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quarta-feira, 19 de março de 2025

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "Paisagens Construídas" | Inês d'Orey



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Paisagens Construídas”,
de Inês d’Orey
Curadoria | Valdemar Cruz, Inês d´Orey, Luís Martinho Urbano
Fundação Marques da Silva
11 Jan > 09 Abr 2025


Quando folheei pela primeira vez o livro de Valdemar Cruz,“Paisagens Construídas – O passado e o presente da arquitetura portuguesa em 16+1 obras”, aquilo que desde logo prendeu a minha atenção foi a quantidade e qualidade das fotografias. O livro é belíssimo, conforme já tive oportunidade de referir AQUI no blogue. Além do arranjo gráfico extremamente cuidado, é um livro com peso, literalmente. Passando pelas suas páginas, é evidente a predominância de textos e entrevistas, mas destaca-se essa forte componente visual, consubstanciada nas mais de cem imagens que o livro encerra e que têm a assinatura de Inês d’Orey. Estou certo que, mesmo sem o manancial de “mil palavras” que associamos a cada imagem, o livro teria tudo para ser - como é! - de leitura obrigatória. A abordagem conhecedora e sensível de Valdemar Cruz a cada uma das obras arquitectónicas, do ponto de vista da sua complexidade e desafios, sabendo encontrar o tom certo para realçar aquilo que as une, independentemente do muito que, eventualmente, possa separá-las, disso se encarregaria. Mas há a imagem, como se de um bónus se tratasse. E há Inês d’Orey: Curiosa e afoita, perspicaz e sensível, inteligente e talentosa. Tal como Valdemar Cruz.

São de Inês d’Orey, como disse, as fotografias de “Paisagens Construídas”, exposição patente ao público na Fundação Marques da Silva. Com curadoria conjunta de Valdemar Cruz, Inês d’Orey e Luís Martinho Urbano, e design gráfico de André Cruz Studio, dela fazem parte dezasseis imagens referentes a obras de arquitectura portuguesa e que Valdemar Cruz aborda no seu livro. As obras - seleccionadas a partir das escolhas individuais de mais de meia centena de personalidades, na sua maioria arquitectos, mas também académicos, engenheiros, artistas plásticos, críticos, curadores, fotógrafos e um geógrafo - mostram os múltiplos e diversos caminhos, com amplo reconhecimento dentro e fora de portas, seguidos pelos arquitectos portugueses desde o início do século XX até à actualidade. A partir de uma selecção inevitavelmente circunstancial e provisória, os edifícios aqui representados assumem um mínimo denominador comum assente no facto de se constituírem obras referenciais para a formação, conhecimento e estudo de sucessivas gerações de arquitectos.

Porque de arquitectos e arquitectura nos fala “Paisagens Construídas”, importa referir que esta é uma exposição magistralmente “arquitectada”. Iniciativa da Fundação Marques da Silva, organizada em parceria com a Zet Gallery, a exposição tira o maior partido do espaço da Casa-Atelier do arquitecto Marques da Silva, que forma conjunto com o palacete da família Lopes Martins, em plena Praça Marquês do Pombal, lugar estratégico da cidade do Porto. Habilmente dispostas ao longo das salas, as imagens dialogam com um conjunto de desenhos oriundos de vários arquivos nacionais, complementando-se e enriquecendo-se mutuamente. É um privilégio poder, de uma assentada, espraiar o olhar pela Ponte da Ribeira da Carpinteira, na Covilhã, ou pela Piscina de Marés, em Leça da Palmeira, apreciar o traço de Álvaro Siza, Carrilho da Graça ou Eduardo Souto Moura, ler os excertos poéticos e sensíveis que Valdemar Cruz entendeu por bem trazer para a exposição e, ao mesmo tempo, beber a esplêndida luz que se derrama dos grandes janelões ou da extraordinária clarabóia que encima o edifício. Uma exposição imperdível, para ver até 09 de Abril.

quarta-feira, 16 de outubro de 2024

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "Paisagens Construídas"



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Paisagens Construídas”,
de Inês d’Orey
A partir do livro de Valdemar Cruz
Encontros da Imagem de Braga 2024
Zet Gallery, Braga
28 Set > 19 Out 2024

No início de Fevereiro, o Auditório de Serralves acolheu o lançamento oficial do livro “Paisagens Construídas – O Passado e o Presente da Arquitetura Portuguesa em 16+1 Obras”, de Valdemar Cruz. Alguns dias mais tarde, o autor foi o convidado da primeira sessão de 2024 das Tertúlias Literárias “Conversas às 5”, iniciativa do Centro de Reabilitação do Norte. De ambos os momentos deixei nota no blogue, bem como a minha apreciação ao livro, na qual destaco a habilidade do escritor em levar-nos por caminhos de “paisagens construídas”, ao encontro das histórias que se abrigam em cada uma das obras abordadas. Há, no entanto, um outro aspecto que merece o devido aplauso, e esse tem a ver com Inês d’Orey, autora das imagens que ilustram o livro e que, na subtileza e vivacidade do seu olhar, acrescenta valor e distinção a uma obra incontornável sobre o muito de bom que a arquitectura portuguesa tem para oferecer. Do livro, além dos rasgados elogios, aquilo que mais se ouve é o lamento por se encontrar esgotadíssimo. Quanto à fotografia, uma selecção de dezasseis imagens de grande formato pode ser vista por estes dias na Zet Gallery, em Braga, no âmbito dos Encontros da Imagem.

“Construída sobre rochedos, num dos extremos da marginal de Matosinhos, em local à época de escassa presença e actividade humana, Álvaro Siza Vieira, a partir do que parecia uma impossibilidade, transformou-a numa das grandes obras da arquitectura portuguesa contemporânea, com uma incomum projecção na cultura arquitectónica internacional”. Este e outros textos têm o condão de chamar a atenção do visitante para um pormenor ou uma curiosidade, mas é a poderosa envolvente artística contida no olhar de Inês d’Orey que se destaca numa exposição que é uma viagem singular através de múltiplas propostas arquitetónicas desenvolvidas ao longo dos séculos XX e XXI. Mais do que simples registos formais, a artista leva a cabo um audacioso trabalho de investigação sobre os edifícios e os seus contextos, ao ponto de construir ela própria um discurso sobre as obras fotografadas, exterior ou independente dos textos que lhes estão associados. Não os contraria, antes os complementa com um olhar outro, responsável pela abertura de novas possibilidades de leitura. Resta dizer que a exposição ficará patente na Zet Gallery só até ao próximo sábado, pelo que o tempo escasseia e importa não perder a oportunidade.

sábado, 24 de fevereiro de 2024

TERTÚLIAS LITERÁRIAS: “Conversas às 5” | Valdemar Cruz



TERTÚLIAS LITERÁRIAS: “Conversas às 5”,
com Valdemar Cruz
Participação especial | Álvaro Domingues
Moderação | Joaquim Margarido Macedo
Centro de Reabilitação do Norte
22 Fev 2024 | qui | 17:00


Com a emoção de sempre e um renovado vigor, as “Conversas às 5” regressaram ao Centro de Reabilitação do Norte após quatro meses de interregno. Aberta a todos, a 13ª. sessão das tertúlias literárias contou com a participação de uma dezena de doentes internados na Instituição, a quem foram dirigidas as primeiras palavras de saudação e agradecimento pela sua presença e interesse. Palavras que se estenderam ao restante auditório e, em particular, ao convidado da sessão, Valdemar Cruz, jornalista que nas últimas três décadas fez parte da redação do semanário Expresso e que acaba de lançar o livro “Paisagens Construídas – O Passado e o Presente da Arquitetura Portuguesa em 16+1 Obras”. E foi, muito justamente, em torno da arquitectura que a conversa fluiu, enriquecida pela participação especial de Álvaro Domingues, geógrafo e Professor da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, e pela espontaneidade e dinâmica de um público “interessado e interessante”.

“Não sou arquitecto nem tenho nenhuma formação em arquitectura. O que eu sou é jornalista e aquilo que eu faço, e sempre fiz, é contar histórias”. Abrindo a conversa com esta ressalva, Valdemar Cruz pôs em evidência, ao longo de noventa minutos, a sua faceta do “jornalista-contador-de-histórias”, o olhar atento e um apurado sentido crítico a “condimentarem” as histórias que se propôs partilhar com o público. “Andar pela rua e reparar nas coisas, e nomeadamente reparar nos prédios, porque nos contam muitas histórias”, terá servido de ponto de partida para “elencar um conjunto de obras que são realmente importantes no contexto da Arquitectura portuguesa” e avançar com o projecto para este seu livro. Para tal, implicou no processo mais de cinquenta pessoas directa ou indirectamente ligados ao fascinante mundo da arquitectura, pedindo-lhes que indicassem as cinco obras “que mais as comoveram, que mais as influenciaram”. Daqui resultaram 133 nomeações, das quais extraiu aquelas que recolheram o maior número de “votos”, chegando assim a este corpo de dezasseis obras “representativas do que de melhor se fez na arquitetura portuguesa desde o início do século XX até a atualidade”.

Debruçando-se sobre o livro, Valdemar Cruz começou por confessar que o produto final “é bastante melhor do que aquilo que tinha imaginado”. Falar de obras tão belas exigia “um livro bem construído em todos os seus aspectos” e a solução foi avançar para uma edição de autor, acrescentando à parte literária da obra uma forte componente visual através das mais de cem fotografias a cores de Inês d’Orey, o todo cuidadosamente harmonizado graças ao design gráfico com assinatura do André Cruz Studio. Folheando este seu “bebé”, como lhe chamou o moderador, Valdemar Cruz trouxe ao de cima as histórias por detrás de algumas das obras. Pegando numa “deixa” de Álvaro Domingues sobre arquitectura e poder, falou dos convidados na inauguração do edifício da Fundação Calouste Gulbenkian e a estagnação que representam face a uma obra que prenuncia o 25 de Abril e é “sinónimo de futuro”. Também da intenção dos arquitectos Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas em romper com o cânone e criar “uma arquitectura revolucionária num país em ditadura” com a construção da Igreja do Sagrado Coração de Jesus, em Lisboa. Ou ainda o extraordinário trabalho de arquitectura de Archer de Carvalho, Nunes de Almeida e Rogério Ramos em torno da Barragem e Complexo de Picote, em Miranda do Douro.

Convidado especial desta sessão, Álvaro Domingues também começou por fazer a ressalva de que não é arquitecto, o que lhe permite estar “mais atento à linguagem dos arquitectos sobre a arquitectura”. Com o brilhantismo que lhe é reconhecido, falou da importância de “ler arquitectura” e quais as ferramentas que nos podem ajudar a “avaliar as muitas questões que a arquitectura trata”. Foi o tempo de trazer para a discussão um dos textos seminais da cultura da Antiguidade Clássica, o tratado “De architectura” de Vitrúvio, escrito no Século I a.C. . Explorando os conceitos vitruvianos – “firmitas”, “utilitas” e “venustas” –, Domingues desafiou os ouvintes a terem presente as ideias de firmeza, funcionalidade e beleza no momento de olharem uma obra (qualquer obra) de arquitectura e perceberem qual destas “ferramentas” valorizam acima das restantes. Da “caixa de sapatos” da Casa da Música à função de um espigueiro, da íntima relação entre estética e anestesia aos candeeiros da casa de Álvaro Siza, das arquitecturas “que pesam ou que voam” ao Tanque da Afurada, o público foi convidado a participar numa verdadeira aula de arquitectura, onde avultaram a clareza da exposição e o valor dos ensinamentos.

“As palavras são como as cerejas”, fez notar Valdemar Cruz, quando confrontado com o avançar da hora. A parte final da conversa ficou marcada por uma apresentação muito breve de três outros livros seus, um deles com ponto de partida em trinta e quatro depoimentos de personalidades da cultura portuguesa e intitulado “O Que a Vida me Ensinou” e os outros dois baseados em investigações jornalísticas, “Histórias Secretas do Atentado a Salazar” e “A Filha Rebelde”, este último em co-autoria com o jornalista João Pedro Castanheira. Para o final ficou também a descodificação do “+1” que surge no livro “Paisagens Construídas” e que Valdemar Cruz explica como sendo a possibilidade oferecida ao leitor de ter, também ele, o poder de escolher as suas obras de arquitectura favoritas e de acrescentar “mais uma” às dezasseis obras detalhadas no livro. As últimas palavras foram de Álvaro Domingues, considerando ser este “um livro obrigatório”, graças à sua linguagem simultaneamente acessível e rigorosa, contrastando com a “linguagem encriptada” dos livros feitos por arquitectos para arquitectos. É também um livro “que cria um genuíno interesse pela arquitectura, pelas diferentes formas de a ver, pelos seus autores. Aguça imenso o apetite e contribui em muito para a cultura arquitectónica”, concluiu.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2024

LIVRO: “Paisagens Construídas – O passado e o presente da arquitetura portuguesa em 16+1 obras”



LIVRO: “Paisagens Construídas – O passado e o presente da arquitetura portuguesa em 16+1 obras”,
de Valdemar Cruz
Fotografias | Inês d’Orey
Ed. Edição do Autor, Fevereiro de 2024


“Na solidão de uma tarde gélida de inverno, a fúria das ondas massacra a costa e o mar não é apenas a fonte de onde jorram todos os medos, todos os perigos. As águas transportam um desespero incontrolável até ao momento de se desfazer em espuma a avalanche de uma natureza feita de mágoa. Na solidão de uma tarde gélida de inverno, na marginal de Leça da Palmeira, se o olhar procura, vê uma pequena e, na aparência frágil, construção a desafiar o mar. A desafiar a força daquelas marés. Vivas. Tão vivas quão poderosa é a sua capacidade de destruição.”

Depois de “Retratos de Siza”, livro de 2017 editado pela Lápis de Memórias, Valdemar Cruz regressa ao vasto e fascinante mundo da Arquitectura com “Paisagens Construídas – O passado e o presente da arquitetura portuguesa em 16+1 obras”. Obra de fôlego, com fotografias de Inês d’Orey e design gráfico de André Cruz, o livro abraça um “corpo de dezasseis obras representativas do que de melhor conceberam os arquitetos portugueses desde o início do século XX até a atualidade”. Na tentativa de descodificar o título, o leitor depara-se com aspectos singulares de um projecto que, sendo pessoal, procura abraçar a universalidade. Não é Valdemar Cruz que elege as obras, antes rende-se às escolhas individuais de mais de meia centena de personalidades, na sua maioria arquitectos, mas também académicos, engenheiros, artistas plásticos, críticos, curadores, fotógrafos e um geógrafo. Por outro lado, o autor resiste à tentação de elaborar um “best of…”, sempre redutor nas suas premissas, antes optando por apresentar as obras por ordem cronológica, uma solução com tanto de elegância como de equanimidade.

Sabia que a Casa de Chá da Boa Nova, obra maior de Álvaro Siza, encerra um segredo quanto à sua improvável localização? E que o Bloco das Águas Livres, dos arquitectos Nuno Teotónio Pereira e Bartolomeu Costa Cabral está repleto de pinturas, murais, mosaicos, vitrais e relevos de Almada Negreiros, Manuel Cargaleiro, Jorge Vieira, José Escada e Frederico Jorge? Sabe qual foi o argumento utilizado para convencer o ditador Salazar a viabilizar o projecto de Archer de Carvalho, Nunes de Almeida e Rogério Ramos para a Barragem e Complexo de Picote, em Miranda do Douro? E que a construção da “pedreira”, como é conhecido o Estádio Municipal de Braga, de Eduardo Souto de Moura, obrigou à retirada de 1,8 milhões de metros cúbicos de material rochoso? Estas e outras revelações vão sendo disponibilizadas à medida que mergulhamos no livro. Com enorme sensibilidade, Valdemar Cruz não só aborda cada uma das obras do ponto de vista da sua complexidade e desafios, como sabe encontrar o tom certo para realçar aquilo que as une, independentemente do muito que, eventualmente, possa separá-las.

Passando “da sala para o quarto”, que é como quem diz, deixando para trás os textos que introduzem cada uma das obras e o seu tom marcadamente poético e mergulhando na intimidade das entrevistas, o leitor é posto à prova, cara a cara com os responsáveis pelos projectos ou pessoas a eles intimamente ligadas. É a hora de juntar as partes e mergulhar no detalhe, ao mesmo tempo que se descobre o amor que se dedica a uma obra desde o primeiro instante, a angústia na busca das melhores soluções, a espera ansiosa pela aprovação dos projectos, a relação nem sempre fácil com os responsáveis pelas encomendas, a articulação preciosa com os engenheiros e restantes agentes que ajudam a pôr a obra de pé, enfim, o olhar para o resultado final e ver que tanto trabalho e tanta expectativa não foram em vão. Falta desvendar o “+1” do subtítulo e esse é o desafio que Valdemar Cruz oferece ao leitor, abrindo caminho a novas hipóteses, a novas “paisagens construídas”. Este “+1” é, em última análise, um exercício de liberdade e de cidadania. Afinal, “foi para isto que se fez o 25 de Abril”.

quinta-feira, 6 de julho de 2023

LIVRO: "Histórias Secretas do Atentado a Salazar"



LIVRO: “Histórias Secretas do Atentado a Salazar”,
de Valdemar Cruz
Ed. Campo das Letras, Abril de 1999


“De repente, tudo parece ruir como um castelo de cartas. Depois de longos interrogatórios e de intensas madrugadas de torturas e confissões arrancadas a ferros, não era possível que um conjunto de presos de outra secção viesse agora destruir tudo quanto fora laboriosamente arquitectado. Nem importava se estes novos presos até tinham reconhecida actividade política. Pouco interessava se os culpados encontrados pela direcção da PVDE eram indivíduos sem instrução, completamente analfabetos, porventura incapazes de distinguir um oposicionista de um fascista, quanto mais um anarquista de um comunista.”

Era um domingo como tantos outros, naquele Verão de 1937. Como de costume, António de Oliveira Salazar, dirige-se a casa do musicólogo Josué Trocado, para assistir à missa dominical. Passam 20 minutos das dez da manhã quando o carro que transporta o ditador pára em frente ao nº. 96 da Rua Barbosa du Bocage. “No exacto momento em que pousa o pé no passeio, um terramoto varre a avenida. Os gritos de pânico perdem-se, abafados pela violência de uma explosão.” Salazar, assim como toda a sua comitiva, saem ilesos do atentado. Os dias seguintes serão de fervoroso apoio nacional ao Presidente do Conselho, com as manifestações de rua a sucederem-se quase de forma espontânea e os jornais a darem conta dos preitos de homenagem que brotam dos quatro cantos do Império. A repulsa pelo atentado é unânime e veemente. Enquanto isso, as diferentes polícias desencadeiam uma furiosa caça ao homem. Mostrar eficácia e apresentar culpados é o sentimento que as move, estabelecendo entre si “uma tenebrosa competição, responsável por prisões arbitrárias e falsas confissões arrancadas sob tortura.” O resultado é desastroso.

Jornalista profissional desde 1976, Valdemar Cruz parte da consulta exaustiva de um processo que esteve em segredo durante seis décadas, para reconstruir os passos da investigação policial subsequente ao atentado a Salazar. Acrescentando passagens do livro “História de um Atentado - O Atentado a Salazar”, de Emídio Santana, e informação recolhida nos jornais da época, com particular destaque para “O Século” e o “Diário da Manhã”, o escritor oferece-nos uma visão alargada do Portugal de então, cinco anos após a investidura de Salazar como responsável máximo pelo Governo da Nação. Cingindo-se à verdade dos factos, Valdemar Cruz mostra-se exímio na forma como desdobra as fases deste sombrio processo e como cruza os implicados, sejam eles agentes das várias polícias ou os suspeitos que, nos cárceres da António Maria Cardoso ou do Aljube, oferecem a “verdade” aos seus verdugos sob os tratos mais cruéis. O ritmo da narrativa é alucinante. O desenrolar dos acontecimentos prende o leitor e mergulha-o num sem número de episódios rocambolescos, mal-entendidos, afirmações extemporâneas, prisões e torturas, com a intervenção da Polícia Secreta do fascista Mussolini e com Franco e o próprio Hitler em pano de fundo.

Mas se o livro é sobre quem tem o poder e o aplica de forma discricionária, ele é, acima de tudo, sobre aqueles que, desgraçadamente, caem na alçada da polícia política e se vêem confrontados com uma máquina repressiva que, sem contemplações, os reduz ao grau mais baixo da sua existência. É lá que são mantidos, mesmo que as evidências ditem a sua inocência. As revelações de um despeitado comandante de Divisão da PSP, Baleizão do Passo, servem para atear a fogueira. A audição dos vários intervenientes, conduzida pelo Juiz Alves Monteiro, nomeadamente dos capitães Agostinho Lourenço e Ernesto Catela, respectivamente Director e Secretário-Geral da PVDE, reveste-se de momentos inacreditáveis, mostrando a real dimensão do aparelho repressivo do Estado Novo, o maquivelismo dos seus processos e uma flagrante impreparação. Controlada pelo aparelho, a imprensa situacionista fica igualmente mal na fotografia. O processo será arquivado, sem que dele se retirem consequências. Pior ainda, “José Horta, Alfredo Elói, Jacinto Carvalho, Francisco Pinhal e outros estavam inocentes, mas foram presos, espancados e torturados. Um dia deixaram-nos sair. Mandaram-nos embora com o mesmo sem-cerimónia com que os foram buscar. Olharam-nos apenas como um número a abater ao efectivo de prisioneiros. Perderam-se no silêncio do país.” Valdemar Cruz faz-lhes o devido reparo.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2022

EXPOSIÇÃO DE PINTURA: "No Teatro das Emoções"


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EXPOSIÇÃO DE PINTURA: “No Teatro das Emoções”,
de José Emídio
Galeria Eritage, Lisboa
17 Nov 2022 > 12 Fev 2023


Uma tarde cálida de Outono, uma caminhada à beira Tejo, o regresso pelas Janelas Verdes. Entre gente apressada, azulejos coloridos, semiótica urbana da mais pura e um magnífico pôr do sol no miradouro fronteiro ao Museu Nacional de Arte Antiga, algo me desperta a atenção. Do outro lado da rua, por detrás das vidraças da Galeria Eritage, é a cor que me chama. Cor que é vida, cor que aquece, como num quadro de Gauguin. Entro e é como se entrasse para dentro de mim. Toca-me a familiaridade dos tambores e bandolins nas paredes, dos brinquedos de madeira, da espingardinha, de uma máscara indígena, dos pequenos quadros, de alguns pratos pintados. Nas histórias simples que contam, nos tempos felizes que convocam, são como um despertador de memórias. São, enfim, um convite a espreitar o “teatro das emoções” de José Emídio, esse teatro multicolorido, espécie de sonho acordado onde cabem guitarras e bombos, abraços e vivas, rostos de muitas raças, a exuberância de estranhas plantas, o traje garrido dos arlequins.

Gosto de pensar que “os amigos dos meus amigos, meus amigos são” e que tenho em José Emídio um amigo. Mesmo não o conhecendo, mesmo não conhecendo a sua obra. Elizabeth Leite e Valdemar Cruz, dois bons amigos, dão-me disso a certeza. Da primeira, encontro um belíssimo (e bem ilustrado) testemunho no Livro de Honra da exposição que se encontra logo à entrada. Do segundo é o texto curatorial que ocupa uma parte da parede, de onde retiro este excerto: “Há uma tocante polifonia cromática encontrada nas telas a óleo, [nos tapetes] e nas cerâmicas. O sensível tratamento dos azuis, os envolventes castanhos, ou mesmo os diferentes tons de verde, se assumem eles próprios como elementos cruciais à estrutura narrativa, constituem fragmentos de uma cornucópia de discursos dos quais não está nunca ausente a delicada aproximação a um irresistível lirismo poético que tanto o aproxima de Chagall (…)”. É justamente isso que sinto no abraço caloroso que estes trabalhos me estendem e, por detrás deles, o seu autor. Sim, José Emídio é um bom amigo.

Um e dois e três, era uma vez um soldadinho”... No imaginário de José Emídio, a guerra tem uma importância singular. No plano recuado de um dos quadros trava-se um combate que envolve guerreiros de agora e de há dez séculos. Com as suas metralhadoras, os seus arcos e flechas, todos parecem travar a mesma guerra. Motivo idêntico vamos encontrá-lo noutro trabalho, o sentido da metáfora presente como que a evidenciar a intemporalidade e imutabilidade das pulsões humanas. Singular é também a aproximação do pintor ao conceito de diáspora, evidente na elevação da figura feminina enquanto representante das mais variadas proveniências, com os seus traços distintivos, o seu mistério, o seu fascínio. Ou os instrumentos musicais, a estranheza do bestiário, a variedade floral, os jogos de infância. Cuidadosamente encenados, os quadros contam histórias nas quais os elementos parecem perpetuar-se ainda que mudem de lugar ou de plano, de forma ou de cor. É a vida com os seus ciclos, os seus desafios e ilusões, o mudar tudo para que tudo fique igual. É esse eterno retorno a um “teatro de emoções”, pessoal e intransmissível, que é o nosso.