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sexta-feira, 23 de outubro de 2026

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "The Serpent's Thread" | Emilia Martin



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “The Serpent’s Thread”,
de Emilia Martin
Curadoria | Alexia Alexandropoulou
Encontros da Imagem de Braga 2026
SOMA - Plataforma Cultural
18 Set > 24 Out 2026


Há perdas que não terminam no desaparecimento dos objectos, antes encontram aí o seu início, no lugar vazio que deixam, como se a ausência fosse uma matéria à espera de mãos que a saibam tocar. Em “The Serpent’s Thread”, Emilia Martin parte dos tecidos da avó, mulher polaca do mundo rural, cuja obra, depois da morte, foi descartada ou se perdeu, condenada à irrelevância de tudo quanto não encontrou lugar na história oficial. Restaram a memória dos gestos, a intimidade de uma aprendizagem pelo olhar e a consciência de que também se escreve com as mãos. É deste arquivo sem vestígios que a artista faz nascer uma investigação sobre as cinco irmãs Andersson, na Suécia da viragem do século XX, mulheres cujos elaborados tecidos de dote deveriam testemunhar a sua destreza, diligência e virtude, como se cada ponto cosesse, além da matéria, o valor de uma futura esposa. Mas os tecidos nunca cumpriram inteiramente o destino que lhes fora reservado, e a sua sobrevivência fragmentária deixou espaço à lenda. Entre a avó perdida e as irmãs quase míticas, Emilia Martin reconhece uma genealogia feminina que atravessa fronteiras e épocas, unida por um saber transmitido de mão em mão, tantas vezes invisível aos olhos de quem escreve a História. O fio que aqui se procura não conduz a uma origem intacta: serpenteia entre vestígios, silêncios e aquilo que, não tendo sido preservado, continua, ainda assim, a reclamar existência.

No espaço SOMA — Plataforma Cultural, esta procura adquire a espessura de uma instalação, tirando partido das condições do espaço para construir uma experiência em que as imagens não se limitam a ser vistas: parecem antes reclamar o tempo e a atenção necessários para serem escutadas. Fotografia de arquivo, composições encenadas, documentos e intervenções têxteis sobre a imagem dispõem-se numa trama de aproximações e desencontros, onde a prova documental convive com a invenção sem que uma procure anular a outra. Há qualquer coisa de deliberadamente inquietante nesta convivência. O que vemos pertence à memória, à investigação ou à imaginação? E será ainda possível estabelecer fronteiras seguras entre estas instâncias quando a própria memória se constrói de fragmentos, relatos e omissões? Apoiada na ideia de efabulação crítica, desenvolvida por Saidiya Hartman, a artista não pretende preencher as lacunas do arquivo com uma verdade substituta; prefere habitá-las, preservando a incerteza como parte constitutiva da obra. Esta escolha, simultaneamente poética e política, impede que as mulheres representadas sejam reduzidas a personagens de uma reconstituição retrospectiva. Os tecidos tornam-se contra-arquivos: superfícies onde o trabalho doméstico, a expectativa social e os pequenos gestos de resistência adquirem uma visibilidade que os registos oficiais lhes negaram. A exposição ganha força precisamente nesta recusa de uma narrativa definitiva. Se, por vezes, a acumulação de materiais ameaça dispersar o olhar, é também dessa multiplicidade que nasce a sua pertinência: cada elemento parece guardar apenas uma parte de uma história que nenhum deles, isoladamente, poderia contar.

A dimensão sonora de “Won’t You Put A Needle On?”, de Isobel Anderson, acrescenta à instalação uma presença que não se vê, mas percorre o corpo e altera a maneira de habitar o espaço. Vozes, rodas de fiar, costura, pulsações repetitivas e texturas quase sibilantes compõem uma paisagem em que o trabalho manual deixa de ser apenas imagem para recuperar alguma coisa da sua duração, do seu ritmo e da sua respiração. O som não ilustra as fotografias: abre-lhes uma profundidade, como se, por detrás de cada tecido, ainda persistisse o rumor de quem o fez. Há nesta escuta uma forma de restituição, embora não de regresso, porque nenhuma obra pode devolver os objectos perdidos nem restituir integralmente as vidas que o tempo tornou opacas. Pode, contudo, recusar que o desaparecimento seja confundido com insignificância. É talvez esse o gesto mais comovente de Emilia Martin: transformar uma perda familiar numa pergunta colectiva sobre quem merece ser lembrado, que saberes reconhecemos como cultura e quantas histórias permanecem por contar porque foram transmitidas fora dos lugares consagrados da palavra escrita. Um dos três projectos finalistas do Prémio Encontros da Imagem, escolhido entre mais de trezentas candidaturas, “The Serpent's Thread” encontra na relação entre fotografia, matéria e som uma linguagem própria, sensível à fragilidade dos vestígios e à força do que resiste. Até ao próximo domingo, no SOMA, a exposição convida-nos a seguir este fio sem esperar que ele nos conduza a uma conclusão. Talvez porque algumas histórias não precisem de ser definitivamente reconstituídas, mas de encontrar, finalmente, quem se detenha diante delas. E as escute.

sábado, 25 de outubro de 2025

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Lebensborn” | Angeniet Berkers



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Lebensborn”,
de Angeniet Berkers
Coordenação | Alexia Alexandropoulou
Encontros da Imagem Braga 2025
Museu Nogueira da Silva, Braga
19 Set > 02 Nov 2025


O programa “Lebensborn” foi fundado na Alemanha em 1935 sob o III Reich e visava o crescimento de uma população do regime nazi considerada “racialmente pura”. Na busca de reverter o declínio demográfico pós-Primeira Guerra Mundial, o programa incentivava o nascimento de crianças arianas, proibindo abortos e contracepção, além de estimular oficiais das SS a terem muitos filhos, mesmo fora do casamento. Mulheres consideradas racialmente adequadas, incluindo as dos territórios ocupados, eram acolhidas em lares especiais para dar à luz. Ao mesmo tempo, milhares de crianças com características “arianas” eram raptadas da Europa Oriental, sujeitas a rigorosos testes raciais e germanizadas e vendo apagada a sua identidade original. Este projecto, idealizado por Heinrich Himmler, é uma das manifestações mais cruéis e distorcidas do conceito nazi de “pureza racial”.

A complexidade do “Lebensborn” vai muito além das imagens estereotipadas que surgiram após a guerra, frequentemente associadas a histórias sensacionalistas de bordéis nazis. Com efeito, as crianças nascidas nesses lares sofreram uma forte estigmatização e muitas foram vítimas de abusos, vivendo em silêncio sobre as suas origens durante décadas. A destruição de documentos e a ausência de relatos directos contribuíram para uma compreensão fragmentada e muitas vezes errada do programa. No entanto, a análise das experiências dos sobreviventes revela uma história de dor, identidade dilacerada e uma luta contínua por reconciliação com um passado marcado pela violência institucionalizada. O “Lebensborn” é um aviso sombrio sobre os perigos de ideologias que distorcem a humanidade em nome de falsas superioridades.

A fotógrafa Angeniet Berkers dedicou cinco anos a investigar e documentar o “Lebensborn”, visitando antigos lares e entrevistando sobreviventes, cuja coragem e resiliência desafiam o silêncio imposto por gerações. As suas fotografias e relatos ampliam a compreensão desse capítulo sombrio, mostrando que os vestígios físicos e humanos do programa ainda carregam um forte impacto emocional e histórico. Em tempos em que o nacionalismo e os discursos de exclusão ressurgem, revisitar essas histórias torna-se crucial para alertar contra a repetição de ideologias totalitárias. O “Lebensborn”, com a sua tentativa grotesca de controlar a reprodução e identidade humanas, permanece como uma chamada de atenção para o que ocorre quando o poder e o preconceito se unem com vista a aniquilar a diversidade e a liberdade individual.

terça-feira, 14 de outubro de 2025

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Reaching for Dusk” | Stefanos Paikos



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Reaching for Dusk”,
de Stefanos Paikos
Curadoria | Alexia Alexandropoulou
Encontros da Imagem Braga 2025
Avenida da Liberdade, Braga
18 Set > 02 Nov 2025


No coração vibrante da Avenida da Liberdade, em Braga, uma exposição da 35.ª edição dos Encontros da Imagem convoca o olhar do público para a crua realidade do aterro de Mbeubeuss, nas imediações de Dakar, capital do Senegal. Activo desde 1968 e com uma área total de cerca de 115 hectares, este espaço aberto e intenso recebe diariamente três mil toneladas de resíduos, transformando-se num palco onde a sobrevivência se tece entre o caos e a esperança. Aqui, quatro milhares de pessoas vivem e trabalham em condições degradantes e altamente perniciosas para a saúde, recolhendo cobre, alumínio, plástico e vidro para conseguirem ganhar o suficiente para sobreviver, muitas vezes o suficiente apenas para seguir em frente. Entre as montanhas de resíduos e a poeira do tempo, as imagens emergem como janelas para um mundo onde o lixo é matéria-prima e a dignidade se constrói a cada pedaço recuperado.

Parte de uma série a longo prazo que descreve o outro lado do deslocamento, dando visibilidade àqueles que permanecem num limbo, longe das costas europeias, mas profundamente envolvidos nas consequências dos movimentos migratórios, “Reaching for Dusk”, do fotojornalista grego Stefanos Paikos, é uma viagem sensível e poderosa ao maior aterro sanitário a céu aberto da África Ocidental. Mais do que um local de despejo, Mbeubeuss é o refúgio de milhares que buscam no trabalho árduo o sustento para continuar, muitas vezes à custa da saúde e da segurança. Estas imagens captam o limiar entre o fim e o começo, um espaço onde o sonho da migração se entrelaça com a dura realidade da luta diária. É um testemunho que rompe o silêncio sobre a face oculta do deslocamento: aqueles que permanecem, que resistem longe dos seus territórios de origem, imersos numa economia informal que desafia a precariedade. A exposição na Avenida da Liberdade convida-nos a olhar de frente para estas histórias de sobrevivência, nas quais o impacto visual se traduz em urgência e empatia, tornando palpável o drama invisível.

À sombra da modernidade e da expansão urbana de Dakar, Mbeubeuss revela a complexidade da gestão dos resíduos num contexto onde o crescimento económico não elimina as desigualdades profundas. De lago seco a montanha de lixo, este aterro é hoje um epicentro ambiental e social, onde o desafio da poluição se junta à luta por condições mais humanas. Enquanto se aguarda a reabilitação do aterro, há projectos inovadores e inclusivos a serem desenvolvidos, valorizando o trabalho dos recolectores e oferecendo-lhes melhores condições de vida e de trabalho, desde casas de banho móveis a equipamentos de proteção e espaços comunitários de lazer e saúde. Entretanto, não cessa de aumentar o fluxo daqueles que viajam desde a África Ocidental para Mbeubeuss, atraídos pelos testemunhos de um lugar onde o trabalho, embora perigoso, oferece esperança. A exposição nas ruas da cidade, sob o céu aberto da Avenida da Liberdade, transforma estas realidades em imagens que confrontam e sensibilizam, aproximando o público de um mundo distante e, ao mesmo tempo, urgente e presente, um local como beco sem saída e como ponto de partida, onde o futuro é sonhado a peso.