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quarta-feira, 3 de junho de 2026

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "Leica Years" | Alfredo Cunha



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Leica Years”,
de Alfredo Cunha
Museu Nacional Soares dos Reis
09 Mai > 26 Jul 2026


Retrospectiva de um nome maior do fotojornalismo, “Leica Years” traz a fotografia de Alfredo Cunha ao Museu Nacional Soares dos Reis. Assinalando os cinquenta anos das Leica Galleries e convocando uma certa mitologia associada à marca alemã, a mostra é um desfilar de imagens icónicas que, no seu conjunto, desenham uma cartografia afectiva da história recente portuguesa e mundial, construída a partir de fragmentos descontínuos de memória, tensão e permanência. Alfredo Cunha não monumentaliza os acontecimentos, antes aproxima-se deles, o olhar permanentemente colado à matéria humana das situações. Seja nos rostos fatigados do interior português, nos instantes decisivos da Revolução de Abril ou nos cenários de África ou do Médio Oriente, as suas imagens não cessam de relevar a densidade silenciosa que subsiste na violência, na fragilidade e nas carências. As imagens expostas mostram que o estilo de Alfredo Cunha não depende da espectacularidade do enquadramento ou do dramatismo artificial da composição, mas sim da capacidade rara de reconhecer o instante exacto em que o real se torna imagem duradoura.

Ao percorrer a exposição, torna-se evidente que o fotojornalismo de Alfredo Cunha não se limita ao registo factual dos acontecimentos. Mesmo nas imagens mais reconhecíveis, existe uma atenção obstinada aos pequenos sinais laterais, aos detalhes aparentemente marginais que sobrevivem ao contexto imediato da imagem. O fotógrafo trabalha frequentemente no limiar entre documento e metáfora, e é isso que impede estas imagens de envelhecerem como simples arquivos históricos. Há nelas uma dimensão humana que ultrapassa a circunstância temporal. Muitas das fotografias apresentadas em “Leica Years” possuem a crueza do testemunho directo, mas simultaneamente revelam uma depuração formal que aproxima Alfredo Cunha da tradição humanista europeia. Não por acaso surgem ecos de Cartier-Bresson, Doisneau ou Eugene Smith, ainda que sem qualquer mimetismo académico. O fotógrafo português partilha com esses autores a convicção de que a fotografia é menos uma captura do instante do que uma forma de interpretação moral do mundo. Essa ética do olhar atravessa toda a exposição.

Alfredo Cunha pertence a uma geração de fotógrafos para quem olhar implica uma responsabilidade ética e política concreta. O seu trabalho nasce da proximidade física com os acontecimentos, da permanência no terreno, da disponibilidade para escutar antes de captar. Nas aldeias esquecidas, nos pescadores, nos trabalhadores rurais, nas crianças ou nos refugiados, existe sempre uma atenção à dignidade dos sujeitos fotografados. Alfredo Cunha não estetiza a pobreza nem instrumentaliza o sofrimento; observa-o com frontalidade e contenção, revestindo-o de uma enorme carga política. É nessa dimensão que “Leica Years” encontra a sua maior relevância. Mais do que celebrar uma carreira exemplar ou homenagear a longevidade das Leica Galleries, a exposição devolve centralidade a uma ideia hoje ameaçada: a de que a fotografia pode ainda funcionar como instrumento de memória crítica. Recusando qualquer leitura pacificada, as imagens de manifestações e conflitos permanecem actuais, reafirmando a urgência contemporânea do olhar de Alfredo Cunha. Aqui reside a principal qualidade de “Leica Years”, ao recordar que certas imagens sobrevivem não porque pertencem à história, mas porque continuam a ferir o presente.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

O MELHOR DE 2025: FOTOGRAFIA



10. A Vida das Abelhas”
Helena Ramos
Curadoria | Ricardo Nicolau
Novo Banco Revelação 2025
Museu de Arte Contemporânea de Serralves
21 Out 2025 > 05 Abr 2026

“ (…) A jovem artista, formada em Arquitectura e natural de São Paulo, trabalha a fotografia como uma forma de encontro — com amigos, corpos, espaços e afectos —, construindo um arquivo visual da convivência. No centro da sua prática está a ideia de relação, uma ética e uma estética do “viver junto” que a aproxima, paradoxalmente, das abelhas de Maeterlinck: seres cuja sobrevivência depende da presença do outro”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/11/exposicao-de-fotografia-vida-das.html



9. Time Stands Still. Fotografias, 1980–2023
Jeff Wall
Curadoria | Sérgio Mah
MAAT - Museu de Arte, Arquitectura e Tecnologia
23 Abr > 01 Set 2025”

“ (…) Nas suas imagens, Jeff Wall convida à contemplação do instante suspenso, frequentemente marcado por uma ambiguidade narrativa. As cenas sugerem acontecimentos em curso ou por acontecer, operando como fragmentos de histórias cujo desfecho permanece desconhecido. Este efeito de suspense – presente em obras como "Insomnia” (1994), “A Fight on the Sidewalk” (1994) ou “Parent child” (2018) – introduz um sentimento de estranheza e dúvida, revelando tanto o banal como o enigmático nas situações retratadas. Através desta micrologia do instante, Wall explora a complexidade da percepção contemporânea, sublinhando a dificuldade em distinguir o visível do invisível, o real do construído”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/08/exposicao-de-fotografia-time-stands.html



8. Venham Mais Cinco - O Olhar Estrangeiro Sobre a Revolução Portuguesa
Vários artistas
Curadoria | Sérgio Tréfaut
Parque Empresarial da Mutela, Almada
24 Mai > 24 Ago 2025

“ (…) Quase tudo era surpreendente para os estrangeiros: a situação política inédita num país europeu, o quotidiano dos portugueses, a forma como a política entrava na vida da população. Eram fotógrafos experientes. Tinham um olhar incisivo, procuravam imagens para as capas das revistas de maior tiragem, mas também revelavam empatia, encantamento e genuíno interesse antropológico. Durante cerca de um ano e meio, fotografaram tudo”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/08/exposicao-de-fotografia-venham-mais.html



7. (d) A Espantosa Realidade das Coisas
Adelino Marques
Textos | Maria Afonso
Casa dos Livros - Faculdade de Letras Universidade do Porto
17 Out > 16 Dez 2025

“ (…) Distribuída por cinco núcleos, a exposição apresenta variações de um mesmo impulso: transformar a paisagem em pensamento visual, em matéria sensível que une técnica e intuição. As pequenas derivas de densidade, contraste ou velocidade de obturação revelam não só o que está diante da câmara, mas também o que vibra por detrás: a nascente escondida entre pedras, o silêncio líquido de uma ponte antiga, o labor discreto das mãos que moldam casas e destinos. É nesse território íntimo que as imagens sugerem a sobrevivência de um sagrado difuso, mais respirado do que declarado”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/12/exposicao-de-fotografia-d-espantosa.html



6. Photographo
Alfredo Cunha
Curadoria | David Santos
Encontros da Imagem de Braga 2025
Zet Gallery
19 Set > 26 Out 2025

“ (…) Aos 70 anos de idade, justo é reconhecer na obra de Alfredo Cunha um testemunho humanista que ajuda a preservar a memória colectiva, especialmente precioso para as gerações que não conheceram a repressão do Estado Novo. A sua capacidade de capturar a energia, o drama e a esperança nos rostos das pessoas, levam-nos a olhá-lo como uma voz visual da verdade, cuja obra vai muito além do simples registo documental, refletindo um compromisso profundo com a liberdade e a justiça social”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/10/exposicao-de-fotografia-photographo.html



5. A Terra e os Camponeses - Trás-os-Montes na Década de 1980
Georges Dussaud
Curadoria | Alexandre Castro
Centro de Fotografia Georges Dussaud
Exposição de Longa Duração

“ (…) Ao privilegiar o espaço rural transmontano, Dussaud fez deslocar o foco do discurso modernizador dominante, propondo uma leitura contra-hegemónica da contemporaneidade. As suas imagens funcionam, assim, como dispositivos de observação etnográfica e, simultaneamente, como construções estéticas que problematizam as noções de autenticidade e intemporalidade”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/10/exposicao-de-fotografia-terra-e-os.html



4. Inocentes
Garcia de Marina
Curadoria | Aitor Martínez Valdajos
Centro Português de Fotografia
19 Jul > 12 Out 2025

“ (…) Ao trazer para fora do contexto um objecto tão banal como o peão, o artista transpõe os limites da realidade e das convenções, criando imagens cuja natureza instigante, sentido crítico e humor refinado, provocam o espectador, forçando-o a exercitar a mente, a romper com os estereótipos e a descobrir novas ideias e sentidos. Despojados da sua essência, prontos para serem reinventados, os inocentes de Garcia de Marina assumem uma desassombrada irreverência, desafiando o óbvio, apontando novos caminhos e chamando a atenção para a força dos mais fracos”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/08/exposicao-de-fotografia-inocentes.html



3. Claudia Andujar & Os Yanomami
Claudia Andujar
Curadoria | Thyago Nogueira
Bienal ’25 Fotografia do Porto
Centro Português de Fotografia
15 Mai > 29 Jun 2025

“ (…) Nesta exposição agora patente na Sala Aurélio da Paz dos Reis do Centro Português de Fotografia, é possível acompanhar o trabalho da fotógrafa nas várias fases do seu envolvimento com a comunidade Yanomami, desde a descoberta de uma nova cultura ao amadurecimento do seu trabalho, à medida que foi passando mais tempo na floresta. Em seis ecrãs de grandes dimensões, as imagens vão-se sucedendo e relacionando-se entre si, acrescentando novos significados à fotografia da artista. Na mente do visitante fica um corpo de trabalho que se faz de resistência e luta, mas também de respeito pelo modo de vida das minorias indígenas”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/06/exposicao-de-fotografia-claudia-andujar.html



2. Transfigurações da Paisagem
Adelino Marques
Biblioteca Municipal Eduardo Lourenço, Guarda
12 Jul > 20 Set 2025

“ (…) Esta capacidade de ver o mundo de outro modo não é um mero jogo estético: é uma forma de perturbação. É a fotografia - “simulacro de ascensão, inversão do devir” - a baralhar aquilo que dávamos por garantido, a reconfigurar a nossa forma de habitar a paisagem, de pensá-la e, em última instância, de a imaginar. Transfigurar a paisagem não é manipulá-la: é devolver-lhe a sua capacidade de nos tocar. E, por vezes, basta uma imagem para nos lembrar que o mundo, tal como a arte, nunca se oferece todo de uma só vez”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/09/exposicao-de-fotografia-transfiguracoes.html



1. Zanele Muholi
Curadoria | Inês Grosso, Filipa Loureiro
Museu de Arte Contemporânea de Serralves
10 Abr > 12 Out 2025

“ (…) Além de oferecer uma visão abrangente da prática de Muholi, a exposição revisita momentos marcantes da história da África do Sul, desde os anos sombrios do apartheid até à luta contínua pela igualdade e pelos direitos humanos. Em Portugal, onde o legado colonial continua profundamente enraizado na sociedade, esta mostra oferece uma oportunidade única para uma reflexão crítica sobre as implicações históricas e culturais da discriminação e opressão, enquanto nos lembra da urgência de debater questões como a identidade de género e cultural, a memória e a justiça social”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/04/exposicao-de-fotografia-zanele-muholi.html

quarta-feira, 15 de outubro de 2025

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Photographo” | Alfredo Cunha



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Photographo”,
de Alfredo Cunha
Curadoria | David Santos
Encontros da Imagem de Braga 2025
Zet Gallery
19 Set > 26 Out 2025


No momento de pôr um ponto final na sua carreira como fotojornalista e abraçar novos projectos artísticos, Alfredo Cunha passa em revista um olhar de mais de cinco décadas sobre a História e a Cultura contemporâneas. Engajado com um mundo em permanente ebulição, o fotógrafo reúne cerca de oito dezenas de imagens sob o título “Photographo” – curiosa a grafia, a remeter para um passado cada vez mais distante –, consideradas das mais relevantes da sua carreira. O destaque vai para uma selecção de icónicas imagens do 25 de abril de 1974, mas também do conturbado processo de descolonização das antigas colónias portuguesas em África que se lhe seguiu. Angola, Moçambique, Guiné-Bissau e São Tomé são palco privilegiado das suas fotografias, reveladoras quer do impacto político e social do fim do colonialismo, quer das tensões e conflitos que o acompanharam. A sua fotografia “Descolonização”, com o amontoado de caixas a bloquear a vista da cidade, é um símbolo poderoso dessa nova realidade, mostrando o desafio de lidar com as consequências do passado colonial.

Além dos eventos políticos e sociais, Alfredo Cunha destacou-se pela sua capacidade de captar a essência das pessoas, desde figuras públicas como Mário Soares, Miguel Torga, José Saramago, Maria Helena Vieira da Silva ou Maria Teresa Horta, até anónimos que viveram a repressão da ditadura. Os seus retratos a preto e branco mostram não apenas rostos, mas histórias e emoções, refletindo a privação da liberdade e a luta pela dignidade humana. Aos 70 anos de idade, justo é reconhecer na obra de Alfredo Cunha um testemunho humanista que ajuda a preservar a memória colectiva, especialmente precioso para as gerações que não conheceram a repressão do Estado Novo. A sua capacidade de capturar a energia, o drama e a esperança nos rostos das pessoas, levam-nos a olhá-lo como uma voz visual da verdade, cuja obra vai muito além do simples registo documental, refletindo um compromisso profundo com a liberdade e a justiça social.

“A fotografia de Alfredo Cunha tem mais tempos e mais lugares, muitos mais, do que os contemplados nesta selecção do fotógrafo e do curador David Santos. Afinal, é já mais de meio século de trabalho. Contudo, em “Photographo” temos uma oportunidade única de olhar, com realismo, o país e o mundo e de, através da lente de Alfredo Cunha, nos questionarmos sobre quem somos. E quando a Arte nos devolve ao lugar das perguntas e das identidades, mais do que um contexto, ela é já merecedora de toda a eternidade. A Arte não é neutra, a fotografia não é neutra, a fotografia de Alfredo Cunha não é neutra. É uma escolha e o que somos revê-se nessa escolha.” As palavras são de Helena Mendes Pereira, Directora-Geral e Curadora da Zet Gallery, em Braga, que acrescenta: “Não tínhamos como não acolher esta exposição. Obrigada, Alfredo Cunha, pelas tantas estórias que são a nossa História”. A mostra integra os Encontros da Imagem de Braga e está patente ao público até 26 de Outubro.

segunda-feira, 13 de outubro de 2025

FESTIVAL: Encontros da Imagem Braga 2025



FESTIVAL: Encontros da Imagem - Festival Internacional de Fotografia e Artes Visuais Braga 2025
Direcção | Manuel da Cunha Santos, Carla Bacelar Ferreira
Direcção artística | Vítor Nieves
Equipa Curatorial | Alexia Alexandropoulou, Daniel Bastos, Elina Heikka, José Bacelar, Manuel Sendón & Xosé Lois Suárez Canal, Daniel Moreira e Rita Castro Neves, Rui Prata, Xosé Lois Vázquez
Artistas | Alfredo Cunha, Carlos Folgoso, Elisa Freitas, Gérald Bloncourt, Gil Raro, José Cruzio, Matevž Čebašek, Miguel De, Pierpaolo Mittica, Roberto de la Torre, Sergio Marey, Stefanos Paikos, Vari Caramés e outros
Avintes, Barcelos, Braga, Guimarães, Porto e Vila Verde
18 Set > 02 Nov 2025


Os Encontros da Imagem constituem o maior festival de fotografia existente no país e emparceira os grandes festivais de fotografia europeus. Com inicio em 1987, o certame tem constituído, nestes últimos trinta anos, uma esteira essencial para a divulgação e a criação fotográfica. As primeiras edições centraram-se na apresentação de autores clássicos essenciais para a compreensão da história da fotografia e, simultaneamente, autores contemporâneos que apresentavam as linhas mais recentes de representação. Paulatinamente, os Encontros foram alargando os seus objetivos, chegando em 2025 à sua 35.ª edição e fazendo dela uma forma de apresentar uma verdadeira “manifestação de interesses”. Mais do que um mote, este título funciona como um gesto público, um manifesto de interesses renovados que o festival adquire e partilha, consolidando o seu legado e lançando novos compromissos para o futuro. Este mote reflete também a intenção de olhar criticamente para o seu percurso. Na sua meia-idade — 35 edições ao longo de 38 anos — os Encontros da Imagem assumem a necessidade de uma pausa reflexiva que questiona a função deste e, por extensão, de outros festivais de primeira geração: repensar as conquistas alcançadas e avaliar a sua pertinência na actualidade.

O visitante ocasional não terá esta percepção, mas os “habitués” dos Encontros da Imagem perceberão muito facilmente uma, digamos, “reconfiguração” em relação a anteriores edições. Os limites entre as disciplinas artísticas mostram-se mais diluídos, com o festival a expandir-se para além da fotografia. Embora esta continue a ser o seu foco central, o programa integra de forma decisiva a performance, a instalação, a escultura e a videoarte, explorando territórios que enriquecem a experiência estética do público. Para reforçar a ligação com a comunidade e atrair novos públicos, a edição de 2025 inclui mais exposições de rua, expandindo a presença do festival para além dos espaços convencionais. Numa assumida “Manifestação de Interesse”, esta edição do Festival estrutura-se em três núcleos expositivos, cada um com a sua abordagem única e complementar. Estes núcleos — “Dissidências”, “Argumentários” e “Transições” — foram concebidos para explorar o tema central sob diferentes perspectivas, gerando diálogos, tensões e conexões. Cada programa aponta para aspectos cruciais da fotografia contemporânea e das artes visuais, desde a celebração da inovação e diversidade até à reflexão sobre o percurso e identidade do próprio festival, culminando na exploração das conexões regionais e identidades divergentes.

Braga continua a ser o fulcro dos Encontros da Imagem, com os pólos expositivos a estenderem-se a Avintes, Barcelos, Vila Verde, Porto e Guimarães. Daquilo que me foi possível ver num dia sempre preenchido, destacaria as exposições “Lebensborn”, de Angeniet Berkers, no Museu Nogueira da Silva, e que aborda o “Lebensborn”, programa fundado na Alemanha em 1935 e que foi concebido para proporcionar ao Terceiro Reich uma nova geração de líderes e oficiais da SS, e “Reaching for Dusk”, de Stefanos Paikos, em plena Avenida da Liberdade, e que documenta o quotidiano em Mbeubeuss, o maior aterro sanitário a céu aberto da África Ocidental, localizado nos arredores de Dakar, no Senegal, uma frente negligenciada na história da migração. Patente na Galeria da Estação, “Cinematica”, de Teresa Freitas, tem a curiosidade de confrontar o visitante com uma estética cromática específica, levando-o a questionar a autenticidade das cenas apresentadas. Na sua dimensão foto-documental, “Photographo”, de Alfredo Cunha, e “A Emigração Portuguesa a Salto”, de Gérald Bloncourt, são duas exposições a não perder. A primeira pode ser vista na Zet Gallery, enquanto a segundo está patente no Arquivo Municipal. Os Encontros da Imagem prolongam-se até ao dia 02 de Novembro.

terça-feira, 12 de agosto de 2025

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "Paraíso de Coura" | Alfredo Cunha



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Paraíso de Coura”,
de Alfredo Cunha
Atmosfera m, Porto
06 Ago > 04 Set 2025


“Escrevi há anos que o Festival de Coura devia ser prescrito pelos médicos e descontado no IRS. As pessoas tinham de ser mandadas para Coura nem que à força de dois empurrões, porque tudo no Festival nos cura. Já vi muita gente a melhorar da tristeza, mas também da marreca, do pasmo sem sentido, da inveja, da fealdade ou da gripe. Em Coura curam‑se maleitas severas, como a virgindade depois da puberdade, essa coisa que começa a apodrecer. A maravilha aqui não se explica ela é pura lucidez. Só de chegarmos à Praia do Taboão, onde instalam a festa, tudo aparece mais que a Nossa Senhora. Aparecem manifestações solares à meia‑noite, estrelas mesmo verdadeiras que andam perto e que podem até vir do peito de alguém. Toda a gente é bela e aprende a amar.”
Valter Hugo Mãe

A dois dias do início de mais uma edição daquele que já foi considerado um dos cinco melhores festivais de música da Europa pela revista “Rolling Stone”, dirigimos o olhar ao encontro do Festival de Paredes de Coura, pela lente do fotógrafo Alfredo Cunha. Patente no Atmosfera m, depois de ter passado por Lisboa, “Paraíso de Coura” reúne imagens e histórias deste icónico festival de música, que desde 1996 tem lugar por esta altura junto à Praia Fluvial do Taboão, nas margens do Rio Coura. A mostra é uma selecção muito resumida de algumas das imagens mais significativas reunidas pelo fotógrafo ao longo de duas décadas de presença atenta e interessada no Festival, primeiro acompanhando as filhas, depois sozinho porque sim. Ano após ano foi testemunhando a presença dos festivaleiros no rosto e na pose, a sua energia contagiante, a forma como se confundem com a paisagem, expressando esse olhar em imagens que fazem de Coura um lugar único, de partilha e comunhão com a música e com a vida.

À boleia do fotógrafo, mergulhamos na alma do Festival. Cada imagem é um fragmento da memória colectiva que faz deste acontecimento anual uma referência na música alternativa portuguesa. Mas são, sobretudo, as sensações vividas num ambiente único, que soube afirmar-se e conquistar um lugar proeminente no coração do público português, que Alfredo Cunha tão bem consegue transmitir. Daí o forte impacto sobre quem observa as fotografias, percebendo nelas um manancial de emoções vividas pelos festivaleiros, uma forma de celebrar a vida e tudo aquilo que nela se assume em vibração e júbilo, cumplicidade e felicidade. É que Paredes de Coura vale tanto pela música como pelo ambiente e pela comunidade que congrega. Entre o dia e a noite, o sono e a vigília, um corpo entregue à música e outro que se abandona num livro de Saramago, a mole de mãos que se abrem para o palco e os braços presos aos ramos de uma árvore, Coura é o paraíso, com tudo o que tem para nos dar. Para ver até 04 de Setembro.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2024

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “100 Anos - 100 Fotografias - Democracia” | Alfredo Cunha



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “100 Anos - 100 Fotografias - Democracia”,
de Alfredo Cunha
Centro de Artes e Espectáculos da Figueira da Foz - Salas 2 e 3
07 Dez 2023 > 31 Dez 2024


“Nesse tempo não se ficava à espera que a História viesse ter connosco.” Quem o diz é Alfredo Cunha, fotógrafo nascido em Celorico da Beira, em 1953, e autor das famosas séries fotográficas dedicadas ao Dia da Liberdade e à descolonização portuguesa, entre muitas outras. Foi ele quem, a 28 de Abril de 1974, “com 20 anos de idade, três dias de Liberdade e poucas horas de sono desde que fotografara a queda da ditadura”, seguiu para Vilar Formoso ao serviço do jornal O Século, “para esperar a chegada de um tal Mário Soares”. Conhecia o nome, mas não o aspecto do co-fundador do Partido Socialista e sua figura referencial. Já dentro do comboio, viu-se a percorrer as carruagens e a dizer o nome, até ver à sua frente um homem sorridente e bem disposto e uma senhora contida e muito educada. “Era o casal Soares”, recorda. A viagem até Lisboa prolongou-se por muitas horas, já que o Sud Express ía fazendo paragens de todo o tipo devido às manifestações que aguardavam a sua passagem. Já em Santa Apolónia, despediram-se com um aperto de mão. “Apareça”, disse o político ao jornalista. E Alfredo Cunha foi aparecendo.

Realizada no âmbito das Comemorações do Centenário do Nascimento de Mário Soares, a exposição “100 Anos – 100 Fotografias - Democracia”, da autoria de Alfredo Cunha, está prestes a chegar ao fim, depois de ter estado patente mais de um ano nas salas 2 e 3 do Centro de Artes e Espectáculos da Figueira da Foz. Através das imagens que a compõem, a exposição é um livro aberto sobre alguns dos momentos mais marcantes da vida política portuguesa e daquele que foi um herói da liberdade, europeísta convicto e pai da democracia. Embora a primeira imagem seja a de Mário Soares e Maria Barroso ainda no combóio a caminho de Lisboa (ela com um ramo de flores, ele com a edição do Expresso sobre os joelhos e um cravo na mão direita, ambos sorridentes), a mostra não segue à risca uma cronologia dos acontecimentos. Tão pouco se pode dizer que esteja organizada em blocos, apesar de nela encontrarmos assuntos significativos, da campanha para as Presidenciais de 1986 às recepções e visitas de Estado, das Presidências Abertas aos momentos de lazer ou de comunhão com a família.

A par de momentos históricos tão marcantes como os encontros com Willy Brandt, Vaclav Havel ou Yasser Arafat, a assinatura do Tratado de Adesão de Portugal à CEE ou os banhos de multidão, em Guimarães ou na Guarda, em Peniche ou em Almeida, avulta nesta exposição o olhar do fotógrafo, a sua intuição para saber posicionar-se no sítio certo, as suas imagens a denotarem uma extraordinária atenção ao detalhe e um refinado sentido de humor. A faixa que Gorbatchov ostenta e que tem o seu contraponto no apoio de braço e na gravata de Mário Soares, o aparente desinteresse de Soares e do Presidente chinês Jiang Zemin às palavras do intérprete, a criança prestes a desferir uma martelada no S. João do Porto, ou a conversa que mantém com um surfista na ilha de Faro, são apenas alguns exemplos da arte e engenho notabilíssimos de Alfredo Cunha. E é sempre bom recordar, nas imagens de Soares, as figuras de Amália Rodrigues e Maria João Pires, Eduardo Lourenço e Miguel Torga, um submarino no Alfeite, uma regata de barcos rabelos, um passeio em charrete na Tapada de Mafra ou a paisagem árida da Ponta dos Capelinhos, no Faial.

sábado, 27 de julho de 2024

LIVRO: "25 de Abril, Quinta-feira"



LIVRO: “25 de Abril de 1974, Quinta-feira”
Fotografia e coordenação | Alfredo Cunha
Textos | Carlos de Matos Gomes, Adelino Gomes, Fernando Rosas
Gravuras | Alexandre Farto / Vhils
Prefácio | Luís Pedro Nunes
Ed. Edições Tinta-da-china, Dezembro de 2023


“Estou na Amadora, são 3 e tal da manhã e ouço pela primeira vez na vida o ‘Riders in the Storm’, dos Doors. Lá para as 4 e tal começam a dizer que algo se está a passar em Lisboa. Visto-me e decido ir para o Século. Vou para a estação. Passo pelo bairro de lata da Falagueira, uma das vistas mais miseráveis dos subúrbios de Lisboa e que tenho fotografado nos últimos anos. Chegado à estação do Rossio, corro até ao Bairro Alto, à redação do Século, e saco o maior número de rolos possível. Uns 40. São umas 6 da manhã. Está lá o Mário Zambujal, que destaca o jornalista Mário Contumélias e a mim para seguirmos para o Terreiro do Paço. Só lá para as 9 e tal é que tenho a primeira conversa com o Salgueiro Maia. Vê-me fotografar e pergunta-me o que estou ali a fazer. Digo que sou do Século. Pergunta-me se sou dos deste lado ou dos outros. Não sei bem o que dizer e respondo que estou ali daquele lado a fotografar. Então ele diz-me para passar a barreira e não ficar escondido.”

Todos temos o nosso 25 de Abril. Eu, com os meus 13 anos à data, como os muitos que eram vivos na altura e mesmo aqueles que só viriam a nascer depois. Do meu posso falar sem esforço, de tal forma precisas são ainda as imagens na minha memória: O levantar às 8 e ver o pai “com cara de caso” a dizer que aconteceu qualquer coisa “lá para Lisboa”. A Emissora Nacional que só transmitia música clássica (“música fúnebre”, dizia a minha mãe). Um dia de aulas que teria sido normal não fora um ou outro colega mais expedito repetir, grosso modo, aquilo que os seus pais, como o meu, terão dito às 8 da manhã depois de escutar a rádio. Um secretismo enorme à hora do almoço e os pais calados às muitas questões que lhes ia colocando. E, finalmente, com o sol a pôr-se, a explosão de alegria do vizinho Silva, a correr que nem um louco na viela por detrás do prédio, aos gritos de “Viva a Liberdade”, que fazia acompanhar com um salto como se fosse o Eusébio a celebrar mais um golo. Nos dias seguintes, então, falou-se abertamente de uma palavra que desconhecia até então: Política. É dela que me lembro, das suas histórias, do seu fascínio, dos seus agentes, que viria a acompanhar a partir de então com redobrado interesse. Tudo isso bebido em conversas na escola, em casa ou no café, ou lido no Jornal do Comércio, “O Diário Mais Antigo do País”, e que no dia 26 de Abril proclamava, a toda a largura da primeira página: “O governo rendeu-se incondicionalmente ao General António de Spínola que preside à Junta de Salvação Nacional”.

A máquina do tempo leva-nos, pelas mais variadas razões, aos muitos 25 de Abril que se abrigam no peito de cada um. Alguns há que, sendo de um, são de muitos, de tal forma projectaram no imaginário colectivo a memória de um tempo de euforia, fazendo com que vivêssemos cada momento como se fosse também nosso. O 25 de Abril do fotojornalista Alfredo Cunha é um deles. Muitas das imagens que registou desse “dia inicial inteiro e limpo” tornaram-se símbolos da nossa liberdade. São icónicas as fotografias que fez de Salgueiro Maia e da sua coluna, bem como dos momentos-chave da revolução vividos no Terreiro do Paço ou no Largo do Carmo. Em 50 anos de vida em democracia, nas mais variadas circunstâncias, cruzámo-nos com essas imagens dezenas de vezes, descobrindo-lhes novos sentidos, novas verdades. Nesses momentos, de redobrada admiração, a emoção tocou-nos sempre (e estou certo que continuará a tocar). Por isso, ao passar as páginas uma a uma deste “25 de Abril de 1974, Quinta-feira”, faço-o pausadamente, quase de forma reverencial, sentindo em cada fotografia um reencontro com uma história que me é grata e me traz, acima de tudo, as mais felizes memórias.

No prefácio ao livro, da autoria de Luís Pedro Nunes, lemos que “[este livro é] um testemunho que pretende ser um exercício se não de total objetividade, pelo menos de sinceridade”. Meio século depois do 25 de Abril, o livro representa o encontro do olhar de Alfredo Cunha, presente em quase todos os momentos do dia e dos meses que se seguiram, com o olhar de Carlos Matos Gomes, um dos capitães de Abril, o olhar do repórter Adelino Gomes, “que perante o desenrolar dos acontecimentos marca o momento em que nasce a liberdade de expressão, ao conseguir um microfone emprestado para colocar a revolução no ar” e o do activista na clandestinidade, Fernando Rosas, hoje historiador jubilado. Juntos, analisam o “momento zero” do dia primeiro, o seu desenrolar, os antecedentes, a conjuntura e as ondas de choque que se seguiram e que tiveram um impacto profundo na sociedade portuguesa, nomeadamente com as descolonizações e a chegada dos “retornados” a um país em convulsão, ou com os momentos críticos em que Portugal podia ter caído numa guerra civil. “E pediram a Vhils para selar esta obra, como se se tratasse de uma cápsula feita para enviar para o futuro, para ser lida e vivida, dado ter sido escrita e fotografada por quem viveu apaixonadamente uma revolução, mas, 50 anos depois, se prestou a depositar aqui o seu testemunho analítico”. Serão necessárias mais referências para vermos neste um livro essencial da nossa história e da nossa vida?

[O livro é uma edição especial, em grande formato e capa dura e a reprodução da capa (Alfredo Cunha e Vhils) tem impressão fotográfica (42x60 cm). Cada exemplar do livro é autografado por Alfredo Cunha e contém uma fotografia de Salgueiro Maia, impressa em papel premium, com selo branco assinado (21x29,7 cm). Venda exclusiva no site da Tinta-da-china, em https://tintadachina.pt/]

terça-feira, 16 de abril de 2024

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Esta Máquina, Esta Objectiva, Estas Fotografias: 25 de Abril de 1974, Quinta-Feira”



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Esta Máquina, Esta Objectiva, Estas Fotografias: 25 de Abril de 1974, Quinta-Feira”,
de Alfredo Cunha (fotografia) e Alexandre Farto aka Vhils (gravura)
Centro Português de Fotografia
06 Abr > 28 Jul 2024


“A professora mandou‑nos calar e estava a tentar sintonizar o rádio. A determinada altura recambiou‑nos a todos para casa. É tudo o que me lembro desse dia. Tinha 6 anos, estava na 1.ª classe, e pertenço à geração que, nas décadas seguintes, foi acusada de ter perdido o 25 de Abril. Só lá para as eleições de 1980, com uns sólidos 12 anos, é que estava politizado o suficiente para entrar na luta partidária, como era costume na época. Tinha perdido a festa. Mas então o que estou a fazer neste projeto?”

Tenho vários 25 de Abril. Este é o meu favorito: estou na Amadora, são 3 e tal da manhã e ouço pela primeira vez na vida o “Riders on the Storm”, dos Doors. Lá para as 4 e tal começam a dizer que algo se está a passar em Lisboa. Visto‑me e decido ir para o Século. Vou para a estação. Passo pelo bairro de lata da Falageira, uma das vistas mais miseráveis dos subúrbios de Lisboa e que tenho fotografado nos últimos anos. Chegado à estação do Rossio, corro até ao Bairro Alto, à redacção do Século, e saco o maior número de rolos possível. Uns quarenta. São umas 6 da manhã. Está lá o Mário Zambujal, que destaca o jornalista Mário Contumélias e a mim para seguirmos para o Terreiro do Paço. Só lá para as 9 e tal é que tenho a primeira conversa com o Salgueiro Maia. Vê‑me fotografar e pergunta‑me o que estou ali a fazer. Digo que sou do Século. Pergunta‑me se sou dos deste lado ou dos outros. Não sei bem o que dizer e respondo que estou ali daquele lado a fotografar. Então ele diz‑me para passar a barreira e não ficar escondido.

Este dia 25 de Abril não me pertence. É o 25 de Abril do Alfredo Cunha, então com 20 anos e que logo no início da carreira tem inesperadamente o dia mais importante da sua vida de fotógrafo. Uma dádiva e uma maldição. Há 50 anos que incansavelmente fotografa, expõe e publica como que para fugir e de novo voltar a esse dia. Esse 25 de Abril que não é meu e que relato na primeira pessoa foi surgindo como peças de um puzzle ao longo das centenas de horas que passámos nas viagens de trabalho em conjunto. Uma história que surgia após um silêncio de quilómetros numa picada. Episódios de que ele próprio não se lembrava e de repente lhe ocorriam. Um dia percebi que o meu dia 25 de Abril já era o dele. Naquele dia, foi gerindo os 40 rolos. Não sabemos se, caso tivesse tirado mais uns milhares de fotos, o seu dia 25 de Abril fotográfico seria mais ou menos intenso em termos imagéticos do que aquele que ficou. Havia a decisão de captar o momento, o que obrigava a puxar manualmente o rolo e perder complemente a situação. E não ceder à tentação de encenar a foto perfeita.

Cinquenta anos depois, Vhils é convidado a selar este projecto, como se se tratasse de uma cápsula feita para enviar para o futuro, para ser vivido, dado ter sido fotografado por quem vive apaixonadamente uma revolução. Deixe‑se levar para aquele dia em que 240 homens (muitos deles meros rapazes), vindos de Santarém, libertaram um país inteiro da mesquinhez instituída, de um poder autocrático e beato que sobrevivia da ignorância dos pobres que controlava. Quando der por isso, estará a ver como a coragem de um só homem perante carros de combate tocou de tal forma os que o estavam a ver do outro lado, que decidiram arriscar tudo e negar‑se a disparar. E assim, sem o saber, derrubaram naquele momento o regime. Foi o cair de uma mordaça pestilenta que sufocava. E o dar um fôlego de quem quer comer o mundo ao encher os pulmões de liberdade fresca e matinal. E gritar.

A próxima revolução pela liberdade não será tão simples e feliz.

[Texto adaptado do original da autoria de Luís Pedro Nunes]

domingo, 27 de junho de 2021

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "A Liberdade passou por Aqui" | Alfredo Cunha


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EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “A Liberdade passou por Aqui”,
de Alfredo Cunha
Torre da Oliva, São João da Madeira
25 Abr > 31 Ago 2021


“Aprende a nadar, companheiro
Que a maré se vai levantar
Que a liberdade está a passar por aqui
Maré alta”
Sérgio Godinho, Maré Alta (“Os Sobreviventes”, 1972)

Para aqueles que, como eu, viveram o 25 de Abril, o reencontro com as fotografias de Alfredo Cunha é sempre um motivo de satisfação e regozijo. Pela enésima vez abraçamos “os rapazes dos tanques” e pela enésima vez somos tomados pela emoção ao rever as imagens que assinalam o fim da longa noite do fascismo, “trabalhadores e soldados vivendo a mesma euforia”, a certeza de que “o povo unido jamais será vencido”. Esse foi o tempo em que um jovem fotojornalista do saudoso “O Século”, munido de duas máquinas fotográficas e disparando incessantemente, alheio aos riscos que corria, registou os momentos mais marcantes do “dia inicial inteiro e limpo”. As suas imagens correram mundo, impuseram-se como símbolos da liberdade e, por isso, Alfredo Cunha não é, apenas, um fotojornalista cujo fruto do seu trabalhou legou para a posteridade alguns dos mais importantes momentos da nossa história. Ele é “o fotógrafo do 25 de Abril”. Ele é, hoje, o próprio 25 de Abril, naquilo que a sua fotografia tem de icónico e indissociável da revolução dos cravos.

Há um propósito na reflexão que preenche o parágrafo anterior e que serve de preâmbulo àquilo que quero dizer nesta crónica. Tem tudo a ver com o título da exposição - “A Liberdade passou por Aqui” - e com a transitividade do verbo “passar”, empregue com o claro sentido de nos lembrar que um tempo houve em que fomos livres e que, irrevogavelmente, deixámos de o ser. Aceito que estas palavras possam estar contaminadas por uma certa ideia de nostalgia, pedrinha na engrenagem que inquieta e vem baralhar as contas. Afinal, quase meio século passou sobre aquela madrugada de Abril de 1974 e tudo no mundo mudou. Teríamos de mudar nós também. Mas não poderíamos ter aceite essa mudança sem abdicarmos da liberdade de sermos quem somos? Sem FMI’s mais as suas garras que nos estrangulam? Sem moedas únicas com preços mais elevados a pagar do que o seu justo valor? Sem toda a corrupção que desgasta e descredibiliza o país? Sem compromissos globais que estilhaçam a nossa auto-suficiência e põem em risco a nossa própria sobrevivência?

Às questões - estas e muitas outras, igualmente acutilantes, que poderia formular -, responde Alfredo Cunha com as suas imagens. A pose serena de Salgueiro Maia, as mãos dos soldados cravadas nas G3, os cravos que despontam a cada esquina, o olhar das crianças a apontar o futuro, o ombro com ombro de um povo a escrever a sua própria história, dão-nos as respostas. Dizem-nos que soubemos dizer basta e aniquilámos um regime, tal como nos dizem que a razão e a vontade, unidas, tudo podem, tudo vencem. São imagens que não estão ali para se deixarem apodrecer num saudosismo inútil, a lembrar tempos que não voltam mais. Antes apontam caminhos, lembram que a revolução é a única via para a liberdade, que dela nascem “razões, abraços, canções e bandeiras da cor deste sangue que temos nas veias e na carne.” Uma exposição imperdível!

sábado, 16 de janeiro de 2021

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "Quatro Tempos e Mais Um" | Alfredo Cunha


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EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Quatro Tempos e Mais Um”,
de Alfredo Cunha
Museu Municipal de Espinho / FACE
27 Nov 2020 > 29 Jan 2021


“Este Alfredo Cunha de quem se fala é o homem com a sua câmara e o seu olhar. Qualquer bom fotojornalista, e é assim que o conhecemos, intui, antes de o saber claramente, que uma imagem, que deve encerrar todo um conteúdo e uma sedução, é, sempre foi, um momento decisivo. (…) Na longa carreira de 50 anos de Alfredo Cunha, muita coisa mudou: o país que fotografa; o equipamento que usa – já longe da primeiríssima Petri FT, da Leica M3, que começou a usar em 1973, e das Leicas que se seguiram e a que se manteve sempre fiel; o suporte – do analógico, maioritariamente preto e branco, ao digital, que pratica desde 2003. A sua prática estendeu-se à edição, o que lhe permitiu olhar para os outros e definir com clareza o seu próprio caminho. Mas o fotojornalismo continua a ser a sua linguagem preferencial: o seu olhar depurou-se, mas não se alterou substancialmente.”
Teresa Siza

Não estava pensada para ser “uma grande exposição”, mas o Museu Municipal de Espinho / FACE, cujo espaço Alfredo Cunha desconhecia e que tanto o impressionou, assim o determinou. Aproveitando o facto de estar a comemorar 50 anos de uma carreira notável a muitos títulos, o foto-jornalista resolveu avançar para uma exposição retrospectiva a que chamou “Quatro Tempos e Mais Um”. Quatro tempos que correspondem ao período “antes do 25 de Abril, o mesmo 25 de Abril, a descolonização e depois o que se segue em termos de política internacional”, disse. O “mais um” é o tempo presente, este tempo de pandemia que é também um tempo de angústia e incertezas.

Abrindo uma janela sobre o mundo que habitamos, em particular sobre o nosso país e a sua diáspora de influência, Alfredo Cunha toca-nos pela sua forma de ver atenta e sensível. Das festas religiosas à vida monástica, das lidas da terra à faina do mar, das grandes massas de gente ao ensimesmamento de quem vive a sós consigo próprio, é a alma da gente que se abre ao nosso olhar, entre rostos e gestos belos e únicos. Como escreveu António Barreto, em Alfredo Cunha temos “a fotografia cara-a-cara, olhos nos olhos (...) que inclui os sinais do ambiente, as montanhas vinhateiras, o mobiliário urbano, a sucata, a charrua, o andor de procissão e o cesto de uvas. É quase imperceptível, mas o essencial está lá, em cada imagem: tudo o que é preciso para que se perceba o homem e a sua condição.”

Ao longo de mais de duas centenas de imagens, revivemos as emblemáticas séries de fotografias dedicadas ao 25 de Abril de 1974, o doloroso processo da descolonização portuguesa ou os impactos do PREC, ao mesmo tempo que regressamos a 1989 e à queda do ditador Ceausescu ou acompanhamos as tropas portuguesas na guerra do Iraque. E porque o espaço o permite, esta mostra é complementada com uma “galeria de retratos” cedida pela Sociedade Portuguesa de Autores, onde encontramos muitas das personagens que são parte importante da nossa História recente e que se submeteram ao escrutínio da lente do artista. Interrompida de forma extemporânea graças às medidas governamentais que esqueceram que “a cultura é segura”, a exposição retomará (ou não) o seu ciclo normal após o levantamento do Estado de Emergência. É nisso que pomos “toda a esperança do mundo”.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "Alfredo Cunha | 50 Anos de Fotografia 1970 - 2020"


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EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Alfredo Cunha | 50 anos de fotografia 1970-2020”
Centro Português de Fotografia
17 Out 2020 > 02 Mai 2021


Nome incontornável do fotojornalismo em Portugal, Alfredo Cunha está a festejar cinco décadas de carreira e o Centro Português de Fotografia abre os seus espaços ao público dando a ver uma parte da obra do fotógrafo ao longo deste tempo. Para os indefectíveis do artista, a exposição encerra uma formidável revisitação dos lugares da memória, tornados palpáveis graças à sua arte em captar o momento decisivo. Os menos sintonizados com o seu nome, descobrirão, não sem surpresa, que afinal Alfredo Cunha não lhes será assim tão indiferente. As suas imagens do “dia inicial inteiro e limpo”, têm o cunho de nos devolver a nossa história colectiva. E o mesmo se poderia dizer da série de retratos de pessoas marcantes da nossa sociedade, do fervor que encerram as celebrações religiosas, da vida com máscara em tempos de pandemia ou da faina da pesca a bordo de uma traineira.

Seleccionadas pelo próprio autor, que é também um dos produtores da mostra, as imagens encontram-se distribuídas por oito núcleos: “América América”, “Toda a Esperança do Mundo”, “O Tempo das Mulheres”, “Retratos”, “A Cidade que não Existe”, “Os Rapazes dos Tanques”, “Páscoa / Braga” e “Uma Noite no Mar”. Ora, basta pensar que a grande maioria destes títulos correspondem a momentos de vida e de carreira que Alfredo Cunha levou ao encontro do público sob a forma de um livro ou de uma exposição, para perceber o quão ciclópico e, porventura, dilacerante, terá sido o exercício de escolher alguns temas em detrimento de tantos outros. Quem conhece a obra do mestre, congratular-se-á com cada uma das imagens expostas, sabendo de antemão que alargar a exposição a ponto de abarcar toda a carreira do fotógrafo implicaria termos uma dúzia de “cadeias da relação” à nossa disposição (e mesmo assim julgo que não bastariam). Mas que fazem falta “núcleos” como “A Norte”, “A Cidade das Pontes”, “Fátima – Enquanto Houver Portugueses”, “Felicidade” ou “A Cortina dos Dias”, lá isso fazem.

Regressando à exposição, atente-se na imagem da mulher que segura na mão aquilo que parece ser uma pescada, o pregão quase audível na pose atrevida. Ou no coveiro que, em frente à objectiva, ergue os braços como que a dizer basta. Ou ainda no grupo de transeuntes que se cruzam na cidade, os óculos escuros como uma imagem de marca. Mas a imagem de marca, mesmo, é a máscara nos rostos de todos os retratados, adereço elevado à categoria essencial por força dum vírus que virou a vida de todos do avesso. E isto é em Portugal (mais concretamente na Amadora), como poderia ser em Itália ou na Guiné, em Nova Iorque ou no Sri Lanka. O Alfredo Cunha que nos dá a ver, ouvir e sentir o mundo que nos rodeia no momento “agora”, é o mesmo que perseguimos através dos cliques da sua Leica, numa viagem de meio século ao mais fundo de nós. É quase redundante dizer que esta é uma exposição imperdível, mas atrevo-me a dizer que é urgente vê-la. É que, quanto mais cedo a virmos, mais tempo teremos para a ver de novo.

terça-feira, 28 de julho de 2020

Vemos, ouvimos e lemos... #6



1. A pandemia da covid-19 fez com que este ano a 37.ª edição do “Jazz em Agosto” fosse cancelada. A alternativa surge com a designação de “Jazz 2020” e resulta de uma parceria entre a Fundação Calouste Gulbenkian, a Associação Porta-Jazz, sediada no Porto, e o Jazz ao Centro Clube, que opera em Coimbra. Assim, entre os dias 31 de Julho e 09 de Agosto, o magnífico Anfiteatro ao Ar Livre da Fundação receberá o “Coreto”, formação que reúne muitos dos músicos que gravitam em torno da associação portuense, mas também o quinteto da trompetista Susana Santos Silva, “Impermanence”, e o projeto “Dentro da Janela”, comandado pelo saxofonista João Mortágua. As propostas passam ainda pelo quinteto feminino “Lantana”, a harpista Angélica Salvi, o trio “The Selva” e o pianista Daniel Bernardes com o “Drumming GP”. Coimbra receberá actuações de dois trios (o “TGB” de Sérgio Carolino, Mário Delgado e Alexandre Frazão, e a parceria entre Luís Vicente, Hugo Antunes e Pedro Melo Alves) e pelo Porto passarão o “André Rosinha Trio” e o quarteto que junta Ricardo Toscano, Rodrigo Pinheiro, Miguel Mira e Gabriel Ferrandini. O programa completo pode ser consultado em https://gulbenkian.pt/musica/jazz-2020/.

2. Sob o tema “Diversidade-Investigação. O Complexo Espaço da Comunicação pela Arte”, a XXI Bienal Internacional de Arte de Cerveira está de regresso e volta a marcar o calendário nacional de eventos de 01 de Agosto a 31 de Dezembro de 2020. Mantendo-se estruturado segundo o modelo que o carateriza desde a primeira edição, em 1978, o evento integra, para além da exposição do concurso internacional e artistas convidados, onze projectos curatoriais, intervenções artísticas, conferências, conversas e visitas guiadas, oferecendo ao público as mais recentes realizações artísticas e tendências estéticas da arte moderna em Portugal e no mundo. Para além da integração de trabalhos no espaço público da ‘Vila das Artes’, e contribuindo para a descentralização cultural, o evento volta a expandir-se pelo Norte de Portugal, com exposições em Alfândega da Fé, Viana do Castelo, Vila Praia de Âncora e Monção. Reforçando a internacionalização do evento, a Fundação Bienal de Arte de Cerveira apresenta, pela primeira vez, uma edição digital que permitirá ao público a visita virtual à bienal de arte mais antiga do país e da Península Ibérica a partir de qualquer parte do mundo. Saiba tudo em https://bienaldecerveira.pt/.

3.  A Tinta-da-china acaba de lançar, numa edição limitada a duzentos exemplares e numerada, “A Cidade Que Não Existia”, do fotógrafo Alfredo Cunha. A este propósito, recuperamos as palavras de Luís Pedro Nunes: “Este não é um livro de imagens (só) sobre a Amadora. É um retrato de Portugal e dos portugueses. Revejo aquelas caras dos anos 70 na minha Escola Primária do Alentejo, todos índios, sujos e (sejamos sinceros) um pouco ranhosos. A pobreza era o denominador comum — sendo que havia um grande fosso entre o ‘remediado’ e o pobre, entre a janela do apartamento e o outro lado da ribeira. Estes são os portugueses de antes, mas também os de hoje. Nos anos 70, Alfredo fotografou na Amadora um país que já não podia existir, mas que teimosamente queria estar só no mundo. Voltou 50 anos depois para fotografar o país a ser, a rir — a querer ousar. Apanhou um país suspenso, num pânico enclausurado — a antítese do que quer para o seu trabalho. Viu ruas sem gente, caras tapadas por máscara e sem expressão, aquele momento em que se está a cair no abismo e ainda não se sabe como vai ser o impacto.” O preço de cada exemplar é de € 95,00 e vem acompanhado de uma fotografia autografada pelo autor e carimbada. Encomendas directamente com a editora em https://tintadachina.pt/produto/a-cidade-que-nao-existia-edicao-especial-fotografia/.

domingo, 26 de abril de 2020

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "A Idade da Inocência - Memórias a Preto e Branco"



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “A Idade da Inocência – Memórias a Preto e Branco”, 
de Alfredo Cunha 
Mira Forum 
https://youtu.be/aUxhPz5Ozo0 


É num dos mais importantes espaços culturais da cidade do Porto que podemos ver, por estes dias, “A Idade da Inocência – Memórias a Preto e Branco”, do fotógrafo Alfredo Cunha. Talvez não exactamente no número 155 da Rua de Miraflor, esse fantástico armazém que é, reconhecidamente, o maior e mais icónico centro cultural da zona oriental da cidade. Antes, na sua plataforma online – em https://youtu.be/aUxhPz5Ozo0 -, onde nos é proposta uma visita virtual a um conjunto de 21 imagens, das quais 19 inéditas, do icónico “fotógrafo da Revolução”. 

São cada vez mais aqueles que não viveram o 25 de Abril e para quem as imagens que retêm desse momento incontornável da nossa História são as fotografias de Alfredo Cunha. Fotógrafo em início de carreira, estava há quase meio século atrás em Lisboa, tinha na altura 20 anos e trazia com ele uma máquina fotográfica analógica, com filmes 35mm a preto e branco. Nesses dias de vertigem, morou na rua, acompanhou os militares apeados ou em tanques, espreitou vielas, casas e garagens, acompanhou o espanto das pessoas que, progressivamente, iam ocupando os espaços públicos. De tudo isso foi dando conta em imagens duma enorme beleza, sublinhando, na ingenuidade boa e promissora do olhar dos militares, os sonhos e anseios de todo um povo. 

Através do olhar de Alfredo Cunha voltamos a recordar “o dia inicial inteiro e limpo”. Nas armas caladas como nos cravos que se oferecem, no olhar expectante do povo como nos rostos serenos dos soldados, há uma brandura que liberta e comove. Libertação, por vivermos, através da memória, essa abertura a um novo tempo, repleto de sonhos e ideais; e comoção, por sabermos ser esta “a idade da inocência”, o nome desta exposição tão adequadamente sugerido por Teresa Pinto de Almeida. Mesmo confinados, os passos tolhidos, a liberdade em suspenso, podemos ver em cada imagem um grito de esperança num futuro melhor. Que todos os dias sejam 25 de Abril!