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terça-feira, 2 de junho de 2026

EXPOSIÇÃO DE DESENHO: “Cavaleiro Faria, um desenhador português do século XVIII”



EXPOSIÇÃO DE DESENHO: “Cavaleiro Faria, um desenhador português do século XVIII”,
de Cavaleiro Faria
Museu Nacional Soares dos Reis
23 Abr > 28 Jun 2026


Na sequência das recentes exposições dedicadas aos “Desenhos de Mestres Europeus em Colecções Portuguesas”, “Cavaleiro Faria, um desenhador português do século XVIII” vem confirmar a atenção que o Museu Nacional Soares dos Reis dá ao desenho. A mostra surge ao abrigo do programa “Museu Nacional de Arte Antiga no Museu Nacional Soares dos Reis” e através dela é manifesta a intenção de devolver à discussão pública uma figura singular do desenho português setecentista. Envolto durante décadas na incerteza, o nome do artista conhecido pela assinatura “Eques Faria” surge agora plenamente identificado como Inocêncio de Faria e Aguiar, funcionário do Conselho da Fazenda, Cavaleiro da Ordem de Cristo e homem ligado à administração régia. A revelação da sua identidade não esgota, contudo, o fascínio da obra. Pelo contrário, amplia-o, porque o que surpreende nestes desenhos realizados a pena e tinta castanha é precisamente a tensão entre o rigor burocrático da escrita e a liberdade errante da pena.

Sem formação académica conhecida e desenhando num quase anonimato, Cavaleiro Faria construiu uma obra profundamente moderna na forma como regista o quotidiano. As romarias, as estalagens, os exercícios militares, as aldeias ou as ruínas clássicas mostram-se como fragmentos vivos de uma sociedade em transformação, captados por um artista que parece desenhar com o intuito de compreender o mundo e de, em simultâneo, o reinventar graficamente. A importância desta mostra reside ainda na possibilidade de reenquadrar o desenho português no contexto mais vasto da tradição europeia dos séculos XVII e XVIII, um tempo em que Nicolas Poussin, Charles Le Brun, Giovanni Battista Tiepolo ou Jean-Honoré Fragonard, entre outros, deslocavam o desenho para um espaço de intimidade, dando primazia à imaginação antes mesmo da matéria pictórica. É precisamente essa autonomia do desenho que a obra de Cavaleiro Faria convoca. Embora afastado das grandes escolas europeias e das encomendas oficiais da pintura histórica, o artista português partilha com esses mestres a capacidade de fazer do gesto gráfico uma linguagem plena, através da qual a economia de meios intensifica a expressividade do olhar.

A recuperação de um olhar periférico sobre o século XVIII português é outro dos aspectos relevantes nesta exposição. Enquanto grande parte da produção artística da época permaneceu ligada à representação religiosa ou aristocrática, os desenhos de Cavaleiro Faria aproximam-se da observação social e da experiência do quotidiano. Neles percebe-se um país atravessado por deslocações, festas populares, cenários rurais e gente anónima, quase como se o artista antecipasse uma sensibilidade documental que apenas séculos mais tarde se tornaria dominante. Adaptada da primeira exposição monográfica dedicada ao artista, organizada pelo Museu Nacional de Arte Antiga, o conjunto de obras apresentadas confirma a singularidade de uma prática artística privada, silenciosa e persistente. Mais do que revelar um amador talentoso, a exposição permite reconsiderar o próprio estatuto do desenho na história da arte portuguesa. O mérito do Museu Nacional de Arte Antiga e do Museu Nacional Soares dos Reis está precisamente em devolver centralidade a um artista que, desenhando à margem das academias e do prestígio oficial, acabou por criar um dos testemunhos gráficos mais originais do Portugal iluminista.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

EXPOSIÇÃO: “Desenhos de Mestres Europeus em Colecções Portuguesas III – França ”



EXPOSIÇÃO: “Desenhos de Mestres Europeus em Colecções Portuguesas III – França ”
Vários artistas
Curadoria | Nicholas Turner
Museu Nacional Soares dos Reis
13 dez 2025 > 26 abr 2026


O Museu Nacional Soares dos Reis, em parceria com o Círculo Dr. José de Figueiredo – Amigos do MNSR, apresenta “Desenhos de Mestres Europeus em Colecções Portuguesas III – França”, a terceira e última exposição de um ciclo dedicado ao pouco conhecido acervo de desenhos de antigos mestres preservado em coleções públicas e privadas portuguesas. Depois de uma abordagem panorâmica às várias escolas europeias e de um segundo capítulo centrado nas relações entre Itália e Portugal, esta exposição concentra-se no desenho francês. A escolha revela uma história de influência distinta, marcada por fluxos artísticos irregulares e condicionados por circunstâncias políticas, mas também por uma presença física continuada de artistas franceses em Portugal entre os séculos XVIII e XX. Com curadoria de Nicholas Turner, um dos maiores especialistas internacionais na área do desenho, a mostra reúne oitenta e oito obras - incluindo quatro livros ilustrados - e propõe uma leitura abrangente do impacto técnico, estético e cultural do desenho francês na formação da arte portuguesa, com especial incidência nas artes decorativas.

O percurso expositivo inicia-se nos séculos XVI e XVII, quando muitos artistas franceses ainda viam a Itália como o principal centro de formação e afirmação artística. Figuras como Pierre de Francheville, activo em Florença ao lado de Giambologna, ou Nicolas Poussin, que construiu em Roma uma linguagem clássica rigorosa, ilustram essa dependência inicial dos modelos italianos. O desenho surge aqui como instrumento fundamental de construção formal e intelectual da imagem, assente na clareza da linha e na composição geométrica. Este ideal seria amplamente debatido no seio da Académie Royale de Peinture et Sculpture, em Paris, onde os defensores da tradição “poussinista” se confrontaram com os chamados “rubenistas”, mais atentos à cor, ao movimento e ao naturalismo. Obras de artistas como Claude Audran, Michel Corneille ou Charles de La Fosse permitem acompanhar esse confronto estético, revelando um campo artístico em transformação e antecipando a progressiva libertação do desenho face ao rigor clássico.

A emergência do Rococó ocupa o núcleo seguinte e marca uma viragem decisiva na exposição. Antoine Watteau surge como figura central deste novo espírito artístico, através de estudos de cabeças femininas executados na técnica dos “trois crayons”, considerados um dos pontos mais altos do desenho a partir do modelo vivo. O Rococó afirmava-se como um estilo decorativo, sensual e mundano, apoiado pela corte francesa e rapidamente disseminado. François Boucher e Jean-Honoré Fragonard aprofundaram essa linguagem, explorando temas mitológicos e eróticos que respondiam aos gostos de uma elite coleccionadora, entre a qual se destacaria mais tarde Calouste Gulbenkian. A exposição inclui ainda obras menos conhecidas, como um raro desenho de Antoine Jean Duclos, que enriquecem a leitura deste período exuberante, onde o desenho se torna simultaneamente exercício de virtuosismo técnico e veículo de prazer visual.

Um dos núcleos mais reveladores da exposição centra-se na presença efectiva de artistas franceses na Península Ibérica, em particular em Portugal. A partir de 1726, com a chegada de Pierre-Antoine Quillard a Lisboa e a sua rápida nomeação como pintor da corte de D. João V, inicia-se uma presença contínua de artistas franceses que deixariam marca duradoura no panorama artístico nacional. Desenhadores, gravadores e editores como Pierre Massart de Rochefort, Bernard Picart ou os Mariette participaram em projetos editoriais e institucionais de grande ambição, ligados à Academia Real da História Portuguesa e à modernização cultural promovida pela corte. Estes artistas trouxeram consigo métodos, repertórios decorativos e um domínio técnico do desenho que influenciaria profundamente a produção portuguesa, sobretudo nas artes aplicadas, num contexto em que a Itália, embora admirada, permanecia fisicamente distante.

quinta-feira, 3 de julho de 2025

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Places of Memory” | Andrea Hoyer



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Places of Memory”,
de Andrea Hoyer
100 Anos da Leica I - O Mundo Através do Visor
Curadoria | Magda Pinto
Museu Nacional Soares dos Reis
24 Mai > 13 Jul 2025


Pela primeira vez na sua história, o Prémio Leica Oskar Barnack foi concedido a um fotógrafo alemão. Estávamos em 2003 e a reportagem fotográfica de Andrea Hoyer, um projecto de longo prazo iniciado cinco anos antes, seria alvo do reconhecimento do júri de um dos galardões mais prestigiados do mundo, ao documentar os anseios, as perspectivas e os estados de espírito da população russa da era pós-União Soviética. Curiosidade, sede de aventura e a vontade de se envolver com outros povos e culturas caracterizam uma série cujo olhar se estende do Cazaquistão ao Uzbequistão, da Rússia à Ucrânia. Feita de imagens a preto e branco cuidadosamente compostas, “Places of Memory” foi registada com uma Leica M6 e nela podemos observar elementos representativos da antiga União Soviética, desde monumentos onde figura Estaline a vistas internas do Exército Vermelho. As vastas extensões da paisagem russa, bem como cidades e praias do Mar Negro, são igualmente retratadas.

A viver em Nova York, Andrea Hoyer concentra-se nas circunstâncias das pessoas: Na sua solidão, sozinhas ou em grupos, na falta de orientação ou de segurança no círculo íntimo da família e dos amigos. Na série agora patente no Museu Nacional Soares dos Reis, percebemos que a artista não busca o drama ousado de uma certa forma de fazer fotojornalismo, mas usa o seu apurado poder de observação para intensificar estados de espírito e mostrar de que forma se vêem reflectidos na sua própria alma. O resultado escapa àquilo que designamos por “reportagem clássica”, antes encerra uma visão muito pessoal dos lugares visitados. As pessoas que Hoyer retrata são sempre parte de uma composição geral: surgem muitas vezes cortadas ou indefinidas, ajustando-se na pose à arquitectura e às paisagens que as rodeiam como parte de um todo enigmático e complexo. No trabalho de Andrea Hoyer não há fotografias cuja interpretação seja imediata, mas isso só torna ainda mais convidativo um olhar cuidado e atento sobre cada uma delas.

Andrea Hoyer nasceu em Göttingen, em 1967, e cresceu na Alemanha e nos EUA. Estudou fotografia em São Francisco e no Centro Internacional de Fotografia de Nova York. Na Universidade de Columbia, diplomou-se em Estudos do Oriente Médio/Árabe e em 1995, após um ano a estudar a língua uzbeque, começou a fotografar nos estados da Ásia Central da ex-União Soviética e, em seguida, orientou os seus interesses predominantemente para a Rússia. Desde 2012, Hoyer começou a esculpir e a modelar cabeças de pessoas imaginárias em argila, combinando esse lado do seu trabalho com um enorme interesse por memórias individuais e colectivas e por factores como a identidade e a perda. Como sempre trabalhou numa relativa obscuridade, o reconhecimento da Leica colocou-a no mapa da fotografia, abrindo-lhe as portas de um mundo novo e mostrando caminhos que a artista desconhecia. O seu sucesso na cerimónia de premiação durante os Encontros de Fotografia de Arles recompensou a sua coragem e perseverança e chamou a atenção do público para o seu trabalho.

domingo, 22 de junho de 2025

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Hiding from Baba Yaga” | Nanna Heitmann



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Hiding from Baba Yaga”,
de Nanna Heitmann
100 Anos da Leica I - O Mundo Através do Visor
Curadoria | Magda Pinto
Museu Nacional Soares dos Reis
24 Mai > 13 Jul 2025


Bruxa imprevisível e perigosa, Baba Yaga vive numa pequena cabana no meio da floresta. Um dia, aprisiona uma jovem chamada Vaselisa, que acabará por escapar da cabana de Baba Yaga com a ajuda de um gato preto e magro. Enquanto é perseguida pela bruxa, Vaselisa lembra-se do conselho dado pelo gato e, assim, deixa cair uma toalha e um pente atrás de si. Imediatamente, um rio largo e profundo irrompe no local, tendo nas suas margens uma floresta tão vasta e densa que acabará por travar a progressão da malvada bruxa. Bem-vindos às margens infinitas do Ienissei, um rio aparentemente sem fim, cercado por florestas encantadas e pessoas em busca de liberdade. Na série que lhe valeu o Prémio Revelação Leica Oscar Barnack, em 2019, a fotógrafa documental germano-russa Nanna Heitmann registou a vida ao longo das margens do Rio Ienissei, um dos cursos de água mais longos do mundo com os seus quatro mil quilómetros de extensão. Foi ele o fio condutor de um trabalho atento, intenso e sensível, que nos convida a viajar pelo infindável reino de mitos que é a Sibéria.

O impulso inicial para o projecto surgiu durante uma temporada passada em Tomsk, na qual Nanna Heitmann tomou consciência de uma Rússia muito diferente daquela que conhecera dos filmes infantis soviéticos e contos de fadas eslavos. Apesar da mãe ser russa, para a fotógrafa a Rússia, à excepção de Moscovo, não passava de um grande espaço em branco no mapa. Decidiu, então, passar seis meses na cidade de Tomsk, na Sibéria, e foi lá que conheceu Baba Yaga, figura do folclore eslavo que dá o título a esta série fotográfica. A estadia serviu para proceder à documentação sistemática da vida ao longo do rio e da mitologia da região. Em busca de imagens oníricas, a artista pediu emprestado um jipe russo, encheu-o com todos os materiais necessários para acampar e conduziu na direcção da República de Tuva, no sul da Sibéria. Com um conjunto de imagens inspiradoras em mente e lugares que queria ver ao longo do caminho, rumou a esta região remota, na fronteira com a Mongólia, ao encontro da nascente do Ienissei.

Ao acompanhar o curso do rio, vendo-o serpentear para o norte até finalmente desaguar no Oceano Ártico, Nanna Heitmann atravessou a árida região selvagem da taiga siberiana, rica em mitos e rituais antigos. Mestres da pintura russa foram uma importante revelação visual para a artista, em particular Ivan Bilibin, ilustrador de antigos contos de fadas russos, e Mikhail Nesterov, cujas pinturas simbólicas na Galeria Tretyakov, em Moscovo, tanto a tinham encantado na infância. Esses artistas desenvolveram as suas pinturas magicamente sugestivas, baseado-as em esquemas de cores suaves que contam histórias de um mundo estranhamente misterioso. Nelas colheu a artista a inspiração para dar a ver o seu fascínio por aqueles que sabem encontrar na vastidão da Sibéria o espaço certo para viver de acordo com os seus próprios ideais. Também Heitmann tem o seu Yuri a morar não muito longe das margens do Ienissei, numa cabana construída sobre uma lixeira, onde pode viver de forma inteiramente livre. Para ver no Museu Nacional Soares dos Reis, até 13 de Julho.

quinta-feira, 19 de junho de 2025

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "La Disperata Allegria" | Gianni Berengo Gardin



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “La Disperata Allegria”,
de Gianni Berengo Gardin
100 Anos da Leica I - O Mundo Através do Visor
Curadoria | Magda Pinto
Museu Nacional Soares dos Reis
24 Mai > 13 Jul 2025


Dedicada ao quotidiano das famílias ciganas em Florença, “La Disperata Allegria” foi a série com a qual Gianni Berengo Gardin alcançou o Prémio Leica Oskar Barnack, em 1995. É no âmbito da exposição “100 Anos da Leica I - O Mundo Através do Visor”, patente ao público no Museu Nacional Soares dos Reis, que podemos apreciar este trabalho do fotojornalista italiano, graças a um conjunto de imagens de forte impacto, reveladoras de uma capacidade inimitável para capturar o país e as pessoas, a vida quotidiana e todos aqueles momentos especiais que constituem a sua particular assinatura e são o garante da singularidade do seu trabalho. Uma conversa entre Berengo Gardin e a presidente da Associação para a Defesa das Minorias em Florença serviu de ponto de partida a esta série, baseada na ideia de fotografar uma jovem família cigana cujos advogados da associação haviam conseguido impedir o sequestro de um dos seus filhos recém-nascidos – “uma prática odiosa e muito comum entre juízes na Itália”, nas palavras do fotógrafo.

Baseado nas relações de confiança que Gianni Berengo Gardin conseguiu estabelecer com estas comunidades postas à margem da sociedade, o projecto acabaria por se expandir rapidamente e de forma natural. Ao olhar do fotógrafo abriu-se a dura realidade da vida nos acampamentos ciganos da periferia de Roma. Aos poucos, Berengo Gardin e a sua Leica M conseguiram capturar um vislumbre directo e honesto do quotidiano desta família, depois de vencida a natural desconfiança e estabelecidas as bases de um trabalho assente numa incrível boa vontade e generosidade de parte a parte. Aquilo que podemos apreciar neste notável conjunto de imagens resulta dessa abertura e da possibilidade de registar um quotidiano particular nos seus mais variados aspectos, dos momentos bons e festivos, como os preparativos de um casamento ou um almoço de Natal, às condições de vida precárias, de convivência com o frio e o calor, a falta de água e saneamento, as doenças, o funeral de uma criança.

“Esta série, juntamente com uma que fiz sobre asilos, em 1969, foi o projecto que mais me envolveu emocionalmente e do qual mais me orgulho”, afirma Berengo Gardin. O trabalho do fotógrafo com os ciganos resultou numa exposição em Florença, bem como na publicação de um livro que a acompanhou, prefaciado pelo escritor, dramaturgo e artista plástico alemão Günther Grass, Prémio Nobel da Literatura em 1999. Tanto a exposição quanto o livro foram bem recebidos pela crítica e tiveram do público uma resposta muito positiva. “Mas este tema é tão controverso que não sei se as pessoas conseguiram, realmente, entender a mensagem”, reflecte o fotógrafo em retrospectiva. Quando questionado sobre a atual situação de vida dos ciganos em Itália, Berengo Gardin responde com hesitação, não se mostra confiante, afirma que “a discriminação ainda é muito comum”. E acrescenta: “Todas as tentativas para encontrar uma solução, para lhes proporcionar uma vida digna, implicam lutar contra a oposição das comunidades locais e dos partidos de direita que exploram a situação para obter apoios”.

sexta-feira, 13 de junho de 2025

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "The Road to Nowhere" | Dominic Nahr



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “The Road to Nowhere”,
de Dominic Nahr
100 Anos da Leica I - O Mundo Através do Visor
Curadoria | Magda Pinto
Museu Nacional Soares dos Reis
24 Mai > 13 Jul 2025


“The Road to Nowhere”, do fotógrafo suíço Dominic Nahr, foi a primeira série a ser galardoada com o Prémio Leica Oscar Barnack, na categoria de “estreante”. Estávamos em 2009 e o trabalho de Nahr olhava, de forma implacável, um dos conflitos mais brutais de África, centrado na dramática situação dos refugiados na República Democrática do Congo. Durante muitos anos, o seu trabalho profissional como fotógrafo e repórter de guerra colocou-o em cenários de tragédia por todo o mundo, evidenciando o impacto que os momentos de crise podem ter na vida das pessoas. A dar os primeiros passos na carreira, as experiências vividas na República Democrática do Congo acabaram por constituir um ponto de viragem na sua vida e viriam a revelar-se decisivas na orientação futura dos seus trabalhos. Então com 25 anos, o fotógrafo estava pela primeira vez num continente totalmente desconhecido para si. Ouvia dizer que os tumultos se tinham intensificado no leste do Congo e temia que a situação se agravasse ainda mais. Mesmo sem garantias de uma tão necessária protecção, a sua curiosidade empurrou-o para o local e o resultado está à vista, nesta brutal “estrada para sítio nenhum”.

Guerra no Congo, finais de 2008. Em Outubro, os rebeldes tutsis tomavam o controlo da maioria das principais estradas no leste do Congo. Com a aproximação dos rebeldes, mais de 250.000 civis fugiram através das fronteiras, na busca desesperada de algo que, simplesmente, não conseguiam encontrar: segurança. Num explosivo cenário de caos, violência e a crueldade, Dominic Nahr colocou-se a si e à sua câmara no meio da guerra, deixando que as imagens gritassem alto e permanecessem silenciosas. Arrepiantes, se pensarmos onde e como foram colhidos todos estes registos, parece-nos um quase milagre o facto de Nahr ter sobrevivido ao inferno e saído dele fisicamente ileso. As suas fotografias têm o poder de deixar o espectador em sofrimento e na esperança de encontrar uma saída para uma tão grave crise humanitária. Simultaneamente, é impossível não valorizar as composições e a estética que se desenham na obra de Dominic Nahr, absolutamente incríveis, de cortar a respiração.

Apesar de todas as vicissitudes, Dominic Nahr não hesita em afirmar que a República democrática do Congo é o país ao qual pode chamar o seu “primeiro amor africano”. Depois de passar vários meses a cobrir a guerra e a crise humanitária no leste do país, decidiu mudar-se para o continente africano até se fixar em Nairobi onde viveu durante quase dez anos. Estando no Quénia, pode continuar a trabalhar em temas que lhe interessavam, que estavam nas regiões vizinhas, como o Sudão do Sul ou a Somália. Dominic Nahr nasceu em 1983, em Appenzell, na Suíça, e cresceu em Hong Kong. Em 2008, formou-se em Toronto com um Bacharelato em Belas Artes e mudou-se para Nairobi em 2009. Desde então, dedicou-se a documentar conflitos, crises humanitárias e questões sociais críticas. Ganhou inúmeros prémios, incluindo o World Press Photo e o Swiss Press Photo Award. Patente no Museu Nacional Soares dos Reis, a série “The Road to Nowhere” inclui-se na exposição que celebra os 100 Anos da Leica I e pode ser vista até 13 de Julho.

domingo, 8 de junho de 2025

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "Svetlana" | Mary Gelman



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Svetlana”,
de Mary Gelman
100 Anos da Leica I - O Mundo Através do Visor
Curadoria | Magda Pinto
Museu Nacional Soares dos Reis
24 Mai > 13 Jul 2025


A celebrar o centenário do aparecimento da Leica I, a móvel, discreta e espontânea câmara que revolucionou o mundo da fotografia, o Museu Nacional Soares dos Reis apresenta, até ao dia 13 de Julho, uma mostra representativa de cinco dos mais consagrados fotógrafos do mundo, a par de cinco fotógrafos emergentes e cujos trabalhos foram recentemente distinguidos com o Prémio Leica Oscar Barnack. Está neste caso Mary Gelman, vencedora do Prémio em 2018 na categoria “Estreante”, com uma série fotográfica intitulada “Svetlana”, da qual pode ser vista uma parte nesta mostra. Gelman nasceu em 1994, na cidade russa de Penza, e formou-se em Sociologia antes de se dedicar aos Estudos de Género e Fotografia, na Escola DocDocDoc, em São Petersburgo. Fotojornalista e professora, os seus projetos combinam uma forte abordagem pessoal com práticas documentais e conceptuais, nomeadamente questões de género e corpo, limites e identidade, discriminação e a relação do homem com o meio ambiente.

Durante a era soviética, prevalecia a teimosa ideia de que, sob o comunismo, pessoas com deficiência não existiam. Todos os esforços foram feitos para reduzir continuamente esse número. Todos os possíveis foram feito para evitar o nascimento de crianças com deficiência. Os pais eram colocados sob forte pressão ao saber que as crianças com deficiência seriam colocadas em lares estatais, os chamados internatos. Após o colapso da União Soviética, seguido pelo colapso do antigo sistema no início dos anos 90, uma nova constituição democrática foi estabelecida, garantindo que todas as pessoas tivessem os mesmos direitos. Isso encorajou muitos pais a lutarem pelo futuro de seus filhos com deficiência. Lentamente, mas com segurança, um número crescente de centros de reabilitação foi fundado: Svetlana é um deles. A comunidade foi criada pelo Movimento Camphill e baseia-se nos princípios da antroposofia. Apoiados por tutores e ajudantes voluntários, os residentes de Svetlana cultivam os seus próprios vegetais e produzem laticínios que vendem nas aldeias vizinhas. A sua auto-sustentabilidade faz de Svetlana uma das poucas instituições na Rússia onde adultos com deficiência têm a oportunidade de um futuro profissional.

Inspirada por uma primeira visita a Svetlana, Mary Gelman trabalhou durante dois anos num projecto fotográfico na comunidade. “Fiquei realmente surpreendida com a minha vontade de regressar tantas vezes ao mesmo lugar”, lembra. O resultado é uma abordagem fotográfica com um forte vínculo interpessoal: retratos hesitantes e abordagens cautelosas; imagens situacionais que reflectem uma vida quotidiana que, a princípio, parece estranha. No entanto, é uma vivência recheada de rituais que celebram uma fascinante normalidade. Feitas de apego e sensibilidade, as imagens são o testemunho do talento da fotógrafa para uma observação precisa e dão nota de um impulso sociológico fortemente envolvente. Gelman explica: “Eu não queria mostrar a alteridade de uma pessoa, a sua deficiência. Eu queria que o observador sentisse algo claramente original sobre a pessoa.” As suas fotos transcendem quaisquer categorias como “normal” ou “deficiente”, revelando o quão livre e capaz qualquer pessoa pode ser, quando não rodeada de estigmatização e discriminação.

segunda-feira, 2 de junho de 2025

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "Ethiopian Hunger" | Sebastião Salgado



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Ethiopian Hunger”,
de Sebastião Salgado
100 Anos da Leica I - O Mundo Através do Visor
Curadoria | Magda Pinto
Museu Nacional de Soares dos Reis
24 Mai > 13 Jul 2025


“A fotografia é uma linguagem que dispensa tradução. A fotografia é a linguagem que dá às pessoas a oportunidade de ver o que você viu.”
Sebastião Salgado

Há cem anos, uma pequena câmara mudou o mundo. Apresentada ao público pela primeira vez em 1925, a Leica I revolucionou a fotografia ao torná-la móvel, discreta e espontânea, o que permitiu aos fotógrafos captar a vida tal como ela é, na sua crueza e imediatismo, como na sua autenticidade. Ao celebrar o seu centenário, a Leica presta homenagem aos visionários do Prémio Oskar Barnack, um dos mais prestigiados galardões internacionais de fotografia documental e contemporânea, através duma mostra intitulada “100 Anos da Leica I - O Mundo Através do Visor”, a qual está patente até 13 de Julho no Museu Nacional de Soares dos Reis. Reunindo obras de dez renomados fotógrafos de nível mundial, nela se inclui “Ethiopian Hunger”, emocionante e comovente série do recém falecido fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado e cujo cunho sócio-documental dá a ver ao mundo a fome na Etiópia, consequência catastrófica da seca durante os anos 80 que afectou cerca de oito milhões de pessoas. São imagens que documentam o extermínio de mais de quinhentos mil etíopes e que tiveram um forte impacto na consciencialização para o drama humanitário junto das nações industrializadas.

Conjunto de uma dezena de imagens chocantes, “Ethiopian Hunger” revela massas em fuga, acampamentos e crianças famintas. São imagens de pobreza, sofrimento e morte que Sebastião Salgado revela em toda a sua dimensão. Por detrás da câmara, ele soube perscrutar a escuridão, o abismo, o horror, juntando a arte de fotografar a um forte compromisso com a realidade. Imerso num mundo que ninguém imagina, soube concentrar-se em pessoas de carne e osso que perderam muito, senão tudo, em consequência de guerras, exploração, epidemias ou destruição ambiental. A maior parte das suas fotografias parece perguntar por que razão se vive em excesso desmedido em certas partes do mundo, enquanto outras não têm oos recursos mínimos necessários à sua sobrevivência. “Ethiopian Hunger” não responde a esta questão, nem é esse o seu desígnio. Explora, sim, as emoções que as imagens podem despertar no espectador, arrastando-o para fora da sua zona de conforto ao trazer à tona aquilo que está a acontecer noutras partes do mundo e que se mostra profundamente dissonante em relação à sua realidade. 

Sebastião Salgado oferece, bem entendido, a possibilidade de olhar para uma realidade que, de outra forma, permaneceria desconhecida. Essa realidade é cruel e desoladora: uma criança envolta num cobertor, rodeada de outras crianças, que olha resignadamente a câmara; uma mulher rodeada de crianças, apenas pele e osso, numa longa caminhada que é prenúncio de morte; um acampamento onde uma família etíope se amontoa, a ver o tempo a esgotar-se sem que uma ponta de esperança faça com que as cabeças se ergam. Em imagens de uma estética assombrosa, o fotógrafo coloca o destino e a morte diante dos nossos olhos, retirando da sombra a vida de pessoas que lutam desesperadamente pela sua sobrevivência. Sebastião Salgado recebeu o Prémio Leica Oskar Barnack em 1985 com esta série sobre a devastação causada pela fome na Etiópia. O júri soube reconhecer o valor e impacto das suas imagens, afirmando que as fotografias tornam visíveis os pensamentos de humanidade e filantropia na nossa sociedade. Salgado continuou a fotografar pessoas até 2000, documentando trabalhadores em minas de ouro na África e migrantes procurando fugir da fome ou da guerra. Em toda a sua vida fotografou apenas um animal; e esse animal somos nós.

terça-feira, 23 de julho de 2024

EXPOSIÇÃO: “Centro de Arte Contemporânea 50 anos - A Democratização Vivida”



EXPOSIÇÃO: “Centro de Arte Contemporânea 50 anos - A Democratização Vivida”
Vários artistas
Curadoria | Miguel von Hafe Pérez
Museu Nacional Soares dos Reis
07 Jun > 29 Dez 2024


10 de junho de 1974. Não se cumpriram ainda dois meses da Revolução dos Cravos e já no Porto uma acção de rua inscreve na história da construção de centros culturais e espaços museológicos dedicados à criação contemporânea um momento inédito e até hoje sem paralelo. Protagonizado por artistas e intelectuais da cidade ligados a instituições como a Cooperativa Árvore, o Teatro Experimental do Porto, a Seiva Trupe ou o Cineclube do Porto, o “Enterro do Museu Soares dos Reis” dá voz a uma reivindicação popular alimentada pela pulsão efervescente de abertura à modernidade, resgatada do pesado silêncio da ditadura. Um movimento simbólico de protesto materializa-se nesse acto performático que, de forma mais ou menos directa, vai constituir a semente da Fundação de Serralves e do seu Museu de Arte Contemporânea. “Centro de Arte Contemporânea 50 anos - A Democratização Vivida” recorda esse acontecimento e evoca a história do CAC – Centro de Arte Contemporânea graças a um significativo conjunto de 144 obras de arte e mais de 250 peças documentais e gráficas, como cartazes, convites, catálogo e fotografias de artistas.

Nascido de uma reclamação da cidade, o CAC — Centro de Arte Contemporânea instala-se, cerca de dois anos depois, justamente no Museu Nacional Soares dos Reis, o espaço para desenvolver e implementar um programa que, olhando retrospectivamente, pareceria impossível de concretizar. Para isso contribuíram o voluntariado e profissionalismo que Fernando Pernes, Etheline Rosas e Mário Teixeira da Silva verteram no projecto. Na verdade, a ambição daquilo que acabou por se produzir num Porto ainda incipientemente confrontado com o pensamento vanguardista da arte contemporânea poderia parecer utópico. Fernando Peres, director do Centro de Arte Contemporânea, percebeu desde muito cedo que a memória do que estava a construir nas exposições temporárias desta instituição poderia vir a urdir a malha de uma possível colecção de um museu futuro. Tal veio a concretizar-se mediante a actuação do Estado, que compreendeu que o apoio à arte contemporânea melhor se concretizaria desse modo: por isso, muitas das obras apresentadas nas diversas exposições temporárias promovidas pelo Centro de Arte Contemporânea integram hoje em dia as colecções do Museu Nacional Soares dos Reis e do Estado.

De 1976 a 1980, o Centro de Arte Contemporânea promoveu cerca de 100 exposições e várias atividades culturais. Alberto Carneiro, Ângelo de Sousa, Álvaro Lapa, Júlio Pomar, Emília Nadal, Eduardo Nery, Nadir Afonso, Paula Rego e Fernando Lanhas, entre tantos outros, mostram as suas obras de forma antológica pela primeira vez no Porto. Um intenso dinamismo de programação só possível graças ao estabelecimento de parcerias com embaixadas, institutos culturais estrangeiros e instituições, que permitiram a apresentação de importantes exposições de arte contemporânea em itinerância nacional e internacional no Porto. Com curadoria de Miguel von Hafe Pérez, a exposição “Centro de Arte Contemporânea 50 anos - A Democratização Vivida” revisita a história desta aventura primordial no contexto institucional português, recriando alguns dos seus momentos expositivos e trazendo à luz muitos documentos gráficos pouco conhecidos. Testemunho vivo de um momento único para a cultura da segunda maior cidade do país, a mostra estará patente até ao final do ano e é absolutamente imperdível.

sexta-feira, 6 de outubro de 2023

EXPOSIÇÃO: “Portreto de La Animo Art Brut etc.” 


[Clicar na imagem para ver mais fotos]

EXPOSIÇÃO: “Portreto de La Animo Art Brut etc.”
Colecção Treger Saint-Silvestre
Curadoria | António Saint-Silvestre
Museu Nacional Soares dos Reis
13 Jul > 12 Nov 2023


A primeira vez que visitei o Centro de Arte Oliva constituiu um momento marcante a todos os títulos. Desde logo pela inegável qualidade e valor artístico das obras que integram a Colecção de Arte Moderna e Contemporânea Norlinda e José Lima, mas sobretudo pelo fascínio que me causou a Colecção de Arte Bruta / Outsider Treger Saint-Silvestre, uma das mais importantes do seu género a nível mundial. Revisitar esta última colecção tem sido motivo de deslocação frequente a São João da Madeira e, mais recentemente, ao Porto onde, no Museu Nacional Soares dos Reis, está patente um vasto conjunto de peças provenientes da colecção e que se cruzam com obras congéneres pertencentes ao acervo do museu. É o reencontro com as cidades imaginárias de Carlo Franco Stella, a depuração e simbolismo de Guo Fengyi, o surrealismo de Agatha Wojciechowsky, as figuras antropomórficas de Jaime Fernandes ou a fotografia de Tomasz Machciński, em intenso diálogo com trabalhos de José de Guimarães, Sarah Affonso, Carla Gonçalves, La Mère François ou o escultor José Joaquim Teixeira Lopes, de quem podemos apreciar a máscara mortuária de Soares dos Reis.

Visitar “Portreto de La Animo Art Brut etc” - do esperanto “retrato da alma” - é penetrar num mundo inquietante e deixar-se conduzir por pulsões dificilmente inteligíveis em contextos de normalidade. Ao visitante pede-se mente aberta para abraçar mentes fechadas sobre si próprias, as mais das vezes torturadas, em sofrimento, mas capazes do milagre da criação como forma de se apaziguarem e libertarem. Corpos desproporcionados, membros contorcidos, rostos escarificados, seios pesados, são traços dominantes no conjunto das peças expostas e que, remetendo para o retrato ou o auto-retrato, são a expressão do mundo interior de cada um dos artistas, oferecendo leituras com tanto de estimulante como de perturbador. A leitura das legendas que acompanham cada uma das peças faz com que o léxico da exposição se alargue a termos directamente relacionados com a saúde mental, da bipolaridade à esquizofrenia, das fobias às dependências químicas, dos transtornos obsessivo-compulsivos ao stress pós-traumático. Está aberta a discussão e reflexão sobre saúde mental sugerida pela arte e pelos artistas.

Cunhado por Jean Dubuffet em 1946, o conceito de Arte Bruta tem na razão uma das suas mais importantes fronteiras. Não falo apenas de alterações de ordem psicológica, mas também da marginalização social. Veja-se o caso de Prophet Royal Robertson que, abandonado pela mulher, desenvolveu um delírio obsessivo, mas notavelmente criativo, que o levou a decorar o interior e o exterior da sua casa com desenhos fantasmagóricos denunciando a traição de que foi vítima. No campo do auto-retrato, atente-se nos trabalhos de Josef Hofer, nascido com deficiência mental, dificuldade auditiva e mobilidade reduzida e que só aos 37 anos começou a desenvolver a sua criatividade. Reforçando a ideia do auto-retrato como fonte de cura dos traumas, veja-se o trabalho de Dusan Kusmic, cuja experiência de vida traumática como refugiado num campo de deslocados na Sicília e as suas lutas perante dificuldades de linguagem, pobreza e isolamento social, levaram à criação de trabalhos com diversos materiais, como o papel de parede, objetos encontrados e comida. Motivos não faltam para uma visita ao renovado Soares dos Reis. É obrigatório mergulhar nestes “retratos da alma”.

sábado, 25 de março de 2023

EXPOSIÇÃO DE PINTURA: “Vida e Segredo. Aurélia de Souza 1866-1922”


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EXPOSIÇÃO DE PINTURA: “Vida e Segredo. Aurélia de Souza 1866-1922”
Museu Nacional de Soares dos Reis
24 Nov 2022 > 21 Mai 2023


Encontra-se patente ao público no Museu Nacional de Soares dos Reis a exposição “Vida e Segredo”, de Aurélia de Souza. Comissariada por Maria Ortigão de Oliveira, a mostra insere-se no programa de evocação do primeiro centenário da morte da artista (1866-1922) e é constituída por 92 obras apresentadas num cenário familiar e íntimo, próximo do de uma casa senhorial do século XIX. Dividida em quatro núcleos – Vidas, Espaços, Temas e Cores –, a exposição parece querer dissecar um conjunto de episódios marcantes da vida desta “mulher feminista radical”, que teve cinco irmãs, nunca casou nem teve filhos. Maria Ortigão Oliveira assume que se trata de “visão pessoal” a partir da obra, na busca de “entender um bocadinho daquela personalidade tão esquiva, discreta e secreta”, que pintou “o que quis” – “e, se não foi mais ousada, é porque não estava para isso”, sublinha.

São inúmeros e particularmente relevantes os detalhes que servem para vincar o cuidado e o talento que Aurélia de Souza coloca na sua obra e que fazem dela uma figura singular. Nos seus primeiros trabalhos, retratou familiares e amigos, mas também gente simples e humilde, colocando em todos a mesma força e dedicação. Seguem-se os lugares de intimidade, onde passa grande parte dos seus dias, numa casa debruçada sobre o rio Douro. “Temas” revela a largueza dos seus interesses, algo invulgar entre as mulheres da época, mais focadas em retratos e naturezas-mortas, enquanto Aurélia pinta paisagens, às vezes estranhas, desenha e tem obras de inspiração religiosa. Por último, “Cores” agrega os seus enigmáticos, andróginos e provocadores autorretratos, nos quais se representa com um icónico casaco vermelho, um desproporcional laço negro ou travestida de Santo António, registando, no modo como se via, a passagem do tempo.

Aurélia de Sousa nasceu em 1866 em Valparaíso, no Chile, e viveu depois no Porto, em Portugal, na Quinta da China, casa setecentista situada nas margens do Douro, que se tornará ambiente e atelier para a produção de inúmeras pinturas e fotografias. Interiores intimistas, retratos, cenas do quotidiano doméstico, jardins, naturezas-mortas, flores ou vistas sobre o rio são temáticas recorrentes do seu trabalho, que se caracteriza por um naturalismo expressivo. A morte prematura do pai intensifica a experiência do feminino numa família maioritariamente constituída por mulheres, várias das quais, incluindo Aurélia, não casarão nem abandonarão a casa materna. A reflexão sobre a condição da mulher na viragem para o século XX e no quadro da sociedade do Porto, onde vive, ou de Paris, onde ingressa na Académie Julian já com cerca de 30 anos, é a chave para a compreensão da sua obra, que foi tardiamente reconhecida pela História da Arte Portuguesa.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2022

CONVERSAS: José Tolentino de Mendonça



CONVERSAS: José Tolentino de Mendonça
Apresentação do livro “Metamorfose Necessária. Reler São Paulo”,
com José Rui Teixeira
Museu Nacional de Soares dos Reis
18.Dez.2022 | dom | 16:00


O cardeal José Tolentino de Mendonça esteve no Porto onde, na passada segunda feira, foi agraciado com o grande prémio da Fundação Ilídio Pinho pelo seu trabalho “na promoção e defesa dos valores universais” do que a Fundação diz ser a “portugalidade”. Actual responsável pelo Dicastério para a Cultura e Educação que tutela a rede escolar católica do mundo inteiro, Tolentino de Mendonça aproveitou o ensejo para se encontrar na véspera com os seus leitores, a propósito do lançamento do livro “Metamorfose Necessária. Reler São Paulo”. Promovida pela Quetzal Editores, a iniciativa teve lugar no auditório do Museu Nacional de Soares do Reis, contando com a presença de Rui Couceiro, escritor e editor, e do teólogo, investigador e editor José Rui Teixeira, a quem coube a tarefa de apresentar o livro. Apesar da forte concorrência mediática de uma final do Campeonato do Mundo de Futebol a decorrer à mesma hora, o espaço do auditório do Museu mostrou-se exíguo para as mais de duas centenas de pessoas que se deslocaram para escutar o poeta e ensaísta, com muita gente de pé a assistir à conversa e a permanecer para uma sessão de autógrafos que se prolongou por duas horas.

“Paulo foi o ser vivo por excelência. Quem não é defunto ao lado desse espectro incandescente? Não arrefeceu, nem arrefece. Ainda hoje, as frases das suas epístolas irradiam um deslumbramento interior, da natureza do calor. São filhas dele, carnais (…)”. Foi com a leitura de um excerto de “O Homem Universal”, um livro escrito em 1937 pelo filósofo e poeta Teixeira de Pascoaes, que José Rui Teixeira deu início à apresentação de “Metamorfose Necessária”. Com sensibilidade e afecto, passou em revista os onze capítulos que compõem o livro, começando por realçar o cuidado de Tolentino de Mendonça em contextualizar a igreja primitiva, um “contexto de diáspora”, marcado por “tensões entre as comunidades judaicas e as comunidades gentias”. Esta espécie de introdução ao pensamento e à obra de S. Paulo é feita “de um modo muito próximo e, simultaneamente, muito fundamentado”, espécie de “meio caminho entre um conjunto de leituras de natureza mais académica e a possibilidade de tornar próxima esta figura que guarda de nós uma distância aparente de quase dois mil anos.”

Referindo-se à construção do livro, José Rui Teixeira vincou que o trabalho literário por detrás da reflexão faz de “Metamorfose Necessária” um livro que resiste à “tentação academista”, antes é pensado “para todos os leitores.” O apresentador elogiou a preocupação de Tolentino de Mendonça em traçar uma “dificílima” cronologia de S. Paulo, referindo as suas viagens, as suas cartas, os seus contactos. De igual modo, realçou o cuidado em fazer com que o leitor possa entender “as funcionalidades do apostolado de Paulo”, bem como “o laboratório de criação das epístolas paulinas”. Percorrendo os capítulos da obra, José Rui Teixeira deteve-se no “importantíssimo” capítulo sétimo, que fala da “relação profunda entre as figuras de Paulo e Jesus”, desde esse “cair por terra” até ao chamamento e apostolado, orientado no sentido de “olhar o mundo, abrir perspectivas, criar diálogos e estabelecer pontes”. A “exegese belíssima” da carta a Filémon foi outro dos momentos do livro que o apresentador destacou, a par da possibilidade que Tolentino de Mendonça oferece ao mostrar o quanto, “implicitamente, o mundo de Paulo se assemelha ao nosso mundo”. Um livro que é, ao mesmo tempo, um desafio.

José Tolentino de Mendonça falou com entusiasmo deste seu livro, começando por sublinhar que “Paulo é um dos homens que mais acreditou no poder transformador da palavra.” É isso que sentimos ao ler as suas cartas dois mil anos depois, percebendo o quanto “a palavra gera mundos, rasga horizontes, coloca-nos em busca”. “Todos somos paulinos”, observou, lembrando que “a nossa maneira de pensar e de ser, os nossos hábitos, a nossa relação com o transcendente ou com a cultura, é marcada pela herança que este homem deixou.” Vincando o prazer de poder falar no espaço do Museu Soares dos Reis, Tolentino de Mendonça admitiu que "se Paulo tivesse que vir falar ao Porto, possivelmente escolheria um lugar de cultura”. E deixa uma serie de questões: “Quem era S. Paulo? Porque é que é um dos homens mais inovadores da história? Porque é que interessa a todos, crentes e não crentes? Porque é que noções importantes na arquitectura das nossas sociedades democráticas e abertas são ainda o reflexo de coisas que ele, de uma forma muito pioneira, começou por pensar e por propor.”

O momento que vivemos é, na opinião de Tolentino de Mendonça, “um momento muito difícil mas muito desafiador”, no sentido em que “oferece ao Cristianismo a possibilidade nova de partir à procura de si, do seu pensamento, das suas raízes, das suas vozes fundamentais e partilhar isso em termos culturais”. Não é surpresa para o orador que dezenas de pessoas se reunam para ouvir falar de Paulo porque esse interesse e essa disponibilidade existe em muitos lugares fora do espaço da liturgia. José Tolentino de Mendonça confessou que, na escrita deste livro, preocupou-se em “situar a reflexão teológica dentro do horizonte cultural e oferecer a todos chaves de antropologia, de linguagem, de conceitos, que todos possam entender e entrar em diálogo”, tal como Paulo fez. “Entrarmos no mundo de Paulo é uma enorme surpresa porque ele é absolutamente surpreendente”, referiu, instando o público a desvendar aquilo que diz ser “a força do pensamento, a audácia e coragem de Paulo, a sua palavra que, dois mil anos depois, ainda nos abala profundamente.”

Mantendo a tónica no papel inovador de Paulo, Tolentino de Mendonça referiu: “Paulo é aquele que estabelece uma ruptura; o mundo antigo termina com Paulo e começa o Cristianismo, o mundo novo, a modernidade, a contemporaneidade.” Também a importância da sua acção na criação de um “modelo de convivência social aberta” foi referido, algo que o apóstolo admitia ser a única forma de se manter fiel à memória de Jesus Cristo. Recuando ao episódio da Estrada de Damasco, onde Paulo encontra Cristo, o escritor falou de uma “metamorfose” que, começando por ser espiritual e interior, acabou por se traduzir na “capacidade de reinventar as relações humanas” e na “promoção da categoria da universalidade, a ideia de que todos nascemos iguais e com os mesmos direitos”, afirmada dois mil anos antes da Declaração Universal dos Direitos Humanos. É desta metamorfose, “do contributo que Paulo dá, do contributo que o Cristianismo dá”, que o livro fala amplamente, mantendo sempre a preocupação de vincar que “esta metamorfose está em curso; o nosso pensamento metamorfoseia-se no pensamento de Cristo”. E conclui: “A metamorfose do Cristianismo não acabou”.

sábado, 10 de agosto de 2019

EXPOSIÇÃO DE DESENHO E PINTURA: "Metamorfoses da Humanidade"


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EXPOSIÇÃO DE DESENHO E PINTURA: “Metamorfoses da Humanidade”,
de Graça Morais
Museu Nacional de Soares dos Reis
25 Jul > 29 Set 2019


Estranho e perturbador, assim podemos classificar “Metamorfoses da Humanidade”, o notável conjunto de oito dezenas de desenhos e pinturas, da autoria da artista plástica Graça Morais e que por estes dias pode ser apreciado no Museu Nacional de Soares dos Reis, no Porto. Mais do que uma exposição, porém, esta é uma reflexão da artista sobre o espaço em que nos inserimos e aquilo em que nos estamos a transformar. Usando as palavras da apresentação desta mostra, estamos aqui perante “um olhar muito particular sobre a humanidade”, que resulta em obras “grandemente comprometidas com a sociedade contemporânea”, o homem a cair sobre si próprio como uma praga de gafanhotos, ele próprio um ser em mutação, a cabeça couraçada, as pinças em lugar dos dedos, avançando em hordas, sem destino definido.

Realizados em 2018, estes trabalhos espelham, de forma contundente, a figura humana e a sua condição num mundo em convulsão. Os rostos, quase só esboçados, mostram recorrentemente as mordaças, as cadeias ou os arames que impedem as bocas de se abrirem, de se expressarem, de clamarem por justiça ou, sequer, por auxílio. Alinhadas contra um muro, humilhadas, com os braços estendidos ou seguindo em filas intermináveis, com as crianças pela mão ou ao colo, estas figuras representam as ondas de migrantes e refugiados forçados a abandonarem a sua casa e o seu país, fugindo da fome, da pobreza, das guerras, da violência e da morte, empurrados para um futuro onde reina a incerteza e o medo.

“Tão intrigantes como grotescas, tão serenas como inquietas, tão densas como etéreas”, as figuras e os rostos que se abrem ao olhar do visitante espelham uma complexa trama de emoções e acções humanas. Elas são “a materialização de um universo desconcertante, transgressor, apartado de qualquer organização racional e lógica de sentidos”. Em cada um dos trabalhos apresentados, como se em pequenos pedaços de um mundo estilhaçado, reconhecemos emoções que nos são íntimas. A voragem, a capacidade de destruir, a vontade de recusar ao outro a sua humanidade e dignidade, ou o desejo de domínio, tudo isso encontramos aí, a par do sofrimento das vítimas na sua silenciosa e derradeira resistência, na sua resiliente exigência de dignidade. Tudo para ver, com entrada gratuita, até ao próximo dia 29 de Setembro.

sexta-feira, 19 de abril de 2019

EXPOSIÇÃO DE PINTURA E DESENHO: "Júlio Resende. A Palavra e a Mão"


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EXPOSIÇÃO DE PINTURA E DESENHO: “Julio Resende. A Palavra e a Mão”
Museu Nacional de Soares dos Reis
22 Mar > 19 Maio 2019


A Exposição “A Palavra e a Mão” apresenta as múltiplas articulações que a obra de Júlio Resende (1917 – 2011) estabeleceu com a escrita. Na amizade do artista com escritores, como Eugénio de Andrade, Fernando Namora, Mário Cláudio, Vasco Graça Moura ou Vergílio Ferreira, radica esta exposição que parte da palavra para a imagem e da imagem para a palavra. Nela se traça um itinerário da pintura de Júlio Resende definido pelos escritos dos vários autores sobre a sua obra. Inversamente, nela se propõe um itinerário da ilustração literária que Júlio Resende criou para livros de variadíssimos autores.

Foi o próprio Julio Resende quem reconheceu, nas palavras dos escritores portugueses sobre a sua obra, aquela qualidade de desocultação de que só a literatura é capaz, bem diferente dos discursos da história e da crítica. É esta revelação que aqui se recupera. São diversas as circunstâncias em que surgiu o diálogo entre o texto literário e a pintura, mas todas provam a amizade e a cumplicidade que se estabeleceu entre o pintor e os escritores. Alguns textos constituem prefácios de catálogos de exposições, outros destinaram-se a publicações, mas todos eles concentram definições lapidares e sínteses expressivas da presença do artista na arte e na cultura portuguesas.

Outras articulações entre texto e desenho são contempladas nesta exposição, como a da banda desenhada e do desenho humorístico, a que Júlio Resende se dedicou desde os 10 anos de idade. Os primeiros jornais ilustrados que produz, em versão manuscrita e dactilografada, de exemplar único, datam desse período, em co-autoria com o seu irmão, António Resende Dias. Posteriormente escreveu e ilustrou secções humorísticas de semanários infantis, como “Tic-Tac” e “O Papagaio”, e de periódicos portuenses como “Jornal de Notícias” e “O Primeiro de Janeiro”. Às legendas, aos diálogos e às narrativas curiosas que escreveu sobre os mais diversos temas, associou a criação de personagens que a sociedade portuense recorda ainda, casos de “Matulinho e Matulão” ou do “Senhor Arrepiado”.

A ilustração para texto literário desenrolou-se ao longo de mais de 70 anos e nela Julio Resende evidencia enorme versatilidade. A adequação aos desafios do texto literário revela-se na multiplicidade de técnicas, materiais e suportes a que recorreu, bem como na força expressiva de cada registo, dos mais delicados aos de carácter expressionista, dos mais sintéticos aos de representação minuciosa. Exemplos desta capacidade e qualidade são as ilustrações de “História de Mulheres” de José Régio, “Aparição” de Vergílio Ferreira, “Retalhos da Vida de um Médico” de Fernando Namora” ou “O Rapaz de Bronze” de Sophia de Mello Breyner Andresen.

O discurso escrito foi igualmente fonte de criação visual associada às artes performativas, tendo originado estudos de figurinos e de espaços cénicos para textos dramáticos, levados à cena por companhias como o Teatro Experimental de Cascais, o Teatro Experimental do Porto ou a companhia portuense Seiva Trupe. Teve ainda oportunidade de assinar a direcção visual do “Espectáculo de Portugal para a Exposição Mundial de Osaka”, coordenado por Carlos Avilez.

As experiências e os trabalhos agora apresentados nesta exposição constituem um património em que palavra e imagem não estão em mera vizinhança, mas são consubstanciais e ajudam a definir Júlio Resende e o seu modo de entender o mundo. Redescobrir o seu trabalho é o que propõe o Museu Naciol de Soares dos Reis, a que, nos meados dos anos 30, quando se iniciava na pintura, o artista chamou, sintomaticamente, lugar de descoberta.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

EXPOSIÇÃO: "José de Almada Negreiros: Desenho em Movimento"



EXPOSIÇÃO: “José de Almada Negreiros: Desenho em Movimento”
Museu Nacional de Soares dos Reis
28 Nov 2017 > 18 Mar 2018


O Museu Nacional de Soares dos Reis, em colaboração com a Fundação Calouste Gulbenkian, acolhe até ao dia 18 de Março de 2018 uma exposição dedicada a Almada Negreiros e cujo foco incide sobre o carácter cinematográfico da linguagem artística do mestre. Sob o título “José de Almada Negreiros: Desenho em Movimento”, esta exposição é todo um novo olhar sobre a obra de um dos mais influentes portugueses do século XX, mestre de múltiplas artes, que em célebre manifesto se apresentou um dia como “José de Almada-Negreiros, poeta d'Orpheu futurista e tudo!”

Ao todo, são noventa as obras que aqui se reúnem, em cujo núcleo central vamos encontrar as directamente relacionadas com o cinema. Entre elas, está “O Naufrágio da Ínsua”, conjunto de 64 desenhos sobre papel vegetal, relato tragico-cómico da aventura marítima de um grupo de burgueses a banhos no Verão de 1934. Podemos igualmente apreciar o guião inédito para um documentário nunca realizado acerca de Amadeo de Souza-Cardoso ou os painéis em grande formato que reproduzem parte da fachada, actualmente em ruína, de um cinema madrileno. As atenções centram-se ainda numa das preciosidades da exposição: Seis vidros para lanterna mágica, o sistema de projeção antecessor do cinema, feitos por Almada Negreiros nos anos 20, em Madrid, e cuja existência era totalmente desconhecida antes da exposição na Fundação Calouste Gulbenkian, no início deste ano.

Há depois um percurso exterior a esse núcleo central que é uma proposta, apenas, de olhar para um conjunto de obras, muitas das quais puderam ser apreciadas noutros contextos e vê-las agora sob uma perspectiva cinematográfica. É aqui que vamos encontrar, por exemplo, o “Retrato de Sarah Affonso”, esposa do pintor, um conjunto de auto-retratos, Pierrots, desenhos publicados no Semanário humorístico “Sempre Fixe” e ainda os há muito distantes do público “Estudos para os frescos da Gare Marítima da Rocha do Conde de Óbidos”. Uma exposição a não perder!