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segunda-feira, 11 de maio de 2026

CONCERTO: Carminho



CONCERTO: Carminho
Com | Carminho (voz), André Dias (guitarra portuguesa), Flávio César Cardoso (viola de fado), Pedro Geraldes (lap steel guitar e guitarra eléctrica), Tiago Maia (baixo acústico), João Pimenta Gomes (cristal baschet, mellotron, ondes martenot)
Casa da Cultura de Ílhavo
09 Mai 2026 | sab | 21:30


Há concertos que começam muito antes da primeira nota e o de Carminho, na lotada Casa da Cultura de Ílhavo, foi um desses casos em que o público escreveu parte decisiva da narrativa da noite. O atraso de três quartos de hora poderia ter instalado a impaciência, o murmúrio ou a deserção emocional; ao invés, a sala manteve-se num estado de urbanidade pouco comum, acolhendo a entrada da cantora com uma vibração cúmplice, como se todos compreendessem que o fado vive também destas suspensões do tempo. E talvez tenha sido precisamente essa predisposição colectiva que permitiu a Carminho transformar o arranque da digressão de “Eu Vou Morrer de Amor ou Resistir” num exercício de intimidade rara. Entre canções, a fadista falou de si, de como o fado se lhe foi infiltrando nas veias e da forma como as camadas de experiência alteram o peso das palavras e o sentido da interpretação. Fê-lo sem aparatos nem falsas modéstias, antes com um desprendimento sereno, quase doméstico, convertendo uma sala cheia num espaço de intimidade e cantando para centenas de pessoas como quem canta para uma só.

Se a força dos poemas tem sido marca identitária da cantora desde o inaugural “Fado”, de 2009, neste novo trabalho ela adquire uma centralidade absoluta. Temas como “Balada do País que Dói”, “Saber” ou “Canção à Ausente” confirmaram uma artista cada vez mais interessada em empurrar o fado para um lugar de reflexão poética e inquietação contemporânea. A revisitação de vários momentos da sua discografia permitiu, justamente, perceber uma evolução que tem na depuração tradicional o seu ponto de partida, crescendo para uma escrita musical mais ousada, aberta a outros géneros e a outras texturas. Convém dizer, no entanto, que nem todas as experiências pareceram plenamente conseguidas, já que a panóplia instrumental trazida para o palco foi, a espaços, mais intrusiva do que reveladora. Nalguns momentos, os instrumentos pareceram reclamar protagonismo para lá daquilo que a canção exigia, retirando crueza e tensão ao gesto fadista. Aquilo que em disco poderá surgir como expansão estética subtil, em palco tornou-se por vezes excesso demonstrativo. Não por insuficiência dos músicos, irrepreensíveis na execução, mas porque o fado continua a pedir contenção e sombra, mais do que aparato tímbrico.

Ainda assim, mesmo quando o concerto ameaçou dispersar-se em derivações sonoras menos convincentes, bastou a Carminho recentrar-se na palavra para tudo reencontrar eixo e verdade. “Meu Amor Marinheiro”, “Estrela” ou “Rouxinóis do Mondego” devolveram à noite essa dimensão quase ritual que faz do fado uma experiência de comunhão e memória. Foi nesse despojamento final que o concerto encontrou a sua imagem mais poderosa, levando a sala ao rubro com um derradeiro “As Minhas Penas”, ao metamorfoseá-la numa velha casa de fados lisboeta. Nesse instante desapareceram os dispositivos experimentais e ficou apenas o essencial: voz e guitarras, respiração e escuta. O público acompanhou em silêncio reverente, antes de explodir numa ovação longa, agradecida, consciente de ter assistido não apenas ao início de uma digressão que levará Carminho de Valença a Faro, de Ludwigsburg a Barcelona, mas sobretudo a um concerto onde a artista reafirmou a singularidade do seu caminho. Um caminho que continua a dividir-se entre tradição e risco, entre depuração e excesso, mas onde permanece intacta a convicção de que o fado só sobrevive quando aceita resistir à sua própria ideia de permanência.

segunda-feira, 28 de julho de 2025

CONCERTO: Pedro Moutinho



CONCERTO: Pedro Moutinho
Com | André Dias (guitarra portuguesa), Pedro Soares (guitarra), Ni Ferreirinha (baixo acústico), Pedro Moutinho (voz)
Festival do Pão de Ló de Ovar
Jardim Almeida Garrett
26 Jul 2025 | sab | 21:30


Em jeito de lançamento dos dois concertos que preencheram uma boa parte do programa do terceiro dia do Festival do Pão de Ló de Ovar, a tarde do passado sábado foi dedicada “à escuta do fado”, conversa integrada no extraordinário projecto que é o InOvar as Letras - À Escuta da Literatura. Neste seu desígnio de criar laços entre a música popular e a chamada música erudita, a “tertúlia de fado”, moderada por Ana Isabel Nistal Freijo, mostrou-se particularmente oportuna, não apenas pela possibilidade de reunir à volta do tema três personalidades fortemente envolvidas com o fado, mas também porque Ovar é uma referência no género, como Dino Marques tão bem lembrou ao mencionar os nomes do letrista António Campos e dos fadistas Clara d’Ovar, Zeni d’Ovar e Maria Albertina. Em ambiente descontraído, entre histórias e memórias, muitos temas vieram à baila, das diferenças entre o fado de Lisboa e o de Coimbra à experiência colectiva singular que são as casas de fado, de referências tão importantes como Ana Rosmaninho, Francisco Maurício, Alfredo Marceneiro ou Carlos Rocha, à constatação de que “os fados são primos”.

Coube a Pedro Moutinho a responsabilidade de preencher o serão, com um concerto feito de temas tradicionais do fado e uma ou outra piscadela de olho à canção dita ligeira. Nascido no seio de uma família com fortes ligações ao fado, irmão dos consagrados Hélder Moutinho e Camané, Pedro Moutinho propôs um alinhamento que percorreu uma discografia com mais de vinte anos - “Primeiro Fado” (Som Livre, 2003) foi o seu primeiro trabalho de estúdio -, fazendo as delícias do público graças ao seu talento, à emoção que se desprende da sua voz e à beleza dos temas escolhidos. “Lisboa mora aqui e as portas da cidade / Abrem-se à voz que sou com a chave duma rima”. “Lisboa Mora Aqui” foi o tema de abertura do concerto, com Pedro Moutinho a homenagear, por seu intermédio, grandes referências do fado, que viriam estender-se a Martinho d’Assunção, Carlos Rocha, Amália ou Carlos do Carmo. Conquistado, o público escutou “Maldição”, “Olhos Estranhos” e “Meu Amor sem Direcção”, atrevendo-se a dar a deixa ao fadista no refrão do “Fado da Contradição” - “se eu digo sim, tu dizes não / se eu digo não, tu dizes sim”.

Apesar de um ambiente menos adequado a escutar-se o fado nas condições que ele merece e exige, condicionando a desejável empatia entre o fadista e o público, o concerto teve momentos extraordinários, sendo de realçar a interpretação de temas como “A Rua da Esperança”, “Veio a Saudade”, “Um Resto de Mouraria” e, sobretudo, “Alfama”. Nestes, como noutros fados, ficou bem patente a apetência do artista para combinar modernidade e tradição, daí resultando um estilo único, uma assinatura inconfundível feita de talento, brilho e sentimento. Ao encontro de um universo de poemas e músicas, onde cabem os nomes de Amélia Muge, Manuela de Freitas, Maria do Rosário Pedreira, João Monge, Carminho, Teresinha Landeiro, Tiago Torres da Silva, Hélder Moutinho ou Aldina Duarte, Pedro Moutinho fez do tempo do concerto uma viagem por ruas e becos da cidade branca, narrando uma delicada história onde se cruzam saudades e maldições, amores e contradições, imprevistos e inquietações. Os músicos cotaram-se a bom nível e os dois temas do “encore” foram particularmente aplaudidos. As raras e delicadas nuances do fado a fazerem as delícias de muitos, que nem só de Pão de Ló vive o homem.