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terça-feira, 21 de outubro de 2025

CONCERTOS & CONVERSAS: Ovar Expande '25 (IV)



CONCERTOS & CONVERSAS: Ovar Expande ’25 (IV)
Com Agostinho Rodrigues, Eurico Silva, Mário Lisboa e Joaquim Margarido
Escola de Artes e Ofícios
15 Out 2025 | qua | 21:30


Depois das emoções em torno dos oito concertos que fizeram a sexta edição do Ovar Expande, esta última mensagem tem como foco uma das várias conversas que atravessaram o evento. Mas antes, é tempo de olhar para trás e fazer um breve balanço de cinco dias extraordinários, com a figura do “cantautor” em pano de fundo. Tal como nos anos anteriores, a organização primou pelo ecletismo e qualidade das propostas, mantendo a preocupação em elevar o padrão de proximidade com o público, o que resultou em três noites de concertos com salas cheias e uma forte adesão às conversas e formações que ocuparam uma parte importante do programa. Daí que o mais caloroso aplauso seja devido a Gil Godinho, figura destacada no trabalho de preparação e concretização do evento, apoiado na sólida, empenhada, conhecedora e imensamente disponível equipa Ovar / Cultura, chefiada por José Licínio Pimenta. Ano após ano, a eles se deve o conhecimento de uma variedade gigante de projectos relevantes no panorama da nova música portuguesa, geralmente inacessíveis ao público em geral.

O envolvimento da comunidade, com a criação do coro que acompanhou a cantora Bia Maria, foi um momento de enorme relevância nesta edição do Ovar Expande, reunindo dez vozes a quem foi dada a oportunidade de ser parte integrante de um projecto enriquecedor a muitos títulos. Conhecimento, dádiva e partilha foram vectores essenciais de um processo formativo que culminou com a presença do Coro em palco, acompanhando com brio a preciosa música de Bia Maria e mostrando que “qualquer um pode cantar”. Outros momentos fundamentais desta edição do certame foram as formações e masterclasses. “Palavra cantada: Compor é cantar”, com Luca Argel, e “Palavras para outras vozes”, com Carlos Tê, ofereceram aos participantes a possibilidade de mergulhar no universo da escrita e da composição musical, conhecer os bastidores dos processos criativos e explorar as palavras, melodias e narrativas que transformam histórias pessoais em canções universais. Houve ainda lugar a um showcase de Luca Argel, no espaço exterior da Escola de Artes e Ofícios, no qual o cantor encetou uma “conversa de fila” com o público, cantando numa voz límpida e harmoniosa e encantando com as histórias da vida real transformadas em belíssimas canções.

Num evento recheado de grandes momentos, destaque para a conversa que juntou os músicos Manel Cruz e Mazela e esse enorme comunicador que é Fernando Alvim, numa emissão do programa Prova Oral transmitido em directo na Antena 3. Enfim, a conversa que justifica este texto reuniu o luthier Agostinho Rodrigues, o instrumentista Eurico Silva e o fotógrafo Mário Lisboa. Intitulado “A fusão das artes, dos ofícios e a música”, o momento assentou num cordofone “multidisciplinar” designado bandopipo, um exemplo perfeito de como a tradição e a experimentação podem dialogar entre si de forma criativa e significativa. Com sala cheia e em ambiente informal, a conversa foi precedida da inauguração da exposição de fotografia “Bandopipo: Da Aduela ao Brinde”, da autoria de Mário Lisboa, viagem fotográfica ao interior de uma tanoaria transformada em palco num concerto da Orquestra de Bandolins de Esmoriz. No centro da fusão entre as artes e os ofícios está o Bandopipo — meio bandolim, meio pipo —, cordofone conceptualizado por Eurico Silva e construído por Agostinho Rodrigues. O percurso expositivo inclui ainda videoarte de Carla Varanda, entrevistas aos protagonistas e a presença física do instrumento.

Com o Bandopipo como elemento orientador, a conversa juntou música e vinho, elementos indissociáveis num percurso milenar, entrelaçados em celebrações religiosas, festas populares e rituais sociais. E porque esta relação se exprime de forma ímpar como um mecanismo de coesão e identidade comunitária, nada melhor do que um brinde com vinho servido directamente do próprio instrumento para dar início à conversa. Assumindo-se como um “experimentalista”, mais do que “um luthier, um violeiro ou o que me queiram chamar”, Agostinho Rodrigues afirmou a sua emoção em dar corpo e vida a um objecto carregado de simbolismo, algo que “foi construído para ser tocado, que não é um brinquedo”. Falando dos desafios à sua construção, “Tico” referiu as “questões de escala do objecto, a sua ergonomia”, acrescentando que o Bandopipo “tem o braço ligeiramente mais comprido que o dos bandolins convencionais, aproximando-o da bandola”. Mas também a parte acústica levantou questões de ordem vária, o problema a ser ultrapassado “com a criação de uma caixa de ressonância exterior, com uma membrana que, ao vibrar, permite que as cordas se façam ouvir”.

O paralelismo entre a construção de pipos e de instrumentos musicais, aliado ao facto da Orquestra de Bandolins de Esmoriz ter vindo a desenvolver, desde 2013, uma série de concertos no interior de uma tanoaria da cidade, está na origem da concepção do Bandopipo. “De um momento para o outro, um espaço de trabalho transformou-se num espaço de um concerto”, lembra Eurico Silva, para quem esses momentos foram um “lançar da semente”, o impulso para a criação de um instrumento que homenageia “a fusão de duas artes, de dois ícones de Esmoriz”. Entre o popular e o erudito, a polivalência do instrumento permite a criação de sonoridades diversas em função dos diferentes ambientes, do cuidar das cepas ao copo que vai à boca. Um conceito novo que, para o instrumentista e médico de profissão, “permitirá chegar a mais públicos”, curiosos de ver, sentir e provar a música estagiada num recipiente tradicionalmente ligado ao acondicionamento e conservação do vinho.

Já Mário Lisboa começou por referir o privilégio que é poder fotografar numa tanoaria e viver um ambiente muito particular, feito de objectos, sons e aromas invulgares. Para o fotógrafo, a exposição traça um percurso sensorial que documenta o nascimento de um instrumento, mas é também um embate entre o mundo da música e do vinho, entre o terreno e o celestial: “Senti aqui, por instantes, como se tivesse saído de mim próprio, como se a fotografia me transcendesse e tomasse, ela própria, conta do trabalho.” Falando das imagens mais marcantes, Mário Lisboa refere uma fotografia de grupo – “ainda hoje não sei como é que consegui pôr na imagem aquelas pessoas todas e todas felizes” – e uma outra da tanoaria, com uma janela em fundo, “como se fossem os vitrais de uma catedral”. A terminar, refira-se que a exposição de fotografia “Bandopipo: Da Aduela ao Brinde” irá permanecer patente ao público até ao final do ano e que o ciclo experimental de criação de novos instrumentos não se fecha com o Bandopipo. Com efeito, Eurico Silva anunciou estar na calha um instrumento à base de azulejo, ainda sem nome definido e que poderá ser ouvido na 24.ª edição do CONCORDAS, no dia 22 de Novembro, no Centro de Artes de Ovar.

[Foto: Manuel Vitoriano | https://www.facebook.com/ovarcultura]

segunda-feira, 20 de outubro de 2025

CONCERTOS & CONVERSAS: Ovar Expande ‘25 (III)



CONCERTOS & CONVERSAS: Ovar Expande ‘25 (III)
Com Lana Gasparøtti, IBSXJAUR e The Legendary Tigerman
Escola de Artes e Ofícios
18 Out 2025 | sab | 21:30


Energia, ritmo, performance, alta rotação, muito suor e, por certo, algumas lágrimas, marcaram o fim desta sexta edição do Ovar Expande. Palco aglutinador dos interesses e vontades de uma organização atenta, de músicos empenhados em dar o melhor de si na defesa dos seus projectos e de um público empático e entusiasta, a Escola de Artes e Ofícios esteve ao rubro com três concertos em crescendo, três propostas vibrantes que fizeram do serão um momento único, daqueles que ficam para a história do certame como um dos mais apelativos e aclamados de sempre. Assumindo-se como pianista, compositora e produtora, Lana Gasparøtti abriu a noite em festa, trazendo consigo “Dimensions” (2024) e com ele uma estética sonora e visual rica em detalhes e de escuta intensa e viva. Com uma forte presença em palco, a artista mostrou ambição na forma de conciliar o espírito exploratório do jazz e a sua vertente de improvisação, com a pulsação rítmica e a estética da electrónica e do hip-hop, construindo um “jazz dançável”, disposto a lançar pontes tanto entre os músicos como com público. Percebe-se um cheirinho de Chick Corea e Herbie Hancock, do jazz de fusão dos anos 1970, em temas como “Missing Files”, “Dreaming”, “Mar” ou “Dimensions”, mas Gasparøtti arrisca numa linguagem musical que ousa desafiar classificações convencionais, apostada que está numa experiência sonora moderna e de fronteiras abertas. 

Depois de um muito prometedor e aplaudido início de noite, o público foi convidado a descer um piso e a ouvir a dupla IBSXJAUR, tendo à sua espera um momento fortemente performativo em torno do novíssimo “Sanity”, álbum lançado no dia anterior com o carimbo Cuca Monga e a fazer no Ovar Expande a sua estreia ao vivo. Atravessando a sala com um chapéu de chuva aberto, JAUR (leia-se “Jôr”) enfrentou o auditório disposta a deixar tudo em palco e a transformar a Sala Galeria da Escola de Artes e Ofícios numa pista de dança subterrânea. Irreverente, destemida, de uma energia ilimitada, a artista transmite uma autenticidade e uma carga emocional gigante à sua música, ligando-se a uma parte da audiência num plano altamente empático, enquanto a batida e a produção de INFRABASSESATURE conduz a uma imensidão de estados de euforia rítmica que fazem do concerto um espectáculo dentro do espectáculo. Temas como “The Molt”, “Echo” ou “Sangfroid” mostram o quanto de techno e drum & bass habitam a música dos IBSXJAUR, mas há também “Circles” ou o belíssimo “Up! ft. Marianne” a revelar a sua matriz pop, vector orientador e parte intrínseca do projecto. O que verdadeiramente impressionou na música da dupla foi a sua capacidade de transitar entre os conceitos de “concerto” e de “clube”, de articular uma narrativa lírica com a produção underground e de levar a música a assumir, em simultâneo, o palco e a pista de dança.

Se foi muito o público presente na Sala Galeria, foi muito mais aquele que encheu de emoção e aplauso a belíssima Sala Expande para escutar um dos cabeças de cartaz do certame, The Legendary Tigerman. Despojado das habituais cadeiras, o espaço foi pista de dança no concerto que encerrou a sexta edição do certame, acolhendo um carismático Paulo Furtado e a uma sonoridade muito própria, fonte de redescoberta e projecção do blues para o século XXI. Escusado será dizer que, mal ecoaram na sala os primeiros acordes de “New Love”, os corpos não mais tiveram sossego. É impossível permanecer imune à estética provocadora e performativa do artista em palco - extraordinariamente acompanhado, diga-se, por Mike Ghost na bateria e Sara Badalo na voz -, numa fusão de blues, rock, punk e elementos electrónicos. Crua, sensual e cinematográfica, a sua música convoca universos de estrada, solidão e rebeldia. “Ghost Rider”, “Naked Blues”, “Motorcycle Boy” ou “These Boots Are Made For Walkin’”, a última numa revisitação de um clássico de Nancy Sinatra da década de 1960, são disto exemplos acabados. Como o são “The Saddest Thing to Say” ou “True Love Will Find You in the End”, dois temas que integram esse marco incontornável na música portuguesa que é o álbum “Femina”. Entre a autenticidade e a inovação, o fecho ideal de uma edição de grande nível, prova da afirmação do Ovar Expande num plano superior do panorama de certames do género no nosso país.

domingo, 19 de outubro de 2025

CONCERTOS & CONVERSAS: Ovar Expande ‘25 (II)



CONCERTOS & CONVERSAS: Ovar Expande ‘25 (II)
Com Bia Maria + Coro da Comunidade, Ela Li e Afonso Cabral
Escola de Artes e Ofícios
17 Out 2025 | sex | 21:30


O segundo dia de concertos do Ovar Expande teve para oferecer três propostas surpreendentes, mas com um notável sentido de complementaridade, próximas e distantes entre si ao mesmo tempo. Assumindo a figura de “irmão do meio” no alinhamento da noite, Ela Li ocupou a Sala Galeria da Escola de Artes e Ofícios para uma hora de concerto baseado no seu álbum “Choradeira” (2023). Com Zé Cruz no trompete e percussões e Luis Sanches na guitarra, a cantora mostrou o quanto as intensas vivências no lado de lá do grande lago Atlântico se mostram presentes na sua música, pontuada de ritmos quentes — da bossa nova ao funk, do groove afro-brasileiro à electrónica subtil —, movendo-se entre a leveza de um suave “sunset” e a profundidade das emoções mais genuínas. Essa mistura resulta numa música que se escuta com facilidade, mas que não deixa de surpreender pela riqueza de cores e texturas e pelos arranjos cativantes. Distante dos palcos há bastante tempo por questões de maternidade - “Vamos Lá Mudar a Fralda” terá sido a música que mais cantou nos últimos tempos -, Ela Li está de regresso e ainda bem. Fê-lo em Ovar, preenchendo uma boa parte do serão com um misto de descontração de um dourado pôr-do-sol e a profundidade de um olhar interior que faz do amor e da amizade o caminho a seguir.

Os de memória mais afinada lembrar-se-ão de Afonso Cabral na primeira edição do Ovar Expande, altura em que apresentou o seu projecto em nome próprio, depois de uma década à frente dos “You Can’t Win Charlie Brown”. E se o fez então em “versão reduzida” - pandemia “oblige” -, a noite de ontem foi de celebração com um regresso em força que juntou em palco os companheiros de estrada habituais: António Vasconcelos Dias (piano, rhodes, moog, guitarra acústica), Pedro Branco (guitarra eléctrica), David Santos (baixo), João Correia (bateria) e Inês Sousa (voz e sintetizador). Saltitando entre “Morada” (2019) e “Demorar” (2024), os seus dois trabalhos de estúdio até ao momento, Afonso Cabral mostrou à saciedade as suas qualidades de enorme cantautor, capaz de permanecer fiel a si próprio e explorar a língua portuguesa com frescura, elegância e sentido. Temas como “Entre as Palavras e os Actos”, “Resistir”, os inevitáveis “Morada” e “Demorar”, “Indivisível” ou um muito belo e significativo “Manel”, distinguem-se pela subtileza e pelo modo como articulam entre si forma e emoção, sofisticação e proximidade, se enraizam num minimalismo elegante e se mantêm relevantes numa altura em que o “indie” nacional busca novas vozes, novas texturas, outro nível de ambição. Um momento repleto de muita e boa música a encerrar uma noite rica em emoções.

Por razões óbvias, deixei para o fim o concerto de abertura do serão, preenchido pelo concerto de Bia Maria + Coro da Comunidade. O “óbvio” prende-se com o facto de eu próprio ter integrado o Coro da Comunidade e ter podido acrescentar ao sentir de um momento musical a emoção da cumplicidade e da partilha. A apresentar em Ovar “Qualquer Um Pode Cantar”, o seu mais recente álbum, Bia Maria foi capaz de unir a beleza da voz à força da comunhão colectiva num projecto que é um verdadeiro sopro de frescura no panorama da música portuguesa contemporânea. Enraizadas no cancioneiro popular, com um “cheirinho” de fado e de bossa nova, as suas melodias fazem da voz — da dela e de todos — instrumento primordial e elo de partilha. Com Alberto Hernandez na guitarra e Samuel Louro na bateria, a artista vestiu de cumplicidade e inclusão temas como “Roupa Velha”, “O Corpo”, “Aconchegos de um Sujeito”, “Marcha da Paridade” ou “Qualquer Um Pode Cantar”, juntando em palco um coro de dez pessoas de diferentes gerações e transformando o concerto num acto de encontro com o outro e consigo própria. A combinação de tradição e inovação, intimidade e comunhão, música e cidadania, resultou num trabalho vibrante de conhecimento, escuta, partilha e comunidade, ao qual o público não ficou indiferente. Entre o acto da escuta e o de cantar mediou um pequenino passo que fez de “qualquer um pode cantar” não apenas título, mas vibrante bandeira.

sábado, 18 de outubro de 2025

CONCERTOS & CONVERSAS: Ovar Expande 2025 (I)



CONCERTOS & CONVERSAS: Ovar Expande 2025
Com Mazela e Manel Cruz
Escola de Artes e Ofícios
16 Out 2025 | qui | 21:30


Foi no Verão de 2020, em plena crise pandémica, que o Ovar Expande soltou amarras e juntou esforços, decidido a “desconfinar” a nova música portuguesa e a dar palco às suas vozes singulares e projectos inovadores. Ao mesmo tempo, assumia com veemência a ideia de transformar espectadores em protagonistas de uma experiência cultural única, de valorização do talento nacional e de celebração da força da canção enquanto arte viva. Cinco anos decorridos, o certame mostra-se imparável. Ano após ano, tem sabido repensar-se e reinventar-se – estendeu-se a novos espaços, cativou e consolidou um público apaixonado e afirmou-se como uma forte marca identitária da cultura em Ovar e uma referência incontornável no panorama musical do nosso País. Celebrando os cantautores, esta sexta edição traz à Escola de Artes e Ofícios nomes como os de Manel Cruz, Afonso Cabral, The Legendary Tigerman, Mazela, Bia Maria, Ela Li, Lana Gasparøtti e IBSXJAUR, apostada em fazer de cada concerto um encontro emotivo e intimista entre a dádiva da música e o abraço do público.

Natural de Castelo Branco, Maria Roque abriu a série de concertos da presente edição do Ovar Expande, trazendo consigo o projecto Mazela, através do qual lança um olhar sobre as imperfeições humanas, mas também sobre o acto de cuidar e curar. Acompanhada pela produção atenta de Alexandre Mendes, igualmente encarregue do acompanhamento com a guitarra, a voz suave e introspectiva de Maria Roque impôs-se ao longo do concerto em temas como “Naveguei”, “Luz no Escuro” e “Entre Amor e Ódio”, extraídos do seu primeiro EP, intitulado “Desgostos em Canções de Colo” (2024). O destaque vai para a riqueza poética de Mazela, para a sua capacidade de devolver um olhar delicado sobre temas como a dor, a perda ou a esperança, e de o fazer com uma sensibilidade que ressoa profundamente no público. Introspectivas e carregadas de emoção, as letras convidam à reflexão pessoal e à empatia. Consiga ela soltar-se de constrangimentos – mais acústica e menos eco, mais naturalidade e menos eletrónica - e cantar da forma límpida como fez em “Canção sem Final”, e rapidamente se afirmará como uma das gratas certezas da nova música portuguesa.

O final do primeiro dia de concertos do Ovar Expande foi assegurado por Manel Cruz. E que final! Em dia de aniversário, aquele que é um dos mais geniais músicos portugueses brindou o público com um leque vasto de canções, respigadas de um repertório pouco conhecido, em grande parte não editado em disco e apenas à disposição dos sortudos que têm a possibilidade de o escutar em palco. “Onde Estou Eu” e “Beija Flor”, do álbum “Vida Nova” (2019) foram os primeiros temas da noite, abrindo espaço a uma hora e um quarto da mais pura sedução. Estabelecendo um ponto de equilíbrio entre a sofisticação musical e a crueza emocional, o cantor prendeu o público de forma intensa (quase apetece dizer que o amordaçou), induzindo nele uma escuta quase reverencial. Tratando como ninguém os seus poemas, carregou-os de intimismo e de uma expressiva sensibilidade emocional em temas universais como o amor e a dor, a melancolia e a nostalgia, mas também a natureza e o quotidiano. Seria redutor destacar esta ou aquela canção, de tal forma cada uma delas se mostrou como um "ramo" diferente da experiência humana, nessa "árvore" maior da existência e do conhecimento, da dádiva e da partilha. Um concerto inesquecível, revelador do porquê de ser Manel Cruz um dos maiores cantautores portugueses de hoje e de sempre.

domingo, 20 de outubro de 2024

CONCERTOS & CONVERSAS: Ovar Expande 2024 (III)



CONCERTOS & CONVERSAS: Ovar Expande 2024
Com Emmy Curl, Gobi Bear e Mirror People
Escola de Artes e Ofícios
19 Out 2024 | sex | 21:30


Chegou ao fim a quinta edição do OVAR EXPANDE. Por força das circunstâncias, uma edição que “ganhou” um dia, chamando à Escola de Artes e Ofícios, entre quarta-feira e sábado, um elevado número de admiradores, aficionados ou simples curiosos do fenómeno da nova música portuguesa. Da pop ao rock, passando pelo jazz e pela electrónica, pela soul ou pela música de raíz tradicional portuguesa, o certame deu a ver, escutar e sentir muito do (muito) bom que se faz no nosso país em matéria musical. Criatividade, vontade de inovar, ousadia, ambição e muita energia, foram predicados da música que Emmy Curl, Mazgani, Margarida Campelo, Bardino, Gobi Bear, Sara Cruz, Laura Rui e Mirror People tiveram para oferecer ao público, fazendo de cada concerto um feliz momento de cumplicidade e partilha. Mas o OVAR EXPANDE não se limitou aos oito concertos, chamando outros e novos actores na forte relação existente entre a música e o cinema. À faceta formativa, vertida numa masterclasse e numa oficina, juntou-se a conversa, outra das imagens de marca do certame, abordando temas como a estreita ligação entre a música e os videoclips, os meios de promoção, o papel da rádio e das redes sociais num contexto de difusão ou a essência do cinema que faz com que o autor e cantor seja, também ele, produtor, realizador e actor.

A abrir a última noite do OVAR EXPANDE, Emmy Curl chamou “Pastoral” ao palco, vestindo de ritmo, harmonia e bom gosto um conjunto de músicas enraizadas na nossa tradição. Em doze inspirados temas, dois dos quais inéditos e pensados para um novíssimo trabalho que está em marcha, a artista abraçou a magia da música, mostrando as sinergias que folclore, jazz e electrónica podem estabelecer entre si, misturando-as no caldeirão da experimentação onde tudo é permitido. Entre a salutar irreverência e o profundo respeito pela tradição, Emmy Curl revelou ao público a genuinidade de um ADN sonoro que ressoa “em cada guitarra, em cada bombo electrónico e em cada voz que se ergue para cantar a nossa história”. Se dúvidas houvessem, “Poetas à Solta” (dedicada ao poeta e pensador Agostinho da Silva), “Mudança”, “Macelada” ou “Botar Água na Vinha” lá estariam para as dissipar. O destaque, no entanto, vai para as notáveis interpretações de “Maio Maduro Maio” e “Senhora do Almortão”, com Emmy Curl a acrescentar valor a dois temas maiores do nosso cancioneiro. E houve, também, a naturalidade e espontaneidade em palco, a voz única, a sinceridade que emana de frases como “o sentido da vida é a arte de estarmos juntos”, “gostava que houvesse mais amor próprio pela música portuguesa” ou “vamos todos plantar florestas”. Bravíssimo!

“Chamo-me Diogo e hoje tocamos todos juntos”. Descendo à Sala Galeria, o público pode escutar Gobi Bear, nome artístico de Diogo Alves Pinto numa alusão directa a uma espécie criticamente ameaçada de extinção. Não parece ser o caso do artista, já que a intensidade da sua música e a sua forte presença em palco têm o condão de garantir um crescente leque de fiéis seguidores. A mostrar “3”, o seu mais recente trabalho, o músico apresentou-se sozinho em palco, “desconstruindo as músicas em múltiplas camadas de guitarra e omnichord”. Músicas imersivas, intimistas, como viagens idílicas e tranquilas ao mais fundo da nossa alma, como bem se percebe em “Deepest Plains” ou “Under Flashes of White”. Como manda a tradição, o OVAR EXPANDE encerrou com a chamada música de dança. Em palco, Mirror People, alter ego do músico produtor e DJ Rui Maia, fez-se acompanhar por Rö (nome artístico de Maria do Rosário), dando a ver um conjunto de temas do seu mais recente trabalho discográfico, “Heartbeats etc.”, aos quais acrescentou muitos outros, num todo imaginativo, com muito de improviso e mais ainda de ritmo e energia. O público “obedeceu” à ordem de “arrastar as cadeiras, que isto é concerto para estar de pé” e fez da Sala Expande a sua pista de dança. O final perfeito de um OVAR EXPANDE fortemente consolidado e cada vez melhor.

sábado, 19 de outubro de 2024

CONCERTOS & CONVERSAS: OVAR EXPANDE 2024 (II)



CONCERTOS & CONVERSAS: Ovar Expande 2024
Com André Tentúgal, Bardino, Gil Godinho, Jaime Valente, Margarida Campelo, Rui Martins e Sara Cruz
Escola de Artes e Ofícios
18 Out 2024 | sex | 10:30, 18:30 e 21:30


Arrancou durante a manhã com André Tentúgal a orientar a masterclass “Música e Cinema”, prosseguiu ao final da tarde com uma conversa que, entre a música e o cinema, se expandiu também à rádio, e terminou com dose tripla de concertos, num serão que se prolongou muito para lá da meia-noite. Foi este o “alinhamento” do terceiro dia do OVAR EXPANDE, um dia repleto de momentos de alta intensidade e que voltou a dar ao público a possibilidade de perceber o quanto de ousadia, criatividade, energia e talento se abriga na nova música portuguesa. Da conversa que Gil Godinho manteve com Rui Martins (do colectivo Bardino), Sara Cruz e Margarida Campelo, artistas que viriam a subir ao palco horas mais tarde, e ainda com o radialista Jaime Valente, reflectiu-se sobre a forte ligação entre a imagem e a música em termos de promoção artística, vincando-se a importância da rádio na divulgação dos artistas e dos seus trabalhos. O cantor como actor, a má música que nenhum vídeo salva ou a certeza de que o vídeo, ao invés de matar a rádio, criou ambientes propícios a que esta se reinventasse e revitalizasse, foram tópicos de uma conversa viva e enriquecedora a abrir espaço a uma noite de muita e boa música.

Naquele que foi o primeiro grande momento da noite, o colectivo portuense Bardino subiu ao palco para apresentar “Memória da Pedra Mãe”, um trabalho editado no final de Fevereiro com o carimbo da Jazzego. Com Rui Martins nos teclados, Diogo Silva no baixo, Rafael Gomes no saxofone e Nuno Fulgêncio na bateria, a banda ensaiou uma viagem por lugares extremos, onde o etéreo e o telúrico se fundem em energia e beleza. A “Pedra Mãe” - uma alegoria inspirada nas pedras parideiras, fenómeno geológico raro que acontece aqui bem perto, na Serra da Freita - funciona como um catalisador de memórias, dispostas em temas com os sugestivos nomes de “Giesta” ou “Tília”, “Fumo” ou “O Semeador”. Nas múltiplas camadas de que se reveste a música dos Bardino, percebem-se as cores da mais elementar matéria, cuja pureza e a dureza confluem num mundo subterrâneo, insólito e ameaçador. Entre o rock e a electrónica, a música dos Bardino abre igualmente espaço ao Jazz, numa salutar linha de experimentação que desafia convenções e desvenda novos horizontes. Um belíssimo concerto, a predispor para uma noite com muito ainda para oferecer.

As convulsões do magma e a violência dos fenómenos eruptivos, tão presentes na música dos Bardino, estendem a viagem até S. Miguel. Açoreana de gema, Sara Cruz abre-nos as portas da sua ilha com “Fourteen Forty-Five”, um trabalho com a chancela da Locomotiva Azul acabadinho de publicar. Também aqui, é intensa a ligação entre o etéreo e o telúrico, embora estejamos muito longe dos mistérios crus e densos que se abrigam nas profundezas, como sugerido no momento anterior. Inspirada, feita de leveza e fantasia, a música de Sara Cruz convoca as paisagens verdes e azuis das ilhas, o ondulado das suas colinas, os caminhos bordejados de hortênsias, os pastos da erva mais verde que se estendem a perder de vista. É nos caminhos da pop que os temas se expandem, tirando o melhor partido da bonita voz da cantora e do ambiente acústico que a sua viola proporciona, muito bem acompanhada em palco pela viola de Miguel Garcia e pela bateria de Francisco Santos. Rompendo com a hegemonia da música inglesa nos temas que compõem o disco, Sara Cruz trouxe-nos “Na Ponta da Madrugada”, um tema que integrou o projecto dos picarotos “Mar e Ilha” e que é cantado na língua de Camões. Um momento que acrescentou beleza a um concerto intimista e de uma grande sinceridade.

No sobe e desce entre a Sala Galeria e a Sala Expande da Escola de Artes e Ofícios, a ideia da viagem prolongou-se com Margarida Campelo a assumir o último momento da noite. Acompanhada por Raquel Pimpão (teclas), João Correia (bateria) e António Quintino (baixo eléctrico), a cantora apresentou “Supermarket Joy”, o seu primeiro trabalho a solo, publicado em Maio de 2023 pela Discos Submarinos. Com “Maegaki”, as primeiras notas elevam-nos no ar, as sucessivas vagas sonoras e os loops vocais a convocarem o espaço sideral. A batida forte não se faz esperar e, com ela, uma descida abrupta à superfície das águas com “Physali Fit” em dose dupla, um tema que conjuga na perfeição as vertentes instrumental e coral. Está dado o mote para um concerto marcado por um registo “entre terra e céu”, com momentos verdadeiramente impactantes como aquele rap de Raquel Pimpão em “Mapa Astral” ou o solo intenso de Margarida Campelo em “Aura de Panda”. “Tropicais”, “Gemma”, “Deusa”, “Love Will Never Be Enough” ou “Mexe-te Mais um Pouco”, levaram-nos por caminhos da pop, mas também do R&B, da Bossa Nova, da Soul e do Jazz, numa paleta de géneros eclética e de um bom gosto inexcedível. O final perfeito de um dia feliz no OVAR EXPANDE.

sexta-feira, 18 de outubro de 2024

CONCERTOS & CONVERSAS: OVAR EXPANDE 2024 (I)



CONCERTOS & CONVERSAS: Ovar Expande 2024
Com Bernardo Freire, Joaquim Margarido, Laura Rui, Mazgani, Miguel Araújo, Tiago Alves
Escola de Artes e Ofícios
16 e 17 Out 2024 | qua e qui | 18:30, 21:30 e 22:30


Nascido da vontade de expandir horizontes à nova música portuguesa e de, num enquadramento inovador, trazê-la para mais perto do público, o OVAR EXPANDE está de regresso para a sua quinta edição. Concertos, conversas, oficinas e masterclasses, são, ao longo de quatro dias, vectores de entretenimento, criatividade, inovação e conhecimento, evocando “a arte e o ofício” de fazer e conhecer a música. Numa edição que explora a ligação da música e da palavra à sua dimensão cinematográfica, o certame arrancou na noite da passada quarta-feira com uma conversa moderada por Tiago Alves e que teve como convidado o músico Miguel Araújo. O visionamento de um punhado de videoclips abriu espaço a um saboroso momento de partilha de ideias, opiniões e algumas curiosidades, dando a ver uma faceta menos conhecida de Miguel Araújo, a de (excelente) conversador, disfarçando muito bem a sua timidez (assumida) e aceitando abrir o jogo sobre o seu processo criativo, a ligação entre a música e as imagens dos seus videoclips, as grandes referências musicais (e não só), o desconforto de estar em palco sem uma guitarra ou os medos de quem não sabe dançar.

O segundo dia do OVAR EXPANDE voltou a explorar o cruzamento do cinema com a música, através de uma conversa que reuniu o cantor Mazgani e o crítico de cinema Bernardo Freire. Centrado no filme documental de Rui Pedro Tendinha, “Estrada para Mazgani”, o momento teve moderação de Joaquim Margarido e permitiu desvendar a “estrada” a que o título se refere. De uma humildade tocante, o músico partilhou as histórias que se abrigam em duas décadas de carreira, o olhar apontado em frente. Bernardo Freire ajudou a descodificar o lado “road movie” que o filme de Tendinha ostenta e Mazgani, entre o compromisso com os seus fãs e a aventura de cantar em português, concluiu que “queria era ser Wagner, ser Beethoven, escrever a Sagração da Primavera”. Ainda que sem o estatuto de génio, é um artista carismático, talentoso, com uma forte presença em palco, contagiante de energia e intencionalidade. Foi isso que o público presente na bonita Sala Expande da Escola de Artes e Ofícios pode constatar, no concerto que fechou a noite, no qual o artista revisitou temas como “River of Stone” e “Glowing Horses” ou, recuando um pouco mais, “The Poet’s Death” ou “The Traveler”. A grande novidade esteve, porém, em “A Avenida”, que abriu o concerto, mas também em “Frente Leste” ou “Romanceiro”, a “Chama” ou o fabuloso “Cidade de Cinema”, dando a escutar algumas das pérolas do seu último trabalho discográfico.

Entre a conversa e o momento musical que fechou a noite em verdadeira apoteose, o OVAR EXPANDE abriu a série de oito concertos, como é da tradição, com a chamada “prata da casa”. A dar os primeiros passos, mas já com um conjunto de prestações que abrem em promessa e certeza uma carreira que se adivinha recheada de momentos felizes, Laura Rui chamou à Sala Galeria da Escola de Artes e Ofícios um respeitoso número de aficionados, que a acompanharam entusiasticamente ao longo de uma hora de belíssima música. Com Sofia Queirós no contrabaixo e Sónia Sobral no acordeão, Laura Rui fez do alinhamento deste seu concerto uma sequência de poemas cantados, dos quais emergiu a vontade e a força do ser mulher. Em composições inspiradas, com uma voz feita sussurro breve ou intenso grito, a artista de Ovar levou-nos por caminhos de firmeza e coragem, ao encontro das mulheres de Maria Teresa Horta e de Sophia de Mello Breyner, de Fausto Bordalo Dias, José Afonso e António Gedeão. No breve espaço de uma hora, Laura Rui pôs em palco todo o seu querer, ao mesmo tempo mostrando que conhece bem a estrada que decidiu percorrer. O reconhecimento do público fez-se sentir em ovações prolongadas e sentidas. “Há mulheres que são maré em noites de tardes… e calma”.

domingo, 8 de setembro de 2024

TERTÚLIAS LITERÁRIAS: "Conversas às 5" | Diogo Leite Castro



TERTÚLIAS LITERÁRIAS: “Conversas às 5”,
com Diogo Leite Castro
Moderação | Joaquim Margarido Macedo
Centro de Reabilitação do Norte
05 Set 2024 | qui | 17:00


Com as baterias carregadas após a pausa de Verão, as tertúlias literárias “Conversas às 5” regressaram ao Centro de Reabilitação do Norte para mais um final de tarde à roda dos livros e da leitura. Promovida por esta instituição de saúde, a iniciativa contou com a forte adesão de um público maioritariamente composto por utentes do Centro, que receberam calorosamente Diogo Leite Castro, o convidado desta 16.ª sessão. Aberto à partilha do seu mundo literário com a plateia, o escritor foi acolhendo com entusiasmo as questões que moderador e público colocaram ao longo de uma hora de conversa, a todos respondendo com enorme solicitude, franqueza e generosidade. Uma hora de puro prazer envolto em livros, olhando processos criativos, as possibilidades que se abrem perante uma página em branco, as “private jokes” que se escondem num lugar ou numa personagem, a fixação na secção de necrologia do JN, Cesare Lombroso, Mário Cláudio e a livraria Flaneur, os conceitos de identidade, eternidade e transcendência, o pensamento e a opinião, o real e o aparente, a mentira e a verdade.

Num espaço luminoso com o mar em pano de fundo, as primeiras palavras de Diogo Leite Castro foram para uma plateia onde pontificavam as cadeiras de rodas e que, olhada nos olhos, foi classificada pelo escritor, no melhor dos sentidos, de “muito impressionante”. Voltando-se para os livros enquanto “objectos transcendentes”, como canta Caetano Veloso, o escritor confessou que a leitura foi amor à primeira vista, “um amor que nunca me desiludiu, nunca me abandonou e que eu nunca abandonei. Um amor muito próximo da perfeição, o que tem um carácter transcendente, [uma vez que] amores perfeitos só no campo da transcendência.” Este amor deve-o a duas professoras de português que não esquece, bem como à escola e às leituras obrigatórias, “porque me orientaram sempre nos melhores caminhos”. Hoje, pode dizer que a leitura e a escrita servem, sobretudo, para o salvar: “Eu trabalho para ganhar a vida, mas a literatura entrou em mim para me salvar de um quotidiano hostil, difícil, que me obriga a tomar decisões complicadas. A literatura faz com que possa afastar-me de tudo isso e, em grande medida, salva-me.” Dos primórdios de uma relação apaixonada e apaixonante fica, ainda, a ideia de que “a leitura nos afasta das decisões difíceis da vida, ao passo que a escrita nos obriga a tomar decisões.”

A conversa evoluiu, muito naturalmente, para o processo criativo, com Diogo Leite Castro a falar de “exercício tortuoso” ao referir-se à escrita. “Parece-me que estou constantemente a liquidar personagens, a liquidar possibilidades”, diz. E exemplifica: “Quando digo que aquela personagem se desloca de casa para a escola, estou a destruir todas as outras possibilidades, o ir ao cinema ou uma ida à praia, por exemplo. Preocupam-me as ausências, o que gostaria de ter dito e acabo por não dizer. Mas a vida é mesmo assim, provoca-nos constantemente e obriga-nos a tomar decisões. É terrível a dialéctica que se estabelece entre o que se diz e o que não se diz, o que se escreve e aquilo que não se escreve.” Abordando o método de escrita, o escritor revela: “Tenho o texto aberto muitas horas, mas não estou sempre a escrever. Escrevo um parágrafo e paro, vou fazer outras coisas, regresso ao parágrafo, revejo-o, acrescento mais uma linha. (…) O livro acaba por ser um organismo vivo, que cresce à medida que se vai fazendo.”

Olhar os três livros que estão, literalmente, em cima da mesa - o livro de contos “Histórias da Vida Moderna” (2015) e os romances “Descrição Abreviada da Eternidade” (2020) e “Biografia do Esquecimento” (2024) - é o passo seguinte. O primeiro livro de contos parte de um conjunto de episódios que aconteceram com pessoas próximas do escritor e que, de alguma forma, tinham um lado hilariante. “Partilhava os contos com essas pessoas e, realmente, elas reconheciam-se nas personagens e tiravam um enorme gozo do que escrevia”, lembra. No meio desta corrente de textos que foram circulando, alguém pegou nos contos e decidiu publicá-los. Assim nasceu um escritor. Já o mesmo não acontece com os romances. Enquanto os contos refletem as vivências e experiências pessoais sem grandes filtros, nos romances percebe-se um distanciamento do real, substituído por pensamentos que o autor foi formulando, ideias que foi construindo, leituras que foi fazendo. Nesta medida “os meus romances acabam por ser a expressão de uma vontade de fazer algo mais ambicioso”.

Olhando ambos os romances, o moderador começou por estabelecer uma relação entre eles, fazendo vincar que é muito mais o que os une que aquilo que os separa. O processo criativo vem novamente à baila: “Uma pessoa que é bem disposta no dia a dia, tem sempre dentro de si uma outra que o não é. É essa outra figura que eu gosto de explorar porque, literalmente, é muito mais rica que o seu contrário. Por isso, os meus romances são povoados por personagens angustiadas, presas dentro do seu próprio labirinto, que duvidam de si e dos outros. São personagens que oferecem muito mais possibilidades à criação de um universo literário do que uma personagem para a qual está sempre tudo bem.” Do primeiro romance diz que fala de “contaminação” e de “crises de identidade”, do que já não somos ou poderíamos ser quando somos contaminados pelos outros. Dessa tomada de consciência resulta a procura de uma purificação física, esperando que essa purificação possa ser também espiritual: “De que forma o fazemos? Tomamos um banho e vestimos uma túnica branca, como o Cravel do livro.”

“Biografia do Esquecimento” não foi esquecido. Diogo Leite Castro corrobora a opinião de um conjunto de personalidades que sustentam que “todas as biografias ou auto-biografias tendem para o romance, e que todos os romances tendem para a biografia ou auto-biografia.” Porém, no caso concreto deste seu último romance, a questão pode colocar-se com toda a legitimidade: “Escrever sobre a vida de alguém que, aparentemente, não fez nada, será que vale a pena? O que é que vou escrever sobre aquela pessoa se ela não tem nada para dizer?” O que levanta duas questões não menos legítimas: “Será que a nossa biografia se resume apenas àquilo que fazemos? Ou não será que nós somos também o que pensamos, sonhamos, desejamos e gostaríamos de ser? O escritor responde: “Se formos capazes de ter sonhos e ideias, independentemente de os concretizarmos ou não, isso deve ser considerado para efeitos da nossa existência, da nossa biografia. Escrever sobre isso é muito mais estimulante do que escrever coisas tão banais, como “formou-se nesta data”, “seguiu esta ou aquela carreira”, “foi presidente aqui ou ali”, que é o que encontramos na Wikipedia”.

Entramos na parte final da tertúlia e é tempo de abrir as questões à plateia. As respostas não se fazem esperar, com dicas para escrever nas mais variadas circunstâncias, dilemas confessados sobre o alívio ao terminar um livro e a angústia sentida quando o “síndrome de privação” ataca o escritor ao fim de algum tempo (“já passaram dois meses e ainda não escrevi nada, o que é que se passa?”), o escrever à mão ou em computador, os “gatilhos” necessários para iniciar um romance. “Estou a tentar escrever qualquer coisa e, neste momento, tenho três folhas que demoraram três meses a completar” é uma das últimas revelações, numa espécie de regresso ao princípio, às possibilidades que se abrem perante uma página em branco, à escrita como processo salvador, mas que dá muito trabalho. As últimas ideias vão para as pessoas que amamos e que, objectivamente ou de forma subtil, gostamos de pôr nos livros em jeito de homenagem, para os livreiros e as livrarias que têm a capacidade de se reinventarem e para uma Zundapp de estimação, “que falha sempre”. Uma muito merecida salva de palmas encerrou a sessão, com a promessa de que as “Conversas às 5” regressarão em Novembro. Estejam atentos.

sábado, 24 de fevereiro de 2024

TERTÚLIAS LITERÁRIAS: “Conversas às 5” | Valdemar Cruz



TERTÚLIAS LITERÁRIAS: “Conversas às 5”,
com Valdemar Cruz
Participação especial | Álvaro Domingues
Moderação | Joaquim Margarido Macedo
Centro de Reabilitação do Norte
22 Fev 2024 | qui | 17:00


Com a emoção de sempre e um renovado vigor, as “Conversas às 5” regressaram ao Centro de Reabilitação do Norte após quatro meses de interregno. Aberta a todos, a 13ª. sessão das tertúlias literárias contou com a participação de uma dezena de doentes internados na Instituição, a quem foram dirigidas as primeiras palavras de saudação e agradecimento pela sua presença e interesse. Palavras que se estenderam ao restante auditório e, em particular, ao convidado da sessão, Valdemar Cruz, jornalista que nas últimas três décadas fez parte da redação do semanário Expresso e que acaba de lançar o livro “Paisagens Construídas – O Passado e o Presente da Arquitetura Portuguesa em 16+1 Obras”. E foi, muito justamente, em torno da arquitectura que a conversa fluiu, enriquecida pela participação especial de Álvaro Domingues, geógrafo e Professor da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, e pela espontaneidade e dinâmica de um público “interessado e interessante”.

“Não sou arquitecto nem tenho nenhuma formação em arquitectura. O que eu sou é jornalista e aquilo que eu faço, e sempre fiz, é contar histórias”. Abrindo a conversa com esta ressalva, Valdemar Cruz pôs em evidência, ao longo de noventa minutos, a sua faceta do “jornalista-contador-de-histórias”, o olhar atento e um apurado sentido crítico a “condimentarem” as histórias que se propôs partilhar com o público. “Andar pela rua e reparar nas coisas, e nomeadamente reparar nos prédios, porque nos contam muitas histórias”, terá servido de ponto de partida para “elencar um conjunto de obras que são realmente importantes no contexto da Arquitectura portuguesa” e avançar com o projecto para este seu livro. Para tal, implicou no processo mais de cinquenta pessoas directa ou indirectamente ligados ao fascinante mundo da arquitectura, pedindo-lhes que indicassem as cinco obras “que mais as comoveram, que mais as influenciaram”. Daqui resultaram 133 nomeações, das quais extraiu aquelas que recolheram o maior número de “votos”, chegando assim a este corpo de dezasseis obras “representativas do que de melhor se fez na arquitetura portuguesa desde o início do século XX até a atualidade”.

Debruçando-se sobre o livro, Valdemar Cruz começou por confessar que o produto final “é bastante melhor do que aquilo que tinha imaginado”. Falar de obras tão belas exigia “um livro bem construído em todos os seus aspectos” e a solução foi avançar para uma edição de autor, acrescentando à parte literária da obra uma forte componente visual através das mais de cem fotografias a cores de Inês d’Orey, o todo cuidadosamente harmonizado graças ao design gráfico com assinatura do André Cruz Studio. Folheando este seu “bebé”, como lhe chamou o moderador, Valdemar Cruz trouxe ao de cima as histórias por detrás de algumas das obras. Pegando numa “deixa” de Álvaro Domingues sobre arquitectura e poder, falou dos convidados na inauguração do edifício da Fundação Calouste Gulbenkian e a estagnação que representam face a uma obra que prenuncia o 25 de Abril e é “sinónimo de futuro”. Também da intenção dos arquitectos Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas em romper com o cânone e criar “uma arquitectura revolucionária num país em ditadura” com a construção da Igreja do Sagrado Coração de Jesus, em Lisboa. Ou ainda o extraordinário trabalho de arquitectura de Archer de Carvalho, Nunes de Almeida e Rogério Ramos em torno da Barragem e Complexo de Picote, em Miranda do Douro.

Convidado especial desta sessão, Álvaro Domingues também começou por fazer a ressalva de que não é arquitecto, o que lhe permite estar “mais atento à linguagem dos arquitectos sobre a arquitectura”. Com o brilhantismo que lhe é reconhecido, falou da importância de “ler arquitectura” e quais as ferramentas que nos podem ajudar a “avaliar as muitas questões que a arquitectura trata”. Foi o tempo de trazer para a discussão um dos textos seminais da cultura da Antiguidade Clássica, o tratado “De architectura” de Vitrúvio, escrito no Século I a.C. . Explorando os conceitos vitruvianos – “firmitas”, “utilitas” e “venustas” –, Domingues desafiou os ouvintes a terem presente as ideias de firmeza, funcionalidade e beleza no momento de olharem uma obra (qualquer obra) de arquitectura e perceberem qual destas “ferramentas” valorizam acima das restantes. Da “caixa de sapatos” da Casa da Música à função de um espigueiro, da íntima relação entre estética e anestesia aos candeeiros da casa de Álvaro Siza, das arquitecturas “que pesam ou que voam” ao Tanque da Afurada, o público foi convidado a participar numa verdadeira aula de arquitectura, onde avultaram a clareza da exposição e o valor dos ensinamentos.

“As palavras são como as cerejas”, fez notar Valdemar Cruz, quando confrontado com o avançar da hora. A parte final da conversa ficou marcada por uma apresentação muito breve de três outros livros seus, um deles com ponto de partida em trinta e quatro depoimentos de personalidades da cultura portuguesa e intitulado “O Que a Vida me Ensinou” e os outros dois baseados em investigações jornalísticas, “Histórias Secretas do Atentado a Salazar” e “A Filha Rebelde”, este último em co-autoria com o jornalista João Pedro Castanheira. Para o final ficou também a descodificação do “+1” que surge no livro “Paisagens Construídas” e que Valdemar Cruz explica como sendo a possibilidade oferecida ao leitor de ter, também ele, o poder de escolher as suas obras de arquitectura favoritas e de acrescentar “mais uma” às dezasseis obras detalhadas no livro. As últimas palavras foram de Álvaro Domingues, considerando ser este “um livro obrigatório”, graças à sua linguagem simultaneamente acessível e rigorosa, contrastando com a “linguagem encriptada” dos livros feitos por arquitectos para arquitectos. É também um livro “que cria um genuíno interesse pela arquitectura, pelas diferentes formas de a ver, pelos seus autores. Aguça imenso o apetite e contribui em muito para a cultura arquitectónica”, concluiu.

domingo, 22 de outubro de 2023

CONCERTOS & CONVERSAS: Ovar Expande '23 Dia 3



CONCERTOS & CONVERSAS: Ovar Expande ’23
S. Pedro
Lika
Best Youth
Escola de Artes e Ofícios
21 Out 2023 | sab | 21:30


Ponto final na quarta edição do Ovar Expande! Em tempo de balanço, destaque para a aposta na qualidade e diversidade do evento, materializado em propostas de enorme interesse e que deram a ver o quanto a nova música portuguesa segue os melhores caminhos neste processo de inovação, crescimento e afirmação da sua identidade. Programando inteligentemente uma série de oito concertos - aos quais se deve acrescentar um vasto programa paralelo onde as conversas assumiram um papel relevante -, os organizadores conseguiram o milagre de adequar os espaços e os tempos às características de cada momento, criando sinergias e potenciando processos que permitiram acompanhar o certame de forma integrada e vivê-lo em modo de alta-voltagem. O entusiasmo e carinho do público foi uma constante ao longo dos três dias do Festival e o resultado final é extraordinariamente positivo, devendo deixar programadores, produtores e organizadores particularmente orgulhosos do seu trabalho e certos da excelência do Ovar Expande como um certame único e diferenciador.

No arranque do último dia, S. Pedro subiu ao palco e encheu de graça uma sala espande a abarrotar de público. Com os primeiros acordes veio a suspeita de uma música muito bem feita e melhor interpretada, que o tempo acabaria rapidamente por confirmar. Num alinhamento repartido por temas dos álbuns “O Fim” e “Mais Um”, o público foi levado por caminhos pessoais e íntimos ao sítio do primeiro beijo, a um miúdo medricas, a uma bebida ao balcão ou a uma espera em Campanhã. Em geografias de terra batida ou alcatrão, vielas estreitas e quartos de aluguer, a música do S. Pedro vive do pragmatismo e do golpe de cintura, do desenrascanso e do dia de hoje. Se é amor, é amor. Se é merda, é merda. A vida tem coisas muito boas e não podemos dar-nos ao luxo de desperdiçar o momento. “O mundo é onde eu calcar o chão”. Pedro Pode, Tó Barbot, Cláudio Tavares e Sérgio de Bastos trouxeram-nos um rock mais puro que duro, daquele que sabe bem e faz bem. Perdermo-nos nos porquês de não conhecermos tanto umas bandas e tão pouco outras seria o mote para uma bela conversa (talvez os organizadores queiram pegar na dica e pô-la em prática no próxima edição do Festival), mas apetece dizer que, se mais motivos não houvesse, S. Pedro justificaria por si só a existência de um festival como o Ovar Expande. “Podia ser sempre assim.”

Lika, cantora originária do Cazaquistão que vive há oito anos em Portugal e se fez notada pela sua participação no The Voice em 2021, assumiu o concerto do meio, nele reunindo um conjunto de temas que fazem parte do seu álbum “Back To Zero”. Foi bom sentir gratidão nas palavras que dirigiu ao público e a sua simpatia não terá deixado ninguém indiferente, mas em matéria de música ficou tudo um pouco aquém do esperado. Letras algo pueris, muita insegurança na voz e solos instrumentais demasiado longos (em loop, enquanto a cantora trocava de guitarra de forma incessante), levaram a que o interesse no concerto fosse decaindo, apesar do esforço louvável de compor e cantar em português. Para o fim ficam os Best Youth, banda portuense assente no duo Rocha Gonçalves e Catarina Salinas, a quem coube a responsabilidade de encerrar o Ovar Expande. Do momento ficou a ideia de uma música muito bem desenhada, ancorada nos ritmos voláteis do indie rock e do dream pop electrónico, uma música apelativa e particularmente dançável. O público não se fez rogada e a sala espande foi, pelo espaço de uma hora, pista de dança animada e sacudida. Um final alegre e contagiante, a resumir o tom deste ciclo de oito concertos em três noites ricas de palavras e de música.

sábado, 21 de outubro de 2023

CONCERTOS & CONVERSAS: Ovar Expande ’23 Dia 2



CONCERTOS & CONVERSAS: Ovar Expande ’23
Sean Riley
Evaya
Ana Lua Caiano
Escola de Artes e Ofícios
20 Out 2023 | sex | 21:30


Domando a “cena instrumental” que tomou conta do primeiro dia do Ovar Expande ’23, a voz, esse instrumento por excelência, foi marca distintiva comum aos três concertos deste dia intermédio. O público voltou a preencher por completo os espaços da Escola de Artes e Ofícios e a generosidade dos artistas e o valor das suas propostas foram evidências maiores de uma noite que teve de tudo para agradar a todos. Sean Riley (Afonso Rodrigues) assumiu o primeiro momento e, em palco com a sua guitarra acústica e o seu forte carisma, ofereceu-nos um conjunto de temas que constituíram, em si mesmos, uma viagem a dois lugares que lhe são particularmente queridos e que percorreu recentemente na companhia de Paulo “The Legendary Tigerman” Furtado, deles fazendo títulos de trabalhos discográficos: California e Andaluzia. Paisagens desérticas e horizontes a perder de vista casam na perfeição com a voz de Sean Riley, puxando para primeiro plano a música de tradição americana, em particular a folk e os blues. Temas como “L.A.”, “Every Star”, “One Day” ou “Good Kids” cativaram pela sua intencionalidade e despojamento, os vivos aplausos dispensados no final sendo prova de admiração e gratidão por parte do público.

Com uma carreira a dar os primeiros passos (produziu a primeira canção em 2018), a Evaya (Beatriz Bronze) coube a espinhosa missão de suceder a um “peso pesado” e segurar a fasquia num nível particularmente elevado. Desafio aceite, desafio ganho, a artista pôs no Palco Galeria o experimentalismo da sua música e a força das suas palavras, carregando de lirismo o segundo momento da noite. Com Polivalente (“a minha banda”) num plano recuado, Evaya surpreendeu pela sua expressividade e graça, mas sobretudo pela beleza da sua voz e riqueza dos seus poemas. Cantando quase exclusivamente em português, a artista trouxe com ela as certezas de quem tem os pés bem assentes na terra e sabe o que quer. Extraído do tema “Doce Linguagem”, “(…) escolho a Paz / em vez de querer estar certa”, é verso de canção e ideal de vida, arrastando para outra dimensão a intencionalidade do poema. Reveladoras de uma maturidade surpreendente, as mensagens vão-se fazendo anunciar e, devagarinho, acabam por entrar e sentar-se ao nosso lado. “Pertences às palavras / és livre do não-ser.”

A encerrar a noite, Ana Lua Caiano e a sua loop station deram mostras do que são capazes. Com recurso a uma panóplia de instrumentos populares de percussão - o bombo e o adufe, a pandeireta, o brinquinho ou a melódica - e a vocalizações muito simples, a artista cria o ambiente de fundo sobre o qual se derrama uma música de raíz tradicional portuguesa, com versos inspirados num quotidiano feito de mal (me) quereres e corpos em mudança, lembretes e pessoas indecisas, mãos nas mãos e dores de cabeça, malas feitas e adeus. Juntando a uma voz bastante versátil, a harmonia e o bom gosto das composições e uma forte presença em palco, Ana Lua Caiano teve para oferecer uma hora de excelente música, reservando ainda algum tempo para explicar ao público um conjunto de pormenores que estão na base do seu processo criativo. “Cheguei Tarde a Ontem” e “Se Dançar É Só Depois”, títulos dos seus primeiros trabalhos, estiveram na base de um alinhamento onde tiveram igualmente lugar alguns temas originais e que farão parte de um novo álbum a editar no próximo mês de Fevereiro. À saída, a satisfação do público era bem patente nos rostos como nas conversas. Não cessa de se expandir este Ovar Expande!

sexta-feira, 20 de outubro de 2023

CONCERTOS & CONVERSAS: Ovar Expande '23 Dia 1



CONCERTOS & CONVERSAS: Ovar Expande ’23
Bonifácio
Tó Trips
Escola de Artes e Ofícios
19 Out 2023 | qui | 21:30


Está em marcha a quarta edição do Ovar Expande. Em palco ou em sala, entre concertos, conversas, oficinas de experimentação, ações de formação técnica e masterclasses, “a ‘arte e o oficio’ de pensar, fazer e trabalhar a música”, expande-se por universos criativos surpreendentes e inspiradores que se abrem ao que de melhor a nova música portuguesa tem para oferecer. O “pontapé de saída” foi dado ao final da tarde de ontem no Bar do CAO e colocou no centro das atenções o livro “Ínfimas Coisas”, Road & Roll Book editado em parceria pela Cutelo e pela Revolve e que viu a luz do dia no passado mês de Março. Juntando perto de uma centena de fotografias a um conjunto de textos minimalistas que abrem a porta a alguns dos momentos ínfimos e íntimos das duas últimas décadas de vida e carreira de Tó Trips, o livro mostra-se em música e poesia, singelos detalhes e ternas memórias, representando uma forma de “arrumar ideias”, abraçar aqueles que foram (e são) fundamentais na vida do autor e virar a página após o terrível período pandémico e o fim dos Dead Combo. Moderada por Joaquim Margarido, a conversa teve cobertura da Rádio AVFM e pode ser escutada na íntegra AQUI.

O Palco Galeria da Escola de Artes e Ofícios recebeu o concerto de abertura do Ovar Expande ’23 e, tal como no ano anterior, a responsabilidade do momento inaugural coube a um artista “da casa”. Com uma consola, uma panóplia de fios, cabos, entradas e luzes de todas as cores, Bonifácio trouxe-nos uma experiência musical que recorre a técnicas de composição de música generativa, propondo ao público um conjunto de viagens no espaço e no tempo ao sabor da imaginação e do estado de alma de cada um. Foi tempo de fechar os olhos e relaxar, deixar o pensamento fluir em voo livre e abraçar a música. Mergulhados numa labiríntica floresta de imagens que se vão formando na nossa cabeça, sentidos alerta na sugestão de um saxofone ou de uma guitarra, de uma bateria ou de um órgão, entramos nesta oficina de sons que é simultaneamente espaço físico e virtual, à vez palco e espaço sideral. A harmonia e o ritmo passeiam-se de mais dadas, em melodias que se sucedem umas após outras e nos arrastam para as mais diversas dimensões. A experiência acaba, mas as ondas prolongam-se, como réplicas que não cessam de se fazer sentir.

Subimos um piso e ocupamos o espaço da Sala Espande. A noite encerra com Tó Trips e a apresentação de “Popular Jaguar”, o seu mais recente trabalho. Com ele estarão António Quintino no contrabaixo e guitarra acústica e Helena Espvall no violoncelo, para uma hora de concerto que se revelará único, na sua música intimista como naquilo que transmite, profundamente intenso e inspirador. De momento só Tó Trips está em palco e “Península dos Índios” é o tema de abertura do concerto. O pé esquerdo bate com força no estrado. Marca o ritmo, marca a raiva. Há Lisboa na música, como há fado e há tango. Há canoas no Tejo, há miúdo da Bica e há homem do Saldanha. Os momentos sucedem-se, assim como as memórias que se derramam em acordes de saudade e melancolia. As cordas do violoncelo e do contrabaixo emprestam calor e envolvência às músicas e são elas que nos levam por paisagens inesperadas, de Nápoles a Marrakech, do Porto a Cartagena das Índias. Com elas vêm imagens, como no cinema: Paixões tórridas, perseguições a alta velocidade, “bombas” para a piscina às 3 da manhã, o futuro lido em borras de café. Imagens como ínfimas coisas, que nos lembram os nadas de que a vida é feita.