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quarta-feira, 15 de outubro de 2025

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Photographo” | Alfredo Cunha



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Photographo”,
de Alfredo Cunha
Curadoria | David Santos
Encontros da Imagem de Braga 2025
Zet Gallery
19 Set > 26 Out 2025


No momento de pôr um ponto final na sua carreira como fotojornalista e abraçar novos projectos artísticos, Alfredo Cunha passa em revista um olhar de mais de cinco décadas sobre a História e a Cultura contemporâneas. Engajado com um mundo em permanente ebulição, o fotógrafo reúne cerca de oito dezenas de imagens sob o título “Photographo” – curiosa a grafia, a remeter para um passado cada vez mais distante –, consideradas das mais relevantes da sua carreira. O destaque vai para uma selecção de icónicas imagens do 25 de abril de 1974, mas também do conturbado processo de descolonização das antigas colónias portuguesas em África que se lhe seguiu. Angola, Moçambique, Guiné-Bissau e São Tomé são palco privilegiado das suas fotografias, reveladoras quer do impacto político e social do fim do colonialismo, quer das tensões e conflitos que o acompanharam. A sua fotografia “Descolonização”, com o amontoado de caixas a bloquear a vista da cidade, é um símbolo poderoso dessa nova realidade, mostrando o desafio de lidar com as consequências do passado colonial.

Além dos eventos políticos e sociais, Alfredo Cunha destacou-se pela sua capacidade de captar a essência das pessoas, desde figuras públicas como Mário Soares, Miguel Torga, José Saramago, Maria Helena Vieira da Silva ou Maria Teresa Horta, até anónimos que viveram a repressão da ditadura. Os seus retratos a preto e branco mostram não apenas rostos, mas histórias e emoções, refletindo a privação da liberdade e a luta pela dignidade humana. Aos 70 anos de idade, justo é reconhecer na obra de Alfredo Cunha um testemunho humanista que ajuda a preservar a memória colectiva, especialmente precioso para as gerações que não conheceram a repressão do Estado Novo. A sua capacidade de capturar a energia, o drama e a esperança nos rostos das pessoas, levam-nos a olhá-lo como uma voz visual da verdade, cuja obra vai muito além do simples registo documental, refletindo um compromisso profundo com a liberdade e a justiça social.

“A fotografia de Alfredo Cunha tem mais tempos e mais lugares, muitos mais, do que os contemplados nesta selecção do fotógrafo e do curador David Santos. Afinal, é já mais de meio século de trabalho. Contudo, em “Photographo” temos uma oportunidade única de olhar, com realismo, o país e o mundo e de, através da lente de Alfredo Cunha, nos questionarmos sobre quem somos. E quando a Arte nos devolve ao lugar das perguntas e das identidades, mais do que um contexto, ela é já merecedora de toda a eternidade. A Arte não é neutra, a fotografia não é neutra, a fotografia de Alfredo Cunha não é neutra. É uma escolha e o que somos revê-se nessa escolha.” As palavras são de Helena Mendes Pereira, Directora-Geral e Curadora da Zet Gallery, em Braga, que acrescenta: “Não tínhamos como não acolher esta exposição. Obrigada, Alfredo Cunha, pelas tantas estórias que são a nossa História”. A mostra integra os Encontros da Imagem de Braga e está patente ao público até 26 de Outubro.

quarta-feira, 16 de outubro de 2024

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "Paisagens Construídas"



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Paisagens Construídas”,
de Inês d’Orey
A partir do livro de Valdemar Cruz
Encontros da Imagem de Braga 2024
Zet Gallery, Braga
28 Set > 19 Out 2024

No início de Fevereiro, o Auditório de Serralves acolheu o lançamento oficial do livro “Paisagens Construídas – O Passado e o Presente da Arquitetura Portuguesa em 16+1 Obras”, de Valdemar Cruz. Alguns dias mais tarde, o autor foi o convidado da primeira sessão de 2024 das Tertúlias Literárias “Conversas às 5”, iniciativa do Centro de Reabilitação do Norte. De ambos os momentos deixei nota no blogue, bem como a minha apreciação ao livro, na qual destaco a habilidade do escritor em levar-nos por caminhos de “paisagens construídas”, ao encontro das histórias que se abrigam em cada uma das obras abordadas. Há, no entanto, um outro aspecto que merece o devido aplauso, e esse tem a ver com Inês d’Orey, autora das imagens que ilustram o livro e que, na subtileza e vivacidade do seu olhar, acrescenta valor e distinção a uma obra incontornável sobre o muito de bom que a arquitectura portuguesa tem para oferecer. Do livro, além dos rasgados elogios, aquilo que mais se ouve é o lamento por se encontrar esgotadíssimo. Quanto à fotografia, uma selecção de dezasseis imagens de grande formato pode ser vista por estes dias na Zet Gallery, em Braga, no âmbito dos Encontros da Imagem.

“Construída sobre rochedos, num dos extremos da marginal de Matosinhos, em local à época de escassa presença e actividade humana, Álvaro Siza Vieira, a partir do que parecia uma impossibilidade, transformou-a numa das grandes obras da arquitectura portuguesa contemporânea, com uma incomum projecção na cultura arquitectónica internacional”. Este e outros textos têm o condão de chamar a atenção do visitante para um pormenor ou uma curiosidade, mas é a poderosa envolvente artística contida no olhar de Inês d’Orey que se destaca numa exposição que é uma viagem singular através de múltiplas propostas arquitetónicas desenvolvidas ao longo dos séculos XX e XXI. Mais do que simples registos formais, a artista leva a cabo um audacioso trabalho de investigação sobre os edifícios e os seus contextos, ao ponto de construir ela própria um discurso sobre as obras fotografadas, exterior ou independente dos textos que lhes estão associados. Não os contraria, antes os complementa com um olhar outro, responsável pela abertura de novas possibilidades de leitura. Resta dizer que a exposição ficará patente na Zet Gallery só até ao próximo sábado, pelo que o tempo escasseia e importa não perder a oportunidade.

quarta-feira, 18 de outubro de 2023

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "Não contes à mãe"


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EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Não contes à mãe”,
de Délio Jasse
Curadoria | Helena Mendes Pereira e Arnold Braho
Encontros da Imagem de Braga 2023
Zet Gallery
30 Set > 02 Dez 2023


Partamos do princípio que uma pequenina janela de tempo se abre nos seus afazeres em Braga, permitindo-lhe visitar um dos vários núcleos de exposições da presente edição dos Encontros da Imagem. Pela quantidade de artistas que albergam, a Galeria do Paço ou a Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva afiguram-se como escolhas óbvias. Só que há uma outra opção, pessoalmente bem mais interessante e que elevo à condição de imperdível. Trata-se de “Não contes à mãe”, do artista visual Délio Jasse, e que pode ser visitada na Zet Gallery. Com curadoria de Helena Mendes Pereira e de Arnold Braho, a mostra é um documento vivo sobre o passado colonial português, recuperando histórias e memórias que permitem entrever uma realidade bem diferente daquela ditada pela cartilha do regime. É o contar a história “do ponto de vista de quem não chegou”, pondo o dedo na ferida das políticas colonialistas e chamando a primeiro plano os traumas do pós-colonialismo, enquanto tema descentralizado que questiona a construção de identidades.

Délio Jasse nasceu em Angola e, na maioridade, deixou o seu país em plena guerra civil e veio para Portugal com o objetivo de estudar artes. Sem ver reconhecida a nacionalidade portuguesa, apesar do pai ser cidadão português, Délio cai nas malhas da burocracia, sendo obrigado a enfrentar um longo processo de regularização da sua situação. Começa, então, a interessar-se pelos arquivos e por encontrar todo o tipo de documentos que façam referência às questões da identidade, acabando por encontrar na Feira da Ladra e noutros locais um verdadeiro manancial de objectos que vão alimentando a sua curiosidade. Na sua grande maioria, são documentos relativos, não apenas aos retornados, mas, sobretudo, à situação concreta e invisível dos nativos das ex-colónias que, durante o Estado Novo, parecem não contar para a estatística. Isto leva-o a “questionar-se sobre a ausência da representação de negros nas fotografias como se estes não existissem no território, percebendo-se o privilégio do fotógrafo que apenas registava o que era digno de registo”.

Passaportes, certificados de propriedade de terras, cartas íntimas, fotografias de família, ou mesmo carimbos e instrumentos de validação, o artista colecionou ao longo da sua carreira uma multiplicidade de fragmentos que se perderam e que depois se reencontraram. (…) É deste inconsciente coletivo, escondido nas fotografias, nas pequenas notas contidas nos versos das mesmas, que parte o trabalho de Délio Jasse que, como um arqueólogo, cruza os diferentes vestígios, procurando reescrever a história, não inibindo a violência que as narrativas oficiais da colonização portuguesa em África sempre procuraram ocultar ou, simplesmente, desvalorizar. O resultado é um arquivo urbano do que existia e do que agora foi substituído, em que os fantasmas do passado emergem das arquiteturas do presente, e os negativos impressos em papel vegetal se misturam como que para imobilizar uma passagem de estado.

As histórias estão lá, nas paredes de salas e corredores da Zet Gallery, para serem “lidas” e entendidas como partes da nossa história comum. Nítidas ou desfocadas, inocentes ou transgressoras, espelham-se em seis capítulos que nos falam de privilégios e poder, trocas e mercados, instituições e modelos, protesto e resistência, império e metrópole, legados e memórias. Nelas se leem as problemáticas das diásporas, as trajectórias num tempo pós-colonial e as relações colonizador-colonizado que ainda persiste de maneira informal nas relações sociais e institucionais. Com uma disposição extraordinariamente pensada e executada, a mostra tem na fotografia o seu principal suporte, mas vive muito da instalação na criação de ambientes propícios à fruição do material expositivo. Como disse acima, trata-se de uma exposição imperdível, que nos lembra que “não há futuro sem conhecimento do passado e, sobretudo, não faremos melhor no futuro se não formos capazes de recontar e de actualizar o que foi o passado.”

quarta-feira, 27 de março de 2019

EXPOSIÇÃO DE PINTURA E DESENHO: "Utopia"


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EXPOSIÇÃO DE PINTURA E DESENHO: “Utopia”,
de Cristina Troufa
Zet Gallery, Braga
09 Mar > 04 Mai 2019

I
De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua,
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.

II
Cheiro a terra as árvores e o vento
Que a Primavera enche de perfumes
Mas neles só quero e só procuro
A selvagem exaltação das ondas
Subindo para os astros como um grito puro.

Sophia de Mello Breyner Andresen


Tomando como fonte de inspiração a poesia de Sophia de Mello Breyner Andresen, inaugurou no passado dia 09 de Março a exposição “Utopia”, de Cristina Troufa. São cerca de 70 trabalhos, sobretudo pintura, mas também desenho e instalação, que ocupam o vasto e belíssimo espaço da Zet Gallery, em Braga, e que nos trazem uma parte da obra da artista produzida desde 2007. Representando-se a si própria, Cristina Troufa personifica a mulher naquilo que nela há de mais puro e livre. Nos gestos do quotidiano ou nas pausas introspectivas, entre a realidade e o sonho, somos convidados a perceber a mulher inteira e a com ela questionarmos o sentido da vida.

Nas suas cores contrastantes e no aspecto inacabado, as obras funcionam como espelhos, obrigando-nos a ver nelas as nossas incoerências e insuficiências, os nossos próprios limites. Passamos da lágrima ao riso no espaço temporal de uma simples pintura, os sentimentos de súbito expostos naquilo que têm de mais etéreo. Tudo isto sob a música delicada e terna dos poemas de Sophia, que nos envolvem numa carícia, nos confortam e nos falam de amor, de coragem e de verdade, da vastidão da alma e de mulheres que trazem o mar nos olhos. Em “Utopia”, há uma mulher que são todas as mulheres. Abraça-la é abraçar o mundo!