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quarta-feira, 28 de outubro de 2026

CONCERTO: Orquestra Jazz de Matosinhos & Cristina Branco



CONCERTO: Orquestra Jazz de Matosinhos & Cristina Branco
Direcção musical | Pedro Guedes
Voz | Cristina Branco
Madeiras | José Luís Rego, João Guimarães, Mário Santos, José Pedro Coelho, Rui Teixeira
Trompetes | Luis Macedo, Javi Pereiro, Rogério Ribeiro, João Pedro Dias
Trombones | Daniel Dias, Andreia Santos, Rui Bandeira, Gonçalo Dias
Secção Rítmica | Miguel Meirinhos (piano), Hugo Ferreira (guitarra), Bernardo Moreira (contrabaixo), Gonçalo Ribeiro (bateria)
Azeméis Jazz & Blues 2026
TeMA - Teatro Municipal de Oliveira de Azeméis
23 Out 2026 | sex | 21:30


Se há concertos que ultrapassam largamente as expectativas, este foi um deles. Depois de duas experiências pessoais em tempos recentes no mínimo decepcionantes, Cristina Branco soube transcender-se, surpreendendo o ouvido e arranhando as zonas mais fundas da sensibilidade daqueles que tiveram o privilégio de a escutar. Perante uma plateia que cedo percebeu estar diante de uma proposta musical desafiante e consistente, o encontro da Orquestra de Jazz de Matosinhos com Cristina Branco foi um momento de qualidade artística invulgar e de forte presença empática. Referência incontornável do jazz nacional, a formação matosinhense voltou a demonstrar a excelência de um colectivo que faz da precisão, da inteligência interpretativa e da riqueza tímbrica os alicerces de uma identidade inconfundível. A solidez do conjunto não apagou o brilho individual dos seus músicos, antes o amplificou, oferecendo espaço à expressividade de solistas como Mário Santos, José Luís Rego, José Pedro Coelho, João Guimarães, Hugo Ferreira, Miguel Meirinhos ou Bernardo Moreira. Sobre esta arquitectura sonora, de notável elasticidade e apurado sentido de equilíbrio, ergueram-se os arranjos magistrais de Carlos Azevedo, Luís Figueiredo, Pedro Guedes, José Pedro Coelho e Mário Laginha, capazes de abrir novas paisagens a canções que habitam há muito a memória colectiva. No centro de tudo esteve Cristina Branco e a sua voz límpida, um timbre luminoso, uma maneira de dizer que acolhe a tradição sem se deixar aprisionar por ela, algures entre o fado, a canção portuguesa e a liberdade do jazz. Não se tratou, pois, de um simples encontro de universos, mas de uma convergência feliz de sensibilidades, em que cada elemento encontrou o seu lugar sem abdicar da própria singularidade.

A escolha do repertório conferiu à noite uma espessura particular, convocando sobretudo os cancioneiros de José Afonso e Sérgio Godinho, dois nomes maiores de uma música portuguesa que nunca aceitou reduzir-se à condição de mero entretenimento. De “Senhor Arcanjo” a “Teresa Torga”, de “Carta a Miguel Djéje” a “Com um brilhozinho nos olhos”, passando pela inquietação de “Bomba-relógio” e pela delicadeza de “Espalhem a notícia”, as canções foram-se despindo das suas vestes habituais para ganhar novas dimensões, como se o jazz lhes revelasse significados até então adormecidos. A escrita orquestral não procurou ornamentar o que já era essencial, antes explorar-lhe as nervuras, acentuando tensões, abrindo silêncios e multiplicando cambiantes, sem trair a força das palavras nem a identidade melódica de cada composição. A incursão por “As Mondadeiras”, tema tradicional com arranjo de Mário Laginha, e por “Quando julgas que me amas”, com poema de António Lobo Antunes, ou “Hoje eu canto”, sobre palavras de Maria do Rosário Pereira, alargou ainda mais o horizonte de um alinhamento onde a literatura e a música se reconheceram como formas complementares de interrogar o mundo. Houve, nesta sucessão de canções, uma coerência que ultrapassou a mera justaposição de temas: a de uma cultura musical que não teme o risco, que sabe revisitar a memória sem a transformar em relíquia e que encontra na reinvenção uma forma de fidelidade. Cristina Branco habitou este território com uma naturalidade admirável, sem excessos nem artifícios, encontrando forças na contenção expressiva e fazendo da clareza da sua voz o fio condutor de uma narrativa simultaneamente íntima e colectiva.

Foi, contudo, a meio do concerto, quando Cristina Branco interrompeu por instantes o curso da música para ler um texto que se revelou uma espécie de manifesto, que a noite encontrou uma das suas mais significativas chaves de leitura. Ao lembrar Sophia de Mello Breyner e a poesia como “não aceitação fundamental”, a cantora alargou o sentido do espectáculo para lá da excelência musical, reivindicando a palavra como espaço de resistência e a arte como lugar de encontro contra a indiferença, a opressão e a estreiteza das lógicas que tudo submetem à produtividade e ao lucro. “Os canalhas não simpatizam com poesia”, concluiu, numa frase que dispensa explicações e que pareceu ressoar, retrospectivamente, em cada canção de José Afonso ou Sérgio Godinho, ganhando actualidade nas acampadas do Rossio ou da Praça D. João I. Porque também a música, quando recusa a neutralidade, pode ser uma forma de desassossego, tal como um verso, repetido por muitas vozes, pode transformar-se em gesto de insubmissão. A Orquestra de Jazz de Matosinhos soube dar corpo a essa inquietação sem converter a música em ilustração de uma ideia, preservando-lhe a autonomia estética e fazendo da exuberância instrumental um exercício de escuta e cumplicidade. Cristina Branco, por seu lado, confirmou que a sua voz não vive apenas da beleza do timbre, mas da inteligência com que veste cada palavra e da sensibilidade com que aproxima universos aparentemente distantes. A encerrar a quinta edição do Azeméis Jazz & Blues, este foi um concerto em que a memória de uma grande interpretação ficou no ouvido, mas também a certeza de que a poesia, a canção e o jazz continuam a ser territórios onde a liberdade encontra abrigo. E isso, nos tempos que correm, não é coisa de somenos.

quarta-feira, 21 de outubro de 2026

CONCERTOS & CONVERSAS: Ovar Expande 2026



CONCERTOS & CONVERSAS: Ovar Expande 2026
Com | Mafalda, Samuel Úria & Os 12 ao Todo, RAY, Homem em Catarse, Sean Riley and The Slowriders, Rita Cortesão, Ezekiel e PAUS
Escola de Artes e Ofícios
14 a 17 Out 2026


Nascido em 2020 com a firme vontade de contribuir para o desconfinamento da nova música portuguesa e de abrir um espaço de descoberta, afirmação e proximidade com o público, o Ovar Expande tem sabido construir, edição após edição, uma identidade própria no panorama cultural nacional. Partindo da ambição de dar a conhecer o que de melhor se vem fazendo entre nós, o festival cresceu sem perder de vista os princípios que estiveram na sua génese, apostando na qualidade e diversidade da programação, no diálogo entre artistas e espectadores e na criação de experiências que ultrapassassem o espaço convencional do concerto. A renovação do formato, a integração de conversas, oficinas e masterclasses e a atenção dispensada aos processos de criação e às metamorfoses que dão forma à música, têm contribuído para consolidar um projecto diferenciador e que é hoje uma referência incontornável na divulgação de novos talentos. Subordinada ao tema «Dos Primeiros Esboços às Metamorfoses», esta sétima edição confirmou a maturidade de um festival que continua a saber conjugar descoberta e reconhecimento, proximidade e exigência, mantendo-se fiel ao propósito de revelar a riqueza e a vitalidade da música que se faz no presente.

A primeira noite colocou em diálogo dois percursos distintos, unidos pela força da palavra e pela singularidade das propostas. Na Sala Galeria, Mafalda apresentou, em ante-estreia, “Gosto Muito de Estar Aqui”, álbum de estreia sob o seu nome de nascimento, integralmente cantado em português e dedicado à identidade, à pertença e à transformação pessoal. Depois do percurso iniciado como Mathilda, a artista revelou um universo intimista e sensorial, apoiado em sonoridades evocativas da natureza e, numa voz envolvente, soube encontrar espaço tanto para a serenidade como para o movimento. Na Sala Expande, Samuel Úria subiu ao palco na companhia de “Os 12 ao Todo”, num concerto em que a riqueza da escrita e a expressividade vocal assumiram o protagonismo. Entre canções emblemáticas, arranjos corais e momentos de inesperada explosão, o cantautor demonstrou como um repertório reconhecido pelo simbolismo das palavras pode ganhar novas dimensões sem perder a sua identidade. O carisma e a cumplicidade entre palco e plateia fecharam a noite num ambiente de celebração, confirmando a capacidade do festival para juntar diferentes gerações e as mais distintas sensibilidades musicais.

O segundo dia do Ovar Expande afirmou-se como um encontro de diferentes sensibilidades musicais, unidas pela força da palavra, pela expressividade e pela liberdade criativa. Coube a Ray, projecto a solo de Luís Raimundo, abrir a jornada, num concerto despido de artifícios, em que a voz e a guitarra deram corpo às canções de “Buffalo”, álbum editado em 2025. Entre a delicadeza e a intensidade, o músico construiu um momento de proximidade e partilha, percorrendo temas como o amor, a paternidade, a morte e a reinvenção pessoal. Seguiu-se Homem em Catarse, alter ego de Afonso Dorido, que trouxe a Ovar o universo ecléctico de “Catarse Natural”, disco onde a folk, o shoegaze, o pós-fado e outras paisagens sonoras se cruzam com inquietações sociais e políticas. Da crise da habitação à esperança num mundo mais justo, as canções revelaram um autor comprometido com a palavra, sem abdicar da experimentação e da intensidade emocional. A encerrar a noite, Sean Riley recuperou a trajectória dos Sean Riley And The Slowriders, projecto incontornável da música portuguesa das últimas duas décadas. Entre folk, rock e blues, o cantautor revisitou um repertório marcado pela contenção, pela escrita intimista e pela elegância dos arranjos, confirmando a consistência de uma obra que continua a encontrar na simplicidade a sua maior força.

O derradeiro dia do Ovar Expande começou com a intimidade de Rita Cortezão que, entre o sintetizador e as canções de “Tudo, Um Pouco”, o seu álbum de estreia, revelou uma voz autoral em pleno desabrochar. A aparente fragilidade deu rapidamente lugar à segurança interpretativa, à versatilidade vocal e a uma presença cativante, num concerto em que histórias pessoais se transformaram em experiências partilhadas. De «Lisbolha» a «O tempo que fica», a artista percorreu temas como a pertença, a passagem dos dias e os laços que resistem à memória, encerrando com “Só para Mim” uma actuação marcada pela proximidade e pela generosidade. Seguiu-se Ezekiel, projecto instrumental do músico residente em Ovar, que encontrou na guitarra lap steel Weissenborn o ponto de partida para uma viagem que combinou a folk, a country e outras tradições sonoras. Com carta branca para chamar para junto de si a multi-instrumentista e cantora italiana Irene Brigitte, o músico começou a solo, antes de alargar o espectro sonoro com a guitarra, o adufe e a voz da convidada. “In Riva” e “Menta” abriram caminho a sonoridades triestinas, enquanto “A Gente Vai Continuar” proporcionou um dos momentos mais luminosos da noite, com o público a juntar-se à homenagem a Jorge Palma, que nos deixou muito recentemente. A fechar o festival, os PAUS trouxeram a Ovar o peso simbólico de uma despedida anunciada. Na derradeira digressão, que acompanha o álbum “Enterro” e assinala o fim de dezoito anos de percurso, o quarteto voltou a afirmar uma identidade singular, entre o rock e a experimentação rítmica. Num concerto intenso, o grupo transformou o fim em matéria artística, deixando no Ovar Expande a marca de uma banda que soube sempre escapar às fronteiras dos géneros.

segunda-feira, 11 de maio de 2026

CONCERTO: Carminho



CONCERTO: Carminho
Com | Carminho (voz), André Dias (guitarra portuguesa), Flávio César Cardoso (viola de fado), Pedro Geraldes (lap steel guitar e guitarra eléctrica), Tiago Maia (baixo acústico), João Pimenta Gomes (cristal baschet, mellotron, ondes martenot)
Casa da Cultura de Ílhavo
09 Mai 2026 | sab | 21:30


Há concertos que começam muito antes da primeira nota e o de Carminho, na lotada Casa da Cultura de Ílhavo, foi um desses casos em que o público escreveu parte decisiva da narrativa da noite. O atraso de três quartos de hora poderia ter instalado a impaciência, o murmúrio ou a deserção emocional; ao invés, a sala manteve-se num estado de urbanidade pouco comum, acolhendo a entrada da cantora com uma vibração cúmplice, como se todos compreendessem que o fado vive também destas suspensões do tempo. E talvez tenha sido precisamente essa predisposição colectiva que permitiu a Carminho transformar o arranque da digressão de “Eu Vou Morrer de Amor ou Resistir” num exercício de intimidade rara. Entre canções, a fadista falou de si, de como o fado se lhe foi infiltrando nas veias e da forma como as camadas de experiência alteram o peso das palavras e o sentido da interpretação. Fê-lo sem aparatos nem falsas modéstias, antes com um desprendimento sereno, quase doméstico, convertendo uma sala cheia num espaço de intimidade e cantando para centenas de pessoas como quem canta para uma só.

Se a força dos poemas tem sido marca identitária da cantora desde o inaugural “Fado”, de 2009, neste novo trabalho ela adquire uma centralidade absoluta. Temas como “Balada do País que Dói”, “Saber” ou “Canção à Ausente” confirmaram uma artista cada vez mais interessada em empurrar o fado para um lugar de reflexão poética e inquietação contemporânea. A revisitação de vários momentos da sua discografia permitiu, justamente, perceber uma evolução que tem na depuração tradicional o seu ponto de partida, crescendo para uma escrita musical mais ousada, aberta a outros géneros e a outras texturas. Convém dizer, no entanto, que nem todas as experiências pareceram plenamente conseguidas, já que a panóplia instrumental trazida para o palco foi, a espaços, mais intrusiva do que reveladora. Nalguns momentos, os instrumentos pareceram reclamar protagonismo para lá daquilo que a canção exigia, retirando crueza e tensão ao gesto fadista. Aquilo que em disco poderá surgir como expansão estética subtil, em palco tornou-se por vezes excesso demonstrativo. Não por insuficiência dos músicos, irrepreensíveis na execução, mas porque o fado continua a pedir contenção e sombra, mais do que aparato tímbrico.

Ainda assim, mesmo quando o concerto ameaçou dispersar-se em derivações sonoras menos convincentes, bastou a Carminho recentrar-se na palavra para tudo reencontrar eixo e verdade. “Meu Amor Marinheiro”, “Estrela” ou “Rouxinóis do Mondego” devolveram à noite essa dimensão quase ritual que faz do fado uma experiência de comunhão e memória. Foi nesse despojamento final que o concerto encontrou a sua imagem mais poderosa, levando a sala ao rubro com um derradeiro “As Minhas Penas”, ao metamorfoseá-la numa velha casa de fados lisboeta. Nesse instante desapareceram os dispositivos experimentais e ficou apenas o essencial: voz e guitarras, respiração e escuta. O público acompanhou em silêncio reverente, antes de explodir numa ovação longa, agradecida, consciente de ter assistido não apenas ao início de uma digressão que levará Carminho de Valença a Faro, de Ludwigsburg a Barcelona, mas sobretudo a um concerto onde a artista reafirmou a singularidade do seu caminho. Um caminho que continua a dividir-se entre tradição e risco, entre depuração e excesso, mas onde permanece intacta a convicção de que o fado só sobrevive quando aceita resistir à sua própria ideia de permanência.

domingo, 12 de abril de 2026

CONCERTO: "Phenomenon" Marius Preda | Ovar em Jazz 2026



CONCERTO: “Phenomenon” Marius Preda
Com | Marius Preda (címbalo, acordeão e violino), Taco Gorter (bateria), Kiba Dachi (baixo)
Ovar em Jazz 2026
Centro de Artes de Ovar
10 Abr 2026 | sex | 21:30


À semelhança do que sucedera na edição anterior com Tigran Hamasyan, o terceiro e penúltimo dia do Ovar em Jazz 2026 extravasou as fronteiras do mero concerto para se afirmar, tanto de um ponto de vista estético como filosófico, como um momento de reflexão sobre o lugar do jazz no universo da música. Não haverá, na verdade, género em cujo “saco” caibam mais estilos, modos, tempos ou conceitos, mas aquilo que Marius Preda mostrou foi algo de completamente diferente: um estilhaçar das convenções sobre a forma de “fazer jazz”. No centro das atenções esteve o címbalo - instrumento milenar, de ressonâncias que nos fazem recuar a Marco Polo e às caravanas que atravessavam a Rota da Seda -, reinventado com uma ousadia rara. Multi-instrumentista de recursos inesgotáveis, Preda abordou o instrumento, não como curiosidade étnica, mas como veículo principal de uma linguagem própria, híbrida e em permanente mutação. Estendendo o seu virtuosismo ao piano e ao acordeão, aquilo que o músico mostrou foi algo de difícil classificação, o concerto a orbitar o fascinante mundo dos “fenómenos” e a deixar o público mais preso à actuação do que à música em si.

Com “Mission Cimbalon”, o tema que abriu a noite, rapidamente se percebeu que Marius Preda não veio a Ovar apenas para apresentar um instrumento pouco habitual no léxico jazzístico, antes para reconfigurá-lo enquanto eixo narrativo, capaz de sustentar composições densas, ritmicamente incisivas e emocionalmente expansivas. E isso foi evidente ao longo de um concerto de curta duração mas de enorme intensidade, capaz de roubar o fôlego até aos mais habituados a estas andanças do jazz. Assente num trio que contou com os contributos do baterista Taco Gorter e do baixista Kiba Dachi, o concerto evoluiu através de um discurso sonoro que soube tirar partido da enorme fluidez entre géneros. Particularmente marcante foi a forma como o címbalo, com o seu timbre percussivo e metálico, se integrou na malha rítmica, ora funcionando como motor, ora como elemento melódico de grande subtileza. Envoltos numa energia febril e num rigoroso sentido formal, apontamentos de jazz latino, sugestões de música árabe, inflexões de blues e ecos da vibrante tradição cigana entrelaçaram-se com naturalidade nas homenagens que o músico entendeu prestar a Arturo Sandoval, Astor Piazzolla ou Stevie Wonder.

Aliando virtuosismo - que em doses generosas se espalhou pelos quatro cantos de um pouco preenchido Auditório do Centro de Artes de Ovar -, a uma clareza de intenções no aproximar de culturas, dissolver fronteiras estilísticas e propor uma escuta aberta e inclusiva, o concerto fez da travessia de territórios o motor de construção de uma identidade musical própria. Marius Preda não se limitou a exibir perícia técnica, antes procurou instaurar uma experiência colectiva, cada tema a afirmar-se como ponto de encontro entre o passado e o presente, a tradição e a modernidade. Percebeu-se, em “Phenomenon”, essa dimensão quase utópica, mas que em palco pareceu diluída nos muitos momentos de enorme exuberância instrumental que acabaram por se sobrepor à substância, embora se aceite que é precisamente nesse excesso controlado que reside a singularidade do projecto. Ainda que a performance tenha estado quase sempre um passo à frente da música, o fulgor do “fogo de artifício” a abafar os ecos raros e subtis da própria festa, fica a sensação de termos assistido a algo único, não apenas no que teve de afirmação de um singularíssimo músico, mas também na recriação das possibilidades de um instrumento peculiar.

terça-feira, 7 de abril de 2026

CERTAME: Ovar em Jazz 2026



CERTAME: Ovar em Jazz 2026
Com | Anna Setton Quartet, Carlos Bica Quarteto, Marius Preda, Orquestra de Jazz do Hot Clube de Portugal com John O'Gallagher
Centro de Artes de Ovar
08 > 11 Abr 2026


A partir de amanhã, e até ao próximo sábado, a cidade de Ovar volta a ser o epicentro do jazz nacional com a chegada do Ovar em Jazz, este ano a cumprir a sua oitava edição. Capaz de projectar a cidade no circuito internacional e de atrair tanto nomes consagrados como novas propostas artísticas, o festival recebeu, ao longo das suas anteriores edições, nomes como os de Amaro Freitas, Ricardo Toscano, Mário Costa, Marc Ribot, João Lencastre, Carmen Souza, Abe Rábade, Hugo Carvalhais, Carlos Bica, Andy Sheppard, Stefano Battaglia, Maria João, Danilo Pérez ou Tigran Hamasyan, entre muitos outros. Espelhando a sua consistência e ambição artística, prepara-se agora para mais quatro dias do melhor jazz, afirmando-se como um espaço de encontro entre a tradição e a vanguarda. Sob o lema “Jazz sem Fronteiras”, o certame volta a apostar no cruzamento de linguagens, geografias e gerações musicais, propondo, mais do que uma sucessão de concertos, uma experiência imersiva que se irá desdobrar entre Auditório, Caixa de Palco e Bar do Centro de Artes, envolvendo o público numa vivência plural e contínua.

À semelhança dos anos anteriores, a edição de 2026 mantém uma elevada linha de exigência, apresentando um cartaz que cruza nomes nacionais e internacionais de reconhecido mérito. Entre os destaques encontra-se o virtuoso romeno Marius Preda, que vamos poder ouvir na noite de sexta feira e que traz ao festival o projecto “Phenomenon”, síntese de mais de três décadas de carreira, onde o címbalo ganha protagonismo num diálogo entre tradição clássica, influências folk e improvisação contemporânea. A abrir o certame, já esta quarta feira, a cantora brasileira Anna Setton marca presença com um quarteto que funde jazz com bossa nova e MPB, num registo sofisticado e luminoso. Carlos Bica regressa ao festival com “11:11”, projecto de forte identidade melódica e intensidade expressiva, reafirmando o seu lugar como uma das figuras maiores do jazz português. Também a Orquestra de Jazz do Hot Clube de Portugal regressa ao festival, desta vez na companhia do saxofonista nova-iorquino John O’Gallagher, num encontro que cruza tradição e contemporaneidade e que promete encerrar em beleza esta edição do certame.

Para além dos concertos em sala, o Ovar em Jazz expande-se pelos mais diversos espaços do Centro de Artes, incorporando a gravação ao vivo do programa “Notas Azuis”, da Antena 3, com curadoria de Rui Miguel Abreu, bem como DJ sets, mostras de vinil e projectos emergentes. Iniciativas como o Ovar Jazz Collective, orientado por João Martins, reforçam a aposta na criação e valorização do talento local, estabelecendo pontes entre formação e performance. Ao mesmo tempo, propostas como Mantis, Fourward ou Oxímoro evidenciam a vitalidade de uma cena que recusa fronteiras estilísticas e procura novas formas de expressão. Neste equilíbrio entre memória e experimentação, o festival prossegue o seu trajecto de afirmação como espaço singular de liberdade criativa e de encontro cultural, entendendo o jazz não apenas como género musical, mas como linguagem aberta e em permanente transformação. O programa completo pode ser consultado na página Ovar/Cultura, em https://cultura.cm-ovar.pt/pt/menu/734/ovar-em-jazz.aspx. Até jazz!

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

CERTAME: CásterAntiqua - Festival de Música Antiga de Ovar



CERTAME: CásterAntiqua - Festival de Música Antiga de Ovar
Musurgia Ensemble, Ensemble Med, New Collegium, William Carter, Ensemble Allettamento, Duo Suzanne e Coro CásterAntiqua
Direcção artística | João Francisco Távora, Hélder Sousa
Igreja Matriz, Bar do Centro de Artes de Ovar, Capela da Misericórdia, Capela do Calvário, Museu Júlio Dinis - Uma Casa Ovarense, Centro de Artes de Ovar
27 e 28 de Fevereiro, 01, 05, 06, 07 e 08 de Março de 2026 


Arranca hoje a segunda edição do CásterAntiqua – Festival de Música Antiga de Ovar, pelo que importa espreitar um programa que, ao longo das próximas duas semanas, promete fazer voltar a atenção dos melómanos para o fascinante mundo da música dos séculos XVI, XVII e XVIII. Como um rio subterrâneo que regressa à superfície, a música antiga reencontra abrigo em alguns dos mais emblemáticos lugares do património ovarense, convocando histórias de sonho e magia e memórias que não cessam de vibrar. Apresentado ao público no passado dia 20 de Fevereiro, o Festival traz com ele uma renovada promessa de qualidade e variedade, cruzando artistas e agrupamentos nacionais como o Musurgia Ensemble e o Ensemble Med, com os neerlandeses do New Collegium ou os espanhóis do Ensemble Allettamento, entre outros. Numa cidade comprometida com o sopro da história e aberta à respiração funda dos instrumentos de antanho, o público vai poder fazer de cada concerto uma travessia, de cada espaço um eco ampliado do tempo. E, tal como sucedeu na primeira edição do CásterAntiqua, vai poder fruir da música antiga não como peça de museu, mas como chama viva que ilumina o nosso próprio tempo, interrogando-o e completando-o.

Como quem franqueia uma porta há muito fechada, o Festival tem o seu início na Igreja Matriz com “Um Outro Café Zimmermann”, pelo Musurgia Ensemble. Sediado em Ovar, o agrupamento promete recriar o fervor musical da Leipzig setecentista, onde pairam, cúmplices, sobre a partilha sonora, os espíritos de Georg Philipp Telemann e de Johann Sebastian Bach. No sábado à noite o Bar do Centro de Artes de Ovar acolhe um “Diálogo Interculturas no Mediterrâneo Medieval”, evocando a confluência das religiões cristã, judaica e árabe, numa geografia onde a música é ponte e memória. O fim de semana termina na Capela da Misericórdia, ao final da tarde de domingo, com o concerto do New Collegium a dar a ver um Telemann camaleónico, de múltiplas máscaras e afectos. Entrando na segunda semana do Festival, o consagrado alaudista britânico William Carter convida-nos a imaginar um serão íntimo “no salão musical de Bach”, a prometer transformar a Capela do Calvário num espaço de intimidade e confidência. Será na quinta-feira, dia 05 de Março, pelas 21h00.

Na sexta-feira o Festival regressa à Igreja Matriz com as cordas dedilhadas do Ensemble Allettamento a conduzirem os presentes por “Folias, Chaconas e Fandangos”, danças que se espalharam por praças e palácios, moldando-se ao engenho de compositores que souberam fazer do ostinato uma arte de infinita metamorfose. Mas o CásterAntiqua não é apenas evocação: é também criação e promessa. A residência artística acolhida no Museu Júlio Dinis – Uma Casa Ovarense, atribuída por concurso internacional, dará palco, na tarde de sábado, ao Duo Suzanne, um jovem agrupamento emergente disposto a revelar-se entre a experiência e a ousadia. Também a comunidade encontra o seu lugar neste desígnio, o Coro CásterAntiqua, as sessões educativas e as visitas guiadas ao património a convergirem para que a música antiga não seja relíquia, mas pertença.

Ao Coro CásterAntiqua, sob a direcção do maestro Jorge Luís Castro, caberá a responsabilidade de encerrar o Festival, chamando ao Centro de Arte de Ovar, pelas 16h00 de domingo, Dia Internacional da Mulher, a música da compositora italiana Maddalena Casulana e várias outras vozes femininas que a História, por desatenção ou preconceito, deixou na penumbra. Fruto de dois meses de trabalho com a comunidade ovarense, o alinhamento do concerto irá estender-se entre madrigais e palavras, no que pode ser visto como uma homenagem, mas também uma reparação simbólica, devolvendo luz à criação feminina no Renascimento europeu e convidando o público a escutar com outros ouvidos, quiçá mais atentos e mais justos, alguns exemplares notáveis de uma realidade escondida. Assim se cumpre o desígnio maior desta segunda edição do CásterAntiqua: fazer do passado um horizonte habitável, onde tradição e contemporaneidade prometem entrelaçar-se num mesmo fôlego. Não se tratará apenas de revisitar repertórios antigos, mas de os reinscrever na vida presente da cidade, fazendo de cada igreja, de cada museu, de cada sala um lugar de encontro e comunhão, de dádiva e partilha.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

O MELHOR DE 2025: CONCERTOS



10. António Zambujo
XXII Encontro de Culturas
Praça da República, Serpa
07 Jun 2025 | sab | 22:00

“ (…) Mas se “Cidade”, álbum editado em 2023 e que integra apenas músicas compostas e escritas por Miguel Araújo, foi uma espécie de fio condutor do concerto, foi com “Guia” que tudo começou, o cantor a “atravessar o oceano” e a encontrar “terra firme” precisamente em Serpa, numa Praça repleta de alegria e entusiasmo, na expectativa de uma grande noite.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/06/concerto-antonio-zambujo.html



9. Lina_ & Marco Mezquida
Misty Fest
Casa da Música - Sala 2
14 Nov 2025 | sex | 21:30

“ (…) Ao longo de quase uma hora e meia, “O Fado” abriu-se em certeza e diálogo, unindo e reinventando, revelando uma simbiose perfeita com outros géneros e ritmos - da música tradicional aos sons do Brasil, da canção espanhola às marchas de Santo António. Reconhecidamente rica e expansiva, a voz de Lina_ ofereceu-se pura e límpida, ganhando asas e elevando-se nos acordes cristalinos do piano, tecnicamente irrepreensível, ainda que redundante e menos contido aqui e ali. Mesmo assim, Marco Mezquida soube encontrar o equilíbrio entre o lirismo subtil e uma abordagem quase sinfónica, criando uma tensão estrutural que encheu o palco e seduziu o público.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/11/concerto-lina-marco-mezquida.html



8. The Art of Song vol.2 - Between Sacred and Profane
Com | Filipe Raposo (piano e composição musical), Rita Maria (voz e composição musical)
Auditório de Espinho – Academia
23 Fev 2025 | dom | 18h00

“ (…) Extraída de “Galinhas do Mato”, o último álbum editado em vida por Zeca Afonso, “Alegria da Criação” abriu o concerto e foi dele “pedra de toque”. Escutar em fundo a voz e adufe de Idalina Gameiro (também o adufe de Emília Antunes) como uma ladainha, sobre a qual se impõe a pureza das cordas (vocais de Rita Maria e do piano de Filipe Raposo), é no mínimo arrepiante. Os ritos e os mitos que se estendem ao longo do concerto levam-nos de regresso à origem, explicando mistérios, apaziguando e reconfortando, conferindo significado e valor à nossa existência.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/02/concerto-art-of-song-vol2-between.html



7. Dino d’Santiago
Casa da Criatividade
12 Jun 2025 | qui | 21:30

“ (…) Ao longo de quase duas dezenas de temas, Dino d’Santiago e a sua banda definiram o pendor da festa, oferecendo a um público esfuziante de entusiasmo momentos de verdadeira igualdade, celebração e partilha. De uma energia sem limites, o artista começou por cantar “Nos tradison” e vincar a importância de olhar para trás, para os valores e para a tradição, se queremos seguir em frente.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/06/concerto-dino-dsantiago.html



6. A garota não
Com | Cátia Mazari Oliveira (guitarra e voz), Sérgio Miendez (guitarra e baixo), João Mota (teclados, guitarra, baixo e voz) e Diogo Arranja Sousa (bateria)
Centro Cultural de Paredes
25 Out 2025 | Sab | 21:30

“ (…) A apresentar “Ferry Gold”, o seu mais recente trabalho discográfico, A garota não tornou a bater na tecla da música de intervenção com uma frescura e vivacidade como há muito se não via, o que faz do seu projecto um dos mais estimulantes, emotivos e inspiradores da nova música portuguesa. Marcado pela consciência social, pela recusa da complacência e pela denúncia da injustiça, desigualdade e discriminação, o seu trabalho é fruto de uma trajectória pessoal, de quem viveu a precariedade nas mais diversas formas e teve de ser fazer à vida com “uma força a crescer-lhe nos dedos e uma raiva a nascer-lhe nos dentes”.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/10/concerto-garota-nao.html



5. Voz e Guitarra
Com | Carolina Deslandes (voz), Feodor Bivol (guitarra)
Cineteatro António Lamoso
09 Mai 2025 | sex | 21:30

“ (…) Cruzando canções que ilustram treze anos de uma carreira recheada de belíssimos momentos, com alguns exemplares de um novíssimo álbum a sair ainda este mês, Carolina Deslandes provou que os sonhos de uma artista e uma artista de sonho podem ser uma e a mesma coisa. “Dois Dedos de Testa” abriu as hostilidades de forma afirmativa - “Quero ser dona da festa / Tenho dois dedos de testa” - e deu o mote para um concerto fortemente intimista, de emoções à flor da pele.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/05/concerto-voz-e-guitarra-carolina.html



4. Pedro Abrunhosa
Centro de Arte de Ovar
13 Jun 2025 | sex | 21:30

“ (…) Em Ovar, num Centro de Artes há muito esgotado, o artista começaria por saudar o público, afirmando ser a sua presença “o maior tributo à cultura portuguesa”. Uma cultura que, referiria, “nunca foi tão importante para defender a soberania, a democracia e, sobretudo, a paz.” E foi sob o signo da Paz que o concerto decorreu, com a música a carregar consigo mensagens onde as palavras “paz”, “luz” e “amor” foram signos e símbolos de um enorme momento: Íntimo, profundo, intenso, vivo, espiritual.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/06/concerto-pedro-abrunhosa.html



3. Jorge Palma & Júlio Resende
Cine-Teatro de Estarreja
21 Jun 2025 | sab | 21:30

“ (…) Os acordes que precederam “O Meu Amor Existe”, tema de abertura do concerto, faziam antever algo de muito especial. Ainda que facilmente reconhecíveis, Júlio Resende soube revesti-los de um lirismo único, uma quase pureza, transportando o público ao “grau zero” da criação. Mas foi quando as palavras, frágeis e incertas, se soltaram da garganta de Jorge Palma, que o concerto se estabeleceu nesse lugar único onde os homens e os deuses se tocam.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/06/concerto-jorge-palma-julio-resende.html



2. Inspirar
Danças Ocultas
Com | Artur Fernandes, Filipe Cal, Filipe Ricardo, Francisco Miguel
Misty Fest 2025
Teatro Aveirense
12 Dez 2025 | sex | 21:30

“ (…) A música dos Danças Ocultas nunca é sombria, mesmo quando se move na melancolia. Nela encontramos sempre uma fresta de luz, uma promessa de clareza no meio da contenção. Não é música para consumo rápido, mas para escuta profunda, exigente e, paradoxalmente, reconfortante. Mais do que um simples concerto, o que se viveu no Teatro Aveirense foi uma experiência de partilha sensível, onde os acordes pareceram procurar um lugar íntimo na memória daqueles que tiveram o privilégio de os escutar. Inspirar, como o título bem sugere, foi gesto de recolha, de interiorização, contrastando com a trilogia de álbuns anteriores, mais voltados para fora, para o “respirar” como movimento de saída.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/12/concerto-inspirar-dancas-ocultas.html



1. Meredith Monk
Com | Meredith Monk (voz e teclados), Katie Geissinger (voz), Allison Sniffin (voz, violino e teclados)
Auditório de Espinho – Academia
14 Out 2025 | ter | 21:30

“ (…) O que à primeira escuta pode parecer uma música “simples”, revela-se, na verdade, como um refinado processo de despojamento, reduzindo a composição ao essencial, na busca de uma forma de pureza quase espiritual. Depurada ao máximo, esta, como todas as restantes peças que compuseram o concerto, não conta uma história no sentido narrativo convencional, antes convoca sensações, estados de alma, geografias interiores. A voz, esse enorme instrumento, é moldada com uma liberdade quase xamânica — como se Monk quisesse cantar antes das palavras, antes da gramática, antes mesmo da consciência de ser. Há algo de poeira e terra molhada, de vento nas montanhas, de infância da humanidade em cada composição.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/10/concerto-meredith-monk.html

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

O MELHOR DE 2025: MÚSICA CLÁSSICA



10. Folia Nova
Sete Lágrimas
Com | Filipe Faria (voz, viola de mão 4 ordens, bandurra descante, percussão e direcção artística), Sérgio Peixoto (voz e direcção artística), Pedro Castro (flautas), Tiago Matias (guitarra barroca, guitarra romântica e tiorba), João Hasselberg (contrabaixo)
CásterAntiqua - Festival de Música Antiga de Ovar
Centro de Arte de Ovar
15 Mar 2025 | sab | 21:30

“ (…) Filipe Faria e Sérgio Peixoto escrevem os doze novos vilancicos que compõem “Folia Nova” como estações cronográficas da intemporalidade, partindo da “folia” e do seu tradicionalismo harmónico e rítmico para um novo universo conceptual, rico em novas linguagens e diálogos criativos. A música erudita abraça a música popular, o antigo e o contemporâneo dão-se as mãos e é como se a secular diáspora portuguesa dos Descobrimentos e o eixo latino mediterrânico se convertessem em som graças à fiel interpretação dos cânones performativos da Música Antiga e à incorporação de elementos definidores da música tradicional ou do jazz.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/03/concerto-folia-nova.html



9. Miroirs Vénitiens
Orquestra Barroca da Academia de Ambronay
Direcção Musical e violino | Amandine Beyer
FIME - Festival Internacional de Música de Espinho
Auditório de Espinho - Academia
06 Jul 2025 | dom | 18:00

“ (…) A música concertante do Barroco tardio constituiu o prato forte de um concerto que fundiu virtuosismo e artifício. Transcendendo fronteiras e marcando a música da época, a linguagem expressiva do Barroco italiano soube verter-se em teatralidade e expressividade, explorando os contrastes que permeiam o estilo concertante e misturando a arquitectura com a espontaneidade inventiva.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/07/concerto-miroirs-venitiens-orquestra.html



8. Trios de Schubert
Com | Pedro Burmester (piano), Pedro Meireles (violino), Filipe Quaresma (violoncelo)
FIME - Festival Internacional de Música de Espinho
Auditório de Espinho - Academia
04 Jul 2025 | sex | 21:30

“ (…) Fazendo gala de uma enorme sensibilidade, cumplicidade e virtuosismo, os três instrumentistas mergulharam no universo intimista e nostálgico do compositor, expressando com emoção o espírito imaginativo, lírico e melódico que fizeram dele uma das traves mestras da passagem do estilo clássico para o romântico e que o tornam, muito justamente, num dos maiores compositores do século XIX. Escritas pouco antes da sua morte, estas duas obras de Schubert têm a uni-las o facto de serem compostas por quatro andamentos e terem uma escala incomumente grande para trio com piano, levando mais de quarenta minutos cada uma para serem executadas. Isso, e um certo sabor de improviso, o que as torna vivas, espontâneas, calorosas, sentimentais e imaginativas.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/07/concerto-trios-de-schubert-pedro.html 



7. Berta Rojas
Festival Internacional de Guitarra de Aveiro
Centro Cultural e de Congressos de Aveiro
13 Jul 2025 | dom | 18:00

“ (…) A segunda parte do concerto foi toda ela dedicada a Agustin Barrios Mangoré, virtuoso guitarrista e compositor clássico paraguaio, amplamente considerado um dos maiores intérpretes e indiscutivelmente o compositor mais prolífico para guitarra de sempre. Berta Rojas foi exímia na interpretação das várias peças eleitas para o alinhamento desta segunda metade, em particular a incontornável “Catedral” e, já no “encore”, um maravilhoso “Choro da Saudade”. No ouvido ficam influências da música folclórica sul-americana e centro-americana nas composições de Agustin Barrios, mas também texturas que vão beber aos clássicos, nomeadamente a Johann Sebastian Bach.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/07/concerto-berta-rojas.html



6. Requiem de Mozart
Orquestra Sinfónica do Porto Casa da Música
Coro Casa da Música
Direção musical | Andreas Spering
Interpretação | Christina Landshamer (soprano), Helen Charlston (mezzo-soprano), João Terleira (tenor), Alexander Grassauer (baixo)
Casa da Música - Sala Suggia
08 Nov 2025 | sab | 18:00

“ (…) Inserido no ciclo “À Volta do Barroco”, o momento foi capaz de devolver frescura e profundidade a uma partitura tantas vezes prisioneira da sua própria fama. Especialista em repertório barroco e clássico, o maestro alemão conduziu uma leitura que privilegiou a clareza e o equilíbrio, sem com isso menorizar o natural dramatismo que a obra encerra. Desde o “Introitus”, o som denso mas flexível das cordas e a articulação precisa do coro mostraram uma concepção em que a arquitectura da música se impôs ao sentimentalismo. A contenção de Spering não apagou a emoção, antes fê-la emergir em limpidez, com uma naturalidade que reforçou o caráter espiritual da obra.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/11/concerto-requiem-de-mozart.html



5. Cromatismo en la Polifonia Inglesa (sec. XV - XVII)
Quadrivium Ensemble
Com | Raquel Rodríguez, Emilia Polewka, Nuria Rodríguez, Pablo Sainz, Zsolt Nagyváti, Laura Cobos, Matías A. Noisel, Xavier Dupac, Eduardo Duque, Claudio Jiménez, Wouter de Wilder, Lennin Cid
Festival Renacen 2025
Capela da Fundação Carlos de Amberes, Madrid
24 Abr 2025 | qui | 19:00

“ (…) Se há algo que fica deste concerto é, para além da qualidade do Quadrivium Ensemble e da excelência de cada um dos seus elementos, a possibilidade de podermos observar, em tempos turbulentos e de mudança de espiritualidade - desde a livre Idade Média tardia, passando pelo Protestantismo rigoroso e pela simples clareza das tendências europeias -, um traço comum neste percurso de desenvolvimento musical: A utilização da alteração cromática das notas, com uma clara reminiscência harmónica medieval sobrevivente às mudanças estilísticas, para enfatizar sentimentos elevados. Esta expressão musical de espiritualidade confere um misticismo inegável, único, dramático e intenso ao som, uma marca registada do antigo reino anglo-saxónico que o Quadrivium Ensemble tão bem soube mostrar.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/04/concerto-cromatismo-en-la-polifonia.html



4. Iste Confessor Domini – Música franco-flamenga e portuguesa do séc. XVI
Musurgia Ensemble
Direcção musical | João Francisco Távora
Com | António Godinho (flauta de bisel), Emma Reynaud (flauta de bisel), João Francisco Távora (flauta de bisel), Robert Ehrlich (flauta de bisel), Sofia Pedro (soprano), Luís Toscano (tenor)
Apresentação | Ana Isabel Nistal Freijo
Maio do Azulejo 2025
Igreja Matriz de Válega
17 Mai 2025 | sab | 18h00

“ (…) Dividido em duas partes, o concerto foi apresentado por Ana Freijo, com o intuito de contextualizar o trabalho artístico e laboratorial em causa. A investigadora começou por destacar um repertório representativo do que de melhor se pode achar no Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, mas também o facto de estarmos perante um consorte de flautas, todas elas réplicas de instrumentos do século XVI, período a que se reportam as composições seleccionadas. A escuta dos diferentes tons de cada uma das flautas e uma leitura do conteúdo da Missa por Sofia Pedro predispuseram o público para os dois momentos - o “Kyrie” e o “Gloria” - que abriram o concerto e se revelaram preciosos, tanto pela limpidez de vozes dos solistas quanto pela graça e requinte do consorte de flautas.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/05/concerto-iste-confessor-domini-musica.html



3. Baroque Masterpieces
Com | Robert Ehrlich (flauta de bisel), Alexander von Heißen (cravo)
Músico convidado | João Francisco Távora (flauta de bisel)
CásterAntiqua - Festival de Música Antiga de Ovar
Capela do Calvário
16 Mar 2025 | dom | 18:00

“ (…) A jornada teve início numa Londres pacificada e próspera, onde Handel triunfou graças à genialidade das suas composições, nomeadamente óperas sobre as quais se construiu uma multiplicidade de arranjos e variações. Não tardaríamos a ver a mesma Londres mergulhada em guerras fratricidas e assolada pela peste, disso sendo testemunhas as composições de Matthew Locke. Em Roma, centro do mundo musical à época, deparámo-nos com Arcangelo Corelli, outro dos génios do Barroco, e com a sua maravilhosa Sonata em Lá Maior, Op. 5 No. 9. A viagem terminou em Leipzig, por volta do ano de 1730, no ambiente celestial que só as composições de Bach logram criar.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/03/concerto-baroque-masterpieces.html



2. Nova Europa
Seconda Prat!ca
Com | Sofia Pedro (soprano), Sophia Patsi (alto), Emilio Aguilar (tenor), João Paixão (barítono), Bram Trouwborst (baixo), Nuno Atalaia (barítono, flautas e direção artística), Asuka Sumi (violino), Xander Baker (viola da gamba), Hugo Sanches (guitarra barroca e tiorba), Martin Billé (guitarra barroca e tiorba)
CásterAntiqua - Festival de Música Antiga de Ovar
Igreja Matriz de Ovar
20 Mar 2025 | qui | 21:30

“ (…) Numa Igreja Matriz repleta de público, o grupo teve para oferecer uma viagem musical através de um mundo em expansão, seguindo os passos da migração e hibridação da cultura europeia. “Distância”, “Missões”, “Crioulização” e “Catedral” foram quatro etapas de um processo de exploração das mutações das fronteiras e percepções dos continentes recém-colonizados, através da sua música. Mas o programa quis ver mais longe ao propor uma reavaliação dos fundamentos históricos que ainda nos levam a chamar “Novo Mundo” a territórios e culturas previamente existentes, e cuja opressão não é deveras passada. Daí que duas questões se imponham com a força e acutilância que o assunto deve merecer: E se um Novo Mundo nunca existiu? E se a Europa tivesse precisado de inventar um?” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/03/concerto-nova-europa-seconda-pratca.html



1. Le Coup de Majesté - Músicas da época do jovem Luís XIV
Le Poème Harmonique
Direcção musical | Vincent Dumestre
Com | Éva Zaïcik (mezzo-soprano), Camille Aubret e Louise Ayrton (violinos), Lucas Peres (viola da gamba), Simon Guidicelli (violone), Violaine Cochard (órgão e cravo), Vincent Dumestre (teorba)
Cistermúsica – Festival de Música de Alcobaça
Sacristia Manuelina do Mosteiro de Alcobaça
20 Jul 2025 | dom | 18:00

“ (…) Com o foco nos compositores italianos da corte, muito por influência do Cardeal Mazarino, primeiro-ministro de França entre 1642 e 1661, recuamos ligeiramente à meninice do rei, para escutarmos Giovanni Battista Buonamente, Marco Uccellini e, sobretudo, Francesco Cavalli, em composições mais densas e complexas que as anteriores, com um carácter marcadamente operático. Cabe aqui falar da mezzo-soprano Éva Zaïcik, da força e harmonia de uma voz única, da sua enorme teatralidade, expressas desde o início do concerto mas que, nesta segunda metade, adquiriram um cunho sedutor, de verdadeiro êxtase. De uma enorme versatilidade, capaz de assumir com a mesma intensidade uma cena do mais puro lirismo ou uma passagem de extrema violência, Zaïcik impressionou pelos seus graves profundos, timbre radiante, sensibilidade inexcedível e entrega absoluta ao elemento cénico.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/07/concerto-le-coup-de-majeste-musicas-da.html