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segunda-feira, 21 de setembro de 2026

EXPOSIÇÃO: “Afinidades - Práticas Gráficas Contemporâneas” | Vários artistas



EXPOSIÇÃO: “Afinidades - Práticas Gráficas Contemporâneas”
Vários artistas
Curadoria | Júlio Dolbeth
Museu Nacional Soares dos Reis
25 Jul > 11 Out 2026


Há qualquer coisa de particularmente feliz no gesto que preside à terceira edição de “Afinidades – Práticas Gráficas Contemporâneas”: retirar uma peça aparentemente modesta do silêncio protector da vitrine e devolvê-la ao ruído criativo do presente. A caneca de vidro da Real Fábrica de Vidros de Coina, produzida entre 1719 e 1747, é o discreto detonador de uma exposição que reúne quarenta e nove obras de autor, numa espécie de conversa a várias vozes entre o património e as linguagens gráficas contemporâneas. Sob curadoria de Júlio Dolbeth, o projecto põe em contacto o Museu Nacional Soares dos Reis com dezanove galerias e estabelecimentos comerciais do Quarteirão Bombarda, confirmando uma vocação que ultrapassa a mera exibição de objectos: a de fazer do museu um lugar de encontro. O interesse da proposta está precisamente nessa deslocação. Não se trata de ilustrar a caneca, nem de a transformar num pretexto decorativo, mas de descobrir nela formas, transparências, funções e símbolos capazes de gerar outras imagens e outras leituras.

É nesse território de contaminação que “Afinidades” encontra a sua maior força, embora também aí resida o risco inevitável de uma mostra tão plural. Ilustração, desenho, gravura, colagem e processos híbridos, analógicos e digitais, respondem de modos muito diferentes à peça de partida, construindo relações conceptuais, formais ou simbólicas que nem sempre terão a mesma intensidade. A heterogeneidade é, contudo, menos uma fragilidade do que a própria matéria do projecto: interessa observar o que acontece quando um objecto do século XVIII, ligado a uma história industrial, tecnológica e social concreta, é submetido aos filtros de sensibilidades contemporâneas. Algumas propostas aproximam-se da caneca pela forma ou pela transparência; outras parecem interessar-se sobretudo pela ideia de memória, uso ou vestígio. E é justamente nessa distância, entre a coisa original e aquilo que dela cada artista imagina, que a exposição se torna mais estimulante. “Afinidades” não procura uma resposta única: ensaia uma multiplicidade de ecos.

O mérito maior desta terceira edição talvez esteja, por isso, em não tratar o património como matéria intocável, mas como algo que ganha espessura quando é questionado. O Museu Nacional Soares dos Reis surge aqui menos como destino final do que como plataforma de circulação: recebe o olhar dos criadores do Quarteirão Bombarda e devolve à comunidade um objecto da sua colecção transformado em ponto de partida. É uma estratégia pertinente num tempo em que os museus são chamados a justificar a sua presença não apenas pela conservação do passado, mas pela capacidade de produzir relações no presente. “Afinidades” cumpre essa ambição sem abandonar a dimensão artística, deixando que as obras falem por si e que a comparação seja feita pelo visitante. Até 11 de Outubro, a exposição permanece como um pequeno laboratório de possibilidades, onde uma caneca de vidro com três séculos de história se converte em matéria de desenho, imagem e pensamento. Aí encontramos a verdadeira afinidade: a convicção de que olhar para o passado também pode ser uma forma de inventar o futuro.

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

EXPOSIÇÃO: “Júlio Pomar. A Cola Não Faz a Colagem” | Júlio Pomar



EXPOSIÇÃO: “Júlio Pomar. A Cola Não Faz a Colagem”,
de Júlio Pomar
Curadoria | Sara Antónia Matos, Pedro Faro, Constança Pupo Cardoso
Atelier-Museu Júlio Pomar
06 Mai > 06 Set 2026


No âmbito das comemorações do centenário do nascimento de Júlio Pomar, o Atelier-Museu Júlio Pomar apresenta “Júlio Pomar. A cola não faz a colagem”, uma exposição que percorre mais de sete décadas da produção de um dos mais importantes artistas portugueses do século XX. Reunindo cerca de 50 pinturas, desenhos, gravuras, esculturas e assemblages, a mostra propõe uma leitura alargada da colagem, entendida não apenas como uma técnica, mas como uma forma de pensar e construir a obra. Cortar, recortar, sobrepor, aglutinar, deslocar, recombinar ou desmontar são operações que atravessam o percurso de Pomar, desde o período neorrealista até às experiências dos últimos anos. “Pinto, recorto, combino, repinto ou raspo, arranho, limo, aliso”, escreveu o artista, sintetizando um processo marcado pela experimentação contínua. A própria noção de colagem surge, assim, como metáfora de uma prática artística que nunca se fixou numa fórmula, antes procurou constantemente novas relações entre formas, matérias, imagens e significados. O título da exposição recupera uma frase de Max Ernst, citada por Pomar no texto “L’Écrit”, de 1981: “Não é a cola que faz a colagem”.

Mais do que uma técnica circunscrita a determinados períodos, a colagem revela-se, na obra de Pomar, como uma metodologia transversal. A exposição acompanha essa evolução desde a composição de pinturas e gravuras dos anos 1950 até à incorporação explícita de objectos, sobretudo a partir de meados da década de 1960. Obras como “Guerreiro” (1961), construída pela acumulação e sobreposição de chapas de ferro, demonstram que o pensamento da colagem já estava presente antes de esta se afirmar materialmente. “Metro” (1964), por seu lado, assinala a primeira utilização de um objecto estranho colado sobre a tela, enquanto “Thétis ou Le Bleu du Ciel, d’après Ingres” (1970-73) leva a lógica do recorte e da recombinação a uma dimensão particularmente radical: oito telas independentes podem ser rodadas e reorganizadas, gerando múltiplas composições. A partir de 1976, o próprio Pomar preferiria falar em découpage e assemblage, conceitos que traduzem melhor a sua vontade de desmontar e remontar a pintura. Nesse processo, diferentes referências — do Cubismo às neo-vanguardas e à Pop Art — são assimiladas e transformadas numa linguagem própria, feita de fragmentos, citações, confrontos e deslocamentos.

A diversidade dos materiais reunidos na exposição torna visível essa liberdade de criação e a recusa de fronteiras rígidas entre arte e realidade. Madeira, ferro, tecido, plástico, vidro, cortiça, couro, arame, papel, penas, objectos de uso quotidiano, brinquedos, mecanismos, fragmentos de espelho ou mesmo elementos de origem animal entram no universo plástico de Pomar, adquirindo novas funções e sentidos através de aproximações inesperadas. O fragmento deixa de ser apenas uma parte para se tornar matéria de invenção, capaz de perturbar a leitura convencional da imagem e de produzir novas narrativas. Organizada em diferentes núcleos, a mostra passa pelas obras neo-realistas, pelas representações eróticas do corpo, pelas associações entre figuras humanas e felinos e pelas criações tardias ligadas a mitos e histórias, revelando peças inéditas ou raramente apresentadas ao público, como “Jamais” (1979-80). Complementada pela exposição em suporte digital “Cisões e E@lipses», com curadoria de Constança Pupo Cardoso, a iniciativa reforça a ideia de que, para Pomar, criar significava também desfazer e reconstruir. Num mundo feito de fragmentos, a sua colagem pode ser lida como exercício de liberdade, confronto e recomposição - uma procura incessante de novas formas de organizar o visível e de estabelecer relações entre coisas aparentemente distantes.

domingo, 26 de abril de 2026

EXPOSIÇÃO DE GRAVURA: “Paula Rego: Histórias Gravadas. Da Imaginação para a Chapa”



EXPOSIÇÃO DE GRAVURA: “Paula Rego: Histórias Gravadas. Da Imaginação para a Chapa”,
de Paula Rego
Curadoria | Catarina Alfaro
Fórum da Maia
14 Mar > 03 Mai 2026


A exposição que agora pode ser vista no Fórum da Maia serve de preâmbulo à compreensão de uma dimensão essencial da obra de Paula Rego: o desenho enquanto matriz de pensamento e a gravura enquanto território de experimentação figurativa. Longe de constituir um mero desvio técnico face à pintura, a prática da gravura afirma-se, no conjunto da obra da artista, como campo autónomo onde ela encontra uma forma de depuração e, simultaneamente, de multiplicação das suas histórias. Desde as primeiras experiências até à maturidade das séries apresentadas, percebe-se como a passagem da imaginação para a chapa implica uma tradução singular - mais directa, por vezes mais crua, mas também mais ágil. Obras como “Unicórnio”, de 2008, sintetizam esse gesto quase alquímico, a criação como acto mágico inscrito na própria matéria. Ao longo da mostra, a gravura revela-se como técnica, mas também como linguagem estruturante que permite à artista desenvolver ciclos narrativos onde as imagens se encadeiam, se repetem e se transformam, como se cada prova fosse simultaneamente tema e variação.

Avançar no percurso é ver que a exposição se organiza como uma deriva narrativa que acompanha a própria lógica de trabalho de Paula Rego. Depois do gesto inaugural de “Unicórnio”, onde a dimensão quase mágica da litografia se afirma, o visitante encontra o núcleo dedicado ao teatro, no qual as figuras assumem formas fortes e gestos expressivos para contar histórias, muitas vezes fruto de uma encenação prévia de “fantasmas” ou figuras no seu atelier antes de passar a imagem para o papel. O universo da artista assume a violência e o absurdo como motores de criação, dando origem a imagens densas, atravessadas por uma inquietação latente. Segue-se “O vinho” (2007), conjunto onde a crítica social se impõe com particular acuidade, evocando memórias do Estado Novo e expondo a banalização do consumo de álcool e as suas consequências no tecido familiar. Este núcleo marca uma inflexão, trazendo para o centro da exposição uma realidade dura, sem concessões, que contrasta com a dimensão alegórica de outros trabalhos.

A partir daqui, o percurso encaminha-se progressivamente para o território ambíguo da infância, tema estruturante na obra da artista. Na “Cruzada das Crianças”, inspirada numa enigmática narrativa medieval, as figuras infantis surgem investidas de uma gravidade desconcertante, presas entre a inocência e a responsabilidade excessiva. Em seguida, a série “Peter Pan”, baseada no texto de J. M. Barrie, revisita um imaginário aparentemente encantado para revelar o seu reverso mais sombrio, onde o medo e a crueldade se insinuam sob a superfície da fantasia. O percurso culmina nas “Nursery Rhymes”, nas quais a artista regressa às rimas e cantigas de infância da tradição inglesa, filtrando-as por um olhar que privilegia o insólito e o simbólico, num jogo subtil entre humor e perturbação. Este desfecho reforça a ideia de que, em Paula Rego, a gravura é uma linguagem viva feita de imagens que prolongam e reinventam incessantemente o poder das histórias.

sábado, 20 de dezembro de 2025

EXPOSIÇÃO: “Sonhos e Metamorfoses: O Surrealismo de Paula Rego”


EXPOSIÇÃO: “Sonhos e Metamorfoses: O Surrealismo de Paula Rego”,
de Paula Rego
Curadoria | Catarina Alfaro, Marlene Oliveira, Perfecto E. Cuadrado
Fundação Cupertino de Miranda, Vila Nova de Famalicão
11 Abr 2025 > 04 Jan 2026


“Havia livros de arte em casa. Meu pai dava-me livros depois de ver que era isso que me interessava. Quando tinha 14 anos, comprou-me um livro sobre Dadá e Surrealismo. Era como um livro de histórias; simplesmente maravilhoso estar a ver aquelas ilustrações. Revelação, não posso dizer que fosse, pois para mim era exactamente como um conto de fadas. Não me deu surpresas. Eu estava habituada a imagens daquelas.”
Paula Rego

A exposição dedicada ao surrealismo na obra de Paula Rego parte de um pressuposto certeiro: Mais do que uma adesão programática a um movimento, o surrealismo foi para a artista um território natural, quase doméstico, onde a imaginação sempre falou mais alto do que qualquer academismo. Educada visualmente desde cedo e marcada pela revelação precoce de um livro sobre dadaísmo e surrealismo, oferecido pelo pai quando a artista tinha 14 anos, Rego reconheceu nessas imagens algo que não lhe era estranho, mas familiar, como se de um livro de contos de fadas se tratasse. Essa naturalidade perante o estranho, o disforme e o onírico atravessa o núcleo expositivo, que reúne pinturas, desenhos e gravuras, sobretudo das décadas de 1960 e 1970, período em que a artista procurava ainda uma identidade própria. A exposição sublinha, com pertinência, a importância da imaginação como motor do processo criativo, revelando obras em que o sonho comanda a composição e onde o jogo entre dissimulação e revelação cria imagens de inquietante magnetismo.

Um dos eixos mais bem explorados pela curadoria é o da metamorfose, conceito central na obra da artista e assumido por ela como metáfora do próprio acto de criar. Nas salas da Fundação Cupertino de Miranda, essa ideia manifesta-se através de figuras em constante mutação, corpos que oscilam entre o humano e o animal, personagens suspensas entre a infância e a violência simbólica do mundo adulto. O universo fantástico que emerge destas obras não é evasivo, mas profundamente ligado à experiência concreta do amor e do medo, do poder e da sedução, da obediência e da resistência, sentimentos entrelaçados numa iconografia onde nada é inocente. Os animais humanizados, recorrentes, funcionam tanto como agentes de encantamento como de ameaça, remetendo para um mundo carregado de tensão psicológica que ultrapassa os limites do consciente. Ao convocar o sonho como método e matéria, Paula Rego aproxima-se do surrealismo sem nunca abdicar da narrativa, da teatralidade e de uma relação crítica com a realidade. O resultado é uma obra onde o maravilhoso convive com o perturbador e onde a fantasia surge como matéria de revelação, nunca como instrumento de fuga.

Embora a exposição se apresente em forma de homenagem - particularmente significativa num ano em que Paula Rego, caso fosse viva, completaria 90 anos de idade -, o seu maior mérito reside em propor uma leitura menos cristalizada da artista. Aqui, o surrealismo não surge como rótulo, mas como fase fértil de experimentação, decisiva para a construção de uma linguagem visual única, que mais tarde se expandiria para outros territórios narrativos e políticos. Fica clara a forma como Paula Rego assimilou influências literárias, culturais e artísticas - de Lewis Carroll à tradição popular -, para criar um universo próprio, onde o corpo é lugar de conflito, a infância é memória activa e a autoridade nunca é estável. Ao privilegiar o encantamento, o enigma e a transformação, esta exposição convida o visitante a entrar num mundo onde as imagens não oferecem respostas fáceis, mas antes perguntas persistentes. E é precisamente nessa capacidade de inquietar, seduzir e desestabilizar que reside a atualidade e a força duradoura da obra de Paula Rego. Para ver só até 04 de Janeiro.

sábado, 4 de outubro de 2025

CERTAME: 12.ª Bienal Internacional de Gravura do Douro 2025



CERTAME: 12.ª Bienal Internacional de Gravura do Douro 2025
Vários Artistas
Alijó, Peso da Régua e Vila Nova de Foz Côa
10 Ago > 31 Out 2025


Nascida em 2001 com a ambição de descentralizar a cultura e promover a arte da gravura, a Bienal de Gravura do Douro regressa em 2025 num formato mais reduzido, porquanto limitado a três Municípios apenas: Alijó, Peso da Régua e Vila Nova de Foz Côa. A aposta numa programação de qualidade, essa mantém-se, com mais de cinquenta países presentes na presente edição da Bienal, e uma plêiade de artistas de renome internacional, ao nível da gravura contemporânea. Alicerçada na mais antiga região vinícola demarcada do mundo, região laureada por dois patrimónios da humanidade atribuídos pela UNESCO e mundialmente reconhecidos quer pela sua paisagem vinhateira, quer pelo património arqueológico do Vale do Côa (o maior santuário de gravura paleolítica do mundo), o Douro é palco, também na contemporaneidade, de um dos maiores eventos de arte gráfica do mundo, reunindo dentro de si, uma força e dimensão que ultrapassa as fronteiras do país e se projecta para horizontes infinitos.

Perseguindo este propósito e ambição alcançada, a Bienal do Douro tem vencido os desafios da interioridade, da crise económica, da crise cultural, da própria crise da gravura e tem sabido manter vivos os pressupostos da arte e a autonomia da gravura no contexto da arte contemporânea. Para tal, muito têm contribuído os tributos da gravura tradicional e as suas alquimias seculares, mas não menos importantes, das renovadas tendências da gravura digital e dos novos media ao seu dispor, no sentido de lhe conferir a autonomia que ela necessita para subsistir. O campo aberto à gravura pelas novas linguagens híbridas e técnicas não tóxicas, têm projectado o seu impacto de uma forma inovadora e com a vitalidade há muito desejada nos seus domínios.

Assumindo a responsabilidade de ser a única Bienal de obra gráfica do país, a sua evolução desde a sua origem em 2001, colocam-na hoje num patamar inimaginável a par das mais importantes Bienais do mundo. A comprovar tal fasquia, salientam-se os artistas homenageados mundialmente reconhecidos como Antoni Tàpies, Paula Rego, Vieira da Silva, Júlio Pomar, José de Guimarães, Júlio Resende, Graça Morais, Cruzeiro Seixas e outros. O núcleo de Vila Nova de Foz Côa, instalado no magnífico Museu do Côa - o único que me foi possível visitar - tem muitos e bons motivos a justificar uma deslocação. Desde logo, pelo diálogo inédito que é possível estabelecer entre gravura rupestre e gravura contemporânea, transformando-a numa coisa única do ponto de vista artístico. Mas também pela qualidade dos trabalhos apresentados, de autores de diversas latitudes, e que não deixam ninguém indiferente. Para ver até ao último dia deste mês.

sábado, 14 de dezembro de 2024

EXPOSIÇÃO: "Ⓐmo-te" | Francisco Tropa



EXPOSIÇÃO: Ⓐmo-te,
de Francisco Tropa
Curadoria | Ricardo Nicolau
Museu de Arte Contemporânea de Serralves
08 Nov 2024 > 11 Mai 2025


“Ⓐmo-te” é a maior exposição monográfica de Francisco Tropa (Lisboa, 1968) alguma vez apresentada. Autor de uma obra complexa, que combina de forma surpreendente um amplo leque de meios (escultura, desenho, performance, gravura, fotografia e filme) e referências (em que se destacam figuras dos mundos antigo e moderno, oriundas da arte, da ciência e da literatura), o artista construiu nos últimos trinta anos um universo muito próprio em que se evidenciam uma série de reflexões alimentadas por diferentes tradições da escultura, da literatura e da mitologia. Estas reflexões centram-se frequentemente em questões metafísicas e temas antropológicos e filosóficos, nomeadamente sobre a natureza, a origem e a finalidade da arte e do acto criativo. Apesar de se organizar em torno de projectos do artista realizados em cada década do seu percurso, entendidos como momentos fundamentais da sua prática, a exposição deve ser entendida como uma espécie de grande máquina, na qual ao longo do percurso o visitante é sistematicamente confrontado com algumas das preocupações fundamentais do artista, nomeadamente a forma como as obras de arte são legitimadas, percepcionadas, analisadas e transmitidas.

Dividida em três grandes núcleos - os “protótipos” maioritariamente produzidos nos anos 1990 e início dos anos 2000, apresentados no mezanino da Biblioteca de Serralves, “A Assembleia de Euclides”, que manteve o artista ocupado durante grande parte dos anos 2000 e “O Enigma de RM”, o seu trabalho mais recente - a exposição apela a que nos interroguemos sobre as noções de originalidade e de criatividade. Francisco Tropa assume que, ao invés de procurar o novo, prefere tirar partido da repetição e da reutilização de elementos de obras antigas. Para o artista, é mais interessante acrescentar informação a um objecto, motivo ou referência com que trabalhe recorrentemente – “só invento algo novo se não puder usar alguma coisa com que já tenha trabalhado; repetir objectos em situações diferentes enriquece-os” –, e explorar associações catalisadas por contextos de apresentação passados. Ao mesmo tempo, a pluralidade de referências garante que cada trabalho seja sempre polifónico, que diga simultaneamente várias coisas diferentes.

Intencional e paradoxalmente, esta multiplicidade de possíveis interpretações – este “ruído controlado”, como lhe chama Tropa –, pode conduzir a uma incapacidade de esgotar a “leitura” da obra, a uma interpretação assente nas menções mais ou menos inesgotáveis, mais ou menos explícitas, mais ou menos eruditas que arrola e/ou convoca. O objectivo: fazer com que reste ao visitante “simplesmente” ver. “Ⓐmo-te”, além de uma máquina potenciadora de ecos, reenvios, ressonâncias e reverberações, é uma mostra que interroga e explora o próprio formato-exposição: porque apresenta projectos que são autênticas exposições dentro da exposição; porque enfatiza a importância dos contextos em que os objectos são apresentados para uma determinada leitura; porque, a começar pelo título, posiciona o visitante no centro de uma experiência da qual é o verdadeiro protagonista. Um adequado complemento à declaração que dá nome à exposição pode bem ser uma frase normalmente associada a amores desesperados, mas que, neste contexto, elucida exemplarmente o papel principal conferido ao espectador: “Sem ti, eu não existo!”

[Baseado no texto da exposição, o qual pode ser lido em https://www.serralves.pt/ciclo-serralves/0811-francisco-tropa-mo-te/]

sexta-feira, 5 de julho de 2024

EXPOSIÇÃO: “Pré/Pós – Declinações visuais do 25 de Abril”



EXPOSIÇÃO: “Pré/Pós – Declinações visuais do 25 de Abril”
Vários artistas
Curadoria | Miguel von Hafe Pérez
Museu de Arte Contemporânea de Serralves
24 Abr > 20 Out 2024


“Pré/Pós – Declinações visuais do 25 de Abril” é uma exposição que comemora os 50 anos da Revolução dos Cravos. Mais do que um simples gesto celebrativo, este projecto pretende investigar as tensões, as contradições e os movimentos paradoxais que marcam os períodos imediatamente anteriores e posteriores à Revolução. Num arco cronológico de 1970 a 1977, a exposição regista como o universo das artes refletiu as experiências e sentimentos que terão acompanhado o processo revolucionário e como este se desenvolveu entre o entusiasmo utópico e a apreensão contida. Dando visibilidade a artistas e a obras pouco conhecidas no contexto museológico, esta é uma oportunidade única para pensar este período tão rico quanto conturbado da nossa história da arte, onde o manifesto político tanto pode assumir uma vertente panfletária, como afirmar-se através de obras de cariz mais conceptual enquanto suporte discursivo e formal das liberdades desejadas e atingidas. Nos mais de trezentos trabalhos expostos — que abarcam meios tão variados como a pintura, a escultura, a fotografia, o filme, a gravura, a instalação, o cartaz e a edição de livros e revistas — sublinha-se a presença sísmica das múltiplas representações do corpo, muitas vezes trespassado por referências políticas desafiantes.

Esta não é uma exposição sobre o 25 de Abril. Não encontramos aqui as representações icónicas de fotógrafos como Eduardo Gageiro ou Alfredo Cunha: preferiu-se mostrar como os artistas visuais saem para o espaço público para fotografar pessoas, situações e marcas da Revolução. Esta também não é uma exposição — que está ainda por fazer — sobre os movimentos artísticos africanos de contestação colonial. Sinaliza-se, no entanto, a sua presença com obras de autores que tinham uma atividade regular no país. Sendo as questões feministas amplamente discutidas no imediato pós-25 de Abril, torna-se fundamental refletir como passada essa efervescência intelectual e activista e passados estes cinquenta anos, muitos dos temas aí abordados ainda perduram enquanto cicatrizes estruturais. Neste campo, só o divórcio viu a sua implementação ser concretizada com relativa celeridade, enquanto questões ligadas à sexualidade e ao corpo, como o aborto, tiveram de esperar décadas. Daí que na exposição o tema da sexualidade deva ser entendido também como uma força motriz da politização e da subversão da imagem no espaço institucional e público.

Finalmente, sublinhe-se que, ainda que de forma distante e poética, o próprio processo de constituição da Fundação de Serralves pode ser associado a um movimento de artistas, escritores, jornalistas e populares nas ruas do Porto no imediato pós-25 de Abril, nomeadamente o famoso “Enterro do Museu Soares dos Reis”, que conduziria à criação do Centro de Arte Contemporânea dentro das instalações do próprio MNSR e dirigido por Fernando Pernes, que viria a ser o primeiro diretor artístico da Fundação de Serralves. Quando, no dia 29 de março de 1974 se realizou o I Encontro da Canção Portuguesa no Coliseu dos Recreios, a força da palavra poética derrubou simbolicamente um regime que se arrastava numa guerra colonial indecorosa e na visão refratária e mesquinha das liberdades individuais. Entoando Grândola, Vila Morena em uníssono, esses milhares de vozes anteciparam a alegria que pouco menos de um mês depois se viveria na rua. Palavras e imagens: a criação cultural enquanto mapa identitário de uma revolução contínua, questionante e que ainda hoje precisa de ser lembrada, cuidada e permanentemente reatualizada.

[Texto extraído do Roteiro da Exposição, em https://cdn.bndlyr.com/nsa343pdfl/_assets/2404_25abril_roteiro_site.pdf]

sábado, 8 de junho de 2024

EXPOSIÇÃO: "Rutura e Continuidade"



EXPOSIÇÃO: “Rutura e Continuidade”,
de Paula Rego
Curadoria | Catarina Alfaro
Museu do Côa
01 Dez 2023 > 28 Jul 2024


Na sequência de uma programação que vem privilegiando nomes maiores da pintura portuguesa, o Museu do Côa tem para mostrar “Rutura e Continuidade”, conjunto de trabalhos de Paula Rego centrado no período de reconhecimento e afirmação da artista em Londres, onde estudou e viveu a maior parte da sua vida. Dos anos 1980 surge-nos parte da obra que que justificou o seu reconhecimento internacional, incluindo séries referenciais do seu percurso como as litografias de Jane Eyre. Mais tardio é o conjunto de gravuras e pinturas “Sem título”, de 1998–2000, mais comummente conhecido como a “série do aborto”. Propõe-se, assim, uma abordagem diferente à obra de uma das artistas portuguesas contemporâneas mais conhecidas mundialmente, cuja personalidade insubmissa e o combate por uma liberdade de expressão levaram-na a declarar a sua independência dos movimentos artísticos do seu tempo e a uma redefinição constante da sua linguagem figurativa.

Na primeira sala, o tema da ruptura é abordado de forma directa como resultado das mudanças pessoais, sociais e artísticas vividas nos anos 1980 e que provocaram em Paula Rego uma vontade de libertação em relação às expectativas impostas quanto ao modo de “fazer arte”. A artista recupera o simbolismo dos animais provenientes das fábulas, dos contos populares, sobretudo na sua relação de dualidade ou metamorfose com o humano, ao estabelecer uma linguagem visual radicalmente nova para contar as suas histórias pessoais, criando um universo complexo e ambíguo em que os animais são criaturas com qualidades e comportamentos humanos atiradas para situações peculiares. Ainda nesta sala, podemos ver o interesse de Paula Rego pela Arte Bruta, numa altura em que descobre a obra de Jean Dubuffet em Londres, em 1959, o que muito terá contribuído para o fim do impasse criativo em que se encontrava. É, mais uma vez, um exemplo de ruptura, o encontro definitivo com uma linguagem pessoal reconhecida e valorizada no contexto artístico londrino e que lhe permitirá contar as histórias de forma mais direta e regressar à infância através de uma técnica livre e sem hesitações. 

Independentemente da importância e alcance das obras expostas, é para a série “Jane Eyre” que o olhar do visitante se dirige de imediato ao entrar na segunda sala. Inspirada no romance vitoriano de Charlotte Brontë, esta série de litografias coloridas mostra até que ponto a artista se deixou seduzir pelo carácter fascinante da sua protagonista, Jane Eyre, e sobretudo pelo modo como questiona as expectativas sociais sufocantes que pendiam, à época, sobre as mulheres. Apesar de todas as crueldades e obstáculos que se atravessam no seu caminho, Jane Eyre é a história de um amor triunfante entre a protagonista e o Sr. Rochester, mas Paula Rego faz também sobressair nas suas imagens um outro lado da história, que não é contada. A última litografia desta série, “Vem a mim”, é decisiva para o tratamento caracterial psicológico de Jane, sugerindo a sua complexidade, a sua hesitação em aceitar um destino que será sempre, de certo modo, sacrificial, como o céu tingido de vermelho sugere.

Na última sala, o olhar recai sobre o tríptico “Vanitas”, pela forma como a artista concebe, a partir de um conto fantasmático de Almeida Faria, a sua própria visão da “vanitas”, mas são as oito águas-fortes da série “sem título”, de 1999-2000, que prendem a nossa atenção. Conhecida como a “série do aborto”, os trabalhos derivam diretamente de obras realizadas antes em pintura e são reveladores das experiências traumáticas da artista, mas também de um sentimento de indignação perante a indiferença dos portugueses, traduzida em abstenção, no referendo realizado em 28 de Junho desse mesmo ano sobre a despenalização da interrupção voluntária da gravidez. Musculadas, como a generalidade das personagens femininas de Paula Rego, estas mulheres mostram-se em dignidade, apesar da dor e da humilhação sofridas. Algumas apresentam os olhos bem abertos, revelando um assombroso conhecimento do que estão a viver. Tudo nelas é sentimento e emoção, tornando-se impossível desviar o nosso olhar. De forma intensa e viva, elas são inestimáveis testemunhas da importância do aborto seguro, apenas uma parte do notável legado de Paula Rego.

terça-feira, 16 de abril de 2024

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Esta Máquina, Esta Objectiva, Estas Fotografias: 25 de Abril de 1974, Quinta-Feira”



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Esta Máquina, Esta Objectiva, Estas Fotografias: 25 de Abril de 1974, Quinta-Feira”,
de Alfredo Cunha (fotografia) e Alexandre Farto aka Vhils (gravura)
Centro Português de Fotografia
06 Abr > 28 Jul 2024


“A professora mandou‑nos calar e estava a tentar sintonizar o rádio. A determinada altura recambiou‑nos a todos para casa. É tudo o que me lembro desse dia. Tinha 6 anos, estava na 1.ª classe, e pertenço à geração que, nas décadas seguintes, foi acusada de ter perdido o 25 de Abril. Só lá para as eleições de 1980, com uns sólidos 12 anos, é que estava politizado o suficiente para entrar na luta partidária, como era costume na época. Tinha perdido a festa. Mas então o que estou a fazer neste projeto?”

Tenho vários 25 de Abril. Este é o meu favorito: estou na Amadora, são 3 e tal da manhã e ouço pela primeira vez na vida o “Riders on the Storm”, dos Doors. Lá para as 4 e tal começam a dizer que algo se está a passar em Lisboa. Visto‑me e decido ir para o Século. Vou para a estação. Passo pelo bairro de lata da Falageira, uma das vistas mais miseráveis dos subúrbios de Lisboa e que tenho fotografado nos últimos anos. Chegado à estação do Rossio, corro até ao Bairro Alto, à redacção do Século, e saco o maior número de rolos possível. Uns quarenta. São umas 6 da manhã. Está lá o Mário Zambujal, que destaca o jornalista Mário Contumélias e a mim para seguirmos para o Terreiro do Paço. Só lá para as 9 e tal é que tenho a primeira conversa com o Salgueiro Maia. Vê‑me fotografar e pergunta‑me o que estou ali a fazer. Digo que sou do Século. Pergunta‑me se sou dos deste lado ou dos outros. Não sei bem o que dizer e respondo que estou ali daquele lado a fotografar. Então ele diz‑me para passar a barreira e não ficar escondido.

Este dia 25 de Abril não me pertence. É o 25 de Abril do Alfredo Cunha, então com 20 anos e que logo no início da carreira tem inesperadamente o dia mais importante da sua vida de fotógrafo. Uma dádiva e uma maldição. Há 50 anos que incansavelmente fotografa, expõe e publica como que para fugir e de novo voltar a esse dia. Esse 25 de Abril que não é meu e que relato na primeira pessoa foi surgindo como peças de um puzzle ao longo das centenas de horas que passámos nas viagens de trabalho em conjunto. Uma história que surgia após um silêncio de quilómetros numa picada. Episódios de que ele próprio não se lembrava e de repente lhe ocorriam. Um dia percebi que o meu dia 25 de Abril já era o dele. Naquele dia, foi gerindo os 40 rolos. Não sabemos se, caso tivesse tirado mais uns milhares de fotos, o seu dia 25 de Abril fotográfico seria mais ou menos intenso em termos imagéticos do que aquele que ficou. Havia a decisão de captar o momento, o que obrigava a puxar manualmente o rolo e perder complemente a situação. E não ceder à tentação de encenar a foto perfeita.

Cinquenta anos depois, Vhils é convidado a selar este projecto, como se se tratasse de uma cápsula feita para enviar para o futuro, para ser vivido, dado ter sido fotografado por quem vive apaixonadamente uma revolução. Deixe‑se levar para aquele dia em que 240 homens (muitos deles meros rapazes), vindos de Santarém, libertaram um país inteiro da mesquinhez instituída, de um poder autocrático e beato que sobrevivia da ignorância dos pobres que controlava. Quando der por isso, estará a ver como a coragem de um só homem perante carros de combate tocou de tal forma os que o estavam a ver do outro lado, que decidiram arriscar tudo e negar‑se a disparar. E assim, sem o saber, derrubaram naquele momento o regime. Foi o cair de uma mordaça pestilenta que sufocava. E o dar um fôlego de quem quer comer o mundo ao encher os pulmões de liberdade fresca e matinal. E gritar.

A próxima revolução pela liberdade não será tão simples e feliz.

[Texto adaptado do original da autoria de Luís Pedro Nunes]

segunda-feira, 8 de abril de 2024

EXPOSIÇÃO: “Liberdade - 50 anos, 50 mulheres, 50 dias”



EXPOSIÇÃO: “Liberdade - 50 anos, 50 mulheres, 50 dias”
Vários artistas
Museu Municipal de Espinho
08 Mar > 27 Abr 2024


Evocando a Revolução dos Cravos, o Museu Municipal de Espinho apresenta “Liberdade - 50 anos, 50 mulheres, 50 dias”, exposição onde se cruzam a pintura, o desenho, a escultura, a fotografia, a gravura, a cerâmica e a instalação. São 50 obras de 50 mulheres que, ao longo dos anos, deram a Espinho o privilégio de aqui apresentarem os seus trabalhos e que, para esta mostra, aceitaram partilhar o próprio sentir de liberdade. Tendo o 25 de Abril como mote das mais variadas formas de entendimento e expressão de um tempo aberto à igualdade, à justiça e à democracia, as artistas dão-se a ver no que têm de criatividade e sensibilidade, ousadia e irreverência. Ainda que de forma indirecta, são trabalhos que se inscrevem numa iconografia vasta e impressiva, assumindo-se como meios de intervenção no espaço social e político, no que neles há de denúncia e protesto, de reivindicação e afirmação.

Espaço aberto a todos os géneros, sensibilidades e formas de expressão artística, o Museu Municipal de Espinho e os seus responsáveis sempre tiveram para com as mulheres artistas uma especial deferência. Se provas fossem precisas, bastaria lembrar que um dos momentos mais altos da programação deste espaço é, em anos ímpares, a Bienal Internacional de Arte de Espinho, a qual, nas suas primeiras quatro edições, teve a designação de “Bienal Internacional Mulheres d’Artes” e destinava-se a um público exclusivamente feminino. Neste que é “o tempo das mulheres” (nome de uma exposição - e um livro - de Alfredo Cunha, outro artista que, com as suas fotografias, já ocupou as paredes das galerias Amadeo de Souza-Cardoso), deixemo-nos fascinar pela diversidade e beleza dos trabalhos expostos, abarcando com o pensamento a multiplicidade de propostas e vendo no seu conjunto um abraço a quem nos deu “o dia inicial inteiro e limpo”.

A minha visita à exposição foi um momento de afectos nesse reencontro com muitos dos trabalhos aqui apresentados, evocando lugares e contextos diferentes, do Museu Júlio Dinis à Casa da Cultura de Estarreja, da Zet Gallery à Cooperativa Árvore, do Auditório Municipal de Gondomar à Fiação de Lever e aos momentos sempre belíssimos da Bienal Internacional de Arte de Gaia, passando, naturalmente, por muitas das exposições que têm ocupado as galerias do Museu Municipal de Espinho. Foi um tempo feliz, um tempo de voltar a abraçar Manuela Mendes da Silva, Susana Bravo, Ana Torrie, Balbina Mendes, Elizabeth Leite, Yola Vale, Ana Aragão, Lauren Maganete, Ana Maria Pintora, Cristina Troufa, Alvarenga Marques, Inês Pargana, Maria Afonso, Celeste Ferreira, Graça Martins ou Maria Do Carmo Vieira. Mas também de conhecer - e guardar - novas artistas. Até ao dia 27 de Abril, é obrigatório passar por lá.

terça-feira, 17 de outubro de 2023

CERTAME: 11ª Bienal Internacional de Gravura do Douro 2023


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CERTAME: 11.ª Bienal Internacional de Gravura do Douro 2023
Curadoria | Nuno Canelas
Alijó, Celeirós, Chaves, Favaios, Vila Nova de Foz Côa, Peso da Régua, S. Martinho de Anta e Vila Real
10 Ago > 31 Out 2023


Alicerçado na mais antiga região vinícola demarcada do mundo - laureado por dois patrimónios da humanidade atribuídos pela UNESCO e mundialmente reconhecido quer pela sua paisagem vinhateira, quer pelo património arqueológico do Vale do Côa (o maior santuário de gravura paleolítica do mundo) -, o Douro é palco, também na contemporaneidade, de um dos maiores eventos de arte gráfica do mundo. Falo da Bienal Internacional de Gravura do Douro, certame que reune dentro de si uma força e dimensão que ultrapassa as fronteiras do país e se projecta para horizontes infinitos. Fundado em 2001, o certame tem sobrevivido aos desafios da interioridade, das sucessivas crises económicas e da própria crise da gravura, mantendo vivos os pressupostos da arte e a autonomia da gravura no contexto da arte contemporânea. Para tal, muito têm contribuído os tributos da gravura tradicional e suas alquimias seculares, bem como as renovadas tendências da gravura digital e dos novos media ao seu dispor, garantindo-lhe a autonomia de que necessita para subsistir.

Assumindo a responsabilidade de ser única no género no nosso país, a Bienal Internacional de Gravura do Douro ombreia, hoje em dia, com as mais importantes Bienais do mundo. A comprovar tal fasquia, salientam-se as exposições de homenagem a artistas mundialmente reconhecidos como Antoni Tàpies, Paula Rego, Vieira da Silva, Octave Landuyt, Gil Teixeira Lopes, Nadir Afonso, David de Almeida, Bartolomeu do Santos, Júlio Pomar, José de Guimarães e agora Silvestre Pestana, mas também pela abrangência e internacionalidade alcançada ao longo de onze edições, registando a presença de mais de mil artistas de uma centena de países. Para que se perceba a dimensão do certame, atente-se nos números da presente edição: sessenta e cinco países, quinhentos artistas, oitocentas gravuras, e oito exposições distribuídos por vários núcleos centrados em Alijó, Celeirós, Chaves, Favaios, Foz Côa, Peso da Régua, São Martinho de Anta, eVila Real.

Atentando naquilo que me foi possível ver nesta edição da Bienal, começaria por referir os trabalhos que se encontram no Museu do Côa, onde se concentram as instalações. No Espaço Miguel Torga, em S. Martinho de Anta, pode o visitante encontrar uma vasto número de trabalhos, onde qualidade e variedade se combinam na perfeição (pessoalmente, foi aqui que encontrei os trabalhos mais desafiantes e imaginativos). Em Alijó, é na Biblioteca Municipal e no Complexo de Piscinas que se concentram os trabalhos mais interessantes ou, pelo menos, aqueles que se dão a ver em melhores condições, já que as condições de luminosidade no Auditório Municipal prejudicam grandemente a visualização da maior parte das obras. O mesmo acontece no Núcleo Museológico de Favaios, onde muitas das obras sofrem o efeito de múltiplos reflexos e deixam de poder ser apreciadas com detalhe. Finalmente, Celeirós e Vila Real reúnem um número interessante de obras com qualidade, merecendo também eles a visita. A Bienal de Gravura do Douro encerra já no próximo dia 31.

sexta-feira, 13 de outubro de 2023

EXPOSIÇÃO DE PINTURA: "Querer Dizer"


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EXPOSIÇÃO DE PINTURA: “Querer Dizer - 50 Anos entre a Pintura e a Escrita 1973/74 - 2023/24”,
de Emerenciano
Festival Literário de Ovar FLO 2023
Galeria do Centro de Artes de Ovar e Museu Júlio Dinis - Uma Casa Ovarense
13 Set > 02 Dez 2023

“Querer Dizer”, do artista plástico ovarense Emerenciano, é uma das grandes ofertas do cartaz cultural da cidade no último quadrimestre de 2023. Inaugurada no passado dia 13 de Setembro, no âmbito do Festival Literário de Ovar, a mostra distribui-se pelo Centro de Artes de Ovar e pelo Museu Júlio Dinis - Uma Casa Ovarense, percorrendo cinquenta anos de carreira artística de Emerenciano. Entre a pintura e a escrita, a obra do artista tem na expressão figurativa e no simbolismo elementos determinantes, disso dando prova o importante conjunto de pinturas, desenhos, gravuras e livros de artista que compõem esta exposição. Neles é possível perceber o extraordinário significado e alcance de um longo percurso artístico, solidamente fundado em valores estéticos e formais de uma enorme coerência e homogeneidade, mas sobretudo na urgência da mensagem que importa espalhar, nesse “querer dizer” que a todos é dirigido.

Pese embora a racionalidade que a envolve - o desenho fortemente estruturado, a minúcia das composições, a precisão dos elementos, a escrita caligráfica -, a obra de Emerenciano é do domínio dos sentidos. O título dado à exposição tem a força de uma evidência, as letras alinhadas ou desenhadas em diferentes planos, ora claras e nítidas, ora enigmáticas, indecifráveis, surdos borrões de tinta levantados do chão num “querer dizer” que se desfaz em grito. Grito de coragem no traço que rompe a monotonia de um padrão e se ergue em tumulto e desvario. Grito de revolta no corpo-ampulheta que refaz o tempo e desfaz a ordem. Grito de audácia na máscara que se torna em rosto e voz dos que não têm voz. Grito de liberdade, nas mãos como nos corpos, nas histórias que se querem contadas como nas memórias que importa preservar. Coragem, revolta, audácia, liberdade. Será que todos ouvimos esses gritos?

O sentido da metáfora espalha-se na tela ou no papel. Revela-se com clareza o “desafio aberto à compreensão de quem vê e quer perceber”. O visitante aceita o desafio como se de um desígnio se tratasse. Abraça formas e cores, lê nos símbolos e nos signos, descobre o rasto das palavras e vê como despontam, intensas e vivas, marcas de uma vida onde a vigilância e a perseverança seguem de mãos dadas com o inconformismo e a insubmissão. São como linhas que se cruzam sem cessar até formarem uma densa teia que tudo esconde, ou se distanciam cada vez mais à medida que se aproximam do infinito. Falam com todas as letras do pensamento ou apenas se dão a ver numa nesga de lúcida loucura. Coração em desassossego, ei-las que surgem umas após outras: Arquivar, proibir, calar, ficar. Sonhos, histórias, conspiração, prisão. Liberdade de expressão, guerra colonial. Razão de morrer. Querer. Dizer!

quinta-feira, 9 de março de 2023

EXPOSIÇÃO DE ESCULTURA, DESENHO E GRAVURA: “Et sic in infinitum” | José Pedro Croft


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EXPOSIÇÃO DE ESCULTURA, DESENHO E GRAVURA: “Et sic in infinitum”,
de José Pedro Croft
Fundação Arpad Szenes – Vieira da Silva
26 Jan > 28 Mai 2023


A programação de 2023 da Fundação Arpad Szenes – Vieira da Silva abre com “Et sic in infinitum”, de José Pedro Croft. Comissariada por Sérgio Mah, a exposição é composta por duas dezenas de trabalhos maioritariamente produzidos nos dois últimos anos, mostrando de que forma o artista explora a complexidade e as múltiplas potencialidades das relações entre escultura, desenho e gravura, técnicas que utiliza para nos oferecer um emocionante exercício de liberdade estética e interpretativa. Cada uma das obras revela elementos de círculos ou de circunferências, em planos mais abrangentes ou parcelares, submetidos a variações cromáticas, a cortes, descentramentos e sobreposições, de modo a configurar formas que se desalinham e se repartem, procurando desencontros, desvios profícuos, articulando frequentemente as suas qualidades bidimensionais e tridimensionais.

O título “Et sic in infinitum” é uma citação da frase que o físico e cosmologista Robert Fludd inscreveu em cada um dos lados de um desenho datado de 1624 e que é reconhecido como uma das primeiras representações da criação do universo. O desenho dá a ver um quadrado negro imperfeito, a imagem do pré-universo, do nada, do vazio negro e sem forma, anterior ao evento da criação. O quadrado negro de Robert Fludd ilustra um enigma fundacional, mas em simultâneo assinala os limites da representação, ao anotar em cada margem do quadrado a frase “Et sic in infinitum” [“E assim por diante até ao infinito”]. Deste modo, partindo de uma mesma forma básica e arquetípica, José Pedro Croft explora “um imenso campo de possibilidades estéticas e perceptivas, através de uma sucessão de permutações que indaga a volatilidade e a impermanência das formas, manifestando a sua inclinação por modos mais abertos e múltiplos de pensar, ver e criar, e comprometendo-nos com as oportunidades que derivam da experimentação e da variação criativa, entendidas também como critérios fundamentais na relação multiforme com o mundo e a arte do nosso tempo”.

“Na produção artística de José Pedro Croft das últimas duas décadas é notória a estreita cumplicidade entre a escultura, o desenho e a gravura. […] Através destas três práticas, o artista tem produzido conglomerados de obras em que explora inúmeras variações a partir de formas básicas e arquetípicas, submetendo-as a experiências de derivação e reconversão que inevitavelmente debilitam os seus princípios estáveis e lógicos e testam a nossa perceptibilidade relativamente ao que nos rodeia e nos habita enquanto seres impregnados de visualidade. […] É igualmente manifesto o interesse de José Pedro Croft pelos aspectos generativos da criação artística, ou seja, pelas potencialidades imanentes a cada meio, material ou forma, enquanto faculdades que contribuem para a singularidade de cada obra, mas também como remissões para a complexidade de que se reveste a experiência do mundo e a vasteza de coisas e dinâmicas espaciais e temporais que o constituem”, escreve Sérgio Mah, no catálogo da exposição.

quinta-feira, 6 de outubro de 2022

EXPOSIÇÃO: "João, Querido Amigo"


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EXPOSIÇÃO: “João, Querido Amigo”,
de João Carlos Celestino Gomes
Curadoria | Jorge Silva
Casa da Cultura de Estarreja
03 Set > 07 Out 2022


“Meu querido ‘D. João’: de trinta e tal anos seguidos de íntimo convívio, ficou-me de ti, acima de tudo, uma saudade imensa, um enorme e incomparável vazio na vida. Sinto que alguma coisa de mim próprio morreu contigo, quando ficaste dormindo. E só Deus sabe como é infinitamente triste e doloroso recordar-te!”
António Madureira, In Memoriam, Estarreja, 11 de Novembro de 1961

Na véspera de encerrar ao público, tempo ainda de escrever umas palavras sobre “João, Querido Amigo - Facetas de João Carlos Celestino Gomes, Ilustrador”, a exposição que, desde 03 de Setembro, ocupa o espaço da Casa da Cultura de Estarreja. Uma exposição de grande qualidade que nos mostra aquele que, assinando Celestino Gomes, foi poeta, prosador, ensaísta, fundador de revistas literárias e jornais regionalistas, e também divulgador científico, na televisão e jornais, na sua condição profissional de médico higienista. Por outro lado, assinando com os seus primeiros dois nomes, João Carlos, desenhou a grafite e carvão, pintou a óleo, ilustrou a Tinta-da-china, esculpiu a madeira, o ferro e o barro, eternamente enamorado pelo mar e pela faina das comunidades piscatórias da sua terra natal, Ílhavo. São estas múltiplas facetas que agora se abrem ao público, cuidadosamente reunidas e agrupadas de forma a realçar não apenas a obra do artista, mas também a sua extraordinária ligação, e de Silvina, a sua mulher, ao casal Marieta Solheiro Madureira e António Madureira.

Talvez valha a pena começar precisamente por aqui, pela história de uma bela amizade que se prolongou por mais de trinta anos. O mútuo afecto e o inestimável apreço pela Arte levou a que os laços entre os dois casais de reforçassem e a que, dessa amizade, chegassem aos nossos dias inúmeros exemplos. Uma parte substantiva da imensa obra produzida por João Carlos Celestino Gomes encontra-se hoje reunida na Sala João Carlos, na Casa-Museu Marieta Solheiro Madureira, em Estarreja. Aqui, o espólio do Dr. António Madureira, generosamente organizado e exposto, reflete a intimidade partilhada, os dias de convívio, os momentos em que, descontraída ou fervorosamente, se criaram e estimaram as relações humanas, a Arte e as Letras. Porque só assim ficariam “libertos das limitações do tempo e do meio”. Todas as peças e os documentos reunidos deixam perceber a admiração que os espíritos sinceros de António e de Marieta Solheiro Madureira perpetuam: os livros escritos por Celestino Gomes, autografados e alinhados em lugar de destaque na secretária, os desenhos e os trabalhos artísticos exclusivos, dispostos nas paredes, ou outros objetos que pontuam a casa, como os revestimentos de madeira policroma da lareira.

O tributo ao “querido amigo” estende-se agora à Casa da Cultura de Estarreja onde, em torno de uma vasta produção ilustrada, com destaque para as capas de livros da Editora Gleba e de ilustrações dos livros “Cântico dos Cânticos” e “Livro de Ester”, avultam a originalidade do traço e a qualidade onírica de João Carlos Celestino Gomes. Fascinado pela gravura japonesa, pelos Primitivos de Quatrocentos, pelas artes bizantina e oriental e pelos XX Dessins do pintor Amadeo de Souza-Cardoso, o artista afirmará, na primeira metade do século XX, um destino singular no contexto das artes visuais portuguesas, fortemente marcadas pela “Política do Espírito” de António Ferro. A sensualidade manifesta da sua obra gráfica e uma postura ética declaradamente ecuménica e humanista afastam-no naturalmente do decorativismo assexuado da propaganda oficial e da cruzada nacionalista do Estado Novo. Estas e outras leituras emergem da visão integrada dos trabalhos expostos, fazendo desta uma mostra de inegável valor e interesse. Uma nota final para reforçar o interesse de estender a visita à Casa Museu Marieta Solheiro Madureira, na cidade de Estarreja. O “dois em um” perfeito.