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segunda-feira, 7 de abril de 2025

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "Blur" | Lara Jacinto



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Blur”,
de Lara Jacinto
Curadoria | Susana Lourenço Marques
(In)visibilidades e Derivas
MIRA Galerias | MIRA FORUM
08 Mar > 03 Mai 2025


A complexidade da vida quotidiana nos países em redor do Adriático - uma região que, ao longo da História, tem passado por profundas alterações, com um passado de beligerância que engloba as guerras mundiais do século XX e a última guerra a ter lugar na Europa antes do novo milénio - está no centro de “Blur”, exposição de fotografia de Lara Jacinto, patente no MIRA Galerias | MIRA FORUM. “Blur” pretende apreender e transmitir a realidade de uma linha de fronteira tornada difusa graças a repetidas mudanças, determinadas por acontecimentos políticos de magnitude variável e com um forte impacto no tecido social e humano. Aos olhos daqueles que não pertencem à região e são alheios a esse forte sentido de alteridade que a história recente inculcou nela, em ambos os lados da fronteira, as semelhanças herdadas pelas travessias ao longo dos anos, a miscelânea de destinos de cada povo daquele território. As diferenças são superficiais e artificiais. “Blur” aborda esta identidade partilhada inconscientemente (pelo menos no que diz respeito aos hábitos culturais), a confusão entre fronteiras políticas e semelhanças entre povos e a dificuldade de estabelecer uma identidade que não seja, de certa forma, comum a todos.

“Blur” também aborda a incerteza do futuro - entre a tentação de criar fronteiras mais rígidas, a resistência à diferença, a ênfase dada àquilo que separa os povos e tudo aquilo que contraria o ideal europeu de unidade, agora perdido. É uma viagem emocional num território partilhado vulnerável, onde se agrupam diferentes influências culturais, religiosas e políticas, combinando-se e criando um universo tão fascinante quanto contraditório - belo e repulsivo, emocional e racional, seguro e hostil. Não se pode olhar para este universo sem pensar duplamente: por um lado, as questões que perturbam a Europa, a situação dos refugiados, a ameaça terrorista e a instabilidade política; por outro lado, a dispersão das fronteiras, a reconfiguração do território, as questões identitárias, a guerra e a disputa geográfica e étnica que ocorreu nos Balcãs. Embora se trate de uma região onde algumas políticas se esforçam por resistir à contaminação cultural e por apoiar a ideia de identidade e de diferença, a paisagem humana está, no entanto, a misturar-se por todo o lado. Neste contexto, é premente questionarmo-nos sobre o que define, de facto, a proximidade entre as pessoas.

Num primeiro contacto com um espaço cultural e geograficamente estranho, há uma tendência natural para reparar nas diferenças. As imagens tornam-se mais nítidas e destacam uma geração mais jovem com diferentes origens, etnias e religiões, uma sociedade que prepara o seu futuro na Europa. Alguns estudam ou trabalham, outros não têm profissão, mas todos vivem um quotidiano idêntico e têm objectivos de vida semelhantes. Vestem as mesmas roupas, usam os mesmos modelos de smartphones, ouvem a mesma playlist, aspiram aos mesmos luxos e aos mesmos divertimentos e adoptam comportamentos sociais recorrentes. Quando observamos estes europeus, tendemos a desenvolver alguma identificação, e a nossa proximidade e empatia aumentam à medida que as semelhanças se revelam. Apesar da distância, percebe-se que é muito mais o que os une do que aquilo que os separa. É esta realidade que pode ser apreciada no simpático espaço de Campanhã, até 03 de Maio.

sábado, 13 de julho de 2024

EXPOSIÇÃO: “Portugal Ano Zero: Livros de Fotografia da Revolução”



EXPOSIÇÃO: “Portugal Ano Zero: Livros de Fotografia da Revolução”
Vários Artistas
Curadoria | José Luís Neves, Luís Pinto Nunes, Susana Lourenço Marques
Centro de Arte Oliva
28 Jun > 15 set 2024


“Portugal Ano Zero: Livros de Fotografia da Revolução” reúne uma extensa e inédita selecção de livros com trabalho de fotógrafos portugueses e estrangeiros, provenientes de diversas colecções privadas e públicas, nacionais e internacionais. Revelando a efervescente prática editorial que se desenvolveu no pós 25 de Abril de 1974, trata-se de uma perspectiva histórica abrangente deste período, que vai dos primeiros manifestos na denominada “small press” às apropriações contemporâneas, experimentadas por exemplo por Alexandre Estrela em “Merda” (2006). O núcleo central da exposição é composto por livros que — a par de fotografias e filmes como o “Portugiesischer Frühling” [“Primavera Portuguesa”], de 1975, da cineasta alemã Sabine Katins — percorrem os diversos momentos da revolução, as movimentações contra-revolucionárias que emergiram durante este período, a documentação recorrente de práticas de arte de rua e protesto, o processo da reforma agrária e o papel da mulher nos primeiros anos da revolução.

Uma especial atenção é dada aos fotógrafos internacionais que visitaram o país e que realizaram livros, zines e jornais sobre este período e contexto, como Jochen Moll (“Grândola: Reportagen aus Portugal”, 1976), Guy Le Querrec (“Portugal 1974-1975: Regards sur une tentative de pouvoir populaire”, 1979), Tano D'Amico (“Ombre Rosse”, 1975) ou Jason Lauré (“Jovem Portugal After The Revolution”, 1977), entre outros. Partindo do idealismo e da turbulência política da fase inicial da revolução, a exposição retrata também o desvanecimento do sonho revolucionário e a adaptação gradual da sociedade civil, culminando numa nova fase da vida democrática em Portugal. Destacam-se, nomeadamente, trabalhos como a foto-novela “Iberische Idylle” [Idílio Ibérico], realizada por Bart Sorgedrager, em 1985, publicada na revista portuguesa “Crónica Feminina” um ano depois.

A este conjunto de imagens da segunda metade do século XX, juntam-se obras de autores portugueses que desenvolvem o seu trabalho a partir da seleção dos livros expostos, como o trabalho de Pedro Augusto sobre o livro/ vinil “Uma Certa Maneira de Cantar” (1977), as fotografias de Dinis Santos sobre a série de calendários das “Casas Clandestinas” (1994), do Partido Comunista Português, assim como a obra de Tiago Madaleno, com base no documentário da BBC sobre Portugal: “White wall in Alentejo” (1977). Destaca-se a interacção da obra de Lisa Santos Silva, “A cabra não é cega” (1976), que participa na Alternativa Zero (1977) e das fotomontagens no livro “Revolução e Mulheres”, 1976 de Maria Velho da Costa. “Portugal Ano Zero” é um dos 45 projetos apoiados pelo programa Arte pela Democracia, uma iniciativa da Comissão Comemorativa 50 anos 25 de Abril em parceria com a Direcção-Geral das Artes.

[Texto extraído da Folha de Sala da exposição]