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segunda-feira, 3 de novembro de 2025

CONCERTO: “Entre Paredes” | Bernardo Moreira Sexteto & Orquestra de Jazz de Espinho


CONCERTO: “Entre Paredes”
Bernardo Moreira Sexteto & Orquestra de Jazz de Espinho
Com | Bernardo Moreira (contrabaixo), Tomás Marques (saxofone), Mário Delgado (guitarra), João Moreira (trompete), João Silva (bateria), Ricardo Dias (piano)
Artista convidada | Estela Alexandre (piano)
Orquestra de Jazz de Espinho
Direcção musical | Carlos Azevedo
Novembro Jazz 2025
Casa da Criatividade
01 Nov 2025 | sab | 21:30


Celebrar o centenário de Carlos Paredes é, inevitavelmente, revisitar uma das vozes mais singulares da música portuguesa. No concerto que marcou a abertura da sétima edição do Novembro Jazz 2025, na Casa da Criatividade, Bernardo Moreira retomou esse diálogo iniciado há mais de duas décadas, quando editou “Ao Paredes Confesso” (2002) e, mais tarde, “Entre Paredes” (2021). Desta vez, porém, a homenagem ganhou nova dimensão através da parceria com a Orquestra de Jazz de Espinho, sob a direcção de Carlos Azevedo. Os arranjos, assinados por jovens nomes como Estela Alexandre e Tomás Marques, e por figuras consagradas como Pedro Moreira e o próprio Azevedo, revelaram uma orquestra em pleno domínio expressivo, capaz de cruzar o rigor da escrita com o sopro da improvisação. Neste ambiente de silêncio e vertigem feito, a música de Carlos Paredes encontrou um corpo colectivo, forte e solidário, que teve no contrabaixo de Bernardo Moreira a sua âncora poética e um poderoso dínamo emocional.

Falar de Carlos Paredes é falar de liberdade — e foi precisamente essa ideia que atravessou todo o concerto. A guitarra portuguesa de doze cordas, reinventada por ele como voz e não mero acompanhamento, ressoou na linguagem do jazz como se ambos partilhassem um mesmo código genético: a improvisação como forma de pensar o mundo. Mesmo sem estar presente, o espírito de Paredes pareceu guiar os músicos nesse território de harmonia e risco, onde o jazz se afirma como espaço de encontro entre tradição e modernidade. As reinterpretações de “Mudar de Vida” e “Canto de Amor”, os dois temas que abriram o concerto, ou os icónicos “Verdes Anos” ou “António Marinheiro”, não buscaram a fidelidade literal, mas antes a reinvenção, o gesto de tocar de novo como se de uma primeira vez se tratasse, algo que, afinal, o próprio Paredes fazia. A Orquestra de Jazz de Espinho tornou-se, assim, extensão desse espírito improvisador, convertendo o fado em matéria orquestral e o jazz em língua franca da emoção e fascínio.

O resultado foi um concerto de densidade rara, em que o lirismo se aliou à experimentação sem perder o sentido de pertença. Mais do que um tributo, tratou-se de uma reflexão em forma de música sobre o que significa ser português e contemporâneo, à luz de um legado que não cessa de nos estimular e inspirar. Se Carlos Paredes procurava “a verdade no som”, Bernardo Moreira e a Orquestra de Jazz de Espinho mostraram que essa verdade permanece viva, transmutando-se, abrindo-se a novos timbres e a novas cores. Na noite do passado sábado, o público de São João da Madeira foi brindado com a possibilidade de sentir essa vibração suspensa no tempo, algures entre a memória e o instante, entre o rigor da escrita e a respiração da improvisação - notável o exercício intenso e livre de “Serenata no Tejo” que encerrou o concerto. No final, quedamo-nos com a certeza de que o jazz português não é um género em si mesmo ou uma categoria estilística, antes uma atitude estética e ética: a de quem, como Carlos Paredes, faz da liberdade uma forma de arte.

terça-feira, 3 de dezembro de 2024

CONCERTO: Júlio Resende “Fado Jazz” com Bruno Chaveiro



CONCERTO: Júlio Resende “Fado Jazz” com Bruno Chaveiro
Coro dos Pequenos Cantores de São João da Madeira
Novembro Jazz 2024
Casa da Criatividade
29 Nov 2024 | sex | 21:30


Chegou ao fim a sexta edição do Novembro Jazz, conjunto de eventos que, ao longo do mês, animaram um significativo número de espaços da cidade de São João da Madeira. Showcases, feiras de vinil, djsets, exposições de fotografia, mostra de talentos emergentes e uma articulação íntima entre o Festival e o Encontro Bienal de Ilustração de São João da Madeira foram peças importantes de um programa vasto, eclético e com tudo para agradar a todos. Isto para além, naturalmente, das conversas e concertos que trouxeram ao palco da Casa da Criatividade nomes tão importantes como os de Paula Morelembaum, Hugo Lobo, Pedro Ricardo, Lana Gasparøtti, Zajguar, Samalandra, Eduardo Cardinho ou Júlio Resende, entre outros. Com uma dinâmica muito própria - os momentos de conversa antes dos concertos revelaram-se particularmente enriquecedores -, o Festival deu mostras da sua amplitude e envolvimento com um território muito específico, ligando-se a vários níveis às escolas, à comunidade e ao tecido empresarial e fazendo a diferença face ao contexto da generalidade dos festivais de jazz do nosso país.

Chamado a encerrar o Novembro em Jazz, o pianista Júlio Resende fez do momento uma viagem única pela alma musical portuguesa, entrelaçando tradição e inovação num hino à criatividade, engenho e beleza. Para tanto, chamou ao palco Bruno Chaveiro, um virtuoso da guitarra portuguesa, digno herdeiro do legado de Carlos Paredes, com quem manteve um diálogo íntimo, sereno e emotivo ao longo do concerto. “Júlio Resende Fado Jazz - Filhos da Revolução” (2023), último trabalho discográfico do compositor e pianista, deu o mote para um concerto que constituiu um verdadeiro hino à liberdade, numa altura em que continuamos a celebrar o 50º aniversário do “dia inicial inteiro e limpo”. Uma improvisação à volta de “Gaivota”, tema maior do cancioneiro português de fado, abriu o concerto, num momento a solo de rara inspiração e beleza. Já com Bruno Chaveiro em palco, viajámos até aos Açores ao encontro da “Lira”, um tema tradicional que a voz de Adriano Correia de Oliveira soube imortalizar. Foi o início de um romance amoroso entre o piano e a guitarra, com esta a mostrar-se de uma contenção e clareza únicos e aquele a deambular ao sabor do improviso, em demonstrações de rara intuição e talento.

Os temas seguintes, “Portugal Celebra Com Flores Vermelhas (A Rosinha dos Limões)” e “Este Piano Não Te Esquece” vieram aprofundar o espírito de celebração desse magnífico gesto de liberdade e de amor que foi o 25 de Abril. Celebração que se prolongou com “Anagrama - Os Retornados Amam Duas Terras”, uma balada repleta de harmonia e sentimento. Momento alto da noite, Bruno Chaveiro interpretou a solo um tema da sua autoria inspirado em Carlos Paredes, dando a ver, em toda a sua plenitude e transcendência, as múltiplas vozes da guitarra portuguesa. Na última parte do concerto, os dois músicos fizeram-se acompanhar em palco pelo Coro dos Pequenos Cantores de São João da Madeira, primeiro com o tema “Mano a Mano”, com letra de Maria do Rosário Pedreira e depois com “Profecia”, letra do próprio Júlio Resende e um solo de Maria Costa na voz. A fechar o alinhamento do concerto, “Vira Mais Cinco” - com dedicatória a Fausto Bordalo Dias - foi mais um “shot” de liberdade que o público soube aplaudir com emoção. Convidado com insistência a regressar ao palco, Júlio Resende voltou para abraçar Amália, acompanhando-a na sua voz inconfundível. O ponto final perfeito de uma noite inesquecível.

terça-feira, 19 de novembro de 2024

CONCERTO: Eduardo Cardinho | “Not Far From Paradise”



CONCERTO: Eduardo Cardinho | “Not Far From Paradise”
Com José Diogo Martins, João Mortágua, Francisco Santos, Diogo Alexandre, Iuri Oliveira
Novembro Jazz 2024
Casa da Criatividade
15 Nov 2024 | sex | 21:30


Quase a fechar o ano, o Auditório da Casa da Criatividade volta a ser palco do Novembro Jazz, festival cuja programação abarca, em seis dias de intensa actividade, oito concertos que dão prova do que de melhor se faz no panorama do mais jovem e fresco jazz português. À aposta no talento nacional, o Novembro Jazz acrescenta a vertente da ligação à comunidade, oferecendo a oportunidade de descobrir a beleza da liberdade sofisticada que existe no Jazz, nas suas mais variadas dimensões. Complementarmente, assistimos ao cruzamento de parcerias de elevado potencial que se traduzem noutro tipo de iniciativas: feiras de vinil e djsets, apresentações de jovens músicos locais em combinação com jovens ilustradores que mostrarão o seu trabalho em palcos inovadores, e ainda uma distinta exposição de fotografia de Márcia Lessa, focada no talento feminino no jazz, num conjunto de belíssimas imagens que podem ser vistas em dois espaços distintos de S. João da Madeira [o programa desta sexta edição do festival pode ser consultado AQUI].

Na noite da passada sexta-feira, as atenções centraram-se em Eduardo Cardinho e no seu mais recente álbum de originais, “Not Far From Paradise”, naquela que foi a última etapa da digressão que, desde Julho passado, levou o músico e os seus companheiros de estrada a percorrer o país de Norte a Sul. No palco da Casa da Criatividade o vibrafonista não esteve sozinho, apresentando-se ao lado de José Diogo Martins (teclados), Iuri Oliveira (percussões), Diogo Alexandre (bateria), Francisco Santos (baixo eléctrico) e João Mortágua (saxofone alto). E foi justamente do saxofone que surgiram as primeiras notas de emoção, com Mortágua a tirar o melhor partido das suas qualidades de intérprete ímpar, da sua energia e talento, transformando-os numa música com uma força enorme, desafiante e entusiasmante ao mesmo tempo. Por seu lado, Eduardo Cardinho ia mostrando o porquê de ser um dos músicos mais criativos da sua geração, encetando com José Diogo Martins e João Mortágua diálogos profícuos que se estenderiam a toda a secção rítmica. O público, esse, ia reagindo de forma intensa e retribuía com aplausos vivos a notória qualidade interpretativa de cada tema.

Depois de “It Was Just a Dream”, tema de abertura do concerto, “Anxiety” constituiu um grande momento de jazz, o casamento perfeito entre ritmo e harmonia, o virtuosismo de Cardinho a vir à tona em diálogos enérgicos ou em apontamentos solísticos de extraordinária qualidade. A variedade de ambientes sonoros viria a constituir-se como uma das grandes marcas do concerto, com particular destaque para os ritmos brasileiros que souberam acrescentar novas texturas e maior intensidade e beleza. Cadinho onde se fundem as sonoridades mais diversas, o vibrafone foi pássaro em cujas asas o público se deixou levar, ao encontro de exóticas e muito belas paisagens. “November 17th” (o título remete para o dia em que o avô de Cardinho faleceu) e “Life Contemplation” foram duas viagens suaves, em contraciclo com a vertigem de “Distorted Thoughts”, a arte do improviso ao serviço da música e dos músicos. O regresso à “normalidade” veio com “The Beauty of Simple Things” (notáveis as variações de género no seio da própria música), que “Hope”, um tema melodioso e tranquilo, reforçaria. A fechar o concerto, “Jungle Bees” foi a prova do real valor, tanto do todo quanto das partes. Uma grande noite de jazz.

quarta-feira, 9 de novembro de 2022

CONCERTO: Amaro Freitas



CONCERTO: Amaro Freitas
Novembro em Jazz 2022
Casa da Criatividade
04 Nov 2022 | sex | 21:30


Grande música. Grandes músicos. Um enorme concerto. Foi assim na abertura da quarta edição do Novembro em Jazz, evento da responsabilidade da autarquia de S. João da Madeira e que, ano após ano (excepção feita a 2020, ano em que o certame não se realizou devido à pandemia), chama à Casa da Criatividade grandes nomes da cena jazzística, tanto nacional como internacional. Foi o caso do pianista Amaro Freitas que, na noite da passada sexta feira, brindou o público com quase duas horas de muito e bom Jazz. Acompanhado por Hugo Medeiros, na bateria, e por Jean Elton, no contrabaixo, o músico pernambucano centrou o concerto no seu mais recente álbum, “Sankofa”, preenchendo o restante alinhamento com temas de “Rasif” e “Sangue Negro”, os seus dois trabalhos iniciais. Mediante um Jazz elegante e composições engenhosas e plenas de originalidade, Amaro Freitas levou os presentes numa viagem ao coração da sua música, na qual o nordeste brasileiro e as esplanadas de Nova Orleães, o frevo e o free jazz, Edu Lobo e Chick Corea se misturam e confundem.

O arranque foi dado por “Vila Bela”, um refúgio de dolência, harmonia e profundidade, como um cântico de pássaros de formidáveis cores ou um fio de água que, sussurrante, desliza por sobre os seixos do rio. Seguiu-se “Cazumbá”, imperioso, sôfrego, urgente, vivo, transformando a nota de intimidade inicial, o mar revolto, as asas enfim soltas. Com “Ayeye”, Amaro Freitas deu mostras de uma sofisticação e virtuosismo insuperáveis, oferecendo uma peça que nos aproxima de Bill Evans, Aziza Mustafa Zadeh ou Brad Mehldau. Na linha do tema anterior, “Baquaqua” acentuou o tom de celebração e júbilo, os terreiros em festa, corpos suados, sorrisos abertos de felicidade e partilha. “Nascimento” foi uma jóia preciosa, apaziguadora e reconfortante, enquanto “Sankofa” trouxe a cereja ao topo do bolo, inquietante no seu minimalismo fortemente estruturado, refrescante na sua essência experimentalista, improviso à flor da pele, um clamor de pureza e liberdade.

Última etapa de uma tournée pela Europa que, no espaço de trinta e cinco dias, levou o trio a palcos tão importantes como Odense, Amesterdão, Gotemburgo, Dublin, Barcelona, Manchester, Skopje, Tessalónica ou Antuérpia, o concerto da Casa da Criatividade foi único. Na memória vão ficar a forma como Amaro Freitas faz da música um veículo privilegiado de empatia, diálogo e partilha com o público, como é capaz de reduzir a parte útil do piano a meia dúzia de teclas no canto mais à direita, num dedilhar frenético que deslumbra e hipnotiza. Sobretudo, ficará na memória esse momento em que o pianista “aprisiona” cinco cordas, transformando o reduzido naipe num instrumento de percussão que faz soar a espaços, enquanto a sua música flui vibrante, de forma natural, numa combinação de sons e tons reveladora duma enorme originalidade e genialidade. Criativo, inventivo, um pouco à semelhança de Hermeto Pascoal, Amaro Freitas faz da exploração dos sons um jogo e uma brincadeira. E assim, brincando, sabe ser feliz e trazer a felicidade àqueles que o escutam.

domingo, 7 de novembro de 2021

CONCERTO: Maria Mendes



CONCERTO: Maria Mendes
Novembro em Jazz 2021
Casa da Criatividade
05 Nov 2021 | sex | 21:30


Não sabendo muito bem por onde começar, começarei pelo fim. Rejubilem os poucos que, na noite da passada sexta-feira, fizeram questão de dirigir os seus passos para a Casa da Criatividade, ao encontro de Maria Mendes e de um jazz diferente, distinto. É que este foi um concerto absolutamente fabuloso. Dos meus alguns anos nestas andanças do jazz e afins, guardo momentos marcantes e nomes sonantes, o virtuosismo, o improviso e a reinvenção aflorando como pilares básicos do meu gosto por um género musical nem sempre bem compreendido e aceite. Mas contam-se pelos dedos os concertos onde essa alegria e entusiasmo pela novidade se manifestassem de forma tão viva e estimulante como este que abriu a presente edição do Novembro em Jazz. O segredo tem quatro letrinhas apenas e dá pelo nome de “fado”. Esse mesmo, o que é nosso e é do mundo, aqui explorado com saber, elegância, ritmo e um enorme bom gosto.

Apropriar-se do fado sem esquecer nunca a matriz jazzística que conforma toda a sua carreira artística, tal é o mérito de Maria Mendes. Um mérito que deve ser repartido com John Beasley, responsável pelos arranjos, e com os músicos que pisaram com a cantora o palco da Casa da Criatividade, o pianista Carlos Azevedo, o contrabaixista Jasper Somsen e o baterista Mário Costa. O resultado excede, a todos os níveis, as melhores expectativas, sobretudo porque este é um “casamento” ao qual muito poucos vaticinariam sucesso. Não é de ânimo leve que abandonamos traços rijamente inculcados na nossa identidade cultural, que deitamos para trás das costas o preconceito e nos dispomos a aceitar a mudança, com tudo o que de bom e de mau ela pode arrastar. Estou certo, porém, que Maria Mendes não se pôs tanto “a jeito” como pode parecer. Ela sabia que havia ali um caminho a explorar e fê-lo com tacto e, sobretudo, muita paixão. Terá gostado do que encontrou. Sabia que o público iria gostar também.

A história do concerto conta-se “em duas penadas”. Entre o estranhar e o entranhar foi tempo de um tema só, esse inicial “Dança do Amor”, que a todos prendeu a respiração e pôs milhões de borboletas a revoltear nas barrigas. A partir daqui, o fado e o jazz fundiram-se para tomar conta dos sentidos, o “Barco Negro” vivido com emoção, aqueles gritos às velhas da praia - “são loucas, são loucas” -, ainda a ecoar na minha cabeça. “Há Uma Música do Povo”, “Tudo Isto é Fado”, “Foi Deus” ou “Asas Fechadas”, para citar apenas os mais conhecidos, foram a prova da versatilidade do género, para tanto haja arte e engenho. E voz, devo acrescentar, também aí Maria Mendes a revelar-se uma intérprete notável, escalando os agudos com a solidez e a doçura próprias dos predestinados. A crítica não ficaria completa se não partilhasse este segredo: Quando vi o nome de Maria Mendes na programação do Novembro em Jazz pensei que fosse uma cantora brasileira. Nunca ouvira o seu nome a propósito do que quer que seja. O meu desconcerto prende-se com o facto de não me considerar um sujeito desatento ou pouco informado. Sem me deter nas causas do desconhecimento direi apenas que este concerto marca o ano de 2021 e que Maria Mendes é um nome que deve merecer mais atenção.

domingo, 1 de dezembro de 2019

CONCERTO: Jacinta



CONCERTO: “Jacinta”
Novembro em Jazz 2019
Casa da Criatividade
29 Nov 2019 | sex | 22:00


Coube a Jacinta encerrar a segunda edição do Novembro em Jazz, trazendo consigo um generoso punhado de temas que fizeram as delícias de um público que quase voltou a encher a Casa da Criatividade. Acompanhada ao piano por Pedro Costa e com Paulo Dantas no baixo de seis cordas, a cantora teve uma actuação de enorme nível, explorando todas as capacidades da sua voz única, feita de “veludo e seda, yin e yang, mel e sal”, como notou Thomas Staiber. “Nascente” foi o tema escolhido para marcar o arranque do concerto. E que arranque. Na sua extraordinária voz, a composição de Murilo Fernandes e Flávio Venturini derramou-se como uma carícia, abrindo as portas a uma grande noite de Jazz. Continuando a cantar em português do Brasil, onde reside há cinco anos, Jacinta carregou no tom da Bossa Nova, oferecendo-nos esse colossal “Sinhá”, um dos mais belos temas de Chico Buarque, quiçá mais belo ainda na voz da cantora.

O momento seguinte levou o público ao encontro de Thelonius Monk, com “I Mean You”, o virtuosismo de Pedro Costa e Paulo Dantas a vir ao de cima em aponstamentos com tanto de clássico como de inovador. Monk viria a ser, aliás, o músico mais presente neste inesquecível serão, replicado no dolente “Ask Me Now” ou no sofisticado “Think of One”, em arranjos de enorme talento e bom gosto. Regressando ao alinhamento do concerto – exemplarmente construído, a realçar a plasticidade da voz da cantora -, Jacinta foi Joni Mitchell nesse tema belo e amargo que é “Goodbye Pork Pie Hat”, homenagem ao saxofonista Lester Young, à boleia da música de Charles Mingus – “When Lester took him a wife / Arm and arm went black and white / And some saw red / And drove them from their hotel bed / Love is never easy.”

Antes ainda do “regresso ao Brasil”, desta vez com “Aquele Um”, de Djavan e “Aquele Abraço”, de Gilberto Gil, Jacinta interpretou “I've Got The World on a String”, um tema de 1932 e que nomes como Bing Crosby ou Frank Sinatra ajudaram a popularizar. Com o concerto a chegar ao fim, a cantora ofereceu um enorme momento musical, ao vestir a “Dança dos Mancos” – um tema popular da região de Aveiro que celebra S. Gonçalo – com as roupagens do Jazz. O mesmo viria a suceder já no “encore” com Zeca Afonso e “Saudades de Coimbra”, num arranjo absolutamente incrível e que marcou o concerto, não sem antes ter revisitado a música de Tom Jobim e a voz de Elis Regina com o inefável “Retrato em Branco e Preto”. Conhecedor e atento, o público soube pontuar cada momento com o seu reconhecido aplauso. Um aplauso que deve estender-se à programação de um Festival que, apesar da sua juventude, é já um “caso sério” no panorama dos festivais do género em Portugal. Pois que venha a terceira edição em 2020, melhor e mais rica ainda, e que traga muitas Jacintas!

[Foto: Casa da Criatividade | facebook.com/casadacriatividade/]

domingo, 2 de dezembro de 2018

CONCERTO: Orquestra de Jazz de Matosinhos com João Paulo Esteves da Silva



CONCERTO: “Bela Senão Sem”
Orquestra de Jazz de Matosinhos com João Paulo Esteves da Silva
Novembro Jazz 2018
Casa da Criatividade
30 Nov 2018 | sex | 22:00


Ponto final na primeira edição do Novembro Jazz. “Bela Senão Sem”, projecto que em 2011 juntou a Orquestra de Jazz de Matosinhos e o pianista João Paulo Esteves da Silva, foi a proposta de eleição para o encerramento de um certame recheado de excelente música, ao encontro de um publico que, como nos anteriores concertos, praticamente esgotou a sala. É para esse público e para o entusiasmo com que correspondeu às valiosas ofertas desta muito auspiciosa edição inaugural do Novembro Jazz, que vai a primeira nota de apreço, visto caucionar, com o vigor da sua presença e o calor das suas palmas, esta nova aposta cultural do Município de S. João da Madeira. Longa vida, pois, ao Novembro Jazz!

Do público para o palco, o programa deste concerto incidiu exclusivamente num álbum cujo nome, jogando com os mesmos elementos, subverte um trocadilho. Na prática, isto corresponde à ideia de pegar em material composto por João Paulo Esteves da Silva, trabalhá-lo com arranjos do próprio e ainda de Pedro Guedes e de Carlos Azevedo, os dois directores musicais da OJM, para daí resultar um conjunto de oito composições que se distinguem pela harmonia dos seus temas e pelo seu carácter genuinamente português. O piano de João Paulo Esteves da Silva esteve em plano de evidência, tanto nos diálogos prolixos que manteve com a orquestra como nos eloquentes e inspirados solos, reveladores dum apurado domínio musical e dum extraordinário bom gosto. Foi assim em “Candeia”, o primeiro tema interpretado, como nos seguintes “Moché Salyó de Misraim” - um casamento perfeito entre o tradicional e o jazz -, “Fado Chão” e “Bela Senão Sem”, neste último a concertina a “roubar” ao piano o lugar de excelência.

Terna e generosa, “Canção Açoreana” constituiu um momento único de emoção e beleza, as notas dedilhadas ao piano ao encontro do saxofone tenor de Mário Santos para um “voo nas asas do sonho” que, para gáudio do público, viria a repetir-se no encore (que quase esteve para não acontecer). “Tristo” foi outro momento de enorme inspiração, vivendo em grande medida do diálogo entre o piano e a guitarra de Nuno Ferreira, seguindo-se “Fantasmas” - a erudição à flor da pele, num exercício colectivo de improviso que resulta fascinante no virtuosismo de intérpretes como Daniel Dias ou Andreia Santos, Ricardo Formoso ou Javier Pereiro – e “Pode Ser Uma Serra”, a concertina num diálogo requintado com a guitarra, com a bateria de Marcos Cavaleiro e com o contrabaixo de Demian Cabaud. Verdadeiro “standard” do jazz português, como fez questão de referir Pedro Guedes, o maestro nesta noite em S. João da Madeira, “Certeza” constituiu o fecho perfeito de um delicioso concerto e de um Festival que colocou a fasquia a um nível particularmente alto. A repetir no próximo ano!

domingo, 11 de novembro de 2018

CONCERTO: Luisa Sobral



CONCERTO: Luisa Sobral
Novembro Jazz
Casa da Criatividade, S. João da Madeira
09 Nov | sex | 22:00


“Se um dia alguém, perguntar por mim / Diz que vivi para te amar / Antes de ti, só existi / cansado e sem nada para dar”. É aqui, à entrada do refrão de “Amar pelos Dois”, que Luisa Sobral, vendo a plateia sem reacção, interrompe a sua interpretação e, entre o espantado e o indignado, diz que “as pessoas de S. João da Madeira não conhecem esta canção”. À provocação respondeu o público da forma mais assertiva, acompanhando a cantora, com entusiasmo, neste verdadeiro “hino nacional”; mas fazendo-o, digo eu, mais para lhe agradar do que por outra coisa. Por vontade própria, continuaria em silêncio, saboreando um tema que pede para ser ouvido como uma oração, em recolhimento, não apenas pela letra e pela forma sublime como Luisa Sobral o interpreta, mas também porque remete para tão gratas recordações, daquelas que nos fazem ter orgulho em sermos portugueses.

Foi este o mote do concerto: Uma Luisa Sobral com uma voz que é um verdadeiro monumento, os acordes de Mário Delgado, nas guitarras, a vestirem de sonoridades incríveis os lindíssimos poemas e, nos intervalos, o diálogo aberto com o público, revelador do verdadeiro prazer de com ele partilhar a noite em S. João da Madeira. Uma noite especial, diga-se, não apenas pela lotação esgotada da sala, o que é sempre uma motivação extra para qualquer artista, mas também porque aconteceu no dia em que o seu mais recente álbum de originais, “Rosa”, foi editado. Ao longo de uma hora e meia, “Rosa” foi a estrela da noite, mas Luisa Sobral não esqueceu os seus trabalhos anteriores, tendo presenteado o público com “Paspalhão”, do seu álbum anterior “Luísa” (2016), logo a abrir o concerto, aos quais foi acrescentando “Cupido”, do mesmo álbum, o divertido “João”, do álbum “Lu-Pu-I-Pi-Sa-Pa” (2014), o incontornável “Inês”, do seu segundo álbum, “There's a Flower In My Bedroom” (2013), imortalizado em dueto com António Zambujo, e ainda o popularíssimo “Xico”, do primeiro álbum da cantora, “The Cherry On My Cake” (2011), “a minha primeira música a passar na rádio”, lembrou a propósito.

“Rosa” é, contudo, um caso à parte. Foi-o no concerto, cada tema a brilhar de forma intensa e a abrir portas para o mundo pessoal da cantora, e é-o no álbum agora editado, declaradamente um marco na carreira de Luisa Sobral, pela sua força e verdade, pelo notável trabalho ao nível das letras e dos arranjos, pela beleza simples e delicada harmonia que dele emana. É difícil adjectivar temas como “Querida Rosa”, “Benjamim” ou “O Melhor Presente”, nos quais Luisa Sobral releva o amor pelos seus dois filhos – os pequeninos José e Rosa -, oferecendo-lhes um presente de valor inestimável em forma de música. E que dizer de “Nadia”, o tema de abertura deste último trabalho e que reflecte sobre a dura realidade dos migrantes que tentam chegar à Europa a todo o custo? Ou ainda da ternura que se desprende de “Mesma Rua Mesmo Lado”, “O Verdadeiro Amor”, “Dois Namorados” ou “Envergonhado”, este último cantado já no “encore”? Ao contrário do que seria suposto, este foi um concerto completamente à margem do jazz, o que acabou por se revelar um pormenor de somenos, de tal forma a noite se revelou intensa e bela. Imperdoável será, sobretudo para aqueles que perderam a oportunidade duma noite única, não correrem para as bancas a comprar o CD. É verdadeiramente único!

sábado, 3 de novembro de 2018

CONCERTO: "Jacqui Naylor"



CONCERTO: Jacqui Naylor
Novembro Jazz
Casa da Criatividade, S. João da Madeira
02 Nov | sex | 22:00


Num esforço de diversificação da sua programação, a Casa da Criatividade arrancou na noite de ontem com o projecto Novembro Jazz, iniciativa que tem como objectivo assumido o de “mostrar que o jazz é para todos e de todos, levando o público a descobrir novos e reconhecidos músicos e novas formas de performance”. A abrir o certame, a proposta recaiu na californiana Jacqui Naylor, daqui resultando uma noite recheada de emoções fortes, a voz da cantora – magistralmente acompanhada ao piano ou à guitarra pelo marido, Art Khu – a embalar o público em toadas harmoniosas que se estenderam por quase duas horas, ao encontro de originais da dupla e de alguns standards da grande música.

Com dez álbuns publicados, a artista fez incidir uma parte do concerto sobre o seu mais recente trabalho, “JacQui Naylor & Art Khu” (2017), dando a ouvir temas como “Moonglow” ou “The Nearness of You”, a profundidade vocal da cantora a fundir-se de forma magistral com a limpidez das teclas, em registos de grande beleza e intensidade. No capítulo das homenagens, “Feeling Good” e “Birds Flying High”, os dois temas que abriram o concerto, deram a mão a Nina Simone, enquanto “(You Make Me Feel Like) A Natural Woman” recordou Aretha Franklin, recentemente desaparecida. Mantendo um diálogo permanente com o público, em ambiente de grande intimismo que a disposição dos lugares na sala reforçou, Jacqui Naylor fez questão de chamar ao alinhamento do concerto alguns nomes improváveis, provando o potencial jazzístico de músicas como “Losing My Religion” dos R.E.M., “Space Oddity” de David Bowie, “Fix You” dos Coldplay ou “The Thrill Is Gone” de B.B. King.

A interpretação de standards incontornáveis do jazz vieram reforçar a qualidade vocal e instrumental da dupla, oferecendo aos presentes momentos de inegável prazer com temas como “Summertime”, “Skylark”, “Smile”, “Black Coffee” ou “My Funny Valentine”, chamando ao palco o talento de compositores e letristas como Kurt Weill, Charlie Chaplin, Hoagy Carmichael, George Gershwin, Ogden Nash, Johnny Mercer, DuBose Heyward ou a dupla Rodgers & Hart, bem como o encanto da voz de intérpretes como Billie Holiday, Nat King Cole, Ella Fitzgerald, Louis Armstrong ou... Led Zeppelin. Registe-se, ainda, o gesto da cantora no final do concerto, dirigindo-se às primeiras filas da plateia e cumprimentando os presentes um a um, desta forma retribuindo os enormes aplausos recebidos e reforçando as palavras do último tema da noite e que dá nome ao álbum lançado em 2011: “Lucky Girl”!

[Foto: Nuno Conceição / nunoconceicao.com]