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sexta-feira, 10 de abril de 2026

CONCERTO: Anna Setton | Ovar em Jazz 2026



CONCERTO: Anna Setton
Com | Anna Setton (voz e guitarra), Edu Sangirardi (piano), Pedro Santos (bateria)
Ovar em Jazz 2026
Centro de Artes de Ovar – Caixa de Palco
08 Abr 2026 | qua | 21:30


A abertura do Ovar em Jazz 2026 ficou marcada por um concerto de assinalável coerência estética e rara delicadeza expressiva, protagonizado por Anna Setton. A viver há três anos no nosso país, a cantora e compositora brasileira apresentou-se no ambiente intimista da Caixa de Palco do Centro de Artes de Ovar exibindo uma maturidade artística consolidada ao longo de mais de uma década e meia de um percurso que cruza o jazz, a bossa nova e a MPB. Desde “Sim”, sugestivo tema de abertura de um concerto afirmativo a muitos títulos, tornou-se evidente a solidez de uma linguagem própria, construída tanto na vivência dos clubes de São Paulo como na experiência internacional ao lado de nomes maiores da música brasileira. A sua voz timbrada, aconchegante e calorosa, revelou uma capacidade invulgar de transmitir emoções sem recorrer a excessos, privilegiando antes uma contenção expressiva que se traduziu numa proximidade quase confidencial com o público. Num ambiente descontraído, o concerto desenrolou-se com uma fluidez narrativa notável, cada tema como prolongamento natural do anterior, num equilíbrio subtil entre originalidade e tradição.

Acompanhada ao piano por Edu Sangirardi e com Pedro Santos na bateria, Anna Setton tirou o maior partido de um suporte instrumental simples, mas de uma enorme versatilidade e cumplicidade. O trio destacou-se pela forma como soube trabalhar o espaço e o silêncio, evitando qualquer tentação de virtuosismo gratuito em favor de uma construção sonora coesa, feita de elegância e bom gosto. Depurados e minuciosos, os arranjos permitiram evidenciar tanto a sofisticação harmónica como a riqueza rítmica de temas como “Morena Bonita”, “Ponta de Areia”, “Canto de Aruanda” ou “Revoada”, vertidos com naturalidade numa linguagem jazzística contaminada, no melhor sentido, pelos ecos do xote e do choro, do forró e do baião. Parceiro criativo de longa data, Sangirardi revelou-se peça central na arquitectura do concerto, oferecendo intervenções de grande musicalidade, enquanto o diálogo rítmico com a bateria sustentou com discrição e firmeza a dinâmica do grupo. Nos momentos em que Anna Setton tocou a solo ou pousou a guitarra, a sua presença cénica ganhou uma nova dimensão, mais solta e corporal, aprofundando ainda mais a ligação com o público.

Num registo de elegância discreta e profunda consistência artística, o trio ofereceu um espectáculo que, mais do que impressionar, soube permanecer, prendendo o público pela qualidade e sensibilidade das interpretações. Cuidadosamente escolhido, o repertório percorreu temas originais dos três álbuns anteriores da cantora (e do próximo que está quase a chegar), para além de revisitar clássicos como “É Preciso Perdoar”, “Carinhoso”, “Chega de Saudade” ou “Chovendo na Roseira”. No balanço entre temas originais de Anna Setton e Edu Sangirardi, o calor das composições de João Gilberto, António Carlos Jobim ou Pixinguinha e a sugestão doce e delicada de vozes como as de Chico Buarque, Elis Regina ou Ivan Lins, o público foi conduzido por uma experiência sensorial onde a emoção se impôs pela via do tom e do ritmo, da nuance e da interpretação. Mais do que revisitar a tradição, Anna Setton soube inscrevê-la numa contemporaneidade subtil, memória e reinvenção de mãos dadas numa clara afirmação de identidade. Um belo momento inaugural do Ovar em Jazz, a confirmar a pertinência da inclusão da artista no cartaz do festival e a colocar bem alto a fasquia para as noites seguintes.

terça-feira, 7 de abril de 2026

CERTAME: Ovar em Jazz 2026



CERTAME: Ovar em Jazz 2026
Com | Anna Setton Quartet, Carlos Bica Quarteto, Marius Preda, Orquestra de Jazz do Hot Clube de Portugal com John O'Gallagher
Centro de Artes de Ovar
08 > 11 Abr 2026


A partir de amanhã, e até ao próximo sábado, a cidade de Ovar volta a ser o epicentro do jazz nacional com a chegada do Ovar em Jazz, este ano a cumprir a sua oitava edição. Capaz de projectar a cidade no circuito internacional e de atrair tanto nomes consagrados como novas propostas artísticas, o festival recebeu, ao longo das suas anteriores edições, nomes como os de Amaro Freitas, Ricardo Toscano, Mário Costa, Marc Ribot, João Lencastre, Carmen Souza, Abe Rábade, Hugo Carvalhais, Carlos Bica, Andy Sheppard, Stefano Battaglia, Maria João, Danilo Pérez ou Tigran Hamasyan, entre muitos outros. Espelhando a sua consistência e ambição artística, prepara-se agora para mais quatro dias do melhor jazz, afirmando-se como um espaço de encontro entre a tradição e a vanguarda. Sob o lema “Jazz sem Fronteiras”, o certame volta a apostar no cruzamento de linguagens, geografias e gerações musicais, propondo, mais do que uma sucessão de concertos, uma experiência imersiva que se irá desdobrar entre Auditório, Caixa de Palco e Bar do Centro de Artes, envolvendo o público numa vivência plural e contínua.

À semelhança dos anos anteriores, a edição de 2026 mantém uma elevada linha de exigência, apresentando um cartaz que cruza nomes nacionais e internacionais de reconhecido mérito. Entre os destaques encontra-se o virtuoso romeno Marius Preda, que vamos poder ouvir na noite de sexta feira e que traz ao festival o projecto “Phenomenon”, síntese de mais de três décadas de carreira, onde o címbalo ganha protagonismo num diálogo entre tradição clássica, influências folk e improvisação contemporânea. A abrir o certame, já esta quarta feira, a cantora brasileira Anna Setton marca presença com um quarteto que funde jazz com bossa nova e MPB, num registo sofisticado e luminoso. Carlos Bica regressa ao festival com “11:11”, projecto de forte identidade melódica e intensidade expressiva, reafirmando o seu lugar como uma das figuras maiores do jazz português. Também a Orquestra de Jazz do Hot Clube de Portugal regressa ao festival, desta vez na companhia do saxofonista nova-iorquino John O’Gallagher, num encontro que cruza tradição e contemporaneidade e que promete encerrar em beleza esta edição do certame.

Para além dos concertos em sala, o Ovar em Jazz expande-se pelos mais diversos espaços do Centro de Artes, incorporando a gravação ao vivo do programa “Notas Azuis”, da Antena 3, com curadoria de Rui Miguel Abreu, bem como DJ sets, mostras de vinil e projectos emergentes. Iniciativas como o Ovar Jazz Collective, orientado por João Martins, reforçam a aposta na criação e valorização do talento local, estabelecendo pontes entre formação e performance. Ao mesmo tempo, propostas como Mantis, Fourward ou Oxímoro evidenciam a vitalidade de uma cena que recusa fronteiras estilísticas e procura novas formas de expressão. Neste equilíbrio entre memória e experimentação, o festival prossegue o seu trajecto de afirmação como espaço singular de liberdade criativa e de encontro cultural, entendendo o jazz não apenas como género musical, mas como linguagem aberta e em permanente transformação. O programa completo pode ser consultado na página Ovar/Cultura, em https://cultura.cm-ovar.pt/pt/menu/734/ovar-em-jazz.aspx. Até jazz!