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terça-feira, 28 de abril de 2026

CONCERTO: Diogo Zambujo



CONCERTO: Diogo Zambujo
Com | Diogo Zambujo (guitarra, teclados, voz), Afonso Albuquerque (guitarra), Rogério Pitomba (bateria)
Escola de Artes e Ofícios
24 Abr 2026 | sex | 21:30


O primeiro concerto de apresentação de “Vir a Ser”, trabalho discográfico de Diogo Zambujo com estreia prevista “para depois do Verão”, assumiu-se, desde os primeiros instantes, como um exercício de afirmação estética e identitária. Perante uma plateia curiosa e atenta, o jovem cantautor apresentou um alinhamento que, respeitando a ordem prevista do álbum, funcionou quase como uma escuta integral antecipada, revelando uma obra em fase de consolidação, mas que mostra já uma forte coesão estilística e artística. Tema de abertura do concerto, “Amor Sem Nome” estabeleceu de imediato o tom confessional e melancólico que atravessa boa parte do repertório, com versos que exploram a erosão afectiva e a fragilidade das relações. Há, na escrita de Diogo Zambujo, uma economia de meios que privilegia a palavra de forte intenção poética, mas sem ornamento excessivo, próxima de um diário íntimo. Musicalmente, a matriz minimalista revela-se nos arranjos depurados, centrados na voz e na harmonia, abrindo espaço à respiração das canções. Esta contenção funciona, no caso de Diogo Zambujo, como uma procura consciente de autenticidade num panorama frequentemente saturado de artifício.

A inevitável comparação com António Zambujo surge não apenas pela filiação, mas pela proximidade tímbrica e pela inclinação para uma certa dolência rítmica de matriz brasileira. Contudo, seria redutor encerrar Diogo Zambujo nesse espelho genealógico. Se o pai habita um território já consolidado entre o fado, a música ligeira e a bossa nova, o filho parece procurar um espaço mais fragmentário, onde o rock das primeiras escutas - dos Beatles aos Rolling Stones - ainda ecoa de forma difusa, sobretudo na construção melódica e na atitude interpretativa. Temas como “Pisa a Poça” introduzem uma dimensão quase programática, com versos que apelam ao risco, ao erro e à descoberta, num registo que contrasta com a introspecção mais sombria de outras canções. Já “O Mundo Sou Eu” destaca-se como um dos momentos mais conseguidos do concerto, não só pela força do refrão, mas pela capacidade de sintetizar uma inquietação geracional, entre o desencanto e a auto-descoberta. Uma palavra para a forma contida e cúmplice como Afonso Albuquerque e Rogério Pitomba assumiram o suporte musical, abrindo um amplo espaço para que Diogo Zambujo pudesse brilhar.

Em vésperas do Dia da Liberdade, foi já no “encore” que o concerto encontrou o seu momento de maior simbolismo, com Diogo Zambujo a assumir uma escolha particularmente significativa ao convocar o universo de José Afonso. A interpretação de “Cobradores de Impostos”, numa ponte indirecta com a releitura contemporânea de Allen Halloween, e a “Canção do Desterro” a fechar o concerto, levaram a que o músico inscrevesse o seu nome numa linhagem de intervenção que transcende o mero gesto revivalista. Mais do que homenagem, o momento representou um acto de continuidade, reactivando a memória colectiva através de uma voz nova, em claro processo de definição, mas já consciente do peso e da responsabilidade do legado que convoca. A recepção do público, marcada por um silêncio atento seguido de aplausos prolongados, confirmou a eficácia desse gesto. Num tempo em que a canção tende a refugiar-se no individualismo, a evocação de Zeca Afonso surge como um sinal de que a música pode - e, sem dúvida, deve - ser também lugar de resistência e de liberdade, aberto às inquietações de todos e, em particular, das novas gerações.

sexta-feira, 7 de outubro de 2022

CONCERTO: António Zambujo



CONCERTO: António Zambujo
Casa da Criatividade
17 Set 2022 | sab | 21:30


“Melhor do que um Zambujo só mesmo dois.” À voz vinda do meio da assistência, respondeu António Zambujo com um discreto sorriso, mas ficou a certeza de que, bem no íntimo, deve ter sentido um enorme orgulho por ver o filho seguir-lhe as pisadas e, sem favor, ser acarinhado pelo público como Diogo Zambujo o foi. Começando pelo princípio, mal se percebeu que a programação da Casa da Criatividade iria incluir, lá para o meio de Setembro, um concerto de Zambujo, a procura por bilhetes foi tal que, em poucos dias, a sala esgotou. O cantor aceitou o desafio de fazer um segundo concerto, no mesmo local, mas desta vez à tarde. Daí que o jovem Diogo tenha sido chamado para assumir a primeira parte do concerto da noite, algo que aconteceu pela primeira vez na sua ainda breve carreira. Quando os primeiros acordes da viola se fizeram ouvir e a voz ecoou na sala, a surpresa não poderia ser maior. Rapidamente se percebeu que isto de ser “filho de peixe e saber nadar” não é letra morta, pelo menos neste caso. Mais do que servir para “aquecer os motores”, canções como “Primeiro Amor Sem Nome”, “Quem Tudo Quer Tudo Perde”, “Casa Pronta” [de Mallu Magalhães] e “Em Contramão” são a demonstração da qualidade e capacidades de Diogo Zambujo e um forte augúrio de uma carreira de enorme sucesso.

Já com o pai António em palco, Diogo Zambujo despediu-se com “Escutando o Universo”, um tema com letra e música sua e que António Zambujo incluiu no seu mais recente trabalho, “Voz e Violão”. Enormes de talento e cumplicidade, Diogo e António deixam perceber, na combinação de uma voz mais pura com outra mais trabalhada e de fôlego inesgotável, na troca de olhares ou nas “bocas” que mandam um ao outro, uma parceria que está para durar. Retira-se Diogo, permanece António e as primeiras notas não se fazem esperar. A apresentar o seu último trabalho, “Voz e Violão”, António Zambujo presta uma significativa homenagem à música popular brasileira e, em particular, a João Gilberto, uma das suas maiores influências até hoje. Daí que a primeira música tivesse sabor a canela, “chamando ao palco” Chico Buarque e a sua “Valsinha” e dando início a um verdadeiro vai e vem entre as duas margens do grande mar atlântico. Marisa Monte, Yamandú Costa e Roberta Sá, Vinicius de Moraes e Baden Powell, Ary Barroso, Chitãozinho & Xororó, Benedito Seviero e Thomaz foram presença forte num alinhamento por onde passaram, inevitavelmente, o Fado de Max e Amália Rodrigues e o Cante Alentejano.

Sim, é verdade que voltou a escutar-se o “Zorro” e a “Lambreta”, “Pica do Sete” e “Multimilionário”, “Algo Estranho Acontece” e “Catavento da Sé”. Mas é sobretudo por isto que gostamos tanto de António Zambujo, que vamos a um concerto seu para cantar com ele músicas que passam por ser sempre novas, mesmo que as tenha ido buscar aos seus álbuns mais antigos (e que, em muitos casos, viviam já antes desses, na voz de outros músicos). Em S. João da Madeira essa verdade veio, uma vez mais, ao de cima. Com ela veio, também, a enorme presença do cantor diante do público, a forma ternurenta como acolheu em palco um casal, ele com uma “queixa de dezoito anos” e um pedido: “Queres voltar a casar comigo?” Ou ainda a forma como brincou com a situação depois de ter confirmado que estava tudo bem com uma senhora que deu uma queda na sala durante “O Catavento da Sé”. Nos “discos pedidos”, já no “encore”, “Som de Cristal” foi saudado com entusiasmo e o final, em apoteose, trouxe-nos aquela que é uma das melhores interpretações de “Foi Deus”, um tema de Alberto Janes, imortalizado na voz de Amália. Um grande concerto.