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segunda-feira, 8 de julho de 2024

EXPOSIÇÃO: "Mutantes"



EXPOSIÇÃO: “Mutantes”
Vários Artistas
Colecção Treger Saint Silvestre
Curadoria | Andreia Magalhães
Centro de Arte Oliva
28 Jun 2024 > 27 Abr 2025


A Colecção de Arte Bruta –Treger Saint Silvestre, em depósito no Centro de Arte Oliva, é um manancial inesgotável de surpresa e fascínio. Independentemente dos ângulos sob os quais possam ser observadas, as cerca de mil e quinhentas obras de mais de trezentos e cinquenta artistas que nela se reúnem congregam princípios e valores que as ligam entre si e as tornam atractivas de um ponto de vista artístico e humano. Com curadoria de Andreia Magalhães, “Mutantes” volta a impressionar pela forma como aborda a colecção, reunindo animais, plantas e seres orgânicos imaginários que se abrem em mistério e sedução ao olhar do visitante. Rãs com asas, dragões, sereias, criaturas dançantes, policéfalas e híbridas, animais-camuflagem e metamorfoses botânicas, são espécies de um outro mundo que agora habitam o Centro de Arte Oliva. Neste “mundo natural” psicadélico e ficcionado, com entes saídos de fábulas, mitos e visões mágicas, é-nos apresentada uma ecologia alternativa que nos faz pensar sobre a nossa própria condição de seres vivos.

“Porquê Olhar os Animais?”, o ensaio que dá título a uma reunião de textos de John Berger, reflete sobre a degradação da nossa relação com a natureza. Em particular, fala-nos sobre a redução dos animais — outrora centrais e não separados da existência humana — à categoria de espectáculo ou produto de consumo, relembrando-nos de como, no passado, “os animais entraram na nossa imaginação como mensageiros e promessas”. Ainda mantemos espécies de estimação e visitamos jardins zoológicos, mas “o olhar entre o animal e o homem, que possivelmente teve um papel crucial no desenvolvimento da sociedade humana, e com o qual, em todo caso, todo ser humano convivia até um século atrás, extinguiu-se”. Este foi o ponto de partida para “Mutantes”, que se expandiu naturalmente para incluir a botânica imaginária. “Sopa Primordial”, “Casulos e Metamorfoses”, “Voadores e Flutuantes”, “Outros Mundos” ou “Formas de Vida Interligadas”, são apenas alguns núcleos onde se abrigam trabalhos, alguns deles sobejamente conhecidos, de artistas como Guo Fengyi, Jaber, Moset, Johann Garber ou Anna Zemánková.

A percepção deriva, sem se fixar, muda. Também fala e não está garantida que sejam as nossas vozes que se ouvem. Dado o tema – o da mutação – importa entrar no jogo das variações, do tornar-se isto e aquilo, no “sem nome”, no curioso, no estranho, no trânsito das formas. Durante a permanência da exposição, decorre a instalação no espaço do projecto “As Sementes Discordantes de Coisas Desconexas”, que funciona como um laboratório que abrange um diversificado programa de actividades públicas. O motivo certo para o acto criativo no seu momento caótico, em formação, onde as sementes discordam dos reinos, das classes e das ordens. Que a natureza, se é dela que falamos, tenha ocupado na história da representação a posição de fundo, desconhecida, indiferente, outra, justificada pela figura, sempre humana, durante “Mutantes”, nas ações de mediação, entra-se no ciclo das metamorfoses: passar aquele fundo a figura, seguindo as pistas que as criaturas de “Mutantes” nos deixam, indícios das zonas de risco e do perigar da imaginação que abre caminho para a imprevisibilidade dos encontros e dos processos.

[Texto baseado na Folha de Sala da exposição]

sexta-feira, 6 de outubro de 2023

EXPOSIÇÃO: “Portreto de La Animo Art Brut etc.” 


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EXPOSIÇÃO: “Portreto de La Animo Art Brut etc.”
Colecção Treger Saint-Silvestre
Curadoria | António Saint-Silvestre
Museu Nacional Soares dos Reis
13 Jul > 12 Nov 2023


A primeira vez que visitei o Centro de Arte Oliva constituiu um momento marcante a todos os títulos. Desde logo pela inegável qualidade e valor artístico das obras que integram a Colecção de Arte Moderna e Contemporânea Norlinda e José Lima, mas sobretudo pelo fascínio que me causou a Colecção de Arte Bruta / Outsider Treger Saint-Silvestre, uma das mais importantes do seu género a nível mundial. Revisitar esta última colecção tem sido motivo de deslocação frequente a São João da Madeira e, mais recentemente, ao Porto onde, no Museu Nacional Soares dos Reis, está patente um vasto conjunto de peças provenientes da colecção e que se cruzam com obras congéneres pertencentes ao acervo do museu. É o reencontro com as cidades imaginárias de Carlo Franco Stella, a depuração e simbolismo de Guo Fengyi, o surrealismo de Agatha Wojciechowsky, as figuras antropomórficas de Jaime Fernandes ou a fotografia de Tomasz Machciński, em intenso diálogo com trabalhos de José de Guimarães, Sarah Affonso, Carla Gonçalves, La Mère François ou o escultor José Joaquim Teixeira Lopes, de quem podemos apreciar a máscara mortuária de Soares dos Reis.

Visitar “Portreto de La Animo Art Brut etc” - do esperanto “retrato da alma” - é penetrar num mundo inquietante e deixar-se conduzir por pulsões dificilmente inteligíveis em contextos de normalidade. Ao visitante pede-se mente aberta para abraçar mentes fechadas sobre si próprias, as mais das vezes torturadas, em sofrimento, mas capazes do milagre da criação como forma de se apaziguarem e libertarem. Corpos desproporcionados, membros contorcidos, rostos escarificados, seios pesados, são traços dominantes no conjunto das peças expostas e que, remetendo para o retrato ou o auto-retrato, são a expressão do mundo interior de cada um dos artistas, oferecendo leituras com tanto de estimulante como de perturbador. A leitura das legendas que acompanham cada uma das peças faz com que o léxico da exposição se alargue a termos directamente relacionados com a saúde mental, da bipolaridade à esquizofrenia, das fobias às dependências químicas, dos transtornos obsessivo-compulsivos ao stress pós-traumático. Está aberta a discussão e reflexão sobre saúde mental sugerida pela arte e pelos artistas.

Cunhado por Jean Dubuffet em 1946, o conceito de Arte Bruta tem na razão uma das suas mais importantes fronteiras. Não falo apenas de alterações de ordem psicológica, mas também da marginalização social. Veja-se o caso de Prophet Royal Robertson que, abandonado pela mulher, desenvolveu um delírio obsessivo, mas notavelmente criativo, que o levou a decorar o interior e o exterior da sua casa com desenhos fantasmagóricos denunciando a traição de que foi vítima. No campo do auto-retrato, atente-se nos trabalhos de Josef Hofer, nascido com deficiência mental, dificuldade auditiva e mobilidade reduzida e que só aos 37 anos começou a desenvolver a sua criatividade. Reforçando a ideia do auto-retrato como fonte de cura dos traumas, veja-se o trabalho de Dusan Kusmic, cuja experiência de vida traumática como refugiado num campo de deslocados na Sicília e as suas lutas perante dificuldades de linguagem, pobreza e isolamento social, levaram à criação de trabalhos com diversos materiais, como o papel de parede, objetos encontrados e comida. Motivos não faltam para uma visita ao renovado Soares dos Reis. É obrigatório mergulhar nestes “retratos da alma”.

quinta-feira, 1 de junho de 2023

EXPOSIÇÃO: "Teatro Anatómico"


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EXPOSIÇÃO: “Teatro Anatómico”,
a partir da Coleção Treger Saint Silvestre
Curadoria | João Sousa Cardoso
Centro de Arte Oliva
04 Mar > 31 Dez 2023


Em depósito de longo prazo no Centro de Arte Oliva desde 2014, a Colecção de arte bruta / outsider “Treger Saint Silvestre” é uma das mais relevantes coleções a nível europeu. Constituída por, aproximadamente, mil e quinhentas obras de trezentos e cinquenta artistas, reflecte a evolução de diferentes momentos históricos e ramificações das artes marginais aos circuitos do sistema artístico estabelecido, desde os clássicos da Arte Bruta à Arte Outsider e suas variantes. A coleção distingue-se pela enorme amplitude cronológica, demarcada por artistas nascidos em finais do século XIX até autores ativos na atualidade, diferenciando-se também pela alargada representatividade geográfica, que abrange os tradicionais “centros da arte bruta” da Europa Ocidental e América do Norte, expandindo-se a artistas oriundos de África, Ásia, Europa e América Latina Central, com destaque para a diversidade de artistas portugueses e brasileiros.

Apresentada através de um programa contínuo de exposições temporárias, a Colecção Treger Saint Silvestre volta a ser alvo de uma revisitação, desta vez pelo olhar atento de João Sousa Cardoso. O mesmo rigor, conhecimento e sensibilidade artística que o levou a encenar “A Ronda da Noite” de Agustina Bessa-Luís, na Fundação Calouste Gulbenkian (2022) e “Sequências Narrativas Completas”, no Teatro Nacional D. Maria II (2019) ou a dirigir o “Teatro Expandido!” (2015) no Teatro Municipal do Porto, é posto agora ao serviço desta exposição, numa criação “site-specific” onde a dramatização dos corpos, dos objetos e das presenças, dialoga com a tradição do teatro. Ao visitante oferece-se um espaço extraordinariamente concebido, que convida à deambulação, à apreciação detalhada de cada uma das peças, à sua observação dos mais variados ângulos. Se o quisermos, à sua dissecção.

Inspirada no Teatro Anatómico de Pádua – o primeiro teatro anatómico permanente do mundo, inaugurado em 1595, exemplo do progresso científico no estudo da anatomia e modelo para os teatros anatómicos nas principais universidades da Europa –, que Goethe visitou e admirou na sua viagem a Itália, a mostra propõe a reflexão sobre uma colecção complexa, sinuosa e orgânica, desalinhada do campo da arte contemporânea, que tanto nos oferece um desenho de René Bértholo ou Alireza Maleki, como a fotografia de Albert Moser ou Tomasz Machcinsky, a pintura de Josef Wittlich, a escultura de Jean-Jules Chasse-Pôt ou a assemblagem de Marc Giai-Miniet, misturando-os com os trabalhos de três artistas convidados, André Sousa, Fernão Cruz e Horácio Frutuoso. Ao mesmo tempo, “Teatro Anatómico” convida a uma experiência local dos sentidos que implica os corpos e a materialidade das imagens, no tempo da economia virtual. E, num gesto político, a pensarmos a crueldade capaz de suspender os ciclos da barbárie.

sábado, 6 de fevereiro de 2021

EXPOSIÇÃO: "Sereno Variável"



EXPOSIÇÃO: “Sereno Variável”,
Colectiva de Pintura, Desenho e Escultura
Curadoria | Antónia Gaeta, a partir da Colecção Treger / Saint Silvestre
Centro de Arte Oliva, S. João da Madeira
31 Out 2020 > 02 Mai 2021


O enigma que uma das esfinges nos coloca à entrada do parque dos monstros de Bomarzo principia o arranque de ideias presentes na exposição “Sereno Variável”. Segundo as múltiplas narrativas que acompanham a construção do parque italiano iniciado em 1552, o príncipe Pier Francesco Orsini teria dedicado o sacro bosque a um grande amor. Orsini, ajudado pelo arquitecto Pirro Ligorio, criou uma gigantesca cenografia, uma “villa delle meraviglie” feita de monstros de pedra, animais fantásticos e figuras enigmáticas das mais bizarras antropomorfias. Entre as muitas hipóteses interpretativas possíveis, Bomarzo é um auto-retrato em pedra e vegetação.

Com alguma semelhança formal, “Sereno Variável” apresenta criaturas sábias entre sombras de maneirismo e grotesco, com ecos de literatura medieval e epopeias mitteleuropeias, que se espalham pelas salas com as contínuas referências mitológicas e enigmáticas, entre máscaras, sátiras e jogos ilusionísticos, surpreendendo com a sua irregularidade alienante. Os subtextos herméticos mais uns quantos campos inexplicáveis da psique, rajadas repentinas de alegria sem razão aparente e saudações calorosas inscritas nas próprias obras acompanham a visita ao mesmo tempo que figuras disformes, corpos mutilados ou apenas esboçados vão surgindo. Traços sob traços, palavras sob palavras, a lembrança dos aromas na boca: açucar, mel e elixir.

Congregando cerca de 170 obras dos mais diferentes géneros e suportes, “Sereno Variável” é mais uma prova da quantidade inesgotável de leituras que os diversos núcleos da colecção Treger Saint Silvestre oferecem. Com curadoria de Antonia Gaeta – responsável por “Extravaganza”, uma das exposições que marcaram o ano de 2019 no Centro de Arte Oliva –, a selecção de trabalhos testemunha o gosto dos colecionadores para o retrato e a figura humana mas também para diferentes aproximações tanto ao nível do detalhe fisionómico e de processos de registo primorosos, como do desproporcional e do indeterminado, sem centro e sem margens. “Sereno Variável” é, assim, uma história, um destino, uma forma de escrita pessoal, o estudo de uma colecção, ou porventura a invenção de uma realidade onde “ogni pensiero vola” e contém tudo, cada gesto, cada escrito, cada rumor, cada descoberta, cada arquitectura cénica, perspectiva e reviravolta.

[Texto baseado no programa da exposição]