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quinta-feira, 16 de julho de 2026

CONCERTO: António Zambujo



CONCERTO: António Zambujo
Com | António Zambujo (voz e viola), João Salcedo (piano), João Moreira (trompete), José Miguel Conde (clarinete) e Francisco Brito (contrabaixo)
FESTA – Sons da Lusofonia
Parque Urbano de Ovar
11 Jul 2026 | sab | 21:30


António Zambujo foi o nome maior da última noite do FESTA – Sons da Lusofonia, chamando ao Parque Urbano de Ovar uma multidão que respondeu à chamada da organização com expectativa e entusiasmo. O recinto encheu-se para receber um dos mais populares e consensuais intérpretes da música portuguesa contemporânea, dono de um percurso singular que soube cruzar o fado, o cante alentejano, a música popular brasileira e a canção de autor, construindo uma identidade artística imediatamente reconhecível. Desde os primeiros passos, em Beja, passando pela consagração nacional e internacional, Zambujo é hoje uma referência incontornável da música de expressão portuguesa, acumulando distinções e uma legião de admiradores dos dois lados do Atlântico. Em Ovar, essa popularidade fez-se sentir desde o primeiro instante, perante uma assistência numerosa e calorosa, que ergueu a voz em praticamente todas as canções e respondeu com entusiasmo permanente a um concerto pensado para equilibrar memória e novidade. É que o músico aproveitou a ocasião para apresentar uma parte substancial de “Oração ao Tempo”, o seu mais recente trabalho discográfico, sem nunca perder de vista os temas que marcaram diferentes fases da sua carreira e que continuam a ocupar um lugar privilegiado nos corações do seu público.

O alinhamento começou precisamente por afirmar essa vontade de olhar para o presente, abrindo com “Palma da Mão”, seguindo-se “Prescrição”, “Nossa Alma é Siamesa”, “Regresso à Infância” e a faixa-título “Oração ao Tempo”, numa sequência onde sobressaíram a habitual contenção interpretativa e o rigor de uma banda que privilegia o detalhe e a subtileza dos arranjos. A partir daí, o cantor foi convocando sucessivos momentos de reconhecimento imediato, revisitando “Guia”, “Catavento da Sé”, “Zorro”, “Apelo”, “Reader’s Digest”, “O Tiro pela Culatra”, “Lote B”, “Algo Estranho Acontece” e “Visita de Estudo”, compondo uma verdadeira viagem pela evolução do seu repertório. Entre canções houve espaço para a boa disposição, para o humor despretensioso que caracteriza a sua presença em palco e até para interromper o concerto e cantar os parabéns a uma espectadora muito especial, gesto espontâneo que conquistou de imediato a plateia. A proximidade com o público voltou a revelar-se uma das maiores virtudes do cantor alentejano, cuja simplicidade reforça a enorme qualidade musical de um espectáculo construído sobre interpretações elegantes, uma voz de timbre inconfundível e uma naturalidade que dispensa qualquer gesto cénico.

“Pica do 7”, um dos momentos mais aguardados da noite, encerrou o alinhamento principal sob uma prolongada ovação, mas o público não permitiu que a despedida fosse definitiva. No “encore”, António Zambujo regressou para prestar a já habitual homenagem a Max, interpretando “Rosinha dos Limões” e recordando um dos artistas que mais influenciaram a sua carreira. Seguiu-se “Gota de Água”, evocação das suas raízes alentejanas e da profunda ligação ao cante, património que continua a atravessar discretamente grande parte da sua obra. O fecho aconteceu com “No Rancho Fundo”, numa leitura simultaneamente emotiva e festiva que funcionou como perfeita celebração da lusofonia, tema agregador de um festival que, desde a sua criação, tem feito da diversidade cultural do espaço lusófono a sua principal razão de existir. Foi um final de enorme simbolismo para um concerto sólido, coerente e musicalmente irrepreensível, que confirmou António Zambujo como um dos grandes embaixadores da canção portuguesa contemporânea e constituiu, sem surpresa, o ponto mais alto desta edição do FESTA – Sons da Lusofonia, correspondendo plenamente às expectativas de um público que encheu o Parque Urbano de Ovar para testemunhar mais uma noite memorável.

segunda-feira, 13 de julho de 2026

CERTAME: FESTA - Sons da Lusofonia



CERTAME: FESTA - Sons da Lusofonia
Com | OSSN, Daniel Pereira Cristo + Comunidade, Carla Castelhano, Bárbara Bandeira, Blaya, Lucas Santtana, Cheny Wa Gune, Do Cabo Do Mundo, Expresso Transatlântico, António Zambujo e Stereossauro + Convidados
Parque Urbano de Ovar
10 e 11 Jul 2025 | sex e sab | 18:00 às 00:30


Com uma forte adesão do público, o FESTA voltou a transformar o Parque Urbano de Ovar num amplo espaço de encontro entre a música de expressão lusófona, a natureza e a comunidade. Afirmando-se como uma das mais sólidas marcas identitárias da cultura ovarense, a 11.ª edição do festival reuniu milhares de pessoas em torno de uma programação que cruzou diferentes geografias, gerações e linguagens musicais, distribuída por três palcos e complementada por iniciativas que reforçaram a dimensão participativa do evento. Para além dos doze concertos, o “Lugar das Infâncias” voltou a afirmar-se como um espaço para todos, com oficinas, teatro, jogos e histórias, enquanto o “Espaço Conversas”, dinamizado pelo jornalista Rui Miguel Abreu, promoveu encontros informais entre artistas e público. A componente comunitária ganhou especial expressão no espectáculo de Daniela Pereira Cristo, desenvolvido com elementos dos coros Canto Décimo, Cáster Antiqua e Suspiro, bem como com o grupo de cordofones do Grupo Folclórico As Tricanas de Ovar, num projecto que reforçou a ligação do festival ao território e às colectividades locais. Mais do que uma sucessão de concertos, o FESTA voltou, assim, a afirmar-se como uma celebração da cultura em língua portuguesa, da partilha e da participação, proporcionando uma experiência vivida em família ou entre amigos, onde palco e plateia se encontraram num ambiente de proximidade e convivialidade.

A jornada inaugural abriu ao final da tarde de sexta-feira com OSSN, que apresentou um “live act” inspirado nas memórias e sonoridades cabo-verdianas, cruzando electrónica, ritmos hipnóticos e ambientes de forte carga evocativa. Seguiu-se um dos momentos mais marcantes desta edição, com Daniela Pereira Cristo a revisitar a música de raiz portuguesa num espectáculo construído em conjunto com dezenas de participantes locais, sublinhando a vocação comunitária do FESTA. Um pôr-do-sol exuberante viu Carla Castelhano assumir a banda sonora do recinto com um “dj set” que percorreu influências do jazz, da folk e das músicas do mundo e preparando o ambiente para os concertos da noite. Bárbara Bandeira foi a primeira cabeça-de-cartaz do FESTA, apresentando “Lusa: Acto II”, novíssimo trabalho que assinala uma nova etapa do seu percurso artístico e que conciliou os temas mais recentes com alguns dos maiores êxitos da cantora. O encerramento da primeira noite pertenceu a Blaya que, com “ARRAIÁ.L”, trouxe ao Parque Urbano um espectáculo marcado pela energia contagiante, cruzando o espírito dos arraiais portugueses com as festas juninas brasileiras, numa actuação de forte interacção com o público e que colocou milhares de pessoas a dançar pela noite fora.

O segundo dia evidenciou de forma ainda mais clara a matriz lusófona do festival, iniciando-se com Lucas Santtana, que apresentou os temas de “Brasiliano”, trabalho onde celebra a riqueza da língua portuguesa. Cheny Wa Gune prosseguiu a viagem musical através da fusão entre a tradição da timbila moçambicana e o afro-pop contemporâneo, antecedendo Do Cabo do Mundo, projecto que recria a obra de Fausto Bordalo Dias através da participação de músicos imigrantes residentes em Portugal e que se cotou como um dos pontos altos do certame. Expresso Transatlântico encerrou a programação da tarde com a energia do álbum “Trópico Paranóia”, voltando Carla Castelhano a assumir, ao início da noite, o habitual momento de transição entre os concertos. António Zambujo protagonizou o espectáculo mais aguardado do festival, percorrendo canções do seu mais recente disco, “Oração ao Tempo”, sem esquecer um vasto conjunto de temas que marcam a sua carreira e fizeram as delícias do público. O encerramento ficou entregue a Stereossauro que, acompanhado por um conjunto de convidados especiais, apresentou um espectáculo onde a electrónica dialogou com o património musical português. Foi o ponto final festivo numa edição que voltou a afirmar o FESTA como uma referência cultural da região e um espaço privilegiado de encontro entre artistas, público e comunidade.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

O MELHOR DE 2025: CONCERTOS



10. António Zambujo
XXII Encontro de Culturas
Praça da República, Serpa
07 Jun 2025 | sab | 22:00

“ (…) Mas se “Cidade”, álbum editado em 2023 e que integra apenas músicas compostas e escritas por Miguel Araújo, foi uma espécie de fio condutor do concerto, foi com “Guia” que tudo começou, o cantor a “atravessar o oceano” e a encontrar “terra firme” precisamente em Serpa, numa Praça repleta de alegria e entusiasmo, na expectativa de uma grande noite.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/06/concerto-antonio-zambujo.html



9. Lina_ & Marco Mezquida
Misty Fest
Casa da Música - Sala 2
14 Nov 2025 | sex | 21:30

“ (…) Ao longo de quase uma hora e meia, “O Fado” abriu-se em certeza e diálogo, unindo e reinventando, revelando uma simbiose perfeita com outros géneros e ritmos - da música tradicional aos sons do Brasil, da canção espanhola às marchas de Santo António. Reconhecidamente rica e expansiva, a voz de Lina_ ofereceu-se pura e límpida, ganhando asas e elevando-se nos acordes cristalinos do piano, tecnicamente irrepreensível, ainda que redundante e menos contido aqui e ali. Mesmo assim, Marco Mezquida soube encontrar o equilíbrio entre o lirismo subtil e uma abordagem quase sinfónica, criando uma tensão estrutural que encheu o palco e seduziu o público.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/11/concerto-lina-marco-mezquida.html



8. The Art of Song vol.2 - Between Sacred and Profane
Com | Filipe Raposo (piano e composição musical), Rita Maria (voz e composição musical)
Auditório de Espinho – Academia
23 Fev 2025 | dom | 18h00

“ (…) Extraída de “Galinhas do Mato”, o último álbum editado em vida por Zeca Afonso, “Alegria da Criação” abriu o concerto e foi dele “pedra de toque”. Escutar em fundo a voz e adufe de Idalina Gameiro (também o adufe de Emília Antunes) como uma ladainha, sobre a qual se impõe a pureza das cordas (vocais de Rita Maria e do piano de Filipe Raposo), é no mínimo arrepiante. Os ritos e os mitos que se estendem ao longo do concerto levam-nos de regresso à origem, explicando mistérios, apaziguando e reconfortando, conferindo significado e valor à nossa existência.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/02/concerto-art-of-song-vol2-between.html



7. Dino d’Santiago
Casa da Criatividade
12 Jun 2025 | qui | 21:30

“ (…) Ao longo de quase duas dezenas de temas, Dino d’Santiago e a sua banda definiram o pendor da festa, oferecendo a um público esfuziante de entusiasmo momentos de verdadeira igualdade, celebração e partilha. De uma energia sem limites, o artista começou por cantar “Nos tradison” e vincar a importância de olhar para trás, para os valores e para a tradição, se queremos seguir em frente.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/06/concerto-dino-dsantiago.html



6. A garota não
Com | Cátia Mazari Oliveira (guitarra e voz), Sérgio Miendez (guitarra e baixo), João Mota (teclados, guitarra, baixo e voz) e Diogo Arranja Sousa (bateria)
Centro Cultural de Paredes
25 Out 2025 | Sab | 21:30

“ (…) A apresentar “Ferry Gold”, o seu mais recente trabalho discográfico, A garota não tornou a bater na tecla da música de intervenção com uma frescura e vivacidade como há muito se não via, o que faz do seu projecto um dos mais estimulantes, emotivos e inspiradores da nova música portuguesa. Marcado pela consciência social, pela recusa da complacência e pela denúncia da injustiça, desigualdade e discriminação, o seu trabalho é fruto de uma trajectória pessoal, de quem viveu a precariedade nas mais diversas formas e teve de ser fazer à vida com “uma força a crescer-lhe nos dedos e uma raiva a nascer-lhe nos dentes”.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/10/concerto-garota-nao.html



5. Voz e Guitarra
Com | Carolina Deslandes (voz), Feodor Bivol (guitarra)
Cineteatro António Lamoso
09 Mai 2025 | sex | 21:30

“ (…) Cruzando canções que ilustram treze anos de uma carreira recheada de belíssimos momentos, com alguns exemplares de um novíssimo álbum a sair ainda este mês, Carolina Deslandes provou que os sonhos de uma artista e uma artista de sonho podem ser uma e a mesma coisa. “Dois Dedos de Testa” abriu as hostilidades de forma afirmativa - “Quero ser dona da festa / Tenho dois dedos de testa” - e deu o mote para um concerto fortemente intimista, de emoções à flor da pele.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/05/concerto-voz-e-guitarra-carolina.html



4. Pedro Abrunhosa
Centro de Arte de Ovar
13 Jun 2025 | sex | 21:30

“ (…) Em Ovar, num Centro de Artes há muito esgotado, o artista começaria por saudar o público, afirmando ser a sua presença “o maior tributo à cultura portuguesa”. Uma cultura que, referiria, “nunca foi tão importante para defender a soberania, a democracia e, sobretudo, a paz.” E foi sob o signo da Paz que o concerto decorreu, com a música a carregar consigo mensagens onde as palavras “paz”, “luz” e “amor” foram signos e símbolos de um enorme momento: Íntimo, profundo, intenso, vivo, espiritual.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/06/concerto-pedro-abrunhosa.html



3. Jorge Palma & Júlio Resende
Cine-Teatro de Estarreja
21 Jun 2025 | sab | 21:30

“ (…) Os acordes que precederam “O Meu Amor Existe”, tema de abertura do concerto, faziam antever algo de muito especial. Ainda que facilmente reconhecíveis, Júlio Resende soube revesti-los de um lirismo único, uma quase pureza, transportando o público ao “grau zero” da criação. Mas foi quando as palavras, frágeis e incertas, se soltaram da garganta de Jorge Palma, que o concerto se estabeleceu nesse lugar único onde os homens e os deuses se tocam.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/06/concerto-jorge-palma-julio-resende.html



2. Inspirar
Danças Ocultas
Com | Artur Fernandes, Filipe Cal, Filipe Ricardo, Francisco Miguel
Misty Fest 2025
Teatro Aveirense
12 Dez 2025 | sex | 21:30

“ (…) A música dos Danças Ocultas nunca é sombria, mesmo quando se move na melancolia. Nela encontramos sempre uma fresta de luz, uma promessa de clareza no meio da contenção. Não é música para consumo rápido, mas para escuta profunda, exigente e, paradoxalmente, reconfortante. Mais do que um simples concerto, o que se viveu no Teatro Aveirense foi uma experiência de partilha sensível, onde os acordes pareceram procurar um lugar íntimo na memória daqueles que tiveram o privilégio de os escutar. Inspirar, como o título bem sugere, foi gesto de recolha, de interiorização, contrastando com a trilogia de álbuns anteriores, mais voltados para fora, para o “respirar” como movimento de saída.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/12/concerto-inspirar-dancas-ocultas.html



1. Meredith Monk
Com | Meredith Monk (voz e teclados), Katie Geissinger (voz), Allison Sniffin (voz, violino e teclados)
Auditório de Espinho – Academia
14 Out 2025 | ter | 21:30

“ (…) O que à primeira escuta pode parecer uma música “simples”, revela-se, na verdade, como um refinado processo de despojamento, reduzindo a composição ao essencial, na busca de uma forma de pureza quase espiritual. Depurada ao máximo, esta, como todas as restantes peças que compuseram o concerto, não conta uma história no sentido narrativo convencional, antes convoca sensações, estados de alma, geografias interiores. A voz, esse enorme instrumento, é moldada com uma liberdade quase xamânica — como se Monk quisesse cantar antes das palavras, antes da gramática, antes mesmo da consciência de ser. Há algo de poeira e terra molhada, de vento nas montanhas, de infância da humanidade em cada composição.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/10/concerto-meredith-monk.html

terça-feira, 10 de junho de 2025

CONCERTO: António Zambujo



CONCERTO: António Zambujo
XXII Encontro de Culturas
Praça da República, Serpa
07 Jun 2025 | sab | 22:00


Admirador confesso da música de António Zambujo, do seu modo de cantar, da sua forma de comunicar com o público, já o escutei nas mais variadas ocasiões: em sala de espectáculos e ao ar livre, com grupos de cante alentejano e sem grupos de cante alentejano, em nome próprio ou como convidado, inclusive numa tertúlia, ao lado de um historiador e de outro músico, e até num “drive-in”. Daí que não enjeitasse a possibilidade de poder escutá-lo de novo, desta feita em Serpa, no âmbito do XXII Encontro de Culturas. Serpa que é, indiscutivelmente, um Município onde o Cante está mais arreigado, que mais tem pugnado pela salvaguarda e promoção deste seu vínculo histórico e cultural e onde está implantado o Museu do Cante Alentejano, com um Centro Interpretativo no qual o visitante é convidado a viajar pela história desta prática poético-musical, conhecer os seus aspectos mais importantes e ouvir e cantar modas que são hoje Património Cultural Imaterial da Humanidade da UNESCO.

Foi a esta terra rica de tradições que António Zambujo regressou, trazendo na bagagem as músicas do seu mais recente álbum, “Cidade”, a par com muitas outras de um repertório que vai “viralizando” entre nós. Em palco, a acompanhar o músico, estiveram o pianista José Salcedo, o saxofonista José Miguel Conde, o trompetista João Moreira, o contrabaixista Emanuel Inácio e o guitarrista André Santos, cinco músicos de excepção que sabem interpretar na perfeição o estilo do músico e adaptar-se a novos e desafiantes arranjos. Mas se “Cidade”, álbum editado em 2023 e que integra apenas músicas compostas e escritas por Miguel Araújo, foi uma espécie de fio condutor do concerto, foi com “Guia” que tudo começou, o cantor a “atravessar o oceano” e a encontrar “terra firme” precisamente em Serpa, numa Praça repleta de alegria e entusiasmo, na expectativa de uma grande noite.“Sagitário” deu “a ler o Expresso (e a Bola)”, mas foi com “Catavento da Sé” que se começaram a ensaiar as primeiras vozes na plateia.

Num todo marcadamente romântico, “Reader’s Digest” foi uma espécie de ilha no meio de “Canção de Brazzaville”, “A Casa Fechada” e “Apelo”, músicas que a precederam. “Flagrante” e “Lua” proporcionaram fantásticos solos a José Miguel Conde e André Santos, abrindo espaço ao mais arrepiante momento da noite, com a praça inteira a cantar a “Gota de Água”. O momento impulsionou um trio de canções que tiveram, igualmente, uma boa resposta do público, nomeadamente “Zorro”, “Visita de Estudo” e o incontornável “Pica do Sete”. Seguiu-se o inescapável “momento Max”, homenagem ao cantor madeirense, uma das referências da música de António Zambujo, com “Bate o Pé” e “Nem às Paredes Confesso” e a particularidade de a primeira destas músicas ter sido interpretada por Emanuel Inácio, contrabaixista elevado à categoria de cantor, e muito bem. “No Rancho Fundo” foi uma revisitação dos concertos dos “ujos” em 2016 e “Dancemos um Slow” colocou um ponto final no alinhamento. Já no “encore”, sozinho em palco, António Zambujo dava uma voltinha na “Lambreta” e, de novo com a banda, terminaria em beleza com “Sinal da Cruz”, numa interpretação arrebatada de mais um dos grandes êxitos de Max.

quarta-feira, 22 de maio de 2024

TERTÚLIA: Música com História IX



TERTÚLIA: Música com História IX
Com Joel Cleto, Miguel Araújo, António Zambujo
Organização | Confraria das Almas do Corpo Santo de Massarelos
Grande Auditório da Casa de Vilar
19 Mai 2022 | dom | 16:00


Aqueles que acompanham de perto a dinâmica da Confraria das Almas do Corpo Santo de Massarelos, facilmente reconhecem que, por detrás do enorme empenho e esforço dos seus membros, se desenha um conjunto de valiosas iniciativas de carácter social, cultural e religioso. Das campanhas solidárias que visam apoiar os mais desfavorecidos, às muitas visitas orientadas por quem melhor conhece a cidade, passando pela manutenção de um espaço museológico com um espólio riquíssimo, pela promoção dos Festejos ao padroeiro S. Pedro Gonçalves Telmo ou pelo desenvolvimento de conversas que juntam personalidades das artes e da cultura e que tomam o nome de “Música com História”, são inúmeros os motivos que fazem olhar com admiração para uma das mais antigas irmandades religiosas do Porto. Ora, é muito justamente o “Música com História” que está hoje em foco no blogue, graças à realização da sua 9ª sessão, colocando frente-a-frente António Zambujo e Miguel Araújo, dois dos mais aclamados músicos da nova geração, sob a moderação sábia e sempre atenta do historiador Joel Cleto.

Com os quase mil e trezentos lugares do Grande Auditório da Casa de Vilar esgotados em apenas três dias, o “Música com História IX” terá gerado uma expectativa inusitada e o caso não era para menos. À partilha dos maiores palcos do país por António Zambujo e Miguel Araújo, somava-se a enorme cumplicidade entre os dois músicos, motivos que garantiam, por si só, um momento de conhecimento e diversão verdadeiramente único. Mas havia ainda o Professor Joel Cleto, profundo conhecedor dos “caminhos da História”, um homem que sabe, como ninguém, estabelecer pontes entre passado e presente e dar a ver, naquilo que fomos, aquilo que somos. A verdade é que, por muito alta que a fasquia estivesse colocada, esta acabaria por ser largamente ultrapassada, graças à forma como a conversa foi conduzida e à generosidade e disponibilidade dos músicos em aceder a contar um conjunto de peripécias que são a sólida base das relações de trabalho e de amizade entre os dois, bem como em dar voz a alguns dos seus temas mais conhecidos, de “Romaria das Festas de Santa Eufémia” a “Catavento da Sé”, passando por “1987”, “Reader’s Digest”, “Lambreta” ou o “Pica do 7”.

Não, não foram os cinquenta concertos dos Coliseus, completamente esgotados. O formato destas conversas afasta-nos da vertente mais festiva das músicas, oferecendo-nos o seu lado mais sério. Ligar o “americano”, percursor do carro elétrico, à Ponte da Pedra e à linha do 7, com o incontornável “pica”, ou o Rei Carlos Alberto à célebre lambretta, são apenas dois exemplos daquilo que foi o prazer de uma aula de História e a delícia de duas vozes inspiradas, em momentos de altíssimo nível, a deixarem a plateia rendida e a rivalizar com os músicos, gargantas ao rubro, nos versos mais conhecidos de alguns temas. Num constante saltitar entre o Porto e Beja – ou, se quisermos, entre Portus Cale, cidade da Galécia romana, e Pax Julia, na província romana da Lusitânia -, falou-se de música anglo-americana e cante alentejano, de edifícios emblemáticos da cidade e frescos escondidos, tabernas e cafés da moda, comendas e músicas de telenovela, Dordio Gomes e Armando Alves, Paulo Cunha e Silva e o Lidador. O “Porto Sentido” não podia faltar, homenageando Rui Veloso e Carlos Tê, duas figuras “sem as quais a música portuguesa não seria o que é hoje”, conforme as palavras de António Zambujo.

[Foto: Fernando Eugénio | Confraria das Almas do Corpo Santo de Massarelos | https://www.facebook.com/groups/633743506760662]

segunda-feira, 13 de maio de 2024

CONCERTO: António Zambujo



CONCERTO: António Zambujo
Centro de Artes de Águeda
12 Mai 2024 | dom | 21:30


Tentar encontrar a palavra certa para descrever a música de António Zambujo é tudo menos fácil. Será algo no cruzamento da pop com as músicas do mundo, do moderno com a tradição, do caso sério com a comédia de costumes. Independentemente daquilo que lhe queiramos chamar, a verdade é que a sua música escuta-se sempre com agrado, não se esgota num par de audições, oferece-se em roupagens diferentes a cada nova vez que se faz ouvir, leva-nos a alinhar versos uns nos outros, a cantá-los, a trauteá-los, a assobiá-los. Com António Zambujo, temos a certeza de que o tempo de um concerto é um tempo de sorrisos e despreocupação, de atirar as agruras do quotidiano para trás das costas, de proximidade e partilha. Por isso não nos cansamos de o acompanhar onde quer que vá, seja sozinho em palco, como em S. João da Madeira ou em Ílhavo, na companhia de um coro de mulheres búlgaras, como em Águeda, com uma banda consistente, como em Albergaria-a-Velha, ou com o rancho de cantadores de Aldeia Nova de S. Bento, como na Casa da Música, em Estarreja ou na praia do Furadouro. Por isso orientámos, uma vez mais, os nossos passos ao seu encontro, para o escutar e ao seu último álbum, “Cidade”, lançado em Novembro do ano passado.

Foi perante um auditório do Centro de Artes de Águeda completamente esgotado que António Zambujo subiu ao palco, trazendo com ele João Moreira no trompete, Francisco Brito no contrabaixo, André Santos na guitarra, João Salcedo no piano e Bernardo Couto na guitarra portuguesa. Fazendo incidir o alinhamento do concerto na variedade da sua discografia - dois temas deste álbum, um tema do seguinte… -, Zambujo teve para oferecer ao público uma súmula dos seus maiores êxitos, onde não faltaram os incontornáveis “Catavento da Sé”, “Flagrante”, “Zorro” e “Pica do 7”. Max esteve em destaque no conjunto de temas trazidos a palco, com Zambujo a prestar uma sentida homenagem a esta figura central da música popular portuguesa, ao interpretar quatro músicas do popular cantor madeirense. “Noites da Madeira”, “Sinal da Cruz” e “Nem às Paredes Confesso” receberam do público prolongadas ovações, com Zambujo a regressar a Max para o tema que encerrou o concerto e que pôs toda a gente a cantar “A Mula da Cooperativa”.

A “contabilidade” diz-nos que foram vinte os temas interpretados em quase uma hora e meia de concerto. Os quatro temas de Max só encontraram paralelo nas músicas que o cantor seleccionou do álbum “Cidade” - “Nas Bocas do Mundo”, “Sagitário”, “Lua” e “Dancemos um Slow” - e que, apesar da sua juventude, já começam a entrar no ouvido à força de passarem na Rádio e vão fazendo o seu caminho, destinadas a transformarem-se em êxitos incontestados. O facto de António Zambujo se ter feito acompanhar por todos estes músicos enriqueceu sobremaneira o espectáculo, refrescando temas muitas vezes escutados e acrescentando-lhes novas sonoridades. Outro aspecto muito interessante foi, para quem teve a oportunidade de assistir a algum concerto das séries “Casca de Noz”, perceber o muito que existe de Miguel Araújo em António Zambujo, cúmplices no que de melhor a música portuguesa tem tido para oferecer nos anos mais recentes. E foi bom regressar aos “Flinstones” ou a “Readers Digest”, “derreter” com a ternura de “Algo Estranho Acontece” ou dar um primeiro beijo “dentro do Expresso, já de volta ao Alentejo”, parar a rua inteira “só com uma voz e uma guitarra” ou ser apanhado em “Flagrante” com as calças na mão. Venham mais concertos que a gente vai lá estar!

sexta-feira, 7 de outubro de 2022

CONCERTO: António Zambujo



CONCERTO: António Zambujo
Casa da Criatividade
17 Set 2022 | sab | 21:30


“Melhor do que um Zambujo só mesmo dois.” À voz vinda do meio da assistência, respondeu António Zambujo com um discreto sorriso, mas ficou a certeza de que, bem no íntimo, deve ter sentido um enorme orgulho por ver o filho seguir-lhe as pisadas e, sem favor, ser acarinhado pelo público como Diogo Zambujo o foi. Começando pelo princípio, mal se percebeu que a programação da Casa da Criatividade iria incluir, lá para o meio de Setembro, um concerto de Zambujo, a procura por bilhetes foi tal que, em poucos dias, a sala esgotou. O cantor aceitou o desafio de fazer um segundo concerto, no mesmo local, mas desta vez à tarde. Daí que o jovem Diogo tenha sido chamado para assumir a primeira parte do concerto da noite, algo que aconteceu pela primeira vez na sua ainda breve carreira. Quando os primeiros acordes da viola se fizeram ouvir e a voz ecoou na sala, a surpresa não poderia ser maior. Rapidamente se percebeu que isto de ser “filho de peixe e saber nadar” não é letra morta, pelo menos neste caso. Mais do que servir para “aquecer os motores”, canções como “Primeiro Amor Sem Nome”, “Quem Tudo Quer Tudo Perde”, “Casa Pronta” [de Mallu Magalhães] e “Em Contramão” são a demonstração da qualidade e capacidades de Diogo Zambujo e um forte augúrio de uma carreira de enorme sucesso.

Já com o pai António em palco, Diogo Zambujo despediu-se com “Escutando o Universo”, um tema com letra e música sua e que António Zambujo incluiu no seu mais recente trabalho, “Voz e Violão”. Enormes de talento e cumplicidade, Diogo e António deixam perceber, na combinação de uma voz mais pura com outra mais trabalhada e de fôlego inesgotável, na troca de olhares ou nas “bocas” que mandam um ao outro, uma parceria que está para durar. Retira-se Diogo, permanece António e as primeiras notas não se fazem esperar. A apresentar o seu último trabalho, “Voz e Violão”, António Zambujo presta uma significativa homenagem à música popular brasileira e, em particular, a João Gilberto, uma das suas maiores influências até hoje. Daí que a primeira música tivesse sabor a canela, “chamando ao palco” Chico Buarque e a sua “Valsinha” e dando início a um verdadeiro vai e vem entre as duas margens do grande mar atlântico. Marisa Monte, Yamandú Costa e Roberta Sá, Vinicius de Moraes e Baden Powell, Ary Barroso, Chitãozinho & Xororó, Benedito Seviero e Thomaz foram presença forte num alinhamento por onde passaram, inevitavelmente, o Fado de Max e Amália Rodrigues e o Cante Alentejano.

Sim, é verdade que voltou a escutar-se o “Zorro” e a “Lambreta”, “Pica do Sete” e “Multimilionário”, “Algo Estranho Acontece” e “Catavento da Sé”. Mas é sobretudo por isto que gostamos tanto de António Zambujo, que vamos a um concerto seu para cantar com ele músicas que passam por ser sempre novas, mesmo que as tenha ido buscar aos seus álbuns mais antigos (e que, em muitos casos, viviam já antes desses, na voz de outros músicos). Em S. João da Madeira essa verdade veio, uma vez mais, ao de cima. Com ela veio, também, a enorme presença do cantor diante do público, a forma ternurenta como acolheu em palco um casal, ele com uma “queixa de dezoito anos” e um pedido: “Queres voltar a casar comigo?” Ou ainda a forma como brincou com a situação depois de ter confirmado que estava tudo bem com uma senhora que deu uma queda na sala durante “O Catavento da Sé”. Nos “discos pedidos”, já no “encore”, “Som de Cristal” foi saudado com entusiasmo e o final, em apoteose, trouxe-nos aquela que é uma das melhores interpretações de “Foi Deus”, um tema de Alberto Janes, imortalizado na voz de Amália. Um grande concerto.

quarta-feira, 30 de março de 2022

CONCERTO: Rancho de Cantadores de Aldeia Nova de São Bento



CONCERTO: Rancho de Cantadores de Aldeia Nova de São Bento
Convidados | Jorge Benvinda, Miguel Araújo, Mafalda Vasques, Pedro Mestre, António Zambujo
Casa da Música - Sala Suggia
26 Mar 2022 | sab | 21:00


“O Cante nasce do ventre da terra. É gerado no interior do chão alentejano, entre pedras fraturadas pela inclemência do clima e por poderosas forças telúricas. Solta-se, ainda débil e frágil, e é transportado maternalmente junto ao solo pela aragem vagarosa dos longos dias de Verão, ganhando o andamento lento e a modulação suave das planícies alentejanas. Vai assimilando e incorporando na sua essência o balir dos rebanhos, o trinar melodioso do pintassilgo, o bater de asas de uma perdiz fugidia, o fragor da água a cair num pego sequioso. Ganha força, coesão e sonoridade ao reflectir-se, repetidamente, na brancura imaculada das paredes das aldeias. O Cante é a voz do Alentejo. É a nossa voz. É a voz do Rancho de Cantadores de Aldeia Nova de São Bento.” Foi em silêncio que o público escutou as palavras que abriram uma noite memorável, como foi em silêncio que guardou a primeira voz do Cante: “Eu cheguei e não falei / Aos senhores que aqui estão / Falo-lhe agora, cantando / Boa-noite, como estão?”

Numa homenagem à sua terra, Aldeia Nova de São Bento, “És a Mãe dos Cantadores” abriu o concerto com a pureza do Cante, as vozes harmoniosas e pujantes dos cantadores a tomarem de assalto o coração do público. Como se de um bloco de som se tratasse, o Rancho dava início ao desfiar de algumas das mais populares modas alentejanas, evidenciando a coesão e força que se funde humildemente na unidade do grupo e mostrando o porquê de ser um dos mais ilustres representantes de um género musical que é Património Cultural e Imaterial da Humanidade pela UNESCO desde 2014. Pensado como uma celebração do Cante, pretendendo evidenciar a singularidade da sua polifonia, a genuinidade das músicas e letras, a potência das vozes, mas também a sua versatilidade, a forma como integra ou se entrosa noutros géneros musicais, o concerto chamou ao palco, em diferentes momentos, um conjunto de distintos convidados que ampliaram o prazer de ouvir os cantadores e a sua música e contribuíram para fazer deste um momento único de comunhão e de festa.

Num concerto onde Pedro Mestre e a sua viola campaniça assumiram um papel relevante, Jorge Benvinda subiu ao palco para interpretar “Vou Cantar Até Cair” e o delicioso “Gotinha d’Água”. Mafalda Vasques, uma voz que desponta no fado, cantou “Alentejo Infinito” e acompanhou o Rancho em “Quinta-Feira d’Ascensão”, dando-lhe um toque “afadistado” e fazendo uma sublime terceira voz. Miguel Araújo juntou-se ao Rancho para interpretar “Romaria de Santa Eufémia” e António Zambujo cantou “Trago Alentejo na Voz” e “A Moda do Meu Chapéu”. Entre o estrado e um espaço que simulava uma taberna, o Rancho cantou ainda “Pomba Branca”, “Açores”, “Canta Alentejo, Canta”, “Fui ao Jardim Passear”, “Oh Francisca”, “Manjerico da Janela”, “Eu Ia Pela Rua”, “O Triste do Mocho”, “Centro ao Centro”, “Lampião, Lampião”, “Varejo”, “Viva a Quem Vive Tão Longe” e “Despedida, Despedida”. No “encore” (que esteve para não acontecer), cantadores e convidados em palco, recordou-se “Gotinha d’Água” e “A Moda do Meu Chapéu”, rematando com chave de ouro uma noite que deixou o público de coração cheio. Valeu a pena esperar dois anos por este momento!

segunda-feira, 20 de dezembro de 2021

CONCERTO: "Voz e Violão" | António Zambujo



CONCERTO: “Voz e Violão”
com António Zambujo 
Cine-Teatro de Estarreja 
18 Dez 2021 | sab | 21:30


Três anos depois de ter pisado o palco do Cine-Teatro de Estarreja na companhia do Rancho de Cantadores de Aldeia Nova de São Bento, António Zambujo voltou a ser o convidado de honra de uma sala que continua a primar pela enorme qualidade da sua programação, pela excelência das suas condições e pelo cuidado no acolhimento. Com ele trouxe o seu último álbum, “Voz e Violão”, gravado num estúdio improvisado na sua própria casa e que acaba de ser eleito como o melhor do ano pelos leitores da Blitz. Mas nem só de voz e violão viveu o concerto, desde cedo transformado num momento de revisitação de muitos dos temas mais queridos dos seus anteriores trabalhos e mesmo de alguns que nunca foram publicados em disco. Intimista, feito de poemas simples, sem “máscaras”, o concerto valeu pelo bem que soube regressar a temas que se vão tornando clássicos e pela suave viagem ao longo de um cancioneiro cada vez mais vasto e rico.

“Visita de Estudo” é bem o exemplo da simplicidade de que falava e da “imortalidade” para a qual certas músicas parecem fadadas. Estes “dois pardais dentro do ninho e um coração com uma seta”, num poema de Maria do Rosário Pedreira, merecem bem figurar no panteão das “melhores” do cantor, ao lado de “Pica do 7”, “Algo de Estranho Acontece”, “Zorro”, “Catavento da Sé” ou “Lambreta”. Foi este o primeiro tema do novo álbum a figurar no alinhamento, mas entretanto já Zambujo tinha passado em revista dois temas de “Até Pensei Que Fosse Minha”, um álbum de 2016 que é uma espécie de homenagem ao génio de Chico Buarque, e ainda “Carinhoso”, a velhinha música de Pixinguinha, popularizada por Marisa Monte. Estava dado o mote para um concerto que, como o cantor sublinhou, pretendeu sobretudo “trazer um conjunto de canções que, quem as escute, fique satisfeito e goste”.

A fórmula não podia ser mais bem-sucedida. “Fui Colher uma Romã” ou “Menina Estás à Janela” trouxeram-nos o que de mais popular a nossa música pode ter. “Verão” espalhou na sala o perfume do cante alentejano. “A Rosinha dos Limões” e “Nem às Paredes Confesso” lembraram-nos o fado e, em particular, o saudoso Max. Os ritmos sertanejos fizeram-se sentir com “Luar do Sertão” e “No Rancho Fundo”. E nem as sonoridades do norte da Argentina ficaram de fora, com esse magnífico “Zamba del Olvido”. O resto foi “tocar as cordas” de praticamente todos os seus trabalhos anteriores ao sabor de “Valsa de Um Pavão Ciumento” e “Multimilionário”, “Sinais”, “Lote B” e “Som de Cristal”, para além das atrás enunciadas desse particular “panteão” do cantor. O final, num apoteótico encore, representou um tributo a Amália Rodrigues, na voz de alguém que, humildemente, tão bem soube reconhecer que quem “fez poeta o rouxinol, pôs no campo o alecrim e deu as flores à primavera” foi o mesmo Deus que “deu-me esta voz a mim”.

domingo, 15 de novembro de 2020

CONCERTO: António Zambujo + Concerto Milha Ricardo Filipe



CONCERTO: António Zambujo + Concerto Milha Ricardo Filipe
Casa da Cultura de Ílhavo
13 Nov 2020 | sex | 21:00


Ultrapassar as contrariedades impostas pelo novo estado de emergência e levar por diante o concerto de António Zambujo, complementando-o com a apresentação de Ricardo Filipe em mais um Concerto Milha, foi o desafio com o qual o 23 Milhas, projecto cultural do Município de Ílhavo, se viu confrontado e que tão bem soube tornear. Começando pelo Concerto Milha e pela presença em palco do cantor e compositor ilhavense, infelizmente passou-se ao lado daquilo que seriam as expectativas de quem, como eu, pagou bilhete (também) para o ouvir. Do que foi possível escutar, ficou uma voz cuidada, um belíssimo domínio do instrumento e poemas de enorme riqueza. Mas aquilo que marca, verdadeiramente, este escasso quarto de hora inicial é a forma desrespeitosa como cantor e público foram tratados, os assistentes de sala a permitirem entradas a desoras (já o concerto de António Zambujo decorria e ainda havia gente a entrar na sala) e a arruinarem um momento que deveria ser de festa e consagração. Mais do que incompreensível, esta é uma situação inadmissível e que, de modo algum, deverá repetir-se.

Quanto ao concerto de António Zambujo, o mínimo que se pode dizer é que não desmereceu de todas as anteriores performances a que pude assistir, fazendo do serão na sala ilhavense mais um delicado momento onde música e poemas se combinam em registos sentidos, de enorme intensidade e beleza. Com “a faca sobre o pescoço” em termos de horários – “às dez e meia temos todos de nos pôr na alheta, já sabem disso”, avisaria o cantor logo de início -, ainda assim houve tempo para um alinhamento que incluiu dezasseis músicas e não dispensou o incontornável “encore” com uma mais de bónus. E foi assim que, a par das menos conhecidas “Valsa do Vai Não Vás”, “Flintstones” ou “Valsa de Um Pavão Ciumento”, o público rejubilou com os icónicos “Zorro”, “Catavento da Sé”, “Pica do 7”, “Flagrante”, “Algo Estranho Acontece”, “Lambreta” e muitos outros temas bem conhecidos do cantor.

Combinando o intimismo mais fundo nessa inspirada fusão de “A Tua Frieza Gela” e “Cucurrucucú Paloma”, com uma sala em delírio na hora de “discos pedidos”, que mais não foi do que o reconhecimento do carinho que o público nutre pelo cantor e pela sua música, António Zambujo satisfez plenamente os presentes, mostrando a sua versatilidade e brindando-os com ritmos sertanejos em “No Rancho Fundo” e “Luar do Sertão”, modas alentejanas em “Eu Ia Pela Rua” e “Menina Estás à Janela” e ainda o fado em “Rosinha dos Limões” e “Apelo (Fado Perseguição)”, tema de abertura deste concerto. O “vibrato zambujeano”, que estaria destinado a fazer escola no mundo inteiro caso fosse Zambujo um cantor lírico, foi presença constante e a enorme capacidade do seu fôlego ficou bem vincada em momentos de cortar a respiração. No final fica a certeza de um momento belíssimo, que nem a máscara que coloca em cada um de nós um ar de ladrão consegue roubar.

quarta-feira, 15 de julho de 2020

CONCERTO: António Zambujo



CONCERTO: António Zambujo
Estúdio33 Drive in, Ansião
11 Jul 2020 | sab | 22:00


Adivinhava-se uma noite memorável em Ansião, no especialíssimo espaço de Luís de Matos, o Estúdio33 Drive in, vestido de gala para receber António Zambujo. Todavia, à excelência do cantor e à originalidade do formato do concerto, quis juntar S. Pedro a voz dos céus, fazendo desabar uma violenta trovoada sobre a terra que acabou por se tornar numa protagonista involuntária das quase duas horas de espectáculo. Ao cabo da segunda música já se fazia subir uma cobertura para abrigar o cantor, mas com cinco músicas decorridas a pausa tornava-se inevitável perante o recrudescer da tormenta. A tenda não seria o local mais seguro para alguém se abrigar de uma trovoada e a chuva era agora particularmente intensa. Zambujo saiu com a promessa de voltar... e voltou!

Os relâmpagos ainda riscavam o céu quando a música se fez ouvir de novo, após uma pausa de vinte minutos, aproximadamente. Tropicalíssima, a temperatura pedia que se abrissem as janelas e “Menina Estás à Janela” não podia vir mais a propósito neste recomeço. Os temas seguintes foram uma viagem pelas músicas do mundo, “No Rancho Fundo”, “João e Maria”, “Cucurrucucu Paloma” ou “Valsinha” a rivalizarem com “Rosinha dos Limões”, “Nem Às Paredes Confesso” ou “Fui Colher uma Romã”, as sombras tutelares de Vinicius De Moraes, Chico Buarque, Caetano Veloso ou do nosso Max a pairar sobre o palco. E porque concerto de António Zambujo não é concerto sem um bom par de “clássicos”, houve tempo – naturalmente – para “Pica do 7”, “Lambreta”, “Algo Estranho Acontece”, “Catavento da Sé”, “Zorro”, “Flagrante” e “Readers Digest”.

Importa falar, enfim, deste conceito de concerto que proporciona ao público o encontro com os seus artistas preferidos e, ao mesmo tempo, respeita os necessários padrões de segurança face a uma pandemia que teima em manter-nos a todos em estado de alerta. E sobre isto, o mínimo que se pode dizer é que a organização se mostrou absolutamente impecável. Das recomendações básicas enviadas por mensagem algumas horas antes do concerto, ao controlo de entradas e saídas no recinto e aos indispensáveis serviços de apoio onde não faltou um bar “cash free”, tudo correu na perfeição. O público pode ouvir o concerto com uma qualidade inexcedível, sintonizando os auto-rádios numa frequência fornecida no momento, os ecrãs gigantes trouxeram aos espectadores um cheirinho das grandes salas de concerto do mundo e o próprio António Zambujo se dispôs a autografar os pára-brisas de algumas viaturas no final do concerto. A isto o público respondeu com sonoras buzinadelas, dando mostras do seu entusiasmo. Inesquecível!

domingo, 16 de dezembro de 2018

CONCERTO: "Uma Noite de Natal no Alentejo"



CONCERTO: “Uma Noite de Natal no Alentejo”,
com António Zambujo e Rancho de Cantadores de Aldeia Nova de S. Bento
Cine-Teatro de Estarreja
15 Dez 2018 | sab | 21:30


Em plena quadra natalícia, não poderia ser mais adequada a proposta do Cine-Teatro de Estarreja para assinalar este momento festivo. Com “Uma Noite de Natal no Alentejo”, António Zambujo e o Rancho de Cantadores de Aldeia Nova de S. Bento ofereceram ao público que lotou completamente o Cine-Teatro de Estarreja um serão fantástico, de tradição e emoção feito. À voz e aos acordes da guitarra de António Zambujo, juntou-se a força e harmonia de um dos mais carismáticos representantes do Cante Alentejano, para uma noite que irá ficar para sempre na memória de todos.

“Fui à fonte beber água / Achei um raminho verde / Quem o perdeu tinha amores / Quem o achou tinha sede”. Do cancioneiro tradicional alentejano se bebeu esta “Gota de Água”, tema que abriu o concerto, colocando desde logo a fasquia num nível muito alto. Zambujo retirou-se de seguida e, com o Rancho de Cantadores em palco, celebrou-se verdadeiramente o Natal no Alentejo, não apenas com temas de louvor ao Deus Menino mas também com temas mais mundanos, segundo a tradição. “O Menino”, “Quais são os Três Cavalheiros” ou “Janeiras” foram momentos marcantes, as vozes telúricas, no ponto ou no alto, a evocarem a quadra e, ao mesmo tempo, a transportarem os presentes ao âmago mais profundo do Ser Alentejano. Com Zambujo de novo no palco, cantou-se “O que é Feito Dela”, um tema composto por Miguel Araújo e gravado originalmente com o Rancho de Cantadores de Aldeia Nova de S. Bento.

Preenchido maioritariamente pela música e pela voz de Zambujo, agora sozinho em palco, a segunda parte do concerto pôs o público a cantar alguns dos temas mais populares do cantor, de “O Pica do 7” a “Flagrante”, de “Zorro” a “Lambreta”. Introduzindo nos acordes das suas canções um cheirinho a Natal com temas como “Jingle Bells” ou “A Todos um Bom Natal”, António Zambujo deu uma nota do seu virtuosismo, ao mesmo tempo que arrancou saborosas gargalhadas ao público. Tempo ainda para um “cheirinho” do seu novíssimo trabalho “Do Avesso”, com “Moda Antiga” e “O Catavento da Sé” a abrirem o apetite e a sugerirem um CD no sapatinho. O concerto terminaria com “Trago Alentejo na Voz”, um tema recuperado do primeiro álbum do cantor, “O Mesmo Fado” (2002) e cantado em conjunto com o Rancho de Cantadores.

Zambujo e o Côro seriam “obrigados” a regressar ao palco graças à insistência do público, dando as despedidas com os deliciosos “A Moda do Meu Chapéu” e “Fui Colher Uma Romã”, esta última a fazer recuar aos primórdios de Vitorino e a “Os Malteses”, álbum icónico do cantor, editado em 1977. O Rancho de Cantadores ainda interpretaria uma das suas cantigas, de forma informal, já no foyer do Cine-Teatro de Estarreja, enquanto António Zambujo autografava, para os interessados, exemplares do seu último trabalho. O final em beleza dum noite memorável!

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

CONCERTO: Angelite Vozes Búlgaras + António Zambujo



CONCERTO: Angelite Vozes Búlgaras + António Zambujo
Centro de Artes de Águeda
10 Dez 2017 | Dom | 21:30


Por muito que possamos ver, ouvir ou sentir, sempre haverão momentos capazes de nos surpreender e de nos proporcionar experiências únicas, daquelas que, por certo, jamais se apagarão da nossa memória. E se o Concerto que o agrupamento “Angelite Vozes Búlgaras” deu no Centro de Artes de Águeda é disso a prova provada, gostaria de destacar um momento preciso, “aquele” momento que se constituiu numa verdadeira experiência de vida.

O intervalo aproximava-se e o excepcional naipe de vinte vozes “a capella”, todas elas mulheres, interpretava “Veliko Slavoslovie” (em português “Grande Música de Louvor”), do compositor e director de coros búlgaro Apostol Nikolaev-Stroumski. É um peça que se enquadra na tradição dos cânticos ortodoxos e cuja beleza e pureza nos deixa completamente despojados perante Deus. Um hino de “glória aos céus, pela paz na terra e virtude aos homens”, um momento de elevação, inspirador, celestial. É precisamente durante a interpretação desta peça que a tempestade “Ana” se abate sobre Águeda com inusitada violência. Uma quebra de energia faz disparar duas luzes de emergência sobre a plateia, deixando o palco na penumbra. Suspensos do que se vai seguir, os espectadores estão completamente rendidos ao momento. É que, mesmo sem luz e sem sistema de som, o coro prossegue, imperturbável, fazendo com que as vozes se sobreponham ao rugido do vento. É um momento arrepiante, que nos reduz à nossa pequenez, esmagados que somos pelo poder da música e pela força dos elementos. Um momento único, daqueles que importa lembrar todos os dias, porquanto nos mostra o quão maravilhoso é o dom da vida e aquilo que ela nos oferece.

Foi um Concerto tão rico, tão repleto de emoções, que quase se poderia contar uma história a propósito de cada uma das 20 peças interpretadas. As primeiras músicas, de inspiração natalícia, podem encontrar-se em “Angel's Christmas”, álbum de 2008 da Jaro Records. Seguiram-se peças da tradição cristã nas quais, para além da divinal “Veliko Slavoslovie”, se incluem “Blagosloven Isi, Gospodi”, “Tebe Poem” e “Sviatii Boje”, do álbum “Mercy For the Living”, também de 2008. A segunda parte foi toda ela composta por canções de raiz tradicional e popular, uma das quais, “Tapan Bie”, foi cantada em simultâneo com “Chamateia”, uma canção popular dos Açores, interpretada por António Zambujo. É difícil conceber maior harmonia entre duas músicas distintas, que se conjugam de forma perfeita e das quais resultou outro momento vocal único. “Damba”, uma música alegre sobre a reunião das abelhas no Inverno, “Polegnala e Toudora”, “Dragana I Slavei” ou “Mechmetio”, a música que encerrou o programa, são outros momentos de rara beleza e que fazem deste um dos mais extraordinários Concertos a que tive o privilégio de assistir.