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domingo, 20 de julho de 2025

CERTAME: 8.ª Bienal Internacional de Arte de Espinho



CERTAME: 8ª. Bienal Internacional de Arte de Espinho
Vários artistas
Museu Municipal de Espinho
16 Jun > 30 ago 2025


O Museu Municipal de Espinho acolhe, até 30 de Agosto, o seu evento de referência no âmbito das grandes exposições de artes plásticas nacionais e internacionais - a Bienal Internacional de Arte de Espinho. Mostra de expressões artísticas que se realiza a cada dois anos, a Bienal deu o pontapé de saída no ano de 2011 e vai já na sua 8.ª edição, assumindo-se como a grande “imagem de marca” do Museu. Ao mesmo tempo, constitui-se cada vez mais como plataforma alargada de divulgação e promoção das artes plásticas, bem como de reconhecimento das respectivas criadoras e criadores. O desígnio volta a repetir-se na edição deste ano, com um conjunto de cerca de duas centenas de obras a merecerem um lugar de destaque nas Galerias Amadeo de Souza-Cardoso, a valência do Museu dedicada a exposições de Arte. São essas obras que o visitante vai poder apreciar, percebendo a grande variedade de géneros, estilos e suportes que as distinguem entre si e tornam a mostra extraordinariamente eclética, abrangente, desafiante e emotiva.

Com a obra “Caminhos: Arquivo de experiências urbanas”, lápis de pastel sobre papel, 2024, Alejandra Pardo conquistou o Grande Prémio Cidade de Espinho. Nela, a artista traça um conjunto de momentos que mimetizam, com engenho e imaginação, aquilo que podemos interpretar como um conjunto de negativos de um rolo fotográfico, testemunho de particulares vivências. O segundo prémio, “Bienal Internacional de Arte de Espinho”, foi entregue a Diana Costa, com a obra “Além do Conflito: A Mão que Une e Constrói”, acrílico e colagem sobre tela de 2024. Através dela, a artista oferece-nos o seu olhar pleno de simbolismo sobre os memórias doces de um tempo que se saboreava com deleite, em contraciclo com o mundo de hoje, a correr a mil à hora. O terceiro prémio, “Prémio Especial do Júri”, distinguiu a obra “Objetos Pesados, 2024/25”, de Cecília Lima, uma instalação dada a múltiplas interpretações e que representa, em última análise, uma cidade imaginária com um conjunto de edifícios unidos por aquilo que os separa.

O júri decidiu atribuir menções honrosas a Maria Meijide, com “Memórias, blá, blá… 2023”, Nicoleta Sandulescu, com “Habitar o Corpo, 2022/2023”, Susana Bravo, com “Joint Present, 2023”, Benedita Kendall, com “Esforços Construtivos, 2024”, Rita Paupério, com “Where the Wind, 2025”, José João, com “CUM LAUDE, 2023”, Mariana Laginha, com “Colchões, 2024” e Carlos Trindade, com “Em Tempos de Guerra (Ucrânia) II, 2023”. É bom cruzar o olhar com as obras enunciadas, mas a Bienal não se esgota nelas e há todo um conjunto de outros trabalhos igualmente dignos de nota. Ao contrário de anos anteriores, há menos “caras conhecidas” este ano, o que é sinónimo de vitalidade e renovação. Destacaria a presença de Mariana Duarte Santos e da Inês Pargana, duas extraordinárias artistas que nos oferecem a excelência do seu trabalho. Vale a pena, ainda, espreitar a explosão de cor de “Setênios”, de Joana Antunes, a geometria de “Desconstrução dos Cristais”, de Ari Vicentini, um excelente “N.1 (Piedade pela Carniça)”, de Luís Rodrigues ou o trabalho têxtil de Marita Setas Ferro. Boas visitas!

quinta-feira, 1 de agosto de 2024

EXPOSIÇÃO DE PINTURA: "Pinturas do Silêncio"



EXPOSIÇÃO DE PINTURA: “Pinturas do Silêncio”,
de Maria Antónia Santos
Organização e curadoria | António Santos Meireles, Amélia Soares
Museu Municipal de Espinho
27 Jul > 28 Set 2024


“Expondo exponho-me. O medo é sempre presente porque não gosto de me expor e me obriga a um olhar atento sobre mim e o meu trabalho. Gosto do silêncio, um silêncio gordo e quente, outras vezes um silêncio gelado que corta. O meu trabalho é fruto dos muitos silêncios, de memórias, de olhares... Esta exposição é tudo isso, para trás ficou a figuração a qual já nada me dizia, me controlava. Gosto da matéria, tocando-a de a sentir, de explorar materiais os mais inusitados, utilizá-los e por vezes destruí-los. Assim se gera o trabalho em luta silenciosa.”

Há ervas açoitadas pelo vento, pontas de cordas que o mar despejou na praia, roupa a secar num varal. Há um buraco na parede, dois corpos que se abraçam do outro lado da cerca, um Verão contra o muro esparrinhado. Há livros em desalinho sobre uma mesa, uma fruteira com limões, uma janela aberta sobre a paisagem. Há um galo altivo de crista vermelha, um cavalo-marinho em equilíbrio instável, pássaros que se passeiam no sonho. Um peixe tenta furar a floresta de algas, uma lebre sobe velozmente a duna de areia. Para além da ponte adivinha-se o meandro de um rio. Há ondas que se desfazem com estrépito de encontro às rochas e um barco de vela latina, “como um deus passeando pela brisa da tarde”. Há palavras que são como arame farpado no fim de um mar que é só de alguns. Há um ruído surdo num pingo de sangue e uma palavra muito bela numa caligrafia insegura: Contigo. Há cores (poucas) e há silêncio (muito).

Como um longo e belo poema, assim é “Pinturas do Silêncio”, de Maria Antónia Santos, exposição antológica que abrange um arco temporal de 2010 a 2024 e pode ser vista até ao dia 28 de Setembro nas Galerias Amadeo de Souza-Cardoso do Museu Municipal de Espinho. Feito de gestos delicados e de palavras subtis, o trabalho da artista preenche de poesia o espaço do Museu, convidando o visitante a encontrar nele a sua própria identidade, no que nela há de concreto ou no que nem nos sonhos se adivinha. “Existir é beber não porque se tenha sede”, dizia Annie Ernaux no seu livro “Os Anos”, levando-nos a olhar para o que é dado por adquirido, no qual não se atenta e que, todavia, vive em nós e faz viver. Então, num golpe de magia, a vida irrompe da tela, abraçando-nos naquilo que nela há de mais palpável, na calma como na tempestade, na dor como no amor.

Maria Antónia Santos nasceu e vive em Lisboa. Formada pela Escola de Artes Decorativas António Arroio e licenciada em Pintura pela Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa, foi bolseira da Fundação Calouste Gulbenkian em França, onde aprofundou os seus conhecimentos em Tapeçaria. A artista também fez parte do corpo docente da Escola Artística António Arroio e é membro da Association International des Arts Plastiques (UNESCO), tendo representado Portugal na “8th International Tapestry” em Lodz, Polónia. Realizou exposições em Portugal, Espanha, Itália, Alemanha, França, Polónia e Finlândia. Foi premiada com Menções Honrosas em Barcelona e Estoi, medalhas de Bronze em Portimão e Estoril e com o 2º Prémio ERA ART de Gdynia, Polónia. A sua obra faz parte de colecções particulares em França, Reino Unido, Itália, Portugal, Espanha, Alemanha, França, Polónia e Finlândia.

segunda-feira, 8 de abril de 2024

EXPOSIÇÃO: “Liberdade - 50 anos, 50 mulheres, 50 dias”



EXPOSIÇÃO: “Liberdade - 50 anos, 50 mulheres, 50 dias”
Vários artistas
Museu Municipal de Espinho
08 Mar > 27 Abr 2024


Evocando a Revolução dos Cravos, o Museu Municipal de Espinho apresenta “Liberdade - 50 anos, 50 mulheres, 50 dias”, exposição onde se cruzam a pintura, o desenho, a escultura, a fotografia, a gravura, a cerâmica e a instalação. São 50 obras de 50 mulheres que, ao longo dos anos, deram a Espinho o privilégio de aqui apresentarem os seus trabalhos e que, para esta mostra, aceitaram partilhar o próprio sentir de liberdade. Tendo o 25 de Abril como mote das mais variadas formas de entendimento e expressão de um tempo aberto à igualdade, à justiça e à democracia, as artistas dão-se a ver no que têm de criatividade e sensibilidade, ousadia e irreverência. Ainda que de forma indirecta, são trabalhos que se inscrevem numa iconografia vasta e impressiva, assumindo-se como meios de intervenção no espaço social e político, no que neles há de denúncia e protesto, de reivindicação e afirmação.

Espaço aberto a todos os géneros, sensibilidades e formas de expressão artística, o Museu Municipal de Espinho e os seus responsáveis sempre tiveram para com as mulheres artistas uma especial deferência. Se provas fossem precisas, bastaria lembrar que um dos momentos mais altos da programação deste espaço é, em anos ímpares, a Bienal Internacional de Arte de Espinho, a qual, nas suas primeiras quatro edições, teve a designação de “Bienal Internacional Mulheres d’Artes” e destinava-se a um público exclusivamente feminino. Neste que é “o tempo das mulheres” (nome de uma exposição - e um livro - de Alfredo Cunha, outro artista que, com as suas fotografias, já ocupou as paredes das galerias Amadeo de Souza-Cardoso), deixemo-nos fascinar pela diversidade e beleza dos trabalhos expostos, abarcando com o pensamento a multiplicidade de propostas e vendo no seu conjunto um abraço a quem nos deu “o dia inicial inteiro e limpo”.

A minha visita à exposição foi um momento de afectos nesse reencontro com muitos dos trabalhos aqui apresentados, evocando lugares e contextos diferentes, do Museu Júlio Dinis à Casa da Cultura de Estarreja, da Zet Gallery à Cooperativa Árvore, do Auditório Municipal de Gondomar à Fiação de Lever e aos momentos sempre belíssimos da Bienal Internacional de Arte de Gaia, passando, naturalmente, por muitas das exposições que têm ocupado as galerias do Museu Municipal de Espinho. Foi um tempo feliz, um tempo de voltar a abraçar Manuela Mendes da Silva, Susana Bravo, Ana Torrie, Balbina Mendes, Elizabeth Leite, Yola Vale, Ana Aragão, Lauren Maganete, Ana Maria Pintora, Cristina Troufa, Alvarenga Marques, Inês Pargana, Maria Afonso, Celeste Ferreira, Graça Martins ou Maria Do Carmo Vieira. Mas também de conhecer - e guardar - novas artistas. Até ao dia 27 de Abril, é obrigatório passar por lá.

quinta-feira, 31 de agosto de 2023

CERTAME: 7.ª Bienal Internacional de Arte de Espinho


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CERTAME: 7ª. Bienal Internacional de Arte de Espinho
Museu Municipal de Espinho
01 Jul > 30 Set 2023


O Museu Municipal de Espinho acolhe, até 30 setembro, o seu evento de referência no âmbito das grandes mostras de artes plásticas nacionais e internacionais - a Bienal Internacional de Arte de Espinho. Mostra de expressões artísticas que se realiza a cada dois anos, a Bienal deu o pontapé de saída no ano de 2011 e vai já na sua 7ª edição, assumindo-se como a grande “imagem de marca” do Museu. Ao mesmo tempo, constitui-se cada vez mais como plataforma alargada de divulgação e promoção das artes plásticas, bem como de reconhecimento das respetivas criadoras e criadores. Assim foi uma vez mais na edição deste ano, com um conjunto de cerca de meia centena de obras a merecerem um lugar de destaque nas Galerias Amadeo de Souza-Cardoso, a valência do Museu dedicada a exposições de Arte. São essas obras que o visitante vai poder apreciar, percebendo a grande variedade de géneros, estilos e suportes que as distinguem entre si e tornam a mostra extraordinariamente eclética, abrangente, desafiante e emotiva.

Com a obra “Palimpsest (memory, family and repetition)”, Eva Resende conquistou o primeiro prémio da Bienal Internacional de Arte de Espinho, com o júri a destacar, “enquanto pintura, um processo de representação estreitamente ligado a uma lógica de arquivo, da memória, da linguagem escrita e de um processo de manufactura pictórico e da imagem.” O segundo prémio foi atribuído à obra “The Pool”, de Ricardo Passos pela “qualidade da pintura, a composição da obra numa grelha narrativa, embora fragmentada com uma componente poética num tratamento formal entre o recorte da paisagem e do lugar, por exemplo uma janela, enquanto lugar de intimidade, a casa.” Quanto ao terceiro prémio - “Prémio Especial do Júri”, foi atribuído à obra “Calçada #2”, de Ana Ferreira. Para justificar a sua escolha, “o Júri atendeu à prática do desenho, como objeto escultórico no espaço do espectador de que o seu título ‘Calçada #2’ remete para uma ideia poética de itinerário, do qual só ficamos a conhecer uma parte, dado o tratamento formal do objeto.”

As menções honrosas foram atribuídas a “Sem título” de Josefina Dias, “Paisagens Cinzentas” de Neide Carreira, “Leva-me este recado ao cais” de Samuel Ornelas, “(de)CODE,(de)COMPOSITION de Susana Chasse e “Anémonas Brancas” de Setas Ferro. Numa óptica muito pessoal, destacaria também “Set off with an intention” de Susana Bravo, pela fidelidade a um universo pessoal que pontua toda a sua obra. “Subtilezas” de M. Lurdes Pinto revela-nos os jogos de luz numa paisagem de sombras. “Fora da Caixa” de Idalina Rosa é um imaginativo e poético “tangram”. “Family Tree” de Alvarenga Marques desconstrói a formalidade do retrato, acrescentando-lhe um toque de rebeldia. “Kristalwerk” de Marques Calvino faz uma aproximação feliz ao universo da Arte Bruta. “Dum Spiro Spero” de Daniela Reis é um notável conjunto de quatro pinturas, quatro reflexões sobre os problemas que ensombram os nossos dias. “Cordillera” de Fernando Aranda destaca-se pelo tom classicista. Finalmente, “Can you observe me, please?” é um brilhante exercício de composição que coloca em perspectiva o real e o aparente.

terça-feira, 21 de março de 2023

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "Lúgubre" | Filipe Braga


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EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Lúgubre”,
de Filipe Braga
Museu Municipal de Espinho | Galerias Amadeo de Souza-Cardoso
28 Jan > 01 Abr 2023


Coerente com os princípios de qualidade e exigência que vêm norteando a programação do Museu Municipal de Espinho, encontra-se patente ao público, por estes dias, a exposição de fotografia “Lúgubre”, de Filipe Braga. Preenchendo um arco temporal que vai de 2007 a 2022, a mostra apresenta-se no belíssimo espaço das Galerias Amadeo de Souza-Cardoso e é definida pelo artista como “uma viagem interior”. As imagens que se oferecem ao nosso olhar são a expressão de um sentir profundamente introspectivo e íntimo, face à forma como o artista vê o mundo actual. Entre o real e o encenado, são imagens que Filipe Braga correlaciona com a verdade e que se inscrevem em temas assentes na vida e na morte: Despojamento, asfixia, abandono, raiva, frio, nudez, silêncio. “O sangue coagulado. O silêncio do sangue”.

Com uma estética própria, enraizada na abstracção e na inquietude, Filipe Braga prende a atenção pela forma como explora a gradação do preto e branco, numa deriva pela neutralidade das cores que resulta intencional e profundamente perturbadora. A apropriação da fotografia para, através dela, questionar o mundo que o rodeia, está na base do trabalho do artista. Mimetizando as imagens, as respostas oferecem-se entre o objectivo e o enigmático, o provocante e o abstracto, ora nítidas ora indefinidas. Qual o significado de uma lua em quarto crescente, de um saco de plástico à volta da cabeça, de uma mão do lado de lá do vidro, de um Cristo crucificado?  Preso à marcha inexorável do tempo, àquilo que é incerto ou indefinido, a uma pandemia que nos tirou o ar ou à fé que perdemos, o pensamento procura alinhar-se com o do artista. As interrogações cruzam-se, prolongam-se, multiplicam-se. (Cá dentro inquietação, inquietação.)

Em “Lúgubre”, Filipe Braga quis ter ao seu lado cinco artista com quem tem uma relação próxima e que são referências incontornáveis e fonte de inspiração dos seus trabalhos. Desde logo o pai, José Luís Braga, a quem o artista se refere como o seu “primeiro grande mestre”. Depois o escritor Daniel Jonas, autor da sinopse em forma de poema que nos acolhe à entrada das Galerias. E ainda os artistas Lázaro Pinto da Silva, Luís Zuluaga e Ricardo Raminhos, respectivamente autores de uma instalação, de uma pintura e de uma belíssima instalação vídeo denominada “The Human Show Stall”. São diálogos que reforçam essa ideia de busca e de reinterpretação impressa no trabalho do artista. “Lúgubre” é uma exposição que reafirma a ligação entre a arte e a vida, disposta a inquietar-nos, mais do que a apaziguar-nos. Um conjunto de imagens que mostra que o bem e o mal não são uma questão de cor e que é no silêncio que se abrigam todos os ruídos do mundo.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2022

EXPOSIÇÃO DE PINTURA: "Menino do Coro"


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EXPOSIÇÃO DE PINTURA: “Menino do Coro”,
de Ricardo de Campos
Museu Municipal de Espinho
24 Set 2022 > 07 Jan 2023


“Menino do Coro”, a exposição que até ao próximo dia 07 de Janeiro está patente ao público na Galeria Amadeo de Souza-Cardoso do Museu Municipal de Espinho, lança um olhar sobre o conjunto da obra que o artista plástico monçanense Ricardo de Campos vem desenvolvendo ao longo do último quarto de século. Recorrendo a uma estreita paleta de cores, trabalhando sobre os mais diversos materiais e acrescentando à pintura técnicas como a colagem e o desenho, Ricardo de Campos propõe-nos a visão de um mundo refém de traumas e mitos, desordenado e anárquico, contraditório nos seus pressupostos, inconsistente e precário. Um mundo agitado e febril, a viver das aparências, amalgamado na sua ânsia ostentatória, o luxo e o lixo como faces de uma mesma moeda. Um mundo feito à imagem dos que o habitam, gente que olha para um lado e assobia para o outro, muito “Deus, Pátria e Família”, que não tem pejo em dizer que “é disto que o povo gosta”. Um mundo que é o do artista. E que é o nosso, também.

Há um sentido de transgressão que se espalha e contamina a pintura de Ricardo de Campos. Tanto de um ponto de vista formal quanto no seu conteúdo e nas mensagens que lhe estão associadas, percebe-se uma clara intenção de colocar em questão o cânone. “Turn Me”, uma das obras que primeiramente avistamos ao entrar na Galeria, é disso um bom exemplo. Aliada à pintura naturalista, a moldura remete para um todo classicista que o produto final contraria em absoluto, com as suas pinceladas a “esconderem” a maior parte do quadro, ao mesmo tempo que põem em evidência aquilo que geralmente fica na sombra. Transgressão que se acentua na forma como “vandaliza” várias das suas obras com inscrições sucedâneas do grafiti, na descaracterização que faz de um conjunto de sinais de trânsito, na apropriação de sapatos, bolsas, persianas, tijolos e outros suportes de uso doméstico aos quais oferece um cunho artístico, no voyeurismo que se debruça sobre a figura da mulher.

A mulher é outro dos elementos-chave na obra do pintor. Nas mais variadas poses, de blusa ou em sutiã, de biquini ou a mostrar os seios, cabeça erguida ou olhar no chão, altiva ou submissa, sentada ou por terra, sozinha ou na companhia de outras mulheres, a sua figura repete-se e multiplica-se, fonte de vida, sensualidade e beleza, ardente, intensa, irresistível. Praticamente ausente, a figura do homem apenas se insinua na medida em que destaca a preponderância da mulher, ao mesmo tempo que reforça a tónica voyeurista do imaginário de Ricardo de Campos. São as mulheres que, desenhadas de forma simples ou meramente esboçadas, ocupam os espaços em branco que emprestam às obras o seu ar inacabado. São delas os lábios que mergulham num beijo ou os rostos que se abrem num gesto de indiferença ou solidão, perdão ou suplica, desespero ou paixão, raiva ou pecado. São elas que, inteiras e livres, se mostram senhoras de si mesmas e do seu destino. E nós, “meninos do coro”, a vê-las passar.

quinta-feira, 7 de julho de 2022

EXPOSIÇÃO DE PINTURA: “Cabral Pinto. 75 Anos | Olhar o Tempo no Futuro Que Passa”


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EXPOSIÇÃO DE PINTURA: “Cabral Pinto. 75 Anos | Olhar o Tempo no Futuro Que Passa”,
de Cabral Pinto
Museu Municipal de Espinho
18 Jun > 02 Set 2022


“Em Tudo Havia Beleza”. Afirmativa, a frase fui “roubá-la” ao título de um livro de Manuel Vilas ao ver-me rodeado de tanta cor, vida e alegria. De tanta beleza. O espaço é o das galerias Amadeo de Souza-Cardoso, do Museu Municipal de Espinho, e os trabalhos são de Cabral Pinto, artista visual e interventor cultural, nascido em Espinho há três quartos de século. Num convite a “olhar o tempo no futuro que passa”, Cabral Pinto desafia-nos a mergulhar nesta “espécie de antologia que, não sendo uma retrospectiva fechada, propõe uma visão reflexiva sobre a produção artística pessoal de mais de cinco décadas”. Aceitemos o convite e partamos à descoberta. O tempo que se segue será de prazer e deleite, a começar pela visão do trabalho dos artistas Fernando Saraiva, Manuel Porfírio, Sá Coutinho e Sobral Centeno, quatro ilustres convidados cujos trajectos de vida e na estória da criação artística e intervenção sociocultural se fundem com o de Cabral Pinto, num brinde à amizade e à cumplicidade.

Organizada em torno de quatro núcleos relativamente autónomos - obras iniciais e da juventude, obra gráfica, obras da maturidade e da actualidade e projecto “As Burkas” -, a exposição revela uma sólida unidade estética e formal, permitindo que o nosso olhar flua sem sobressaltos. É tempo de nos dedicarmos àquelas figuras que, aos pares ou em pequenos grupos, nos observam a partir da tela e dialogam connosco. Sorridentes, tagarelas, acenam-nos e piscam-nos o olho, ou então fazem uma careta e deitam-nos a língua de fora, mesmo que os seus olhos, a sua boca ou o seu nariz se mostrem ausentes nos rostos alongados. Falam connosco mas pressentimos que falam também entre si, sobre o seu quotidiano, o que trazem vestido, os planos para o almoço, o que ouviram dos outros e o que pensam de si próprias, de como será o dia de amanhã. À sua volta há frutos a amadurecer nas árvores, girassóis que crescem em vasos e pássaros coloridos a sobrevoar o Canal da Mancha.

É uma felicidade poder descansar o olhar nestes trabalhos de Cabral Pinto e desfrutar de formas tão belas e harmoniosas, vibrantes de expressividade, pródigas de sedução e fascínio. No colorido de cada pincelada, é todo um mundo de sonho e fantasia que se abre à nossa imaginação. No ondulado de cada linha, há gente de carne e osso, gente como nós, que vive e sente e ama e sofre. Com facilidade nos perdemos em cada quadro, tão intenso é o seu apelo, tão quente e acolhedora a sua mensagem. Uma mensagem que é um afago aos sentidos e que nos vem dizer que a vida, com todo o seu manancial de promessas e desejos, carece de ser vivida intensa e apaixonadamente. Se tiver uma oportunidade de dar um pulo a Espinho, diria que esta é uma exposição imperdível. Pode, inclusivamente, fazer um extraordinário “dois em um” e visitar, no mesmo espaço, um conjunto de trabalhos fotográficos de enorme qualidade e sentido com assinatura de Lauren Maganete. De que está à espera?

segunda-feira, 27 de junho de 2022

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "2121 Retrospectiva ou Talvez Não!"


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EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “2121 Retrospectiva ou Talvez Não!”,
de Lauren Maganete
Museu Municipal de Espinho
18 Jun > 02 Set 2022


Os pés. É neles que reparamos quando adentramos a ala sul das Galerias Amadeo de Souza-Cardoso, do Museu Municipal de Espinho. Impressos a preto e branco, numa lona magnífica de dimensões generosas, são pés de festa, ricamente calçados, as meias altas com um desenho gracioso, a barra da saia bordada. Serão pés de mulher, que os homens, esses, pressentem-se na figura do bombo que, num plano desfocado, se permite adivinhar ao longe. Estáticos, os pés aguardam. Antevemos o momento em que a batida se fará sentir, o som grave a estalar na sala e os pés a lançarem-se no ar, a emaranhar-se, numa coreografia de gestos que subirão pelo corpo, se prolongarão nos braços ondulantes e nas mãos que, batendo uma na outra, ampliarão a folia. Mas isto foi ontem, que foi domingo e o salão da Casa do Povo se fez alegre. Hoje é segunda. Talvez os pés que vemos noutra tela sejam os mesmos, pisando agora a calçada empedrada a caminho do emprego, vestidos de salto alto, circunspectos e resolutos. Elegantes, sempre.

As mãos. Seguram um queixo, pousam num ombro, levam um cigarro à boca ou abraçam o corpo nu. Espalmam-se sobre a beira de uma cómoda, estendem-se para uma cadeira suspensa, envolvem-se uma na outra, rodopiam, deixam-se cair, escondem-se. Exibem anéis simples ou pulseiras. Noutros casos mostram-se como são, apenas com as suas formas e as suas veias, ora leves e graciosas, ora nodosas e a acusar os anos e o desgaste. São origem ou prolongamento, a parte do corpo que descansa ou o todo que não ousa disfarces. Estão sempre lá, mesmo quando não estão. Desfazem-se numa desculpa, abraçam-se numa prece, erguem dedos que são ponteiros, seguram uma máquina fotográfica. Aqui revelam, ali disfarçam. São a verdade mais pura ou o mais puro teatro. São Maria e são Medeia.

O corpo. Estático ou em movimento, cuidadosamente vestido ou exposto na sua nudez. Firme e decidido ou em equilíbrio instável. Repartido entre a pose, o gesto e o olhar. Altivo ou submisso. Corpo inteiro ou meio corpo. É isto que encontramos em “2121 Retrospectiva ou Talvez Não!”, conjunto de imagens de Lauren Maganete que evidenciam uma artista particularmente atenta ao detalhe, deixando ao cuidado e à sensibilidade do observador o trabalho de prolongar a imagem para além do que ela mostra. Trata-se de um exercício fascinante, pondo à prova os sentidos e implicando a memória e a imaginação nesse processo de ampliação e preenchimento que acarta consigo cores, sons, texturas, aromas e gostos. Gente conhecida - de Elizabeth Leite a Sónia Travassos, de Eunice Muñoz a Cruzeiro Seixas, de Vieira Duque a Aurora Gaia - ou ilustres desconhecidos, são vistos com o mesmo gosto e enlevo pela lente de Lauren Maganete, naquilo que podemos considerar como um verdadeiro hino à vida. Benvindos todos ao salão de festas.

quarta-feira, 27 de abril de 2022

EXPOSIÇÃO DE PINTURA: "A Segunda Pele" | Balbina Mendes


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EXPOSIÇÃO DE PINTURA: “A Segunda Pele”,
de Balbina Mendes
Museu Municipal de Espinho
09 Abr > 28 Mai 2022


Depus a máscara e vi-me ao espelho.
Era a criança de há quantos anos.
Não tinha mudado nada…
É essa a vantagem de saber tirar a máscara.
É-se sempre a criança,
O passado que foi
A criança.
Depus a máscara e tornei a pô-la.
Assim é melhor,
Assim sou a máscara.
E volto à personalidade como a um terminus de uma linha.

Fernando Pessoa


Fernando Pessoa, a máscara personificada na múltipla heteronomia, é figura omnipresente em “A Segunda Pele”, conjunto de trabalhos de Balbina Mendes que se propõem abordar um dos objectos mais presentes na rotinas dos dias de hoje. Contaminada por Pessoa e pela sua poesia, especificamente a que diz dos inúmeros que habitam em cada um de nós, a pintura da artista surge-nos numa nova dimensão, mais claramente viva, mais desconfortantemente real. É a partir do Pessoa que emerge de um turbilhão de poemas e heterónimos que a artista parte para uma abordagem plástica diferente, propondo-nos uma reflexão sobre o significado e alcance da máscara, o seu simbolismo e o paradoxo que encerra no tanto que mostra como disfarça. Na vastidão das Galerias Amadeo de Souza-Cardoso do Museu Municipal de Espinho, encontra o visitante um conjunto de exemplos em que a associação rosto-máscara permite valorizar aspectos como a alteridade, a ocultação, a transfiguração, o mistério e o disfarce de identidade.

Pegando nas palavras da artista, esta série de pinturas “resulta do fascínio pela máscara, símbolo do outro, ou dos inúmeros que habitam cada ser humano. Assim, a máscara pode ser percepcionada num ícone ancestral, num poema, nas camadas de tinta sobrepostas, ou no plexiglas que se sobrepõem a um rosto. A Segunda Pele são as múltiplas máscaras que ocultam e denunciam, obliteram e revelam… No caso do plexiglas, camada exterior que se introduz nesta série, só por si funciona como dupla máscara. É como um filtro que, por um lado, distancia o espectador da superfície da tela; por outro, adiciona uma nova imagem e grafismo à pintura. Simultaneamente, o reflexo do plexiglas convoca o observador a interagir com a obra, ao ver a sua imagem projectada para além do rosto que observa, adicionando-lhe uma nova máscara, uma outra pele.”

sábado, 12 de junho de 2021

CERTAME: 6ª. Bienal Internacional de Arte de Espinho


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CERTAME: 6ª. Bienal Internacional de Arte de Espinho
Museu Municipal de Espinho
25 Abr > 19 Jun 2021


“Constitui-se como uma forma de pensar a arte contemporânea nestes tempos mais adversos que estamos a viver, transformando-a num poderoso meio de comunicação cultural e levando-a até ao grande público através da imaginação e criatividade de artistas oriundos de diversas paragens deste nosso planeta, que embora enfermo, não deixa de ser um espaço de oportunidades para a construção de um identidade estética, que se quer diferente nas suas formas e cores, livre por natureza, mas sempre fraterna e desempoeirada.” É desta forma que se apresenta a sexta edição da Bienal Internacional de Arte de Espinho, certame organizado pela Câmara Municipal de Espinho e pela Junta de Freguesia de Espinho, com o patrocínio da Solverde.

Podendo ser vista até ao próximo dia 19 de Junho no amplo espaço das galerias do Museu Municipal de Espinho, a Bienal de 2021 acolhe 61 obras nas áreas do desenho, pintura e escultura, seleccionadas de um total de 240 candidaturas. São obras cujo posicionamento artístico é decididamente contemporâneo, original e inovador, e de inegável qualidade estética, técnica e artística. Ao mesmo tempo, são obras que reflectem a visão dos artistas e a forma como se posicionam face ao mundo, sendo particularmente relevantes as propostas “Artista Imigrante” de Samuel Ornelas, “2021” de Cris DK., “Estranheza Familiar II”, de Irina Sandulescu, “Senti Sem Ti”, de Inês Paixão e “Pequena Sereia: SOS ou omito”, de Diogo Nogueira, a obra que arrebatou o Prémio Solverde, Casinos - Hotéis.

Das restantes obras presentes nesta edição, destacaria “Ensaio sobre a experiência de ser inútil” de Pedro Cunha, obra que seria agraciada com uma menção honrosa, “Segundo Azul” de Simão Martinez e “Waiting”, de Marta Belkot, também ela merecedora de uma menção honrosa. “Eis dite à vista”, a peça de Ana Torrie que se impõe bem no centro de uma das galerias, foi para mim um reencontro e não me canso de a admirar, para além da mensagem implícita e que remete para “Inferno” de Dante, pela sua qualidade técnica, labor e enorme beleza. “A mão tem língua”, uma cerâmica de Carolina Garfo, um excelente óleo sobre tela, de João Abel Mota, intitulado “Interior com um corpo e um pássaro ou a recepção do espírito santo” e ainda “GRETE SAMSA Love & Life” de Migvel Tepes e “Entre Montanhas” de Fernando Aranda González, igualmente merecedor de uma menção honrosa, completam as propostas que geraram em mim uma maior admiração.

sábado, 16 de janeiro de 2021

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "Quatro Tempos e Mais Um" | Alfredo Cunha


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EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Quatro Tempos e Mais Um”,
de Alfredo Cunha
Museu Municipal de Espinho / FACE
27 Nov 2020 > 29 Jan 2021


“Este Alfredo Cunha de quem se fala é o homem com a sua câmara e o seu olhar. Qualquer bom fotojornalista, e é assim que o conhecemos, intui, antes de o saber claramente, que uma imagem, que deve encerrar todo um conteúdo e uma sedução, é, sempre foi, um momento decisivo. (…) Na longa carreira de 50 anos de Alfredo Cunha, muita coisa mudou: o país que fotografa; o equipamento que usa – já longe da primeiríssima Petri FT, da Leica M3, que começou a usar em 1973, e das Leicas que se seguiram e a que se manteve sempre fiel; o suporte – do analógico, maioritariamente preto e branco, ao digital, que pratica desde 2003. A sua prática estendeu-se à edição, o que lhe permitiu olhar para os outros e definir com clareza o seu próprio caminho. Mas o fotojornalismo continua a ser a sua linguagem preferencial: o seu olhar depurou-se, mas não se alterou substancialmente.”
Teresa Siza

Não estava pensada para ser “uma grande exposição”, mas o Museu Municipal de Espinho / FACE, cujo espaço Alfredo Cunha desconhecia e que tanto o impressionou, assim o determinou. Aproveitando o facto de estar a comemorar 50 anos de uma carreira notável a muitos títulos, o foto-jornalista resolveu avançar para uma exposição retrospectiva a que chamou “Quatro Tempos e Mais Um”. Quatro tempos que correspondem ao período “antes do 25 de Abril, o mesmo 25 de Abril, a descolonização e depois o que se segue em termos de política internacional”, disse. O “mais um” é o tempo presente, este tempo de pandemia que é também um tempo de angústia e incertezas.

Abrindo uma janela sobre o mundo que habitamos, em particular sobre o nosso país e a sua diáspora de influência, Alfredo Cunha toca-nos pela sua forma de ver atenta e sensível. Das festas religiosas à vida monástica, das lidas da terra à faina do mar, das grandes massas de gente ao ensimesmamento de quem vive a sós consigo próprio, é a alma da gente que se abre ao nosso olhar, entre rostos e gestos belos e únicos. Como escreveu António Barreto, em Alfredo Cunha temos “a fotografia cara-a-cara, olhos nos olhos (...) que inclui os sinais do ambiente, as montanhas vinhateiras, o mobiliário urbano, a sucata, a charrua, o andor de procissão e o cesto de uvas. É quase imperceptível, mas o essencial está lá, em cada imagem: tudo o que é preciso para que se perceba o homem e a sua condição.”

Ao longo de mais de duas centenas de imagens, revivemos as emblemáticas séries de fotografias dedicadas ao 25 de Abril de 1974, o doloroso processo da descolonização portuguesa ou os impactos do PREC, ao mesmo tempo que regressamos a 1989 e à queda do ditador Ceausescu ou acompanhamos as tropas portuguesas na guerra do Iraque. E porque o espaço o permite, esta mostra é complementada com uma “galeria de retratos” cedida pela Sociedade Portuguesa de Autores, onde encontramos muitas das personagens que são parte importante da nossa História recente e que se submeteram ao escrutínio da lente do artista. Interrompida de forma extemporânea graças às medidas governamentais que esqueceram que “a cultura é segura”, a exposição retomará (ou não) o seu ciclo normal após o levantamento do Estado de Emergência. É nisso que pomos “toda a esperança do mundo”.

sábado, 15 de agosto de 2020

EXPOSIÇÃO DE PINTURA: “Do Ponto Vermelho à Cidade Geométrica” | Nadir Afonso


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EXPOSIÇÃO DE PINTURA: “Do Ponto Vermelho à Cidade Geométrica”,
de Nadir Afonso
Museu Municipal de Espinho / FACE
08 Ago > 10 Out 2020


As Galerias Amadeo de Souza-Cardoso do Museu Municipal de Espinho acolhem, até ao dia 10 de Outubro de 2020, uma exposição evocativa do centenário de nascimento de Nadir Afonso. Com curadoria de Laura Afonso e organização do Museu Municipal de Espinho e da Fundação Nadir Afonso, "Do Círculo Vermelho à Cidade Geométrica” apresenta um conjunto de meia centena de obras do pintor que são, em si mesmas, um convite a uma viagem fascinante pelo percurso de Nadir Afonso, desde os finais dos anos 40 até alguns inéditos produzidos na fase final da sua carreira artística.

As vincadas facetas de Nadir Afonso como arquitecto, pintor e pensador estão bem patentes nesta mostra. Sendo verdade que, ao percorrer as imensas galerias, a pintura é, desde logo, a arte que se impõe aos olhos do visitante, não é menos verdade que os traços arquitectónicos que definem o espaço e se projectam nas cidades, por exemplo, bem como os elementos que sugerem ou convocam, são aquilo que de mais chamativo encontramos na maioria dos trabalhos. Aos referenciais assentes na geometrização das formas e num cromatismo vibrante, acrescenta Nadir Afonso o seu pensamento teórico-filosófico, segundo o qual “a arte é puramente objectiva e regida por leis de natureza matemática, que a tratam não como um acto de imaginação, mas de observação, percepção e manipulação da forma”.

Ao visitante oferece-se a possibilidade de contactar com obras representativas dos diversos períodos em que podemos dividir a carreira artística de Nadir Afonso, começando pelo abstracionismo geométrico e pelo período barroco dos anos 40 e início de 50 e prosseguindo com a depuração dos conjuntos pictóricos que ficaram conhecidos como Espacilimités e com os períodos ogival e perspéctico, que vão, sequencialmente, até finais da década de 1980. A fase final da vida do pintor introduz a figura humana na sua obra, dando origem ao período organicista e antropomórfico do qual "Sirènes”, "A Cidade Longínqua” ou "Les femmes et le chien” são notáveis exemplos, remetendo para longos dias estivais e para um espaço onde se adivinha a presença do mar e que poderia muito bem ser a cidade de Espinho.

Mas é do período fractal, assumido em pleno século XXI, que nos surgem as obras mais impactantes. Ora recta ora curva, a linha assume agora uma liberdade total, sugerindo metrópoles vivas, arrojadas. Os confrontos entre as linhas e as formas geométricas puras surgem-nos em todo o seu esplendor. Nas formas complexas descobrem-se referenciais naturalistas e as obras tornam-se cada vez mais exuberantes, evocando grandes centros urbanos como Pequim, Kuala Lumpur, Abu Dhabi, Toronto, Dusseldorf, Paris ou a cidade do Porto. Por tudo isto e pelo muito mais que fica por dizer e que o visitante saberá reconhecer, “Do Ponto Vermelho à Cidade Geométrica” é, no campo da cultura, um dos grandes acontecimentos deste ano tão atípico. Que seja o Museu Municipal de Espinho a promove-lo é algo que se saúda com entusiasmo. Uma exposição a não perder!

sexta-feira, 14 de junho de 2019

CERTAME: 5ª. Bienal Internacional de Arte de Espinho


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CERTAME: 5ª. Bienal Internacional de Arte de Espinho
Museu Municipal de Espinho
25 Abr > 22 Jun 2019


Está a chegar ao fim a 5ª. Bienal Internacional de Arte de Espinho, certame que, ao longo de dois meses, juntou na extraordinária galeria de exposições do Museu Municipal de Espinho criadores de ambos os sexos - recorde-se que as quatro edições anteriores, designadas “Bienal Internacional Mulheres d’Artes”, faziam uma certa distinção de género, algo que foi agora, muito justamente, abolido. Importa desde já partilhar uma ideia que mais não é do que uma repetição daquilo que afirmei no espaço do blogue sobre a Bienal de Gaia, há duas semanas atrás: É que não é todos os dias que, num mesmo espaço, qualidade e quantidade se oferecem aos nossos olhos sob a forma de arte. Foi, pois, imerso em criações de enorme interesse e beleza que percorri o espaço que acolhe este certame, ao encontro do muito que de bom se vai fazendo entre nós.

Mário Vitória, Isabel e Rodrigo Cabral e Sofia Areal foram os artistas convidados desta mostra, apresentando os seus trabalhos ao lado de um conjunto de obras de 41 artistas nacionais e estrangeiros, selecionados a partir de 268 candidaturas de criadores de 17 países. O peso dos nomes dos convidados, porém, não toldam aqueles dos concorrentes, alguns porque também já conquistaram o seu espaço no meio artístico e têm o “seu público”– citaria Balbina Mendes e Maria Beatitude a título de exemplo –, e outros que, por via de trabalhos magníficos e que o júri desta Bienal viria a distinguir, se revelam plenos de genialidade e talento.

“It Was Yesterday”, um óleo sobre tela do jovem vimaranense Rafael Oliveira representando o interior em ruínas de uma habitação, é um trabalho notável, o enorme rigor da composição a remeter para a fotografia e a prender o visitante pela sua beleza intrínseca. Ombreando com ele, podemos ver “Salomé”, outro óleo sobre tela da autoria de Manuel Rodrigues Almeida, “Oscilações”, uma composição de Fábio Araújo sobre pano cru cosido, “Ninho”, de Carmo Diogo, usando técnica mista sobre lençol de linho e o sublime “Composição com Tecidos 4-18”, um trabalho em acrílico sobre juta e lona de algodão cosidos, da autoria de Daniela Ribeiro, isto para citar apenas alguns dos trabalhos expostos. Mas o melhor é passar pelo Museu Municipal de Espinho e fazer a sua própria avaliação. A mostra encerra a 22 de Junho.

domingo, 31 de março de 2019

EXPOSIÇÃO DE PINTURA E DESENHO: "Para Além Disso"


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EXPOSIÇÃO DE PINTURA E DESENHO: “Para Além Disso”,
de Celeste Ferreira
Museu Municipal de Espinho
09 Mar > 14 Abr 2019


Naquilo que distingue cada pessoa, na sua singularidade, reside uma premissa fundamental: a de que jamais poderá entender-se a si própria se isolada do mundo que a rodeia. É a partir do exterior que se espelham as relações pessoais, é desse reflexo que cada um extrai a sua identidade, imagem ou consciência do eu e das suas pluralidades, das facetas projectadas no espelho poliédrico da existência.

Vincando a ideia de que a pessoa não seria a mesma se desligada da sua circunstância, Celeste Ferreira partilha um conjunto de pinturas e desenhos que a devolvem por inteiro ao olhar do visitante. Do simples esboço ao produto acabado, são 111 – número-espelho – os trabalhos que podem ser apreciados por estes dias na belíssima galeria de exposições do Museu Municipal de Espinho, através dos quais a artista se revela naqueles que lhe são mais próximos ou, de forma ainda mais íntima, em auto-representações que são, ao mesmo tempo, espelhos da alma.

Intitulada para “Para Além Disso”, esta exposição encerra um desafio naquilo que se oculta para além do que é revelado. Para o visitante, o fascínio reside no que está escondido e que o visível apenas permite adivinhar, as palavras por dizer por dentro das que são ditas. É toda uma inquietação - quase um conflito entre o visível que se mostra e o visível que se esconde – que prende o visitante, à medida que toma como suas as interrogações da artista. Abertas de par em par as portas da sala de espelhos de Celeste Ferreira, é tempo de, através dela, olharmos bem fundo no interior de nós próprios. Há muito por descobrir!

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

EXPOSIÇÃO DE PINTURA: "Viacrucis - A Pintura como Interrogação"


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EXPOSIÇÃO DE PINTURA: “Viacrucis – A Pintura como Interrogação”,
de Jaime Silva
Museu Municipal de Espinho
19 Jan > 02 Mar 2019


A Galeria de Exposições Amadeo de Souza-Cardoso, no Museu Municipal de Espinho, acolhe até ao próximo dia 02 de Março a exposição retrospectiva de Jaime Silva, “Viacrucis – A Pintura como Interrogação”, com curadoria de Helena Mendes Pereira. Numa parceria com a Fundação Bienal de Arte de Cerveira, propõe-se uma abordagem antológica a partir de cerca de 80 pinturas do artista, às quais se somam mais de duas centenas de desenhos dos seus “Cadernos de Sombras” e “Cadernos de Pesquisa”, cobrindo um espaço temporal superior a quatro décadas, entre 1975 e 2018.

Tendo começado por exprimir a sua pintura através da figuração livre de pendor expressionista, Jaime Silva abraça o abstraccionismo de forma quase compulsiva no início dos anos 1980, com muito poucas concessões até aos nossos dias. Esta transição encontra-se particularmente bem documentada através das obras expostas, intuindo o visitante a interrogação que o artista se colocou a si próprio e que porventura o acompanhou – e acompanha! - sobre a Arte, a sua essência e fundamentos, as formas que pode tomar e os seus próprios limites. Perante conjunto tão vasto de obras, cujo carácter se afasta claramente do imediatismo e convoca a reflexão, não pode o visitante deixar de ser contaminado pelas inquietações expressas e de partir em busca de respostas.

Assumindo-se como uma “Viacrucis”, o percurso artístico de Jaime Silva contempla momentos de dúvida, inquietação e dor, certamente, mas também de uma enorme alegria e de louvor à vida, a paleta de cores vivas a denunciá-lo em muitas das obras expostas. Das telas de grande formato, quase megalómano, o gesto pictórico largo, aos belíssimos desenhos de nus retratados a carvão ou às representações labirínticas da série “Um Olhar Sobre o Palácio”, é toda uma vida dedicada à pintura que se oferece ao olhar do visitante, com tanto de belo como de humano. A não perder!

sexta-feira, 13 de julho de 2018

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "Arte Xávega"


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EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Arte Xávega”,
de Ricardo Fonseca
Museu Municipal de Espinho
07 Jul > 06 Out 2018


O Museu Municipal de Espinho recebe, até ao dia 06 de Outubro de 2018, uma exposição fotográfica de Ricardo Fonseca alusiva à Arte Xávega. Trata-se dum conjunto de 56 fotografias, todas elas a preto e branco, que ilustram, de forma realista, uma arte única e que, mais do que uma tipologia de pesca artesanal, é um modo de vida enraizado nas comunidades que vivem ao pé do mar e que vão de Espinho à Costa da Caparica. Nelas se pode ver o homem pescador, a mulher peixeira, os filhos que seguem o mesmo rumo, as artes que sustentam a faina, o barco em meia-lua, os pujantes e mansos bois ou a profunda religiosidade ligada à consciência duma realidade de dependência do mar, “que tudo dá e tudo tira”.

Da “preparação para a partida” à “distribuição do peixe”, é perfeitamente perceptível nestas imagens a dureza duma vida de mar, o perigo sempre à espreita, meia dúzia de tostões no final do dia para alimentar um rancho de filhos. Na fotografia de Ricardo Fonseca encontramos a névoa fria das manhãs, o esforço colectivo para vencer a rebentação e levar o barco para o largo, as longas esperas envoltas em silêncio, os bois que se enterram na areia, os gritos de alegria à vista dum lanço bom de carapau, os pregões das vareiras. À dimensão económica e social duma arte considerada “menor”, acrescenta o artista as vertentes cultural e identitária, aproximando o espectador do seu trabalho, dizendo-lhe que, do passado para o presente, vai todo um caminho feito de sonhos desfeitos, de sortes desencontradas, de vidas mal vividas.

Uma palavra ainda para esta exposição como prolongamento dum equipamento todo ele voltado para o mar, pólo aglutinador de gentes que em Espinho se instalaram há pouco mais de duzentos anos, atraídos pela pesca da sardinha. Este pedaço da história encontra uma tradução perfeita no Museu Municipal, situado numa antiga fábrica de Conservas, um dos pontos obrigatórios para quem quer conhecer a cidade. Daí a recomendação aos amantes da fotografia a que visitem esta exposição, mas não esqueçam o resto. Também aí, a fotografia funciona como um importante suporte documental do material expositivo. A não perder!

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Ricardo Fonseca é economista e fotógrafo amador desde os tempos de estudante. Participou em largas dezenas de exposições colectivas e expôs individualmente em várias cidades, nomeadamente, Porto, Matosinhos, Lisboa, Coimbra, Braga, Macau, Maputo, Vigo, Pusan, Seul e Quioto. É autor de vários livros de fotografia e co-autor do livro comemorativo da chegada dos portugueses ao Japão, 450 Anos de Memórias, com texto de Michael Cooper. A exposição “Arte Xávega” resulta de um trabalho realizado em 1973 para a participação no Salão Nacional de Fotografia da Cidade de Espinho organizado pela Comissão Municipal de Turismo, onde obteve vários prémios.