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sábado, 12 de outubro de 2019

CONCERTO: Salvador Sobral



CONCERTO: Salvador Sobral
Casa da Criatividade
27 Set 2019 | sex | 22:00


Fez as honras à cidade que o acolheu entrando de chapéu em palco, conversou longamente com o público sem dispensar uma ou outra graçola mas, sobretudo, fez aquilo que melhor sabe e gosta de fazer, cantando um conjunto de temas inspirados e plenos de harmonia, dando provas da versatilidade da sua voz e da qualidade dos seus poemas. Aqui e além deixou-se levar pelo entusiasmo, é certo, e numa ou noutra canção entrou por caminhos que só serviram para “estragar”. Mas ele é o artista, o palco é dele e tem toda a legitimidade para dar azo ao improviso da forma que muito bem entende. Um registo mais contido seria perfeito, mas aí não estaríamos a falar de Salvador Sobral.

Acompanhado por uma naipe de instrumentistas de excelência – Júlio Resende no piano, André Rosinha no contrabaixo e Bruno Pedroso na bateria -, Salvador Sobral começou por lembrar o colectivo Buena Vista Social Club, cantando o mítico “Veinte años” - “Si las cosas que uno quiere / Se pudieran alcanzar / Tú me quisieras lo mismo / Que veinte años atrás”. Depois desta “entrada de leão”, tempo para a apresentação de “Paris, Lisboa”, um álbum lançado em finais de Março deste ano, e logo com “Presságio”, um dos temas mais belos do conjunto, sobre poema de Pessoa, e onde se condensam todos os sabores, aromas, tensões, alegrias e vidas do mais recente trabalho de Sobral. Seguiu-se “Ela Disse-me Assim”, um samba-canção composto por Lupicínio Rodrigues no distante ano de 1959 e que conta com um intróito fabuloso de Júlio Resende. Já “Benjamim” faz brilhar o contrabaixo de André Rosinha e revela-se como o tema mais jazzy de “Paris. Lisboa”.

Dizem que o amor se canta em francês e “La Souffleuse” parece confirmá-lo. Este é o tema que precede outro dos grandes momentos da noite, “Mano a Mano”, com música de Júlio Resende para um poema de Maria do Rosário Pedreira - “Só nos resta o mano a mano / Se não queremos ficar sós / Deixa lá o teu piano / Namorar a minha voz”. Vieram depois os “Cordel”, com João Pires e Edu Mundo a juntarem as suas vozes e instrumentos à voz de Salvador Sobral e a oferecerem momentos únicos de deleite em temas como “Manual da Canção” e o ternurento “Só Um Beijo”, com assinatura de Luisa Sobral.

O concerto caminha para o final e os últimos temas repassam o que resta de “Paris, Lisboa”, primeiro com “Paris, Tokyo II” - é verdade, aquele momento em que Bruno Pedroso mais e melhor deu mostras do seu inegável talento na bateria -, e ainda “Playing With the Wind”, antes de fechar com um tema intemporal, “Ay, Amor!”, do compositor cubano Ignacio Villa, que todos recordam do filme de Pedro Almodovar, “A Flor do meu Secreto”, Marisa Paredes no seu melhor. Já no “encore”, Salvador Sobral veio sozinho a palco e, ao piano, começou por cantar “Estrada Dividida”, ainda e sempre de Luísa Sobral, para de seguida oferecer o mais aguardado momento da noite, com a interpretação desse verdadeiro “hino nacional” que é “Amar Pelos Dois”. De novo com os músicos em palco, “Ready for Love Again” foi a excepção, na única abordagem que o cantor fez ao seu disco de estreia, “Excuse Me”. Mais um belo momento musical a encerrar da melhor forma uma grande noite na Casa da Criatividade.

[Foto: Júlia Oliveira / facebook.com/casadacriatividade/]

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