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domingo, 3 de novembro de 2024

CONCERTO: Carta Branca a Selma Uamusse



CONCERTO: Carta Branca a Selma Uamusse
Com | Orquestra Geração, Augusto Macedo, Gonçalo Santuns, Nataniel Melo, Nilton Gulli, Active Mess, Ola Mekelburgh, Bárbara Wahnon, Nayr Faquirá, Yery Varela, Yeni Varela, A garota não
Centro Cultural de Belém - Grande Auditório
01 Nov 2024 | sex | 20:00


O Centro Cultural de Belém voltou a preencher o espaço do Grande Auditório com a música, a energia e os ritmos de África. A celebrar uma década de carreira artística, Selma Uamusse aceitou o desafio da criação de um novo, inédito e único espectáculo ao vivo, trazendo para o palco um conjunto alargado de temas dos seus dois álbuns a solo, “Mati” e “Liwoningo”. Mulher, mãe de quatro pequenas mulheres, neta e filha de duas grandes mulheres, Selma Uamusse vincou o lugar da feminilidade nesta carta aberta, celebrando a mulher que é, as mulheres que a geraram, as que admira e as que a inspiram. Foi com elas que subiu ao palco, fazendo das quase duas horas de concerto um tempo de escrita de uma carta a muitas mãos, elegante, jovial, generosa e talentosa. Com elas e com os jovens da singular Orquestra Geração, um projecto social que se foca na inserção social e na capacitação de crianças e jovens, cúmplices na escrita desta carta aberta ao futuro, que deixou de ser branca, mas antes uma paleta de cores, talentos e dons.

Teve o cheiro da liberdade, esta Carta Branca. Numa folha em branco, carregada de sonhos e vontades, Selma Uamusse quis pôs cor e gente, sorrisos e alegria, mas também espaço para respirar, escutar, quiçá chorar. Espaço para as histórias e as memórias, espaço para celebrar o presente, mas também para ter prazer na espera e na esperança do futuro, convicta de que o melhor está ainda por chegar. Daí que não pudesse faltar, nesta noite memorável, a dona de uma voz de maior relevância no panorama actual musical e no que diz respeito à dignidade, ao cuidado com as palavras e ao outro: A garota não. “Cidadania”, uma canção escrita para Selma Uamusse e cantada pelas duas artistas, foi mais um grito contra as injustiças e dores dos que não nascem num seio privilegiado. Convidado a embarcar numa viagem disposta a abraçar novos rumos, visões, canções e acções, o público não se fez rogado. Cantou, pulou, dançou a marrabenta, ensaiou passos tímidos na língua Bantu e, numa sequência de momentos alegres e prazerosos, foi feliz.

Nos 50 anos de democracia em Portugal e, em breve, de 50 anos de independência de Moçambique, esta foi uma carta que celebrou os movimentos de libertação dos países africanos de expressão portuguesa, pintando com as cores de todos eles um novo quadro que não esquece o passado, mas celebra as possibilidades do futuro através da arte, através da música. Sem medo de olhar para trás, Selma Uamusse fez desta carta branca uma carta de amor e comunhão, chamando ao palco o pouco conhecido património cultural moçambicano, as suas línguas, instrumentos tradicionais, ritmos e polifonias, em temas como “Hoyo Hoyo” ou “Hossi Anga”, “Amatuetwetwe” ou “Ngono Utana Vuna Kudima”. Carregadas de paixão, fé e esperança, com a música vieram palavras de paz, palavras de ordem, palavras de amor e de dor, clamores, louvores. Moçambique e Portugal unidos, olhos nos olhos, com o mesmo pulsar no coração através da música, e em palco, celebrando as suas diferentes identidades. Khanimambo, Selma Uamusse.

terça-feira, 31 de agosto de 2021

CONCERTO: Jéssica Pina



CONCERTO: Jéssica Pina
A Casa no Parque
Parque do Rio Ul, S. João da Madeira
28 Ago 2021 | sab | 18:00


Com o sol a fazer caretas e a brisa de final de tarde a pedir algo mais do que uma simples t-shirt sobre os ombros, o Parque do Rio Ul foi local de romaria para todos os interessados em desfrutar de um concerto ao ar livre, em segurança e de entrada gratuita. Estávamos no arranque da segunda temporada 2021 da programação da Casa da Criatividade, em S. João da Madeira, e a escolha para assinalar o momento recaía sobre Jéssica Pina, jovem trompetista nascida em Alcácer do Sal. À semelhança de Tainá ou Amaura, as protagonistas de concertos a que tinha assistido recentemente, também Jéssica Pina era para mim uma ilustre desconhecida. Tinha passado “de raspão” pela sua página no Youtube e o que ouvira agradara-me, mas estava longe de imaginar o que ela e a sua música tinham para oferecer. Daí que a surpresa não pudesse ter sido maior. Pela positiva.

Acompanhada por Eron Gabriel na bateria e Anderson Ivo nos teclados, ambos trajados a rigor com dois magníficos chapéus pretos – ou não fosse S. João da Madeira um ícone da chapelaria em Portugal e no Mundo -, Jéssica Pina fez questão de mostrar a excelência das suas interpretações, tanto na voz como na parte instrumental onde provou ser uma trompetista virtuosa e competente. Com um sorriso franco no rosto e um magnífico penteado afro a fazer jus às suas raízes angolanas e cabo-verdianas, a artista soube agarrar o público desde os primeiros instantes, propondo um alinhamento cujos temas primaram pela harmonia e pelo bom gosto. Djavan, Jorja Smith, Erykah Badu, Roy Hargrove ou Summer Walker foram alguns dos nomes que se mostraram em força e beleza na excelente tarde do Parque do Rio Ul, ao lado de composições de enorme qualidade da autoria da própria Jéssica Pina.

Leio que “Jéssica Pina explora o trompete como parte integrante da sua musicalidade” e que, desde muito nova, “aperfeiçoa a sua performance através do estudo da música jazz e de world music”. Ao escutá-la, torna-se evidente que o jazz lhe circula nas veias, apesar de alguma contenção na entrega das linhas melódicas à improvisação. Por outro lado, percebo também que a aposta na afirmação da sua música e do seu estilo reside no “aliar o trompete ao canto”. É esse o grande desafio. Por aquilo que mostrou em S. João da Madeira, estou certo de que está no bom caminho. Segura nos graves, o seu domínio dos agudos é quase perfeito, revelando já uma enorme maturidade vocal que faz com que a escutemos com redobrado prazer. A “soul” que se derrama da sua voz é uma via verde para os sentidos do público, transformando o concerto num acto de intimidade e cumplicidade. Em suma, foi um privilégio poder desfrutar de uma hora de música envolvente e intensa, oferecida por uma jovem artista cujo nome é imperioso reter.

terça-feira, 15 de junho de 2021

CONCERTO: Cais do Sodré Funk Connection convida Paulo de Carvalho





CONCERTO: Cais do Sodré Funk Connection convida Paulo de Carvalho
Cine-Teatro de Estarreja
12 Jun 2021 | sab | 21:00


Não se sinta defraudado quem, como eu, foi a Estarreja na noite do passado sábado para escutar Paulo de Carvalho. Referência maior da música portuguesa, o cantor era o convidado de honra numa sala, uma vez mais, muito bem composta, mas a primazia pertencia por inteiro aos Cais do Sodré Funk Connection. Ter interpretado apenas quatro canções suas - entre elas “Mãe Negra” e “Os Meninos do Huambo” - poderá ter deixado em alguns um certo sabor a desilusão mas, na verdade, o agrupamento lisboeta soube preencher da melhor forma um alinhamento em torno de grandes êxitos da música funk e soul, transmitindo à plateia a sua enorme energia e pondo toda a gente a menear cabeças e ombros, a bater palmas a compasso e a ensaiar sucessivos “yeah” de aprovação e reconhecimento.

Com a qualidade e experiência de instrumentistas como Tiago Santos, João Gomes, João Cabrita, José Raminhos, Miguel Marques, Francisco Rebelo e Rui Alves e as vozes de Silk e Tamin, os Cais do Sodré Funk Connection transportaram para o interior do Cine-Teatro de Estarreja o som e o ambiente dos clássicos das editoras Motown, Stax, Chess Records e outras, colocando nas suas interpretações toda a dedicação e energia de uma verdadeira celebração. Ao longo de quase uma hora e meia, os espectadores foram convidados a viajar pela história da música negra, seguindo a cartilha do “padrinho” James Brown. Otis Redding, Etta James, King Curtis, Bobby Byrd ou Ray Charles, soaram aqui tão poderosos como os originais, oferecendo um cunho revivalista ao concerto, mas de uma enorme frescura e harmonia.

De fato a rigor como nos bons velhos tempos, os Cais do Sodré Funk Connection tocaram alguns dos mais irresistíveis clássicos da música americana dos anos 60 e 70 do século passado, dando brilho a uma noite de festa em honra de Santo António. Paulo de Carvalho fez o resto. Mostrou que está aí para durar, entrou no ritmo ao lado do histriónico Silk e da doce Tamin, ensaiou uns passos de dança, instou o público a acompanhá-lo e cantou como só ele sabe. Fê-lo com o sentimento de sempre, a emoção de sempre, com a mesma força na voz que, há seis décadas, nos enche os corações. No final, “à roda da fogueira”, de novo meninos, juntámos as vozes num hino ímpar à liberdade. E foi tão bom!