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quarta-feira, 19 de agosto de 2026

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “The Journey of an Icon” | Thomas Hoepker



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “The Journey of an Icon”,
de Thomas Hoepker
Curadoria | Magda Pinto
Leica Gallery Porto
24 Jul > 24 Out 2026


Se há fotógrafos que parecem ter passado a vida à procura de uma imagem que melhor pudesse ajudar a compreender o mundo, Thomas Hoepker é um deles. “The Journey of an Icon”, exposição patente na Leica Gallery Porto até finais de Outubro, possibilita o encontro com esse olhar, ao longo de uma carreira que atravessou continentes, acontecimentos históricos, revoluções sociais e mudanças profundas na própria linguagem do fotojornalismo. A selecção, que inclui a série “American Road Trip” e outras imagens decisivas do seu percurso, vale menos como retrospectiva exaustiva do que como introdução a um método. Hoepker fotografava com a disciplina de quem sabia que uma boa imagem não nasce necessariamente do acontecimento extraordinário, mas da capacidade de reconhecer, no interior do banal, uma tensão, um gesto, uma relação entre as pessoas e o espaço em volta. É uma fotografia que raramente grita. Prefere observar. E essa contenção, longe de diminuir a força das imagens, imprime nelas uma estranha capacidade de permanência. Hoepker começou a trabalhar como repórter nos anos 60, passou pela Stern, dirigiu a fotografia da edição americana da Geo e viria a tornar-se, em 1989, membro pleno da Magnum Photos, da qual foi presidente entre 2003 e 2006.

É precisamente em “American Road Trip” que a inteligência do seu olhar se torna mais evidente. A viagem pelos Estados Unidos, realizada em 1963, não procura a América monumental nem a América do postal ilustrado, antes uma América feita de estradas, rostos, anúncios, viajantes, periferias e pequenos sinais de uma sociedade em constante mutação. Há aqui uma das virtudes essenciais de Hoepker: a capacidade de construir uma narrativa sem obrigar cada imagem a explicar-se por inteiro. Entre figura e fundo, entre proximidade e distância, entre humor e melancolia, as fotografias vivem de relações e revelam uma composição rigorosa sem ser ostensiva. A cor, que ganharia crescente importância na sua obra, não funciona como mero ornamento, mas como matéria narrativa. Mesmo quando fotografa figuras célebres, como Muhammad Ali, Hoepker parece menos interessado no ícone do que na pessoa que existe por detrás dele. O mesmo princípio atravessa as imagens de gente anónima: a dignidade do fotografado não é sacrificada à espectacularidade do acontecimento. É nesse equilíbrio entre informação, empatia e composição, que a sua obra encontra uma modernidade que ainda hoje surpreende e fascina.

Mas o verdadeiro interesse desta exposição dedicada a Hoepker está também naquilo que as suas fotografias nos obrigam a questionar. Poucos exemplos serão tão perturbadores como a imagem realizada em Nova Iorque, a 11 de Setembro de 2001, com o World Trade Center em chamas ao fundo enquanto um grupo de pessoas dialoga em primeiro plano, de forma aparentemente tranquila. Hoepker decidiu inicialmente não publicar a fotografia, por considerar que o momento exigia outra reserva; quando a imagem surgiu, anos depois, abriu-se uma discussão que ultrapassou largamente a fotografia: aquilo que se vê corresponde ao que realmente estava a acontecer? Pode uma imagem isolada explicar um acontecimento? Até que ponto o fotógrafo controla o sentido daquilo que fotografa? São perguntas particularmente adequadas ao legado de Hoepker e que provam que a sua obra nunca dependeu apenas do impacto imediato. “The Journey of an Icon” recorda-nos, assim, que o fotógrafo documental não é um simples espectador neutro: escolhe, enquadra, aproxima-se, afasta-se e, ao fazê-lo, constrói uma versão do real. É talvez por isso que estas fotografias continuam a resistir ao tempo. Mais do que conservar uma época, Hoepker ensina-nos a desconfiar da primeira leitura de uma imagem e a olhá-la uma segunda vez.

terça-feira, 5 de agosto de 2025

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Nuances & Nocturne” | Alwin Maigler



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Nuances & Nocturne”,
de Alwin Maigler
Curadoria | Magda Pinto
Leica Gallery Porto
26 Jul > 11 Out 2025


“Nuances & Nocturne”, de Alwin Maigler, convida-nos a atravessar dois universos da dança que, embora distintos no tom e na atmosfera, partilham um mesmo eixo: a escuta do corpo em movimento e da emoção do instante. Em “Nuances” tudo é contido, depurado, interior. Revela o lado mais introspectivo e delicado do ballet. Fotografados em estúdio, os bailarinos do Stuttgart Ballet surgem aqui como figuras entre o rigor e a fragilidade, entre o controlo e a respiração. São imagens que captam não apenas a forma, mas os momentos de suspensão, as pausas, os gestos em transição, a leveza que precede o esforço. São espaços fugidios que só quem observa com atenção consegue captar. Os bailarinos, quase esculturas vivas, revelam-se não no esplendor da pose, mas na vulnerabilidade da transição. O corpo torna-se matéria plástica e poética. A luz natural desenha músculos, sombras, intenções, como se revelasse o que a técnica esconde: o íntimo do corpo que se prepara para voar.

Com “Nocturne”, o cenário muda completamente. A dança abandona o espaço tradicional e ocupa a cidade à noite, ao ar livre, em improviso. Os bailarinos irrompem pelo espaço público com liberdade e irreverência. Etéreos, desafiadores e poéticos, dançam sobre fontes e escadarias, atravessam jardins e praças, invadem a arquitetura com a leveza de quem não pede licença, reinventando a cidade como palco. Aqui, o corpo deixa de seguir o compasso clássico e improvisa com o inesperado, como se dançar fosse a única forma possível de estar no mundo. Não há coreografia, há entrega. Há humor, lirismo, surpresa. A cidade transforma-se em cenário, o improviso em coreografia. As imagens são mais cruas, mais instantâneas, mas a técnica permanece, agora subjugada à urgência do gesto espontâneo e ao improviso que a noite permite. A câmara, cúmplice deste momento, regista não só o movimento, mas a alegria de dançar sem público, sem regras, sem rede. Como num sonho lúcido onde o tutu pode transformar-se num adereço disparatado e o chão, qualquer chão, é palco.

Reunidas sob o mesmo olhar, estas duas séries revelam a amplitude emocional e visual do trabalho de Alwin Maigler. Se “Nuances” nos aproxima da precisão e do detalhe do gesto, “Nocturne” convida à descoberta do corpo em liberdade e em diálogo com o mundo exterior. Entre ambas as séries, desenha-se uma espécie de poética do movimento, uma narrativa visual onde a dança se revela não apenas como espetáculo, mas como forma de presença no mundo silencioso ou ruidoso, interior ou urbano, coreografado ou imprevisto, disciplinado ou livre. Todas as imagens expostas são impressões em carvão feitas em Portugal por Mário P. Rodrigues (um dos poucos Mestres a nível mundial, que ainda se dedica a este tipo de impressão). Este é um método artesanal de altíssima exigência técnica e qualidade estética, que confere a cada fotografia uma densidade táctil, uma profundidade tonal e uma longevidade extraordinárias. Cada obra é mais do que uma imagem: é um objeto construído com o mesmo cuidado, intenção e sentido de permanência com que o gesto do bailarino se inscreve no espaço.

[Extraído do texto de Magda Pinto, inserto na Folha de Sala da exposição]

quarta-feira, 9 de julho de 2025

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "Nova Lisboa" | Gonçalo Fonseca



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Nova Lisboa”,
de Gonçalo Fonseca
100 Anos da Leica I - O Mundo Através do Visor
Curadoria | Magda Pinto
Museu Nacional Soares dos Reis
24 Mai > 13 Jul 2025


Uma das boas notícias de 2020, um ano marcado pela emergência sanitária que levou a Organização Mundial de Saúde a declarar o estado de pandemia face à COVID-19 e ao espalhar da doença em todo o mundo, foi a distinção de Gonçalo Fonseca com o Prémio Leica Oskar Barnack na categoria Revelação. O fotógrafo português viu o seu trabalho ser muito justamente reconhecido pelo júri, com a série “Nova Lisboa” a testemunhar a dramática situação habitacional que afecta Lisboa e, com base em relatos individuais, a revelar as consequências do avanço da gentrificação. Os dados oficiais mostravam que, no ano anterior ao da atribuição do prémio, cerca de seis milhões de pessoas visitaram a capital portuguesa durante as suas férias, fazendo de uma cidade com cerca de meio milhão de habitantes um dos destinos mais populares da Europa. O boom do turismo, a especulação imobiliária e o avanço da gentrificação levaram a que mais de 10.000 inquilinos tivessem perdido as suas casas, nas quais muitos deles tinham vivido a vida inteira.

Um turista urbano que venha a Lisboa e alugue um apartamento barato no casco antigo, provavelmente não pensará na história por trás do seu alojamento, quem terão sido os antigos inquilinos ou em que condições e com que consequências a habitação é hoje um alojamento local. Graças à crescente popularidade da cidade como destino turístico, o mercado imobiliário mudou muito rapidamente. Durante muito tempo, os proprietários evitaram qualquer tipo de obras de restauro ou reparação nas habitações, mas com a liberalização durante a crise financeira uma onda de especulação extrema varreu a cidade. Os fundos de investimento lidaram com edifícios exclusivamente como ativos, sem qualquer consideração pelas pessoas que neles viviam. Os preços das rendas escalaram, as casas foram vendidas e muitas vezes transformadas em apartamentos turísticos, sem qualquer intervenção da autarquia e sem que fossem dadas alternativas aos antigos inquilinos. É no quotidiano desolado dessas pessoas que o fotógrafo centra a sua série.

Com uma abordagem muito dedicada às pessoas que fotografa - o fotógrafo mantém contacto com quase todas as pessoas que deram o passo corajoso de compartilhar consigo as suas vidas -, Gonçalo Fonseca acompanhou de perto o processo de transformação que a cidade sofreu nos últimos anos. Tendo passado grande parte de 2018 na Índia a trabalhar num projecto, ao regressar ficou impressionado com a rapidez com que a cidade estava a mudar. Viu os restaurantes e lojas favoritas a fechar para darem lugar a negócios virados exclusivamente para os turistas. Viu as desigualdade aumentarem, com um número crescente de famílias em dificuldade para pagar as rendas das casas. Sentiu, enfim, que encetava uma luta contra o tempo, uma vez que as mudanças e seus efeitos precisavam de ser documentados. “Nova Lisboa” pode ser vista no Museu Nacional Soares dos Reis, no âmbito da mostra “100 Anos da Leica I - O Mundo Através do Visor”, permanecendo patente ao público só até ao próximo domingo.

sábado, 5 de julho de 2025

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "Critical Minerals - Geography of Energy" | Davide Monteleone



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Critical Minerals - Geography of Energy”,
de Davide Monteleone
100 Anos da Leica I - O Mundo Através do Visor
Curadoria | Magda Pinto
Museu Nacional Soares dos Reis
24 Mai > 13 Jul 2025


Há muito tempo que activistas de todo o mundo, em áreas como as ciências, os negócios, a política, os direitos humanos e o meio ambiente, vêm alertando para os elevados custos da actual transição energética. Elementos fundamentais de uma cadeia que tem como objectivo afastarmo-nos em definitivo das energias fósseis, determinados elementos naturais transformaram-se em alvos privilegiados das indústrias extractivas, levando à destruição de vastas áreas florestais, alterando irremediavelmente os ecossistemas locais, reduzindo drasticamente a biodiversidade, aumentando a erosão dos solos e, consequentemente, o risco de inundações. “Critical Minerals - Geography of Energy”, série fotográfica de Davide Monteleone, o mais recente vencedor do Prémio Leica Oscar Barnack, actualmente exposta no Museu Nacional Soares dos Reis, ilustra os riscos que enfrentamos na busca desenfreada por energias mais sustentáveis, mostrando que estamos a repetir os erros do passado em vez de inaugurarmos um futuro mais justo, equilibrado e limpo.

Carros eléctricos, que supostamente melhorarão o equilíbrio climático, smartphones que se tornarão indispensáveis na comunicação quotidiana, baterias que poderão vir a armazenar o excesso de energia produzida pelas fontes eólica e solar, todos eles integram na sua constituição cobalto, cobre, níquel ou lítio, recursos que passaram a estar na mira das grandes indústrias. Ao encontro das regiões afectadas pelos trabalhos de extracção mineral, em países como a República Democrática do Congo, o Chile e a Indonésia, o que Davide Monteleone faz é mostrar-nos o reverso da medalha. Para concretizar a promessa de futuras tecnologias “limpas”, são necessários minerais específicos, mas a sua extracção faz-se em condições questionáveis, desumanas e ambientalmente perigosas: Trabalhadores descalços segurando ferramentas obsoletas em túneis com pouca segurança, água contaminada, paisagens devastadas e envenenadas. Não há região que o fotógrafo não tenha explorado com a sua lente, pondo a nu os enormes problemas resultantes da extracção de matérias-primas.

As vibrantes fotografias de paisagens, algumas das quais tiradas de uma perspectiva aérea, não poderiam ser mais enganadoras. Um exemplo eloquente é o do deserto do Atacama, no Chile, considerado um dos lugares mais secos do planeta. Ali, o lítio é processado em grandes lagoas de evaporação, mas a água escasseia nas torneiras, para desespero das populações. Outras fotografias tiradas por Monteleone dão-nos a ver Chuquicamata, uma cidade fantasma a ser soterrada lentamente pelos sobrantes de uma mina de cobre a céu aberto. Erguida para albergar os trabalhadores da mina, Chuquicamata rapidamente se viu “engolida” devida à quantidade crescente de escória, à deposição de poeiras e aos gases da fundição próxima. Em busca de conexões entre cada elemento e a história de um indivíduo ou comunidade a ele conectada, o artista mostra as diferentes relações entre humanos e consumo, natureza e economia, acção individual e geopolítica. Uma forma inteligente e impactante de informar e envolver o público, abrindo possíveis caminhos para uma cadeia de suprimentos mais sustentável e diversificada.

quinta-feira, 3 de julho de 2025

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Places of Memory” | Andrea Hoyer



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Places of Memory”,
de Andrea Hoyer
100 Anos da Leica I - O Mundo Através do Visor
Curadoria | Magda Pinto
Museu Nacional Soares dos Reis
24 Mai > 13 Jul 2025


Pela primeira vez na sua história, o Prémio Leica Oskar Barnack foi concedido a um fotógrafo alemão. Estávamos em 2003 e a reportagem fotográfica de Andrea Hoyer, um projecto de longo prazo iniciado cinco anos antes, seria alvo do reconhecimento do júri de um dos galardões mais prestigiados do mundo, ao documentar os anseios, as perspectivas e os estados de espírito da população russa da era pós-União Soviética. Curiosidade, sede de aventura e a vontade de se envolver com outros povos e culturas caracterizam uma série cujo olhar se estende do Cazaquistão ao Uzbequistão, da Rússia à Ucrânia. Feita de imagens a preto e branco cuidadosamente compostas, “Places of Memory” foi registada com uma Leica M6 e nela podemos observar elementos representativos da antiga União Soviética, desde monumentos onde figura Estaline a vistas internas do Exército Vermelho. As vastas extensões da paisagem russa, bem como cidades e praias do Mar Negro, são igualmente retratadas.

A viver em Nova York, Andrea Hoyer concentra-se nas circunstâncias das pessoas: Na sua solidão, sozinhas ou em grupos, na falta de orientação ou de segurança no círculo íntimo da família e dos amigos. Na série agora patente no Museu Nacional Soares dos Reis, percebemos que a artista não busca o drama ousado de uma certa forma de fazer fotojornalismo, mas usa o seu apurado poder de observação para intensificar estados de espírito e mostrar de que forma se vêem reflectidos na sua própria alma. O resultado escapa àquilo que designamos por “reportagem clássica”, antes encerra uma visão muito pessoal dos lugares visitados. As pessoas que Hoyer retrata são sempre parte de uma composição geral: surgem muitas vezes cortadas ou indefinidas, ajustando-se na pose à arquitectura e às paisagens que as rodeiam como parte de um todo enigmático e complexo. No trabalho de Andrea Hoyer não há fotografias cuja interpretação seja imediata, mas isso só torna ainda mais convidativo um olhar cuidado e atento sobre cada uma delas.

Andrea Hoyer nasceu em Göttingen, em 1967, e cresceu na Alemanha e nos EUA. Estudou fotografia em São Francisco e no Centro Internacional de Fotografia de Nova York. Na Universidade de Columbia, diplomou-se em Estudos do Oriente Médio/Árabe e em 1995, após um ano a estudar a língua uzbeque, começou a fotografar nos estados da Ásia Central da ex-União Soviética e, em seguida, orientou os seus interesses predominantemente para a Rússia. Desde 2012, Hoyer começou a esculpir e a modelar cabeças de pessoas imaginárias em argila, combinando esse lado do seu trabalho com um enorme interesse por memórias individuais e colectivas e por factores como a identidade e a perda. Como sempre trabalhou numa relativa obscuridade, o reconhecimento da Leica colocou-a no mapa da fotografia, abrindo-lhe as portas de um mundo novo e mostrando caminhos que a artista desconhecia. O seu sucesso na cerimónia de premiação durante os Encontros de Fotografia de Arles recompensou a sua coragem e perseverança e chamou a atenção do público para o seu trabalho.

domingo, 22 de junho de 2025

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Hiding from Baba Yaga” | Nanna Heitmann



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Hiding from Baba Yaga”,
de Nanna Heitmann
100 Anos da Leica I - O Mundo Através do Visor
Curadoria | Magda Pinto
Museu Nacional Soares dos Reis
24 Mai > 13 Jul 2025


Bruxa imprevisível e perigosa, Baba Yaga vive numa pequena cabana no meio da floresta. Um dia, aprisiona uma jovem chamada Vaselisa, que acabará por escapar da cabana de Baba Yaga com a ajuda de um gato preto e magro. Enquanto é perseguida pela bruxa, Vaselisa lembra-se do conselho dado pelo gato e, assim, deixa cair uma toalha e um pente atrás de si. Imediatamente, um rio largo e profundo irrompe no local, tendo nas suas margens uma floresta tão vasta e densa que acabará por travar a progressão da malvada bruxa. Bem-vindos às margens infinitas do Ienissei, um rio aparentemente sem fim, cercado por florestas encantadas e pessoas em busca de liberdade. Na série que lhe valeu o Prémio Revelação Leica Oscar Barnack, em 2019, a fotógrafa documental germano-russa Nanna Heitmann registou a vida ao longo das margens do Rio Ienissei, um dos cursos de água mais longos do mundo com os seus quatro mil quilómetros de extensão. Foi ele o fio condutor de um trabalho atento, intenso e sensível, que nos convida a viajar pelo infindável reino de mitos que é a Sibéria.

O impulso inicial para o projecto surgiu durante uma temporada passada em Tomsk, na qual Nanna Heitmann tomou consciência de uma Rússia muito diferente daquela que conhecera dos filmes infantis soviéticos e contos de fadas eslavos. Apesar da mãe ser russa, para a fotógrafa a Rússia, à excepção de Moscovo, não passava de um grande espaço em branco no mapa. Decidiu, então, passar seis meses na cidade de Tomsk, na Sibéria, e foi lá que conheceu Baba Yaga, figura do folclore eslavo que dá o título a esta série fotográfica. A estadia serviu para proceder à documentação sistemática da vida ao longo do rio e da mitologia da região. Em busca de imagens oníricas, a artista pediu emprestado um jipe russo, encheu-o com todos os materiais necessários para acampar e conduziu na direcção da República de Tuva, no sul da Sibéria. Com um conjunto de imagens inspiradoras em mente e lugares que queria ver ao longo do caminho, rumou a esta região remota, na fronteira com a Mongólia, ao encontro da nascente do Ienissei.

Ao acompanhar o curso do rio, vendo-o serpentear para o norte até finalmente desaguar no Oceano Ártico, Nanna Heitmann atravessou a árida região selvagem da taiga siberiana, rica em mitos e rituais antigos. Mestres da pintura russa foram uma importante revelação visual para a artista, em particular Ivan Bilibin, ilustrador de antigos contos de fadas russos, e Mikhail Nesterov, cujas pinturas simbólicas na Galeria Tretyakov, em Moscovo, tanto a tinham encantado na infância. Esses artistas desenvolveram as suas pinturas magicamente sugestivas, baseado-as em esquemas de cores suaves que contam histórias de um mundo estranhamente misterioso. Nelas colheu a artista a inspiração para dar a ver o seu fascínio por aqueles que sabem encontrar na vastidão da Sibéria o espaço certo para viver de acordo com os seus próprios ideais. Também Heitmann tem o seu Yuri a morar não muito longe das margens do Ienissei, numa cabana construída sobre uma lixeira, onde pode viver de forma inteiramente livre. Para ver no Museu Nacional Soares dos Reis, até 13 de Julho.

quinta-feira, 19 de junho de 2025

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "La Disperata Allegria" | Gianni Berengo Gardin



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “La Disperata Allegria”,
de Gianni Berengo Gardin
100 Anos da Leica I - O Mundo Através do Visor
Curadoria | Magda Pinto
Museu Nacional Soares dos Reis
24 Mai > 13 Jul 2025


Dedicada ao quotidiano das famílias ciganas em Florença, “La Disperata Allegria” foi a série com a qual Gianni Berengo Gardin alcançou o Prémio Leica Oskar Barnack, em 1995. É no âmbito da exposição “100 Anos da Leica I - O Mundo Através do Visor”, patente ao público no Museu Nacional Soares dos Reis, que podemos apreciar este trabalho do fotojornalista italiano, graças a um conjunto de imagens de forte impacto, reveladoras de uma capacidade inimitável para capturar o país e as pessoas, a vida quotidiana e todos aqueles momentos especiais que constituem a sua particular assinatura e são o garante da singularidade do seu trabalho. Uma conversa entre Berengo Gardin e a presidente da Associação para a Defesa das Minorias em Florença serviu de ponto de partida a esta série, baseada na ideia de fotografar uma jovem família cigana cujos advogados da associação haviam conseguido impedir o sequestro de um dos seus filhos recém-nascidos – “uma prática odiosa e muito comum entre juízes na Itália”, nas palavras do fotógrafo.

Baseado nas relações de confiança que Gianni Berengo Gardin conseguiu estabelecer com estas comunidades postas à margem da sociedade, o projecto acabaria por se expandir rapidamente e de forma natural. Ao olhar do fotógrafo abriu-se a dura realidade da vida nos acampamentos ciganos da periferia de Roma. Aos poucos, Berengo Gardin e a sua Leica M conseguiram capturar um vislumbre directo e honesto do quotidiano desta família, depois de vencida a natural desconfiança e estabelecidas as bases de um trabalho assente numa incrível boa vontade e generosidade de parte a parte. Aquilo que podemos apreciar neste notável conjunto de imagens resulta dessa abertura e da possibilidade de registar um quotidiano particular nos seus mais variados aspectos, dos momentos bons e festivos, como os preparativos de um casamento ou um almoço de Natal, às condições de vida precárias, de convivência com o frio e o calor, a falta de água e saneamento, as doenças, o funeral de uma criança.

“Esta série, juntamente com uma que fiz sobre asilos, em 1969, foi o projecto que mais me envolveu emocionalmente e do qual mais me orgulho”, afirma Berengo Gardin. O trabalho do fotógrafo com os ciganos resultou numa exposição em Florença, bem como na publicação de um livro que a acompanhou, prefaciado pelo escritor, dramaturgo e artista plástico alemão Günther Grass, Prémio Nobel da Literatura em 1999. Tanto a exposição quanto o livro foram bem recebidos pela crítica e tiveram do público uma resposta muito positiva. “Mas este tema é tão controverso que não sei se as pessoas conseguiram, realmente, entender a mensagem”, reflecte o fotógrafo em retrospectiva. Quando questionado sobre a atual situação de vida dos ciganos em Itália, Berengo Gardin responde com hesitação, não se mostra confiante, afirma que “a discriminação ainda é muito comum”. E acrescenta: “Todas as tentativas para encontrar uma solução, para lhes proporcionar uma vida digna, implicam lutar contra a oposição das comunidades locais e dos partidos de direita que exploram a situação para obter apoios”.

sexta-feira, 13 de junho de 2025

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "The Road to Nowhere" | Dominic Nahr



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “The Road to Nowhere”,
de Dominic Nahr
100 Anos da Leica I - O Mundo Através do Visor
Curadoria | Magda Pinto
Museu Nacional Soares dos Reis
24 Mai > 13 Jul 2025


“The Road to Nowhere”, do fotógrafo suíço Dominic Nahr, foi a primeira série a ser galardoada com o Prémio Leica Oscar Barnack, na categoria de “estreante”. Estávamos em 2009 e o trabalho de Nahr olhava, de forma implacável, um dos conflitos mais brutais de África, centrado na dramática situação dos refugiados na República Democrática do Congo. Durante muitos anos, o seu trabalho profissional como fotógrafo e repórter de guerra colocou-o em cenários de tragédia por todo o mundo, evidenciando o impacto que os momentos de crise podem ter na vida das pessoas. A dar os primeiros passos na carreira, as experiências vividas na República Democrática do Congo acabaram por constituir um ponto de viragem na sua vida e viriam a revelar-se decisivas na orientação futura dos seus trabalhos. Então com 25 anos, o fotógrafo estava pela primeira vez num continente totalmente desconhecido para si. Ouvia dizer que os tumultos se tinham intensificado no leste do Congo e temia que a situação se agravasse ainda mais. Mesmo sem garantias de uma tão necessária protecção, a sua curiosidade empurrou-o para o local e o resultado está à vista, nesta brutal “estrada para sítio nenhum”.

Guerra no Congo, finais de 2008. Em Outubro, os rebeldes tutsis tomavam o controlo da maioria das principais estradas no leste do Congo. Com a aproximação dos rebeldes, mais de 250.000 civis fugiram através das fronteiras, na busca desesperada de algo que, simplesmente, não conseguiam encontrar: segurança. Num explosivo cenário de caos, violência e a crueldade, Dominic Nahr colocou-se a si e à sua câmara no meio da guerra, deixando que as imagens gritassem alto e permanecessem silenciosas. Arrepiantes, se pensarmos onde e como foram colhidos todos estes registos, parece-nos um quase milagre o facto de Nahr ter sobrevivido ao inferno e saído dele fisicamente ileso. As suas fotografias têm o poder de deixar o espectador em sofrimento e na esperança de encontrar uma saída para uma tão grave crise humanitária. Simultaneamente, é impossível não valorizar as composições e a estética que se desenham na obra de Dominic Nahr, absolutamente incríveis, de cortar a respiração.

Apesar de todas as vicissitudes, Dominic Nahr não hesita em afirmar que a República democrática do Congo é o país ao qual pode chamar o seu “primeiro amor africano”. Depois de passar vários meses a cobrir a guerra e a crise humanitária no leste do país, decidiu mudar-se para o continente africano até se fixar em Nairobi onde viveu durante quase dez anos. Estando no Quénia, pode continuar a trabalhar em temas que lhe interessavam, que estavam nas regiões vizinhas, como o Sudão do Sul ou a Somália. Dominic Nahr nasceu em 1983, em Appenzell, na Suíça, e cresceu em Hong Kong. Em 2008, formou-se em Toronto com um Bacharelato em Belas Artes e mudou-se para Nairobi em 2009. Desde então, dedicou-se a documentar conflitos, crises humanitárias e questões sociais críticas. Ganhou inúmeros prémios, incluindo o World Press Photo e o Swiss Press Photo Award. Patente no Museu Nacional Soares dos Reis, a série “The Road to Nowhere” inclui-se na exposição que celebra os 100 Anos da Leica I e pode ser vista até 13 de Julho.

domingo, 8 de junho de 2025

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "Svetlana" | Mary Gelman



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Svetlana”,
de Mary Gelman
100 Anos da Leica I - O Mundo Através do Visor
Curadoria | Magda Pinto
Museu Nacional Soares dos Reis
24 Mai > 13 Jul 2025


A celebrar o centenário do aparecimento da Leica I, a móvel, discreta e espontânea câmara que revolucionou o mundo da fotografia, o Museu Nacional Soares dos Reis apresenta, até ao dia 13 de Julho, uma mostra representativa de cinco dos mais consagrados fotógrafos do mundo, a par de cinco fotógrafos emergentes e cujos trabalhos foram recentemente distinguidos com o Prémio Leica Oscar Barnack. Está neste caso Mary Gelman, vencedora do Prémio em 2018 na categoria “Estreante”, com uma série fotográfica intitulada “Svetlana”, da qual pode ser vista uma parte nesta mostra. Gelman nasceu em 1994, na cidade russa de Penza, e formou-se em Sociologia antes de se dedicar aos Estudos de Género e Fotografia, na Escola DocDocDoc, em São Petersburgo. Fotojornalista e professora, os seus projetos combinam uma forte abordagem pessoal com práticas documentais e conceptuais, nomeadamente questões de género e corpo, limites e identidade, discriminação e a relação do homem com o meio ambiente.

Durante a era soviética, prevalecia a teimosa ideia de que, sob o comunismo, pessoas com deficiência não existiam. Todos os esforços foram feitos para reduzir continuamente esse número. Todos os possíveis foram feito para evitar o nascimento de crianças com deficiência. Os pais eram colocados sob forte pressão ao saber que as crianças com deficiência seriam colocadas em lares estatais, os chamados internatos. Após o colapso da União Soviética, seguido pelo colapso do antigo sistema no início dos anos 90, uma nova constituição democrática foi estabelecida, garantindo que todas as pessoas tivessem os mesmos direitos. Isso encorajou muitos pais a lutarem pelo futuro de seus filhos com deficiência. Lentamente, mas com segurança, um número crescente de centros de reabilitação foi fundado: Svetlana é um deles. A comunidade foi criada pelo Movimento Camphill e baseia-se nos princípios da antroposofia. Apoiados por tutores e ajudantes voluntários, os residentes de Svetlana cultivam os seus próprios vegetais e produzem laticínios que vendem nas aldeias vizinhas. A sua auto-sustentabilidade faz de Svetlana uma das poucas instituições na Rússia onde adultos com deficiência têm a oportunidade de um futuro profissional.

Inspirada por uma primeira visita a Svetlana, Mary Gelman trabalhou durante dois anos num projecto fotográfico na comunidade. “Fiquei realmente surpreendida com a minha vontade de regressar tantas vezes ao mesmo lugar”, lembra. O resultado é uma abordagem fotográfica com um forte vínculo interpessoal: retratos hesitantes e abordagens cautelosas; imagens situacionais que reflectem uma vida quotidiana que, a princípio, parece estranha. No entanto, é uma vivência recheada de rituais que celebram uma fascinante normalidade. Feitas de apego e sensibilidade, as imagens são o testemunho do talento da fotógrafa para uma observação precisa e dão nota de um impulso sociológico fortemente envolvente. Gelman explica: “Eu não queria mostrar a alteridade de uma pessoa, a sua deficiência. Eu queria que o observador sentisse algo claramente original sobre a pessoa.” As suas fotos transcendem quaisquer categorias como “normal” ou “deficiente”, revelando o quão livre e capaz qualquer pessoa pode ser, quando não rodeada de estigmatização e discriminação.

segunda-feira, 2 de junho de 2025

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "Ethiopian Hunger" | Sebastião Salgado



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Ethiopian Hunger”,
de Sebastião Salgado
100 Anos da Leica I - O Mundo Através do Visor
Curadoria | Magda Pinto
Museu Nacional de Soares dos Reis
24 Mai > 13 Jul 2025


“A fotografia é uma linguagem que dispensa tradução. A fotografia é a linguagem que dá às pessoas a oportunidade de ver o que você viu.”
Sebastião Salgado

Há cem anos, uma pequena câmara mudou o mundo. Apresentada ao público pela primeira vez em 1925, a Leica I revolucionou a fotografia ao torná-la móvel, discreta e espontânea, o que permitiu aos fotógrafos captar a vida tal como ela é, na sua crueza e imediatismo, como na sua autenticidade. Ao celebrar o seu centenário, a Leica presta homenagem aos visionários do Prémio Oskar Barnack, um dos mais prestigiados galardões internacionais de fotografia documental e contemporânea, através duma mostra intitulada “100 Anos da Leica I - O Mundo Através do Visor”, a qual está patente até 13 de Julho no Museu Nacional de Soares dos Reis. Reunindo obras de dez renomados fotógrafos de nível mundial, nela se inclui “Ethiopian Hunger”, emocionante e comovente série do recém falecido fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado e cujo cunho sócio-documental dá a ver ao mundo a fome na Etiópia, consequência catastrófica da seca durante os anos 80 que afectou cerca de oito milhões de pessoas. São imagens que documentam o extermínio de mais de quinhentos mil etíopes e que tiveram um forte impacto na consciencialização para o drama humanitário junto das nações industrializadas.

Conjunto de uma dezena de imagens chocantes, “Ethiopian Hunger” revela massas em fuga, acampamentos e crianças famintas. São imagens de pobreza, sofrimento e morte que Sebastião Salgado revela em toda a sua dimensão. Por detrás da câmara, ele soube perscrutar a escuridão, o abismo, o horror, juntando a arte de fotografar a um forte compromisso com a realidade. Imerso num mundo que ninguém imagina, soube concentrar-se em pessoas de carne e osso que perderam muito, senão tudo, em consequência de guerras, exploração, epidemias ou destruição ambiental. A maior parte das suas fotografias parece perguntar por que razão se vive em excesso desmedido em certas partes do mundo, enquanto outras não têm oos recursos mínimos necessários à sua sobrevivência. “Ethiopian Hunger” não responde a esta questão, nem é esse o seu desígnio. Explora, sim, as emoções que as imagens podem despertar no espectador, arrastando-o para fora da sua zona de conforto ao trazer à tona aquilo que está a acontecer noutras partes do mundo e que se mostra profundamente dissonante em relação à sua realidade. 

Sebastião Salgado oferece, bem entendido, a possibilidade de olhar para uma realidade que, de outra forma, permaneceria desconhecida. Essa realidade é cruel e desoladora: uma criança envolta num cobertor, rodeada de outras crianças, que olha resignadamente a câmara; uma mulher rodeada de crianças, apenas pele e osso, numa longa caminhada que é prenúncio de morte; um acampamento onde uma família etíope se amontoa, a ver o tempo a esgotar-se sem que uma ponta de esperança faça com que as cabeças se ergam. Em imagens de uma estética assombrosa, o fotógrafo coloca o destino e a morte diante dos nossos olhos, retirando da sombra a vida de pessoas que lutam desesperadamente pela sua sobrevivência. Sebastião Salgado recebeu o Prémio Leica Oskar Barnack em 1985 com esta série sobre a devastação causada pela fome na Etiópia. O júri soube reconhecer o valor e impacto das suas imagens, afirmando que as fotografias “tornam visíveis os pensamentos de humanidade e filantropia na nossa sociedade”. Salgado continuou a fotografar pessoas até 2000, documentando trabalhadores em minas de ouro na África e migrantes procurando fugir da fome ou da guerra. Em toda a sua vida fotografou apenas um animal; e esse animal somos nós.

sexta-feira, 4 de abril de 2025

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "Retratos" | Daryan Dornelles



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Retratos”,
de Daryan Dornelles
Curadoria | Magda Pinto
Leica Gallery Porto
22 Mar > 10 Mai 2025


“Retratar é como desvendar um segredo que ambos — fotógrafo e retratado — concordam em partilhar.”
Daryan Dornelles

Sensibilidade, criatividade e perspicácia, são requisitos indispensáveis a um fotógrafo de retratos. Daryan Dornelles possui todas essas características, o que facilmente se percebe ao apreciar a exposição “Retratos”, patente até 10 de Maio no bonito e elegante espaço da Leica Gallery, a Sá da Bandeira, no Porto. Entre os mais proeminentes artistas portugueses e brasileiros da atualidade, poucos devem ser os nomes que nunca estiveram à frente da sua câmara. Com uma simpatia única e um sorriso pronto, o seu à vontade é um vector único de descontração e desobstrução, sendo precisamente nesta forma de desconstrução que tudo tem o seu início. Os gestos, a luz, a sombra, o tempo vivido no estúdio, são um jogo quase hipnótico de conhecimento, desconhecimento e reconhecimento entre quem fotografa e quem é fotografado. Não é algo que se ensine ou se possa explicar, nem esta capacidade é para todos, mas a verdade é que conseguimos ver, nestes retratos, a conexão íntima que o fotógrafo estabelece com o sujeito que está diante da câmara.

Cidadão brasileiro a viver em Lisboa, Daryan Dornelles tem na sua paixão pela música as raízes de uma carreira fotográfica de enorme sucesso. A comprová-lo, desfilando ante o nosso olhar, Cee-Lo Green, Russo Passapusso, Luiz Melodia, Elza Soares, Carminho, Chico Buarque, Caetano Veloso, Dino d’Santiago ou Sérgio Godinho são apenas algumas das personalidades do mundo da música que figuram nesta exposição, em imagens que são, algumas delas, capas de discos ou de revistas como a GQ, a Vogue, a Esquire, a Bravo ou a Rolling Stone. Estudioso da fotografia, da sua evolução, do tipo de estética que se impõe a cada momento, o artista mostra-se particularmente atento aos detalhes e à forma como se vão alterando, procurando acompanhá-los. Ouvir música como forma de estimular a sua criatividade é outra das suas características, ele que é um coleccionador confesso de obras musicais nos mais variados formatos. Enfim, olhamos o conjunto de imagens e percebemos que aquilo que temos à nossa frente são retratos com assinatura, fruto de um olhar autoral, pessoal e intransmissível.

O retrato é quase como uma negociação entre presença e abstração. Enquanto que, por um lado, marca a identidade de alguém, é também uma construção, uma mediação do eu através dos olhos do outro, desafiando a noção de um eu fixo, que pode ser também uma identidade fluída, relacional e performática. Aquilo que Daryan Dornelles nos mostra é que fazer um retrato de alguém é estar diante desse alguém e ser-lhe permitido entrar. É como um encontro inquietante, cúmplice e único, em que se tensionam os limites entre intimidade e construção simbólica, entre o visível e o intangível. É aqui, neste encontro aparentemente simples, que nascem os retratos, entre a imagem que projectam e a verdade que guardam. “Retratos” convida o espectador a que veja para além da imagem, a que perceba a cumplicidade que é necessária entre fotógrafo e pessoa fotografada. Mas, acima de tudo, a que aprecie este diálogo entre o artista e o sujeito retratado, em que identidade e alteridade se misturam e confundem, sugerindo que ver o outro é inevitavelmente um acto de auto-descoberta.

terça-feira, 4 de março de 2025

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "Jamaika" | José Sarmento Matos



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Jamaika”,
de José Sarmento Matos
Curadoria | Magda Pinto
Leica Gallery Porto
11 Jan > 04 Mar 2025


Oficialmente conhecido como Bairro de Vale de Chicharos, o bairro da Jamaica tornou-se um símbolo controverso das tensões sociais e das dinâmicas culturais que marcam o país depois de ali se terem registados confrontos graves entre populares e agentes da PSP em finais de Janeiro de 2019. Situado no Seixal, na margem sul do Tejo, o bairro consistia numa construção de finais dos anos 70 que, por falência da construtora, ficou por concluir. Deixada ao abandono, a infraestrutura foi sendo ocupada por famílias portuguesas e imigrantes, vindas na sua maioria de S. Tomé e Príncipe, Angola, Cabo-Verde e Guiné. As péssimas condições de habitabilidade e salubridade aliaram-se à pobreza material que ali se vivia e ao estigma e discriminação da sociedade para com os seus moradores. Em 2022 foi retomado o processo de realojamento da população que havia sido anunciado quatro anos antes, sendo terminado em 2023, a que se seguiu a demolição do bairro e requalificação da área que o mesmo ocupava.

Foi no contexto da pandemia que, em 2020, José Sarmento Matos iniciou o seu contacto com o bairro, o qual veio a acompanhar de forma íntima durante três anos. Retrato profundo e sensível da vida no bairro, “Jamaika” dá-nos a conhecer, em imagens de enorme riqueza e significado, não o bairro como espaço geográfico, mas enquanto microcosmos social. A exposição fala sobre as pessoas que fizeram do bairro aquilo que foi, como se organizaram e interagiram, como se ergueram em comunidade. “Jamaika” fala-nos da vida que estas pessoas levaram, das suas alegrias, das suas lutas, dos seus desejos e sonhos, das suas frustrações e tristezas. Das desigualdades e preconceitos de que foram alvo, de como isso foi sentido no seio das famílias e da comunidade. Ao mesmo tempo, lembra-nos um passado ainda hoje muito presente e fala-nos do futuro: Do futuro destas pessoas, do futuro do bairro, mas principalmente do futuro da sociedade, que convive com tantos “Bairros da Jamaica” diariamente.

Ao mostrar-nos o bairro e ao fazer-nos sentir as agruras sofridas pelos seus habitantes, José Sarmento Matos deixa-nos um conjunto de testemunhos visuais que são uma homenagem aos seus habitantes, celebrando a sua força e resiliência e incitando à reflexão e empatia de quem vê estas fotografias. Os desafios sociais e culturais a que os moradores do bairro estavam constantemente expostos, despertam-nos para um diálogo sobre questões como inclusão, identidade e pertença, bem como a força gerada no seio das comunidades marginalizadas, verdadeira mola propulsora de revoluções. Com este trabalho, o artista desafia-nos, enquanto público, a uma compreensão mais ampla e inclusiva da diversidade social em Portugal. Acrescente-se que “Jamaika” é uma narrativa visual que combina humanidade e reflexão social e que deu origem a um documentário e mais tarde a um livro com o mesmo nome. A exposição encerra hoje.