árvore, no Porto.

Há, nos trabalhos de Maria Afonso, toda uma poética que remete para o ponto zero da criação, para aquele momento inicial do primeiro embate entre o lápis e o papel, da primeira pincelada na tela. Um momento que congrega em si todo o potencial criador, “big bang” pulsante e rebelde de cores, modos e emoções que, num contínuo, se organizam (arbitrariamente?), tomando formas que são a mais bela expressão de vida. É isso que faz com que seja impossível ficarmos indiferentes às magnólias que sabemos em flor no jardim da artista, à “espera” que se esconde nos retalhos gravados sobre etiquetas de avião F16, às subtis e delicadas composições que, da raiz à pétala, se unem para nos oferecer a mais graciosa flor.

Mas fechemos os olhos e deixemo-nos invadir pela harmonia e serenidade do espaço. “Em silêncio o rochedo vê chegar e partir as estações”. É silencioso, o rochedo, mas como expressa a matéria, escura e densa, que o consome? Ora em flor, a magnólia não era mais do que sofrimento, os braços secos vergastados pelos rigores do inverno, há pouco tempo atrás; a “espera” é a das mulheres em contexto de guerra; e, os trabalhos de pequenas dimensões, são “doses” de arte a baixo custo, remédios para a alma à venda em farmácias. A paz e a harmonia são-no apenas na aparência; de súbito, cedem lugar à inquietação e ao desconforto. Há questões a avolumarem-se nas nossas mentes, há razões que pedem conhecimento à razão, há causas que erguem a sua bandeira. No silêncio, o grito do rochedo faz-se ouvir!