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sexta-feira, 31 de julho de 2026

EXPOSIÇÃO: “Sem Terra à Vista”



EXPOSIÇÃO: “Sem Terra à Vista”
Vários artistas
Curadoria | Paula Cabaleiro
Centro de Arte Oliva
18 Abr 2026 > 24 Jan 2027


Habitar o presente, tal parece ser o desígnio de “Sem Terra à Vista”, exposição patente até 24 de Janeiro do próximo ano no Centro de Arte Oliva, em São João da Madeira. A partir de uma nova leitura da Colecção Norlinda e José Lima, a curadora Paula Cabaleiro constrói um percurso onde a arte não oferece respostas, antes convoca o visitante para um território de inquietação permanente. O título, apropriado do derradeiro livro de Charles Simic, funciona menos como metáfora marítima do que como diagnóstico civilizacional, colocando em destaque a ausência de horizonte, a erosão das referências colectivas e a sensação de deriva que atravessa o nosso tempo. A força da exposição reside precisamente na recusa de uma narrativa fechada, na forma como se privilegiam relações de tensão, afinidades inesperadas e contrapontos que fazem coexistir gerações, geografias e linguagens distintas. A extraordinária amplitude da colecção - uma das mais relevantes do panorama privado português - revela-se aqui como instrumento crítico, permitindo que autores portugueses dialoguem naturalmente com grandes nomes da cena internacional, sem hierarquias artificiais. O resultado é uma exposição que recusa a contemplação passiva em favor de uma experiência intelectualmente exigente, apelando à circulação de ideias e à capacidade da imagem para produzir pensamento.

Esta leitura manifesta-se na própria arquitectura expositiva, cujos núcleos se sucedem sem fronteiras rígidas, permitindo que cada obra prolongue ou contradiga a anterior. A presença de artistas como Paula Rego, Christian Boltanski, Cindy Sherman, Leon Golub, Chéri Samba, Gonçalo Mabunda ou Mónica de Miranda evidencia diferentes formas de abordar a violência, a memória, o corpo, a identidade ou a herança colonial, enquanto autores portugueses como Daniel Blaufuks, Helena Almeida, João Louro, Rui Chafes, Pedro Cabrita Reis ou José Pedro Croft oferecem perspectivas que oscilam entre a introspecção, a crítica política e a reflexão sobre a condição humana. De forma sensível, Paula Cabaleiro evita que estes temas se transformem num catálogo de causas contemporâneas, embora a exposição convoque questões como a guerra, as migrações, o avanço dos discursos extremistas, a devastação ambiental ou a desinformação. Fá-lo através da complexidade própria da criação artística, recusando tanto a ilustração como a retórica panfletária. Cada obra mantém a sua autonomia formal e conceptual, contribuindo para um discurso colectivo assente, em larga medida, na ambiguidade. Nessa tensão entre beleza, desconforto e pensamento, encontra “Sem Terra à Vista” a sua maior consistência crítica.

Num momento em que muitos projectos curatoriais procuram responder à actualidade através de enunciados excessivamente programáticos, “Sem Terra à Vista” distingue-se por confiar na inteligência do público e na capacidade das obras para permanecerem abertas à interpretação. A Colecção Norlinda e José Lima confirma-se, uma vez mais, como um acervo cuja diversidade permite sucessivas revisitações, revelando novas leituras sem esgotar os seus significados. A exposição demonstra igualmente a maturidade de Paula Cabaleiro enquanto curadora, capaz de construir um discurso sólido sem sacrificar a singularidade de cada artista nem reduzir a arte a instrumento ilustrativo de um argumento político. O visitante sai com poucas certezas e inúmeras perguntas — talvez o sinal mais evidente de uma exposição bem conseguida. Perante um mundo fragmentado, onde o ruído mediático tende a simplificar a realidade e a neutralizar o pensamento crítico, esta mostra recorda que a arte continua a ser um dos raros lugares onde a complexidade não constitui um obstáculo, mas uma necessidade. Sem oferecer promessas de redenção, “Sem Terra à Vista” aponta para uma possibilidade mais modesta, mas talvez mais urgente: recuperar o exercício da dúvida, da memória e da imaginação como formas de resistência perante um horizonte onde, efectivamente, continua a não haver terra à vista.

quinta-feira, 30 de julho de 2026

EXPOSIÇÃO: "Horror Vacui"



EXPOSIÇÃO: “Horror Vacui”
Vários artistas
Curadoria | Marta Jecu
Centro de Arte Oliva
21 Mar 2026 > 24 Jan 2027


Há um aparente paradoxo em “Horror Vacui”, patente no Centro de Arte Oliva: apesar da extraordinária densidade formal das cerca de noventa esculturas reunidas, a exposição não se limita a falar de excesso, mas sobretudo daquilo que esse excesso procura conter. É pelo menos isso que a curadoria de Marta Jecu parece querer dizer ao partir do conceito clássico de “horror vacui” para construir uma reflexão onde o vazio deixa de ser apenas um problema estético e se converte numa inquietação existencial. Humanas, animais, híbridas, mecânicas, espirituais ou monstruosas, as figuras ocupam o espaço como manifestações de uma necessidade ancestral de dar corpo ao invisível. Provenientes da Colecção Treger Saint Silvestre, um dos mais relevantes acervos europeus dedicados à criação autodidacta, popular e marginal, estas obras recusam uma leitura disciplinada pela história oficial da arte. O seu território é outro: o da imaginação compulsiva, da crença, da memória, da obsessão e do impulso criador enquanto necessidade vital. O percurso expositivo transforma-se, assim, numa sucessão de encontros com entidades que parecem existir num limiar entre o objecto escultórico e o organismo vivo, convocando o visitante para uma experiência onde a estranheza se instala sem nunca se resolver plenamente.

O grande mérito da exposição reside na forma como evita reduzir estas obras à categoria confortável da excentricidade ou da curiosidade pura e simples. Muitos dos autores representados - de Rosa Ramalho a Reinata Sadimba, de José de Guimarães a Serge Jolimeau, passando por Giovanni Batistta Podestá, Michel Gouery, Poteau Dieudonné ou Susanne Themlitz - pertencem a universos criativos profundamente distintos, tanto geográfica como culturalmente. Contudo, a montagem propõe um diálogo que privilegia afinidades sensíveis em detrimento de genealogias académicas. A matéria gasta, a presença manual, a imperfeição assumida e a expressividade quase ritual aproximam trabalhos produzidos em contextos radicalmente diferentes, revelando uma linguagem comum onde o corpo funciona como recipiente de medos, desejos, memórias e forças invisíveis. Relegando para segundo plano quaisquer narrativas cronológicas ou estilísticas, Marta Jecu preocupou-se em organizar um campo de tensões onde cada escultura parece responder à anterior, ampliando uma sensação de contágio visual que reforça a ideia de comunidade imaginária. O resultado é uma paisagem povoada por alter egos, máscaras e presenças tutelares que desafiam as categorias tradicionais da arte contemporânea e reforçam a singularidade de cada gesto autoral.

Se, por um lado, “Horror Vacui” afirma uma clara resistência aos valores modernistas da depuração, do silêncio e da síntese, por outro evita transformar essa oposição numa mera declaração programática. O excesso aqui apresentado não é sinal de acumulação gratuita; manifesta-se antes como estratégia de sobrevivência perante a incerteza do mundo. A presença do texto de Gonçalo M. Tavares, difundido sob a forma de peça sonora ao longo do percurso, reforça essa dimensão filosófica, funcionando menos como interpretação das obras do que como prolongamento da sua atmosfera inquietante. Há, em toda a exposição, uma consciência de que estas figuras não representam simplesmente personagens, mas modos de habitar o desconhecido. É nessa capacidade de suspender fronteiras entre arte popular, arte bruta, criação contemporânea e imaginário colectivo que reside a força desta exposição. Mais do que celebrar a exuberância formal das esculturas ou desvendar o seu significado, “Horror Vacui” convida a pensar o excesso como condição humana: uma tentativa incessante de preencher o vazio com narrativas, símbolos e corpos, sabendo de antemão que nenhum deles será capaz de o apagar.

quarta-feira, 5 de novembro de 2025

EXPOSIÇÃO DE PINTURA E DESENHO: “Francisco Relógio - Pinturas e Desenhos Inconjuntos 1955-1997”



EXPOSIÇÃO DE PINTURA E DESENHO: “Francisco Relógio - Pinturas e Desenhos Inconjuntos 1955-1997”,
de Francisco Relógio
Curadoria | Nuno Faria
Centro de Arte Oliva, São João da Madeira
24 Out 2025 > 11 Jan 2026


Natural de Vila Verde de Ficalho, no Alentejo, Francisco Relógio (1926–1997) construiu uma trajectória singular na arte portuguesa da segunda metade do século XX. Formado na Escola Industrial Fonseca Benevides, em Lisboa, foi um dos participantes nas primeiras Exposições de Artes Plásticas da Fundação Calouste Gulbenkian (1957 e 1961), revelando desde cedo uma voz própria. A sua obra inicial, de raiz neo-realista, afirmava um compromisso social e humano, mas Relógio rapidamente ultrapassou essa matriz, abrindo espaço a uma linguagem de maior liberdade formal. A figura humana — e em particular a mulher — assume um papel simbólico e poético, mais próximo da metáfora do que da descrição. O desenho, rigoroso e expressivo, torna-se o eixo da sua prática, estruturando composições que aliam densidade gráfica e lirismo visual. Esta evolução, entre o realismo e a geometrização, reflete a busca incessante de um equilíbrio entre o impulso figurativo e a experimentação plástica, definindo a autonomia estética que marca toda a sua carreira.

Relógio foi um artista em permanente reinvenção. Entre o abstraccionismo e a figuração, o realismo mágico e o fulgor Pop, soube integrar referências internacionais sem abdicar da sua identidade visual. O seu trabalho estendeu-se a múltiplas linguagens — pintura, desenho, cerâmica, cenografia e azulejaria — com intervenções emblemáticas em edifícios e espaços públicos. Ao invés de traduzir dispersão, essa pluralidade reflecte uma compreensão ampla da arte como território de encontro entre forma, matéria e vivência colectiva. Entre o rigor e o afecto, a sua obra manifesta uma rara coerência: nela a experimentação convive com a serenidade, e a cor, o traço e o espaço dialogam numa gramática visual de intensa humanidade. Profundamente ligado à cultura popular, Relógio valorizava o diálogo e o trabalho partilhado: o regresso a Vila Verde de Ficalho, onde fundou uma comunidade artística ainda activa, é demonstrativo da importância que atribuía à troca e à continuidade.

A exposição “Pinturas e Desenhos Inconjuntos”, apresentada em S. João da Madeira, depois de Serpa e Almada, procura oferecer um olhar abrangente sobre a vida e a obra de Francisco Relógio, reinscrevendo-o com clareza no panorama da arte portuguesa do século XX. Mais do que uma homenagem, esta mostra propõe um reencontro com um criador que soube conciliar o gesto intuitivo com a construção rigorosa, a dimensão simbólica com a presença do real. A parceria entre os municípios envolvidos traduz um compromisso de valorização do património artístico nacional e de difusão de uma obra que permanece actual pela sua coerência e diversidade. Ao revelar a consistência e a singularidade do seu percurso artístico, a exposição convida o público a revisitar um universo plástico de profunda sensibilidade e equilíbrio, onde a forma é sempre expressão de pensamento. Em Francisco Relógio, a arte surge como espaço de liberdade e de pertença — um território em que o humano se faz imagem e memória partilhada.

quarta-feira, 16 de julho de 2025

EXPOSIÇÃO: “O Arquipélago que Ressoa” | Fernando José Pereira



EXPOSIÇÃO: “O Arquipélago que Ressoa”,
de Fernando José Pereira
Curadoria | Andreia Magalhães
Centro de Arte Oliva
04 Jul > 12 Out 2025


Duas obras, separadas por 28 anos, balizam o intervalo temporal da exposição “O Arquipélago que Ressoa”. A mais antiga, de 1997, “A Utopia do Exílio”, foi realizada a partir de um facto: a permanência, há então 15 anos, no corredor da morte do militante negro Mumia Abu ‑Jamal (membro dos Black Panthers). Hoje, passados 28 anos, continua preso. Já são 43 anos. A mais recente, de Maio deste ano, “Os silêncios escondidos”, é especial já que o ano que estamos a viver confronta ‑nos, ao vivo e a cores, com algo com que nunca tínhamos presenciado: o genocídio de um povo. Do povo palestiniano. Daí que a obra se insinue como uma espécie de um marcador triste do tempo. Deste tempo da exposição; deste tempo quase sem tempo; deste tempo em que a instantaneidade nos permite assistir ao inimaginável. À indignidade com que convivemos diariamente, ao silêncio comprometido que carrega consigo a Nakba que não queremos ver. Um espectro que não nos deixará nunca.

No filme “O Olhar de Ulisses”, de Theo Angelopoulos, há uma cena fulcral em que o ecrã permanece completamente branco durante vários minutos, ouvindo ‑se apenas sons. As imagens revelam uma camada densa de nevoeiro sobre Sarajevo, durante o cerco na guerra dos anos 90 do século passado. Os sons que se escutam são de metralha, que, adivinhamos pelas cenas anteriores, correspondem a um fuzilamento colectivo. Mais à frente, ainda sob o manto de nevoeiro, ouvem ‑se os sons de uma orquestra a tocar. Diz um dos músicos que o nevoeiro assim o permite, pois os atiradores furtivos nada conseguem ver. Estas duas polaridades da realidade – a violência e a morte, mas também a esperança e a resistência – são eixos centrais da construção desta exposição. Os vapores brancos que sobem do interior da natureza islandesa num dos vídeos da exposição, confrontam‑se com o negro do carvão e da grafite dos muitos desenhos presentes. Uma dualidade que transcende o cromatismo da realidade: o branco e o negro como metáforas do presente.

Há já alguns anos foi lançado um álbum da compositora francesa Éliane Radigue. Intitula‑‑se “L’Île re‑sonante”. Também há algum tempo, o texto curatorial da Trienal de Londres afirmava que um arquipélago é um conjunto de ilhas unido por aquilo que as separa. Fragmentos, portanto. Esta exposição intitula ‑se, por isso, o arquipélago que ressoa. Trata‑se de uma mostra constituída por uma selecção de obras – também elas dispersas no tempo e no espaço – todas realizadas num determinado momento e em circunstâncias precisas. Um tríptico apresenta ‑se, no seu negro carregado pelo carvão que o compõe, como uma espécie de “statement”. Afirma: “No neutral options”. Tinha razão Nanni Moretti, no seu filme “Santiago, Itália”, quando, na única cena em que aparece, se dirige a um militar preso após a queda da ditadura de Pinochet – um homem que tenta agarrar‑se a ele para justificar a sua detenção. Moretti apenas diz: “Mas eu não sou imparcial” – e sai de cena. Fiquemos com o seu exemplo e com a força da sua frase. Parece pouco, mas não é. Nem sequer é um parecer. É.

[Extraído do texto de Fernando José Pereira que acompanha a Folha de Sala da exposição, em https://centrodearteoliva.pt/wp-content/uploads/2025/06/07-03-folha-de-sala-A4-digital.pdf]

sábado, 12 de julho de 2025

EXPOSIÇÃO: "Espírito Singular" | Colecção Treger Saint Silvestre



EXPOSIÇÃO: “Espírito Singular”
Obras da Colecção Treger Saint Silvestre
Curadoria | Martine Lusardy
Centro de Arte Oliva
16 Mai > 12 Out 2025


Sediada desde 2014 no Centro de Arte Oliva, a Colecção Treger Saint Silvestre – uma das mais importantes colecções de Arte Bruta e Arte Singular do mundo – continua a ser fonte inesgotável de abordagens nos mais variados contextos: Artísticos, conceptuais, filosóficos e outros. “Espírito Singular”, com curadoria de Martine Lusardy, é disto um sólido exemplo, ao reunir um vasto conjunto de obras que se destacam por desafiar as convenções, escapar aos códigos estabelecidos e oferecer leituras inovadoras e modos alternativos de nomear a realidade. Para além dos autores tradicionalmente associados aos momentos fundadores da Arte Bruta, a exposição integra também artistas e práticas provenientes de contextos mais recentes e variados, ampliando o entendimento deste universo artístico. Uma parte significativa da exposição, apresentada num espaço dedicado, reúne obras fotográficas, fotomontagens e colagens criadas por indivíduos que trabalham fora dos circuitos artísticos convencionais, muitas vezes em contextos de confinamento ou isolamento social.

A exposição “Espírito Singular” é representativa da paixão que Richard Treger e António Saint Silvestre nutrem pela Arte Bruta. É inegável que a ligação pessoal dos fundadores à criação artística e às suas raízes africanas — o Zimbabué, no caso de Richard, pianista, e Moçambique, no de António, escultor — influenciou a sua abordagem a este território artístico e moldou a sua perspectiva sobre estas produções, nascidas da alteridade social ou mental. Se existe uma ligação entre elas, não é a de um estilo escolar ou de um movimento específico da arte cultural, mas antes a de uma família original: o instinto criador. Estes artistas desenham, pintam, esculpem, acumulam objectos rejeitados ou recolhem da natureza traços e impressões, que depois recompõem, colam e fotografam. São exploradores de linguagens arcaicas ou ilusionistas que transformam matéria bruta, experimentadores primitivos ou mestres da “grande arte”, e até artistas profissionais libertários que se dedicam a reparar o mundo ou a torná-lo mais habitável.

Mais do que integrar-se nas normas estéticas e sociais, estes criadores escolhem a liberdade dos caminhos inusitados. Através das suas obras, dão voz à humanidade com as suas paixões, angústias, certezas, loucuras, sonhos e revoltas. Longe de repetir o que já foi feito, as suas criações, repletas de excessos mas também de poesia, são espaços de teatro íntimo, transmissores de mitologias individuais onde a angústia da morte não exclui a alegria de viver, especialmente quando o que está em jogo é reagir à condição humana inaceitável. A colecção convida-nos a mergulhar na magia de um outro mundo — ao mesmo tempo familiar e desconhecido — onde se celebram as núpcias entre arte e loucura, vida e morte, onde se entrelaçam a passagem da origem à cultura, do íntimo ao universal. Um mundo sem o qual o poder do imaginário e do simbolismo se perderia para sempre, e a descoberta de novos horizontes se tornaria impossível.

[Baseado no texto de Martine Lusardy, inscrito na Folha de Sala da exposição, em https://centrodearteoliva.pt/wp-content/uploads/2025/05/2024-CAO-7-Exp-Espirito-Singular-Folha-de-Sala-04-AF.pdf]

sábado, 13 de julho de 2024

EXPOSIÇÃO: “Portugal Ano Zero: Livros de Fotografia da Revolução”



EXPOSIÇÃO: “Portugal Ano Zero: Livros de Fotografia da Revolução”
Vários Artistas
Curadoria | José Luís Neves, Luís Pinto Nunes, Susana Lourenço Marques
Centro de Arte Oliva
28 Jun > 15 set 2024


“Portugal Ano Zero: Livros de Fotografia da Revolução” reúne uma extensa e inédita selecção de livros com trabalho de fotógrafos portugueses e estrangeiros, provenientes de diversas colecções privadas e públicas, nacionais e internacionais. Revelando a efervescente prática editorial que se desenvolveu no pós 25 de Abril de 1974, trata-se de uma perspectiva histórica abrangente deste período, que vai dos primeiros manifestos na denominada “small press” às apropriações contemporâneas, experimentadas por exemplo por Alexandre Estrela em “Merda” (2006). O núcleo central da exposição é composto por livros que — a par de fotografias e filmes como o “Portugiesischer Frühling” [“Primavera Portuguesa”], de 1975, da cineasta alemã Sabine Katins — percorrem os diversos momentos da revolução, as movimentações contra-revolucionárias que emergiram durante este período, a documentação recorrente de práticas de arte de rua e protesto, o processo da reforma agrária e o papel da mulher nos primeiros anos da revolução.

Uma especial atenção é dada aos fotógrafos internacionais que visitaram o país e que realizaram livros, zines e jornais sobre este período e contexto, como Jochen Moll (“Grândola: Reportagen aus Portugal”, 1976), Guy Le Querrec (“Portugal 1974-1975: Regards sur une tentative de pouvoir populaire”, 1979), Tano D'Amico (“Ombre Rosse”, 1975) ou Jason Lauré (“Jovem Portugal After The Revolution”, 1977), entre outros. Partindo do idealismo e da turbulência política da fase inicial da revolução, a exposição retrata também o desvanecimento do sonho revolucionário e a adaptação gradual da sociedade civil, culminando numa nova fase da vida democrática em Portugal. Destacam-se, nomeadamente, trabalhos como a foto-novela “Iberische Idylle” [Idílio Ibérico], realizada por Bart Sorgedrager, em 1985, publicada na revista portuguesa “Crónica Feminina” um ano depois.

A este conjunto de imagens da segunda metade do século XX, juntam-se obras de autores portugueses que desenvolvem o seu trabalho a partir da seleção dos livros expostos, como o trabalho de Pedro Augusto sobre o livro/ vinil “Uma Certa Maneira de Cantar” (1977), as fotografias de Dinis Santos sobre a série de calendários das “Casas Clandestinas” (1994), do Partido Comunista Português, assim como a obra de Tiago Madaleno, com base no documentário da BBC sobre Portugal: “White wall in Alentejo” (1977). Destaca-se a interacção da obra de Lisa Santos Silva, “A cabra não é cega” (1976), que participa na Alternativa Zero (1977) e das fotomontagens no livro “Revolução e Mulheres”, 1976 de Maria Velho da Costa. “Portugal Ano Zero” é um dos 45 projetos apoiados pelo programa Arte pela Democracia, uma iniciativa da Comissão Comemorativa 50 anos 25 de Abril em parceria com a Direcção-Geral das Artes.

[Texto extraído da Folha de Sala da exposição]

segunda-feira, 8 de julho de 2024

EXPOSIÇÃO: "Mutantes"



EXPOSIÇÃO: “Mutantes”
Vários Artistas
Colecção Treger Saint Silvestre
Curadoria | Andreia Magalhães
Centro de Arte Oliva
28 Jun 2024 > 27 Abr 2025


A Colecção de Arte Bruta –Treger Saint Silvestre, em depósito no Centro de Arte Oliva, é um manancial inesgotável de surpresa e fascínio. Independentemente dos ângulos sob os quais possam ser observadas, as cerca de mil e quinhentas obras de mais de trezentos e cinquenta artistas que nela se reúnem congregam princípios e valores que as ligam entre si e as tornam atractivas de um ponto de vista artístico e humano. Com curadoria de Andreia Magalhães, “Mutantes” volta a impressionar pela forma como aborda a colecção, reunindo animais, plantas e seres orgânicos imaginários que se abrem em mistério e sedução ao olhar do visitante. Rãs com asas, dragões, sereias, criaturas dançantes, policéfalas e híbridas, animais-camuflagem e metamorfoses botânicas, são espécies de um outro mundo que agora habitam o Centro de Arte Oliva. Neste “mundo natural” psicadélico e ficcionado, com entes saídos de fábulas, mitos e visões mágicas, é-nos apresentada uma ecologia alternativa que nos faz pensar sobre a nossa própria condição de seres vivos.

“Porquê Olhar os Animais?”, o ensaio que dá título a uma reunião de textos de John Berger, reflete sobre a degradação da nossa relação com a natureza. Em particular, fala-nos sobre a redução dos animais — outrora centrais e não separados da existência humana — à categoria de espectáculo ou produto de consumo, relembrando-nos de como, no passado, “os animais entraram na nossa imaginação como mensageiros e promessas”. Ainda mantemos espécies de estimação e visitamos jardins zoológicos, mas “o olhar entre o animal e o homem, que possivelmente teve um papel crucial no desenvolvimento da sociedade humana, e com o qual, em todo caso, todo ser humano convivia até um século atrás, extinguiu-se”. Este foi o ponto de partida para “Mutantes”, que se expandiu naturalmente para incluir a botânica imaginária. “Sopa Primordial”, “Casulos e Metamorfoses”, “Voadores e Flutuantes”, “Outros Mundos” ou “Formas de Vida Interligadas”, são apenas alguns núcleos onde se abrigam trabalhos, alguns deles sobejamente conhecidos, de artistas como Guo Fengyi, Jaber, Moset, Johann Garber ou Anna Zemánková.

A percepção deriva, sem se fixar, muda. Também fala e não está garantida que sejam as nossas vozes que se ouvem. Dado o tema – o da mutação – importa entrar no jogo das variações, do tornar-se isto e aquilo, no “sem nome”, no curioso, no estranho, no trânsito das formas. Durante a permanência da exposição, decorre a instalação no espaço do projecto “As Sementes Discordantes de Coisas Desconexas”, que funciona como um laboratório que abrange um diversificado programa de actividades públicas. O motivo certo para o acto criativo no seu momento caótico, em formação, onde as sementes discordam dos reinos, das classes e das ordens. Que a natureza, se é dela que falamos, tenha ocupado na história da representação a posição de fundo, desconhecida, indiferente, outra, justificada pela figura, sempre humana, durante “Mutantes”, nas ações de mediação, entra-se no ciclo das metamorfoses: passar aquele fundo a figura, seguindo as pistas que as criaturas de “Mutantes” nos deixam, indícios das zonas de risco e do perigar da imaginação que abre caminho para a imprevisibilidade dos encontros e dos processos.

[Texto baseado na Folha de Sala da exposição]

sábado, 6 de julho de 2024

EXPOSIÇÃO: "Elevador da Glória"



EXPOSIÇÃO: “Elevador da Glória”
Vários Artistas
Colecção Norlinda e José Lima
Curadoria | Helena Mendes Pereira
Centro de Arte Oliva
17 Mai > 31 Dez 2024


“Elevador da Glória” é uma homenagem e uma reflexão sobre a geração nascida no pós-25 de Abril de 1974 e, sobretudo, na década de 1980, consubstanciada por um conjunto de artistas-cidadãos que vive uma condição espácio-temporal em que a mentira da meritocracia foi desvendada e o elevador social não existe. Partindo da diversidade e da riqueza da colecção Norlinda e José Lima que, coincidentemente, começa a constituir-se na década de 1980, é feita uma seleção de artistas portugueses ou residentes em Portugal, que podemos considerar como filhos da Liberdade. Inês d’Orey, André Cepeda, Vasco Araújo, Mariana Gomes, João Pedro Vale, Flávia Vieira, Maria Condado, Carlos Noronha Feio, Gil Madeira e Diana Policarpo, entre outros, constituem-se como o corpo autoral da exposição que se organiza na articulação entre os conceitos de euforia, entropia, fragmento e hibridez, partindo da consciência de que os artistas antecipam, sempre, o porvir.

No caso português, a década de 1980, sobretudo a segunda metade e após a entrada na CEE, inscreve-se na memória colectiva como um tempo de grande entusiasmo, com um apelo muito forte ao consumo e com a perspectiva de que o futuro seria promissor. Depois de um período pós-revolucionário de (re)construção, segue-se uma fase de expansão e até de extravasamento. A energia reflete-se na produção artística, especialmente na música, mas também na moda, dominada pelo kitsch, pelos chumaços ou pelos bigodes. A música, “O Elevador da Glória”, lançada pelos Rádio Macau em 1987, é detentora deste espírito, constituindo-se como uma metáfora ao elevador social que, à época, parecia uma realidade ao alcance de todos.

Esta é a geração dos pais da maior parte daqueles que nasceram depois do 25 de abril de 1974, e que entraram na vida adulta e no mercado de trabalho já no século XXI, no novo milénio, assistindo a um mundo em tensão, num confronto cultural e político entre ocidente-oriente, ultrapassando a terrível crise financeira de 2008 e um conjunto de outras contingências que, não obstante se tratar de uma geração com um nível de formação académica superior à dos seus pais, é mantida num impasse e no precipício da esperança. Esta é a geração que sentiu e sente a precariedade laboral, as dificuldades da habitação, que adiou a emancipação e a parentalidade, que assiste a uma nova ascensão da extrema-direita, o que contrasta com um tempo de conquista de direitos, liberdades e garantias e que se vê dependente da digitalização do mundo e presa num tempo fragmentado em que, como nunca, mas com início na tal década de 1980, ter é mais relevante do que ser. Esta geração está a surfar a curva da História e a mudança de paradigma que marca o nosso tempo e espaço global, de forma consciente e simbólica, a partir da tragédia de 11 de setembro de 2001.

Elevador da Glória é também uma visão da coleção Norlinda e José Lima como um contexto de oportunidade e de atenção a diferentes gerações de artistas, tendo sido preocupação apresentar obras menos vistas ou inéditas que evidenciem a acção mecenática dos coleccionadores.


sexta-feira, 5 de abril de 2024

EXPOSIÇÃO: “Für, Fur, Fur, Fúria de Viver”



EXPOSIÇÃO: “Für, Fur, Fur, Fúria de Viver”,
de Renato Ferrão
Curadoria | Andreia Magalhães
Centro de Arte Oliva 
26 Jan > 07 Abr 2024


“Für, Fur, Fur, Fúria de Viver” é, até à data a maior exposição de Renato Ferrão, congregando projetos criados entre 2007 e 2024. Ao mesmo tempo que oferece uma panorâmica do percurso do artista, iniciado há cerca de 25 anos, a mostra apresenta a criação de novo trabalho produzido neste contexto. O trabalho de Ferrão é sobretudo constituído por projectos concebidos para as exposições, onde habitualmente apresenta apenas uma obra, geralmente instalações formadas por vários componentes, objectos e imagens, ou por um conjunto de obras relacionados entre si, subordinadas a uma mesma ideia. Como tal não é habitual podermos rever as suas obras anteriormente expostas, mas é possível entre projectos perceber como é que muitas obras vão dando origem às seguintes. Algumas das imagens, das ideias e processos vão sendo assimiladas, transformadas e ressurgem noutros projetos. É neste fluxo que o seu trabalho se tem desenvolvido, sendo na presente exposição possível ver uma trajetória marcada por fases distintas, mas entre as quais se estabelecem estas relações de transmutação.

Uma parte significativa das esculturas que Renato Ferrão realizou até 2010 integra objetos quotidianos projetados no espaço: pratos, cadeiras, candeeiros e móveis de grandes dimensões são suspensos por intermédio de elásticos e cabos extensores, explorando fenómenos de tensão que desafiam as leis da gravidade, reagindo e agindo sobre os lugares de exposição. É o caso de “alguns momentos paralisam forças #1”, que aqui tem uma versão diferente da originalmente apresentada na exposição “Emissores reunidos: Senhor fantasma, vamos falar” (Fundação de Serralves, Porto, 2009), então formada por duas secretárias instaladas em salas distintas. Esta perceção de paralisação do tempo e do movimento viria a alterar-se com a criação de esculturas cinéticas com movimentos internos, também realizadas a partir de materiais recuperados e motores, mantendo essa ideia de tensão e de ancoramento das esculturas no espaço através de ligações de fios e cabos, como se pode ver na peça central de “Peças de substituição”, para esta exposição integrada numa jaula de metal.

É também nesta fase que começa a trabalhar mais com a matriz de imagens, com as placas tipográficas encontradas, e com as quais experimenta processos de impressão, replicação, erro, distorção e desaparecimento. Em simultâneo, a imagem projetada começou a ganhar crescente expressão na sua obra, inicialmente obtida com recurso a efeitos de luz, lâmpadas e lentes, em associação com materiais encontrados, como o saco de batatas fritas ou a garrafa de whisky que projetam imagens ilusórias e abstractas. Posteriormente começou a construir projetores em caixas de madeira que acomodam sistemas mecânicos e elétricos, lentes e imagens fotográficas, muitas vezes apropriadas ou decorrentes de registos fotográficos que documentam idiossincrasias da cidade onde habita. As imagens que o interessam são muitas vezes populares ou vernaculares, fotografadas a partir da televisão, personagens de banda desenhada, imagens kitsch, pinturas ou calendários em cafés e bares, e todo o tipo de existências marginais a olhares mais desatentos, como por exemplo a “aldeia de gatos”, um aglomerado de construções feitas por pessoas para abrigo dos gatos de rua.

Para esta exposição Renato Ferrão criou várias obras, que estão relacionadas com a principal instalação, intitulada “Fúria de viver”, à qual o título da exposição alude, e que por sua vez recupera o título de um filme de Nicholas Ray. A obra retrata um dia na cidade, desde o amanhecer até ao anoitecer, na vida do seu personagem principal, e nela ensaiam-se novas formas de trabalhar a sequenciação e apreensão dos vários planos. “Fúria de viver” relaciona-se com processos iniciados em “Estudo das passagens”, onde começou a criar obras de natureza narrativa. Renato Ferrão estudou escultura na FBAUP. Foi um dos artistas fundadores do Salão Olímpico juntamente com Carla Filipe, Eduardo Matos, Isabel Ribeiro e Rui Ribeiro. Expõe regularmente desde 1998, destacando-se os projetos de exposição realizados em espaços independentes como Sismógrafo (Porto) e institucionais, como Serralves, Museu da Eletricidade, Galeria Municipal do Porto, Culturgest e Anozero, Bienal de Arte Contemporânea de Coimbra. Em 2011, recebeu o Prémio de Artes Plásticas União Latina e, em 2020, foi nomeado para o Prémio Amadeo Souza Cardoso. Está representado na coleção da Fundação de Serralves, na Câmara Municipal do Porto e coleção de Arte Contemporânea do Estado.


segunda-feira, 6 de novembro de 2023

EXPOSIÇÃO: "A Revolução na Noite"


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EXPOSIÇÃO: “A Revolução na Noite”
Arte moderna, Arte contemporânea e Arte bruta e outsider, vários artistas
Curadoria | Ana Anacleto
Centro de Arte Oliva
21 Out 2023 > 12 Mai 2024


Cumprida uma década sobre a abertura ao público, o Centro de Arte Oliva assinala a efeméride com “A Revolução na Noite”, uma extraordinária exposição onde são mostradas obras pertencentes a três colecções de arte com características e enquadramentos distintos: a Colecção de Arte Moderna e Contemporânea Norlinda e José Lima, a Colecção de Arte Moderna e Contemporânea da Coleção Millennium bcp e a Colecção de Arte bruta e outsider Treger Saint Silvestre. Com características e enquadramentos distintos, as obras obedecem a uma criteriosa escolha que tem por base a publicação do “Primeiro Manifesto Surrealista” de André Breton, ao mesmo tempo que se assinala o centenário do nascimento de Cesariny. Curiosidade, descoberta e possibilidade são eixos que o olhar curatorial pretendeu valorizar, atento ao poder da imaginação e entregando-se à “criação de uma narrativa aberta e livre, simultaneamente propiciatória de desdobramentos em pequenas teias de narrativas singulares.”

Atravessando um arco temporal amplamente alargado – pondo mesmo de parte a ideia de uma cronologia com limites definidos – e evitando enquadramentos históricos rígidos ou academicamente firmados, “A Revolução na Noite” propõe-se a uma análise do gesto surrealista e dos ecos do seu ideário, através de sucessivos movimentos de avanço, de paragem e de recuo, privilegiando as possibilidades de relação dialógica entre obras, períodos, géneros e gerações. Ao longo de um percurso sinalizado de A a Y, o visitante depara-se com um vasto conjunto de obras de quase cento e vinte artistas, portugueses e estrangeiros, dispostas intencionalmente de forma a proporcionar diálogos entre cada uma delas. A proposta resulta num exercício fascinante, as barreiras de género e de estilo esbatidas, a busca da verdade que se esconde na arte a irmanar obras supostamente distintas e afinal tão próximas.

O exercício de cruzar os trabalhos de Eduardo Nery e Jorge Molder, Paula Rego e Nancy Spero, Graça Morais e Rosa Ramalho ou Jorge Barradas e Anna Zemánková pode ser mais frutuoso do que passar tardes e tardes em museus e galerias em busca daquilo que talvez nem nós próprios saibamos. Independentemente da qualidade das obras expostas, do papel que ocupam na história da Arte e da importância dos nomes em questão, é todo um manancial de possibilidades que se abre ao olhar do visitante, num convite à livre interpretação das narrativas que os vários conjuntos encerram. Há, naturalmente, um trabalho curatorial extraordinariamente apurado, um primor de sensibilidade de alguém que se preocupou em preparar uma exposição a pensar naquilo que, enquanto visitante, gostaria de poder apreciar. Cindy Sherman e Nan Goldin não surgem naquela parede por acaso, da mesma forma que não é aleatória a disposição de um Almada na mesma “sala” onde encontramos um Picasso. Ide ver e dizei-me alguma coisa. O melhor é ir já, porque a vontade de lá voltar vai surgir naturalmente e, depois, pode já ser tarde.

quinta-feira, 2 de novembro de 2023

EXPOSIÇÃO: "Escuridão Flamejante"



EXPOSIÇÃO: “Escuridão Flamejante”,
de Gaëlle Rouard
Curadoria | Andreia Magalhães
Centro de Arte Oliva
07 Jul > 19 Nov 2023


No Centro de Arte Oliva, está patente ao público uma exposição absolutamente imperdível. Intitula-se “Escuridão Flamejante” e ocupa duas salas do piso superior, numa das quais se mostra um vasto conjunto de fotogramas, colecção da artista, e na outra “Darkness, Darkness, Burning Bright”, filme de 2022 processado manualmente. Um díptico-instalação que surge da conversão do seu maior projecto até à data e que resulta numa nova abordagem da sua obra. Começando pelos fotogramas, eles constituem uma faceta menos conhecida da produção artística de Gaëlle Rouard e surgem em exposição agrupados por géneros, das plantas aos insectos, das rochas aos répteis ou aos mamíferos. Realizadas ao longo dos últimos três anos, estas imagens são criadas a partir da exposição de objectos e elementos naturais à luz e emulsões químicas, sendo algumas posteriormente intervencionadas com pintura e colagem. O resultado é de uma extraordinária beleza, cada fotograma um objecto delicado e sensível que bebemos com o olhar e pelo qual nos apaixonamos.

Feito de vastos caminhos floridos, ramos frescos, bosques cheios de perfumes, vozes dos pássaros e sussurros do vento, “Darkness, Darkness, Burning Bright” tem para oferecer ao espectador uma paisagem nocturna e crepuscular, onde animais e vegetação emanam luzes iridescentes. Três anos de captação, processamento e edição foi o tempo necessário para a finalização do filme, a que se somaram nove meses para a criação do som. Cada plano do filme  é cuidadosamente composto e resulta da combinação de imagens fixas com imagens em movimento, tendo sido já descrito como uma sucessão de quadros vivos onde os efeitos visuais, de acordo com as palavras de Maximilien Luc Proctor, “conferem uma luminosidade alienígena ao mundo natural”. Filmado em 16 mm e convertido posteriormente para vídeo, o filme divide-se em dois atos - “Prelude” e “Oraison” - e tem uma duração de trinta e nove minutos.

Cineasta e artista visual, Gaëlle Rouard tem vindo a realizar filmes desde 1991 e é uma autora reconhecida do cinema experimental europeu. A sua obra é marcada pela criação e exploração de vários métodos de processamento químico de película, criação de bandas sonoras e pelas suas performances ao vivo de projecção. “Darkness, Darkness, Burning Bright” é o seu último filme e estreou no Festival de Roterdão, tendo arrecadado o prémio do Istambul International Film Festival, o prémio da Competição Experimental do Curtas de Vila do Conde 2022 e o Best Sound Design do Ann Arbor Film Festival, em 2023. Curadora da exposição, Andreia Magalhães tem desenvolvido a sua atividade profissional nas áreas da gestão de coleções, programação e produção de exposições. Em Portugal, trabalhou no Museu da Faculdade de Belas Artes, no Museu Nacional de Soares dos Reis e no Museu de Arte Contemporânea de Serralves. Fora do país trabalhou, entre outros, no Museu Nacional Centro de Arte Reina Sofia, no Museu de Arte Moderna de Nova Iorque e no Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo. Desde 2017 é directora artística do Centro de Arte Oliva.

quinta-feira, 1 de junho de 2023

EXPOSIÇÃO: "Teatro Anatómico"


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EXPOSIÇÃO: “Teatro Anatómico”,
a partir da Coleção Treger Saint Silvestre
Curadoria | João Sousa Cardoso
Centro de Arte Oliva
04 Mar > 31 Dez 2023


Em depósito de longo prazo no Centro de Arte Oliva desde 2014, a Colecção de arte bruta / outsider “Treger Saint Silvestre” é uma das mais relevantes coleções a nível europeu. Constituída por, aproximadamente, mil e quinhentas obras de trezentos e cinquenta artistas, reflecte a evolução de diferentes momentos históricos e ramificações das artes marginais aos circuitos do sistema artístico estabelecido, desde os clássicos da Arte Bruta à Arte Outsider e suas variantes. A coleção distingue-se pela enorme amplitude cronológica, demarcada por artistas nascidos em finais do século XIX até autores ativos na atualidade, diferenciando-se também pela alargada representatividade geográfica, que abrange os tradicionais “centros da arte bruta” da Europa Ocidental e América do Norte, expandindo-se a artistas oriundos de África, Ásia, Europa e América Latina Central, com destaque para a diversidade de artistas portugueses e brasileiros.

Apresentada através de um programa contínuo de exposições temporárias, a Colecção Treger Saint Silvestre volta a ser alvo de uma revisitação, desta vez pelo olhar atento de João Sousa Cardoso. O mesmo rigor, conhecimento e sensibilidade artística que o levou a encenar “A Ronda da Noite” de Agustina Bessa-Luís, na Fundação Calouste Gulbenkian (2022) e “Sequências Narrativas Completas”, no Teatro Nacional D. Maria II (2019) ou a dirigir o “Teatro Expandido!” (2015) no Teatro Municipal do Porto, é posto agora ao serviço desta exposição, numa criação “site-specific” onde a dramatização dos corpos, dos objetos e das presenças, dialoga com a tradição do teatro. Ao visitante oferece-se um espaço extraordinariamente concebido, que convida à deambulação, à apreciação detalhada de cada uma das peças, à sua observação dos mais variados ângulos. Se o quisermos, à sua dissecção.

Inspirada no Teatro Anatómico de Pádua – o primeiro teatro anatómico permanente do mundo, inaugurado em 1595, exemplo do progresso científico no estudo da anatomia e modelo para os teatros anatómicos nas principais universidades da Europa –, que Goethe visitou e admirou na sua viagem a Itália, a mostra propõe a reflexão sobre uma colecção complexa, sinuosa e orgânica, desalinhada do campo da arte contemporânea, que tanto nos oferece um desenho de René Bértholo ou Alireza Maleki, como a fotografia de Albert Moser ou Tomasz Machcinsky, a pintura de Josef Wittlich, a escultura de Jean-Jules Chasse-Pôt ou a assemblagem de Marc Giai-Miniet, misturando-os com os trabalhos de três artistas convidados, André Sousa, Fernão Cruz e Horácio Frutuoso. Ao mesmo tempo, “Teatro Anatómico” convida a uma experiência local dos sentidos que implica os corpos e a materialidade das imagens, no tempo da economia virtual. E, num gesto político, a pensarmos a crueldade capaz de suspender os ciclos da barbárie.

domingo, 16 de janeiro de 2022

EXPOSIÇÃO: "O Efeito do Observador"



EXPOSIÇÃO: “O Efeito do Observador”
Vários artistas
Centro de Arte Oliva, São João da Madeira
19 Jun 2021 > 13 Fev


Concebida a partir da Colecção Norlinda e José Lima, a exposição parte das obras catalogadas no respectivo acervo como “fotografias”, a fim de as relacionar com outras obras de distintas categorias – vídeo, instalação, pintura ou desenho – e com as quais partilha a temática da invocação, directa ou indirectamente, dos mecanismos de percepção humana e da observação atenta do mundo. Com curadoria de Pablo Berástegui Lozano, a mostra reúne trabalhos de Albano da Silva Pereira, Ângela Ferreira, Chus García Fraile, Daniel Blaufuks, Gabriel Abrantes, Helena Almeida, Joan Fontcuberta, Joseph Beuys, Marta María Pérez Bravo, Massimo Vitali, Milagros de la Torre, Noé Sendas, Paulo Nozolino, Pedro Cabrita Reis, Sophie Calle, Thomas Struth, Valter Vinagre e Vik Muniz, entre muitos outros.

O projeto inspira-se no designado “Observer’s effect” [Efeito do Observador] da física quântica que mede as alterações que o acto de observar tem sobre os objectos contemplados: “uma mente consciente pode afectar diretamente a realidade”. Considerando esta premissa, a selecção de obras reunidas nesta mostra pretende verificar, a partir de diferentes aproximações, se o nosso olhar pode transformar o mundo. Ou não. Entre a luz e a escuridão, a contemplação e a inconsciência, a entropia e a ordem, a pintura e as imagens fotográficas, fixas ou em movimento, digitais ou analógicas, esta exposição oferece uma reflexão sobre como olhamos para construir uma leitura da colecção que transcende os limites entre disciplinas e, na qual, os espectadores são chamados a exercer a sua acuidade visual.

Pablo Berástegui Lozano (Pamplona, 1968) vive e trabalha em Portugal e Espanha. Desenvolveu uma sólida carreira de 20 anos como produtor cultural em diferentes instituições, principalmente em projectos de grande escala. Actualmente é o director do projecto de fotografia documental denominado “Salut au monde!” que iniciou em Fevereiro de 2019 no Porto. Foi Director Geral de San Sebastián 2016 Capital Europeia da Cultura e anteriormente foi responsável pelos espaços culturais da cidade de Madrid como o Matadero Madrid (2008-2012) e o Centro Conde Duque (2013). Foi director do Festival Internacional de Fotografia e Artes Visuais PhotoEspaña entre 2003 e 2006.  É actualmente professor de Planificação e Gestão de Projectos Culturais no curso de Estudos Curatoriais da Universidade de Navarra. Colabora igualmente como consultor em diferentes projectos culturais em Espanha e Portugal.

terça-feira, 11 de janeiro de 2022

EXPOSIÇÃO DE DESENHO: "vi uma cadela minha com lobos" | Jaime



EXPOSIÇÃO DE DESENHO: “vi uma cadela minha com lobos”,
de Jaime
Curadoria | Ângela Magalhães
Centro de Arte Oliva
09 Out 2021 > 20 Mar 2022


Em 1980, a Fundação Gulbenkian apresentou uma exposição monográfica composta por setenta e quatro desenhos do artista Jaime Fernandes. No texto do catálogo produzido para o efeito, da autoria do médico e psicanalista João dos Santos, propunha-se uma contextualização do universo do artista: “Não é uma exposição de desenhos que aqui se mostra. Mostra-se Jaime e o seu mundo visionado através das teias que o limitam. Mostra-se como, segundo os seus escritos, “oito vezes morreu já Jaime” e como oito vezes renasceram nele fantasmas cativos desde a eternidade.” É este universo, com tanto de onírico como de perturbador, que mais de quatro décadas depois reencontramos em “vi uma cadela minha com lobos”, mostra que reúne quarenta e duas obras provenientes de diversas coleções particulares e de instituições nacionais e internacionais, como a Fundação Calouste Gulbenkian e a Collection de l’Art Brut de Lausanne e que se dão a ver, por estes dias, no Centro de Arte Oliva, em São João da Madeira.

Numa espécie de antecâmara do espaço expositivo, há um filme que importa ver. Tome-se o visitante de vagares porque “Jaime”, de António Reis e Margarida Cordeiro, é imperdível. Se, por um lado, estamos perante uma obra seminal da filmografia da dupla de cineastas, uma peça documental que encabeçou o movimento vanguardista do Novo Cinema português, por outro mergulha-nos, com um enorme sentido visual e poético, no universo de Jaime Fernandes, português nascido em 1900, na freguesia do Barco (Covilhã, Beira Baixa) a quem, aos 38 anos, foi diagnosticada esquizofrenia paranóide, levando ao seu internamento no Hospital Miguel Bombarda, onde viria a falecer três décadas depois. Daí que, ao penetrar na sala onde estão expostos os desenhos de Jaime, o visitante bata de frente com a enorme estranheza de estar a ser visto, mais do que estar a ver, a superfície curva onde se perfila a maioria das obras como uma secção do panóptico do “asilo de loucos” para o qual se sente transportado.

Atentando nos desenhos apresentados, são de pequenas dimensões, maioritariamente feitos com esferográficas coloridas sobre papel. Os animais ocupam um espaço importante do universo de Jaime, sendo possível identificar cães, aves, cabras, cobras e outros répteis, a par de criaturas pisciformes, ciclópicas, híbridas. Por outro lado, a figura humana presente nos desenhos de Jaime surge na maioria das vezes sozinha e há nela aspectos que são comuns a quase todos os desenhos em que está presente. São os casos das linhas estáticas do corpo e dos pés de perfil, dos braços erguidos, da forma das cabeças e da linha do cabelo. Estes elementos recorrentes, a par dos automatismos gráficos, como as tramas de linhas e as garatujas que preenchem os fundos, tornam o desenhar propício à dimensão simbólica, enigmática para o observador.

Fazendo um esforço de seguir com o olhar o movimento da mão do artista, quase parece possível perceber aquilo que foi o nascimento do desenho. Percorrendo cada linha, cada traço, ousando imaginar onde principiou, que primeiro toque lhe deu origem, o visitante torna-se cúmplice dos ritmos em trânsito, dos gestos caligráficos, rodopiantes, movimentos que abrem caminhos em todas as direcções e sulcam as linhas do papel. Linhas que se entremeiam camada a camada, fazendo emergir da trama uma superfície plana e profunda, onde figuras e fundo por vezes se confundem, enredados em si mesmos. O efeito é hipnótico, as emoções fluem a ponto de nos sentirmos, nós mesmos enredados nas linhas dos desenhos. Fica claro que a vida de Jaime é indissociável dos seus desenhos, confidentes, talvez, da meada do seu pensamento, feita de fio que ora desprende, ora emaranha. Se olharmos o tempo justo para estes desenhos, é a mão de quem os fez que assoma. E não está parada. Tão pouco silenciosa.