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domingo, 29 de junho de 2025

ARTE URBANA: MurArcos 2025



ARTE URBANA: MurArcos 2025
Com | Daniela Guerreiro, Helen Bur, Jorge Charrua, Mariana Duarte Santos, Regg Salgado
Arcos de Valdevez, vários locais
25 Jun > 29 Jun 2025


Portentosa sinfonia de sol e de brisas, de luz e de cores, a Terra de Valdevez tem num verde viçoso sem par a sua nota dominante. E isto tanto é válido no Inverno como no Verão, o que a transforma numa pequena caixa de sedução. Franjeada pelo poético Lima, sulcada ao meio, e de ponta a ponta, pelo idílico Vez que lhe dá o nome, esta é uma terra caprichosamente moldada pela natureza, ora em montanhas empinadas e altivas, ora em preguiçosas encostas onde amadura o vinho e sonolentas várzeas onde cresce o pão. É neste quadro natural do mais belo recorte que vamos encontrar os Arcos de Valdevez, cujos habitantes sabem aliar um vasto e rico património à História e à Tradição. Guardiães de um legado milenar, os arcuenses primam em defender as suas matrizes identitárias, sem fechar as portas à modernidade que se oferece em Arte e Cultura. Deste “casamento de interesses” nasce o MurArcos, Festival de Arte Urbana voltado para a dinamização cultural e a reabilitação do espaço público. Desde 2023 que um conjunto de artistas, influenciados pela tradição local, as histórias da população e o contexto histórico e natural de Arcos de Valdevez, tem sido chamado a modernizar o aspecto rústico das casas locais, a impulsionar diálogos intergeracionais e a trazer um novo brilho à zona histórica dos Arcos de Valdevez.

À vista de todos, o resultado de três edições do Festival salda-se em treze intervenções de grandes dimensões e um número de peças de pequeno formato que, até ao início desta edição, era de três, mas que irá certamente crescer graças à criatividade e labor da artista britânica Helen Bur. Os amantes da Arte Urbana conhecem Helen Bur das suas muitas miniaturas espalhadas pela vila de Figueiró dos Vinhos, ou desse extraordinário mural na Covilhã que homenageia as mulheres trabalhadoras da indústria têxtil. Na edição deste ano do MurArcos, a artista oferece-nos uma peça de grandes dimensões, a qual pode ser apreciada na Rua Dr. Joaquim Carlos da Cunha Cerqueira e que representa um muito apetecido mergulho nas águas do Vez. Particularmente chamativo, o trabalho encerra uma dimensão marcadamente impressionista, tirando um extraordinário partido do jogo natural de luz e sombra que o entorno acrescenta. Mas Helen Bur não se fica por aqui e, no Largo da Valeta, já fez nascer duas peças miniaturais, de cunho realista, inspiradas em personagens com as quais a artista se vem cruzando nesta sua passagem pelos Arcos. A ver vamos quantas mais peças poderão surgir nas últimas vinte e quatro horas do evento.

Caminhando em direcção ao centro da vila, vamos encontrar na Rua Dr. António José Pimenta Ribeiro um mural em progresso com a assinatura de Jorge Charrua. Numa fase ainda precoce da sua execução, a peça não dá a ver aquilo no que se irá tornar, mas pela dimensão e colorido que se adivinha em esboços mais adiantados promete vir a ser algo de muito impactante. Certamente impactante e também em progresso está o trabalho conjunto das artistas Daniela Guerreiro e Mariana Duarte Santos. Com provas dadas no panorama da Arte Urbana, quer no plano nacional como internacionalmente, as artistas propõe-se oferecer-nos a figuração daquilo que parece ser o momento de pausa de alguém que, à hora do café, passa o olhar por uma fotografia antiga e reaviva memórias de um tempo outro. Vamos ter de aguardar pela conclusão da peça, mas o resultado final promete ser deslumbrante e pleno de significado. A concluir a breve apreciação dos trabalhos desta terceira edição do MurArcos, falo de Manolo Mesa e do mural que está a desenvolver na Rua 25 de Abril e que, em distintas narrativas, funde a ponte dos Arcos, réplica da anterior ponte medieval e um dos ex-libris da vila, com um conjunto de belas peças de cerâmica, de inspiração autoral, mas que lembram a tradicional loiça de Viana do Castelo.

Passemos agora um olhar pelo legado das duas primeiras edições do Festival. Desta “herança” artística, importa destacar os trabalhos das já referidas Daniela Guerreiro e Mariana Duarte Santos, quer em peças individuais, quer em colaboração artística entre si e com a participação de Regg Salgado, curador do MurArcos e também ele um extraordinário artista - impressionante o seu “Fio Condutor”, na Covilhã. Deste último podemos apreciar um mural muito belo intitulado “O Guarda do Vez” e, numa caixa de electricidade, junto a um mimoso recanto próximo do Largo da Valeta, “Jogo das Caricas”. Num registo muito próximo da ilustração, Mutes oferece-nos as obras “O Major e a Raposa” e “Sem Título”, esta última remetendo para o Recontro do Vez, decisivo episódio da História de Portugal ligado à fundação da nacionalidade. Pintora e muralista reconhecida internacionalmente, a argentina Milu Correch tira partido de duas faces de um posto de transformação de electricidade para, numa peça sem título, nos levar ao encontro do universo infantil e do brincar aos fantasmas. Em mais um extraordinário mural, Pantonio convida-nos a espraiar o olhar pelo Vez ao encontro de uma flora e de uma fauna que, na sua pintura, se fundem em graça, cor e movimento. Olhamos, enfim, para aquela que será a mais apreciada peça de um espólio que não cessa de crescer e que representa, na deslumbrante arte de Bordallo II, a Cachena, o maior bovino autóctone da Península Ibérica. Hoje termina o MurArcos, mas as peças vão estar lá pelo tempo fora e, em qualquer altura, são merecedoras de uma visita.

segunda-feira, 19 de junho de 2023

CERTAME: WOOL Covilhã Arte Urbana 2023


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CERTAME: WOOL Covilhã Arte Urbana 2023
Artistas convidados | Helen Bur, Dimitris Taxis, Mariana Duarte Santos, Pitanga, Tiago Hesp
Curadoria | Mistaker Maker
Produção | Mistaker Maker
Covilhã, vários locais
10 Jun > 18 Jun 2023


Manter viva a memória da cidade da Covilhã, contar as suas histórias, preservar as suas figuras, reflectir sobre o território e combater a interioridade, tal têm sido, desde 2011, os propósitos que norteiam o WOOL Covilhã Arte Urbana, o mais antigo Festival do género no nosso País. Nesta 10ª edição, o certame voltou a espalhar-se por diversos recantos da “cidade-neve”, acrescentando mais cor à já existente e ampliando os momentos de partilha e saber. Como é da tradição, o acolhimento aos artistas teve lugar nos dois primeiros dias do Festival e obedeceu a um plano de apresentação da região com passagem por muitos dos seus mais emblemáticos lugares. Com as mentes inspiradas, segunda feira passada foi dia de pegar ao trabalho, o qual se estendeu até ao final do dia de ontem. Entretanto, como parte integrante do programa, na tarde de sábado teve lugar uma das várias visitas guiadas que, sob a orientação de Lara Seixo Rodrigues, co-fundadora do WOOL, levou os participantes ao encontro das novíssimas peças produzidas na presente edição e, naturalmente, de muitas outras que fazem a história do WOOL ao longo dos anos.

A visita teve início junto à Igreja de Santa Maria, impressionante na sua fachada azulejada branca e azul com cenas da vida da Virgem Maria. É no prédio fronteiro que encontramos o mural dos Arm Collective, o primeiro de todos no âmbito do certame, onde o traço abstracto de RAM se funde com a veia figurativa de MAR, numa abordagem aos grandes temas da época, da clonagem à deslocalização da indústria para os países asiáticos ou ao desaparecimento do aeródromo da Covilhã para dar lugar ao Data Center. Um rei, um pastor e uma estrela que lhe faz companhia estão na origem da lenda que dá o nome à Serra da Estrela e servem de tema ao mural seguinte, “O Pastor da Estrela”, da autoria do belga Gijs Vanhee. “Covilhocos à espreita”, de Catarina Glam, e um simpático diabrete da autoria do holandês PFFF, intitulado “Perdi o fio à meada”, precederam a visita ao primeiro mural de 2023, da autoria do grego Dimitris Taxis. Entre a pintura clássica, o graffiti e a Banda Desenhada, o artista socorre-se de um conjunto de imagens antigas, interpretando livremente uma paisagem serrana onde as enormes fragas ou uma imagem de Nossa Senhora da Conceição se misturam com uma prova de ralis ou com uma alusão ao trabalho infantil.

A visita prossegue entre um fado de Amália, a resistência de algumas plantas e a reinterpretação da Lenda do Monstro da Teixeira, nos trabalhos dos Half Studio, Pastel e Kram. Chegamos então ao Largo Senhora do Rosário onde “A Serra e a Neve”, dos Ruído e “Ouro”, dos Reskate, se impõem ao olhar do visitante. Ali ao lado há um novo “covilhoco à espreita” e, mais abaixo, o emblemático mocho de Bordallo II, a peça que, em 2014, catapultou o artista para uma carreira de nível internacional. Mas é ao encontro de Tiago Hesp, vencedor incontestado da Open Call desta edição, que seguimos. Ali, num edifício assente num enorme afloramento rochoso, o artista rende homenagem aos “mais velhos habitantes da Serra”, as rochas, que se erguem no ar semelhantes a novelos de lã. Mais abaixo podemos apreciar “Indigofera tinctoria + Rubia tinctorum”, de Doa Oa, representando duas plantas cuja seiva é, ainda hoje, utilizada para tingir tecidos. Uma peça que se insere no projecto da artista “Reflorestando” e que pretende despertar consciências para a importância da preservação e respeito pelo reino vegetal.

Uma mulher, de joelhos no chão e com uma montanha de tecidos às costas, é o tema do mural desenvolvido nesta edição por Helen Bur num edifício da íngreme Rua Comendador Gomes Correia. Esta é uma peça que se afasta dos trabalhos miniaturais que a artista espalhou por Figueiró dos Vinhos e que se presta a muitas leituras, desde o peso do trabalho doméstico à mulher discriminada face ao homem na indústria dos lanifícios ou à mãe (e Helen Bur foi-o, recentemente), com o acréscimo de trabalho que daí advém e para o qual uma terceira mão será sempre bem-vinda. Os passos levam-nos ao encontro do mural seguinte, o mais impactante desta edição e, quiçá, de todas as edições do WOOL. Numa altura em que o Sporting Clube da Covilhã festeja o seu centenário, esta peça da autoria de Mariana Duarte Santos é menos sobre futebol e mais sobre a memória colectiva de toda uma cidade e daqueles que, das mais diversas formas, deixaram o seu nome a ela ligado. Os nomes podem ser desconhecidos para a esmagadora maioria de nós, mas fale-se a um covilhanense de Franklin Taborda ou João Lãzinha, Francisco Manteigueiro ou Fernando Cabrita, Amílcar Cavém ou André Simonyi, César Brito ou János Szábo e parece que o coração até quer saltar do peito. É esta emoção que transborda daqueles muros e que se abre, em forma de arte, à cidade e ao mundo.

A visita está a chegar ao fim mas há ainda tempo para apreciar o extraordinário “O Observatório”, da autoria de Douglas Pereira, o qual retrata três crianças a explorar e estudar a paisagem. São elas um exemplo da curiosidade dos jovens e dos seres humanos, em geral, a qual deve ser permanentemente estimulada. De regresso à parte alta, tempo ainda para uma paragem no exterior da Escola Básica de S. Silvestre onde a artista Joana Rodrigues aka Pitanga desenvolveu uma peça em colaboração com a comunidade escolar, representando de forma esquemática alguns ícones da Serra da Estrela ao mesmo tempo dando a ver as suas preocupações, da importância de uma boa triagem e separação de resíduos ao abate da floresta ou ao flagelo dos incêndios florestais. Já nas Portas do Sol, e antes dos CISMA dar início ao concerto “Entre Portas”, tempo para apreciar as super-ameaçadas peças de Tamara Alves e Regg Salgado que, há vários anos, embelezam aquele espaço. As palavras finais pertencem à organização do WOOL, mas traduzem o sentimento de artistas, parceiros, voluntários, residentes e visitantes: “Podemos repetir-nos ao longo destes 12 anos, mas foi novamente uma edição especial, onde se confirma que é possível transformar cidade e comunidade através da Arte e da Cultura. Foi uma edição feita de encontros, de muitas partilhas, de boas parcerias, de emoções sonoras e de tantas outras coisas, que nos encheram o coração.”

quinta-feira, 27 de agosto de 2020

ARTE URBANA: Helen Bur


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ARTE URBANA: Helen Bur
Fazunchar 2020
Vários locais, Figueiró dos Vinhos


Em tranquila caminhada ou num passo mais ligeiro, quem percorre as ruas de Figueiró dos Vinhos não pode deixar de se deparar com o trabalho que a britânica Helen Bur espalhou pela vila, no que pode ser visto como uma das mais belas heranças da segunda edição do Fazunchar. Trata-se de figuras de pequena escala que retratam pessoas da terra ou visitantes ocasionais, sempre de costas, pintadas com minúcia nos locais mais diversos, sejam eles a ombreira de uma porta, o cimo de uma escadaria ou a esquina de um coreto. No seu traço preciso, atenta ao mais ínfimo detalhe, Helen Bur faz do acto de criação uma homenagem à vida naquilo que de mais simples tem para oferecer, transformando em arte os gestos banais do quotidiano. Os quais apreciamos, nos quais nos revemos.

Percorrer o trabalho da artista é folhear as páginas de um livro que bem podia chamar-se “Helen no País das Maravilhas”. Observar cada uma destas pequenas peças é mergulhar em pedaços de vida que, para além da história implícita que os liga a um momento preciso e que, na maioria dos casos, podemos apenas intuir, remetem para as nossas próprias vivências. Não isento de humor, o seu trabalho resulta na fusão da arte com a vida, convocando memórias e, de forma implícita, concorrendo para a construção de narrativas, as mais das vezes delicadas e sensíveis, sobretudo fecundas e livres. Afinal, quem nunca se abrigou sob um guarda-chuva, carregou um filho sobre os ombros, passeou de mochila às costas ou, pontualmente, foi obrigado a usar uma canadiana?

Importa dizer que este “livro” oferece dois capítulos: um que podemos designar por “Figueiró dos Vinhos” e outro chamado “Campelo”, uma freguesia deste concelho do Pinhal Interior e que mereceu, igualmente, a atenção de Helen. No primeiro, são dezasseis as páginas a folhear, às quais se juntam seis no segundo capítulo. A grande particularidade deste “Helen no País das Maravilhas” é que as páginas não estão numeradas, o que faz dele um convite à descoberta ou, se assim o quisermos, uma “caça ao tesouro”. Aos mais curiosos e interessados em conhecer na íntegra o legado de Helen Bur pede-se muita atenção. Pode suceder que só à segunda ou terceira passagem por um mesmo local sintam a emoção da descoberta. Entretanto, muito mais descobrirão, certamente: uma cruz de ferro oitocentista, batentes de porta que são verdadeiras obras de arte, reminiscências do medievo na arquitectura da vila, belíssimos miradouros e fontanários, murais e cartazes resultantes de duas edições do Fazunchar. Tudo isto sob o olhar atento de uma catrefada de gatos.