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domingo, 6 de outubro de 2024

CONCERTO: Sangue Suor convida Ana Deus



CONCERTO: Sangue Suor convida Surma e Ana Deus
FLO - Festival Literário de Ovar 2024
Centro de Arte de Ovar
22 Set 2024 | dom | 18:00


O convite partiu do Theatro Circo de Braga e uma nova banda nasceu. Adoptou o nome de “Sangue Suor”, juntando em palco três renomados bateristas da cena musical portuguesa: Rui Rodrigues, Susie Filipe e Ricardo Martins. Tudo começou em 2021, com a encomenda a Rui Rodrigues de “Sangue & Suor”, tema de aniversário da centenária sala bracarense. Um ano mais tarde, a formação deixou cair o “&”, passando a denominar-se “Sangue Suor”. A composição de novos temas, fruto de diversas residências artísticas da banda, viria a dar lugar a “O Salto”, seu primeiro álbum, lançado em Abril de 2023, numa edição conjunta do Theatro Circo e da Omnichord Records. Um momento raro no panorama musical português, elevando a importância da percussão e de três importantes bateristas na busca de liberdade criativa, novos sons, fúria, desassossego, fusão e experimentação. Em Ovar, coube-lhe colocar um ponto final no programa da décima edição do FLO - Festival Literário de Ovar. À inspiração que corre no seu sangue e se derrama em suor, de ritmo e energia feito, juntaram a voz e a palavra em poemas de Gedeão. O público reagiu de forma diversa: Enquanto alguns saíam a meio, os demais permaneceram até ao fim, aplaudindo de pé. Ninguém ficou indiferente.

A batida é forte, sincopada. Uma espécie de respiração rompe o ar e, bem ao longe, escutam-se chocalhos. Naturalista, pastoril, com um acentuado cunho tribal, a música traz-nos a voz de Surma, como um grito melancólico que se ergue no espaço e se espalha em todas as direcções. A guitarra de Vítor Hugo preenche vazios, os sintetizadores completam o rufar dos tambores. Está lançada a viagem a um mundo que rejeita a facilidade e a superficialidade, repleto de sons irrequietos, que cruzam fronteiras e linguagens, abrem caminho à exploração e permitem desvendar novos horizontes. A partir daqui, a ordem é “Para a Frente”, mesmo que de um salto no escuro se trate. Ao longo de quase uma hora de espectáculo, mais saltos se seguirão: Em equilíbrio, de costas, revirado, em parafuso. Além de Surma, cruzamo-nos com as vozes e os sons de Cabrita e Selma Uamusse, mas também com a presença do teclista Óscar Silva e da cantora e performer Ana Deus. É ela que nos trará a interpretação magistral de um poema de Gedeão: “Os homens da minha aldeia / formigam raivosamente / com os pés colados ao chão. / Nessa prisão permanente / cada qual é seu irmão.”

Instrumento rítmico por excelência, a bateria carrega em si a ancestralidade da pele esticada sobre uma caixa de ressonância e, ao mesmo tempo, aquela forma de ser organizada, metódica, segura de quem conduz ou consente que a conduzam. Foi isto que os “Sangue Suor” tão bem souberam exprimir no palco do Centro de Artes de Ovar, convertendo uma hora de espectáculo numa experiência sensorial ímpar. Cada tema é um salto, cada música um risco. E eis Gedeão de novo, e de novo na voz de Ana Deus: “O universo é feito essencialmente de coisa nenhuma. / Intervalos, distâncias, buracos, porosidade etérea. / Espaço vazio, em suma. / O resto, é a matéria.” Perguntava-me o que teria passado pela cabeça do programador ao eleger esta banda para encerrar um Festival Literário. Hoje, a resposta parece-me óbvia, pela poesia em forma de música que dela se derrama, poesia definida em risco (no seu duplo sentido). Nela se descobre a essência do ser mutante, a violência de permanecer num limbo, o ferro de um lado, do outro o algodão (doce). Construção, destruição, reconstrução. Salto, a queda no vazio, o mergulho. Subir as escadas e de novo o salto. Desta vez em pontapé à Lua.

segunda-feira, 10 de abril de 2023

TEATRO: "A Maior Flor do Mundo e As Pequenas Memórias"



TEATRO: “A Maior Flor do Mundo e As Pequenas Memórias”,
de José Saramago
Dramaturgia e encenação | Frédéric da Cruz P.
Música original (com interpretação ao vivo) | Surma
Cenografia e figurinos | Carla Freire
Interpretação | Matilde Cruz
Produção | Leirena Teatro - Companhia de Teatro de Leiria
50 Minutos | Maiores de 3 anos
Auditório da Junta de Freguesia de Maceda
08 Abr 2023 | sab | 16:00


“E se as histórias para crianças passassem a ser de leitura obrigatória para os adultos? Seriam eles capazes de aprender realmente o que há tanto tempo têm andado a ensinar?”
José Saramago (in, “A Maior Flor do Mundo”)

“As histórias para crianças devem ser escritas com palavras muito simples, porque as crianças, sendo pequenas, sabem poucas palavras e não gostam de usá-las complicadas. Quem me dera saber escrever essas histórias, mas nunca fui capaz de aprender, e tenho pena. Se eu tivesse aquelas qualidades todas, poderia contar, com pormenores, uma linda história que um dia inventei.” Bebo estas palavras em êxtase à medida que, no palco, um pedaço de cartão se desdobra para dele se erguer, literalmente, uma aldeia com o seu casario, as andorinhas que fazem ninhos nos beirais, as oliveiras que crescem com os seus ramos retorcidos, as osgas que se espreguiçam no branco da cal e a música que, festiva, atravessa o ar vinda do coreto. A aldeia é a Azinhaga, terra natal do escritor José Saramago que aí nasceu no dia 16 de Novembro de 1922 e foram as suas “pequenas memórias” que, a par da “maior flor do mundo”, o Leirena Teatro - Companhia de Teatro de Leiria quis trazer ao Auditório da Junta de Freguesia de Maceda na tarde do passado sábado.

Explorar o mundo de José Saramago pode não ser tão complicado quanto se possa julgar. Haja, para tal, engenho e arte. E isso é coisa que parece não faltar a este colectivo leiriense, já que encontrou na infância do escritor a semente de flores maiores e quis espalhá-la a um público onde se contavam muitas crianças. Frédéric da Cruz P. soube seleccionar excertos dos livros mencionados, explorando a intertextualidade tão rica na obra do escritor e, conjugando-os na perfeição, estabelecer um mundo de encanto e fantasia a partir do real. Foi este mundo que, na voz e no gesto, uma talentosa e expressiva Matilde Cruz ousou abrir, revelando possuir tudo aquilo que o escritor dizia não ter: “Um certo jeito de contar, uma maneira muito certa e muito explicada, uma paciência muito grande”. Com a música de Surma tocada ao vivo a ampliar a magia e um dispositivo cénico extraordinariamente engenhoso do qual se ergueram ruas largas e estreitas, a escola e a igreja, florestas e colinas - e até uma espiral do sonho -, o público deixou-se embalar por uma história rica de significados e com uma poderosa mensagem.

Aceite o convite de Matilde Cruz, mergulhamos nas pequenas memórias de José Saramago. Pose militar, ímpeto na voz, a actriz compõe um tio Francisco Dinis irrepreensível no papel de guarda na Herdade do Mouchão, erguendo-o ante os nossos sorrisos com a sua “espingarda caçadeira de dois canos, barrete verde, camisa branca de colarinho sempre abotoado, abrasasse o calor ou enregelasse o frio, cinta encarnada, sapatos de salto de prateleira, jaqueta curta - e, evidentemente, cavalo.” Depois dá-nos a ouvir os meninos que, na escola, jogam à bola, ou as meninas que trocam segredos entre si e é através dela que conhecemos a “pezuda” e a razão pelo qual o menino decidiu tornar-se invisível. Vemos como os ramos de uma oliveira podem moldar-se de forma tão original e ficamos a saber que aos pés da aldeia, corre o Almonda e, mais adiante, por entre freixos e salgueiros, se espraia o Tejo. São estes rios que alagam a aldeia quando chove no Inverno, isto à medida que as nuvens se vão avolumando nas mãos da actriz, num prenúncio de tempestade.

As peripécias sucedem-se e os horizontes do menino tornam-se mais vastos. Num abrir e fechar de olhos “chegou ao limite das terras até onde se aventurara sozinho. Dali para diante começava o planeta Marte. (…) Vou ou não vou? E foi.” Mas não viu marcianos, nem dragões mecânicos, nem tiranossauros. Só “uma charneca rasa, de mato ralo e seco, e no meio dela uma inóspita colina redonda como uma tigela voltada.” Sobe o menino a encosta, mas quando chegou lá acima viu apenas uma flor. “Mas tão caída, tão murcha…” E como este menino era especial, achou que tinha de salvar a flor. Não vou desvendar o final desta história muito bela. Fico-me apenas com as derradeiras palavras de José Saramago: “Este era o conto que eu queria contar. Tenho muita pena de não saber escrever histórias para crianças. Mas ao menos ficaram sabendo como a história seria, e poderão contá-la doutra maneira, com palavras mais simples do que as minhas, e talvez mais tarde venham a saber escrever histórias para as crianças… Quem sabe se um dia virei a ler outra vez esta história, escrita por ti que me lês, mas muito mais bonita?…”

quinta-feira, 15 de dezembro de 2022

CONCERTO: Surma



CONCERTO: Surma
Salão Novo Ático
11.Dez.2022 | dom | 19:00


“alla” já está na estrada. A digressão de lançamento do segundo álbum de originais de Surma teve início no passado dia 6, em Leiria e vai terminar no próximo sábado na Culturgest, em Lisboa. Entretanto, a compositora e multi-instrumentista esteve no Novo Ático do Coliseu do Porto, no passado domingo, e foi lá que, perante uma plateia de indefectíveis admiradores, apresentou o seu mais novo “rebento”. Conjunto de temas solidamente desenvolvidos, “alla” representa um crescimento significativo na forma como Surma constrói a sua música, quer de um ponto de vista conceptual, quer pelas formas e texturas com que a reveste e de cuja fusão resulta um todo poderoso, pleno de energia, vitalidade, harmonia e ritmo. Com João Hasselberg no contrabaixo e teclados e Pedro Melo Alves na bateria, Surma escancarou as portas do seu mundo e, entre dúvidas e certezas, mostrou os caminhos que a música pode abrir, haja para tanto paixão, talento, sensibilidade e inspiração.

Preenchendo o alinhamento do concerto, na sua quase totalidade, com temas do novo álbum, Surma quis vincar o quanto a aposta numa nova dimensão da sua música é para valer. No conjunto de dez temas interpretados no palco do Novo Ático, a artista fez questão de incluir “Maasai”, revisitando os primórdios de uma relação apaixonada e apaixonante com a música e deixando a mensagem do quanto “é importante não nos esquecermos de onde viemos”. Já no “encore” escutaríamos “Bregenset”, um dos temas mais intimistas do fascinante “Antwerpen”, o seu primeiro álbum. Mas era “alla” que ali falava mais alto e foi “alla” que nos foi dado a viver e sentir. Elegante e envolvente, “etel.vina” abriu o concerto da melhor forma, fazendo despertar a atenção para o calor que se derrame das suas linhas melódicas, em contraste com as tonalidades glaciais que revestem a generalidade dos temas do álbum anterior. Envolvente, positiva, carregada de boas sensações, Surma soube agarrar o público desde o primeiro acorde, preparando-o para o muito de bom que estava para vir.

“Nyanyana” ofereceu-nos um cheirinho de África, com as suas grandes extensões, onde correm, livres, búfalos e gazelas, girafas e gnús. Abro aqui um parêntesis para referir esse fenómeno chamado Pedro Melo Alves que, na bateria, ia chamando a si uma boa parte das atenções (mas isso são outros “quinhentos”). Resultante de uma parceria com Cabrita e Victor Torpedo, “Tous les nuages” é uma deliciosa incursão no reino da fantasia, um delírio, uma quimera assente em doces melodias que fazem vibrar todas as cordas da nossa emoção. Diferente de tudo o que escutámos antes e iremos escutar no que resta do concerto, “Aïda” é como um pequeno brinquedo que não apetece largar, um capricho em forma de música que se permite mudar de tom, de ritmo, como quem baralha e volta a dar para depois, batida a última carta, esboçar o leve sorriso de quem sabe que já ganhou. Viagem introspectiva, chegada ao coração, “Myrtise” constituiu um momento muito especial neste concerto, pela serenidade que dele se desprende, pela forma como nos envolve e aquece, como nos conforta.

Depois do já referido “Maasai”, Surma atacou da melhor forma a ponta final desta apresentação com o tema “Huvastï”, feito em colaboração com os dois músicos que com ela partilharam o palco. Vibrante e inspirada, a composição mostrou-se um convite à dança, à expressão de um sentir leve e livre, que muitos espectadores na sala não enjeitaram. Com “Did I drop acid and this is my ego death?” chegou, enfim, aquele que, numa perspectiva muito pessoal, constituiu o momento alto do concerto. Composto em plena “crise existencial”, de acordo com a própria Surma, o tema é um verdadeiro murro no estômago, a dor e o sofrimento a revelarem-se de forma crua, a tomarem conta de nós. De uma entrega incrível, de uma generosidade sem limites, “Did I drop acid (...)”é a prova provada da maturidade musical de Surma. “Islet”, o primeiro single deste novo álbum, foi como um bombom, algo que já faz parte de nós mas que sabe sempre bem saborear. O fecho ideal do concerto, reforçando a qualidade e significado de momentos tão intensos e desafiantes, estimulantes e plenos de sedução.


quarta-feira, 26 de outubro de 2022

CONCERTOS & CONVERSAS: Ovar Expande '22 Dia 3



CONCERTOS & CONVERSAS: Ovar Expande ’22
Escola de Artes e Ofícios
20, 21 e 22 Out 2022


Com o rock puro e duro dos Twist Connection, chegou ao fim a terceira edição do Ovar Expande. Uma edição que, recorde-se, marcou um ponto de viragem na filosofia de um certame que começou por se assumir como a forma possível de resposta aos constrangimentos causados pela pandemia e surge, enfim, “desconfinado”, apostando em mais artistas e mais concertos, em mais salas e numa programação paralela capaz conferir ao todo o carácter de um verdadeiro festival. Aposta feita, aposta ganha, Ovar junta mais um produto de qualidade a uma oferta cultural que não cessa de crescer, revelando talentos e seduzindo o público. Entre a programação paralela, vale a pena começar por falar na iniciativa que deu o pontapé de saída deste último dia de programação do Ovar Expande e que juntou à conversa João Martins e Surma, sob a moderação deste que escreve estas linhas. Leve e descontraído, o momento permitiu conhecer um pouco melhor estes dois excelentes artistas, mostrando haver entre eles mais pontos de contacto do que seria de supor. A começar pela bateria - ponto de chegada para João Martins; ponto de partida para Surma -, com o rol de histórias e memórias que o instrumento convocou.

Banda de Coimbra formada por Carlos “Kaló” Mendes na bateria e voz, Samuel Silva na guitarra e Sérgio Cardoso no baixo, os Twist Connection puseram um ponto final no Ovar Expande. Ligados os instrumentos ao amplificador, a música espalhou-se a uma velocidade vertiginosa, fluindo com a mesma espontaneidade com que vi o público levantar-se das cadeiras e deixar-se ir numa onda feita de soul e blues, de algum punk e muito rock. Fiéis à sua própria identidade, os Twist Connection animaram a plateia com um conjunto de temas extraídos em grande parte de “Anywhere But Here”, o seu mais recente trabalho, fechando da melhor forma um festival que teve na variedade das propostas um dos seus maiores trunfos. A equilibrar as coisas, Madalena Palmeirim ofereceu-nos uma música doce e delicada, em grande medida feita de ritmos quentes de paragens atlânticas, com as mornas e o crioulo de Cabo Verde a impregnarem temas como “M ‘Câ Sabê”, “Lembrança di Nha Cretcheu” e “Teus Braços de Embalar”. No ouvido ficaram também “Right as Rain”, que dá o nome ao disco de estreia da artista, “Limbo” e essa extraordinária balada que é “Farewell”. Uma palavra para Manuel Dordio que, na guitarra, foi um acompanhante de luxo de Madalena Palmeirim, e, ainda, para “Morna Mansa”, o tema que fechou o concerto e que dará título ao segundo álbum da artista.

Em “horário nobre”, Surma trouxe-nos a sua música e a sua voz, lançada num idioma imaginário ao qual a artista gosta de chamar “surmês”. Com a saída de “Alla”, o seu segundo trabalho de estúdio, prometido para o início do próximo mês, seria de esperar o levantar da ponta do véu, por pouquinho que fosse. Tal não aconteceu e a artista focou-se exclusivamente no aclamado “Antwerpen”, o álbum de estreia, revisitando temas verdadeiramente icónicos como o elegante “Hemma”, o árido “Saag”, o intimista “Nyika”, o festivo “Drög” ou o tribal “Voyager”. Tal como tive oportunidade de dizer durante a tarde, na conversa acima referida, na música de Surma escuta-se a surda e lenta agonia de um glaciar, o mar a desfazer-se de encontro às rochas, o nevoeiro que envolve a floresta, o murmúrio gutural da primeira palavra alguma vez proferida pelo Homem, a chuva incessante que cai sobre um tapete de folhas mortas ou os sons que, vindos do espaço, nos dizem que a vida não é exclusiva deste planeta cada vez menos azul. Percorrendo paisagens sonoras fascinantes e arrebatadoras, o público mostrou-se permeável à viagem e ao sonho, rendendo à artista o seu aplauso e a sua gratidão. E agora que venha “Alla” - que quer dizer “todos”, em sueco -, para que todos possamos voltar a escutá-la e a aplaudi-la.

[Foto: Ovar/Cultura | https://www.facebook.com/ovarcultura]

terça-feira, 25 de agosto de 2020

CONCERTO: Surma



CONCERTO: Surma
FAZUNCHAR 2020
Travessa do Jasmineiro, Figueiró dos Vinhos
21 Ago 2020 | sex | 21:30


A noite caiu sobre a vila e os passos das gentes tomaram a direcção da Travessa do Jasmineiro. Na ladeira íngreme, estenderam-se mantas no chão, abriram-se cadeiras de praia, soleiras das portas foram tomadas de assalto e, no empedrado irregular, os menos prevenidos buscaram a posição mais cómoda, sentando-se no chão como podiam. Quando Surma chegou, tirei da mochila o CD, dirigi-me a ela e estendi-o, pedindo-lhe um autógrafo. Da surpresa inicial ao sorriso de satisfação que os olhos deixaram adivinhar foi coisa de segundos. Agradeceu o gesto enquanto lhe dizia que podia escrever apenas “Joaquim”. Agradeceu novamente e, na sua voz de desenho animado, pediu desculpa pela letra “um bocadinho horrível”. E eu ali, “meio burro”, com tanta coisa para lhe dizer e sem dizer coisa nenhuma. Mas digo agora, que mais vale tarde do que nunca!

Conheci Surma e a sua música há dois anos, num parque do centro da cidade de Espinho. Era uma tarde ventosa, como todas as tardes de todos os verões em Espinho. Lembro-me bem da força da sua música, de como me tocou. Há coisas assim, carregadas de emoção, como um quadro de Miró ou um poema de Ana Luísa Amaral. O coração toma conta de nós, estas coisas não se explicam. Na altura, escrevi no blogue que, “duma rapariga que se afirma pessimista, que nunca pensou sair da cave da sua casa de aldeia perto de Leiria e muito menos tocar onde já tocou, o menos que se pode dizer é que o seu projecto é obra. Nesta viagem agora iniciada, é difícil prever o quando e o onde do ponto de chegada, tal o potencial desta música, tal a energia, vontade e entrega de Débora Umbelino à sua 'causa'. Entretanto, aproveitem-se os portos de escala. Espinho foi um desses portos, da visita sobrando a vontade de saber mais, de escutar mais, de sentir mais.”

A vontade de “saber mais, de escutar mais, de sentir mais” foi sendo satisfeita pelas vezes sem conta em que passei “Antwerpen” no leitor do carro ou da sala. Na música de Surma escuto a surda e lenta agonia de um glaciar, o mar a desfazer-se de encontro às rochas, o nevoeiro que envolve a floresta, o murmúrio gutural da primeira palavra alguma vez proferida pelo Homem, a chuva incessante que cai sobre um tapete de folhas mortas ou os sons que, vindos do espaço, nos dizem que a vida não é exclusiva deste planeta cada vez menos azul. O concerto de Surma, na passada sexta feira em Figueiró dos Vinhos, veio confirmar esta profunda relação entre a sua música e a matéria de que somos feitos. Entre uma corda que vibra e o ar que se condensa ou a água que se despenha das fragas. Entre um grito que se desfaz e a terra ressequida ou o fogo que tudo destrói à sua passagem. Uma música cósmica que, não nos dizendo para onde vamos, nos mostra de onde viemos.

Surma esteve em Figueiró dos Vinhos a convite do FAZUNCHAR. Do curto tempo de uma Residência Artística que partilhou com a muralista Tamara Alves, da inspiração que colheu de uma verdadeira “ninfa”, resultaram cinco peças de enorme beleza, mesmo que “ainda muito cruas”, que a compositora e intérprete fez questão de partilhar com o público. Fê-lo ao mesmo tempo que Tamara trabalhava no seu mural, numa simbiose perfeita entre som e imagem, luz e trevas, yin e yang. O resto do concerto deu-nos a possibilidade de reviver “Hemma”, “Kismet” e “Voyager”, do já referido “Antwerpen”, mas também de recordar “Maasai” ou “Wanna be Basquiat”, dois trabalhos do início de carreira da cantora. Hipnotizante, mágico, “Nyika” foi o final perfeito de uma noite memorável. Que mais concertos destes possam acontecer. Eu quero estar lá!

domingo, 19 de agosto de 2018

CONCERTO: Surma



CONCERTO: Surma
Parque João de Deus, Espinho
Festival Oito24
18 Ago 2018 | sab | 17:00


Um piparote vigoroso numa caixa de ritmos e logo um som se abre, como uma onda, juntando-se ao restolhar das folhas das árvores batidas pela nortada fresca do final de tarde em Espinho. Espalhados sobre a relva, os espectadores aguardam, atentos, os desenvolvimentos daquele som ao qual se vão somando, sucessivamente, outros sons que emanam dos sintetizadores, da guitarra, do baixo, duns pequenos sinos coloridos ou da própria voz da artista. De súbito, sem sequer darmos por isso, embarcámos já numa viagem de cores e sons únicos, ao encontro de paisagens interiores feitas de lagos gelados ou de areias quentes que se esfumam no alto de dunas de vento batidas, de florestas sombrias povoadas por seres misteriosos ou de campos de flores coloridas e vivas que se abrem em alegres Primaveras. E pensamos que isto não está a acontecer!...

Falo de Débora Umbelino e do seu projecto, Surma, nome de ponta do panorama da nova música portuguesa e que ontem se apresentou em Espinho, no derradeiro dia da edição de 2018 do Festival Oito24. Uma apresentação que constituiu, na verdade, uma deliciosa surpresa, de tal maneira aquele corpo franzino e aquela voz de desenho animado impressionam pela harmonia e talento das suas composições. Mas para além da música – forte, densa, penetrante -, é impossível não nos deixarmos levar pela presença física da cantora, pela sua doçura num sorriso que se abre franco, pelo seu “malta, obrigada”, por um coração que se adivinha enorme e pela inocência contida onde cabe a materialização de muitos sonhos acumulados desde que, com cinco anos de idade, desejou ser baterista.

Seguindo um alinhamento que privilegiou o seu disco de estreia - “Antwerpen”, lançado a 13 de Outubro de 2017, considerado um dos melhores do ano pela grande maioria dos meios de comunicação social nacionais e nomeado para melhor disco europeu independente do ano -, a “one-woman-band” juntou ao pulsar delirante de “Hemma”, “Kisnet”, “Voyager” ou “Nyika”, a força de composições mais antigas, casos de “Wanna Be Basquiat”, “Lo-Fi” ou do iniciático “Maasai”. Temas que fazem recuar, desde logo, aos anos 70 e 80 e a referenciais incontornáveis como os Doors, Jimi Hendrix Experience, Jefferson Airplane ou aos inefáveis Pink Floyd, para depois nos mergulharem em sonoridades mais actuais, muito nórdicas, os islandeses Amiina à cabeça – curiosamente escutados também em Espinho, há seis meses atrás -, ainda Heilung Krigsgaldr ou Björk a espreitarem por detrás da cortina.

Duma rapariga que se afirma pessimista, que nunca pensou sair da cave da sua casa de aldeia perto de Leiria e muito menos tocar onde já tocou, o menos que se pode dizer é que um projecto como “Surma” é obra. Nesta viagem agora iniciada, é difícil prever o quando e o onde do ponto de chegada, tal o potencial desta música, tal a energia, vontade e entrega de Débora Umbelino à sua “causa”. Entretanto, aproveitem-se os portos de escala. Espinho foi um desses portos, da visita sobrando a vontade de saber mais, de escutar mais, de sentir mais.