Há qualquer coisa de particularmente feliz no gesto que preside à terceira edição de “Afinidades – Práticas Gráficas Contemporâneas”: retirar uma peça aparentemente modesta do silêncio protector da vitrine e devolvê-la ao ruído criativo do presente. A caneca de vidro da Real Fábrica de Vidros de Coina, produzida entre 1719 e 1747, é o discreto detonador de uma exposição que reúne quarenta e nove obras de autor, numa espécie de conversa a várias vozes entre o património e as linguagens gráficas contemporâneas. Sob curadoria de Júlio Dolbeth, o projecto põe em contacto o Museu Nacional Soares dos Reis com dezanove galerias e estabelecimentos comerciais do Quarteirão Bombarda, confirmando uma vocação que ultrapassa a mera exibição de objectos: a de fazer do museu um lugar de encontro. O interesse da proposta está precisamente nessa deslocação. Não se trata de ilustrar a caneca, nem de a transformar num pretexto decorativo, mas de descobrir nela formas, transparências, funções e símbolos capazes de gerar outras imagens e outras leituras.
É nesse território de contaminação que “Afinidades” encontra a sua maior força, embora também aí resida o risco inevitável de uma mostra tão plural. Ilustração, desenho, gravura, colagem e processos híbridos, analógicos e digitais, respondem de modos muito diferentes à peça de partida, construindo relações conceptuais, formais ou simbólicas que nem sempre terão a mesma intensidade. A heterogeneidade é, contudo, menos uma fragilidade do que a própria matéria do projecto: interessa observar o que acontece quando um objecto do século XVIII, ligado a uma história industrial, tecnológica e social concreta, é submetido aos filtros de sensibilidades contemporâneas. Algumas propostas aproximam-se da caneca pela forma ou pela transparência; outras parecem interessar-se sobretudo pela ideia de memória, uso ou vestígio. E é justamente nessa distância, entre a coisa original e aquilo que dela cada artista imagina, que a exposição se torna mais estimulante. “Afinidades” não procura uma resposta única: ensaia uma multiplicidade de ecos.
O mérito maior desta terceira edição talvez esteja, por isso, em não tratar o património como matéria intocável, mas como algo que ganha espessura quando é questionado. O Museu Nacional Soares dos Reis surge aqui menos como destino final do que como plataforma de circulação: recebe o olhar dos criadores do Quarteirão Bombarda e devolve à comunidade um objecto da sua colecção transformado em ponto de partida. É uma estratégia pertinente num tempo em que os museus são chamados a justificar a sua presença não apenas pela conservação do passado, mas pela capacidade de produzir relações no presente. “Afinidades” cumpre essa ambição sem abandonar a dimensão artística, deixando que as obras falem por si e que a comparação seja feita pelo visitante. Até 11 de Outubro, a exposição permanece como um pequeno laboratório de possibilidades, onde uma caneca de vidro com três séculos de história se converte em matéria de desenho, imagem e pensamento. Aí encontramos a verdadeira afinidade: a convicção de que olhar para o passado também pode ser uma forma de inventar o futuro.