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domingo, 26 de outubro de 2025

CONCERTO: João Barradas Trio



CONCERTO: João Barradas Trio
Com | João Barradas (acordeão), André Rosinha (contrabaixo) e Bruno Pedroso (bateria)
FIMUV - Festival Internacional de Música de Paços de Brandão
Auditório da Biblioteca Municipal de Santa Maria da Feira
24 Out 2025 | sex | 21:30


Embora o acordeão seja raramente associado ao jazz tradicional, são relativamente poucos os músicos que souberam explorar-lhe o potencial expressivo e rítmico, transformando-o em instrumento de primeiro plano de forma inovadora. Entre os nomes mais emblemáticos destacam-se Richard Galliano, francês que reinventou o “musette” ao fundi-lo com o jazz moderno, criando uma linguagem de improvisação que combina lirismo melódico e sofisticação harmónica; Art Van Damme, pioneiro norte-americano que, desde os anos 40, demonstrou a capacidade do acordeão para dialogar com guitarras e contrabaixos num swing fluido; Toots Thielemans, que antes de se consagrar na harmónica explorou também o acordeão com sensibilidade jazzística; e Vincent Peirani, representante contemporâneo de uma geração que desafia fronteiras estilísticas, cruzando jazz, música de câmara e influências mediterrânicas. A eles junta-se, em lugar de destaque, João Barradas, reconhecido como um dos mais destacados acordeonistas europeus da actualidade, um músico capaz de se mover com fluidez entre a música clássica e a improvisação, e de mostrar, como poucos, a dimensão poética do acordeão e a sua capacidade de expandir o léxico do jazz.

Na recta final do FIMUV - Festival Internacional de Música de Paços de Brandão, este ano a despedir-se do público na que foi a sua 48.ª edição, João Barradas subiu ao palco do (pouco preenchido) Auditório da Biblioteca Municipal de Santa Maria da Feira para um grande momento de jazz. Na companhia do contrabaixista André Rosinha e do baterista Bruno Pedroso, o músico fez incidir o alinhamento do concerto no álbum “Aperture”, projecto discográfico editado em Junho deste ano e que resultou de uma residência artística na Casa da Música, no Porto, durante a temporada passada. Baseando a linguagem composicional nas ideias de espaço, liberdade e arquitectura, Barradas pôs em palco toda a sua qualidade e virtuosismo, dando a perceber, nas suas mais variadas dimensões, a versatilidade tímbrica de um instrumento capaz de combinar a função harmónica de um piano, a expressividade de um saxofone e a mobilidade melódica de uma guitarra. Para o público tornou-se fascinante ver como Barradas controla o fole, como preenche o fraseado graças às mais variadas nuances dinâmicas e respiratórias, como acrescenta a sua própria voz com a ajuda do vocoder e como se mostra capaz de oferecer um conjunto tão hegemónico de composições, ao mesmo tempo densas e leves, comprometidas e livres.

“Airam” abriu o concerto em alta, com as notas sincopadas do contrabaixo e as batidas rítmicas da bateria a oferecerem ao acordeão espaço para brilhar. Em ambiente de enorme intimidade, João Barradas ancorou nas amplas possibilidades de contraponto e de texturas do instrumento uma música desenhada a régua e esquadro, mas paradoxalmente maleável, desenvolvida numa base de inteligência e sofisticação, capaz de arrastar o público numa onda de sedução e fascínio. “Escher’s Song” reforçou a vertente cerebral da música de Barradas - enorme a prestação de Rosinha no contrabaixo -, que “Escada”, “Glass” ou “Cube” ajudaram a consolidar. Num alinhamento quase integralmente dominado, como referi, pelo trabalho “Aperture”, a excepção foi “Señor Cáscara”, uma sentida e muito oportuna homenagem a Bernardo Sassetti. Até ao final a surpresa foi a nota dominante, as músicas a irromperem num crescendo de lirismo e harmonia, as viagens pelas mais inesperadas paragens a sucederem-se para gozo e gáudio do público. Foi assim com “Indigo”, “Rue Faider” e “Casa”, como foi assim com “PNEuma”, composição de Yannis Kyriakides que pôs fim ao concerto. Um enorme momento de jazz, um dos mais inspiradores e galvanizantes num ano que caminha rapidamente para o final.

segunda-feira, 25 de abril de 2022

CONCERTO: Salvador Sobral



CONCERTO: Salvador Sobral
Ovar em Jazz 2022
Centro de Arte de Ovar
23 Abr 2022 | sab | 21:30


É dividido que abandono a sala. É sempre assim depois de um concerto de Salvador Sobral, à excepção de uma noite mágica no Aveirense, Sobral a cantar Brel, precioso momento poético e musical que viria a encabeçar a minha lista do melhor de 2020. Naquela que foi a penúltima noite do Ovar em Jazz 2022, voltei a ficar “como o tolo no meio da ponte”, com coisas que gostei muito e outras que nem por isso. Embora alguma crítica se refira a “bpm”, o mais recente trabalho discográfico de Sobral e espinha dorsal do concerto, como “perfeito para amantes de jazz”, só a espaços se escutou jazz. Isso mesmo admitiu o artista, sozinho em frente ao piano, já no “encore”, antes de interpretar “Tristeza dos Dois”, um tema de Bernardo Sasseti com letra de Luísa Sobral. Por outro lado, continuamos a ser confrontados com a “imagem de marca” de Sobral, os seus interlúdios humorísticos algo descontrolados. Mas depois há a voz, a energia, a alegria, e há também esse hino que é “Amar pelos Dois”. Sinto-me dividido - lá está! - e acabo por quebrar, por reconhecer que o balanço é positivo.

Se “bpm” parece remeter para o bater de corações e para o milagre da vida, deixando adivinhar uma viagem ao interior de Salvador Sobral, “Mar de Memórias”, o tema que abriu o concerto, dissipou todas as dúvidas. Escutamos as palavras - “guardo cá dentro / um mar de memórias / histórias esquecidas / glórias perdidas / vidas cruzadas / com mortes fingidas / lágrimas secas / que brotam as minhas” - e temos a certeza de estarmos perante algo que vai muito além da própria música. Mas é pela música que estamos ali e o piano de Abe Rábade vem lembrar-nos que, em palco, não há só Salvador Sobral e a sua voz. O prelúdio a “Fui Ver Meu Amor” é um daqueles preciosos pedacinhos intimistas, carregados de beleza, que nos fazem sonhar. Seguem-se as palavras, igualmente intensas e emotivas: “Ai o meu amor / já viu a dor de perto / sente sem pensar / e ama com tudo / o que tem para amar”. Novo prelúdio, desta vez na guitarra de André Santos, e logo de seguida o ritmo e os blues a marcarem presença em “Se de Mim Precisarem”.

Primeiro grande momento da noite, “Ay, amor” trouxe-nos esse magnífico bolero composto pelo cubano Ignacio Jacinto Villa Fernández, mais conhecido por Bola de Neve, com o artista a deixar o palco e a vir cantar para junto do público. Saltitando entre os trabalhos mais antigos e este seu novo disco, o cantor foi-nos oferecendo alguns outros momentos verdadeiramente intensos, sobretudo “Sonhos”, o grande êxito do musico paulista Peninha, que Sobral cantou acompanhado apenas pela guitarra de André Santos. De resto, importa salientar a qualidade dos músicos que acompanharam Sobral, dos já referidos Rábade e André Santos, ao contrabaixista André Rosinha e ao baterista Bruno Pedroso. “Medo de Estimação” - mais um pedacinho precioso da vida de Sobral e da sua inspiração compositiva - fechou o alinhamento e, depois de três peças a solo, já no encore, o concerto viria a terminar com “Bom Vento”, a faixa que encerra “bpm” e que pôs toda a gente a cantar na plateia. Goste-se ou não da música de Salvador Sobral, não creio que alguém tivesse dado o tempo por mal empregue.

[Foto: Ovar / Cultura | facebook.com/ovarcultura/]