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segunda-feira, 25 de abril de 2022

CONCERTO: Salvador Sobral



CONCERTO: Salvador Sobral
Ovar em Jazz 2022
Centro de Arte de Ovar
23 Abr 2022 | sab | 21:30


É dividido que abandono a sala. É sempre assim depois de um concerto de Salvador Sobral, à excepção de uma noite mágica no Aveirense, Sobral a cantar Brel, precioso momento poético e musical que viria a encabeçar a minha lista do melhor de 2020. Naquela que foi a penúltima noite do Ovar em Jazz 2022, voltei a ficar “como o tolo no meio da ponte”, com coisas que gostei muito e outras que nem por isso. Embora alguma crítica se refira a “bpm”, o mais recente trabalho discográfico de Sobral e espinha dorsal do concerto, como “perfeito para amantes de jazz”, só a espaços se escutou jazz. Isso mesmo admitiu o artista, sozinho em frente ao piano, já no “encore”, antes de interpretar “Tristeza dos Dois”, um tema de Bernardo Sasseti com letra de Luísa Sobral. Por outro lado, continuamos a ser confrontados com a “imagem de marca” de Sobral, os seus interlúdios humorísticos algo descontrolados. Mas depois há a voz, a energia, a alegria, e há também esse hino que é “Amar pelos Dois”. Sinto-me dividido - lá está! - e acabo por quebrar, por reconhecer que o balanço é positivo.

Se “bpm” parece remeter para o bater de corações e para o milagre da vida, deixando adivinhar uma viagem ao interior de Salvador Sobral, “Mar de Memórias”, o tema que abriu o concerto, dissipou todas as dúvidas. Escutamos as palavras - “guardo cá dentro / um mar de memórias / histórias esquecidas / glórias perdidas / vidas cruzadas / com mortes fingidas / lágrimas secas / que brotam as minhas” - e temos a certeza de estarmos perante algo que vai muito além da própria música. Mas é pela música que estamos ali e o piano de Abe Rábade vem lembrar-nos que, em palco, não há só Salvador Sobral e a sua voz. O prelúdio a “Fui Ver Meu Amor” é um daqueles preciosos pedacinhos intimistas, carregados de beleza, que nos fazem sonhar. Seguem-se as palavras, igualmente intensas e emotivas: “Ai o meu amor / já viu a dor de perto / sente sem pensar / e ama com tudo / o que tem para amar”. Novo prelúdio, desta vez na guitarra de André Santos, e logo de seguida o ritmo e os blues a marcarem presença em “Se de Mim Precisarem”.

Primeiro grande momento da noite, “Ay, amor” trouxe-nos esse magnífico bolero composto pelo cubano Ignacio Jacinto Villa Fernández, mais conhecido por Bola de Neve, com o artista a deixar o palco e a vir cantar para junto do público. Saltitando entre os trabalhos mais antigos e este seu novo disco, o cantor foi-nos oferecendo alguns outros momentos verdadeiramente intensos, sobretudo “Sonhos”, o grande êxito do musico paulista Peninha, que Sobral cantou acompanhado apenas pela guitarra de André Santos. De resto, importa salientar a qualidade dos músicos que acompanharam Sobral, dos já referidos Rábade e André Santos, ao contrabaixista André Rosinha e ao baterista Bruno Pedroso. “Medo de Estimação” - mais um pedacinho precioso da vida de Sobral e da sua inspiração compositiva - fechou o alinhamento e, depois de três peças a solo, já no encore, o concerto viria a terminar com “Bom Vento”, a faixa que encerra “bpm” e que pôs toda a gente a cantar na plateia. Goste-se ou não da música de Salvador Sobral, não creio que alguém tivesse dado o tempo por mal empregue.

[Foto: Ovar / Cultura | facebook.com/ovarcultura/]

domingo, 15 de março de 2020

CONCERTO: Salvador Sobral e André Santos | "Quinta das Canções"



CONCERTO: Salvador Sobral e André Santos | “Quinta das Canções” 
Página do Facebook de Salvador Sobral 
14 Mar 2020 | sab | 21:30


Foi no início de Julho de 2019 que André Santos e Salvador Sobral começaram a dar forma ao projecto “Quinta das Canções”, partilhando o primeiro trabalho na página de Salvador Sobral no Youtube. Todas as quintas feiras, os dois músicos e amigos propuseram-se a interpretar um tema da sua preferência, destacando canções que os inspiram, ao mesmo tempo homenageando os seus afectos, admirações e influências musicais. De espírito livre e sem regras, o projecto foi avançando e conta, até ao momento, com vinte e dois “episódios”, todos eles sobre temas de cantores e compositores portugueses. 

Agora, em tempo de medidas excepcionais determinadas pela pandemia do novo coronavírus, a dupla fez questão de levar mais longe e sua criatividade e, sobretudo, a sua generosidade, oferecendo a todos aqueles que, voluntária ou involuntariamente, se encontram confinados às suas casas, um concerto online onde recuperaram a quase totalidade das músicas que compõem o projecto. Com transmissão em directo a partir da página do Facebook de Salvador Sobral – em https://www.facebook.com/salvadorsobralmusic/ -, a iniciativa colheu do público uma forte adesão e, de Edimburgo às Caldas da Rainha, de Creta à Ilha da Graciosa, de Berlim, Roma ou Madrid ao Marco de Canaveses ou a Ovar, as mensagens de gratidão e carinho foram-se sucedendo ao longo de todo o concerto. 

“O Primeiro Gomo da Tangerina” marcou o arranque do concerto, fazendo-nos recuar mais de 25 anos ao encontro das palavras e da música de Sérgio Godinho. Seguiu-se “Só”, de Jorge Palma, “O Navio Dela”, de Manel Cruz e o genial “Senta-te Aí”, dos Rio Grande, com a música de João Gil e as palavras de João Monge a falarem-nos de “ter uma luta que é só tua”. “No Fundo dos Teus Olhos de Água”, de Lena d’Água e “Tu e Eu”, a versão do Conjunto Académico João Paulo sobre um original dos The Turtles, “Happy Together”, precederam um curto intervalo determinado pelo apelo a uma “corrente de esperança e energia dedicada a todos os profissionais de saúde que trabalham em todo o país” e que levou muitos portugueses a baterem palmas às varandas e janelas de suas casas, em jeito de agradecimento a quem, na primeira linha, lida diariamente com tão delicada situação. 

A segunda parte do concerto começou com Salvador Sobral ao piano, a falar do adiamento da sua tournée europeia e a “furar” o alinhamento da “Quinta das Canções”, dedicando aos seus fãs polacos, mas também belgas, holandeses, alemães e luxemburgueses, o lindíssimo tema “Dwa Serduszka”. De novo na companhia de André Santos, tempo para escutar José Mário Branco e o muito adequado “Travessia do Deserto”, bem como “Sem Emenda”, de Joana Espadinha, “Lado Esquerdo”, dos Clã, “O Verdadeiro Amor”, de Luísa Sobral, “Todos os Homens São Maricas Quando Estão com Gripe”, de Vitorino e, do próprio Salvador Sobral, “Anda Estragar-me os Planos”. Ainda que sem palmas, todos sabemos o quanto se esperava o “encore” e a dupla não se fez rogada. “Casei com uma Velha”, do enorme Max, “Isso e Aquilo”, de Nana Caymmi, o incontornável “Amar Pelos Dois” – no caso concreto um “amar por TODOS” – e “Verdes São os Campos”, de Zeca Afonso, colocaram um ponto final num momento que nos deixa sem palavras. Pela arte, pela solidariedade, pelo exemplo, obrigado!

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

CONCERTO: Salvador Sobral canta Brel



CONCERTO: “Salvador Sobral canta Brel”
Teatro Aveirense
10 Fev 2020 | seg | 21:30


Coimbra, 9 de Outubro de 1978 – Morreu Jacques Brel. E estão de luto todos aqueles que sabiam que ele dizia mais aos homens com os seus versos truculentos e as suas canções dilaceradas do que muitos poetas laureados com os seus poemas herméticos. Trovador dos nossos dias, a ganir por não ser amado à altura a que pôs o amor, e a amar Deus na pele do Diabo, foi uma das raras encarnações raivosas do artista empenhado em reflectir o mundo inteiro no espelho da sua própria aflição. E conseguiu-o. Não é apenas um tal, de fisionomia tal e vida tal, que ouvimos quando canta. É uma alma penada em carne viva a penar por todos nós.
Miguel Torga, in “Diário XIII”

Quebrando ligeiramente o protocolo, despacho já a questão da apresentação do excepcional naipe de músicos que acompanharam Salvador Sobral nesta série de três concertos que teve início na passada sexta-feira no CCB, em Lisboa, prosseguiu no dia seguinte no Porto, na Casa da Música, e veio a terminar na noite de ontem, num Teatro Aveirense tornado mais acolhedor porque completamente lotado. Samuel Lercher (piano e moog), Nelson Cascais (contrabaixo e baixo eléctrico), Joel Silva (bateria), André Santos (guitarra e cordofones madeirenses), Inês Vaz (acordeão), Diogo Duque (trompete, fliscorne e flauta transversal) e Ana Cláudia Serrão (violoncelo) foram o suporte perfeito para a voz de um Salvador Sobral cada vez mais inteiro em palco, mais contido e mais profundo. Mais artista. Essa foi uma das marcas distintivas do concerto no Aveirense, num tributo sincero e sentido ao músico belga, sem qualquer propósito de querer imitar ou plagiar, antes de partilhar com o público a descoberta da beleza da música e dos poemas de Jacques Brel.

“J'arrive j'arrive / Mais qu'est-ce que j'aurais bien aimé / Encore une fois remplir d'étoiles / Un corps qui tremble et tomber mort / Brulê d'amour le cœur en cendres”. “J'arrive” foi a primeira das músicas escutadas e, com ela, percebeu-se logo que a noite seria sempre curta, porque demasiado bela. “De crisântemos em crisântemos”, Sobral acenou-nos pela primeira vez com palavras carregadas de amor e que viriam a repetir-se e repetir-se até o coração não poder mais. Na amargura de “Quand On A Que L'amour” ou na boémia de “Les Paumés Du Petit Matin”, na contemplação de “Isabelle” ou na nostalgia de “Le Moribond”, é no amor vivido que a música adquire força e ganha sentido, Sobral a mostrar-se à altura das exigências e a superar-se depois em “Les Bonbons”, emprestando o gesto à voz e oferecendo-nos um hino terno e triste que nos devolve o sonho e as ilusões de um primeiro amor.

“Les bourgeois c'est comme les cochons / Plus ça devient vieux plus ça devient bête / Les bourgeois c'est comme les cochons /Plus ça devient vieux plus ça devient...”. Antes de uma pausa para mudança de cenário, ainda houve tempo de escutar essa feroz crítica social que “Les Bourgeois” encerra, assim como a exaltação do amor de “Mathilde”. Já só com Salvador Sobral e a acordeonista Inês Vaz em palco, veio o incontornável “Amsterdam”, verdadeiro ícone da chanson française, um poema que devia ser obrigatório saber de cor. Seguiu-se “Vesoul” - com dedicatória “às mulheres que mandam sempre e elas é que sabem e aos maridos que pensam que têm uma opinião mas acabam sempre por fazer o que as mulheres querem” - e outra crítica social amarga com “Ces Gens-Là”. A banda volta a reunir-se, os músicos ocupam de novo os seus lugares e chega (credo, que palavra tão feia) “Bruxelles”, logo seguida do delicado e imensamente belo “La Chanson Des Vieux Amants”, Brel a escutar-se em fundo - “La fidelité de certains hommes vis à vis d'autres hommes, ça, ça m'émeut aux larmes. Ça m'émeut aux larmes! J'trouve ça beau, j'trouve ça noble, j'trouve ça três supérieur à tous les autres sentiments.” -, o mais longo aplauso a coroar a mais bela passagem da noite.

O concerto caminha para o final e, antes ainda de Salvador Sobral “acusar o toque” e revelar a sua tristeza pelo fechar de mais um curto mas intenso ciclo, o público pode escutar “Jef”, a prova de uma bela amizade quando o amor acaba e o coração se desfaz em grossas lágrimas, e “La Chanson de Jacky”, alegre e libertária. O “encore”, intenso e generoso, trouxe o poema e os acordes mais esperados da noite: “Ne Me Quitte Pas” foi dor e emoção, despojamento e silêncio, sentimento e exaltação, Sobral a mostrar-se mais verdadeiro que nunca e, humilde e frágil, a suplantar muitas das versões deste hino conhecidas, de Nina Simone a Maria Gadú, de Celine Dion ao nosso Carlos do Carmo. “Au Suivant” espalhou pela sala uma ambiência de bistrôt, salutarmente impúdica, tudo acabando da melhor forma com “Madeleine”, o cantor a invadir a plateia, megafone na mão, palmas a compasso, a palavra viva a ecoar na sala: “Elle est tellement jolie / Elle est tellement tout ça / Elle est toute ma vie / Madeleine que j'attends”. É de coração cheio que se sai de um concerto assim. A palavra, a voz, o momento, são de festa e de júbilo. Jacques Brel vive!

[Foto: Júlia Oliveira | glam-magazine.pt]

sábado, 12 de outubro de 2019

CONCERTO: Salvador Sobral



CONCERTO: Salvador Sobral
Casa da Criatividade
27 Set 2019 | sex | 22:00


Fez as honras à cidade que o acolheu entrando de chapéu em palco, conversou longamente com o público sem dispensar uma ou outra graçola mas, sobretudo, fez aquilo que melhor sabe e gosta de fazer, cantando um conjunto de temas inspirados e plenos de harmonia, dando provas da versatilidade da sua voz e da qualidade dos seus poemas. Aqui e além deixou-se levar pelo entusiasmo, é certo, e numa ou noutra canção entrou por caminhos que só serviram para “estragar”. Mas ele é o artista, o palco é dele e tem toda a legitimidade para dar azo ao improviso da forma que muito bem entende. Um registo mais contido seria perfeito, mas aí não estaríamos a falar de Salvador Sobral.

Acompanhado por uma naipe de instrumentistas de excelência – Júlio Resende no piano, André Rosinha no contrabaixo e Bruno Pedroso na bateria -, Salvador Sobral começou por lembrar o colectivo Buena Vista Social Club, cantando o mítico “Veinte años” - “Si las cosas que uno quiere / Se pudieran alcanzar / Tú me quisieras lo mismo / Que veinte años atrás”. Depois desta “entrada de leão”, tempo para a apresentação de “Paris, Lisboa”, um álbum lançado em finais de Março deste ano, e logo com “Presságio”, um dos temas mais belos do conjunto, sobre poema de Pessoa, e onde se condensam todos os sabores, aromas, tensões, alegrias e vidas do mais recente trabalho de Sobral. Seguiu-se “Ela Disse-me Assim”, um samba-canção composto por Lupicínio Rodrigues no distante ano de 1959 e que conta com um intróito fabuloso de Júlio Resende. Já “Benjamim” faz brilhar o contrabaixo de André Rosinha e revela-se como o tema mais jazzy de “Paris. Lisboa”.

Dizem que o amor se canta em francês e “La Souffleuse” parece confirmá-lo. Este é o tema que precede outro dos grandes momentos da noite, “Mano a Mano”, com música de Júlio Resende para um poema de Maria do Rosário Pedreira - “Só nos resta o mano a mano / Se não queremos ficar sós / Deixa lá o teu piano / Namorar a minha voz”. Vieram depois os “Cordel”, com João Pires e Edu Mundo a juntarem as suas vozes e instrumentos à voz de Salvador Sobral e a oferecerem momentos únicos de deleite em temas como “Manual da Canção” e o ternurento “Só Um Beijo”, com assinatura de Luisa Sobral.

O concerto caminha para o final e os últimos temas repassam o que resta de “Paris, Lisboa”, primeiro com “Paris, Tokyo II” - é verdade, aquele momento em que Bruno Pedroso mais e melhor deu mostras do seu inegável talento na bateria -, e ainda “Playing With the Wind”, antes de fechar com um tema intemporal, “Ay, Amor!”, do compositor cubano Ignacio Villa, que todos recordam do filme de Pedro Almodovar, “A Flor do meu Secreto”, Marisa Paredes no seu melhor. Já no “encore”, Salvador Sobral veio sozinho a palco e, ao piano, começou por cantar “Estrada Dividida”, ainda e sempre de Luísa Sobral, para de seguida oferecer o mais aguardado momento da noite, com a interpretação desse verdadeiro “hino nacional” que é “Amar Pelos Dois”. De novo com os músicos em palco, “Ready for Love Again” foi a excepção, na única abordagem que o cantor fez ao seu disco de estreia, “Excuse Me”. Mais um belo momento musical a encerrar da melhor forma uma grande noite na Casa da Criatividade.

[Foto: Júlia Oliveira / facebook.com/casadacriatividade/]