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domingo, 21 de dezembro de 2025

CERTAME: 20.º MIRA Mobile Prize | B&W Street Photography



CERTAME: 20.º MIRA Mobile Prize | B&W Street Photography
Vários artistas
Curadoria | Manuela Matos Monteiro, João Lafuente
MIRA Galerias | MIRA FORUM
08 Nov 2025 > 10 Jan 2026


Num tempo em que se partilham diariamente biliões de imagens e centenas de milhares de horas de vídeo, a ubiquidade do telemóvel transformou a fotografia num gesto quotidiano e global. A equipa do MIRA — Manuela Matos Monteiro e João Lafuente, com o apoio de Beatriz Vital — tem sabido ler esta mudança e desde há uma década que vem celebrando a fotografia mobile com um entusiasmo que se renova a cada edição. À open call do 20.º MIRA Mobile Prize | B&W Street Photography, chegaram imagens de todos os continentes, revelando não só a vitalidade do género como a capacidade do dispositivo móvel em captar o inesperado. A shortlist de cinquenta artistas, que pode ser vista por estes dias no MIRA Galerias | MIRA FORUM, confirma essa amplitude: uma multiplicidade de olhares sobre o espaço público, onde a vida acontece em movimento ou suspensão. O júri — Armineh Hovanesian, Emir Bozkurt, Marco Prado, Nelson Marmelo e Sukru Omar — distinguiu a norte-americana Renee Zanone com o prémio principal, destacando igualmente a portuense Raquel Lamares como a portuguesa mais bem classificada. À volta destes nomes orbitam Adelino Marques, Andrea Seligman, Filipa Scarpa, Marc Devriese, Augusto Lemos e muitos outros, numa mostra que afirma a fotografia mobile como território artístico pleno e não mera derivação tecnológica.

A exposição convida o visitante a abraçar, pela lente dos autores, fragmentos de vida colhidos nos cenários urbanos onde a humanidade se desloca, repousa ou simplesmente respira. É esse quotidiano plural, atravessado por personagens que vestem, celebram e sofrem de formas distintas, que ano após ano surpreende o júri e o público, desmentindo qualquer ideia de rotina num prémio que se vai tornando uma referência em Portugal. Nos trabalhos seleccionados, as ruas transformam-se em palco de narrativas silenciosas: da grande avenida cosmopolita à estreita rua de aldeia, dos átrios de estações ao rumor de cafés e museus. A luz molda arquiteturas, desenha sombras, enquadra corpos; por vezes, aproxima-se do minimalismo abstracto, noutras exalta a exuberância humana. O preto e branco, escolhido como território desta edição, concentra o olhar na textura, na forma e na estrutura, permitindo que os gestos ganhem força e as histórias se insinuem entre o envergonhado e o despudorado. A discrição do smartphone, a sua quase inviabilidade, torna-se decisiva para captar instantes irrepetíveis, preservando a espontaneidade da vida tal como acontece. Sem ensaios, sem anúncio, apenas presença.

A tradição da fotografia de rua - de Robert Frank a Vivian Maier, de Diane Arbus a Elliot Erwitt ou ao recentemente falecido Martin Parr, para citar apenas alguns nomes - ecoa nas imagens agora apresentadas, compartilhando com esses mestres a vocação documental de registar o humano em espaços públicos. Cada autor, porém, expande esse legado com nuances próprias: Se uns procuram a teatralidade das multidões, outros revelam a intimidade de um gesto solitário. Há olhares irónicos, empáticos, contemplativos. A diversidade expressiva reitera que a rua continua a ser um laboratório de emoções, onde a banalidade quotidiana convive com momentos de potencial histórico. E é precisamente aí que a fotografia mobile se afirma como instrumento contemporâneo: leve, silenciosa, acessível, capaz de captar o instante antes que ele se dissolva. A mostra do MIRA, patente até ao próximo dia 10 de janeiro, reúne esse caleidoscópio de sensibilidades num conjunto coeso que reafirma o poder da imagem a preto e branco para suspender o tempo e revelar a Humanidade no seu estado mais cru e mais luminoso. Entre profundidade poética e observação crítica, o espectador encontra aqui não apenas fotografias, mas encontros breves e intensos com o mundo, tal qual ele pulsa.

sexta-feira, 23 de maio de 2025

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: MIRA Mobile Prize 2025



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: Mira Mobile Prize 2025
Vários artistas
Curadoria | Manuela Matos Monteiro, João Lafuente
MIRA Galerias | MIRA FORUM
10 Mai > 07 Jun 2025


Diariamente são partilhadas on-line 3,2 biliões de imagens (quase quarenta mil imagens por segundo) e 720 mil horas de vídeo. Importa acrescentar que estes números estarão seguramente ultrapassados, uma vez que remontam a 2020 e hoje a realidade será bem diferente. Serve isto para dizer que ter um telemóvel equipado com uma ou várias câmaras fotográficas, com qualidade capaz de fazer as delícias do fotógrafo ou videógrafo mais exigente, é prática corrente e que está à vista de todos. Atenta a esta realidade, a dinâmica e laboriosa equipa do MIRA - Manuela Matos Monteiro e João Lafuente, assistidos por Beatriz Vital – vem celebrando a fotografia mobile há uma década e voltou a lançar o repto aos artistas, na certeza do seu espírito de abertura em relação ao novo e que se traduz, sempre, num vastíssimo conjunto de imagens enviadas de todo o mundo. Assim foi, uma vez mais, nesta 19ª edição do concurso, na qual se destacou o trabalho de 50 artistas e que pode agora ser visto no MIRA Galerias | MIRA FORUM.

Primeiro de dois momentos anuais dedicados à fotografia Mobile – está já agendada para 8 de Novembro a inauguração da exposição do MIRA Mobile Prize Street Photography -, a mostra volta a promover e aprofundar essa nova ferramenta geradora de imagens que é a Inteligência Artificial, a par das habituais categorias de Arte Digital, Arquitectura, Minimal, Paisagem, Retrato e Vida Quotidiana. E se, no ano anterior, o espaço dedicado a esta particular arte de construir imagens era relativamente limitado, este ano a mostra atinge uma dimensão digna desse nome, com a proposta de uma shortlist que integra trinta e um fotógrafos nacionais e estrangeiros e o lançamento da 1.ª exposição de imagens geradas com recurso à IA. Além da projecção de um vasto conjunto de imagens geradas por IA, a mostra integra trabalhos de um número considerável de artistas convidados, destacando-se Carlos Garcia (Garcia Mann) com o seu trabalho “New Amerika””, série de oito imagens que se debruçam sobre traços da sociedade americana e alguns dos seus ícones, em que as cores vibrantes que os caracterizam dão lugar ao negro e a cinzentos pesados. 

O Júri deste ano - constituído por Andreia Bigiarini, Gina Costa, Giulia Baita, Joanne Carter e Rui Apolinário - decidiu atribuir o Prémio Mira Mobile Prize 25’ ao arquitecto madrileno Jose Luis Morales, destacado fotógrafo mobile, que sucede assim a Andrea Seligman, vencedora no ano passado. O português mais bem classificado foi Lara Plácido, também ela arquitecta. Ao lado destes dois trabalhos, o visitante pode apreciar um vasto conjunto de imagens igualmente muito belas e significativas da autoria de, entre outros, Adelino Marques, Andrea Seligman, Demetrio Jereissati, Diana N. Jeon, Erick Pereira, Filipe Neto, Gianluca Ricoveri, Isbela Mota, Jane Schultz, Linda Hollier, Marco Prado, Maria Castro, Maryjane Rosenfeld, Omur Mehmet ou Tete Lima. Entre a superficialidade e a profundidade crítica ou poética que envolve o acto de criar através da imagem, eis uma extraordinária oportunidade para apreciar o que de melhor se faz em duas áreas da fotografia com o maior futuro. As exposições podem ser visitadas até 07 de Junho.

segunda-feira, 7 de abril de 2025

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "Blur" | Lara Jacinto



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Blur”,
de Lara Jacinto
Curadoria | Susana Lourenço Marques
(In)visibilidades e Derivas
MIRA Galerias | MIRA FORUM
08 Mar > 03 Mai 2025


A complexidade da vida quotidiana nos países em redor do Adriático - uma região que, ao longo da História, tem passado por profundas alterações, com um passado de beligerância que engloba as guerras mundiais do século XX e a última guerra a ter lugar na Europa antes do novo milénio - está no centro de “Blur”, exposição de fotografia de Lara Jacinto, patente no MIRA Galerias | MIRA FORUM. “Blur” pretende apreender e transmitir a realidade de uma linha de fronteira tornada difusa graças a repetidas mudanças, determinadas por acontecimentos políticos de magnitude variável e com um forte impacto no tecido social e humano. Aos olhos daqueles que não pertencem à região e são alheios a esse forte sentido de alteridade que a história recente inculcou nela, em ambos os lados da fronteira, as semelhanças herdadas pelas travessias ao longo dos anos, a miscelânea de destinos de cada povo daquele território. As diferenças são superficiais e artificiais. “Blur” aborda esta identidade partilhada inconscientemente (pelo menos no que diz respeito aos hábitos culturais), a confusão entre fronteiras políticas e semelhanças entre povos e a dificuldade de estabelecer uma identidade que não seja, de certa forma, comum a todos.

“Blur” também aborda a incerteza do futuro - entre a tentação de criar fronteiras mais rígidas, a resistência à diferença, a ênfase dada àquilo que separa os povos e tudo aquilo que contraria o ideal europeu de unidade, agora perdido. É uma viagem emocional num território partilhado vulnerável, onde se agrupam diferentes influências culturais, religiosas e políticas, combinando-se e criando um universo tão fascinante quanto contraditório - belo e repulsivo, emocional e racional, seguro e hostil. Não se pode olhar para este universo sem pensar duplamente: por um lado, as questões que perturbam a Europa, a situação dos refugiados, a ameaça terrorista e a instabilidade política; por outro lado, a dispersão das fronteiras, a reconfiguração do território, as questões identitárias, a guerra e a disputa geográfica e étnica que ocorreu nos Balcãs. Embora se trate de uma região onde algumas políticas se esforçam por resistir à contaminação cultural e por apoiar a ideia de identidade e de diferença, a paisagem humana está, no entanto, a misturar-se por todo o lado. Neste contexto, é premente questionarmo-nos sobre o que define, de facto, a proximidade entre as pessoas.

Num primeiro contacto com um espaço cultural e geograficamente estranho, há uma tendência natural para reparar nas diferenças. As imagens tornam-se mais nítidas e destacam uma geração mais jovem com diferentes origens, etnias e religiões, uma sociedade que prepara o seu futuro na Europa. Alguns estudam ou trabalham, outros não têm profissão, mas todos vivem um quotidiano idêntico e têm objectivos de vida semelhantes. Vestem as mesmas roupas, usam os mesmos modelos de smartphones, ouvem a mesma playlist, aspiram aos mesmos luxos e aos mesmos divertimentos e adoptam comportamentos sociais recorrentes. Quando observamos estes europeus, tendemos a desenvolver alguma identificação, e a nossa proximidade e empatia aumentam à medida que as semelhanças se revelam. Apesar da distância, percebe-se que é muito mais o que os une do que aquilo que os separa. É esta realidade que pode ser apreciada no simpático espaço de Campanhã, até 03 de Maio.

domingo, 30 de março de 2025

EXPOSIÇÃO: “Um Olho Verde, Outro Azul: Herbário do Antropoceno” | Paula Roush



EXPOSIÇÃO: “Um Olho Verde, Outro Azul: Herbário do Antropoceno”,
de Paula Roush
(In)visibilidades e Derivas
MIRA Galerias | MIRA FORUM
08 Mar > 03 Mai 2025


“Um Olho Verde, Outro Azul: Herbário do Antropoceno” emerge do cenário mutável de Campanhã, onde infra-estruturas industriais abandonadas estão a ser apagadas e reaproveitadas para empreendimentos imobiliários de luxo. Através de uma abordagem experimental à criação de imagens, o projecto questiona quem e o que pode habitar estes espaços de transição. Vagueando pelas ruínas de antigas fábricas têxteis e pelos terrenos em redor da antiga central eléctrica, Paula Roush recolheu plantas com o intuito de criar um herbário do antropoceno, utilizando processos fotográficos baseados em energia solar, como cianotipias e fitogramas. A pesquisa estendeu-se ao Arquivo Histórico do Porto, ao encontro de plantas arquitectónicas de armazéns e centrais hidroeléctricas, a fontes digitais como blogues dedicados à arqueologia industrial e à memória urbana, bem como a pesquisas académicas encontradas nos portais da Universidade do Porto, onde materiais industriais obsoletos e documentos históricos circulam como vestígios da desindustrialização.

O recurso a um conjunto de agentes algorítmicos permitiu a geração de bio-imagens que funcionam como uma extensão especulativa desta pesquisa. As informações recolhidas foram codificadas em prompts para gerar novas imagens, ampliando a leitura do território através de processos de inteligência artificial. Estas imagens serviram também como base para o desenvolvimento de novos têxteis, produzidos em fábricas de impressão digital, acrescentando uma camada de materialidade e circulação aos vestígios de Campanhã. São imagens que desafiam a contínua reinscrição do vazio industrial - através do abandono, da especulação imobiliária e da estetização da ruína - e expõem a abstração da paisagem como um processo activo de exclusão. A lógica do vazio não se limita à ausência material, mas à sua reconfiguração como mercadoria, potencial de lucro e superfície estética. No entanto, a ruína não é neutra. Estes espaços têm as marcas da exploração laboral, da degradação ambiental e da resistência.

Se a abstração apaga as histórias dos lugares para as reinscrever como imagens especulativas de um futuro lucrativo, este projecto procura devolver o corpo e a lembrança ao que foi silenciado. Ao recuperar as ruínas como locais de memória e persistência, “Um Olho Verde, Outro Azul: Herbário do Antropoceno”' traz as histórias apagadas para o centro da narrativa, situando as transformações de Campanhã num contexto mais amplo de colonialismo, capitalismo e deslocação. Assim, talvez este projecto seja, também, sobre a escuta do visível, sobre a possibilidade de perceber o que já não soa, mas ainda vibra. Sobre um arquivo que não se fecha no silêncio, mas que continua a gerar novas frequências - como as ruínas, que nunca são vazias, mas habitadas por histórias, ecossistemas e resistências que se recusam a desaparecer. Contando com colaborações várias, nomeadamente ao nível da curadoria de conteúdos, agentes algorítmicos, cianotipias e instalação, entre outras, este é mais um projecto de enorme impacto visual e significado patente no MIRA para ser visto até 03 de Maio.

[Texto baseado na Folha de Sala da Exposição e na página da artista, em https://www.msdm.org.uk/project/olho-verde-outro-azul-herbarium-for-the-anthropocene-installation]

sábado, 28 de dezembro de 2024

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “MIRA Mobile Prize B&W 2024”



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “MIRA Mobile Prize B&W 2024”
Vários Autores
Ciclo de Fotografia Lesta e Lenta
MIRA Galerias | MIRA FORUM
16 Nov > 28 Dez 2024


Chega hoje ao fim a exposição internacional de fotografia mobile - captada e editada com dispositivos móveis -, uma iniciativa com a marca do projecto MIRA, dos incansáveis Manuela Matos Monteiro e João Lafuente. Naquela que é a 18ª edição do MIRA Mobile Prize B&W, os trabalhos apresentados resultam da escolha de um júri internacional composto por Armineh Hovanesian, Estêvão Lafuente, Gina Costa, Himanshu Roy e Sukru Mehmet Omur. Foram eles os responsáveis por eleger um conjunto de cinquenta fotografias, entre as muitas centenas que se ofereceram a concurso, e que se mostram ao público nas paredes do MIRA Galerias | MIRA FORUM. Simultaneamente, são projectadas em ecrã as 213 melhores imagens. Tempo para abraçar, através do olhar atento dos artistas, “pedaços de vidas que acontecem no grande cenário humano que é a rua onde as pessoas se movem ou estacionam os corpos: nos passeios das ruas, nos átrios dos edifícios, nas estações e carruagens de comboios, nos parques e jardins, nos cafés, nos museus, nas igrejas, numa grande avenida ou também numa rua estreita de uma aldeia”.

Olhando de perto os meandros de um Prémio que é já uma referência no panorama das iniciativas do género em Portugal, percebe-se que se contam por milhares as fotografias que em anos sucessivos são recebidas e que, contrariando a ideia de uma rotina instalada, não deixam de surpreender quem tem a missão de as analisar e avaliar. Nos motivos mais díspares, são elas que convidam à viagem para geografias distantes, diversas, habitadas por personagens que, partilhando a mesma biologia, são distintas na sua forma de vestir e estar, de se juntar, de celebrar, de sofrer. Os cenários variam e a luz nas arquiteturas desenha formas particulares enquadrando de modo único pessoas, veículos, animais, árvores, equipamentos, relevos. Em alguns casos, a fotografia de rua aproxima-se da fotografia abstrata, minimalista, enquanto que noutros o humano manifesta-se de forma exuberante. Pelo olhar do fotógrafo, percorremos ruas e praças, cruzamos o olhar com pessoas muito diferentes entre si, imaginamos as histórias de vida que se abrigam num gesto ou num olhar.

A propósito desta edição do MIRA Mobile Prize B&W, os organizadores realçam que “a fotografia a cores domina o mundo de hoje mas o preto e branco continua a ocupar um lugar especial porque a simplicidade do contraste mediada pelos cinzentos traz um foco maior à textura, forma e estrutura o que combinado torna as imagens mágicas. Não arriscamos muito se considerarmos que em muitas fotografias a poesia escreve-se com luz. A fotografia mobile captada e editada com dispositivos móveis calados, discretos, contidos asseguram a invisibilidade tão oportuna quando queremos captar a vida a acontecer em momentos únicos e irrepetíveis que acontecem num tempo e num espaço definidos pelos relógios e geografias. É neste mundo diverso e colorido pelas diferenças e semelhanças que se manifesta de forma mais genuína a Humanidade”. Uma última nota para a foto vencedora, da autoria de Mal McCann, que nos mostra um barbeiro em plena actividade numa movimentada rua de Galway. Numa restrita lista que inclui nomes como os de Adelino Marques, Augusto Lemos ou Óscar Valério, Cláudia Fernandes foi a portuguesa mais bem classificada.

segunda-feira, 4 de novembro de 2024

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "Sem Passado" | Felícia Pinho Oliveira



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Sem Passado”,
de Felícia Pinho Oliveira
Curadoria | Manuela Matos Monteiro, João Lafuente
Encontros da Imagem de Braga
Mira Forum
14 Set > 09 Nov 2024


“Este Menino hádeçe chamar Manoel. Leva hum lenço branco uma faixa branca e trez paninhos brancos. Naçeu em 4 de Agosto de 1825 p.ª a todo o tempo que se procurar ser entregue a seu dono = Entrou as 8 horas e hum quarto da manham.”

“Sem Passado” é um projeto de fotografia documental sobre o arquivo da Casa da Roda do Porto e as memórias de quem por lá passou. Instituição destinada a acolher crianças abandonadas anonimamente pelos progenitores, a Casa da Roda existiu no Porto entre os séculos XVII e XIX e teve três instalações diferentes ao longo do tempo, das quais não restam vestígios. As crianças eram normalmente abandonadas com o seu enxoval e com um objecto, de natureza muito diversa, que as distinguia das demais. Esse objecto era designado por “sinal” e permitia a recuperação inequívoca da criança no futuro. Os “sinais” que marcaram estas crianças formam, juntamente com os livros da Roda e os espaços do Arquivo Distrital do Porto onde se conserva este imenso espólio de mais de 180 metros de documentação, o corpo de trabalho de Felícia Pinho Oliveira, retratando a estética de abandono do século XIX e recuperando a memória de crianças duplamente negligenciadas, pela sociedade e pela história.

Uma fita de seda, uma bolsa vermelha, um rigor preto com a imagem de Santa Rita de Cássia, uma medida vermelha com letras brancas, três contas vermelhas, uma moeda partida ao meio e presa a uma fita cor de rosa, uma carta de jogar onde está escrito o nome “Jerónima”… A preservação de escritos ou bilhetes soltos, cosidos ou colados nos livros da Roda, é uma das características marcantes do arquivo da Casa da Roda do Porto. São escritos e sinais deixados com os expostos no momento do abandono, certidões de baptismo, guias manuscritas ou impressas de criação dos expostos, recibos de pagamento, certidões de capacidade das amas, de estado dos expostos e de falecimento, todas passadas pelos párocos das freguesias das amas ao serviço da instituição. O confronto com as palavras, em muitos casos escritas pelo próprio punho de um dos pais, nas notas deixadas com as crianças, revela-se um mergulho inquieto nos sentimentos, nos laços afectivos universais e intemporais, que unem invariavelmente pais e filhos.

O modo como foram criadas as instituições da roda em Portugal é relativamente bem conhecida e tem na sua base o alto infanticídio que existia em Portugal no final do século XVIII que, por muito tempo, e mais do que um crime, era visto como sendo um pecado. Sabe-se que cerca de 63 900 crianças foram expostas na “roda” do Porto entre 1690 e 1800, numa altura em que o número de habitantes da cidade rondaria os 30.000. Uma outra estatística revela que nesta mesma cidade o número de crianças reclamadas à “Casa da Roda” variaria entre os 3 e os 15%, conforme o ano do abandono. Quando estamos perto de celebrar os 35 anos da Convenção sobre os Direitos das Crianças, adoptada pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 20 de Novembro de 1989 e ratificada por Portugal em 21 de Setembro do ano seguinte, eis uma exposição impactante e com um enorme sentido de oportunidade, marco maior da presente edição dos Encontros da Imagem.

quarta-feira, 29 de maio de 2024

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “O Meu Testemunho: Rutura e Reparação”



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “O Meu Testemunho: Rutura e Reparação”,
de Donna Bassin
MIRA FORUM
27 Abr > 08 Jun 2024


Donna Bassin esteve no nosso país durante a celebração dos 50 anos da revolução que, nas suas palavras, “libertou Portugal do ditador Salazar”. Tratou-se de um regresso, motivado pela inauguração da exposição “O Meu Testemunho: Rutura e Reparação”, a qual pode ser apreciada no MIRA FORUM até ao dia 08 de Junho. Conjunto de imagens que importa ver sem preconceitos nem rótulos, a mostra reflecte sobre os tempos sombrios e de ruptura que vivemos, tempos marcados pelas agressões constantes às nossas democracias, ao nosso planeta, à nossa saúde mental. Impressas com tinta pigmentada em papel de arquivo, as fotografias são rasgadas para materializar as feridas que possam representar o sofrimento individual e colectivo para, posteriormente, virem a ser “curadas”. Os rasgos são cobertos com papel de arroz e remendados com pontos desordenados de fio dourado, uma intervenção inspirada no ‘kintsugi’, técnica ancestral japonesa que, de forma metafórica, honra a aceitação da lesão como parte da vida do objecto, integrando as experiências na sua nova forma.

Será, porventura, uma feliz coincidência, mas termos a possibilidade de ver, na mesma cidade e ao mesmo tempo, duas exposições tão impactantes, cruas e impressivas, e cuja temática se revela tão próxima, é algo único e imperdível. Uma das exposições é “Despojos de Guerra”, de Leonel de Castro, sobre a qual falei recentemente AQUI no blogue. Quanto a “O Meu Testemunho: Rutura e Reparação”, o trabalho de Donna Bassin é parte integrante das suas pesquisas enquanto arte-terapeuta, psicóloga clínica, psicanalista, cineasta e fotógrafa. É professora-adjunta e assistente clínica no programa de pós-doutoramento da Universidade de Nova Iorque em Psicoterapia e Psicanálise, onde leciona “Luto como transformação: a borda criativa do luto raumático e normal”. Nesta série de fotografias, manualmente modificadas, as “práticas” do consultório fundem-se com a arte de fotografar, criando imagens que convidam o olhar do público a cruzar-se com olhar dos modelos num mesmo plano de intencionalidade e empatia.

Através da pose, da gestualidade, do olhar e dos adereços ocasionais, os retratados encontram as suas narrativas, recuperam poder de acção e convidam o observador a olhá-los em toda a sua humanidade. Embora a bandeira americana tenha adquirido uma complexa simbologia, alguns retratados recuperaram-na e reinventaram-na para expressarem o desafio e a esperança pelo regresso da democracia. Como conjunto fotográfico, o fundo de veludo preto constante em todas as imagens e a iluminação ‘chiaroscuro’ unem o indivíduo ao colectivo. “No futuro, haverá reparação”, diz a autora, mas as cicatrizes, essas, permanecerão, para que nos lembremos da desumanidade e da injustiça para com aqueles que foram considerados invisíveis e sem direito à sua subjectividade, devido à sua raça, sexualidade, identidade de género, idade, etnia e/ou deficiência. Cicatrizes como símbolo das perdas que importa reconhecer, “para que façamos o luto e o transformemos, no sentido de ocorrer a mudança”.

[Texto baseado na Folha de Sala que acompanha a exposição. Portfólio na página da artista, em https://donnabassin.com/Portfolio/My-Own-Witness:-Rupture-and-Repair/]

domingo, 26 de maio de 2024

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: MIRA Mobile Prize 2024



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: Mira Mobile Prize 2024
Vários artistas
Curadoria | Manuela Matos Monteiro, João Lafuente
MIRA | Artes Performativas
04 Mai > 08 Jun 2024


Quem não tem, nos dias de hoje, um smartphone? Serão poucos os braços erguidos num país onde o número de telemóveis ultrapassa largamente a população portuguesa. A percepção que temos, enquanto utilizadores destes equipamentos, é que a sua evolução tecnológica tem sido uma constante e que isso vem alterando, de forma significativa, a utilização que lhes damos. Mais do que uma ferramenta para comunicar com o mundo, eles funcionam, cada vez mais, como uma janela para a nossa percepção desse mesmo mundo, abrindo espaço às múltiplas interpretações da realidade que nos rodeia. Celebrando a fotografia mobile há quase 10 anos, a dinâmica e atenta equipa do Mira Fórum - Manuela Matos Monteiro e João Lafuente, assistidos por Luísa Rosas da Silva - voltou a lançar o repto à comunidade mobile, na certeza do seu espírito de abertura em relação ao novo que se traduz, sempre, num vastíssimo conjunto de imagens enviadas de todo o mundo. Assim foi, uma vez mais, nesta 17ª edição do concurso, dedicada a Marian Seid Rubin, pioneira da fotografia mobile e um membro ativo e solidário da comunidade organizadora.

A novidade desta edição é a inclusão, nas categorias a concurso, da “IA” - imagens construídas com recurso à Inteligência Artificial -, ao lado das categorias “Arte Digital”, “Arquitectura”, “Minimal”, “Paisagem”, “Retrato” e “Vida Quotidiana”. Na base desta opção está a percepção de que este é um espaço de futuro, algo que começa a mexer com a curiosidade de todos e a levar alguns a experimentar novos caminhos na arte de construir imagens. É inegável que são cada vez mais os membros da comunidade mobile a apresentar excelentes trabalhos com recurso à Inteligência Artificial e é esse espírito de experimentalismo e alguma irreverência que levou os organizadores a ousar arriscar aquilo que provoca e inquieta: a Inteligência Artificial na Fotografia. Ao Júri do concurso - constituído por Andrea Bigiarini, Gina Costa, Giulia Baita, Joanne Carter e Mário Pires - coube a tarefa de seleccionar, de entre os muitos milhares de fotografias recebidas, as duzentas melhores e, numa fase posterior, as cinquenta de uma “short list” que ocupam o espaço do MIRA | Artes Performativas, bem como os vencedores do Prémio Mira Mobile Prize 24’, português mais bem classificado e, ainda, a melhor classificação na categoria IA.

O Júri decidiu atribuir o Prémio Mira Mobile Prize 24’ à arquitecta e fotógrafa artística brasileira Andrea Seligman, enquanto o nosso bem conhecido António Tedim foi o português mais bem classificado. Diana N. Jeon foi distinguida com o melhor trabalho de IA. Estes trabalhos podem ser vistos na belíssima “caixa de cortiça” da Rua Padre António Vieira, ao lado de imagens igualmente muito belas e significativas da autoria de, entre outros, Adelino Marques, Ana Valente, Teresa David, Bruna Costa, Clara Magalhães, Nuno do Carmo, Paulo C. Amado, Selene Vicente, Amo Passicos, Pati John, Aylin Argun, Mary J. Rosenfeld, Catherine Caddigan, Karen Divine, Jane Schulz, Alex Imas ou Eliza Tsitsimeaua. Face à grande qualidade das fotografias, a organização do concurso decidiu aumentar, nesta edição, o número de imagens em projecção para as duzentas, o que revela que a fotografia mobile consolidou, de facto, o seu lugar no mundo da fotografia. Para aqueles que não tiverem a possibilidade de se deslocar ao Porto até ao próximo dia 08 de Junho e acompanhar a exposição, podem sempre ver esta selecção alargada no canal de Youtube do MIRA Fórum, em https://www.youtube.com/@miraforum2184.

segunda-feira, 22 de abril de 2024

EXPOSIÇÃO: "Mundo da Canção"



EXPOSIÇÃO: “Mundo da Canção”
Curadoria | Manuela Matos Monteiro, João Lafuente
Consultores | José Pacheco Pereira, Manuel Vitorino, Rita Maltez
Mira Fórum
06 Abr > 08 Jun 2024


Mundo da Canção. Serão cada vez menos aqueles que recordam a Mundo da Canção (MC), revista publicada pela primeira vez em 19 de Dezembro de 1969 e que viria a tornar-se uma referência cultural no Porto e no país. Tendo Avelino Tavares como fundador e editor, a MC deu palco a músicos da canção portuguesa e internacional como José Afonso, José Mário Branco, Luís Cília, Fausto, entre outros, mas também Leonard Cohen, Donovan, Deniz Cintra, Arrival, The Beatles e Bee Gees, chegando a ter uma tiragem de 25 mil exemplares. Activista cultural, Avelino Tavares viria a trabalhar na organização, produção ou divulgação de festivais, como o Festival de Jazz do Porto, o Praia Blues ou o Intercéltico do Porto, a ele se devendo a vinda à cidade de reputados nomes da “world music”, como Cesária Évora (que celebrou os 25 anos de carreira, num espetáculo no extinto Cinema Terço), Leo Ferré, Paco de Lucía, Gal Costa, Astor Piazzola ou Miles Davis. É o labor e o legado deste homem dos sete instrumentos que os promotores da exposição “Mundo da Canção” pretendem recuperar, através de um conjunto de objectos intimamente ligados à sua história e que podem ser vistos no Mira Fórum até 08 de Junho.

Torna-se difícil dizer uma revolução e a do 25 de Abril ainda o é mais porque foge aos modelos que a História descreve. Há subtis realidades que escaparam às narrativas maiores e o tempo, lentamente, tem-nas trazido ao de cima. Filtradas, decantadas, as causas profundas da rotura de quase meio século de ditadura aparecem como realidades que pareciam menores mas que, afinal, tiveram um papel importante na formação de uma consciência cívica, de uma cidadania crítica que trouxe para a rua um país em busca de liberdade. É neste contexto que surge esta exposição cujo objectivo é explorar o papel que o projecto / revista Mundo da Canção teve na formação de tantos adolescentes e jovens adultos, hoje septuagenários ou mais adiantados no tempo. Partindo do acervo do Arquivo EPHEMERA - doado por Avelino Tavares -, que conta com milhares de documentos que ilustram o percurso de um projecto com múltiplas vertentes, a exposição “Mundo da Canção - Quem canta o MAL espanta. A cantiga é uma ARMA” pretende dar a conhecer o lugar do MC na história da Revolução de Abril.

Porque a memória é uma certa forma de vida, esta é também uma oportunidade para homenagear Avelino Tavares que acompanhou a elaboração deste projecto de contar a MC, mas que infelizmente não pode vivê-lo. A sua presença faz-se sentir ao longo de toda a exposição, dos muitos cartazes onde avultam os nomes de Pablo Milanes, Paco Ibañez, Nara Leão e Zeca Afonso, aos “Livre Trânsito” de concertos ou Festivais icónicos, do cuidado posto na organização do concerto de Fausto na apresentação de “Por Este Rio Acima” ao levantamento nas instalações da extinta PIDE/DGS do nº 34 da MC, uma edição que “viajou” directamente da tipografia para os armazéns da polícia política e aí passou 13 longos meses. Refira-se, ainda, que esta exposição é mais uma prova da importância do Arquivo EPHEMERA que permite contar realidades que escapam à fontes formais de registo da História. Neste tempo de celebração da Revolução de Abril, o Arquivo EPHEMERA disponibilizou materiais para mais de cinquenta iniciativas em Portugal e no estrangeiro no que pode ser considerado um verdadeiro serviço público.

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2024

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “A Questão da Paisagem | A Questão do Vazio”



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “A Questão da Paisagem | A Questão do Vazio”,
de Augusto Lemos e Conceição Magalhães
Mira Forum
06 Jan > 17 Fev 2024


O perto e o longe, o dentro e o fora, o real e o encenado, o nítido e o desfocado, o digital e o analógico, a cor e o preto e branco. As dicotomias nas quais a fotografia se espraia são intermináveis e nelas reside a essência da arte de fotografar, naquilo que tem de subtileza, graça e desafio. Uma das mais significativas e que mais questões levanta prende-se com a paisagem e o vazio, pelo paradoxo que se adivinha na integração dos dois conceitos, mas também pelo carácter instável e efémero de cada um deles. É disto que nos falam Augusto Lemos e Conceição Magalhães na exposição conjunta “A Questão da Paisagem | A Questão do Vazio”, patente no Espaço Mira até 17 de Fevereiro. Naturalmente diversas entre si, as duas exposições complementam-se naquilo que revelam ou pretendem ocultar. Se uma é aberta e livre ao olhar do visitante, a outra pede para ser espreitada. Se uma se explica em palavras que são (como) poemas, a outra estende-nos a página em branco e oferece-nos o lugar do poeta.

Em “A Questão da Paisagem”, Augusto Lemos mostra-nos a paisagem como algo que não é apenas um local físico, mas um interpretação que tem por base o conhecimento, as sensações e a memória. Embora tenha abordado outros temas, a fotografia de paisagem foi o assunto que o artista mais explorou ao longo dos últimos cinquenta anos. “Na fotografia, a paisagem é um fragmento da realidade enquadrado pela câmara”, pode ler-se na Folha de Sala que acompanha a exposição, sendo esta ideia consubstanciada por um conjunto de imagens que tanto mostram a paisagem duriense como a lezíria ribatejana, os Caminhos de Santiago ou a Estrada Nacional 2. Um conjunto de imagens da série “Bloody Landscapes” (Centro Português de Fotografia, 2018), transporta o nosso olhar até às paisagens onde decorreu, em Abril de 1918, a Batalha de La Lys. Há ainda duas imagens dentro de uma única moldura, inéditas, registadas com uma câmara estenopeica panorâmica. A questão que se levanta é a seguinte: a câmara determina o olhar na paisagem, ou é alheia ao estilo fotográfico do olhar?

Conceição Magalhães em “A Questão do Vazio'”, explora a fronteira entre a vida e a morte, capturando nuances sensoriais e um espaço quase etéreo. A autora mergulha nesse espaço intermédio entre a vida e a morte, em busca de conexões entre os vestígios materiais e a narrativa contínua da vida. “Percebo os passos, os cheiros e as cores das interacções da vida, enquanto, simultaneamente, experimento, na quase ausência de luz, a réstia do pó da alma”, diz. Façamos como a artista, espreitemos pela brecha possível e vasculhemos. Como ela, também nós nos impressionamos com “as sugestões de salas, escadas e portas que se abrem, testemunhas silenciosas do tempo, indicando conexões entre diferentes percursos de histórias pretéritas. (…) Como um arqueólogo, interpretam-se as diferentes camadas dos tempos, criam-se rituais para garantir a veracidade da narrativa que não cessa, e assim, fazem-se relações e ficções, como se através de materialidades se depreendessem emoções, gestos, pensamentos.”

sábado, 22 de outubro de 2022

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "Ilhéus"


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EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Ilhéus”,
de Moira Forjaz
Curadoria | Paola Rolletta
Encontros da Imagem 2022
Mira Fórum
03 Set > 22 Out 2022


“Não há maior agonia do que guardar a história não contada dentro de nós”. As palavras são de Maya Angelou e ilustram, na perfeição, o projecto “Ilhéus”, da fotógrafa Moira Forjaz, conjunto de retratos de habitantes da Ilha de Moçambique cujos rostos e corpos se sobrepõem à própria História: Ilhéus que deixaram a fotógrafa entrar na sua intimidade, contando-lhe as suas vidas na primeira pessoa. Para muitos terá sido a primeira vez que alguém lhes pediu para falarem de si, dos seus sonhos, da vida que levaram e daquela que desejariam ter levado. Das suas frustrações, das decepções e das suas satisfações. Da sua vida. Vestiram as roupas melhores, as mulheres da Ilha. As capulanas mais caprichadas, tiradas do baú para a ocasião (há sempre uma capulana para qualquer ocasião…) e falam tanto até que finalmente chega o clique que as imortaliza e lhes rende a justiça de um anonimato forçado pela história.

Espreitemos com atenção a imagem desta mulher de pé, encostada a uma parede mal caiada. A estranha maquilhagem que lhe cobre o rosto - o branco do pó de m’siro a vincar mais do que a esconder as fundas rugas - confere ao olhar uma inesperada profundidade. Ergue na mão um espelho partido, ao mesmo tempo que posa para a objetiva enquanto controla com um gesto gracioso o lenço que lhe envolve a cabeça. As unhas pintadas, os brincos e colares, o anel em filigrana indo-portuguesa, o lenço, o quimão típico da tradição macúa, de cores garridas que contrastam com o cinzento da parede e o azul desbotado de uma porta, compõem um quadro surrealista. E, contudo, esta mulher é bem real. Como muitas outras e outros, é parte de um projeto que celebra a vida e tudo o que está dentro de um único grande céu. Um projecto que retira do anonimato as pessoas, que diz que todos têm direito ao seu nome, seja ele Janina Momade ou Amina Ramane, Joana Esmael Taibo ou Abdala Amisse, Ancha Abuso Suarimo ou Agira Abacar, Maria da Conceição Amade ou Cazuela Charama.

Falar de Moira Forjaz é falar de um trajecto que a fez deixar, nos anos 60 do século passado, o estreito enclave branco de Bulawayo, na ex-Rodésia, rumo a Joanesburgo. Consigo transportava o sonho de estudar arte e um casaco de peles que viria a trocar pela sua primeira máquina fotográfica. Depois veio a luta contra o colonialismo e os encontros com Hillary Hamburger, Joe Slovo ou David Goldblatt, autor de algumas das mais poderosas imagens do apartheid. Vieram as detenções e o subsequente julgamento da liderança do ANC que mudou a história da África do Sul. E veio Moçambique, onde encontrou o seu futuro marido, o arquiteto José Forjaz, e onde desenvolveu a sua habilidade, tornando-se uma das fotógrafas oficiais do Presidente Samora Machel. O engajamento político e social passou pela fotografia e pelo cinema (trabalhou com Godard), registando gentes, lutas, música, resgatando a vida com a sua miséria e a sua nobreza. É nesse todo que esta exposição se enquadra, com os ilhéus e o seu nome postos em evidência ao longo das ruelas, nas suas casas, nos degraus, nas esteiras da Ilha de Moçambique banhada, rodeada, lambida, alimentada, amada, por vezes mal-amada, pelo Oceano Índico. “Ilhéus” é um dos momentos preciosos da presente edição dos Encontros da Imagem de Braga e pode ser visto no Mira Fórum.

quarta-feira, 25 de maio de 2022

INSTALAÇÃO: "Primrose: um outro Porto Atlas"


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EXPOSIÇÃO: “Primrose: um outro Porto Atlas”,
de Manuel Valente Alves
Curadoria | Manuela Matos Monteiro
Mira Forum 
07 Mai > 11 Jun 2022


Enquanto projecto expositivo, “Primrose: um outro Porto Atlas” configura uma instalação da autoria de Manuel Valente Alves. A sua matriz reside em “Porto Atlas um livro de fotografia” (Edições Afrontamento, 2021) e estende-se para lá das suas páginas sob a forma de um vídeo cujo título dá o nome à instalação. Entre o livro e o vídeo perfila-se uma exposição de fotografia, espécie de corredor de passagem, simultaneamente elo de ligação e ponto de separação entre a imagem congelada e a imagem em movimento. É deste “núcleo” que gostaria de falar em primeiro lugar, não apenas pelo valor intrínseco das imagens, mas sobretudo pela forma como nos são apresentadas, “folhas de provas” agrupadas três-a-três, presas entre si e suspensas por fios que pendem do tecto. Em si mesmas, são um convite a que acompanhemos o seu movimento desordenado, perdendo-as e reencontrando-as ao acaso, por um capricho do vento ou graças às (muitas) mãos que não resistem a folheá-las.

As folhas levam-nos ao livro e o livro traz-nos ao Porto. Um Porto que conhecemos bem, onde diariamente nos movemos, que varremos com os nossos olhos, as mais das vezes sem o vermos. Um Porto desvendado em imagens, que não pretendem constituir-se em atlas da cidade (apesar do título poder sugeri-lo), antes se assumem como um roteiro “daquilo que se oferece e se passa num olhar contemporâneo, um registo de uma beleza inesperada, uma estranheza ou uma identificação com o que se passa nesta cidade, nos seus lugares de conveniência, as eleições de cada grupo, de cada recanto de encontro consigo mesmo, a mescla diária de gregarismo e individualização”, conforme as palavras de Maria do Carmo Serén, que podem ler-se na nota introdutória do livro.

“Primrose” é já outra história, outro canto. Outro encanto. O Porto de “Primrose” é “um Porto que vemos menos, olhamos menos e que, por isso, nos inquieta (…)”, conforme lemos na folha de sala que acompanha a exposição e que tem a assinatura de Manuela Matos Monteiro, curadora da exposição. Ante o nosso olhar desfilam imagens que, em si mesmas, compõem um manifesto de amor ao Porto, uma quase oração que nos fala de luz e sombra, de águas quietas ou mexidas, de folhas, ervas, flores, ramos e troncos, de céu e vento. Imagens que nos conduzem, também, “a uma viagem interior porque amaciados os lugares, desfocados os elementos, associadas realidades distintas em trama – como de associações livres se tratasse – convocamos os nossos cenários íntimos.” Para ver até dia 11 de Junho, nas galerias do Espaço Mira.

quarta-feira, 18 de maio de 2022

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "Horizontal"


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EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Horizontal”,
de André Gigante
Curadoria | Lara Magalhães, André Gigante
Mira Fórum 07 Mai > 11 Jun


A cada passo, o Google Photos sugere rotações às minhas fotos. Onde eu vejo paisagens parece ele querer ver retratos (e vice-versa). Raramente lhe dou razão, a minha horizontal e a dele não são as mesmas. E menos ainda os nossos horizontes. Vem isto a propósito da exposição de fotografia “Horizontal” e dos horizontes que sou convidado a descobrir por intermédio da lente de André Gigante. Nas paredes do Mira Fórum, dezoito imagens alinham-se de forma aparentemente aleatória para, no seu conjunto, oferecerem uma representação possível desses espaços que se contraem e distendem na exacta medida do meu sentir. Mais próximos ou mais longínquos, palpáveis ou incorpóreos, inexactos ou intensamente límpidos, os horizontes abrem-se ao meu olhar e à minha compreensão, pedindo que os tome como meus, que neles saiba ver o que não se vê, que confirme, uma vez mais, que espaço e tempo são conceitos voláteis, sem réguas nem relógios que os afiram, distantes da mente, juntinhos ao coração.

Do domínio dos sentidos, o trabalho de André Gigante não se explica. Geradas na luz, as formas agitam-se em busca de correspondência. Olhadas de frente parecem uma coisa, da esquerda ou da direita já parecem outra. Uma poça de água que sobrevive à maré baixa? Vestígios de uma pegada na areia? Parte de um caderno em branco abandonado? O mero reflexo de um raio de sol na superfície do lago? Na ânsia de compreender, há sons que se instalam e perfumes que se insinuam. O processo criativo encontra em mim um precioso aliado. Sou apenas eu a ver a silhueta de um homem de chapéu e a escutar a sua voz que se projecta de forma imprecisa do lado de cá da janela de vidro martelado do gabinete? (Mas será um gabinete? Um homem? Um chapéu? Uma voz?). A cor, essa, permanece fugidia, rente ao grau zero onde todas as coisas se confundem. É dela que vem esta sensação de unidade que aconchega e conforta. É a ela que regresso e me refugio, é nela que aplaco a minha inquietação e sinto o pulso serenar.

Foi no Verão passado que descobri “Deambulaia”, extraordinária exposição de pintura de André Gigante que ocupou o espaço do Centro de Arte de Ovar até finais de Outubro. Cheio de promessas, o reencontro não poderia ser mais estimulante. Na altura, escrevi AQUI no blogue: “Na pintura de André Gigante percebe-se com nitidez o seu olhar de fotógrafo, a obra como um detalhe, parte reduzida de um todo que se estende para lá da tela, que não está lá, mas está, ao mesmo tempo”. A confirmação surge agora, intensa e viva, em “Horizontal”. Depuradas, silentes, as imagens mostram o quanto há de abstracto na coisa concreta que o “momento congelado” encerra. Distantemente perto, longinquamente presente, cada imagem é, em si mesma, um convite à viagem. Tal como em “Deambulaia”, embarco nela sem reservas. Espera-me Ítaca que espero distante. Quero viver o momento, descobrir-me em “delírio” ou em “vertigem”, num “reflexo” ou numa “miragem”. Descobrir “o tempo suspenso” e o quanto encerra. Navegar é preciso!

domingo, 3 de abril de 2022

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "Bernardino Pires O Fotógrafo e A Cidade"


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EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Bernardino Pires O Fotógrafo e A Cidade”
Mira Forum
26 Mar > 30 Abr 2022


Autor de um magnífico retrato da cidade do Porto dos anos 50 e 60 do século passado, Bernardino Pires (1901 - 1977) foi um notável fotógrafo cuja obra, muito injustamente, tem permanecido num quase anonimato até aos dias de hoje. Num acervo composto por mais de dez mil matrizes fotográficas a cores e a preto e branco, é possível perceber o pendor marcadamente neo-realista da sua fotografia, abrindo as portas e as janelas de uma cidade social, urbana e etnográfica, através de um olhar inusitado com recurso a enquadramentos e luminosidades de grande invulgaridade na sua época. Vêm agora, os herdeiros do fotógrafo e a editora In-Libris, levar por diante um projecto de resgate do fotógrafo e dos seus trabalhos, cuja primeira iniciativa é, precisamente, esta exposição e que engloba, ao longo do mês de Abril, sempre aos sábados, às 17:00, conversas com várias figuras ligadas à fotografia, e não só. O culminar do projecto tem lugar no dia 23 de Abril com a apresentação do livro “A Cidade do Porto na Obra do Fotógrafo Bernardino Pires”.

É, sem dúvida, a cidade do Porto o palco que Bernardino Pires escolhe para o desenvolvimento do seu trabalho. O rio Douro, as pontes, os comboios, o trabalho, as crianças e os velhos, a cidade nocturna, são o alvo que os olhos do fotógrafo procuram. Através da sua lente, a Zona Histórica da cidade classificada como Património Mundial pela UNESCO é tratada com especial curiosidade e enlevo. Ao apreciar as imagens, o olhar do visitante encontrará nelas reminiscências de uma cidade que Manoel de Oliveira tão bem documentou nos sublimes “Douro, Faina Fluvial” e “Aniki-Bobó”. Os mercados, a roupa a lavar ou a secar, os bandos de miúdos que partilham as suas aventuras nas margens do rio, a rapariga com um vaso de manjerico ou o rebanho que segue pela estrada junto à Ponte D. Luís são parte de uma realidade ainda bem presente, como o são as notas contrastantes de uma sociedade boquiaberta face às “modernizes” de um cartaz que faz a apologia dos comboios franceses, de uma mulher de calças em plena Praça da Ribeira ou de três turistas levando pela mão as respectivas malas portáteis de rodas.

Pela notável criatividade e o arrojo das composições, o conjunto da obra de Bernardino Pires serve não só uma importante perspectiva documental mas, acima de tudo, revela uma inovadora postura estética face à época em que as imagens foram captadas. O processo de edição de imagem, muito utilizado na Época, passava pela manipulação dos próprios negativos, muitas vezes com recurso a marcações indeléveis riscando para reenquadrar, pintando para mascarar ou colando elementos sobrepostos na própria matriz. A possibilidade de visualizar estes “artifícios” e de perceber o caminho criativo que as imagens seguiram após o momento da captação é outro dos motivos de interesse desta exposição. Acrescente-se que, por razões de conservação e segurança, há a intenção de digitalizar o trabalho de Bernardino Pires, criando um banco de imagens digital que permita a sua manipulação e estudo. A exposição permanecerá patente no Mira Fórum ao longo de todo o mês de Abril.

[Texto construído com base na folha de sala que acompanha a exposição]

quinta-feira, 8 de outubro de 2020

Vemos, ouvimos e lemos... #12



1. Até 15 de Outubro estão abertas as candidaturas ao concurso internacional de fotografia “A Inclusão na Diversidade”, uma iniciativa da Plural & Singular, numa parceria com o Centro Português de Fotografia. Naquela que será a sua 7ª edição, este concurso de fotografia continua à procura da “inclusão na diversidade” e desafia tanto fotógrafos amadores como profissionais a participar. Composto por Sónia Silva, técnica superior do Centro Português de Fotografia, Paulo Pimenta, fotojornalista do jornal Público e pela actriz e activista Maria Gil, ao Júri cumprirá a tarefa de avaliar com rigor a forma como os concorrentes, através das suas imagens, reflectem sobre os conceitos de “inclusão” e de “diversidade” no seio de uma sociedade sem barreiras físicas nem psicológicas. Os premiados verão as suas fotografias expostas no Centro Português de Fotografia e serão destacados na 25ª edição da revista “Plural & Singular”, com a fotografia vencedora a ilustrar a capa. Informação detalhada em https://www.pluralesingular.pt/.

2. De 09 a 18 de Outubro, as marionetas, os objetos e as matérias espalham-se pelos palcos da Invicta e ganham vida. Fazem-no para nos desafiar a pensar sobre o mundo das coisas de uma perspetiva diferente – talvez mais próxima da sua –, para nos redescobrirmos na nossa velha e irredutível humanidade sempre renovada. É a edição de 2020 do Festival Internacional de Marionetas do Porto, oferecendo-nos universos e estéticas muito diversos e que, no seu conjunto, articulam algumas possibilidades para um discurso sobre as ciências e a política na performance da matéria animada. Numa edição marcada pelo surto de um vírus que poderá ter vindo para ficar, pelo menos por uns tempos, estreias absolutas, formações, mostras de trabalhos em processo e até algumas surpresas são os trunfos da programação do FIMP 2020. A organização garante que “vir assistir aos espetáculos do FIMP é seguro (...), não apenas pelo rigoroso cumprimento das regras sanitárias mas porque o teatro é um lugar muito bem frequentado: no teatro estarão aqueles que, em consciência individual e colectiva, não cedem à cultura do medo e do isolamento, que não abdicam da cultura, do espírito crítico e da empatia.” Programação completa e demais informações em https://www.fimp.pt/.

3. O que é que acontece quando três fotógrafos e uma videógrafa se juntam? Abrem um “quiosque” que também é zine, retratando e difundindo universos em A5. José Farinha, Paulo Pimenta, Daniel Rodrigues e Inês Branco são os rostos por detrás da Kioskzine, convidando-nos a franquear as portas desta nova “casa” através de uma publicação (cujo número zero conta já com duas edições esgotadas) que “cabe na mochila, carteira e coração de quem ama, respira, vive da e para a fotografia”. A preto e branco ou a cores, guardam e contam histórias de um mundo visto por quem o celebra e documenta, tornando-o acessível, abrangente e dinâmico, zine e plataforma de arquivo documental fotográfico, mas também fórum onde a fotografia possa ser questionada e discutida. O projecto será lançado “cara a cara” no Mira Forum, em Campanhã, no próximo dia 16 de Outubro, pelas 21h30. Entretanto, os mais curiosos podem ir espreitando a Kioskzine e, se for caso disso, proceder à sua encomenda em https://www.kioskzine.com/.