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sábado, 8 de novembro de 2025

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Alén do Lago” | Carlos Folgoso



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Alén do Lago”,
de Carlos Folgoso
Curadoria | Vítor Nieves
Encontros da Imagem Braga 2025
Theatro Circo, Braga
20 Set > 18 Out 2025


A fotografia contemporânea convida-nos a interpretar o mundo que nos rodeia e a dialogar com ele. Muito para além de uma função estética, esta forma de arte procura despertar emoções, chamar a atenção para problemáticas sociais ou explorar dimensões da realidade que frequentemente escapam ao olhar comum. No ritmo acelerado dos dias de hoje, a fotografia mostra-se particularmente relevante, permitindo captar e preservar momentos efémeros do quotidiano. Inapelavelmente, tornou-se um novo meio de comunicação, capaz de transmitir mensagens e congelar instantes únicos no tempo. É neste contexto que se insere o projeto “Alén do Lago”, série vencedora do XII Prémio Galiza de Fotografia Contemporânea 2024, ao destacar-se como uma expressão visual que convida à contemplação e à introspeção.

Em “Alén do Lago”, Carlos Folgoso oferece-nos uma visão pessoal da Galiza rural, profundamente ligada às suas tradições e ao seu imaginário. Através de um olhar que emerge da floresta para revelar novas narrativas, o autor conduz-nos por uma paisagem quotidiana carregada de significado. A sua abordagem metafórica à paisagem e ao povo galego transcende a superfície e propõe uma leitura emocional e simbólica, despertando no espectador memórias, sensações e vivências passadas. Mais do que simples registos visuais, as suas imagens constroem uma narrativa não-verbal, onde cada fotografia é um fragmento de realidade social e de mitos partilhados. Através do domínio da retórica visual, Folgoso transforma a imagem numa linguagem autónoma, plena de intenção e densidade poética, que nos ensina a valorizar cada recanto do território que habitamos.

Mergulhar nas imagens que compõem “Alén do Lago” é aceder a uma nova perspetiva sobre a Galiza rural, onde o quotidiano se transforma em arte e a arte nos devolve às nossas memórias mais profundas. Nesta criação, os contrastes e as dualidades assumem um papel central, despertando a consciência para a importância de preservar a natureza, a história e os valores que definem a nossa identidade colectiva. Cabe ainda neste espaço a menção a uma iniciativa que visa fomentar a criação artística, permitindo o surgimento de propostas inovadoras e de qualidade excepcional, merecedoras de uma maior visibilidade. Criado em 2013, no âmbito do Festival Internacional Outono Fotográfico (os Encontros da Imagem dedicam a este certame uma atenção especial, com uma mostra patente ao público no Mosteiro de Tibães), o Prémio de Fotografia Contemporânea da Galiza contribui para legitimar e valorizar a fotografia enquanto forma artística contemporânea e serve também para estimular novas propostas, inovações visuais e diálogo estético, levando em conta as linguagens fotográficas alternativas.

sábado, 25 de outubro de 2025

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Lebensborn” | Angeniet Berkers



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Lebensborn”,
de Angeniet Berkers
Coordenação | Alexia Alexandropoulou
Encontros da Imagem Braga 2025
Museu Nogueira da Silva, Braga
19 Set > 02 Nov 2025


O programa “Lebensborn” foi fundado na Alemanha em 1935 sob o III Reich e visava o crescimento de uma população do regime nazi considerada “racialmente pura”. Na busca de reverter o declínio demográfico pós-Primeira Guerra Mundial, o programa incentivava o nascimento de crianças arianas, proibindo abortos e contracepção, além de estimular oficiais das SS a terem muitos filhos, mesmo fora do casamento. Mulheres consideradas racialmente adequadas, incluindo as dos territórios ocupados, eram acolhidas em lares especiais para dar à luz. Ao mesmo tempo, milhares de crianças com características “arianas” eram raptadas da Europa Oriental, sujeitas a rigorosos testes raciais e germanizadas e vendo apagada a sua identidade original. Este projecto, idealizado por Heinrich Himmler, é uma das manifestações mais cruéis e distorcidas do conceito nazi de “pureza racial”.

A complexidade do “Lebensborn” vai muito além das imagens estereotipadas que surgiram após a guerra, frequentemente associadas a histórias sensacionalistas de bordéis nazis. Com efeito, as crianças nascidas nesses lares sofreram uma forte estigmatização e muitas foram vítimas de abusos, vivendo em silêncio sobre as suas origens durante décadas. A destruição de documentos e a ausência de relatos directos contribuíram para uma compreensão fragmentada e muitas vezes errada do programa. No entanto, a análise das experiências dos sobreviventes revela uma história de dor, identidade dilacerada e uma luta contínua por reconciliação com um passado marcado pela violência institucionalizada. O “Lebensborn” é um aviso sombrio sobre os perigos de ideologias que distorcem a humanidade em nome de falsas superioridades.

A fotógrafa Angeniet Berkers dedicou cinco anos a investigar e documentar o “Lebensborn”, visitando antigos lares e entrevistando sobreviventes, cuja coragem e resiliência desafiam o silêncio imposto por gerações. As suas fotografias e relatos ampliam a compreensão desse capítulo sombrio, mostrando que os vestígios físicos e humanos do programa ainda carregam um forte impacto emocional e histórico. Em tempos em que o nacionalismo e os discursos de exclusão ressurgem, revisitar essas histórias torna-se crucial para alertar contra a repetição de ideologias totalitárias. O “Lebensborn”, com a sua tentativa grotesca de controlar a reprodução e identidade humanas, permanece como uma chamada de atenção para o que ocorre quando o poder e o preconceito se unem com vista a aniquilar a diversidade e a liberdade individual.

sexta-feira, 24 de outubro de 2025

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Cinematica” | Teresa Freitas



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Cinematica”,
de Teresa Freitas
Curadoria | Noora Mänty
Encontros da Imagem Braga 2025
Galeria da Estação, Braga
13 Set > 30 Out 2025


Entre as várias propostas que se destacam no vasto panorama dos Encontros da Imagem de Braga, reservo um espaço muito particular para “Cinematica”, uma série fotográfica em contínua evolução que transcende a simples documentação para se tornar um exercício de manipulação visual e perceptiva. Nela, Teresa Freitas explora o impacto transformador da cor, procurando estabelecer um conjunto de tensões entre o que é captado pela objectiva e o que é subjetivamente interpretado pelo visitante. Consciente e calculada, a manipulação da imagem cria um espaço onde a realidade é desafiada, confundindo os limites entre o real e o onírico. Essa intervenção cromática, fundamentada nos princípios rigorosos da teoria da cor, altera subtilmente a atmosfera das cenas, insuflando-lhes uma qualidade quase cinematográfica. Assim, “Cinematica” não se limita a registar lugares e pessoas, mas revela as camadas invisíveis da experiência visual, convidando-nos a questionar a autenticidade do que vemos e a perceber o poder da cor como agente de transformação e sugestão.

Moldada pela estética e pelo equilíbrio cromático que define cada fotografia, a percepção é o elemento central nesta série. A cor, tratada como uma personagem activa, actua em consonância com a composição, guiando o olhar e criando uma narrativa própria que transcende a mera reprodução visual. Os tons, cuidadosamente calibrados em matiz, saturação e luminosidade, funcionam como uma linguagem simbólica, capaz de evocar estados emocionais e sensações imersivas. A estética aqui é mais do que um atributo formal: É um campo onde a harmonia entre elementos visuais sustenta a relação entre o real e o imaginário. O onirismo, nesse contexto, emerge do modo como a cor e a luz reconfiguram o espaço e o tempo e distorcem a percepção tradicional, transformando cenas comuns em momentos de enigma poético que desafiam o espectador a uma leitura mais profunda, onde a imaginação se cruza com a experiência tangível.

No limite, “Cinematica” é sobre uma nova forma de olhar a rua, a casa ou a paisagem — não apenas como espaço e território, mas como palco onírico onde o quotidiano se reveste de teatralidade e simbolismo. A manipulação da imagem enaltece o detalhe aparentemente banal, eternizando-o com uma nitidez que transcende o efémero, revelando uma dimensão que oscila entre o familiar e o insólito. A rua torna-se uma extensão da casa, um território onde o comportamento humano ganha contornos de drama e fantasia, amplificados pela estética cromática que ilumina a cena. O realismo fotográfico é tensionado pela intervenção artística, criando um diálogo constante entre o visível e o oculto, entre o que é registado e o que é imaginado. “Cinematica” convida o espectador a envolver-se num percurso sensorial onde a manipulação da cor não só altera a percepção, mas também enriquece a narrativa visual com camadas de significado que vão muito além da mera representação.

quarta-feira, 15 de outubro de 2025

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Photographo” | Alfredo Cunha



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Photographo”,
de Alfredo Cunha
Curadoria | David Santos
Encontros da Imagem de Braga 2025
Zet Gallery
19 Set > 26 Out 2025


No momento de pôr um ponto final na sua carreira como fotojornalista e abraçar novos projectos artísticos, Alfredo Cunha passa em revista um olhar de mais de cinco décadas sobre a História e a Cultura contemporâneas. Engajado com um mundo em permanente ebulição, o fotógrafo reúne cerca de oito dezenas de imagens sob o título “Photographo” – curiosa a grafia, a remeter para um passado cada vez mais distante –, consideradas das mais relevantes da sua carreira. O destaque vai para uma selecção de icónicas imagens do 25 de abril de 1974, mas também do conturbado processo de descolonização das antigas colónias portuguesas em África que se lhe seguiu. Angola, Moçambique, Guiné-Bissau e São Tomé são palco privilegiado das suas fotografias, reveladoras quer do impacto político e social do fim do colonialismo, quer das tensões e conflitos que o acompanharam. A sua fotografia “Descolonização”, com o amontoado de caixas a bloquear a vista da cidade, é um símbolo poderoso dessa nova realidade, mostrando o desafio de lidar com as consequências do passado colonial.

Além dos eventos políticos e sociais, Alfredo Cunha destacou-se pela sua capacidade de captar a essência das pessoas, desde figuras públicas como Mário Soares, Miguel Torga, José Saramago, Maria Helena Vieira da Silva ou Maria Teresa Horta, até anónimos que viveram a repressão da ditadura. Os seus retratos a preto e branco mostram não apenas rostos, mas histórias e emoções, refletindo a privação da liberdade e a luta pela dignidade humana. Aos 70 anos de idade, justo é reconhecer na obra de Alfredo Cunha um testemunho humanista que ajuda a preservar a memória colectiva, especialmente precioso para as gerações que não conheceram a repressão do Estado Novo. A sua capacidade de capturar a energia, o drama e a esperança nos rostos das pessoas, levam-nos a olhá-lo como uma voz visual da verdade, cuja obra vai muito além do simples registo documental, refletindo um compromisso profundo com a liberdade e a justiça social.

“A fotografia de Alfredo Cunha tem mais tempos e mais lugares, muitos mais, do que os contemplados nesta selecção do fotógrafo e do curador David Santos. Afinal, é já mais de meio século de trabalho. Contudo, em “Photographo” temos uma oportunidade única de olhar, com realismo, o país e o mundo e de, através da lente de Alfredo Cunha, nos questionarmos sobre quem somos. E quando a Arte nos devolve ao lugar das perguntas e das identidades, mais do que um contexto, ela é já merecedora de toda a eternidade. A Arte não é neutra, a fotografia não é neutra, a fotografia de Alfredo Cunha não é neutra. É uma escolha e o que somos revê-se nessa escolha.” As palavras são de Helena Mendes Pereira, Directora-Geral e Curadora da Zet Gallery, em Braga, que acrescenta: “Não tínhamos como não acolher esta exposição. Obrigada, Alfredo Cunha, pelas tantas estórias que são a nossa História”. A mostra integra os Encontros da Imagem de Braga e está patente ao público até 26 de Outubro.

terça-feira, 14 de outubro de 2025

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Reaching for Dusk” | Stefanos Paikos



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Reaching for Dusk”,
de Stefanos Paikos
Curadoria | Alexia Alexandropoulou
Encontros da Imagem Braga 2025
Avenida da Liberdade, Braga
18 Set > 02 Nov 2025


No coração vibrante da Avenida da Liberdade, em Braga, uma exposição da 35.ª edição dos Encontros da Imagem convoca o olhar do público para a crua realidade do aterro de Mbeubeuss, nas imediações de Dakar, capital do Senegal. Activo desde 1968 e com uma área total de cerca de 115 hectares, este espaço aberto e intenso recebe diariamente três mil toneladas de resíduos, transformando-se num palco onde a sobrevivência se tece entre o caos e a esperança. Aqui, quatro milhares de pessoas vivem e trabalham em condições degradantes e altamente perniciosas para a saúde, recolhendo cobre, alumínio, plástico e vidro para conseguirem ganhar o suficiente para sobreviver, muitas vezes o suficiente apenas para seguir em frente. Entre as montanhas de resíduos e a poeira do tempo, as imagens emergem como janelas para um mundo onde o lixo é matéria-prima e a dignidade se constrói a cada pedaço recuperado.

Parte de uma série a longo prazo que descreve o outro lado do deslocamento, dando visibilidade àqueles que permanecem num limbo, longe das costas europeias, mas profundamente envolvidos nas consequências dos movimentos migratórios, “Reaching for Dusk”, do fotojornalista grego Stefanos Paikos, é uma viagem sensível e poderosa ao maior aterro sanitário a céu aberto da África Ocidental. Mais do que um local de despejo, Mbeubeuss é o refúgio de milhares que buscam no trabalho árduo o sustento para continuar, muitas vezes à custa da saúde e da segurança. Estas imagens captam o limiar entre o fim e o começo, um espaço onde o sonho da migração se entrelaça com a dura realidade da luta diária. É um testemunho que rompe o silêncio sobre a face oculta do deslocamento: aqueles que permanecem, que resistem longe dos seus territórios de origem, imersos numa economia informal que desafia a precariedade. A exposição na Avenida da Liberdade convida-nos a olhar de frente para estas histórias de sobrevivência, nas quais o impacto visual se traduz em urgência e empatia, tornando palpável o drama invisível.

À sombra da modernidade e da expansão urbana de Dakar, Mbeubeuss revela a complexidade da gestão dos resíduos num contexto onde o crescimento económico não elimina as desigualdades profundas. De lago seco a montanha de lixo, este aterro é hoje um epicentro ambiental e social, onde o desafio da poluição se junta à luta por condições mais humanas. Enquanto se aguarda a reabilitação do aterro, há projectos inovadores e inclusivos a serem desenvolvidos, valorizando o trabalho dos recolectores e oferecendo-lhes melhores condições de vida e de trabalho, desde casas de banho móveis a equipamentos de proteção e espaços comunitários de lazer e saúde. Entretanto, não cessa de aumentar o fluxo daqueles que viajam desde a África Ocidental para Mbeubeuss, atraídos pelos testemunhos de um lugar onde o trabalho, embora perigoso, oferece esperança. A exposição nas ruas da cidade, sob o céu aberto da Avenida da Liberdade, transforma estas realidades em imagens que confrontam e sensibilizam, aproximando o público de um mundo distante e, ao mesmo tempo, urgente e presente, um local como beco sem saída e como ponto de partida, onde o futuro é sonhado a peso.

segunda-feira, 13 de outubro de 2025

FESTIVAL: Encontros da Imagem Braga 2025



FESTIVAL: Encontros da Imagem - Festival Internacional de Fotografia e Artes Visuais Braga 2025
Direcção | Manuel da Cunha Santos, Carla Bacelar Ferreira
Direcção artística | Vítor Nieves
Equipa Curatorial | Alexia Alexandropoulou, Daniel Bastos, Elina Heikka, José Bacelar, Manuel Sendón & Xosé Lois Suárez Canal, Daniel Moreira e Rita Castro Neves, Rui Prata, Xosé Lois Vázquez
Artistas | Alfredo Cunha, Carlos Folgoso, Elisa Freitas, Gérald Bloncourt, Gil Raro, José Cruzio, Matevž Čebašek, Miguel De, Pierpaolo Mittica, Roberto de la Torre, Sergio Marey, Stefanos Paikos, Vari Caramés e outros
Avintes, Barcelos, Braga, Guimarães, Porto e Vila Verde
18 Set > 02 Nov 2025


Os Encontros da Imagem constituem o maior festival de fotografia existente no país e emparceira os grandes festivais de fotografia europeus. Com inicio em 1987, o certame tem constituído, nestes últimos trinta anos, uma esteira essencial para a divulgação e a criação fotográfica. As primeiras edições centraram-se na apresentação de autores clássicos essenciais para a compreensão da história da fotografia e, simultaneamente, autores contemporâneos que apresentavam as linhas mais recentes de representação. Paulatinamente, os Encontros foram alargando os seus objetivos, chegando em 2025 à sua 35.ª edição e fazendo dela uma forma de apresentar uma verdadeira “manifestação de interesses”. Mais do que um mote, este título funciona como um gesto público, um manifesto de interesses renovados que o festival adquire e partilha, consolidando o seu legado e lançando novos compromissos para o futuro. Este mote reflete também a intenção de olhar criticamente para o seu percurso. Na sua meia-idade — 35 edições ao longo de 38 anos — os Encontros da Imagem assumem a necessidade de uma pausa reflexiva que questiona a função deste e, por extensão, de outros festivais de primeira geração: repensar as conquistas alcançadas e avaliar a sua pertinência na actualidade.

O visitante ocasional não terá esta percepção, mas os “habitués” dos Encontros da Imagem perceberão muito facilmente uma, digamos, “reconfiguração” em relação a anteriores edições. Os limites entre as disciplinas artísticas mostram-se mais diluídos, com o festival a expandir-se para além da fotografia. Embora esta continue a ser o seu foco central, o programa integra de forma decisiva a performance, a instalação, a escultura e a videoarte, explorando territórios que enriquecem a experiência estética do público. Para reforçar a ligação com a comunidade e atrair novos públicos, a edição de 2025 inclui mais exposições de rua, expandindo a presença do festival para além dos espaços convencionais. Numa assumida “Manifestação de Interesse”, esta edição do Festival estrutura-se em três núcleos expositivos, cada um com a sua abordagem única e complementar. Estes núcleos — “Dissidências”, “Argumentários” e “Transições” — foram concebidos para explorar o tema central sob diferentes perspectivas, gerando diálogos, tensões e conexões. Cada programa aponta para aspectos cruciais da fotografia contemporânea e das artes visuais, desde a celebração da inovação e diversidade até à reflexão sobre o percurso e identidade do próprio festival, culminando na exploração das conexões regionais e identidades divergentes.

Braga continua a ser o fulcro dos Encontros da Imagem, com os pólos expositivos a estenderem-se a Avintes, Barcelos, Vila Verde, Porto e Guimarães. Daquilo que me foi possível ver num dia sempre preenchido, destacaria as exposições “Lebensborn”, de Angeniet Berkers, no Museu Nogueira da Silva, e que aborda o “Lebensborn”, programa fundado na Alemanha em 1935 e que foi concebido para proporcionar ao Terceiro Reich uma nova geração de líderes e oficiais da SS, e “Reaching for Dusk”, de Stefanos Paikos, em plena Avenida da Liberdade, e que documenta o quotidiano em Mbeubeuss, o maior aterro sanitário a céu aberto da África Ocidental, localizado nos arredores de Dakar, no Senegal, uma frente negligenciada na história da migração. Patente na Galeria da Estação, “Cinematica”, de Teresa Freitas, tem a curiosidade de confrontar o visitante com uma estética cromática específica, levando-o a questionar a autenticidade das cenas apresentadas. Na sua dimensão foto-documental, “Photographo”, de Alfredo Cunha, e “A Emigração Portuguesa a Salto”, de Gérald Bloncourt, são duas exposições a não perder. A primeira pode ser vista na Zet Gallery, enquanto a segundo está patente no Arquivo Municipal. Os Encontros da Imagem prolongam-se até ao dia 02 de Novembro.

sexta-feira, 15 de novembro de 2024

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "Rêverie" | Kit Young



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Rêverie”,
de Kit Young
Encontros da Imagem de Braga
Leica Gallery Porto
Set 2024 > Jan 2025


“Rêverie” é uma palavra de origem francesa, que representa a ideia de devaneio, um estado de introspecção, uma espécie de um sonho acordado, em que a mente vagueia livremente. Como nos sonhos nocturnos, dos quais muitas vezes despertamos confusos, também neste sonhar acordado podemos confundir o que imaginamos com a realidade. Em ambos os estados, apenas o que sentimos ou as emoções que vivemos se apresentam claras na nossa memória. Talvez seja por este desprendimento relativamente ao mundano que, partindo de sítios tão distintos como Paris, Chicago, a ilha de Skye, Veneza, Nova York ou Norfolk, a visão única de Kit Young, aliada a uma estética refinada, nos transportam para uma atmosfera de mistério e beleza. Compreende-se assim que o seu trabalho, habitualmente dividido em séries, seja aqui apresentado como um único corpo, unido por um padrão visual singular e inconfundível.

O conjunto de fotografias apresentado em “Rêverie”, desafia a percepção e memória de quem as vê, levando-nos a duvidar se somos meros espectadores de uma realidade vivida por outrem, ou se somos parte integrante daquelas imagens. Subitamente é como se estivéssemos lá, com o nosso subconsciente a experimentar memórias alheias, apropriando-nos delas, inebriados pela atmosfera de sonho para a qual somos transportados. São imagens que ficam em nós. Fechamos os olhos e podemos continuar a vê-las. Não precisamos de saber o local ou a data em que foram feitas, o que está por trás delas ou qual a narrativa a que pertencem; é como se nos pertencessem, falando para o nosso íntimo de uma forma profunda e inesperada. Contrariando Roland Barthes com o seu conhecido “noéme” da fotografia “that-has-been”, a partir do qual entende a fotografia como possibilidade de revisitar um fragmento de tempo e espaço que nunca poderemos voltar a viver; encontramos no trabalho de Kit Young não uma representação de um tempo e espaço, mas sim inúmeras possibilidades. Uma espécie de portal para um lugar de liberdade, que se apresenta diferente de cada vez que o vemos, onde podemos ver algo novo e criar diferentes memórias, como se cada vez que revisitamos as suas imagens fosse a primeira.

Com uma abordagem poética e evocativa transversal a todo o seu corpo de trabalho, Kit Young não vê as suas fotografias como completas no momento de captura das mesmas. Ele é um apaixonado pelo trabalho que desenvolve na câmara escura, é lá que leva ao limite a sua técnica e mestria, o que também o faz desafiar-se constantemente, inspirando-o na busca de novos temas para as suas fotografias. Assim, ao observar o seu trabalho, tanto podemos deparar-nos com uma paisagem nebulosa e onírica, onde a natureza parece respirar em silêncio; como com o turbilhão da vida numa cidade cheia de gente, interrompido unicamente por figuras solitárias; ou até com um retrato íntimo e nostálgico, que desperta em nós curiosidade e contemplação imediatas. “Rêverie” é isto mesmo, uma dança delicada entre o real e o imaginário, onde através de momentos aparentemente não relacionados no tempo e espaço, somos transportados para um local paralelo, onde a sensibilidade única de Kit Young transforma, de forma magistral, um fugaz momento em algo etéreo.

quarta-feira, 6 de novembro de 2024

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "Finding Home"



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Finding Home”,
de Gonçalo Fonseca
Encontros da Imagem de Braga
Casa da Cultura de Avintes
05 Out > 03 Nov 2024


Ainda que a exposição tenha encerrado no passado fim de semana, vale a pena “espreitar” a obra de Gonçalo Fonseca, parte integrante da colecção dos Encontros da Imagem e que, à semelhança do que acontecera em Julho do ano passado, quando esteve presente na Galeria da Estação, marcou um momento significativo na presente edição do Festival. A mostra remete para Dezembro de 2021, altura em que um grande número de refugiados afegãos encontraram um novo lar em Portugal, com a esperança renovada de que a música voltasse a encher os corredores do seu Instituto e que o medo do palco fosse o único receio que os seus estudantes enfrentassem. Recorde-se que antes da tomada do poder pelos Talibãs no Afeganistão, o Instituto Nacional de Música do Afeganistão (ANIM) tocava nas salas de concerto mais renomadas do mundo. Em 2021, com a retirada das tropas dos EUA do país, o ANIM foi ocupado e os instrumentos destruídos. Nas salas de aula, nos corredores, no espaço exterior, instalou-se o silêncio. E o medo.

Na sequência de um complexo processo, alunos e professores foram resgatados com a ajuda do violoncelista Yo Yo Ma e o governo do Qatar. No final de 2021 chegavam, em segurança, a Portugal, com a perspectiva de verem os seus chegar logo a seguir. A espera, em Lisboa, foi longa – demasiado longa para adolescentes – e os familiares nunca mais chegaram. Até que as coisas começaram a mexer. Os mais novos foram acolhidos em Braga. Outro grupo acabou por ser recebido pelo Município de Guimarães, ao abrigo do programa “Guimarães Acolhe”. Perguntar-lhes como se sentem é um esforço vão. Estão sempre “bem”, mesmo quando a cara diz o contrário, mesmo naqueles raros momentos em que se expõem e deixam aperceber olhos lacrimejantes, mesmo quando têm no bolso um bilhete para, no dia seguinte, deixarem a nova casa e a nova escola com a intenção de irem para longe e não mais voltar.

Com o Afeganistão agora uma sociedade silenciosa, um grande peso foi colocado sobre este grupo de refugiados. Eles são os guardiões das tradições musicais afegãs, assegurando que os sons antigos do seu país continuem a ser ouvidos no futuro. A sua regeneração na Europa é algo pelo qual lutam, vivendo como refugiados numa terra estranha. São os dilemas e as barreiras, todo um conjunto de atitudes reveladores do tremendo choque cultural e da desinserção social, que Gonçalo Fonseca traz ao nosso encontro, num projecto documental de grande valor e interesse. No rosto dos retratados, percebemos a força da ligação às raízes. Igualmente forte é a preocupação com quem ficou para trás. As imagens de um quotidiano feito de dúvidas e contradições desfilam ao nosso olhar numa sequência que inspira admiração e solidariedade. “O meu sonho é manter a música afegã viva”, diz Shogufa Safi, de 18 anos, maestrina da Orquestra Zhora, composta inteiramente por mulheres. Mas há ainda o sonho comum de poderem regressar ao País natal. “Mas em os talibãs”, dizem.

segunda-feira, 4 de novembro de 2024

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "Sem Passado" | Felícia Pinho Oliveira



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Sem Passado”,
de Felícia Pinho Oliveira
Curadoria | Manuela Matos Monteiro, João Lafuente
Encontros da Imagem de Braga
Mira Forum
14 Set > 09 Nov 2024


“Este Menino hádeçe chamar Manoel. Leva hum lenço branco uma faixa branca e trez paninhos brancos. Naçeu em 4 de Agosto de 1825 p.ª a todo o tempo que se procurar ser entregue a seu dono = Entrou as 8 horas e hum quarto da manham.”

“Sem Passado” é um projeto de fotografia documental sobre o arquivo da Casa da Roda do Porto e as memórias de quem por lá passou. Instituição destinada a acolher crianças abandonadas anonimamente pelos progenitores, a Casa da Roda existiu no Porto entre os séculos XVII e XIX e teve três instalações diferentes ao longo do tempo, das quais não restam vestígios. As crianças eram normalmente abandonadas com o seu enxoval e com um objecto, de natureza muito diversa, que as distinguia das demais. Esse objecto era designado por “sinal” e permitia a recuperação inequívoca da criança no futuro. Os “sinais” que marcaram estas crianças formam, juntamente com os livros da Roda e os espaços do Arquivo Distrital do Porto onde se conserva este imenso espólio de mais de 180 metros de documentação, o corpo de trabalho de Felícia Pinho Oliveira, retratando a estética de abandono do século XIX e recuperando a memória de crianças duplamente negligenciadas, pela sociedade e pela história.

Uma fita de seda, uma bolsa vermelha, um rigor preto com a imagem de Santa Rita de Cássia, uma medida vermelha com letras brancas, três contas vermelhas, uma moeda partida ao meio e presa a uma fita cor de rosa, uma carta de jogar onde está escrito o nome “Jerónima”… A preservação de escritos ou bilhetes soltos, cosidos ou colados nos livros da Roda, é uma das características marcantes do arquivo da Casa da Roda do Porto. São escritos e sinais deixados com os expostos no momento do abandono, certidões de baptismo, guias manuscritas ou impressas de criação dos expostos, recibos de pagamento, certidões de capacidade das amas, de estado dos expostos e de falecimento, todas passadas pelos párocos das freguesias das amas ao serviço da instituição. O confronto com as palavras, em muitos casos escritas pelo próprio punho de um dos pais, nas notas deixadas com as crianças, revela-se um mergulho inquieto nos sentimentos, nos laços afectivos universais e intemporais, que unem invariavelmente pais e filhos.

O modo como foram criadas as instituições da roda em Portugal é relativamente bem conhecida e tem na sua base o alto infanticídio que existia em Portugal no final do século XVIII que, por muito tempo, e mais do que um crime, era visto como sendo um pecado. Sabe-se que cerca de 63 900 crianças foram expostas na “roda” do Porto entre 1690 e 1800, numa altura em que o número de habitantes da cidade rondaria os 30.000. Uma outra estatística revela que nesta mesma cidade o número de crianças reclamadas à “Casa da Roda” variaria entre os 3 e os 15%, conforme o ano do abandono. Quando estamos perto de celebrar os 35 anos da Convenção sobre os Direitos das Crianças, adoptada pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 20 de Novembro de 1989 e ratificada por Portugal em 21 de Setembro do ano seguinte, eis uma exposição impactante e com um enorme sentido de oportunidade, marco maior da presente edição dos Encontros da Imagem.

terça-feira, 29 de outubro de 2024

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Woman Go No’Gree” | Gloria Oyarzabal



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Woman Go No’Gree”,
de Gloria Oyarzabal
Curadoria | Vítor Nieves
Encontros da Imagem de Braga 2024
IPCI - Instituto de Produção Cultural e Imagem, Porto
28 Set > 02 Nov 2024


A reexposição da obra de Gloria Oyarzabal não podia faltar nestes “Legados do Colonialismo”. Vencedora dos Discovery Awards em 2018, a sua presença naquele caloroso percurso inaugural marcou de forma indelével essa edição dos Encontros da Imagem. Voltamos a encontrar a sua obra potente e provocadora, na edição deste ano, viajando até ao Porto onde pode ser vista no IPCI. Os impérios, pela sua própria natureza, personificam e institucionalizam a diferença, tanto entre metrópole/colónia como entre sujeitos coloniais. O imaginário imperial inunda a cultura popular. As categorias de género foram um tipo de “nova tradição” biológica que o colonialismo europeu institucionalizou em muitas culturas africanas. A infantilização das mulheres como parte do sistema patriarcal ocidental foi também exportada com a colonização da mente, prática subtil e alienante que, em muitos casos, aqueles que a executam nos vários planos intangíveis da vida quotidiana o fazem em nome da moral, dos valores, dos costumes proclamados com o truque do engano.

Questões como a classe, a raça, a idade, o género — todas elas construções sociais para o exercício do poder —, e até a saúde, devem ser tidas em conta como fundamentais para a experiência feminina. A beleza circula como uma forma de mercadoria com valor social, económico e cultural. No entanto, estas normas são frequentemente medidas com valores eurocêntricos, sendo as narrativas de beleza branca (magreza, juventude e brancura) e os ideais de beleza fortemente racializados. A brancura é reforçada ao mesmo tempo que é a norma, enquanto a “alteridade” se torna fetiche e algo “exótico”. Os três conceitos centrais que têm sido os pilares do feminismo ocidental — mulher, género e irmandade — só são compreendidos com uma atenção cuidada à família nuclear patriarcal de onde emergiram, forma familiar que está longe de ser universal.

O erotismo, a sexualidade, a irmandade, a maternidade, o casamento, a tradição, a domesticação, a inclusão dos homens… todos estes aspectos, com as suas luzes e sombras próprias em cada sociedade, devem ser colocados no mesmo plano para podermos comparar. Talvez compreendendo a História, possamos ultrapassar a atribuição social e simbólica apenas às diferenças que convidam à classificação hierárquica, e abrir o leque a outros factores para a construção da identidade. Aquilo que se propõe é uma conversa em torno da descolonização do feminismo, questionando os quadros teóricos racionais eurocêntricos que constroem as categorias de género de forma universalista. Chimamanda Ngozi Adichie fala sobre “o perigo da história única”. Desejemos novas formas de relacionar os géneros, novos modelos de diálogos interculturais não baseados na supremacia nem numa hierarquia excludente, e talvez as identidades, tanto individuais como comunitárias, possam evoluir naturalmente para uma sociedade em que não seja necessário ser invisível para avançar.

sexta-feira, 25 de outubro de 2024

CERTAME: Encontros da Imagem de Braga (II)



CERTAME: Encontros da Imagem - Festival Internacional de Fotografia e Artes Visuais 2024
Braga, Barcelos, Guimarães, Porto e Avintes (vários locais)
20 Set > 03 Nov 2024


Neste regresso à 34ª edição dos Encontros da Imagem, deixamos para trás a cidade de Braga e dirijimos os passos até Avintes e ao Porto, ao encontro de um conjunto de exposições espalhadas por espaços que são já familiares àqueles que acompanham o certame. Na Leica Gallery Porto, Kit Young apresenta “Rêverie”, belíssima série fotográfica que desafia a percepção e memória de quem as vê, deixando no ar a dúvida se seremos meros espectadores de uma realidade vivida por outrem, ou se fazemos, nós próprios, parte daquelas imagens. “De repente é como se estivéssemos lá, com o nosso subconsciente a experimentar memórias alheias apropriando-nos delas, inebriados pela atmosfera de sonho para a qual somos transportados”, pode ler-se na folha de sala da exposição. Descendo a Campanhã, o muito dinâmico Mira Forum dá a ver “Sem Passado”, projecto de Felícia Pinho Oliveira que se debruça sobre o arquivo da Casa da Roda do Porto e as memórias de quem por lá passou. Baseado num imenso espólio de mais de cento e oitenta metros de documentação, patente nos livros da Roda e no Arquivo Distrital do Porto, “Sem Passado” propõe retratar a estética de abandono do século XIX e recuperar a memória de crianças duplamente negligenciadas: Pela Sociedade e pela História.

O IPCI - Instituto de Produção Cultural e Imagem acolhe “Woman Go No’Gree”, de Gloria Oyarzabal. Trata-se de uma reexposição da obra da fotógrafa espanhola num ano em que os Encontros da Imagem se centram nos “Legados do Colonialismo”. Vencedora dos Discovery Awards em 2018, a presença da artista naquele caloroso percurso inaugural marcou de forma indelével essa edição. Volta a fazê-lo este ano, emergindo com grande impacto, trazendo-nos uma narrativa e imagens impossíveis de esquecer. Potente e provocadora, a sua obra é um renovado desafio às convenções, lançando luz sobre questões urgentes e que não podem continuar a ser negligenciadas. Não muito longe do IPCI, a galeria Salut au Monde! é palco de “Loucos por Regressar ao Paraíso”, projecto documental de Cecília de Fátima centrado no movimento sazonal de visita dos emigrantes portugueses às aldeias de origem em Agosto. Um retrato cru e sensível das tensões culturais e emocionais que resultam de quotidianos divididos entre diferentes países. “Sem Princípio Nem Fim”, de Cristiana Ortiga, pode ser visto no Blues Photography Studio e parte do desejo profundo de partilhar um olhar que a artista sempre acalentou. Intensos e vivos, os olhares carregados e profundos das pessoas retratadas dão a ver, por inteiro, uma artista particularmente sensível, apaixonada pela vida e pelos ideais de Liberdade.

“Arqueologia do Presente” é a exposição que toma conta do espaço Adorna e nela Marco Rocha responde a uma clara vontade de realizar um levantamento topográfico do seu quotidiano. Adoptando uma metodologia de extremo rigor na definição das paisagens e artefactos estéticos enquanto apropriação cultural do território, o fotógrafo oferece-nos um conjunto de imagens dúbias que nos deixam em suspenso, com a sensação que aconteceu algo, de que não identificamos o tempo nem o propósito. Uma opção de Marco Rocha carregada de intencionalidade, optando por uma linha discursiva que arrisca exigir ao observador uma atenção extrema e a capacidade de poder pensar imageticamente e unicamente com ferramentas próprias da fotografia. Já na margem sul do rio Douro, na simpática Vila de Avintes, a Casa da Cultura Francisco Marques Rodrigues Júnior é o palco de “Finding Home”, de Gonçalo Fonseca. Trata-se, também, da reexposição de uma obra que é parte integrante da coleção dos Encontros da Imagem e que chegou à coleção através da Galeria da Estação, um espaço gerido pela Associação Encontros da Imagem e dedicado à promoção de novos artistas portugueses, onde foi exposta no ano passado. Uma oportunidade única para ver ou rever o conjunto de imagens que documenta o quotidiano dos elementos da Orquestra Zhora, constituída unicamente por refugiadas afegãs que encontraram em Portugal um novo lar.

quinta-feira, 24 de outubro de 2024

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "Oran" | Margot Wallard



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Oran”,
de Margot Wallard
Curadoria | Elina Heikka
Encontros da Imagem de Braga 2024
Galeria do Paço - UMinho
21 Set > 26 Out 2024


Qual é o legado do colonialismo? Como se manifestam atualmente as consequências do colonialismo europeu? Na edição deste ano, o festival Encontros da Imagem explora os legados do colonialismo numa perspetiva geográfica e historicamente alargada, não se centrando apenas no passado colonial de Portugal e das suas antigas colónias. Na certeza de que o legado do colonialismo ainda vive no nosso meio – nas mentes das pessoas, na vida quotidiana, nas estruturas socioeconómicas da sociedade, nas várias formas de racismo, intolerância e violência –, fotógrafos de mais de dez países partilham a oportunidade de reflectir sobre as características da expansão imperialista e colonial europeia. A experiência legítima de injustiça histórica é uma força motriz importante para os projectos fotográficos e um elemento comum a todos os fotógrafos. Para muitos deles, os temas dos seus projectos fotográficos surgem da sua própria história familiar e experiência pessoal, enquanto outros abordam a história colonial de uma perspetiva mais ampla, discutindo a história de um país ou de uma nação.

“Oran”, de Margot Wallard, é uma das exposições que se abrigam no seio de “Legados do Colonialismo”. Nascida em 1978, em Paris, a fotógrafa tem raízes argelinas e era o país o Norte de África o tema de conversa das reuniões familiares. Verdadeiro pilar da família, a sua avó falava diariamente da Argélia e era obcecada por esse país, ao qual nunca tinha regressado. Nesta série, a neta de “pieds-noirs” explora os arquivos da família após a morte de uma das avós e parte, pela primeira vez em 2018, no encalço das pegadas da sua família, para uma cidade que só conhece através das histórias da avó. Rapidamente se deixa levar pela cidade e pelas suas gentes. Frequenta um dos únicos cafés da cidade onde se misturam raparigas e rapazes e lá faz amigos. Youcef, Réda, Nora, Issam, Mouaadh, mudaram o rumo do seu projeto e a sua abordagem à cidade.

“Oran” é uma demonstração de apego a um espaço que não é apenas um marco geográfico. É lá que Margot Wallard centra toda a sua atenção, focando-se nas pessoas, no momento presente e naquilo porque estão a passar. Nas suas conversas aborda essencialmente a vida quotidiana dos jovens e os seus problemas. Inevitavelmente, acaba por perceber a ambiguidade da sua relação com Oran: uma relação forte devido às memórias familiares, contudo fraca porque essas mesmas memórias pertencem a um passado que não lhe diz directamente respeito e do qual os argelinos se querem livrar, por já não corresponder à sua realidade. A sua abordagem pessoal e individual choca com esta realidade e mostra-lhe a fragilidade e a impossibilidade de escrever uma história partilhada, mas Wallard não desiste de a contar. “Oran” é simultaneamente uma tentativa de reconstruir uma história pessoal e familiar, e a história de dois países e dois povos, muitas vezes transformada, truncada ou fantasiada, mas sempre destinada a ser partilhada, questionada e reapropriada pelo espectador e pela artista.

segunda-feira, 21 de outubro de 2024

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Digitar aqui para procurar & O corpo como arquivo”



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Digitar aqui para procurar & O corpo como arquivo”,
de Sofia Yala
Curadoria | Elina Heikka
Encontros da Imagem de Braga 2024
Galeria do Paço - UMinho
21 Set > 26 Out 2024 


Nascida em Portugal, Sofia Yala sempre viveu rodeada de histórias e com acesso a um arquivo que sabe que nem todos os emigrantes têm. Por outro lado, desde cedo percebeu que as instituições são concebidas de forma elitista, feitas para que poucos investigadores as possam aceder, com histórias representativas de um escasso número de sectores da população. No momento em que pegou numa máquina fotográfica, Sofia soube que queria compreender as trajectórias da sua família e contar uma história comum a muitos migrantes angolanos que deixaram o país antes e depois da independência. Alguns ficaram, outros nunca mais regressaram. Para tanto, revisitou, alterou e reconstruiu os seus álbuns e arquivos de família: Os migrantes africanos na Europa, os seus descendentes, a complexa realidade dos corpos racializados e as possibilidades de criação a partir de formas de liberdade em mutação.

“Digitar aqui para procurar & O corpo como arquivo” surge da necessidade de encontrar respostas para as várias questões levantadas em torno das pessoas desconhecidas que encontrou nos álbuns de fotografias. As longas conversas com os familiares levaram-na a aperceber-se de que muita da informação sobre a história da família está fragmentada e perdida para sempre. No entanto, o reconhecimento da importância dos álbuns de familiares negros e da sua representação da história negra funcionou como um impulso pessoal para digitalizar e visualizar a história negra através da prática artística e da expressão diversificada. O tratamento dado aos documentos encontrados numa mala do seu avô – entre notas sobre o local de nascimento dos filhos, datas de nascimento, nomes completos, documentos oficiais e correio internacional – serviu de ponto de partida para um trabalho que foi sendo enriquecido com recurso ao autorretrato e à colagem. Estava em marcha um processo de reconstituição de um espaço paralelo de realidades transgeracionais.

Nesta exposição, a imagem desafia-nos e desafia as formas discriminatórias de apresentar as pessoas. Sofia Yala interessa-se por escavar um pouco e sabotar as noções de realidade, para compreender que o arquivo não é algo deixado no passado e que não deve ser alterado. Pelo contrário, pode sempre ser manipulado, e fazê-lo é um direito que a todos assiste. É isso que a artista faz, remexendo e intervindo nos seus álbuns de família. Entre outros caminhos, a pesquisa levou-a a um arquivo público em Portugal com muitos documentos e imagens da antiga Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE). Entre as imagens, encontrou um perfil do seu avô, que era tratado como um criminoso. Para ela, foi chocante: para a sua família, o avô era um herói que tinha lutado, juntamente com o seu sindicato, num país que ainda não era independente, pelos direitos dos trabalhadores da marinha mercante portuguesa e angolana. Centrar a busca numa pessoa racializada e continuar com essa procura de tentar viver fora da categorização foi tarefa delicada e árdua que a artista decidiu abraçar.

Onde está a história de uma família como a de Sofia? Quem conta essas histórias? Para Sofia Yala, “os corpos que migram ou os que estão sob algum regime tentam sempre apresentar-se de uma forma ‘civilizada’. Tentam mostrar o que os estados e os regimes querem ver. Por isso, muitas vezes vemos uma atuação nos retratos, mas não a realidade. Muitas pessoas tentaram libertar-se através da música ou da comida, mas as imagens são normalmente uma fachada que as protege”. Ao mesmo tempo, essas fachadas não garantem respeito ou reconhecimento total. A artista gosta de jogar com paralelismos. O arquivo permite-lhe trazer para o presente questões que foram e são relevantes. “O Corpo como Arquivo” é o reconhecimento de que houve gerações passadas que tiveram uma série de restrições que Sofia não tem agora, ainda que, em simultâneo, ela viva agora outras experiências que os seus antepassados não tiveram. “Somos todos o resultado de alterações no percurso histórico”, diz Sofia.

[Baseado no texto de Marcela Vallejo, o qual pode ser lido na íntegra em https://webraga.pt/evento/exposicao-digitar-aqui-para-procurar-o-corpo-como-arquivo-de-sofia-yala/]

quarta-feira, 16 de outubro de 2024

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "Paisagens Construídas"



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Paisagens Construídas”,
de Inês d’Orey
A partir do livro de Valdemar Cruz
Encontros da Imagem de Braga 2024
Zet Gallery, Braga
28 Set > 19 Out 2024

No início de Fevereiro, o Auditório de Serralves acolheu o lançamento oficial do livro “Paisagens Construídas – O Passado e o Presente da Arquitetura Portuguesa em 16+1 Obras”, de Valdemar Cruz. Alguns dias mais tarde, o autor foi o convidado da primeira sessão de 2024 das Tertúlias Literárias “Conversas às 5”, iniciativa do Centro de Reabilitação do Norte. De ambos os momentos deixei nota no blogue, bem como a minha apreciação ao livro, na qual destaco a habilidade do escritor em levar-nos por caminhos de “paisagens construídas”, ao encontro das histórias que se abrigam em cada uma das obras abordadas. Há, no entanto, um outro aspecto que merece o devido aplauso, e esse tem a ver com Inês d’Orey, autora das imagens que ilustram o livro e que, na subtileza e vivacidade do seu olhar, acrescenta valor e distinção a uma obra incontornável sobre o muito de bom que a arquitectura portuguesa tem para oferecer. Do livro, além dos rasgados elogios, aquilo que mais se ouve é o lamento por se encontrar esgotadíssimo. Quanto à fotografia, uma selecção de dezasseis imagens de grande formato pode ser vista por estes dias na Zet Gallery, em Braga, no âmbito dos Encontros da Imagem.

“Construída sobre rochedos, num dos extremos da marginal de Matosinhos, em local à época de escassa presença e actividade humana, Álvaro Siza Vieira, a partir do que parecia uma impossibilidade, transformou-a numa das grandes obras da arquitectura portuguesa contemporânea, com uma incomum projecção na cultura arquitectónica internacional”. Este e outros textos têm o condão de chamar a atenção do visitante para um pormenor ou uma curiosidade, mas é a poderosa envolvente artística contida no olhar de Inês d’Orey que se destaca numa exposição que é uma viagem singular através de múltiplas propostas arquitetónicas desenvolvidas ao longo dos séculos XX e XXI. Mais do que simples registos formais, a artista leva a cabo um audacioso trabalho de investigação sobre os edifícios e os seus contextos, ao ponto de construir ela própria um discurso sobre as obras fotografadas, exterior ou independente dos textos que lhes estão associados. Não os contraria, antes os complementa com um olhar outro, responsável pela abertura de novas possibilidades de leitura. Resta dizer que a exposição ficará patente na Zet Gallery só até ao próximo sábado, pelo que o tempo escasseia e importa não perder a oportunidade.

terça-feira, 15 de outubro de 2024

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "Orixe"



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Orixe”,
de Glorianna Ximendaz
Curadoria | Vítor Nieves
Encontros da Imagem de Braga 2024
Palácio do Raio
06 Set > 03 Nov 2024


Nascida em San José, Costa Rica, em 1992, Glorianna Ximendaz destaca-se como uma fotógrafa e poliactivista cujo trabalho reflecte “uma busca pela justiça social e uma profunda conexão com as histórias pessoais e coletivas de resistência e superação”. O projecto “Orixe” – vencedor do XI Prémio Galiza de Fotografia Contemporânea, o reconhecimento mais prestigioso na sua área no vizinho país do Norte – enquadra-se perfeitamente neste contexto, acrescentando-lhe um cunho profundamente pessoal, ao encontro das histórias de abuso e violência sofridas pelas mulheres, incluindo as da família da própria artista. Para a autora, a série “Orixe” não é apenas uma narrativa visual, mas também um acto de resistência e uma declaração de existência. Ximendaz utiliza a fotografia como uma ferramenta para desafiar as normas sociais, derrubar estruturas opressoras, fomentar a cura e o empoderamento, e celebrar a força e a resiliência das mulheres. O projecto visa iniciar diálogos, consciencializar para o problema e ajudar a desmantelar os sistemas que perpetuam a violência machista.

Com uma aprendizagem de luta pelos direitos das pessoas que lhe transmitiram os seus avós, Ximendaz usa a sua câmarа como instrumento de luta. Em paralelo à produção artística, o seu desempenho como fotojornalista é um trabalho comprometido, marcado por um esforço constante para dar voz a quem constantemente é negligenciada(o). A artista iniciou este projecto de uma maneira algo inconsciente, estabelecendo ligações entre as experiências de abuso que sofreu e as narrativas encriptadas presentes no seio familiar e que, de certa forma, a marcaram desde a nascença. Este entrelaçar de histórias pessoais e colectivas proporcionou um terreno fértil para a criação artística. Através do “collage”, a autora ressignifica as imagens, recupera a memória e (re)conta a história das suas ancestrais, tornando públicas e universais as experiências pessoais e familiares. As suas imagens não procuram a excepcionalidade, mas sim a repetição, a proliferação, a multiplicidade e a expansão, em que fragmentos dispersos são reunidos para criar novas imagens e significados.

No trabalho de Glorianna Ximendaz, materiais vernáculos de álbuns de família, da grande internet e do seu próprio arquivo são manipulados, fragmentados e intervencionados como forma de distorcer a cronologia e unificar as histórias de cinco vozes distintas numa narrativa só. Este método enfatiza a universalidade do discurso, transcendendo o âmbito individual para atingir uma dimensão coletiva. Ximendaz interliga habilmente as histórias das cinco mulheres, cada uma delas representando uma dimensão diferente relacionada com as distintas lutas dos feminismos. Bisavó, mãe, trisavó, avó e a própria autora corporizam as trajetórias percorridas pelos movimentos feministas nas últimas décadas. Tópicos como o poder patriarcal, os privilégios inerentes à masculinidade normativa e de classe, a ocultação e transmissão de violências no âmbito familiar e social, as penalizações impostas às mulheres que desafiam a ordem patriarcal, a exigência de padrões de beleza opressivos, a violência obstétrica e a sexualidade forçada, são abordados nas imagens de Ximendaz, acentuando a multiplicidade e complexidade das experiências femininas.

Entre os muitos aspectos significativos desta exposição, reveladores do poder da sua mensagem, encontramos uma abordagem do desretrato, no qual a artista opta por mutilar as fotografias em vez de as descartar directamente, como uma forma catártica de transformar a raiva e a dor em expressão material. Ximendaz emprega técnicas digitais e manuais, como pintura e queima de imagens, para intervir nas fotografias. Estas intervenções, que podem ser percebidas como destrutivas, desempenham um papel duplo: são um meio para a artista se aproximar do desmantelamento do sistema patriarcal, curando a dor e a memória; e servem para criar imagens iconoclastas que desafiam, desestabilizam, e até ridicularizam, o poder. Isto é evidente no retrato de um conhecido fotógrafo argentino, implicado em inúmeros casos de abuso das suas assistentes e alunas; e na representação do ditador Tinoco, cujo discurso contribuiu significativamente para o elevado índice de feminicídios na Costa Rica e para quem uma das antepassadas da autora trabalhou. Esta critica estende-se facilmente ao atual presidente do pais caribenho, Rodrigo Chaves Robles, conhecido pelas denúncias de assédio sexual.

segunda-feira, 14 de outubro de 2024

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "As Veias Abertas"



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “As Veias Abertas”,
de Aaryan Sinha, Amina Kadous e Olga Sokal
Curadoria | Vítor Nieves
Encontros da Imagem de Braga 2024
SOMA — Plataforma Cultural, Braga
20 Set > 03 Nov 2024


Os projetos de Aaryan Sinha, Amina Kadous e Olga Sokal, finalistas do Emergentes 2023, são reunidos nesta exposição por se alinharem perfeitamente com o tema central da presente edição dos Encontros da Imagem. Do conjunto de imagens apresentadas no extraordinário espaço SOMA, uma novidade nesta edição dos Encontros, emergem histórias pessoais e familiares que nos convidam a refletir sobre as continuidades e rupturas das dinâmicas de poder e exploração, tanto em escala global quanto local. O caso português tem, nesta matéria, um bom exemplo na prospeção de minas de lítio em regiões afastadas dos centros de poder, o que evidencia como estas dinâmicas de exploração também se desenrolam em contextos locais. Recorde-se que este fenómeno foi abordado por Silvy Crespo na sua exposição “The Land of Elephants”, apresentada no Edifício do Castelo durante os Encontros da Imagem em 2021. Crespo evidenciou como estas áreas, frequentemente distantes das grandes cidades e dos centros de decisão, são escolhidas para a extração de recursos, perpetuando uma espécie de colonialismo interno que se reflete nas disparidades regionais e na marginalização das populações locais.

A obra de Aaryan Sinha, “This Isn’t Divide and Conquer” posiciona-se no seio do pensamento pós-colonial, explorando um dos conflitos mais persistentes e dolorosos da história contemporânea da Índia e do Paquistão. O projeto emerge das raízes familiares de Sinha, desenvolvendo-se ao longo de uma viagem pelos cinco estados indianos que fazem fronteira com o Paquistão. Através da fotografia, o autor busca compreender como os eventos históricos, particularmente a Partição de 1947, moldaram a paisagem e a identidade em constante transformação do povo indiano. O título da obra faz referência à estratégia colonial britânica de “dividir para conquistar”, que fomentou divisões religiosas para enfraquecer a resistência ao domínio imperial. No entanto, Sinha vai além de uma mera denúncia histórica, ao sugerir que estas táticas de divisão estão longe de serem factos do passado. Lembrando a polarização de vastas comunidades religiosas pelo actual governo de direita na Índia, o artista oferece uma poderosa contra-narrativa ao reviver de forma inquietante as mesmas dinâmicas de poder que promovem a fragmentação social e reforçam os mecanismos de controlo de uma vasta nação.

O trabalho de Amina Kadous, “White Gold”, deambula na intersecção entre as histórias pessoais e a vasta teia de dinâmicas económicas e políticas que moldaram e continuam a moldar o Egipto. O algodão egípcio, muitas vezes referido como “ouro branco”, simboliza a riqueza natural do país, mas também as complexas relações de poder que o cercam. Durante o período colonial, o extrativismo foi imposto como uma ferramenta de dominação e exploração, e, após a independência, essa lógica de controle não desapareceu; foi antes apropriada e perpetuada por oligarcas nacionais, que passaram a responder aos interesses de um capitalismo globalizado. Kadous utiliza a história do algodão como uma metáfora para explorar a identidade egípcia, tanto no plano pessoal quanto no coletivo. A história da sua família, enraizada na indústria têxtil de El Mehalla Al Kobra, reflete as transformações que o Egito sofreu ao longo do tempo. O algodão, tal como a própria Kadous, foi arrancado das suas raízes, processado, transformado e inserido numa dinâmica global que frequentemente ignora as implicações humanas e culturais dessa extração. Em “White Gold”, a artista questiona o que resta dessa “semente humana”, refletindo sobre o que foi perdido, o que ainda persiste e o que poderia ter sido.

“Black Stone Burns”,  de Olga Sokal, é uma investigação sobre as dinâmicas pós-coloniais no contexto local que reflete o impacto da extracção de carvão em comunidades ao redor do mundo. Este trabalho, que parte da história familiar e da vila natal da artista em Belchatow, na Polónia, estende-se por cinco países em três continentes, revelando como a exploração do carvão, longe de ser uma prática antiga, continua a ser uma força motriz do capitalismo global, com consequências devastadoras para as pessoas e o ambiente. Em Belchatow, onde as minas de carvão atravessaram a história da família da artista, a dinâmica de recolonização interna é evidente. A exploração do carvão, inicialmente uma fonte de sustento e orgulho, tornou-se um símbolo de degradação ambiental e social, deixando cicatrizes profundas na terra e na comunidade. Quando as pedras pretas são extraídas e o trabalho árduo é retirado, o que resta é mais do que terras devastadas; são comunidades fragmentadas e identidades esvaziadas. Através das lentes de Sokal, o carvão deixa de ser apenas uma “pedra preta” e torna-se um símbolo da luta contínua contra as dinâmicas de poder que persistem na era pós-colonial.