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sábado, 26 de agosto de 2023

LIVRO: "Muro"



LIVRO: “Muro”,
de João Pedro Vala
Conceito, curadoria, co-organização | Mistaker Maker
Ed. Fazunchar, Agosto 2023


“A Lara garante-me que o laínte está praticamente morto. Hoje todos os habitantes de Figueiró falam única e exclusivamente português, mas há momentos em que me custa a acreditar que falemos o mesmo dialecto. Começo a temer não ser fluente na minha língua-mãe.”

Lara. Laínte. Figueiró. Três palavrinhas num só parágrafo que importa descodificar, até porque nelas se condensa uma bela história. A história de um festival com o dedo de Lara Seixo Rodrigues, arquitecta acidental, apaixonada pelo espaço público e a grande impulsionadora da Arte Urbana em Portugal, que em Figueiró dos Vinhos encontrou condições e oportunidades para levar por diante um dos mais interessantes e estimulantes festivais de arte urbana do nosso País. Um Festival que conheceu a sua primeira edição em 2019 e que recebeu a designação de Fazunchar - cujo significado é “fazer” -, indo buscar o nome ao laínte, dialecto hoje em desuso mas que, durante muito tempo, foi utilizado pelos vendedores ambulantes de tecidos da vasta região do Pinhal Interior para comunicarem entre si sem que fossem entendidos. Mas que raio tem o Fazunchar a ver com este livro que hoje trago às páginas do blogue?

Tem tudo, devo dizer, desde logo porque é o resultado da residência artística de literatura promovida pela organização do Festival em 2022. E depois porque nele reside a história vivida e sentida de uma edição que voltou a combinar em doses iguais a arte e a festa, juntando a população local e os visitantes do festival em torno de um conjunto de manifestações artísticas de enorme valor e interesse, que isto do “Fazunchar” não é só “pintar paredes”. E aqui entramos directamente neste “Muro”, pequenino livro que me chegou às mãos via CTT, numa gentileza de Lara Seixo Rodrigues, a qual agradeço com emoção. Edição limitada a 50 exemplares apenas, o livro vem assinado e com dedicatória o que é, convenhamos, um verdadeiro luxo. O resto é aquilo que João Pedro Vala captou do espírito do Fazunchar, transpondo para as páginas do livro, de forma bem humorada, as emoções que o envolvem e que provam ser este muito mais do que um Festival.

Andar sobre este “Muro” é regressar a Figueiró dos Vinhos e àquilo que mais impressiona o visitante: Uma vila parada no tempo, desertificada, com muito pouco de impactante para além do grená que cobre a fachada da Câmara Municipal e a beleza do Casulo de Malhoa. Mas cujas estreitas ruas, escadinhas e becos sabe bem percorrer, lendo nas portas e nos muros as marcas do tempo. Das pessoas dá-nos conta João Pedro Vala: o senhor Alcides, a dona Célia, o senhor Eduardo, o senhor Zé, o senhor João, um freguês da tasca “cujo nome não decorei mas que a partir daqui designarei de Armando”. Também das aldeias em volta: Arega, Campelo, Aguda. O resto é o trabalho do Slim e do Tiago Hesp, da Arashida e do Lourenço Providência (a quem se deve a capa deste livro), do Taquen e da Alba, da Silly, do Juan e da Mariana, a Miserável, artistas de quem apetece dizer mal, “que nos irritam por saberem desenhar melhor do que nós.”. Depois de ter estado nas quatro primeiras edições do Fazunchar, “furei” a edição deste ano. Não fui ao Fazunchar, mas veio o Fazunchar até mim sob a forma de um livro terno e sensível, a denunciar um olhar arguto e um enorme apreço pelo valor das coisas, mesmo as mais simples. Espero voltar a Figueiró em 2024. “Deus queira, caralho.”

terça-feira, 6 de setembro de 2022

CERTAME: FAZUNCHAR 2022


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CERTAME: FAZUNCHAR 2022
Figueiró dos Vinhos
13 Ago > 21 Ago 2022


Em Laínte, dialecto outrora usado pelos comerciantes de lanifícios da zona de Figueiró dos Vinhos, “fazunchar” tinha por significado “fazer”. Recuperar a expressão e dar-lhe sentido nos dias que correm foi o desafio que o Município de Figueiró dos Vinhos lançou em 2019 à Mistaker Maker, Plataforma de Intervenção Artística sedeada em Lisboa e fundada por Lara Seixo Rodrigues. É este o ponto de partida de um Festival “onde a arte faz a festa” e que vem apostando na promoção de um diálogo alargado e multilateral entre as mais variadas formas de arte e toda uma comunidade. Perceber a forte identidade de Figueiró dos Vinhos, a riqueza do seu património natural, histórico, arquitectónico e gastronómico, corporizando-o, espelhando-o e exaltando-o mediante uma infinidade de expressões artísticas, acrescentando-lhe novos valores de memória, de autenticidade, originalidade, raridade ou exemplaridade, tal tem sido o grande desígnio dos mentores de uma iniciativa que se afirma, quatro anos passados, como uma marca forte e credível, capaz de gerar visibilidade sobre si própria e sobre um território com tanto para oferecer.

Um pouco à semelhança dos anos anteriores, esta edição do FAZUNCHAR fez assentar a sua programação num valioso conjunto de murais, quiçá a face mais visível do Festival, mas também em instalações, residências artísticas, exposições, workshops, conversas, visitas guiadas, concertos e ainda três acções comunitárias de grande simbolismo e alcance: A “Vila Florida”, que trouxe mais cor e vida às praças e ruas de Figueiró dos Vinhos, o Jornal de Cordel e o incontornável Piquenique. À exposição “Esquecidos”, de Francis.co, e ao concerto de Silly, dediquei, muito recentemente, apontamentos particulares no espaço do blogue. Falarei agora dos murais, do que representam em termos de um espólio que, a cada ano que passa, cresce em número e qualidade, gerando riqueza e beleza e atraindo um número crescente de indefectíveis da Arte Urbana ou de simples curiosos. Antes, porém, deixaria uma palavra a Lara Seixo Rodrigues e à sua equipa pela forma apaixonada como fazem acontecer o Festival, pelo calor e entusiasmo em torno de uma peça ou de um simples detalhe, pelo amor a Figueiró dos Vinhos e àqueles que a visitam.

Quanto aos murais, houve de novo a preocupação de reparti-los entre o coração da Vila e as suas freguesias. Campelo, com os anteriores trabalhos de Mantraste, Third e ainda as sete “miniaturas” de Helen Bur é, cada vez mais, o “satélite” de referência do Festival. Foi aí que o artista portuense Lourenço Providência desenvolveu o seu trabalho, ao qual chamou, justamente, “Campelo”, homenageando a localidade naquilo que tem de mais belo e simples: a candura do casario, os viveiros de trutas que voltam a ganhar vida, a pacatez das suas gentes, as aves no seu voo corrido, um sol que pode também ser lua ou mesmo “um caracol que apareceu no último dia sobre o mural para ajudar a resolver uma parte do mesmo”. Foz de Alge, no extremo sul do concelho, viu o espanhol Taquen entregar-se de corpo e alma à peça que designou por "Garças-reais: sobre a vida lenta, as viagens distantes e o trabalho em equipa”. Nela se condensa um conjunto de reflexões sobre a importância de fazermos juntos o caminho, de sabermos que há um momento para nos determos e outro para recomeçar. “Sempre em companhia, sempre com alguém.”

Antes de adentrarmos a Vila, façamos um pequeno desvio por Aguda onde Tiago Hesp, vencedor da convocatória lançada nesta edição do FAZUNCHAR e que desafiava a comunidade artística a apresentar propostas que trabalhassem especificamente a identidade desta freguesia, nos dá a ver “A Uva e a Vinha – sobre o brasão de Aguda”. Tal como o nome indica, a grande inspiração foi o brazão desta freguesia de Figueiró dos Vinhos, com os seus incontornáveis ramos de videira e cachos de uva, o verde e o roxo como cores predominantes. Um trabalho de enorme beleza que trava um curioso diálogo com a peça produzida por THE CAVER em 2020, ali bem próxima. Entremos agora na Vila de Figueiró e deixemo-nos surpreender pelo talento de Slim Safont e por essa extraordinária mensagem de partilha e encontro entre gerações, em comunhão com a natureza. A peça chama-se “Gerações” e não deixa ninguém indiferente, o mesmo acontecendo com “A Luz de Malhoa”, da autoria de Alba Fabre Sacristán, mural de grandes dimensões que pontua outra das entradas na Vila, desta feita numa parte mais a sul. Registando um momento captado num dos belos recantos da Ribeira de Alge, esta peça é, em si mesma, uma lição de pintura, onde a cor e a luz assumem o valor do ADN de um espelho de água que se estende e desdobra em reflexos mil.

Não nos despediremos de Figueiró dos Vinhos sem visitar as quatro propostas que faltam para completar a oferta de mais uma edição de enorme qualidade e variedade. Regressando a Lourenço Providência, depois do seu trabalho em Campelo, sobrou tempo (e tinta) para homenagear ao seu jeito a colectividade mais antiga do Concelho, a Filarmónica Figueiroense, deixando a sua arte numa das fachadas do edifício. Na fachada da Câmara Municipal, a artista plástica brasileira Arashida deixou-nos “A Recompensa”, belíssimo painel colorido que, com “A Liberdade” e “O Caminho”, instalados numa lateral do Museu e Centro de Artes de Figueiró dos Vinhos e numa esquina da Casa da Cultura, constituem a sua interpretação revista e actualizada sobre a lenda local “As Seis Donzelas”. Mariana, a miserável deixou-nos um belíssimo painel de azulejos intitulado “Companheiro” e que se assume como um “tributo ao pão” (mas também à paz, à habitação, à saúde, à educação…). Finalmente, Juan Rivas trouxe-nos de Espanha a sua arte miniatural, conjunto de oito mini-murais dispostos em árvores, postes elétricos ou sinais de trânsito e que enriquecem o olhar sobre os espaços em que se inserem. Pode ser este o ponto de partida de uma “caça ao tesouro” onde, o mais difícil, será mesmo descobrir o legado completo de quatro anos de FAZUNCHAR.

quinta-feira, 1 de setembro de 2022

EXPOSIÇÃO DE DESENHO: "Esquecidos" | Francis.co


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EXPOSIÇÃO DE DESENHO: “Esquecidos”,
de Francis.co
Museu e Centro de Artes de Figueiró dos Vinhos
13 Ago > 31 Ago 2022


Chama-se Francisco Fonseca, mas no pequeno grande mundo da ilustração dá pelo nome de Francis.co. Nascido e criado em Paço de Sousa, pequena vila do concelho de Penafiel, começou desde muito cedo a construir os seus próprios mundos e personagens através do desenho, sem imaginar que sobre o papel e o lápis se viria a erguer o seu futuro. A investigação etnográfica em torno das lendas e mitos nos quais o seu reduto natal é fértil, combinada com o trabalho de construção de um livro ilustrado, serviu de base ao relatório de Projeto para a obtenção do mestrado em Desenho e Técnicas de Impressão na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, grau que concluiu em 2018. Entre o real e o fantástico, percebemos hoje o quanto o seu universo não cessa de se expandir, com as casas e as pessoas que as habitam, os objectos que abrigam ou as marcas que ostentam da passagem do tempo a ocuparem o centro do seu trabalho.

Respondendo ao desafio lançado pela organização da terceira edição do FAZUNCHAR, para a realização de uma residência artística de desenho, Francis.co foi, ao longo de uma surpreendente e produtiva semana de Agosto de 2021, presença constante no imbricado de becos e ruelas que constituem o miolo de Figueiró dos Vinhos. Fachadas degradadas, telhados derrubados, janelas com os vidros partidos, gradeamentos tomados pela ferrugem, portais desbotados ou pequeninas flores que brotam dos muros ganharam uma nova dimensão ao serem transpostas para o caderno mediante a minúcia do olhar, a delicadeza do traço e a atenção do artista ao mais ínfimo detalhe. Assim nasceu “Esquecidos”, exposição de desenho que constitui, à vez, inventário do abandono a que as casas se vêem votadas, histórias que são memórias, formas e texturas como pele enrugada sobre um corpo que não cessa de morrer.

Embora não me tenha sido possível falar de “Esquecidos” em tempo útil – a mostra esteve patente só até ontem na sala de exposições temporárias do Museu e Centro de Artes de Figueiró dos Vinhos -, a referência a este particular trabalho de Francis.co impõe-se por vários motivos. Desde logo, pela importância destas Residências Artísticas, valiosas para os criadores pela experiência em si e pelas oportunidades que se abrem à diversificação do seu trabalho. Depois, pelo que perdura desse trabalho e que, mais do que uma memória visual, serve de ponto de partida para, em conjunto, reflectirmos sobre um futuro que se evidencia no presente. No caso concreto de Francis.co e do desenho como forma de expressão artística, também a profunda admiração pela sua forma de passar para o papel aquilo que vê, o traço fino da caneta e uma paleta aguarelada particularmente reduzida como binómio de um trabalho enorme de força e beleza. Por fim, mas não menos importante, a mensagem por detrás deste conjunto de desenhos, testemunhos vivos de um interior votado ao abandono. “Entretanto morreram os velhos todos, e os novos querem lá saber disto…”. O título da exposição tem tudo a ver com isto.

domingo, 28 de agosto de 2022

CONCERTO: Silly



CONCERTO: Silly
FAZUNCHAR 2022
Casa da Cultura de Figueiró dos Vinhos
19 Jun 2022 | Sex | 21:30


As luzes extinguem-se lentamente e, do nada, rompe o som de água a correr. Ao delicado rumorejar vem juntar-se o trinado dos pássaros num harmonioso abraço. Um vento morno faz baloiçar os ramos das árvores ao mesmo tempo que se percebe o chapinar de uns pés na água. Pedras lançadas da margem abrem crateras no seio do rio. Espalhados pelo vale, o som dos sinos chama os crentes para a missa dominical. Escuta-se o entoar de louvores e hosanas. Na sua homilia, o padre falará de um Deus sempre vivo, sempre adorado, glorificado e exaltado pelo tempo dos tempos. Sobre as suas palavras, uma música nasce. Há nela uma harmonia e um ritmo que acentuam a relação profunda do homem com a natureza, o respeito pelos elementos, o conhecimento ancestral dos ciclos da vida, a religiosidade presente em cada gesto, em cada pensamento. “Aleluia, aleluia!”

Convite à reflexão e à introspecção, foi esta a fórmula encontrada por Maria Bentes aka Silly para partilhar com os presentes na Casa da Cultura de Figueiró dos Vinhos o resultado daquilo que ela própria considerou “uma semana muito bonita”, passada em residência artística a convite da organização do FAZUNCHAR 2022. Percorrendo uma linha profundamente intimista, a multi-instrumentista, cantora e produtora açoreana desvendou, por um lado, toda a musicalidade que pode abrigar-se nas coisas mais simples, ao mesmo tempo revelando o quão inspiradores são os sons do quotidiano, simultaneamente sujeitos e objectos de um universo sonoro que a artista ousou captar, lançando ao público o desafio de o descobrir, seja no manancial de água que canta nas Fragas de S. Simão, num soneto declamado pelo Senhor Alcides ou na técora (palavra que em lainte significa cartada), nesse contar das vazas, no embaralhar e voltar a dar, no som seco dos nós dos dedos que batem com força no tampo da mesa, vincando uma cartada vencedora.

Quarenta minutos durou o concerto, que o mesmo é dizer que bastaram quarenta minutos para todos percebermos o diamante em bruto que se esconde por detrás da cantora. Que diz fingir que não sabe como é que tudo funciona, que faz do seu caminho um sonho acordado, que vive na angústia de se sentir pássaro e gaiola ao mesmo tempo ou que quer fazer tudo mas acha que tudo o que faz não vale nada. Neste cruzamento entre as palavras e a música, Maria Bentes vai pintando os mais belos quadros, através dos quais descobre e se descobre, em coragem, vontade e certeza de ser este o caminho certo. Com uma viola acústica particularmente depurada, a paleta rítmica a abranger, com o mesmo toque delicado, a bossa nova, o jazz ou o hip hop, Silly veio reforçar aquilo que “Viver Sensivelmente”, o seu EP de estreia anunciava já: o sentimento à flor da pele, a força da razão subjugada ao querer do coração. Se dúvidas houver, ouça-se “OSC” ou “Vida a Mil” e perceba-se o quão desarmantes são as suas palavras e a sua música. Silly é ela própria, o que vê e sente, aqueles com quem se cruza, sem máscaras nem armaduras. Foi assim em Figueiró dos Vinhos. Sê-lo-á sempre. O futuro encarregar-se-á de o confirmar.

sexta-feira, 27 de agosto de 2021

CONCERTO: Amaura



CONCERTO: Amaura
FAZUNCHAR ‘21
Auditório da Casa da Cultura de Figueiró dos Vinhos
21 Ago 2021 | sab | 21:30


A voz. O primeiro impacto é marcante. Poderosa e elegante, a voz de Amaura espalha-se perfumada, envolvendo o público numa carícia. Seja num registo mais pop ou mais bluesy, numa piscadela de olho ao hip-hop, à bossa nova ou ao jazz, a voz conforma-se naturalmente, aninha-se nos graves e agudos com igual beleza e emoção, reparte-se e segue caminhos que são atalhos para os sentidos e para o coração do público. Para os mais cépticos, atentar nas sonoridades de “Só Sinto” e “Blues do Tinto” e contrastá-las com “Coopero”, “Dança” ou “Marvel da Tuga”, mais do que desfazer dúvidas, servirá para ir mais longe, o bichinho da curiosidade de súbito a fazer cócegas e a levar a outras paragens nas asas de “Terabyte” ou “Valerie”, este último da bem conhecida Amy Winehouse.

A presença. Descontraída, espontânea, entusiástica, calorosa, comunicativa, Amaura tem uma presença fortemente empática, sabendo como “agarrar” o público e levá-lo para o “canto” de onde melhor se pode ver e sentir a sua música. Fazendo questão de ser ela própria, percebe-se o quanto estar em palco é estar no seu ambiente. Com Daniel Freitas, aka TNT, no suporte musical e voz, e Pedro Braula Reis na guitarra, Amaura encarnou da melhor forma o ideal do FAZUNCHAR e, com muita energia e um enorme sorriso, combinou na perfeição a arte e a festa, pondo a plateia a “abanar o esqueleto”. Numa noite fria e ventosa, o calor na sala foi único, a marca da cantora bem vincada e a cotar-se como um dos pontos altos da edição deste ano do Festival.

A poesia. Por fim, mas não menos importante, os poemas, na sua maioria escritos pela própria Amaura. Abertos, francos, inspiradores, são um espelho do viver e do sentir da cantora. “EmContraste”, o tema de abertura do concerto, não poderia ser mais revelador: “Sou muito esquiva pouco prendada / Sou muito viva um pouco apagada / Sou sem travão só coração terça sou sim quarta sou não (…)”. Num quotidiano feito de momentos onde cabe o “cansaço e dores nas costas”, “trifene e saco de água quente”, mas também “um copo de vinho vermelho, encorpado e do douro” e a “proeza de ter a casa paga”, Amaura somos todos e todos somos Amaura. Se dúvidas restassem, eis mais uma prova do muito e bom que a nova música portuguesa tem para oferecer. Celebremos, pois!

terça-feira, 24 de agosto de 2021

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "Versos" | Rute Ferraz


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EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Versos”,
de Rute Ferraz
FAZUNCHAR ‘21
Museu e Centro de Artes de Figueiró dos Vinhos
14 Ago > 03 Set 2021


Em 2019, aquando da primeira edição do FAZUNCHAR, o espanhol Julio Anaya Cabading apostou na reprodução de três obras de José Malhoa, distribuindo-as por paredes da vila de Figueiró dos Vinhos. Desta forma, invertia-se a tendência natural de institucionalizar a arte, retirando-a dos museus e trazendo-a para junto das pessoas. Para além do significado do conceito e do inegável valor do trabalho de Cabading, aconteceu esta coisa espantosa de haver quem nunca tivesse entrado num Museu e, movido pela curiosidade, o fizesse pela primeira vez com o intuito de “confrontar” os trabalhos de ambos os artistas. Em certa medida, a história repete-se dois anos depois, com a exposição de fotografia de Rute Ferraz a “verter-se” pelas ruas de Figueiró, a partir de um espaço nuclear que é a galeria de exposições temporárias do Museu e Centro de Artes de Figueiró dos Vinhos. A arte volta às ruas e o resultado é delicioso!

Tendo participado como Artista Residente nas duas anteriores edições do Festival, Rute Ferraz legou para a posteridade um precioso conjunto de registos fotográficos, testemunhas vivas do nascimento e crescimento do certame. Foi nelas que, em grande medida, a comunicação do FAZUNCHAR assentou e foi através delas que, aqueles que o acompanharam à distância, tiveram a possibilidade de sentir um pouco do muito que se foi fazendo por estas bandas. No rescaldo de duas experiências marcantes, Rute Ferraz fez uma selecção das suas melhores imagens e o resultado é surpreendente. Desde logo pelo facto de ter “omitido” todo e qualquer traço que pudesse remeter directamente para o FAZUNCHAR. Mas sobretudo pela simplicidade e despojamento de cada uma das imagens, ao encontro dessa matriz “naturalista” que tanto fascínio exerceu em pintores como José Malhoa, Manuel Henrique Pinto, Columbano Bordalo Pinheiro, Silva Porto ou Carlos Reis.

Dentro de portas ou pelas ruas da vila poderá o visitante admirar um belíssimo conjunto de cinquenta e quatro fotografias que espelham bem o viver e o sentir das gentes de Figueiró dos Vinhos. São imagens que “convivem” duas a duas, uma a cores e outra a preto e branco, num diálogo que visa realçar as marcas do tempo nas paredes e muros, nas portas e janelas, mas também nos corpos e nos rostos das pessoas. São imagens que evidenciam uma relação muito directa entre a desertificação do interior e o envelhecimento da população, numa curva descendente que representa, inexoravelmente, um baixar de braços face às incertezas do futuro. Rute Ferraz capta esta realidade com enorme sensibilidade, devolvendo esse sentir envolto em interrogações que arrastam consigo histórias e memórias, sonhos e quimeras. Uma belíssima exposição para desfrutar, dentro de portas e fora delas. Só até ao próximo dia  03 de Setembro.

segunda-feira, 23 de agosto de 2021

CERTAME: FAZUNCHAR '21


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CERTAME: FAZUNCHAR 2021
Figueiró dos Vinhos
14 > 22 Ago 2021


Ao longo de uma semana, a Arte e a Festa passearam-se de mãos dadas por Figueiró dos Vinhos. Abriram-se num sorriso em murais plenos de cor e alegria, acenaram de varandas e janelas em pequenas e enigmáticas estatuetas, ofereceram-se num abraço em desenhos e fotografias, espalharam harmonia e ritmo em dois magníficos concertos, deram-se a partilhar em workshops, conversas com os artistas e visitas guiadas e, num final em grande estilo, foram saberes e sabores num piquenique de todos e para todos. Desta forma se pode resumir aquilo que foi a terceira edição do FAZUNCHAR, o Festival de Arte Urbana de Figueiró dos Vinhos, evento apostado em promover e dinamizar o território e que, apesar da sua curta existência, ocupa já um lugar muito especial no coração dos figueiroenses.

Co-organizadora e curadora do evento, a Mistaker Maker – Plataforma de Intervenção Artística mostrou-se particularmente ambiciosa nesta edição do FAZUNCHAR, chamando a Figueiró dos Vinhos um conjunto de figuras destacadas no panorama da Arte Urbana a nível mundial. São os casos do argentino Bosoletti, da francesa Perrine Honoré e dos espanhóis Elisa Capdevila e Isaac Cordal, aos quais se devem acrescentar os portugueses Samina, Third e Pantónio. Sete nomes para sete projectos de enorme qualidade e impacto, que se vêm juntar aos projectos das duas edições anteriores e que afirmam a vila e seus arredores como “um caso sério” no panorama dos Festivais de Arte Urbana no nosso País.

Bosoletti e a sua forma singular de representar a memória estão bem expressos em duas obras que ocupam fachadas da Travessa da Cadeia e que parecem dialogar entre si. Em tons de cinza pouco contrastados, as duas peças encerram um enigma que obriga a que o espectador mergulhe fundo em cada uma delas em busca da sua essência. O resultado é surpreendente e digno da mais viva admiração e aplauso. Na Avenida Marçal Pires Teixeira, Pantónio dá-nos a sua visão de um mundo cujos reinos se fundem no leve baloiçar de uma folha ao vento e no delicado esvoaçar de uma libelinha. A pintora e muralista Elisa Capdevilla devolve-nos “um passeio da catequese”, uma memória com várias décadas de existência recuperada com uma boa dose de talento e muito amor. É na Avenida Padre Diogo de Vasconcelos, no mesmo local onde até há bem pouco tempo foi possível apreciar uma instalação de Aheneah.

As quatro freguesias do município de Figueiró dos Vinhos não ficaram esquecidas e foram brindadas, cada uma delas, com uma nova peça. Trabalhando numa parede da Junta de Freguesia de Campelo, Third deixou-nos a sua interpretação do quadro de Malhoa “Embraçar cebolas”. Em Almofala de Baixo, na freguesia de Aguda, José Malhoa, juntamente com Henrique Pinto, volta a ocupar lugar de destaque num trabalho multicolorido com a assinatura de Perrine Honoré. Nele podemos encontrar praticamente todos os elementos distintivos do território, com destaque para o Laínte, dialecto local caído em desuso mas que representa um património imaterial que urge preservar. Em Arega, Samina trocou o habitual vermelho das suas composições por um amarelo vivo, rendendo homenagem à mulher do campo. Por fim, nas Bairradas, junto à igreja, Mariana Duarte Santos devolve-nos outra memória muito forte das gentes de Figueiró, a festa do Bom Jesus da Sobreira que tem lugar no fim de semana seguinte à quinta-feira de Ascensão.

À semelhança de cidades como Nova Iorque, Bogotá, Amesterdão ou Taipei, Figueiró dos Vinhos recebeu um conjunto de pequenas esculturas do espanhol Isaac Cordal, numa instalação que fala de timidez, constrangimento e solidão num mundo cada vez mais global e menos solidário. São vinte e uma miniaturas no total e o desafio é descobri-las todas. O resto foi, como li no Jornal de Cordel, “o Fred a bombar, a Amaura a cantar, o Miguel a fotografar, o Francis.co a desenhar, a Rute a versar (…)”, mas sobre a Amaura e a Rute falarei “já a seguir” em detalhe, em artigos separados aqui no blogue. E por falar em “Jornal de Cordel”, este foi o recuperar de uma tradição que teve o condão de manter actuais os múltiplos desenvolvimentos do Festival e que foi amplamente consultado pelos locais e gentes de passagem. No final, uma pergunta que é também um convite: “Jordamos atilém ao cadéfe bercher um moiteira copio?”

quinta-feira, 27 de agosto de 2020

ARTE URBANA: Helen Bur


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ARTE URBANA: Helen Bur
Fazunchar 2020
Vários locais, Figueiró dos Vinhos


Em tranquila caminhada ou num passo mais ligeiro, quem percorre as ruas de Figueiró dos Vinhos não pode deixar de se deparar com o trabalho que a britânica Helen Bur espalhou pela vila, no que pode ser visto como uma das mais belas heranças da segunda edição do Fazunchar. Trata-se de figuras de pequena escala que retratam pessoas da terra ou visitantes ocasionais, sempre de costas, pintadas com minúcia nos locais mais diversos, sejam eles a ombreira de uma porta, o cimo de uma escadaria ou a esquina de um coreto. No seu traço preciso, atenta ao mais ínfimo detalhe, Helen Bur faz do acto de criação uma homenagem à vida naquilo que de mais simples tem para oferecer, transformando em arte os gestos banais do quotidiano. Os quais apreciamos, nos quais nos revemos.

Percorrer o trabalho da artista é folhear as páginas de um livro que bem podia chamar-se “Helen no País das Maravilhas”. Observar cada uma destas pequenas peças é mergulhar em pedaços de vida que, para além da história implícita que os liga a um momento preciso e que, na maioria dos casos, podemos apenas intuir, remetem para as nossas próprias vivências. Não isento de humor, o seu trabalho resulta na fusão da arte com a vida, convocando memórias e, de forma implícita, concorrendo para a construção de narrativas, as mais das vezes delicadas e sensíveis, sobretudo fecundas e livres. Afinal, quem nunca se abrigou sob um guarda-chuva, carregou um filho sobre os ombros, passeou de mochila às costas ou, pontualmente, foi obrigado a usar uma canadiana?

Importa dizer que este “livro” oferece dois capítulos: um que podemos designar por “Figueiró dos Vinhos” e outro chamado “Campelo”, uma freguesia deste concelho do Pinhal Interior e que mereceu, igualmente, a atenção de Helen. No primeiro, são dezasseis as páginas a folhear, às quais se juntam seis no segundo capítulo. A grande particularidade deste “Helen no País das Maravilhas” é que as páginas não estão numeradas, o que faz dele um convite à descoberta ou, se assim o quisermos, uma “caça ao tesouro”. Aos mais curiosos e interessados em conhecer na íntegra o legado de Helen Bur pede-se muita atenção. Pode suceder que só à segunda ou terceira passagem por um mesmo local sintam a emoção da descoberta. Entretanto, muito mais descobrirão, certamente: uma cruz de ferro oitocentista, batentes de porta que são verdadeiras obras de arte, reminiscências do medievo na arquitectura da vila, belíssimos miradouros e fontanários, murais e cartazes resultantes de duas edições do Fazunchar. Tudo isto sob o olhar atento de uma catrefada de gatos.

terça-feira, 25 de agosto de 2020

CONCERTO: Surma



CONCERTO: Surma
FAZUNCHAR 2020
Travessa do Jasmineiro, Figueiró dos Vinhos
21 Ago 2020 | sex | 21:30


A noite caiu sobre a vila e os passos das gentes tomaram a direcção da Travessa do Jasmineiro. Na ladeira íngreme, estenderam-se mantas no chão, abriram-se cadeiras de praia, soleiras das portas foram tomadas de assalto e, no empedrado irregular, os menos prevenidos buscaram a posição mais cómoda, sentando-se no chão como podiam. Quando Surma chegou, tirei da mochila o CD, dirigi-me a ela e estendi-o, pedindo-lhe um autógrafo. Da surpresa inicial ao sorriso de satisfação que os olhos deixaram adivinhar foi coisa de segundos. Agradeceu o gesto enquanto lhe dizia que podia escrever apenas “Joaquim”. Agradeceu novamente e, na sua voz de desenho animado, pediu desculpa pela letra “um bocadinho horrível”. E eu ali, “meio burro”, com tanta coisa para lhe dizer e sem dizer coisa nenhuma. Mas digo agora, que mais vale tarde do que nunca!

Conheci Surma e a sua música há dois anos, num parque do centro da cidade de Espinho. Era uma tarde ventosa, como todas as tardes de todos os verões em Espinho. Lembro-me bem da força da sua música, de como me tocou. Há coisas assim, carregadas de emoção, como um quadro de Miró ou um poema de Ana Luísa Amaral. O coração toma conta de nós, estas coisas não se explicam. Na altura, escrevi no blogue que, “duma rapariga que se afirma pessimista, que nunca pensou sair da cave da sua casa de aldeia perto de Leiria e muito menos tocar onde já tocou, o menos que se pode dizer é que o seu projecto é obra. Nesta viagem agora iniciada, é difícil prever o quando e o onde do ponto de chegada, tal o potencial desta música, tal a energia, vontade e entrega de Débora Umbelino à sua 'causa'. Entretanto, aproveitem-se os portos de escala. Espinho foi um desses portos, da visita sobrando a vontade de saber mais, de escutar mais, de sentir mais.”

A vontade de “saber mais, de escutar mais, de sentir mais” foi sendo satisfeita pelas vezes sem conta em que passei “Antwerpen” no leitor do carro ou da sala. Na música de Surma escuto a surda e lenta agonia de um glaciar, o mar a desfazer-se de encontro às rochas, o nevoeiro que envolve a floresta, o murmúrio gutural da primeira palavra alguma vez proferida pelo Homem, a chuva incessante que cai sobre um tapete de folhas mortas ou os sons que, vindos do espaço, nos dizem que a vida não é exclusiva deste planeta cada vez menos azul. O concerto de Surma, na passada sexta feira em Figueiró dos Vinhos, veio confirmar esta profunda relação entre a sua música e a matéria de que somos feitos. Entre uma corda que vibra e o ar que se condensa ou a água que se despenha das fragas. Entre um grito que se desfaz e a terra ressequida ou o fogo que tudo destrói à sua passagem. Uma música cósmica que, não nos dizendo para onde vamos, nos mostra de onde viemos.

Surma esteve em Figueiró dos Vinhos a convite do FAZUNCHAR. Do curto tempo de uma Residência Artística que partilhou com a muralista Tamara Alves, da inspiração que colheu de uma verdadeira “ninfa”, resultaram cinco peças de enorme beleza, mesmo que “ainda muito cruas”, que a compositora e intérprete fez questão de partilhar com o público. Fê-lo ao mesmo tempo que Tamara trabalhava no seu mural, numa simbiose perfeita entre som e imagem, luz e trevas, yin e yang. O resto do concerto deu-nos a possibilidade de reviver “Hemma”, “Kismet” e “Voyager”, do já referido “Antwerpen”, mas também de recordar “Maasai” ou “Wanna be Basquiat”, dois trabalhos do início de carreira da cantora. Hipnotizante, mágico, “Nyika” foi o final perfeito de uma noite memorável. Que mais concertos destes possam acontecer. Eu quero estar lá!

segunda-feira, 24 de agosto de 2020

CERTAME: FAZUNCHAR 2020


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CERTAME: FAZUNCHAR 2020
Figueiró dos Vinhos
15 > 23 Ago 2020


Linguagem exclusivamente oral, utilizada pelos vendedores ambulantes de tecidos da vasta região do Pinhal Interior para comunicar entre si sem que fossem entendidos, o Laínte há muito que caiu em desuso. Dele chegam ecos aos nossos dias sob a forma de palavras soltas que despertam a curiosidade e estimulam a imaginação. Estão neste caso o “artife” e a “loreta”, que designam, respectivamente, o “pão” e a “água”. Da mesma forma estão a “broca”, que no caso é “casa”, a “dronha” que é “dinheiro”, o “ladrilho” que é “ladrão” ou a “pissalta”, na verdade a “rapariga”. Está também “fazunchar”, estranha palavra que ressoa aos ouvidos como se de música se tratasse e que, significando “fazer”, se torna em força motriz de um projecto “onde a arte faz a festa” e que envolve, num abraço, gentes, território, cultura e tradições. Pelo menos em Figueiró dos Vinhos assim é, desde que o Fazunchar aqui assentou arraiais em 2019. Para melhor percebermos o conceito, sigamos os passos da curadora Lara Seixo Rodrigues numa Visita Guiada ao encontro de murais, pinturas de montras, cartazes, concertos, conversas com os artistas e o muito mais que as duas primeiras edições do certame fizeram desabrochar. Mas antes, “jordamos atilém ao cadéfe bercher um moiteira copio?” (“vamos além ao café beber um copo de vinho?”).

Do lado de cá da rua, situa-se o antigo Clube Figueiroense, hoje Casa da Cultura e que foi, ao longo de nove intensos dias, o Quartel-General do Fazunchar. Do outro lado, um pouco abaixo, está o Casulo de Malhoa. Entre os dois edifícios, há toda uma história com mais de um século de existência e memórias que têm a uni-las os pintores José Malhoa e Henrique Pinto e os escultores Simões de Almeida, tio e sobrinho. Esta convergência de nomes, numa terra onde tudo é perto de tudo, faz com que neles tropecemos a cada passo numa visita que teve na pintura de Malhoa, “Clara” (1903), o seu ponto de partida. Não a “Clara”, uma das mais belas obras do naturalismo português e que podemos apreciar no Museu e Centro de Artes de Figueiró dos Vinhos, ali logo ao lado; mas a “Clara”, do pintor e muralista espanhol Julio Anaya Cabanding, cujo trabalho assenta, em grande medida, na reprodução de quadros célebres em contexto de Arte Urbana, desmistificando a visão de que os “clássicos” apenas aos museus pertencem. Esta ligação a Malhoa irá surgir nos mais diversos contextos e suportes, como é o caso da reinterpretação que seis dos maiores ilustradores nacionais – Ana Seixas, André da Loba, André Letria, Mariana Rio, Margarida Girão e Tiago Galo – fizeram de obras de Malhoa e cujos cartazes, espalhados há um ano pela vila, mantêm um interessante diálogo com os locais ou com o visitante ocasional.

Num sobe e desce constante, enigmáticas ou óbvias na sua toponímia, as ruas, quelhas, vielas e travessas vão-se sucedendo. As peças também. Junto à Torre da Cadeia, os ADAMASTOR trabalham ainda na sua versão da Lenda do Penedo da Trombeta enquanto, um pouco mais abaixo, Mohamed L’Ghacham parece querer-nos dizer que, por detrás da “bárbara” matança do porco, há todo um ritual de união e partilha cuja ancestralidade atesta a sua importância na vida das comunidades mais pequenas. Ali ao lado, Draw & Contra estão a terminar a sua visão de José Malhoa, a partir de um retrato de época que mostra o pintor abrigado do sol por um enorme guarda-chuva, segurando a paleta e os pincéis com a mão esquerda. Dirigindo os nossos passos para a Travessa do Jasmineiro, de onde chegam os acordes musicais que prenunciam o concerto de Surma agendado para essa noite, vemos que Tamara Alves acaba de nos deixar uma ninfa de cores sombrias, inspirada no baixo relevo “As Ninfas do Mondego” (1905), de Simões de Almeida (sobrinho).

Continuando a descer, chegamos ao edifício dos Paços do Concelho, o coração da vila, daí seguindo até ao início da Avenida Padre Diogo de Vasconcelos. Em plena rotunda, os Half Studio deixaram-nos a obra “Para Sempre”, um belo exemplar de “lettering” que, mais do que remeter para o Grupo do Leão, ao qual Malhoa e Henrique Pinto pertenceram, parece funcionar como um incitamento à coragem e à resiliência face aos tempos difíceis que atravessamos. A visita está a chegar ao fim e a interpretação de Aheneah de uma mulher do campo, intitulada “Semear”, vem recordar-nos que tudo começa com uma semente, a qual, lançada apenas no ano passado, prova ser forte e resistente, mostrando já saborosos frutos. Por conta e risco de cada um, importa rumar a poente onde, à entrada da vila, o grego Dmitris Taxis trabalha numa minuciosa reprodução de uma imagem colhida nas Fragas de S. Simão. [Propositadamente, omiti o projecto Lata 65 e a sua ligação à Sebenta da Quarentena, assim como Helen Bur e o seu trabalho, com o qual nos cruzámos algumas vezes ao longo do percurso. Deles irei falar separadamente em próximas crónicas aqui no blogue].

Surma e a sua música hipnotizante tomou conta da noite e escutá-la em sintonia com as intervenções de Tamara Alves no seu mural foi mágico. Nos sonhos de uma noite de verão, os jasmineiros floriram, embalando-nos com o seu perfume e recuperando-nos para um novo dia que se revelou intenso e recheado de belas surpresas. Às 09h30 tinha início a “Rota dos Fregueses”, um passeio em autocarro pelos arredores de Figueiró dos Vinhos que, a par da apreciação do trabalho de quatro artistas convidados que proporcionou, mostrou o quão significativo e enriquecedor pode ser este esforço de descentralização. Na Arega, Doa Oa “reflorestou” de gilbardeiras as paredes do mercado local, trabalhando com enorme detalhe e sensibilidade. Na Aguda, THE CAVER representou a terra e as gentes de forma estilizada, convidando cada visitante a fazer a sua própria interpretação do mural. Em Campelo, Mantraste recuperou histórias em torno dos viveiros de trutas, verdadeira atracção até há muito pouco tempo, realçando a palavra “cuidar”, em contraponto à situação de abandono que se percebe um pouco por todo o lado. Também em Campelo, Helen Bur voltou a mostrar a sua arte e a deixar preciosos apontamentos espalhados pela aldeia A derradeira noite chamou ao Auditório da Biblioteca Municipal de Figueiró dos Vinhos um apreciável número de espectadores que, ao som dos Cassete Pirata e da sua mensagem interventiva, fizeram a festa.

O domingo acordou luminoso e a prometer calor, o que viria a confirmar-se com o avançar do dia. Os nossos passos começaram por nos levar até ao Mercado Municipal de Figueiró dos Vinhos onde, numa das suas paredes exteriores, encontramos afixada uma ampliação do rolo de 7,5 metros, da autoria de Nuno Sarmento onde, num magnífico registo de “urban sketcher”, se conta a história da primeira edição do Fazunchar. Trata-se de um trabalho incrível, que atesta a qualidade do traço do artista e o seu enorme poder de observação, e cujo original pode ser vista na sala de exposições do piso superior do Museu e Centro de Artes. Depois, embarcando num percurso extraordinariamente bem delineado através do centro urbano de Figueiró dos Vinhos, foi tempo de dar “uma volta à vila, à volta dos quatro artistas” que atrás mencionei e descobrir os pormenores que, no fio do tempo, ligam histórias de ontem e de hoje. Uma visita ao Casulo de Malhoa e ao Museu completou o programa cultural de um fim de semana riquíssimo de interesse e conhecimento. Para o fim ficou o Piquenique Comunitário, no espaço refrescante do Jardim Municipal, um tempo feito de partilha que prolongou esta festa das artes e das gentes, cravando-a para sempre nos nossos corações. As últimas palavras são para a alma deste projecto, Lara Seixo Rodrigues e para a Mistaker Maker – Plataforma de Intervenção Artística. Fábrica de ideias em plena laboração vinte e quatro horas por dia, ela tem uma capacidade de organização e de trabalho notável, mostrando na prática o valor da expressão “o céu é o limite”. Para tanto, basta acreditar.

terça-feira, 11 de agosto de 2020

CERTAME: FAZUNCHAR 2020



ARTE URBANA: FAZUNCHAR 2020
Figueiró dos Vinhos
15 Ago > 23 Ago 2020


Contagem decrescente para a segunda edição do FAZUNCHAR – Onde a arte faz a festa. A partir do próximo sábado e até ao dia 23 de Agosto, a Arte Urbana volta a tomar conta de Figueiró dos Vinhos, no distrito de Leiria, espalhando formas e cores pelas ruas da vila e estendendo-as às freguesias de Aguda, Arega e Campelo. Com organização e curadoria da MISTAKER MAKER – Plataforma de Intervenção Artística, o FAZUNCHAR 2020 traz com ele, para além dos habituais murais, um conjunto de iniciativas onde se destacam, entre outros, residências artísticas, workshops, visitas guiadas, exposições, cinema e música.

Começando pelos murais, a britânica Helen Bur promete espalhar a sua arte pelo centro histórico da vila, procurando, de forma poética, dar um cunho global ao seu universo muito pessoal assente no diálogo entre as artes e as gentes. O polaco Dimitris Taxis é outro dos grandes nomes desta segunda edição, prometendo explorar essa luta interior e constante que o desassossega e que é imposta quotidianamente pela sociedade sob as mais variadas formas. De Espanha vem Doa Oa, trazendo com ela o seu projecto “Reflorestar” e essa necessidade urgente de reconhecer e respeitar o entorno natural e a importância de despertar nas consciências de cada um a ideia de que somos parte de um todo.

Membro integrante e co-fundador do Colectivo RUA, o português Frederico Draw vai voltar a usar as latas de spray como se fossem lápis para nos oferecer composições intensas e muito belas. Também Tamara Alves promete uma presença fortíssima em Figueiró dos Vinhos com a sua linguagem plástica a vincar o enorme fascínio que nutre pela estética de contexto urbano. The Caver é um artista português que vemos representado em muitas das nossas cidades e que aqui irá deixar a sua marca feita de formas simples e de cores harmoniosas. Por fim, Mantraste é sobretudo um ilustrador e será muito interessante ver como expressará, em ambiente urbano e em suportes bastante diferentes daqueles a que está habituado, o seu gosto pela natureza e por um certo misticismo popular.

O desenho e a ilustração estarão na base da residência artística de Francis.Co, enquanto Surma concentrará as suas atenções na composição musical, ela que é, reconhecidamente, um dos maiores valores da nova música portuguesa. Outra das residências artísticas é dedicada à fotografia, com Rute Ferraz a mostrar de que forma privilegia o contacto com as pessoas e as suas histórias. Finalmente, o vídeo, através de Vasco Mendes, cujo trabalho cruza música, ritmo, arquitectura e cinema. Orientado por Adamastor, haverá um workshop dedicado à estampagem com carimbos, enquanto Margarida Girão orientará um projecto de colagem criativa destinado à comunidade e onde o limite para novos mundos e personagens inspiradas em Figueiró será o que a imaginação de cada um quiser.

Do programa fazem também parte a exposição “Memórias do Fazunchar”, de Nuno Sarmento, um rolo de 7,50 metros onde se registam e se (re)descobrem momentos únicos de 2019, complementados com apontamentos da presente edição, numa versão revista e aumentada. A “Sebenta da Quarentena”, numa edição especial com Carolina Maia, será outro dos momentos altos da festa. Haverá ainda lugar à exibição do filme “Grafifiti Grandmas”, documentário norueguês realizado por Olve Aslaksen e Eirik Skaufjord. Como habitualmente, abrir-se-á um espaço de conversa com os artistas desta edição do certame, uma oportunidade única de melhor conhecer cada uma destas pessoas, as inspirações e as histórias que se escondem por detrás do seu trabalho. A música também não podia faltar e tanto Surma como Cassete Pirata prometem animar duas noites únicas, nesta edição que, como se percebe, tem tudo para agradar a todos.

Estão ainda planeadas Visitas Guiadas orientadas pela curadora do FAZUNCHAR, Lara Seixo Rodrigues e que irão decorrer no centro histórico de Figueiró dos Vinhos. Haverá uma Visita Guiada dedicada em exclusivo a crianças, orientada por Marina Prior e subordinada ao tema “O que esconde o FAZUNCHAR?” e ainda a “Rota dos Fregueses”, ao encontro da Arte Urbana que se espalha pelas freguesias do concelho. A editora discográfica leiriense Omnichord Records aceitou o desafio de criar uma Rota Sonora que liga os trabalhos da primeira edição do FAZUNCHAR aos músicos que representa e edita. Por fim, mas não menos importante, o Piquenique Comunitário terá lugar ao almoço do último dia do FAZUNCHAR 2020, prometendo transformar o momento num memorável convívio gastronómico, desportivo e artístico. Depois disto, vai faltar à festa? Programa completo, horários e locais das actividades podem ser consultados na página do evento no Facebook, em https://www.facebook.com/fazunchar/.