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segunda-feira, 3 de novembro de 2025

CONCERTO: “Entre Paredes” | Bernardo Moreira Sexteto & Orquestra de Jazz de Espinho


CONCERTO: “Entre Paredes”
Bernardo Moreira Sexteto & Orquestra de Jazz de Espinho
Com | Bernardo Moreira (contrabaixo), Tomás Marques (saxofone), Mário Delgado (guitarra), João Moreira (trompete), João Silva (bateria), Ricardo Dias (piano)
Artista convidada | Estela Alexandre (piano)
Orquestra de Jazz de Espinho
Direcção musical | Carlos Azevedo
Novembro Jazz 2025
Casa da Criatividade
01 Nov 2025 | sab | 21:30


Celebrar o centenário de Carlos Paredes é, inevitavelmente, revisitar uma das vozes mais singulares da música portuguesa. No concerto que marcou a abertura da sétima edição do Novembro Jazz 2025, na Casa da Criatividade, Bernardo Moreira retomou esse diálogo iniciado há mais de duas décadas, quando editou “Ao Paredes Confesso” (2002) e, mais tarde, “Entre Paredes” (2021). Desta vez, porém, a homenagem ganhou nova dimensão através da parceria com a Orquestra de Jazz de Espinho, sob a direcção de Carlos Azevedo. Os arranjos, assinados por jovens nomes como Estela Alexandre e Tomás Marques, e por figuras consagradas como Pedro Moreira e o próprio Azevedo, revelaram uma orquestra em pleno domínio expressivo, capaz de cruzar o rigor da escrita com o sopro da improvisação. Neste ambiente de silêncio e vertigem feito, a música de Carlos Paredes encontrou um corpo colectivo, forte e solidário, que teve no contrabaixo de Bernardo Moreira a sua âncora poética e um poderoso dínamo emocional.

Falar de Carlos Paredes é falar de liberdade — e foi precisamente essa ideia que atravessou todo o concerto. A guitarra portuguesa de doze cordas, reinventada por ele como voz e não mero acompanhamento, ressoou na linguagem do jazz como se ambos partilhassem um mesmo código genético: a improvisação como forma de pensar o mundo. Mesmo sem estar presente, o espírito de Paredes pareceu guiar os músicos nesse território de harmonia e risco, onde o jazz se afirma como espaço de encontro entre tradição e modernidade. As reinterpretações de “Mudar de Vida” e “Canto de Amor”, os dois temas que abriram o concerto, ou os icónicos “Verdes Anos” ou “António Marinheiro”, não buscaram a fidelidade literal, mas antes a reinvenção, o gesto de tocar de novo como se de uma primeira vez se tratasse, algo que, afinal, o próprio Paredes fazia. A Orquestra de Jazz de Espinho tornou-se, assim, extensão desse espírito improvisador, convertendo o fado em matéria orquestral e o jazz em língua franca da emoção e fascínio.

O resultado foi um concerto de densidade rara, em que o lirismo se aliou à experimentação sem perder o sentido de pertença. Mais do que um tributo, tratou-se de uma reflexão em forma de música sobre o que significa ser português e contemporâneo, à luz de um legado que não cessa de nos estimular e inspirar. Se Carlos Paredes procurava “a verdade no som”, Bernardo Moreira e a Orquestra de Jazz de Espinho mostraram que essa verdade permanece viva, transmutando-se, abrindo-se a novos timbres e a novas cores. Na noite do passado sábado, o público de São João da Madeira foi brindado com a possibilidade de sentir essa vibração suspensa no tempo, algures entre a memória e o instante, entre o rigor da escrita e a respiração da improvisação - notável o exercício intenso e livre de “Serenata no Tejo” que encerrou o concerto. No final, quedamo-nos com a certeza de que o jazz português não é um género em si mesmo ou uma categoria estilística, antes uma atitude estética e ética: a de quem, como Carlos Paredes, faz da liberdade uma forma de arte.

sábado, 14 de junho de 2025

CONCERTO: Dino d'Santiago



CONCERTO: Dino d’Santiago
Casa da Criatividade
12 Jun 2025 | qui | 21:30


“Venho de longe… Mas não sou estrangeiro.
Fui para o estrangeiro… Mas não sou estrangeiro.”
Dino d'Santiago

Dino d'Santiago é hoje uma das figuras centrais da música portuguesa. O seu trabalho veste-se de originalidade e contemporaneidade, sem nunca esquecer as origens cabo-verdianas e os sons da tradição. A sua forte presença em palco impele-nos a segui-lo com o olhar, a apreciar um bailar harmonioso que parece crescer a cada instante, um punho cerrado que fala de igualdade e de justiça, o sorriso luminoso de quem oferece com vivo prazer o melhor que tem dentro de si. Na sua voz quente e poderosa, as palavras surgem com a subtileza de um sussurro, o ímpeto de um grito, a força de um hino. Palavras que trazem em si a herança de Cesária, Bana ou Os Tubarões, que a sabem fundir com a energia e o ritmo de Paulo Flores, Julinho Ksd ou Calema. Palavras feitas de histórias e de memórias, fincadas num presente que nos diz que nada está garantido, que olham o futuro e nos incutem a “vender o medo para comprar coragem”. Neste embalo, manso e louco ao mesmo tempo, vemos como vão sendo quebradas todas as barreiras musicais e sociais, unindo a criança e o idoso, o rico e o pobre, o preto e o branco, num todo em cuja diversidade reside a maior riqueza.

Que bom que foi poder escutá-lo assim na noite da passada quinta feira, em São João da Madeira, num espectáculo especialmente criado para comemorar os doze anos da Casa da Criatividade. Ao longo de quase duas dezenas de temas, Dino d’Santiago e a sua banda definiram o pendor da festa, oferecendo a um público esfuziante de entusiasmo momentos de verdadeira igualdade, celebração e partilha. De uma energia sem limites, o artista começou por cantar “Nos tradison” e vincar a importância de olhar para trás, para os valores e para a tradição, se queremos seguir em frente. “En bua di mi / Um voo longi longi longi longi longi / Kanto kin txiga en ka atxa ramu pa descansa nha pena mamã!” foram palavras do refrão de “Voei de mim”, a pedir braços que acolham no fim da jornada e não muros que se ergam e vozes que insultem. Crioulo e português de mãos dadas, o concerto prosseguiu com “Esquinas”, punho fechado que estoira forte na mesa, denúncia do racismo estrutural que mina a nossa sociedade e lembra que “nem todo o tuga é luso / Nem todas as quinas são vanglória / Aceno ao corpo negro com quem cruzo / nossos corpos são também pátria”.

Das ilhas de Santiago, Fogo, Maio e Brava à cidade de Lisboa, a música e as palavras deram-se as mãos num balanço cheio desse novo funk que é o funaná, perguntando-se “de onde veio toda essa gente, eu não sei / Dizem que tamos na moda, ma n ka krê sabê / Ali sta tudu dretu, ma não tou nessa / De vender a sodadi ou a morabeza”. Em palco, a guitarra de Djodje Almeida, o baixo de Pety Gau, a bateria de Emílio Lobo e as vozes e o balanço de Alícia Rosa e Elísio Pereira, tornavam ainda mais distinta e única a música de Dino D’Santiago. Com o concerto a caminhar para o final, “Distinu” clamou por liberdade e “Mundo Nôbu” aspirou a um mundo melhor. Ao exemplo de coragem e determinação de Beyoncé e Jay-Z foi o artista buscar inspiração para um dos seus temas mais conhecidos, “Como Seria” e “Kriolu” foi esse abraço entre todos, tão forte quanto necessário, “branco ku pretu um gerason di oru”. Já no “encore”, envergando um bonito chapéu, numa oferta do Museu da Chapelaria, Dino d’Santiago cantou “Oji é oji”, dedicando este tema a todos os trabalhadores anónimos que, em todos os lugares, contribuem para um mundo mais justo e melhor. “Djonsinho Cabral” foi um definitivo carregar de baterias, a afirmação da igualdade na diferença, o grito derradeiro contra as injustiças e a barbárie. Gaza não ficou esquecida!

domingo, 5 de janeiro de 2025

CONCERTO: Coro Gulbenkian



CONCERTO: Coro Gulbenkian
Direcção musical | Inês Tavares Lopes
Casa da Criatividade
03 Jan 2025 | sex | 21:30


No livro “The Rest Is Noise”, o crítico musical do The New Yorker, Alex Ross, lembra que “sempre que o sonho americano sofre um revés catastrófico, passa na rádio o Adagio de Barber”. A frase evidencia o enorme impacto cultural do Adágio para Cordas, peça escrita por Samuel Barber em 1936, considerada por muitos como “a Pietá da música” e por muitos outros como “a música mais triste alguma vez escrita”. Assombrosa na sua beleza lírica, pungente no tom lamentoso e profundo que dela se desprende, a obra começou por ser o segundo movimento do Quarteto de Cordas, Op. 11, a partir do qual o compositor fez arranjos para orquestra de cordas em 1936 e para coro trinta anos mais tarde. Assombrosa, sublime, lembramo-nos dela como tema de fundo dos filmes “Platoon” ou “O Homem Elefante”, enquanto que os mais antigos a recordarão nos funerais de Franklin Roosevelt e John F. Kennedy, Albert Einstein, Grace Kelly e do próprio Samuel Barber. Mais recentemente, pudemos escutar a peça no memorial às vítimas dos ataques às torres gémeas ou ao Charlie Hebdo, ou ainda no Concerto Europeu Digital na Berliner Philharmonie, a 1 de maio de 2020, em plena primeira vaga da pandemia de coronavírus.

Se o Adágio, na sua versão sinfónica, é uma das peças que tantos de nós têm no ouvido por ser parte integrante do repertório de todas as grandes orquestras mundiais, já o Agnus Dei, a versão coral, não é tão frequentemente escutada. Isto deve-se, em grande medida, à enorme exigência vocal na criação dos desejados efeitos de tensão e ao clima emocional da obra, pedindo segurança nas suas linhas sustentadas e melodias lentas, algo que só os grandes coros são capazes de alcançar na plenitude. Em boa hora o Coro Gulbenkian o fez, dando uma grande alegria aos melómanos neste início de mais um ano, mas igualmente a todos aqueles que se dispuseram a abraçar o luto elegíaco e a paixão, mas também a ressurreição e a glória, contemplados num programa de grande espiritualidade e simbolismo. Em S. João da Madeira, sob a direcção de Inês Tavares Lopes, o coro soube fazer do tempo do concerto um momento de reflexão nas vidas dos presentes, transformando cada frase numa mensagem de paz e fraternidade, ao encontro daqueles que, ao nosso lado, buscam palavras de conforto, um gesto de ternura, uma ajuda solidária.

Foi já próximo do final que o Agnus Dei se mostrou em beleza e harmonia, mas o concerto teve muito mais para oferecer. Começou com Francis Poulenc, compositor e pianista francês cuja música se revê tanto no género clássico como no moderno e de quem se escutou “Salve Regina”, o coro a oito vozes na boca do palco e “Ave verem corpus”, um gracioso trio de vozes femininas numa das laterais da sala. Seguiu-se a “Messe pour double chœur”, de Frank Martin, a par de Arthur Honegger um dos compositores suíços que alcançaram maior prestígio no século passado. Nela se afirmam reminiscências do barroco e do romântico, mas também a herança gregoriana na sua riqueza tonal, polifónica e rítmica, vertida em graça e beleza ao longo das cinco partes tradicionais do Ordinário da Missa em latim - Kyrie, Gloria, Credo, Sanctus - Benedictus e Agnus Dei. Seguiu-se Barber e o sublime “Agnus Dei”, ficando para o final “Magnificat in Five Vignettes”, do jovem compositor e músico Miguel Jesus, uma obra densa e leve ao mesmo tempo, a derradeira “vinheta” a fechar o concerto em alegria e exaltação. Inês Tavares Lopes soube conduzir na perfeição as trinta e uma vozes do seu coro, brindando o público com um Concerto de Ano Novo verdadeiramente inspirador. Bravo!

terça-feira, 3 de dezembro de 2024

CONCERTO: Júlio Resende “Fado Jazz” com Bruno Chaveiro



CONCERTO: Júlio Resende “Fado Jazz” com Bruno Chaveiro
Coro dos Pequenos Cantores de São João da Madeira
Novembro Jazz 2024
Casa da Criatividade
29 Nov 2024 | sex | 21:30


Chegou ao fim a sexta edição do Novembro Jazz, conjunto de eventos que, ao longo do mês, animaram um significativo número de espaços da cidade de São João da Madeira. Showcases, feiras de vinil, djsets, exposições de fotografia, mostra de talentos emergentes e uma articulação íntima entre o Festival e o Encontro Bienal de Ilustração de São João da Madeira foram peças importantes de um programa vasto, eclético e com tudo para agradar a todos. Isto para além, naturalmente, das conversas e concertos que trouxeram ao palco da Casa da Criatividade nomes tão importantes como os de Paula Morelembaum, Hugo Lobo, Pedro Ricardo, Lana Gasparøtti, Zajguar, Samalandra, Eduardo Cardinho ou Júlio Resende, entre outros. Com uma dinâmica muito própria - os momentos de conversa antes dos concertos revelaram-se particularmente enriquecedores -, o Festival deu mostras da sua amplitude e envolvimento com um território muito específico, ligando-se a vários níveis às escolas, à comunidade e ao tecido empresarial e fazendo a diferença face ao contexto da generalidade dos festivais de jazz do nosso país.

Chamado a encerrar o Novembro em Jazz, o pianista Júlio Resende fez do momento uma viagem única pela alma musical portuguesa, entrelaçando tradição e inovação num hino à criatividade, engenho e beleza. Para tanto, chamou ao palco Bruno Chaveiro, um virtuoso da guitarra portuguesa, digno herdeiro do legado de Carlos Paredes, com quem manteve um diálogo íntimo, sereno e emotivo ao longo do concerto. “Júlio Resende Fado Jazz - Filhos da Revolução” (2023), último trabalho discográfico do compositor e pianista, deu o mote para um concerto que constituiu um verdadeiro hino à liberdade, numa altura em que continuamos a celebrar o 50º aniversário do “dia inicial inteiro e limpo”. Uma improvisação à volta de “Gaivota”, tema maior do cancioneiro português de fado, abriu o concerto, num momento a solo de rara inspiração e beleza. Já com Bruno Chaveiro em palco, viajámos até aos Açores ao encontro da “Lira”, um tema tradicional que a voz de Adriano Correia de Oliveira soube imortalizar. Foi o início de um romance amoroso entre o piano e a guitarra, com esta a mostrar-se de uma contenção e clareza únicos e aquele a deambular ao sabor do improviso, em demonstrações de rara intuição e talento.

Os temas seguintes, “Portugal Celebra Com Flores Vermelhas (A Rosinha dos Limões)” e “Este Piano Não Te Esquece” vieram aprofundar o espírito de celebração desse magnífico gesto de liberdade e de amor que foi o 25 de Abril. Celebração que se prolongou com “Anagrama - Os Retornados Amam Duas Terras”, uma balada repleta de harmonia e sentimento. Momento alto da noite, Bruno Chaveiro interpretou a solo um tema da sua autoria inspirado em Carlos Paredes, dando a ver, em toda a sua plenitude e transcendência, as múltiplas vozes da guitarra portuguesa. Na última parte do concerto, os dois músicos fizeram-se acompanhar em palco pelo Coro dos Pequenos Cantores de São João da Madeira, primeiro com o tema “Mano a Mano”, com letra de Maria do Rosário Pedreira e depois com “Profecia”, letra do próprio Júlio Resende e um solo de Maria Costa na voz. A fechar o alinhamento do concerto, “Vira Mais Cinco” - com dedicatória a Fausto Bordalo Dias - foi mais um “shot” de liberdade que o público soube aplaudir com emoção. Convidado com insistência a regressar ao palco, Júlio Resende voltou para abraçar Amália, acompanhando-a na sua voz inconfundível. O ponto final perfeito de uma noite inesquecível.

terça-feira, 19 de novembro de 2024

CONCERTO: Eduardo Cardinho | “Not Far From Paradise”



CONCERTO: Eduardo Cardinho | “Not Far From Paradise”
Com José Diogo Martins, João Mortágua, Francisco Santos, Diogo Alexandre, Iuri Oliveira
Novembro Jazz 2024
Casa da Criatividade
15 Nov 2024 | sex | 21:30


Quase a fechar o ano, o Auditório da Casa da Criatividade volta a ser palco do Novembro Jazz, festival cuja programação abarca, em seis dias de intensa actividade, oito concertos que dão prova do que de melhor se faz no panorama do mais jovem e fresco jazz português. À aposta no talento nacional, o Novembro Jazz acrescenta a vertente da ligação à comunidade, oferecendo a oportunidade de descobrir a beleza da liberdade sofisticada que existe no Jazz, nas suas mais variadas dimensões. Complementarmente, assistimos ao cruzamento de parcerias de elevado potencial que se traduzem noutro tipo de iniciativas: feiras de vinil e djsets, apresentações de jovens músicos locais em combinação com jovens ilustradores que mostrarão o seu trabalho em palcos inovadores, e ainda uma distinta exposição de fotografia de Márcia Lessa, focada no talento feminino no jazz, num conjunto de belíssimas imagens que podem ser vistas em dois espaços distintos de S. João da Madeira [o programa desta sexta edição do festival pode ser consultado AQUI].

Na noite da passada sexta-feira, as atenções centraram-se em Eduardo Cardinho e no seu mais recente álbum de originais, “Not Far From Paradise”, naquela que foi a última etapa da digressão que, desde Julho passado, levou o músico e os seus companheiros de estrada a percorrer o país de Norte a Sul. No palco da Casa da Criatividade o vibrafonista não esteve sozinho, apresentando-se ao lado de José Diogo Martins (teclados), Iuri Oliveira (percussões), Diogo Alexandre (bateria), Francisco Santos (baixo eléctrico) e João Mortágua (saxofone alto). E foi justamente do saxofone que surgiram as primeiras notas de emoção, com Mortágua a tirar o melhor partido das suas qualidades de intérprete ímpar, da sua energia e talento, transformando-os numa música com uma força enorme, desafiante e entusiasmante ao mesmo tempo. Por seu lado, Eduardo Cardinho ia mostrando o porquê de ser um dos músicos mais criativos da sua geração, encetando com José Diogo Martins e João Mortágua diálogos profícuos que se estenderiam a toda a secção rítmica. O público, esse, ia reagindo de forma intensa e retribuía com aplausos vivos a notória qualidade interpretativa de cada tema.

Depois de “It Was Just a Dream”, tema de abertura do concerto, “Anxiety” constituiu um grande momento de jazz, o casamento perfeito entre ritmo e harmonia, o virtuosismo de Cardinho a vir à tona em diálogos enérgicos ou em apontamentos solísticos de extraordinária qualidade. A variedade de ambientes sonoros viria a constituir-se como uma das grandes marcas do concerto, com particular destaque para os ritmos brasileiros que souberam acrescentar novas texturas e maior intensidade e beleza. Cadinho onde se fundem as sonoridades mais diversas, o vibrafone foi pássaro em cujas asas o público se deixou levar, ao encontro de exóticas e muito belas paisagens. “November 17th” (o título remete para o dia em que o avô de Cardinho faleceu) e “Life Contemplation” foram duas viagens suaves, em contraciclo com a vertigem de “Distorted Thoughts”, a arte do improviso ao serviço da música e dos músicos. O regresso à “normalidade” veio com “The Beauty of Simple Things” (notáveis as variações de género no seio da própria música), que “Hope”, um tema melodioso e tranquilo, reforçaria. A fechar o concerto, “Jungle Bees” foi a prova do real valor, tanto do todo quanto das partes. Uma grande noite de jazz.

terça-feira, 20 de junho de 2023

CONCERTO: Jorge Palma



CONCERTO: “Vida”
Jorge Palma (piano, guitarras acústicas, voz)
Com | Vicente Palma (piano, guitarras acústicas, voz), Gabriel Gomes (acordeão), João “Joca” Ferreira (bateria), Nuno Lucas (baixo), Francisco Palma (guitarras acústicas, voz), Pedro Vidal (guitarra elétrica, direcção musical)
Casa da Criatividade
16 Jun 2023 | sex | 21:30


Lançado há sensivelmente dois meses, “Vida”, o mais recente trabalho de estúdio de Jorge Palma, faz na estrada o seu caminho. O momento é marcante a muitos títulos, desde logo porque são doze os anos que separam “Com Todo o Respeito”, o anterior registo, deste novíssimo álbum de originais. Não espanta, pois, que os indefectíveis do cantor e compositor fizessem questão de dizer presente, esgotando por completo uma Casa da Criatividade também ela de parabéns, a festejar uma década de actividade ao serviço da cultura. Foi, pois, numa atmosfera de expectativa, de quase euforia, que os primeiros acordes se fizeram escutar e que “Vida” se materializou na voz do cantor, “causa de todas as causas / princípio de todo o princípio / final de todos os finais”. O poema flui, emotivo e livre, e com ele a certeza de que, apesar de tão grande hiato de tempo, o carácter e valores do artista, aquilo que nele existe, resiste e lhe serve de alimento, permanece inalterado. “Vida” será o primeiro diamante da noite e esses, sabemo-lo bem, são eternos.

Tema do novo disco, “Espécie de altar” foi “o senhor que se segue” no alinhamento, embalando o público numa composição harmoniosa, repleta de “coisas que em geral se dizem ao ouvido”. Com “Dormia tão sossegada” e “Jeremias, o Fora da Lei” (este último do álbum “O Lado Errado da Noite”, quase a fazer 40 anos), o público pode ensaiar a voz, dando mostras de querer se parte activa no processo. Não teríamos de esperar muito tempo para que tal acontecesse em pleno, mas antes escutou-se “Plantas na Lua”, “Estróina” e “Porque tu não estás”, três novíssimas que se impõem pela sua força e ritmo, em registos filiados na matriz musical de Jorge Palma, fortemente alicerçada no rock e nos blues. Veio então “Dá-me lume” e a temperatura subiu uns graus na sala, a prova provada que “o que conta no universo / é esse passo inseguro / e o paraíso no teu olhar”. Revivalista, “Uma Estação no inferno” vem dizer-nos que o tempo é coisa que não se pode esbanjar por não ser eterno. A fechar a primeira metade do alinhamento, “Só” faz-se encruzilhada, “junto à tempestade / onde os pés não têm chão / E as mãos perdem a razão”.

“Canção de Lisboa” impõe-se como um dos momentos mais belos do concerto, o piano e a voz de Jorge Palma na extraordinária companhia do acordeão de Gabriel Gomes. “Bairro do Amor”, tema gravado pela primeira vez em 1977 (!), é outro ponto alto, ao qual se segue aquela que é, para mim, a mais extraordinária composição de Jorge Palma, “Estrela do Mar”, as notas do piano envoltas num classicismo puro, o poema exaltante de beleza, “uma chama invisível incendiou-me o peito / qualquer coisa impossível fez-me acreditar”. Até ao final escutaríamos, do novo álbum, “Canção de Vida (para o Carlos do Carmo)”, que o fadista gravou no seu “E Ainda…”, e também “Amor Digital” e “Noites de rosas e vinho”. Pelo meio, mais quatro músicas sobejamente conhecidas – “Deixa-me rir”. “Frágil”, “Cara de Anjo Mau” e “Portugal, Portugal” – voltaram a fazer as delícias do público que não se cansou de puxar pela voz e de aplaudir. No encore, a emoção foi ao rubro quando, em palco com os filhos Vicente e Francisco, Jorge Palma ofereceu “3 Palmas na mão”. O final, apoteótico, fez-se de “Encosta-te a mim” e “A gente vai continuar”, duas pedras preciosas num reportório que é um verdadeiro tesouro. “Enquanto houver estrada para andar”…

quarta-feira, 9 de novembro de 2022

CONCERTO: Amaro Freitas



CONCERTO: Amaro Freitas
Novembro em Jazz 2022
Casa da Criatividade
04 Nov 2022 | sex | 21:30


Grande música. Grandes músicos. Um enorme concerto. Foi assim na abertura da quarta edição do Novembro em Jazz, evento da responsabilidade da autarquia de S. João da Madeira e que, ano após ano (excepção feita a 2020, ano em que o certame não se realizou devido à pandemia), chama à Casa da Criatividade grandes nomes da cena jazzística, tanto nacional como internacional. Foi o caso do pianista Amaro Freitas que, na noite da passada sexta feira, brindou o público com quase duas horas de muito e bom Jazz. Acompanhado por Hugo Medeiros, na bateria, e por Jean Elton, no contrabaixo, o músico pernambucano centrou o concerto no seu mais recente álbum, “Sankofa”, preenchendo o restante alinhamento com temas de “Rasif” e “Sangue Negro”, os seus dois trabalhos iniciais. Mediante um Jazz elegante e composições engenhosas e plenas de originalidade, Amaro Freitas levou os presentes numa viagem ao coração da sua música, na qual o nordeste brasileiro e as esplanadas de Nova Orleães, o frevo e o free jazz, Edu Lobo e Chick Corea se misturam e confundem.

O arranque foi dado por “Vila Bela”, um refúgio de dolência, harmonia e profundidade, como um cântico de pássaros de formidáveis cores ou um fio de água que, sussurrante, desliza por sobre os seixos do rio. Seguiu-se “Cazumbá”, imperioso, sôfrego, urgente, vivo, transformando a nota de intimidade inicial, o mar revolto, as asas enfim soltas. Com “Ayeye”, Amaro Freitas deu mostras de uma sofisticação e virtuosismo insuperáveis, oferecendo uma peça que nos aproxima de Bill Evans, Aziza Mustafa Zadeh ou Brad Mehldau. Na linha do tema anterior, “Baquaqua” acentuou o tom de celebração e júbilo, os terreiros em festa, corpos suados, sorrisos abertos de felicidade e partilha. “Nascimento” foi uma jóia preciosa, apaziguadora e reconfortante, enquanto “Sankofa” trouxe a cereja ao topo do bolo, inquietante no seu minimalismo fortemente estruturado, refrescante na sua essência experimentalista, improviso à flor da pele, um clamor de pureza e liberdade.

Última etapa de uma tournée pela Europa que, no espaço de trinta e cinco dias, levou o trio a palcos tão importantes como Odense, Amesterdão, Gotemburgo, Dublin, Barcelona, Manchester, Skopje, Tessalónica ou Antuérpia, o concerto da Casa da Criatividade foi único. Na memória vão ficar a forma como Amaro Freitas faz da música um veículo privilegiado de empatia, diálogo e partilha com o público, como é capaz de reduzir a parte útil do piano a meia dúzia de teclas no canto mais à direita, num dedilhar frenético que deslumbra e hipnotiza. Sobretudo, ficará na memória esse momento em que o pianista “aprisiona” cinco cordas, transformando o reduzido naipe num instrumento de percussão que faz soar a espaços, enquanto a sua música flui vibrante, de forma natural, numa combinação de sons e tons reveladora duma enorme originalidade e genialidade. Criativo, inventivo, um pouco à semelhança de Hermeto Pascoal, Amaro Freitas faz da exploração dos sons um jogo e uma brincadeira. E assim, brincando, sabe ser feliz e trazer a felicidade àqueles que o escutam.

sexta-feira, 7 de outubro de 2022

CONCERTO: António Zambujo



CONCERTO: António Zambujo
Casa da Criatividade
17 Set 2022 | sab | 21:30


“Melhor do que um Zambujo só mesmo dois.” À voz vinda do meio da assistência, respondeu António Zambujo com um discreto sorriso, mas ficou a certeza de que, bem no íntimo, deve ter sentido um enorme orgulho por ver o filho seguir-lhe as pisadas e, sem favor, ser acarinhado pelo público como Diogo Zambujo o foi. Começando pelo princípio, mal se percebeu que a programação da Casa da Criatividade iria incluir, lá para o meio de Setembro, um concerto de Zambujo, a procura por bilhetes foi tal que, em poucos dias, a sala esgotou. O cantor aceitou o desafio de fazer um segundo concerto, no mesmo local, mas desta vez à tarde. Daí que o jovem Diogo tenha sido chamado para assumir a primeira parte do concerto da noite, algo que aconteceu pela primeira vez na sua ainda breve carreira. Quando os primeiros acordes da viola se fizeram ouvir e a voz ecoou na sala, a surpresa não poderia ser maior. Rapidamente se percebeu que isto de ser “filho de peixe e saber nadar” não é letra morta, pelo menos neste caso. Mais do que servir para “aquecer os motores”, canções como “Primeiro Amor Sem Nome”, “Quem Tudo Quer Tudo Perde”, “Casa Pronta” [de Mallu Magalhães] e “Em Contramão” são a demonstração da qualidade e capacidades de Diogo Zambujo e um forte augúrio de uma carreira de enorme sucesso.

Já com o pai António em palco, Diogo Zambujo despediu-se com “Escutando o Universo”, um tema com letra e música sua e que António Zambujo incluiu no seu mais recente trabalho, “Voz e Violão”. Enormes de talento e cumplicidade, Diogo e António deixam perceber, na combinação de uma voz mais pura com outra mais trabalhada e de fôlego inesgotável, na troca de olhares ou nas “bocas” que mandam um ao outro, uma parceria que está para durar. Retira-se Diogo, permanece António e as primeiras notas não se fazem esperar. A apresentar o seu último trabalho, “Voz e Violão”, António Zambujo presta uma significativa homenagem à música popular brasileira e, em particular, a João Gilberto, uma das suas maiores influências até hoje. Daí que a primeira música tivesse sabor a canela, “chamando ao palco” Chico Buarque e a sua “Valsinha” e dando início a um verdadeiro vai e vem entre as duas margens do grande mar atlântico. Marisa Monte, Yamandú Costa e Roberta Sá, Vinicius de Moraes e Baden Powell, Ary Barroso, Chitãozinho & Xororó, Benedito Seviero e Thomaz foram presença forte num alinhamento por onde passaram, inevitavelmente, o Fado de Max e Amália Rodrigues e o Cante Alentejano.

Sim, é verdade que voltou a escutar-se o “Zorro” e a “Lambreta”, “Pica do Sete” e “Multimilionário”, “Algo Estranho Acontece” e “Catavento da Sé”. Mas é sobretudo por isto que gostamos tanto de António Zambujo, que vamos a um concerto seu para cantar com ele músicas que passam por ser sempre novas, mesmo que as tenha ido buscar aos seus álbuns mais antigos (e que, em muitos casos, viviam já antes desses, na voz de outros músicos). Em S. João da Madeira essa verdade veio, uma vez mais, ao de cima. Com ela veio, também, a enorme presença do cantor diante do público, a forma ternurenta como acolheu em palco um casal, ele com uma “queixa de dezoito anos” e um pedido: “Queres voltar a casar comigo?” Ou ainda a forma como brincou com a situação depois de ter confirmado que estava tudo bem com uma senhora que deu uma queda na sala durante “O Catavento da Sé”. Nos “discos pedidos”, já no “encore”, “Som de Cristal” foi saudado com entusiasmo e o final, em apoteose, trouxe-nos aquela que é uma das melhores interpretações de “Foi Deus”, um tema de Alberto Janes, imortalizado na voz de Amália. Um grande concerto.

sexta-feira, 13 de maio de 2022

CONCERTO: Rita Redshoes



CONCERTO: Rita Redshoes
Casa da Criatividade
06 Mai 2022 | sex | 21:30


Começámos a ouvir falar de Rita Redshoes por alturas de 2007, quando “Dream On Girl” a afirmou na colectânea “Novos Talentos – FNAC 2007”. Eleita Canção do Ano pela Rádio RADAR, ela foi uma espécie de trampolim para uma série de experiências e projectos que haveriam de resultar no ano seguinte em “Golden Era”, o seu primeiro álbum, e nos seguintes “Lights & Darks” em 2010, “Life Is a Second Of Love” (2014), “com pozinhos do Brasil e dos You Can’t Win Charlie Brown”, e ainda “Her” (2016), gravado em Berlim e produzido por Victor Van Vugt, que colaborou, entre outros, com PJ Harvey, Beth Orton, Nick Cave ou Depeche Mode. Mais recentemente, no passado mês de Novembro, publicou o seu quinto álbum de originais, “Lado Bom”, espécie de balanço entre a beleza e o medo, as alegrias e os fracassos, o amar e o ser amado. Um álbum integralmente escrito em português e que mereceu da Sociedade Portuguesa de Autores uma atenção muito especial, tendo-lhe sido outorgado o Prémio José da Ponte.

Curioso e expectante, foi assim que desemboquei na Casa da Criatividade para um concerto que trazia com ele a promessa de um “lado bom”. Os dias anteriores tinha-os passado a ouvir o disco e, naturalmente, queria mais. Queria assistir a um bom concerto, tirar o máximo partido do momento, mas sobretudo perceber aquela voz, a presença da cantora e a sua música, sentir-me tocado pela intimidade de um poema que me diz “Rosa / Um sonho tão antigo / Mas foi sempre contigo / Que o vi”. Nada disto, porém, percebi ou senti. Rita Redshoes foi incapaz de se aproximar do público, de gerar com ele a necessária empatia, cantando sem garra e refugiando-se no calor sentido na sala e no recente aniversário do teclista João Gomes para preencher os intervalos entre as músicas com um punhado de banalidades. As coisas na plateia equivaleram-se, o público mostrou-se pouco mais que apático e foi com alívio que se chegou ao final do concerto.

Uma semana passou e eu continuo a escutar o disco e a descobrir-lhe novos e preciosos pedacinhos. “Quem é que não se lançou / Sem medir uma queda? / Quem é que nunca falhou? / Que atire uma pedra”. Pensamentos como este que atravessa o tema “O Amor Não É Razão”, encontramos em “Sono”, “Rosa Flor” ou nesse lindíssimo “Contigo É Pra Perder”, originalmente cantada em dueto com Camané. E volto ao concerto, às belíssimas ilustrações que foram desfilando na tela, a temas como Choose Love”, “Hey Tom”, “The Beginning Song” ou “Captain of My Soul” que remetem para álbuns anteriores que conhecemos tão bem, aos músicos que tão bem cumpriram o seu papel, com destaque para a harpista Salomé Pais Matos, e pergunto-me porque é que não gostei do concerto. Será Rita Redshoes uma “cantora de estúdio” apenas? Estaria numa noite menos inspirada? Ou o problema estará em mim, deixando-me contaminar por um ambiente menos propício à fruição e à festa? Terei de dar o benefício da dúvida a Rita Redshoes e tirar as questões a limpo num próximo concerto. De uma coisa tenho a certeza: a sua música e os seus poemas tocam-me.

quarta-feira, 27 de abril de 2022

CONCERTO: Marta Pereira da Costa



CONCERTO: Marta Pereira da Costa
Casa da Criatividade
25 Abr 2022 | seg | 17:00


Muitas foram as portas que Abril abriu. Dizemos isto com emoção, olhando à nossa volta e vendo as mais belas provas daquilo que a liberdade nos trouxe. A igualdade de género, com todas as beliscadelas que continuamente sofre, é disso um bom exemplo. Nas profissões mais relevantes, como na política ou na cultura, as mulheres têm sabido conquistar o seu lugar, abrindo novos e mais largos e airosos caminhos. Casos há, porém, em que a exclusividade masculina se continua a fazer sentir como é o caso dos profissionais de Guitarra Portuguesa. É do conhecimento geral que, historicamente, este instrumento sempre esteve associado ao homem como músico, e cingido maioritariamente ao Fado como linguagem. Rompendo com a tradição, Marta Pereira da Costa vem afirmar-se como a primeira e única mulher, a nível mundial, a tocar profissionalmente Guitarra Portuguesa no Fado, apresentando uma nova Guitarra Portuguesa como “voz” do seu projeto.

No palco da Casa da Criatividade, a celebrar 48 anos de liberdade e democracia, Marta Pereira da Costa apresentou-se ao lado do pianista Alexandre Diniz para pouco mais de uma hora de grande música. As clareiras na plateia vieram comprovar, se tal fosse necessário, que a oferta de um concerto à cidade pode ter tanto de generoso e bom, como de pernicioso e malsão, mas quem se afirmou presente teve o gosto de ser brindado com doze temas criteriosamente escolhidos e superiormente interpretados, aos quais se deve acrescentar a incontornável “Grândola, Vila Morena”, já no encore, num arranjo de enorme beleza e emoção. Muito apropriadamente, “Terra” foi o tema escolhido para abrir o concerto, remetendo para uma composição original que Marta Pereira da Costa considera ser “uma homenagem à nossa terra, numa viagem de Norte a Sul” e que, ao mesmo tempo, é o tema de abertura do seu primeiro trabalho discográfico. Seguiu-se outro tema seu, “Movimento”, e “Encontro”, uma música de Rogério Charraz, inspirada e plena de sedução.

Ainda “a procissão vai no adro” e já a artista nos dá a escutar a melodia dos “Verdes Anos”, de Carlos Paredes, fundindo-a com “Summertime”, de Gershwin. Em acordes de uma textura límpida, o Fado e o Jazz deram-se as mãos com uma força inusitada, arrancando ao público uma sentida ovação. De José Lopes escutou-se o dolente “Fado Lopes” para, de seguida, mergulharmos em “Minha Alma”, aquela que foi a primeira música composta por Marta Pereira da Costa. Intimista por excelência, o concerto teve no tema “Memórias” um dos seus pontos mais altos, de tal forma a composição prima pela beleza e pelo sentimento que dela se derrama. “Dia de Feira” precedeu “E Depois do Adeus”, a senha do 25 de Abril como nunca a ouvíramos antes, inteira e limpa. “O Zeca” e “Rapsódia” trouxeram-nos as toadas imortais do Fado de Coimbra, a saudade de José Fontes Rocha, o eterno Luiz Goes e a inefável “Cantiga Para Quem Sonha”. O alinhamento deixou para o final “Além-Terra”, composta por Mário Pacheco, em mais um momento inesquecível. Depois foi a “Grândola” e o deixar a Casa da Criatividade, cravo rubro na mão, a vontade de cantar bem alto: “O povo é quem mais ordena / dentro de ti, ó cidade”.

domingo, 7 de novembro de 2021

CONCERTO: Maria Mendes



CONCERTO: Maria Mendes
Novembro em Jazz 2021
Casa da Criatividade
05 Nov 2021 | sex | 21:30


Não sabendo muito bem por onde começar, começarei pelo fim. Rejubilem os poucos que, na noite da passada sexta-feira, fizeram questão de dirigir os seus passos para a Casa da Criatividade, ao encontro de Maria Mendes e de um jazz diferente, distinto. É que este foi um concerto absolutamente fabuloso. Dos meus alguns anos nestas andanças do jazz e afins, guardo momentos marcantes e nomes sonantes, o virtuosismo, o improviso e a reinvenção aflorando como pilares básicos do meu gosto por um género musical nem sempre bem compreendido e aceite. Mas contam-se pelos dedos os concertos onde essa alegria e entusiasmo pela novidade se manifestassem de forma tão viva e estimulante como este que abriu a presente edição do Novembro em Jazz. O segredo tem quatro letrinhas apenas e dá pelo nome de “fado”. Esse mesmo, o que é nosso e é do mundo, aqui explorado com saber, elegância, ritmo e um enorme bom gosto.

Apropriar-se do fado sem esquecer nunca a matriz jazzística que conforma toda a sua carreira artística, tal é o mérito de Maria Mendes. Um mérito que deve ser repartido com John Beasley, responsável pelos arranjos, e com os músicos que pisaram com a cantora o palco da Casa da Criatividade, o pianista Carlos Azevedo, o contrabaixista Jasper Somsen e o baterista Mário Costa. O resultado excede, a todos os níveis, as melhores expectativas, sobretudo porque este é um “casamento” ao qual muito poucos vaticinariam sucesso. Não é de ânimo leve que abandonamos traços rijamente inculcados na nossa identidade cultural, que deitamos para trás das costas o preconceito e nos dispomos a aceitar a mudança, com tudo o que de bom e de mau ela pode arrastar. Estou certo, porém, que Maria Mendes não se pôs tanto “a jeito” como pode parecer. Ela sabia que havia ali um caminho a explorar e fê-lo com tacto e, sobretudo, muita paixão. Terá gostado do que encontrou. Sabia que o público iria gostar também.

A história do concerto conta-se “em duas penadas”. Entre o estranhar e o entranhar foi tempo de um tema só, esse inicial “Dança do Amor”, que a todos prendeu a respiração e pôs milhões de borboletas a revoltear nas barrigas. A partir daqui, o fado e o jazz fundiram-se para tomar conta dos sentidos, o “Barco Negro” vivido com emoção, aqueles gritos às velhas da praia - “são loucas, são loucas” -, ainda a ecoar na minha cabeça. “Há Uma Música do Povo”, “Tudo Isto é Fado”, “Foi Deus” ou “Asas Fechadas”, para citar apenas os mais conhecidos, foram a prova da versatilidade do género, para tanto haja arte e engenho. E voz, devo acrescentar, também aí Maria Mendes a revelar-se uma intérprete notável, escalando os agudos com a solidez e a doçura próprias dos predestinados. A crítica não ficaria completa se não partilhasse este segredo: Quando vi o nome de Maria Mendes na programação do Novembro em Jazz pensei que fosse uma cantora brasileira. Nunca ouvira o seu nome a propósito do que quer que seja. O meu desconcerto prende-se com o facto de não me considerar um sujeito desatento ou pouco informado. Sem me deter nas causas do desconhecimento direi apenas que este concerto marca o ano de 2021 e que Maria Mendes é um nome que deve merecer mais atenção.

terça-feira, 31 de agosto de 2021

CONCERTO: Jéssica Pina



CONCERTO: Jéssica Pina
A Casa no Parque
Parque do Rio Ul, S. João da Madeira
28 Ago 2021 | sab | 18:00


Com o sol a fazer caretas e a brisa de final de tarde a pedir algo mais do que uma simples t-shirt sobre os ombros, o Parque do Rio Ul foi local de romaria para todos os interessados em desfrutar de um concerto ao ar livre, em segurança e de entrada gratuita. Estávamos no arranque da segunda temporada 2021 da programação da Casa da Criatividade, em S. João da Madeira, e a escolha para assinalar o momento recaía sobre Jéssica Pina, jovem trompetista nascida em Alcácer do Sal. À semelhança de Tainá ou Amaura, as protagonistas de concertos a que tinha assistido recentemente, também Jéssica Pina era para mim uma ilustre desconhecida. Tinha passado “de raspão” pela sua página no Youtube e o que ouvira agradara-me, mas estava longe de imaginar o que ela e a sua música tinham para oferecer. Daí que a surpresa não pudesse ter sido maior. Pela positiva.

Acompanhada por Eron Gabriel na bateria e Anderson Ivo nos teclados, ambos trajados a rigor com dois magníficos chapéus pretos – ou não fosse S. João da Madeira um ícone da chapelaria em Portugal e no Mundo -, Jéssica Pina fez questão de mostrar a excelência das suas interpretações, tanto na voz como na parte instrumental onde provou ser uma trompetista virtuosa e competente. Com um sorriso franco no rosto e um magnífico penteado afro a fazer jus às suas raízes angolanas e cabo-verdianas, a artista soube agarrar o público desde os primeiros instantes, propondo um alinhamento cujos temas primaram pela harmonia e pelo bom gosto. Djavan, Jorja Smith, Erykah Badu, Roy Hargrove ou Summer Walker foram alguns dos nomes que se mostraram em força e beleza na excelente tarde do Parque do Rio Ul, ao lado de composições de enorme qualidade da autoria da própria Jéssica Pina.

Leio que “Jéssica Pina explora o trompete como parte integrante da sua musicalidade” e que, desde muito nova, “aperfeiçoa a sua performance através do estudo da música jazz e de world music”. Ao escutá-la, torna-se evidente que o jazz lhe circula nas veias, apesar de alguma contenção na entrega das linhas melódicas à improvisação. Por outro lado, percebo também que a aposta na afirmação da sua música e do seu estilo reside no “aliar o trompete ao canto”. É esse o grande desafio. Por aquilo que mostrou em S. João da Madeira, estou certo de que está no bom caminho. Segura nos graves, o seu domínio dos agudos é quase perfeito, revelando já uma enorme maturidade vocal que faz com que a escutemos com redobrado prazer. A “soul” que se derrama da sua voz é uma via verde para os sentidos do público, transformando o concerto num acto de intimidade e cumplicidade. Em suma, foi um privilégio poder desfrutar de uma hora de música envolvente e intensa, oferecida por uma jovem artista cujo nome é imperioso reter.

domingo, 1 de dezembro de 2019

CONCERTO: Jacinta



CONCERTO: “Jacinta”
Novembro em Jazz 2019
Casa da Criatividade
29 Nov 2019 | sex | 22:00


Coube a Jacinta encerrar a segunda edição do Novembro em Jazz, trazendo consigo um generoso punhado de temas que fizeram as delícias de um público que quase voltou a encher a Casa da Criatividade. Acompanhada ao piano por Pedro Costa e com Paulo Dantas no baixo de seis cordas, a cantora teve uma actuação de enorme nível, explorando todas as capacidades da sua voz única, feita de “veludo e seda, yin e yang, mel e sal”, como notou Thomas Staiber. “Nascente” foi o tema escolhido para marcar o arranque do concerto. E que arranque. Na sua extraordinária voz, a composição de Murilo Fernandes e Flávio Venturini derramou-se como uma carícia, abrindo as portas a uma grande noite de Jazz. Continuando a cantar em português do Brasil, onde reside há cinco anos, Jacinta carregou no tom da Bossa Nova, oferecendo-nos esse colossal “Sinhá”, um dos mais belos temas de Chico Buarque, quiçá mais belo ainda na voz da cantora.

O momento seguinte levou o público ao encontro de Thelonius Monk, com “I Mean You”, o virtuosismo de Pedro Costa e Paulo Dantas a vir ao de cima em aponstamentos com tanto de clássico como de inovador. Monk viria a ser, aliás, o músico mais presente neste inesquecível serão, replicado no dolente “Ask Me Now” ou no sofisticado “Think of One”, em arranjos de enorme talento e bom gosto. Regressando ao alinhamento do concerto – exemplarmente construído, a realçar a plasticidade da voz da cantora -, Jacinta foi Joni Mitchell nesse tema belo e amargo que é “Goodbye Pork Pie Hat”, homenagem ao saxofonista Lester Young, à boleia da música de Charles Mingus – “When Lester took him a wife / Arm and arm went black and white / And some saw red / And drove them from their hotel bed / Love is never easy.”

Antes ainda do “regresso ao Brasil”, desta vez com “Aquele Um”, de Djavan e “Aquele Abraço”, de Gilberto Gil, Jacinta interpretou “I've Got The World on a String”, um tema de 1932 e que nomes como Bing Crosby ou Frank Sinatra ajudaram a popularizar. Com o concerto a chegar ao fim, a cantora ofereceu um enorme momento musical, ao vestir a “Dança dos Mancos” – um tema popular da região de Aveiro que celebra S. Gonçalo – com as roupagens do Jazz. O mesmo viria a suceder já no “encore” com Zeca Afonso e “Saudades de Coimbra”, num arranjo absolutamente incrível e que marcou o concerto, não sem antes ter revisitado a música de Tom Jobim e a voz de Elis Regina com o inefável “Retrato em Branco e Preto”. Conhecedor e atento, o público soube pontuar cada momento com o seu reconhecido aplauso. Um aplauso que deve estender-se à programação de um Festival que, apesar da sua juventude, é já um “caso sério” no panorama dos festivais do género em Portugal. Pois que venha a terceira edição em 2020, melhor e mais rica ainda, e que traga muitas Jacintas!

[Foto: Casa da Criatividade | facebook.com/casadacriatividade/]

terça-feira, 5 de novembro de 2019

CONCERTO: Sérgio Godinho



CONCERTO: Sérgio Godinho
Casa da Criatividade
12 Out 2019 | sab | 22:00


“Eu não sei nem de escuros nem de auroras”. Foi com estas palavras que Sérgio Godinho abriu as hostilidades no regresso a uma casa que conhece bem e que se encheu de um público entusiástico para o receber, aplaudir e com ele celebrar a música e a palavra. Com quase cinquenta anos de carreira, o cantautor trouxe a S. João da Madeira “Nação Valente”, o seu 18º álbum de originais, ao qual fez questão de juntar uma ampla “Liberdade”, conjunto de canções, umas mais antigas que outras – “a ordem não sendo importante”, disse –, todas elas icónicas, como icónica é a sua obra. Esta mescla entre o novo e o “menos novo” é, aliás, um dos aspectos mais marcantes dos seus concertos, já que evidencia a enorme coerência, homogeneidade e qualidade de todo um trabalho ao serviço da música e da poesia.

Em “Noite e Dia”, de onde extraí o verso com que se inicia este texto, é impossível não sentir a mesma força de “Que Força é Essa?”, tal como é impossível não perceber em “Grão da Mesma Mó” a mesma intensidade de “Maré Alta” ou em “Mariana Pais, 21 Anos” a mesma doçura de “Paula”, todas estas canções separadas entre si por... 48 anos. E foi nesta toada, entre a esperança e as certezas, que o concerto decorreu, a sala mais sossegada em temas como “Artesanato” ou “Tipo Contrafacção”, em modo extático perante uma “Etelvina” ou “Balada da Rita”, frenética no ritmado “Coro das Velhas” ou no renovado “Espectáculo” ou completamente rendida, já no “encore”, cantando em coro “Com Um Brilhozinho Nos Olhos”, “O Primeiro Dia” ou esse imortal “Liberdade” - “a paz, o pão, habitação, saúde, educação” gritados, em “estado de emergência”.

Num concerto sempre vibrante, feito de detalhes de vida a ligar passado e presente, entre “rapazes de camisola verde”, a “jogar ao boxe” ou a “tocar bateria”, Sérgio Godinho não esqueceu o drama dos refugiados em “Dancemos no Mundo”, tal como não deixou de ironizar com a alta política em “Benvindo Sr. Presidente”. E porque “o Zeca não poderia faltar nesta noite”, do enorme Zeca Afonso escutámos “Os Vampiros”. Restará dizer que acompanharam o cantor em palco os “eternos”, extraordinários, João Cardoso (teclados, coros), Sérgio Nascimento (bateria), Nuno Espírito Santo (baixo, coros), Miguel Fevereiro (guitarras, percussão, coros) e Nuno “Rafa” Rafael (direcção musical, guitarras coros). “Hoje soube-me a pouco”, claro que sim. Mas é sempre um até já!

[Foto: Patrice Almeida | facebook.com/casadacriatividade/]

sábado, 12 de outubro de 2019

CONCERTO: Salvador Sobral



CONCERTO: Salvador Sobral
Casa da Criatividade
27 Set 2019 | sex | 22:00


Fez as honras à cidade que o acolheu entrando de chapéu em palco, conversou longamente com o público sem dispensar uma ou outra graçola mas, sobretudo, fez aquilo que melhor sabe e gosta de fazer, cantando um conjunto de temas inspirados e plenos de harmonia, dando provas da versatilidade da sua voz e da qualidade dos seus poemas. Aqui e além deixou-se levar pelo entusiasmo, é certo, e numa ou noutra canção entrou por caminhos que só serviram para “estragar”. Mas ele é o artista, o palco é dele e tem toda a legitimidade para dar azo ao improviso da forma que muito bem entende. Um registo mais contido seria perfeito, mas aí não estaríamos a falar de Salvador Sobral.

Acompanhado por uma naipe de instrumentistas de excelência – Júlio Resende no piano, André Rosinha no contrabaixo e Bruno Pedroso na bateria -, Salvador Sobral começou por lembrar o colectivo Buena Vista Social Club, cantando o mítico “Veinte años” - “Si las cosas que uno quiere / Se pudieran alcanzar / Tú me quisieras lo mismo / Que veinte años atrás”. Depois desta “entrada de leão”, tempo para a apresentação de “Paris, Lisboa”, um álbum lançado em finais de Março deste ano, e logo com “Presságio”, um dos temas mais belos do conjunto, sobre poema de Pessoa, e onde se condensam todos os sabores, aromas, tensões, alegrias e vidas do mais recente trabalho de Sobral. Seguiu-se “Ela Disse-me Assim”, um samba-canção composto por Lupicínio Rodrigues no distante ano de 1959 e que conta com um intróito fabuloso de Júlio Resende. Já “Benjamim” faz brilhar o contrabaixo de André Rosinha e revela-se como o tema mais jazzy de “Paris. Lisboa”.

Dizem que o amor se canta em francês e “La Souffleuse” parece confirmá-lo. Este é o tema que precede outro dos grandes momentos da noite, “Mano a Mano”, com música de Júlio Resende para um poema de Maria do Rosário Pedreira - “Só nos resta o mano a mano / Se não queremos ficar sós / Deixa lá o teu piano / Namorar a minha voz”. Vieram depois os “Cordel”, com João Pires e Edu Mundo a juntarem as suas vozes e instrumentos à voz de Salvador Sobral e a oferecerem momentos únicos de deleite em temas como “Manual da Canção” e o ternurento “Só Um Beijo”, com assinatura de Luisa Sobral.

O concerto caminha para o final e os últimos temas repassam o que resta de “Paris, Lisboa”, primeiro com “Paris, Tokyo II” - é verdade, aquele momento em que Bruno Pedroso mais e melhor deu mostras do seu inegável talento na bateria -, e ainda “Playing With the Wind”, antes de fechar com um tema intemporal, “Ay, Amor!”, do compositor cubano Ignacio Villa, que todos recordam do filme de Pedro Almodovar, “A Flor do meu Secreto”, Marisa Paredes no seu melhor. Já no “encore”, Salvador Sobral veio sozinho a palco e, ao piano, começou por cantar “Estrada Dividida”, ainda e sempre de Luísa Sobral, para de seguida oferecer o mais aguardado momento da noite, com a interpretação desse verdadeiro “hino nacional” que é “Amar Pelos Dois”. De novo com os músicos em palco, “Ready for Love Again” foi a excepção, na única abordagem que o cantor fez ao seu disco de estreia, “Excuse Me”. Mais um belo momento musical a encerrar da melhor forma uma grande noite na Casa da Criatividade.

[Foto: Júlia Oliveira / facebook.com/casadacriatividade/]

domingo, 10 de março de 2019

CONCERTO: Selma Uamusse



CONCERTO: Selma Uamusse
Casa da Criatividade
09 Mar 2019 | sab | 22:00


“Grata a Deus pelo 'Mati'. 'Mati' é uma homenagem Àquele que limpa, cura, salva. Àquele que me abençoou com vida e vida em abundância e colocou pessoas extraordinárias no meu caminho que me fizeram acreditar no quase impossível e que com os seus dons me ajudam tanto...”


O palco da Casa da Criatividade acolheu a moçambicana Selma Uamusse para a apresentação de “Mati”, o seu primeiro álbum a solo. Foi uma noite de festa para aqueles que se deixaram embalar nesta viagem a Moçambique - ao calor da sua música, à riqueza de dialectos como o chope ou o changana, à tradição de instrumentos como a mbira ou a timbila - e que acabaria por resultar numa viagem espiritual ao interior de cada um dos presentes, induzida pelo arrebatamento e pela forte pulsão magnética duma música invulgarmente exaltante e enérgica como a de Selma Uamusse.

Primeiro momento desta viagem, “Hope” serviu de introdução ao ritmo e à voz da cantora. O tema teve o condão de preparar o público para o que o esperava e precedeu o primeiro momento alto da noite, a cantora a apresentar-se - “algumas pessoas conhecem-me do rock'n'roll, por via dos Wraygunn, outras conhecem-me pelas coisas que tenho feito com o Rodrigo Leão ou por via do gospel ou da soul, outras não me conhecem de parte nenhuma e é essas que eu quero conquistar hoje” - e, logo de seguida, a convidar os presentes a desceram da plateia e a virem sentar-se no palco. Estavam criadas as condições ideais para o ambiente de intimidade, entrega e cumplicidade que viria a alastrar e a derramar-se ao longo do concerto.

Na linha do primeiro tema interpretado, “Mozambique” voltou a colocar em evidência as capacidades vocais da cantora, ao mesmo tempo chamando a atenção para a excelência dos músicos que a acompanharam em palco, Augusto Macedo nos teclados e no baixo eléctrico, Gonçalo Santuns na bateria e Nataniel Melo nas percussões, da Timbila ao Kissange, da Gongoma à Mbira. Seguiram-se momentos de enorme emoção com “Mati”, o tema que dá nome ao álbum e que significa “água” em Changana, um dos dialectos do Sul de Moçambique, que Selma Uamusse “colou” a “Malian”, um tema com uma letra poderosíssima de Maya Angelou que nos fala do carácter efémero da vida e do enorme silêncio que se instala em redor das almas que partem.

A energia subiu ao rubro com “Funkier Than A Mosquito's Tweeter”, com letra e música de Aline Bullock e que Selma Uamusse dedicou a Nina Simone, uma das suas grandes fontes de inspiração. Reforçado em número no palco, de pé e a dançar, o público foi ao mesmo tempo convidado a reflectir, a prestar atenção àquilo que lhe é dito e a “não dar por garantidos os facebooks e as televisões da vida”. A partir daqui foi só “manter esta onda de energia boa”, primeiro com o ritmo contagiante de “Ngono Utana Vuna”, de seguida com “Mónica” - “na kuxuva, na ku randza” - e finalmente com “Baila Maria”, uma letra de Selma Uamusse cantada em Changana, que juntou “duas moçambicanas em palco” e o público em redor a dançar a marrabenta.

Mas nem só de “Mati” viveu o concerto, Selma Uamusse a levantar a ponta do véu do seu próximo trabalho de originais e a presentear o público com um interventivo e irreverente “No Guns” e ainda com um imensamente harmonioso e belo “Song of Africa”, a cantora a misturar-se com o público, o som exaltante da Kulungwana a trespassar corações. Duas propostas que se retêm com entusiasmo enquanto não chega o novo disco, tal como se retêm três palavras deste concerto: “Mati”, a “água”, fonte de pureza e de vida que aqui nos foi oferecida em doses generosas; “Lirhandzo”, o “amor”, que se derramou da voz da cantora e penetrou no mais fundo de cada um dos presentes; e “Khanimambo”, o “obrigado” sincero e sentido a quem, com a sua voz e a sua presença, nos abraçou, nos contagiou, nos aproximou e nos amou. Uma e outra vez, Khanimambo!

[Foto: Vera Marmelo / v-miopia.blogspot.com]