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domingo, 21 de abril de 2024

CONCERTO: Amaro Freitas



CONCERTO: Amaro Freitas
Ovar em Jazz 2024
Centro de Arte de Ovar
20 Abr 2024 | sab | 21:30


Não podia ter terminado da melhor forma a sétima edição do Ovar em Jazz. Sozinho em palco com o seu piano, Amaro Freitas ofereceu ao público uma noite inesquecível, fortemente espiritual, num despertar constante de emoções e sensações ao encontro da floresta amazónica e da sua biodiversidade. É lá longe, entre a estridência da vida animal e o cheiro intenso a terra molhada, o brilho da lua nas várzeas e a delicadeza da flor do aguapé, o encontro das águas e o poder incandescente dos espíritos encantados, que o compositor e pianista parte à descoberta de um novo reino de criação musical. Da impressiva exuberância da vida selvagem e do forte sentimento de pertença que as comunidades indígenas nutrem pela terra, nasce “Y’Y” (pronuncia-se “eey-eh, eey-eh”), o seu mais recente trabalho discográfico, no qual o artista rende homenagem à floresta e aos rios, num convite a “viver, sentir, respeitar e cuidar da natureza, reconhecendo-a como nosso ancestral”. Um disco que é também “um alerta para a necessidade de estarmos conscientes do impacto que causamos, a partir dos conceitos de civilização e modernidade que nos afastam dessa conexão, e da sua importância para o equilíbrio da vida no planeta”.

Fazem-se ouvir as primeiras notas e já os sentidos se apuram na certeza de esta poder vir a ser uma experiência única e irrepetível. Buscamos o Jazz, mas ele mostra-se esquivo, percebendo-se a espaços uma pitada de avant-jazz ou uma frase com ritmos do Caribe. Procuramos o Contemporâneo, mas é o Clássico que se impõe, em rigor e delicadeza. Julgamos abraçar o experimental, numa dimensão minimalista, mas é na música de raíz étnica, feita de magia e encanto, que desaguamos. Uma música que quebra os preconceitos e questiona as noções daquilo que o Jazz pode (ou deve) ser. Qualquer tentativa de classificar a música de Amaro Freitas esbarra na multiplicidade de texturas que a compõem, nos sons que são ecos, num piano preparado que se transforma em tamborim ou berimbau, numa kalimba que é gota de chuva ou grito da selva. Deixarmo-nos levar nas asas do sonho e do encanto é a solução. Fechemos, pois, os olhos e aceitemos os espíritos poderosos que voam ao nosso encontro. Sucedem-se os ritmos e harmonias complexas e é natural perguntarmo-nos como é possível tocar em dois compassos diferentes, um em cada mão. Terá Amaro Freitas dois cérebros?

Se com o anterior “Sankofa”, o pianista apostava na recuperação de um mundo ancestral, usando as lições do passado como farol no esforço de seguir em frente, agora, com “Y’Y” (uma palavra do dialeto Sateré Mawé, um código indígena ancestral que significa “água” ou “rio”), é possível ver temas que não são falados em português ou inglês, mas que fazem parte da construção de um conceito social solidamente entrosado. Daí que não espante a sua opção de entrelaçar neste projecto, tão significativamente, os conhecimentos mais antigos. Isto torna-se particularmente evidente no tema que dá nome ao concerto e que procura traduzir a força ancestral do encontro das águas dos rios Negro e Solimões em dois movimentos opostos, as vocalizações carregadas de eco a soarem como cânticos do passado. Tema final do alinhamento, “Gloriosa” - uma homenagem a Rosilda, a mãe de Amaro Freitas, suporte e fonte de inspiração musical desde a infância - teve o condão de juntar ao piano as vozes do público, num momento de espiritualidade e cumplicidade maior. Público que, com as gargantas afinadas, reclamou um “encore” no qual as vozes voltaram a ser postas à prova. O final perfeito de um Ovar em Jazz mais consolidado, mais forte, mais livre e vivo. Um Ovar em Jazz maior!

[Foto: Ovar/Cultura]

quarta-feira, 9 de novembro de 2022

CONCERTO: Amaro Freitas



CONCERTO: Amaro Freitas
Novembro em Jazz 2022
Casa da Criatividade
04 Nov 2022 | sex | 21:30


Grande música. Grandes músicos. Um enorme concerto. Foi assim na abertura da quarta edição do Novembro em Jazz, evento da responsabilidade da autarquia de S. João da Madeira e que, ano após ano (excepção feita a 2020, ano em que o certame não se realizou devido à pandemia), chama à Casa da Criatividade grandes nomes da cena jazzística, tanto nacional como internacional. Foi o caso do pianista Amaro Freitas que, na noite da passada sexta feira, brindou o público com quase duas horas de muito e bom Jazz. Acompanhado por Hugo Medeiros, na bateria, e por Jean Elton, no contrabaixo, o músico pernambucano centrou o concerto no seu mais recente álbum, “Sankofa”, preenchendo o restante alinhamento com temas de “Rasif” e “Sangue Negro”, os seus dois trabalhos iniciais. Mediante um Jazz elegante e composições engenhosas e plenas de originalidade, Amaro Freitas levou os presentes numa viagem ao coração da sua música, na qual o nordeste brasileiro e as esplanadas de Nova Orleães, o frevo e o free jazz, Edu Lobo e Chick Corea se misturam e confundem.

O arranque foi dado por “Vila Bela”, um refúgio de dolência, harmonia e profundidade, como um cântico de pássaros de formidáveis cores ou um fio de água que, sussurrante, desliza por sobre os seixos do rio. Seguiu-se “Cazumbá”, imperioso, sôfrego, urgente, vivo, transformando a nota de intimidade inicial, o mar revolto, as asas enfim soltas. Com “Ayeye”, Amaro Freitas deu mostras de uma sofisticação e virtuosismo insuperáveis, oferecendo uma peça que nos aproxima de Bill Evans, Aziza Mustafa Zadeh ou Brad Mehldau. Na linha do tema anterior, “Baquaqua” acentuou o tom de celebração e júbilo, os terreiros em festa, corpos suados, sorrisos abertos de felicidade e partilha. “Nascimento” foi uma jóia preciosa, apaziguadora e reconfortante, enquanto “Sankofa” trouxe a cereja ao topo do bolo, inquietante no seu minimalismo fortemente estruturado, refrescante na sua essência experimentalista, improviso à flor da pele, um clamor de pureza e liberdade.

Última etapa de uma tournée pela Europa que, no espaço de trinta e cinco dias, levou o trio a palcos tão importantes como Odense, Amesterdão, Gotemburgo, Dublin, Barcelona, Manchester, Skopje, Tessalónica ou Antuérpia, o concerto da Casa da Criatividade foi único. Na memória vão ficar a forma como Amaro Freitas faz da música um veículo privilegiado de empatia, diálogo e partilha com o público, como é capaz de reduzir a parte útil do piano a meia dúzia de teclas no canto mais à direita, num dedilhar frenético que deslumbra e hipnotiza. Sobretudo, ficará na memória esse momento em que o pianista “aprisiona” cinco cordas, transformando o reduzido naipe num instrumento de percussão que faz soar a espaços, enquanto a sua música flui vibrante, de forma natural, numa combinação de sons e tons reveladora duma enorme originalidade e genialidade. Criativo, inventivo, um pouco à semelhança de Hermeto Pascoal, Amaro Freitas faz da exploração dos sons um jogo e uma brincadeira. E assim, brincando, sabe ser feliz e trazer a felicidade àqueles que o escutam.