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segunda-feira, 1 de junho de 2026

CONCERTO: Orquestra Jazz de Matosinhos & Manuela Azevedo



CONCERTO: Orquestra Jazz de Matosinhos & Manuela Azevedo
Direcção Musical | Pedro Guedes
Centro de Artes e Espectáculos Vale de Cambra
29 Mai 2026 | sex | 21:30


É com prazer renovado que regressamos ao Centro de Artes e Espectáculos de Vale de Cambra. Funcional, acolhedora e dotada de excelentes condições técnicas, a sala tem vindo a afirmar-se como um dos mais interessantes equipamentos do distrito de Aveiro, sustentando uma programação diversificada e criteriosa que sabe como conquistar públicos cada vez mais alargados. Foi particularmente gratificante encontrar na plateia vários rostos conhecidos, sinal evidente de que o CAE começa a integrar o circuito habitual daqueles que não temem as distâncias na busca de propostas culturais de qualidade, tendência que o concerto da Orquestra Jazz de Matosinhos com Manuela Azevedo confirmou plenamente. O projecto que une a cantora à OJM teve o seu início em Julho de 2014 e soma já cerca de duas dezenas de apresentações, integrando-se numa linha de trabalho que tem distinguido a formação matosinhense ao longo dos anos: convidar vozes oriundas de universos musicais diversos e submetê-las ao desafio de dialogar com o universo sonoro de uma big band de jazz. É um conceito tão simples quanto fértil e que tem permitido revisitar repertórios conhecidos através de arranjos originais que ampliam horizontes estéticos e revelam novas leituras das canções. Neste caso, a escolha de Manuela Azevedo - uma das vozes mais singulares e reconhecíveis da música portuguesa contemporânea - revelou-se particularmente feliz, tanto pela versatilidade da intérprete como pela inteligência do repertório seleccionado, construindo uma ponte consistente entre o jazz e a pop, o rock e demais geografias musicais.

carta branca concedida a Manuela Azevedo na definição do alinhamento constitui um dos aspectos mais interessantes do projecto e ajuda a compreender a sua personalidade artística. O programa apresentado em Vale de Cambra revelou uma cultura musical vasta, ecléctica e que segue na linha do risco e na recusa de toda e qualquer previsibilidade. De “My Melancholy Baby”, clássico norte-americano popularizado na voz de Ella Fitzgerald, a “Who Do You Think You Are”, de Elvis Costello, passando pela ousadia de “I Am the Walrus”, dos Beatles, ou pela elegância de “Chez Les Yé Yé”, de Serge Gainsbourg, o concerto desenhou um percurso tão inesperado quanto coerente. A presença de Tom Waits, Rufus Wainwright, Janelle Monáe ou Queens of the Stone Age testemunhou uma abertura rara a linguagens distintas, sempre filtradas por um apurado sentido de escolha. Pelo meio, a cantora não esqueceu referências fundamentais da canção em língua portuguesa, como Sérgio Godinho, Manel Cruz e Chico Buarque, nem a sua própria história nos Clã, revisitando “A Paz Não Te Cai Bem” e encerrando, já em clima de celebração, com “Dançar na Corda Bamba”. O resultado foi uma sucessão de canções que, libertas dos seus contextos originais, ganharam novas cores e novos significados. O concerto afirmou-se, assim, como uma declaração de amor à canção enquanto território aberto à reinvenção permanente, expondo simultaneamente o excelente gosto musical de Manuela Azevedo e a sua capacidade para habitar repertórios muito diferentes sem lhes negar nunca a sua própria identidade.

Se o repertório constituiu um dos grandes trunfos da noite, a execução musical elevou o espectáculo a um patamar de excelência difícil de igualar. Com direcção musical de Pedro Guedes, a Orquestra Jazz de Matosinhos voltou a demonstrar o porquê de ocupar um lugar singular no panorama nacional, exibindo uma precisão colectiva irrepreensível, uma notável riqueza tímbrica e uma capacidade única de servir a música pela música. Os arranjos de Telmo Marques, Carlos Azevedo, Pedro Guedes e José Pedro Coelho são reveladores de inteligência, subtileza e imaginação, transformando cada tema num objecto artístico autónomo, respeitador da essência original, mas suficientemente ousado para justificar uma nova escuta. A cumplicidade entre a cantora e os músicos foi crescendo ao longo da actuação, produzindo momentos de grande naturalidade e comunicação e que tiveram o ponto alto na extraordinária interpretação de “Broken Bicycles / Junk”, de Tom Waits / Paul McCartney. Manuela Azevedo respondeu com uma interpretação segura, expressiva e emocionalmente generosa, adaptando-se com assinalável eficácia às exigências de um contexto musical tão específico. O público percebeu-o desde cedo e acompanhou o espectáculo com atenção, entusiasmo e calor, recompensando cada momento com aplausos sinceros e transformando a sala numa extensão da própria música. Uma grande noite em Vale de Cambra!

domingo, 14 de abril de 2019

CONCERTO: "Músicas Brasileiras, Músicos Portugueses"



CONCERTO: “Músicas Brasileiras, Músicos Portugueses”,
com Zuza Homem de Mello, Orquestra Jazz de Matosinhos e Kiko Freitas (bateria)
Casa da Arquitectura (Espaço Tanoaria), Matosinhos
12 Abr 2019 | sex | 21:30


No último fim de semana de um extenso programa paralelo da exposição “Infinito Vão – 90 Anos de Arquitectura Brasileira”, o Espaço Tanoaria da Casa da Arquitectura encheu-se de um publico entusiasta e conhecedor para “ouvir arquitectura”. Talvez isto possa soar estranho para muitos, mas aqueles que já tiveram o privilégio de apreciar a magnifica exposição, com curadoria de Fernando Serapião e Guilherme Wisnik, percebem perfeitamente o que é isto de “ouvir arquitectura”, tão fortemente sobressai da mostra a íntima relação entre as duas expressões artísticas. Da parte dos curadores houve essa clara intenção de associar épocas e estilos arquitectónicos às correntes musicais vigentes à época e Zuza Homem de Mello “bebeu” deste princípio. Daí, o concerto ter um alcance muito maior, de tal forma ele se constitui uma extensão da própria exposição e não um mero apanhado de músicas.

Com uma profunda ligação ao Jazz, Zuza Homem de Mello foi o convidado de honra deste concerto, cabendo-lhe “desenhar” o alinhamento de noventa minutos verdadeiramente únicos, ao longo dos quais se evidenciou o seu enorme talento e brilhantismo, mas também – não menos importante! - o grande conhecimento e um gosto particularmente apurado pela melhor música que se faz do lado de lá do Atlântico. Cobrindo um espaço temporal que vai de “Carinhoso”, escrito por Pixinguinha e publicado em 1917, aos recentes “Organdi e Gomalina” e “Só Xote”, ambos de Nelson Ayres e lançados em 2017, o concerto visitou, num século de música, géneros tão fundamentais como o frevo ou o choro, o samba ou a MPB e nomes incontornáveis como os de Moacir Santos, João Bosco, Nailor Proveta, Letieres Leite, António Adolfo, K-Ximbinho ou o incontornável António Carlos Jobim, de quem se escutou “Corcovado” e “Wave”.

Porque a noite era de “música brasileira”, mas também de “músicos portugueses”, importa referir mais uma notável prestação da Orquestra Jazz de Matosinhos, sob a direcção do maestro Pedro Guedes. Brilhantes os solos de trompete de Ricardo Formoso, Luís Macedo ou Javi Pereiro, de saxofone tenor de José Pedro Coelho ou de trombone de Daniel Dias ou Andreia Santos. E que dizer da qualidade de um Carlos Azevedo no piano, de Demian Cabaud no contrabaixo ou de Andres Tarabbia nas percussões? Para o fim, propositadamente, deixo Kiko Freitas, baterista profissional desde 1987, um homem que acompanha João Bosco há 19 anos e que já tocou com nomes como Michel Legrand, Gonzalo Rubalcaba, Lee Ritenour ou a NDR Big Band. Ele veio propositadamente do Brasil para este momento (na verdade, terá sido uma “exigência” de Zuza Homem de Mello) e a sua actuação foi brilhante. A cereja no topo do bolo de um concerto memorável!