Páginas

Mostrar mensagens com a etiqueta Pedro Melo Alves. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Pedro Melo Alves. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 15 de dezembro de 2022

CONCERTO: Surma



CONCERTO: Surma
Salão Novo Ático
11.Dez.2022 | dom | 19:00


“alla” já está na estrada. A digressão de lançamento do segundo álbum de originais de Surma teve início no passado dia 6, em Leiria e vai terminar no próximo sábado na Culturgest, em Lisboa. Entretanto, a compositora e multi-instrumentista esteve no Novo Ático do Coliseu do Porto, no passado domingo, e foi lá que, perante uma plateia de indefectíveis admiradores, apresentou o seu mais novo “rebento”. Conjunto de temas solidamente desenvolvidos, “alla” representa um crescimento significativo na forma como Surma constrói a sua música, quer de um ponto de vista conceptual, quer pelas formas e texturas com que a reveste e de cuja fusão resulta um todo poderoso, pleno de energia, vitalidade, harmonia e ritmo. Com João Hasselberg no contrabaixo e teclados e Pedro Melo Alves na bateria, Surma escancarou as portas do seu mundo e, entre dúvidas e certezas, mostrou os caminhos que a música pode abrir, haja para tanto paixão, talento, sensibilidade e inspiração.

Preenchendo o alinhamento do concerto, na sua quase totalidade, com temas do novo álbum, Surma quis vincar o quanto a aposta numa nova dimensão da sua música é para valer. No conjunto de dez temas interpretados no palco do Novo Ático, a artista fez questão de incluir “Maasai”, revisitando os primórdios de uma relação apaixonada e apaixonante com a música e deixando a mensagem do quanto “é importante não nos esquecermos de onde viemos”. Já no “encore” escutaríamos “Bregenset”, um dos temas mais intimistas do fascinante “Antwerpen”, o seu primeiro álbum. Mas era “alla” que ali falava mais alto e foi “alla” que nos foi dado a viver e sentir. Elegante e envolvente, “etel.vina” abriu o concerto da melhor forma, fazendo despertar a atenção para o calor que se derrame das suas linhas melódicas, em contraste com as tonalidades glaciais que revestem a generalidade dos temas do álbum anterior. Envolvente, positiva, carregada de boas sensações, Surma soube agarrar o público desde o primeiro acorde, preparando-o para o muito de bom que estava para vir.

“Nyanyana” ofereceu-nos um cheirinho de África, com as suas grandes extensões, onde correm, livres, búfalos e gazelas, girafas e gnús. Abro aqui um parêntesis para referir esse fenómeno chamado Pedro Melo Alves que, na bateria, ia chamando a si uma boa parte das atenções (mas isso são outros “quinhentos”). Resultante de uma parceria com Cabrita e Victor Torpedo, “Tous les nuages” é uma deliciosa incursão no reino da fantasia, um delírio, uma quimera assente em doces melodias que fazem vibrar todas as cordas da nossa emoção. Diferente de tudo o que escutámos antes e iremos escutar no que resta do concerto, “Aïda” é como um pequeno brinquedo que não apetece largar, um capricho em forma de música que se permite mudar de tom, de ritmo, como quem baralha e volta a dar para depois, batida a última carta, esboçar o leve sorriso de quem sabe que já ganhou. Viagem introspectiva, chegada ao coração, “Myrtise” constituiu um momento muito especial neste concerto, pela serenidade que dele se desprende, pela forma como nos envolve e aquece, como nos conforta.

Depois do já referido “Maasai”, Surma atacou da melhor forma a ponta final desta apresentação com o tema “Huvastï”, feito em colaboração com os dois músicos que com ela partilharam o palco. Vibrante e inspirada, a composição mostrou-se um convite à dança, à expressão de um sentir leve e livre, que muitos espectadores na sala não enjeitaram. Com “Did I drop acid and this is my ego death?” chegou, enfim, aquele que, numa perspectiva muito pessoal, constituiu o momento alto do concerto. Composto em plena “crise existencial”, de acordo com a própria Surma, o tema é um verdadeiro murro no estômago, a dor e o sofrimento a revelarem-se de forma crua, a tomarem conta de nós. De uma entrega incrível, de uma generosidade sem limites, “Did I drop acid (...)”é a prova provada da maturidade musical de Surma. “Islet”, o primeiro single deste novo álbum, foi como um bombom, algo que já faz parte de nós mas que sabe sempre bem saborear. O fecho ideal do concerto, reforçando a qualidade e significado de momentos tão intensos e desafiantes, estimulantes e plenos de sedução.


domingo, 27 de fevereiro de 2022

TEATRO: "As Estrelas Que Hoje Vemos Já Morreram Há 100 Anos"



TEATRO: “As Estrelas Que Hoje Vemos Já Morreram Há 100 Anos”,
de Diana Narciso e Rita Delgado
Apoio à dramaturgia | Joana Bértholo
Cenografia e figurinos | Joana Subtil
Música original e sonoplastia | Pedro Melo Alves
Interpretação | Diana Narciso, Matilde Jalles, Rita Delgado
Produção | Sofia Estriga
90 Minutos | Maiores de 12 anos
Escola do Largo
27 Fev 2022 | dom | 18:30


Espaço, tempo, eventos, coordenadas, universo, física de partículas, relatividade, Einstein. O que tem tudo isto a ver com a vida tal como ela é, com as suas relações e inquietações, as suas certezas e os seus dilemas? Diana Narciso e Rita Delgado escreveram um texto precioso e demonstram que estas questões andam todas ligadas. Dizem elas que partilhamos com as estrelas 97% do mesmo tipo de átomos, ou seja, que somos feitos da mesma matéria. Através das histórias de Maria-mãe-de-Joana-mãe-de-Olívia-mãe-de-Maria vemos como as leis da Física se cruzam com a ficção e operam de maneira insólita: Espaço e Tempo reorganizam-se perante a força exercida pela dinâmica relacional gerada entre estas três mulheres, convidando o espectador a refletir sobre laços maternos, intimidade, individualidade, ciclos e interdependência.

O início da peça é desconcertante. Em palco, Rita Delgado “despe” o papel de uma alienígena para nos dizer que não haverá peça, que uma das actrizes “não veio hoje”, que não poderá devolver o dinheiro dos bilhetes, que esperemos só mais um bocadinho, “só mais cinco minutos”. São sete menos um quarto, diz alguém na plateia. Realidade e ficção misturam-se, a dúvida instala-se. Esperamos… e a peça começa. Uma criança tem medo da noite, tem medo da Lua. A mãe diz-lhe que a Lua é só uma, as estrelas são mais de cem. “É como se tivesses cem sóis no céu em vez de um”, diz-lhe a mãe. Os medos apaziguam-se, nada como o colo de uma mãe, o calor num afago, a calma na voz, para nos fazer sentir melhor. Ou não. Os tempos mudam, os espaços (as vontades) também. Somos corpos em equilíbrio instável que sucessivamente se atraem e repelem. Não saímos disparados rumo ao espaço porque o centro da terra nos atrai com força e nos prende. Num limbo, é onde nos encontramos.

Se é verdade dizer que “As Estrelas Que Hoje Vemos Já Morreram Há 100 Anos” tem no texto a sua grande força, não é menos correcto afirmar que o texto brilha porque há três “estrelinhas” em palco que o fazem brilhar. Diana Narciso, Rita Delgado e Matilde Jalles defendem com brio as suas personagens, desdobrando-se em falas e deixas que fazem delas mães e filhas em simultâneo, ora ternas e maternais, ora insolentes e violentas. O lado de comédia que habita a peça veste-se de burlesco e adivinham-se sorrisos abertos por detrás de cada máscara. Tudo o mais é drama. É ele que toma conta das relações pessoais, estendendo a vida para fora do palco e abrindo-a entre o choro e o riso, tão bela mas tão ingrata, tão dada a duplas interpretações, tão pródiga na oferta de momentos felizes quanto insensível à dor e ao sofrimento. Uma vida equívoca, recheada de mentiras que tomamos como verdades, como se de estrelas se tratasse. Estrelas que hoje vemos mas que estão mortas há cem anos.

sábado, 13 de julho de 2019

CONCERTO: Pedro Melo Alves' in Igma



CONCERTO: Pedro Melo Alves' in Igma
Jazz no Parque 2019
Ténis do Parque de Serralves
06 Jul 2019 | sab | 18:00


Forte, intenso e cheio de personalidade. Poderia ser uma apreciação ao Roquefort, mas trata-se de Pedro Alves Melo' in Igma, o concerto de abertura da 28ª edição do Jazz no Parque e que fez praticamente esgotar o espaço do Ténis do Parque de Serralves na tarde do passado sábado. Todavia, e tal como sucede com o celebrado queijo francês, este é um género de música que muito deve ao improviso e que tem de ser entendida para se poder apreciar. E eu não apreciei!

Talvez a minha flexibilidade para estender as fronteiras do jazz a este “aprofundar a pesquisa pela música erudita contemporânea aliada às práticas da improvisão” não seja tão flexível assim. Pedro Melo Alves é um nome que reconhecemos da área do jazz, este é um Festival de Jazz, mas aquilo que ouvimos, no meu conceito, não é jazz. Talvez seja mais uma questão de “mecânica acústica e três vozes”, como dizia um espectador à saída, como eu desencantado com o que escutara. Mas há gente bem mais entendida do que eu nesta matéria e nem sequer me atrevo a questionar as opções do programador, Rui Eduardo Paes. Mais a mais, o projecto está na estrada e este fim de semana tem por palco o Hot Club de Portugal, a catedral do jazz no nosso país.

Este “in Igma” seguiu a linha das anteriores edições do Jazz no Parque, juntando músicos nacionais e de outros países nas mesmas formações, em projectos propositadamente criados para a sua apresentação no Ténis de Serralves. Para o efeito, o baterista Pedro Melo Alves contou com o apoio de um grupo de músicos oriundos de diferentes universos: Aubrey Johnson, Beatriz Nunes e Mariana Dionísio na voz, Eve Risser no piano, Mark Dresser no contrabaixo e Abdul Moîmeme na guitarra eléctrica preparada e objectos sonoros. A terminar, fica uma questão (que nem será para um milhão de euros): Valerá a pena nova incursão no universo de Pedro Melo Alves? Claro que sim. Só desta forma se apuram os gostos e se formam as mentes. Tal como com o Roquefort.