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segunda-feira, 3 de novembro de 2025

CONCERTO: “Entre Paredes” | Bernardo Moreira Sexteto & Orquestra de Jazz de Espinho


CONCERTO: “Entre Paredes”
Bernardo Moreira Sexteto & Orquestra de Jazz de Espinho
Com | Bernardo Moreira (contrabaixo), Tomás Marques (saxofone), Mário Delgado (guitarra), João Moreira (trompete), João Silva (bateria), Ricardo Dias (piano)
Artista convidada | Estela Alexandre (piano)
Orquestra de Jazz de Espinho
Direcção musical | Carlos Azevedo
Novembro Jazz 2025
Casa da Criatividade
01 Nov 2025 | sab | 21:30


Celebrar o centenário de Carlos Paredes é, inevitavelmente, revisitar uma das vozes mais singulares da música portuguesa. No concerto que marcou a abertura da sétima edição do Novembro Jazz 2025, na Casa da Criatividade, Bernardo Moreira retomou esse diálogo iniciado há mais de duas décadas, quando editou “Ao Paredes Confesso” (2002) e, mais tarde, “Entre Paredes” (2021). Desta vez, porém, a homenagem ganhou nova dimensão através da parceria com a Orquestra de Jazz de Espinho, sob a direcção de Carlos Azevedo. Os arranjos, assinados por jovens nomes como Estela Alexandre e Tomás Marques, e por figuras consagradas como Pedro Moreira e o próprio Azevedo, revelaram uma orquestra em pleno domínio expressivo, capaz de cruzar o rigor da escrita com o sopro da improvisação. Neste ambiente de silêncio e vertigem feito, a música de Carlos Paredes encontrou um corpo colectivo, forte e solidário, que teve no contrabaixo de Bernardo Moreira a sua âncora poética e um poderoso dínamo emocional.

Falar de Carlos Paredes é falar de liberdade — e foi precisamente essa ideia que atravessou todo o concerto. A guitarra portuguesa de doze cordas, reinventada por ele como voz e não mero acompanhamento, ressoou na linguagem do jazz como se ambos partilhassem um mesmo código genético: a improvisação como forma de pensar o mundo. Mesmo sem estar presente, o espírito de Paredes pareceu guiar os músicos nesse território de harmonia e risco, onde o jazz se afirma como espaço de encontro entre tradição e modernidade. As reinterpretações de “Mudar de Vida” e “Canto de Amor”, os dois temas que abriram o concerto, ou os icónicos “Verdes Anos” ou “António Marinheiro”, não buscaram a fidelidade literal, mas antes a reinvenção, o gesto de tocar de novo como se de uma primeira vez se tratasse, algo que, afinal, o próprio Paredes fazia. A Orquestra de Jazz de Espinho tornou-se, assim, extensão desse espírito improvisador, convertendo o fado em matéria orquestral e o jazz em língua franca da emoção e fascínio.

O resultado foi um concerto de densidade rara, em que o lirismo se aliou à experimentação sem perder o sentido de pertença. Mais do que um tributo, tratou-se de uma reflexão em forma de música sobre o que significa ser português e contemporâneo, à luz de um legado que não cessa de nos estimular e inspirar. Se Carlos Paredes procurava “a verdade no som”, Bernardo Moreira e a Orquestra de Jazz de Espinho mostraram que essa verdade permanece viva, transmutando-se, abrindo-se a novos timbres e a novas cores. Na noite do passado sábado, o público de São João da Madeira foi brindado com a possibilidade de sentir essa vibração suspensa no tempo, algures entre a memória e o instante, entre o rigor da escrita e a respiração da improvisação - notável o exercício intenso e livre de “Serenata no Tejo” que encerrou o concerto. No final, quedamo-nos com a certeza de que o jazz português não é um género em si mesmo ou uma categoria estilística, antes uma atitude estética e ética: a de quem, como Carlos Paredes, faz da liberdade uma forma de arte.

terça-feira, 1 de abril de 2025

CONCERTO: "Radiohead Recomposed" | Orquestra de Jazz de Espinho & Mário Delgado



CONCERTO: “Radiohead Recomposed”
Orquestra de Jazz de Espinho & Mário Delgado
Direcção musical | Eduardo Cardinho e Paulo Perfeito
Auditório de Espinho - Academia
28 Mar 2025 | sex | 21:30


Radiohead. A Enciclopedia Britannica refere-os como sendo, “sem dúvida, a banda de art-rock mais bem-sucedida do início do século XXI”, acrescentando que o quinteto “produziu algumas das músicas mais majestosas - se bem que saturadas de angústia - da era pós-moderna”. Formado em 1985 em Abingdon, Oxford, o grupo era composto pelo cantor e guitarrista Thom Yorke, o baixista Colin Greenwood, o guitarrista Ed O'Brien, o baterista Phil Selway e o guitarrista e teclista Jonny Greenwood. Cultores de bandas de rock norte-americanas como os R.E.M., Nirvana, Sonic Youth ou Pixies, os Radiohead não resistiram a ir beber ao Jazz algumas das suas influências, nomeadamente a Miles Davis, Charles Mingus e Alice Coltrane. Virá daqui, pelo menos em parte, a poderosa sensação de alienação que as suas músicas provocam, as paisagens sonoras intrincadamente texturadas, os longos silêncios de alguns dos seus temas mais icónicos a trazerem com eles notas mágicas e impressivas capazes de nos alçarem no seu voo e de nos transportarem aos confins do universo.

Foram precisamente os Radiohead e a sua música a estarem na mira da Orquestra de Jazz de Espinho, fazendo deles o alvo central de um projecto diferenciador e estimulante a muitos títulos, tanto para os músicos como para o público que esgotou o Auditório de Espinho nas duas sessões agendadas. Encontrar a combinação perfeita entre o jazz e o rock alternativo terá sido o grande desafio colocado aos oito músicos a quem coube a tarefa de trabalhar os arranjos de outros tantos temas, recompondo sem nada omitir e fundindo géneros sem os desvirtuar. Nazaré Silva, José Pedro Coelho, Paulo Perfeito, Telmo Marques, Estela Alexandre, Johannes Krieger, Daniel Bernardes e Carlos Azevedo puseram mãos à obra com a mestria que se lhes reconhece, ousando desconstruir e reerguer temas de grande complexidade, num processo não isento de riscos (afinal, não é de ânimo leve que se mexe em verdadeiros ícones, como é o caso de “Just” ou “Paranoid Android”, sob pena de se ser acusado de profanação). O resultado exprime-se numa simples palavra: Notável!

Passados pelo crivo do jazz, os temas escolhidos mostraram a sua enorme plasticidade e deram-se a ver numa roupagem cheia de swing, ritmo e alegria. Ao encontro das sonoridades idiossincráticas da banda, a guitarra não poderia ficar esquecida, recaindo em Mário Delgado o convite para se juntar à Orquestra de Jazz de Espinho. Com uma carreira de quase quatro décadas, Delgado é um guitarrista com recursos e técnicas variadas na guitarra eléctrica, o que lhe vem dos diversos estilos provenientes das suas influências, nas quais o rock o jazz ocupam lugar de destaque. Isso ficou bem patente no conjunto de apontamentos solísticos de altíssimo nível, sendo muito bem secundado por uma secção rítmica fortíssima - a par de Mário Delgado, José Diogo Martins, nos teclados, revelou-se fundamental nessa fixação das sonoridades próprias dos Radiohead - e pelo trabalho contrapontístico dos metais, com destaque para o trombonista Hugo Caldeira e para o trompetista João Tavares. Mais um grande concerto com o selo OJE.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2024

CONCERTO: "Dual Core" | Orquestra de Jazz de Espinho, Eduardo Cardinho, Miguel Moreira



CONCERTO: “Dual Core”
Orquestra de Jazz de Espinho, Eduardo Cardinho, Miguel Moreira
Direcção Musical | Paulo Perfeito
Auditório de Espinho – Academia
15 Dez 2024 | dom | 18:00


Quando se cumprem quinze anos sobre a primeira apresentação pública da Orquestra de Jazz de Espinho, então sob a designação de Orquestra Académica de Jazz da EPME, importa dizer que é passo a passo que se faz o caminho. Impulsionado por Paulo Perfeito, que assumiu desde logo a direcção artística da Orquestra (vindo a ser mais tarde coadjuvado por Daniel Dias e, recentemente, por Eduardo Cardinho), o projecto não mais parou de crescer, expandindo-se para além da sua vocação didáctica, ao encontro de concertos temáticos, repertórios de autor e espectáculos multimédia e multidisciplinares para os mais diversos públicos e faixas etárias. Nesta sequência de passos certos e seguros que sustentam a extraordinária evolução que a Orquestra de Jazz de Espinho vem conhecendo ao longo dos anos, dá-se agora um novo passo com “Dual Core”, o seu primeiro trabalho discográfico que, como se de um ritual de passagem se tratasse, pretende constituir-se em símbolo de afirmação na carreira de um dos colectivos de referência do jazz nacional.

No concerto de apresentação ao público deste trabalho inaugural, a Orquestra de Jazz de Espinho convidou para o palco, de uma assentada, o vibrafonista Eduardo Cardinho e o guitarrista Miguel Moreira. Já o tinha feito nos idos de 2019, num concerto intitulado “Encruzilhadas” e cujo programa exibiu vários pontos de contacto com este apresentado ao final da tarde de domingo. E se nessa altura as “encruzilhadas” deixavam subentender os caminhos cruzados dos solistas com os da Orquestra – Eduardo Cardinho formou-se nesta Escola e integra actualmente o seu corpo docente, enquanto Miguel Moreira concluiu aqui, em 2002, o curso de Percussão Clássica –, “Dual Core” vem mostrar estarmos perante um projecto maduramente pensado, no qual se evidencia um trabalho de revisão e actualização dos temas que o compõem e para o qual Cardinho e Moreira contribuíram como exímios executantes, mas sobretudo como inspirados compositores, a sua energia, criatividade e ousadia vertidas em músicas que expandem para lá dos limites habituais a paleta de possibilidades da Orquestra de Jazz de Espinho.

Com um programa construído em torno de composições de Eduardo Cardinho (“Bipolar Hallucination”, “In Search of Light” e “Lua”) e de Miguel Moreira (“Coentros”, “Suite do Relógio” e “Câmbio”), “Dual Core” aposta no cruzamento das vanguardas com a tradição, do convencional com a originalidade. Viagem por universos sonoros de enorme variedade e riqueza, o concerto destacou o talento e arrojo de dois compositores, assim como a qualidade e versatilidade da Orquestra de Jazz de Espinho. Entre as frases musicais harmoniosas e os momentos abertos à improvisação, o que de melhor há a reter é o entendimento perfeito entre o vibrafone e a guitarra, expresso numa relação de complementaridade, de cumplicidade única, como se cada instrumento vivesse de e para o outro. Junte-se a isto a qualidade do saxofonista Rafael Gomes, dos trompetistas João Tavares e João Dias ou do pianista José Diogo Martins, expressa em solos de engenho e virtuosismo feitos, e facilmente se perceberá o quão extraordinário foi o momento, o público suspenso da complexidade melódica dos temas, a música a oferecer-se em sonho e liberdade.

sábado, 28 de outubro de 2023

CONCERTO: Orquestra de Jazz de Espinho com João Paulo Esteves da Silva



CONCERTO: Orquestra de Jazz de Espinho
Com | João Paulo Esteves da Silva (piano)
Direcção musical | Eduardo Cardinho, Paulo Perfeito
Auditório de Espinho
27 Out 2023 | sex | 2023


Recuar ao início de Março de 2015 e à segunda edição dos “Concertos (in)Comuns em Lugares (in)Comuns” é abraçar um dos momentos primordiais da minha relativamente curta experiência nas lides do jazz. O concerto que juntou Carlos Bica e João Paulo Esteves da Silva no Salão Nobre da Câmara Municipal de Ovar foi daqueles momentos que se guardam na gavetinha das jóias mais íntimas e se revisitam de tempos a tempos com o olhar e o sentir que dedicamos às mais gratas memórias. Desde então, devo ter assistido a uns bons vinte concertos de ambos os músicos, número bem repartido pelos dois, já que não voltei a escutá-los juntos. Ontem, em Espinho, a noite foi dedicada a João Paulo Esteves da Silva, solista convidado da Orquestra de Jazz de Espinho para um programa constituído integralmente por temas do álbum “Bela Senão Sem”. Um concerto que voltou a confirmar a Orquestra como um dos bons agrupamentos do género em Portugal e o pianista como alguém que escapa a qualquer adjectivação, tão rica a sua veia criativa, tão inspiradora a sua música.

Projecto de 2011, “Bela Senão Sem” partiu de uma encomenda da Casa da Música e juntou o pianista lisboeta à Orquestra de Jazz de Matosinhos. Na prática, isto correspondeu à ideia de pegar em material composto por João Paulo Esteves da Silva, trabalhá-lo com arranjos do próprio e ainda de Pedro Guedes e de Carlos Azevedo, os dois directores musicais da OJM à altura, para daí resultar um conjunto de oito composições nas quais é possível identificar a fusão entre o jazz e a música de raiz tradicional. Ao longo de uma hora e meia, o piano de João Paulo Esteves da Silva esteve em plano de evidência, quer nos animados diálogos que manteve com a orquestra, quer em formato trio, socorrendo-se da inspiração de José Carlos Barbosa no contrabaixo e do muito jovem baterista Gonçalo Ribeiro, quer ainda em solos eloquentes e intimistas, reveladores de um apurado domínio musical e de um extraordinário bom gosto.

Foi assim em “Candeia”, o tema de abertura do concerto, de onde sobressaiu o solo de trompete de Gonçalo Marques. Foi assim, também, nos seguintes “Moché Salyó de Misraim” - um casamento perfeito entre a música de tradição sefardita e o jazz -, “Fado Chão” e “Bela Senão Sem”, neste último a concertina a “roubar” ao piano a primazia e Hugo Caldeira a brilhar no trombone. “Pode Ser uma Serra” escutou-se na versão original graças às potencialidades da Orquestra de onde “emergiram” oito instrumentos de sopro e cinco de percussão. “Canção Açoreana” foi um momento único de emoção e beleza, as notas dedilhadas ao piano ao encontro do saxofone tenor de Brian Blaker para um “voo nas asas do sonho” verdadeiramente fenomenal. “Tristo” foi outro momento de enorme inspiração, vivendo em grande medida do diálogo entre o piano e a guitarra de Miguel Dantas, assim como “Certeza”, exercício de improviso provocado e controlado que fechou o alinhamento e que teve nos solos de Daniel Dias (trombone) e Rafael Gomes (saxofone) momentos de enorme génio e inspiração.

[Foto: Auditório de Espinho - Academia |  https://www.facebook.com/auditoriodeespinhoacademia]

sábado, 27 de maio de 2023

CONCERTO: "A Fresh Glimpse of Binney"



CONCERTO: “A Fresh Glimpse of Binney”,
Com | David Binney (saxofone alto, composição)
Orquestra de Jazz de Espinho
Direcção musical | Eduardo Cardinho, Paulo Perfeito
Auditório de Espinho - Academia
26 Mai 2023 | sex | 21:30


Na viragem do século, a cidade de Nova Iorque recuperou o estatuto de centro nevrálgico da criação jazzística. A criatividade ebulia nos lofts e pequenos clubes de Manhattan e de Brooklyn e uma jovem geração de músicos competia pela atenção dos seus pares. Na vanguarda deste movimento vamos encontrar David Binney, um músico audaz, detentor de uma sonoridade enérgica e de um fraseado elaborado e assertivo. O som distintivo do saxofone de Binney e as suas composições inovadoras fizeram incidir sobre ele o olhar elogioso de críticos e colegas. Senhor de uma carreira brilhante e extraordinariamente prolífica, gravou mais de vinte e cinco álbuns como líder ou co-líder e participou em mais de quatro centenas de outros. Entre os nomes com quem trabalhou contam-se Gil Evans, Maria Schneider, Chris Potter, Aretha Franklin, Jamiroquai, Maceo Parker, Chrissie Hynde ou Norah Jones. Foi ele o convidado da Orquestra de Jazz de Espinho na noite de ontem onde, para além de solista, veio dar a conhecer uma das suas facetas menos reveladas, a de compositor para Big Band.

Exemplo notável do estilo de David Binney neste tipo de composições, “The Valley 1979” abriu o concerto da melhor forma. Escrita no início dos anos 2000, a peça remete para as memórias da infância e juventude do artista em Los Angeles, numa altura em que era já uma certeza da cena jazzística nova-iorquina e escreveu algumas peças para orquestra. Os primeiros momentos do tema são absolutamente marcantes, com a mestria e virtuosismo de Binney a mostrarem-se de forma única, tendo como suporte, apenas, o contrabaixo de José Carlos Barbosa e a bateria de João Martins. A música abre-se, então, à orquestra, dando ao trombonista Hugo Caldeira e ao trompetista Ricardo Formoso a possibilidade de brilharem em dois solos de grande qualidade e intensidade. Manteve-se a toada em “We Dream Oceans”, “Birth” e “Free”, os temas seguintes, sempre com a orquestra muito assertiva na resposta às solicitações do solista convidado, merecendo uma referência particular a condução alternada de Paulo Perfeito e Eduardo Cardinho e os solos dos dois vibrafonistas, João Rosa e Diogo Azevedo, e do trombonista Rui Bandeira. David Binney foi exímio na forma como soube “esconder-se” no seio do conjunto, para emergir em apontamentos distintivos da sua enorme classe nos momentos-chave de cada uma das peças interpretadas.

Pequena jóia deste concerto, “Ballad for Miami” poderia muito bem integrar a banda sonora de um filme de Hollywood, dada a sua vocação iminentemente clássica e o cunho visual muito forte. Esta sensação é reforçada pelo belíssimo solo de piano de Carlos Azevedo a abrir o tema e pelo naipe de clarinetes, onde pontificaram Matilde Zenha, Nuno Magalhães e Francisca Guedes e ainda Luisa Gil, na flauta transversal. Seguiu-se “The Golden Zone”, um tema marcado pelos solos inspirados de David Binney e pela extraordinária prestação do baterista João Martins. A terminar, em estreia mundial, “Petals” foi um momento de enorme beleza, tanto pela sua contemporaneidade - aqueles instrumentos todos a parecerem “remar” cada um para seu lado, como um carro que não quer pegar, se engasga mas acaba por aquecer e arrancar no melhor estilo -, como pela introdução da electrónica, fazendo o espaço saltar para uma outra dimensão. Já no “encore” escutou-se “Return” e escutou-se, enfim, a guitarra de Miguel Dantas, naquela que foi a estreia deste jovem na Orquestra de Jazz de Espinho.


sábado, 11 de março de 2023

CONCERTO: "A Música dos Loose Tubes"



CONCERTO: “A Música dos Loose Tubes”
Orquestra de Jazz de Espinho
Direcção musical, composição e teclados | Django Bates
Convidado especial | Julian Argüelles
Auditório de Espinho - Academia
10 Mar 2023 | sex | 21:30


O concerto chegara ao fim e o “foyer” do Auditório de Espinho era ponto de encontro entre músicos e público. Enquanto Django Bates escrevia uma breve dedicatória no seu “Tenacity” que lhe pedira para assinar, aproveitava para lhe confessar a minha admiração e gratidão por tanta energia, por tão boa disposição, por tão extraordinários momentos. “Há muito tempo que não assistia a um concerto tão alegre, tão cheio de felicidade”, disse-lhe, na ressaca dessa imensa alegria, dessa onda de felicidade que submergiu o Auditório à boleia da música dos Loose Tubes. Porque esta música, feita há cerca de quatro décadas, numa altura em que o jazz europeu se reinventava na busca de novos caminhos, é naturalmente do melhor que podemos escutar ainda hoje. Mas também porque a Orquestra de Jazz de Espinho se mostrou ao seu melhor nível (a disposição dos músicos em torno da secção rítmica é uma excelente ideia, permitindo individualizar os vários naipes, em vez de uma certa amálgama de sons), porque o “convidado especial” Julian Argüelles mereceu mesmo o título de “especial” e porque Django Bates foi um espectáculo dentro do espectáculo.

Cruzando aquilo que podemos ler sobre o trajecto dos “Loose Tubes” e o que nos foi dado assistir na noite de ontem no Auditório de Espinho, diria que o público que esgotou praticamente a sala teve o privilégio de assistir à recriação de momentos ímpares da vida da banda e viver a atmosfera única que envolvia os seus concertos. Uma omnipresente nota de humor pede que nos libertemos das amarras de um quotidiano cada vez mais sombrio e nos deixemos arrebatar pela música. Nela encontramos, devidamente balanceados, a composição precisa e o pandemónio colectivo, o toque minimalista e o calor dos ritmos latinos, as notas de swing, de funk e de blues, num todo extraordinariamente enérgico, pleno de ritmo e harmonia. A atitude e a forte presença em palco é uma ode à vida e a todas as coisas boas que tem para nos oferecer e, neste capítulo, a Orquestra de Jazz de Espinho terá tido uma daquelas noites únicas e irrepetíveis. O último tema do alinhamento, “Arriving”, foi uma verdadeira apoteose, os músicos a subirem as escadas laterais sem pararem de tocar, o público ao alcance de uma mão estendida, a música mais bela e penetrante que nunca. Faltou o copo de cerveja na mão para um desejado e mais que merecido “cheers”.

Falemos então de Django Bates, reafirmando aquilo que pode ler-se na folha de sala que acompanhou o concerto: “Seja pelo humor irreverente, pela complexidade textural ou mesmo pelo carácter cativante deste multi-instrumentista e compositor britânico, os concertos de Django Bates são uma experiência sensorial que perdura muito além de se escutarem as últimas notas.” Tudo isto foi possível confirmar, tal como “o génio criativo e espírito iconoclasta que o caracterizam”. Temas como “Säd Afrika”, “Like Life”, “Yellow Hill”, “Eden Express” e “Night At The Circus” (já no “encore) são disso enormes exemplos, aos quais devo acrescentar “Creeper”, “Village” e o já referido “Arriving”, de Chris Batchelor, e, de Eddie Parker, “Exeter, King of Cities”, “Sosbun Brakk” ou “The Last Word”, o tema que abriu o concerto. Uma nota final para a Orquestra de Jazz de Espinho, com Julian Argüelles como um reforço de peso. A ele e ao seu saxofone se deveram alguns dos mais brilhantes solos da noite, nos quais foi extraordinariamente secundado por outros dois saxofonistas, Rafael Gomes e Bernal Muíños, pelos trompetistas João Almeida e Rodrigo Cunha, pelo clarinetista Edgar Silva ou pelo guitarrista Miguel Moreira. Grande noite em Espinho. Noite inesquecível!


terça-feira, 12 de julho de 2022

CONCERTO: Vijay Iyer & Orquestra de Jazz de Espinho 



CONCERTO: Vijay Iyer & Orquestra de Jazz de Espinho
48º FIME – Festival Internacional de Música de Espinho
Auditório de Espinho – Academia
07 Jul 2022 | qui | 21:30


Alinhavar um par de ideias em torno do concerto de Vijay Iyer com a Orquestra de Jazz de Espinho sem escorregar em contradições, eis a questão. O sexto de dezasseis concertos programados para a edição deste ano do FIME trouxe ao Auditório de Espinho o aclamado pianista norte-americano Vijay Iyer, reconhecido como um dos nomes maiores do género, não apenas pela sua capacidade criativa e pela qualidade das suas interpretações, mas também pela apurada consciência política e em diálogo com o mundo. Iyer veio acompanhado pela baixista malaia Linda May Han Oh e pelo baterista norte-americano Tyshawn Sorey, dois excelentes músicos da cena jazzística nova-iorquina, o último dos quais com duas décadas de amizade pessoal e cumplicidade criativa com o pianista. Ao trio viria a juntar-se a Orquestra de Jazz de Espinho, agrupamento composto por catorze elementos, na sua grande maioria dedicados aos metais. Talvez seja um erro pôr num dos pratos da balança o trio e, no outro o trio com a Orquestra, mas não há como fugir a estabelecer uma comparação entre os dois momentos. E o momento com a Orquestra sai claramente a perder.

Olhando para aquilo que a Orquestra fez, a forma como soube ler e interpretar uma peça complexa, com tanto de orgânico como de etéreo, justo é reconhecer que a nota a atribuir deverá ser alta. Inspirada no romance homónimo do escritor nigeriano-americano Teju Cole, “Open City” encontra-se dividida em dez andamentos que procuram recriar o ambiente do romance e o seu cariz autobiográfico, povoado de reflexões pessoais traduzidas por secções musicais com um forte pendor lírico, que crescem e se desenvolvem em acordes fechados e densos ou se oferecem completamente livres e abertas à improvisação. Propulsionando a música e o ritmo a partir do seu centro, Vijay Iyer, Linda May Han Oh e o enorme Tyshawn Sorey sobrevoaram os meandros da mente, ora povoados de sombras, ora vibrantes e luminosos, habitados pelo silvo agudo do falcão, pelo grasnar do ganso ou dos patos, pelo piar da pequenina carriça. Os magníficos solos de Guilherme Guedes no vibrafone ou de AP Neves na guitarra, de Ricardo Formoso no trompete ou de Teresa Costa na flauta, de Rui Bandeira no trombone ou de Gonçalo Soares, Hristo Goleminov ou Rafael Gomes nos saxofones, foram o complemento perfeito de uma viagem que não deixou ninguém indiferente.

Mas que dizer do trio? Baseando a sua prestação no álbum “Uneasy” (ECM, 2021), Vijay Iyer, Linda May Han Oh e Tyshawn Sorey foram a demonstração viva do quanto o jazz pode oferecer em engenho, inventividade, ritmo e carisma. Foi desconcertante ver Tyshawn Sorey afinar o surdo e os tons com o concerto a decorrer, para mais tarde percebermos o quanto a sua forma de tratar o instrumento e de o integrar na harmonia do conjunto tem tudo a ver com os ruídos do quotidiano, com essa busca incessante do som que é tom, do ritmo harmónico, da musicalidade que habita todas as coisas. Com Vijay Iyer vivi um momento único, aquele em que fui em busca de um segundo piano, os sons de duas melodias distintas combinadas na perfeição a espalharem-se no Auditório, como se o pianista fosse dotado de dois cérebros autónomos e distintos entre si. E que dizer de Linda May Han Oh, sujeito e complemento de um trio superlativo, o contrabaixo a verter o seu som cavo com uma pureza como poucas vezes pude escutar. É por estas e por outras que me é tão difícil avaliar o concerto no seu todo. Se teria, caso fosse possível, dispensado a Orquestra? Sim. Mas pergunto-me se escreveria o que escrevi caso o trio não tivesse tido a oportunidade de, a abrir e a fechar o concerto, se mostrar sozinho em palco.

segunda-feira, 14 de março de 2022

CONCERTO: "Acorde(on)"



CONCERTO: “Acorde(on)”
Orquestra de Jazz de Espinho com João Barradas
Direcção musical | Paulo Perfeito
Auditório de Espinho
12 Mar 2022 | sab | 21:30


A história do acordeão é deveras interessante, devendo as suas origens ao cheng, espécie de órgão portátil tocado pelo sopro da boca e inventado na China cerca de 2700 a.C. . Porém, foi só em 1822, na Alemanha, que o fabricante de instrumentos Christien Friederich Buschmann, criou o primeiro acordeão, aperfeiçoando-o nos anos seguintes e assistindo à sua rápida disseminação, sobretudo em França e em Itália. Com uma forte implantação na música popular de toda a Europa, o instrumento chegou ao mundo do jazz de forma discreta, sendo ainda hoje encarado por muitos como uma curiosidade. Tentando vencer a relativa obscuridade em que o acordeão vive mergulhado, virtuosos como Guy Klucevsek, Jean-Louis Matinier, Will Holshouser, Andrea Parkins, Luciano Biondini e o enorme Richard Galiano têm feito um trabalho notável, associando-se a músicos incontornáveis da cena jazzística como Charlie Haden, Bill Frisell, Gianluisi Trovesi ou Anthony Braxton. O mais novo de todos estes virtuosos do acordeão dá pelo nome de João Barradas, é português e foi ele o convidado da Orquestra de Jazz de Espinho na noite do passado sábado. E que noite!...

O início do concerto, valha a verdade, foi relativamente desconcertante. Com a tónica nos metais, “Estiramantens”, composição de Mário Laginha, viu o acordeão ser completamente abafado nessa luta desigual contra uma dúzia de saxofones, trompetes e trombones. A estridência dos metais anulou igualmente contrabaixo, piano e vibrafone e temeu-se o pior. Felizmente, a música entrou nos eixos com “Care” e, de seguida, com “Resilience”, dois temas de João Barradas, extraídos do álbum “Portrait”, de 2020. Dois temas magníficos, acrescente-se, neles sobressaindo a qualidade das composições e o virtuosismo das interpretações, valorizados com os arranjos belíssimos de Carlos Azevedo no primeiro tema e de Paulo Perfeito no tema imediato. “Concert in the Garden”, da compositora norte-americana Maria Schneider, foi outro momento sublime, pontuado por um longo solo improvisado através do qual João Barradas mostrou, entre o clássico e o contemporâneo, a dimensão da sua arte e da sua técnica, assim como a versatilidade deste instrumento.

O concerto encerrou com “The Fremont Seven” e “Cross Fire”, dois temas do brasileiro Jovino Santos Neto que trouxeram com eles um cheirinho a trópicos e a samba. Ao baterista João Martins juntaram-se os jovens percussionistas Diogo Maia e João Oliveira, enchendo o ar de ritmos coloridos e vibrantes fantasias. Para eles vai o primeiro aplauso, que se estende naturalmente aos vibrafonistas João Rosa e Guilherme Guedes, este último irrepreensível num solo que marcou o tema “Resilience”. Outros solistas em destaque foram o trombonista Rui Bandeira e o trompetista Hugo Silva, mas também o saxofonista Lucas Oliveira, de quem retemos o entusiasmo num solo do último tema do programa. João Martins mostrou-se enorme na bateria, muito bem acompanhado por João Rodrigues no piano e Diogo Dinis no contrabaixo. A par do enorme trabalho que Paulo Perfeito e Daniel Dias vêm desenvolvendo à frente da Orquestra de Jazz de Espinho, o derradeiro aplauso vai para João Barradas e para os extraordinários momentos proporcionados, pincelando de erudição o muito e bom jazz ouvido num Auditório praticamente esgotado.

sábado, 11 de dezembro de 2021

CONCERTO: "Mais Que Fado" | Orquestra de Jazz de Espinho & Cristina Branco e Mário Laginha



CONCERTO: “Mais Que Fado”
Orquestra de Jazz de Espinho
Cristina Branco (voz), Mário Laginha (piano)
Direcção musical | Daniel Dias e Paulo Perfeito
Auditório de Espinho
10 Dez 2021 | sex | 21:30


Tende a não ficar na memória o último concerto a que me foi dado assistir no Auditório de Espinho neste ano a caminhar para o final. Com a Orquestra de Jazz de Espinho, em palco estiveram dois ilustres convidados, o pianista Mário Laginha e a fadista Cristina Branco, para um concerto que encerrava a perspectiva de uma grande noite. Porquê? Porque Daniel Dias e Paulo Perfeito vêm a fazer um excelente trabalho com um punhado de jovens que se entregam de alma e coração ao jazz, porque Mário Laginha é um pianista com provas dadas e oferece a garantia de muito empenho e qualidade e porque Cristina Branco é uma grande voz, que não apenas do fado (da minha discoteca fazem parte um número apreciável de trabalhos seus, que revisito amiudadamente com deleite). Se a isto juntar o facto de ser esta a primeira vez que tive oportunidade de escutar Cristina Branco ao vivo, perceber-se-á o quanto de felicidade e beleza antevia no espaço do concerto. Só que não.

Se justificada ou não, a ansiedade foi uma nota indisfarçável na cantora desde o momento da entrada em palco. Não pelo gesto de se benzer ao entrar, mas por aquele constante atirar da cabeça para trás e respirar fundo, tema após tema, como que a dizer de si para si: “Esta já está”. A voz timbrada, melódica, harmoniosa que lhe conhecia desfez-se em hesitações, repentes e lapsos que não era suposto acontecer. A força dos metais da orquestra também não ajudou, de tal forma que os três temas iniciais - “Quando Eu Canto”, com letra de Maria do Rosário Pedreira, o arejado “Alice No País Dos Matraquilhos”, de Sérgio Godinho, e “Cherokee Louise”, letra e música de Joni Mitchell - fazem do arranque do concerto um exercício de sensaboria e tibieza como há muito não me era dado ver. “Ó Laurinda, Linda, Linda” e “Camponês Alentejano” vieram trazer algum alento ao concerto, não pelas melhorias no registo vocal mas porque, finalmente, pode escutar-se Mário Laginha em solos de grande intensidade e riqueza.

Até ao final, o concerto deu mais do mesmo. Cristina Branco continuou a parecer deslocada, Mário Laginha ia fazendo o que podia e a orquestra lá foi cumprindo o seu papel, ainda que muito menos segura em relação àquilo a que nos acostumou. Lucas Oliveira teve uma entrada sem garra no solo de saxofone de “Às Vezes Dou Por Mim” mas acabou em grande e mereceu o enorme aplauso que lhe foi tributado. Na bateria, João Martins esteve ao melhor nível, o mesmo podendo dizer-se de Diogo Dinis, no contrabaixo. Registe-se, em abono da verdade, a interpretação do popular “José Embala o Menino”, o grande momento (único?) de Cristina Branco no Auditório de Espinho. Também “O Amor Quando Se Revela” merece referência, sobretudo pela novidade da versão. “Carta a Miguel Djéje”, de Zeca Afonso, fechou o alinhamento da pior forma, as palavras atropeladas e uma entrada a destempo da cantora a confirmarem uma noite desinspirada. “A Lua Partida ao Meio”, um tema de Mário Laginha cantado a meias pelo próprio e por Cristina Branco”, foi outro equívoco. Melhores dias virão!

[Foto: Auditório de Espinho | facebook.com/auditoriodeespinhoacademia]

terça-feira, 29 de junho de 2021

CONCERTO: Richard Bona & Orquestra de Jazz de Espinho



CONCERTO: Richard Bona & Orquestra de Jazz de Espinho
FIME - 47º Festival internacional de Música de Espinho
Auditório da Academia de Música de Espinho
26 Jun 2021 | sab | 21:00


“Estive cerca de 520 dias sem tocar para um público. Pensei que a minha carreira tinha acabado.” Entre o sério e o divertido, foi com estas palavras que Richard Bona abriu o concerto da noite de ontem no Auditório da Academia de Música de Espinho. Rodeado pelos músicos da Orquestra de Jazz de Espinho, reforçada com alguns convidados, o “Sting africano” mostrou-se tão grato à vida e ao acolhimento caloroso por parte de todos os presentes que este “regresso” ganhou rapidamente contornos de celebração, influenciado o desempenho geral de uma forma extraordinariamente positiva e transformando o concerto num conjunto de momentos inesquecíveis, as notas de destaque a caírem por inteiro na qualidade da música de Bona, nos seus dotes naturais de comunicador e numa Orquestra de Jazz de Espinho que não pára de nos surpreender.

Ao longo de pouco mais de uma hora, foram dez os temas interpretados, numa simbiose perfeita entre o Jazz e a Word Music. “Three Views of a Secret”, de Jaco Pastorius, marcou o início de uma viagem que, tendo Nova Iorque como um referencial seguro, fez questão de se estender aos Camarões, pátria-mãe do artista, em temas como “Mbemba Mama” (uma homenagem às mães, “postas no mundo por um Deus que sabia que não ia conseguir estar em todo o lado ao mesmo tempo”) ou “Engingilaye”. O continente asiático não foi esquecido - de uma viagem de quinze dias à Índia surgiu a inspiração para “Shiva Mantra” -, assim como os ritmos latinos, o samba expresso nesse trepidante “Manyaka O Brazil” que pôs toda a gente a mexer nas cadeiras. O encore, extensão natural do próprio concerto, foi preenchido com uma inspirada interpretação de “Fannie Mae”, um tema original de Buster Brown a piscar o olho ao R&B que fez a sala “vir abaixo” com os aplausos entusiásticos da plateia.

Percebe-se que a noite foi de festa e de celebração, para gozo e gáudio do público que esgotou o belíssimo espaço do Auditório em mais um espectáculo integrado na programação do 47º Festival Internacional de Música de Espinho. Richard Bona ficou nos nossos corações e, como o próprio fez questão de salientar, não podemos esperar mais sete anos para voltar a convidar o músico (sim, Bona tinha estado anteriormente em Espinho, em finais de Julho de 2014). Importa, enfim, falar da Orquestra de Jazz de Espinho, o fruto do excelente trabalho que os seus directores musicais, Paulo Perfeito e Daniel Dias, vêm desenvolvendo de 2009 a esta parte. É um privilégio escutar um agrupamento que trata a música de forma tão séria e perceber que, no seu seio, são já em número apreciável aqueles que se mostram perfeitamente à vontade em solos esclarecidos, como é o caso dos saxofonistas Rafael Gomes e Lucas Oliveira, dos trombonistas Hugo Caldeira e Rui Bandeira, dos vibrafonistas Guilherme Guedes e João Rosa ou do trompetista João Tavares. A eles juntou-se a classe de Gileno Santana (trompete), Miguel Moreira (guitarra), Hugo Raro (piano), João Cunha (bateria) e Pancho (percussão). O público não podia estar melhor entregue.

[Foto: Festival Internacional de Música de Espinho | https://www.facebook.com/fimespinho/]

sábado, 3 de outubro de 2020

CONCERTO: China Moses & Orquestra de Jazz de Espinho



CONCERTO: China Moses & Orquestra de Jazz de Espinho
Direcção musical | Daniel Dias e Paulo Perfeito
FIME – Festival Internacional de Música de Espinho
Auditório de Espinho | Academia
02 Out 2020 | sex | 21:30


Nestes tempos confusos, em que o “novo normal” tomou conta do nosso quotidiano e pede que nos reinventemos, foi bom regressar ao Festival Internacional de Música de Espinho e ao belíssimo Auditório da Academia, ao encontro da música e das emoções que sempre convoca. Voltando a pisar os palcos da sua própria casa, a Orquestra de Jazz de Espinho aperaltou-se para receber uma convidada de respeito e o resultado não poderia ter sido melhor. Senhora de uma enorme voz e uma comunicadora de excelência, China Moses proporcionou momentos inesquecíveis, arrancando palmas e gargalhadas ao público, cativando-o com a sua forte presença em palco, com a catadupa de histórias sempre divertidas que fez questão de partilhar e com uma versatilidade vocal incomum, que se sente à vontade tanto nas ondas da Soul como no bater do Jazz ou dos Blues.

Extraída desse álbum de referência que é “This One’s For Dinah” (Blue Note France, 2009), tributo à diva Dinah Washington, “Dinah’s Blues” abriu a parada em grande, logo seguida de um dos maiores êxitos de Donna Summer e tema icónico da Disco, “Hot Stuff”. Estas duas músicas não só apontaram caminhos para um alinhamento que privilegiou a variedade de géneros musicais e pôs em evidência a versatilidade da cantora, como revelaram, desde os primeiros acordes, a forte empatia de China Moses com a Orquestra dirigida por Daniel Dias e Paulo Perfeito e onde se destacaram o teclista Carlos Azevedo, o contrabaixista Filipe Teixeira, o guitarrista AP Neves, o trompetista Luís Macedo, o trombonista Hugo Caldeira, o saxofonista Rafael Gomes e, “last but not least”, o baterista João Cunha, para além de um largo naipe de metais de grande afinação e aprumo.

Entre histórias delirantes – à volta de copos, amigos, amantes e “things” –, e deliciosos temas como “Breaking Point”, “Whatever”, “Lobby Call” ou “Running”, onde pontificaram os arranjos de Theo Croker, Mike Gorman, François Biensan e Marco Pasquariello, decorreu um tempo de felicidade que, pelo espaço de uma hora e meia, fez esquecer o incómodo das máscaras nos rostos. “Se, no final, para além desta Orquestra maravilhosa, puderem levar algo daqui, que seja: Não julgues!”, referiu a cantora numa das fases mais intensas deste seu concerto. Uma cantora que se confessou maravilhada com a cidade de Espinho e com esta oportunidade única para “fugir” de Londres, que não se cansou de condenar os estúpidos deste mundo e que, com a sua presença, nos mostrou que devemos tirar o melhor partido de cada momento que a vida tem para nos oferecer. Já no “encore”, como um brinde com champanhe, “I Just Want To Make Love To You”, “hit” popularizado na voz de Etta James, foi um desses momentos. Tchin, tchin! 

quarta-feira, 5 de junho de 2019

CONCERTO: "Encruzilhadas"




CONCERTO: “Encruzilhadas”
Orquestra de Jazz de Espinho com Eduardo Cardinho e José Miguel Moreira
Academia de Espinho – Auditório
01 Jun 2019 | sab | 21:30


Numa altura em que se está a completar uma década sobre a sua primeira apresentação pública, a Orquestra de Jazz de Espinho voltou a subir ao palco do Auditório da Academia de Música para uma grande noite. Uma vez mais não veio sozinha, desta feita trazendo consigo o vibrafonista Eduardo Cardinho e o guitarrista José Miguel Moreira, dois nomes que têm em comum o facto de possuírem percursos intimamente ligados à Academia, o primeiro porquanto faz parte do quadro de professores da casa e o segundo porque foi precisamente aqui que, nos idos de 2002, concluiu o curso de Percussão Clássica. Desta ligação íntima à Academia e do cruzamento de interesses em torno do jazz nasceu “Encruzilhadas”, confluência de composições inspiradas e de orquestrações e interpretações de enorme nível, proporcionando um serão único que o público sorveu com deleite e emoção.

Com um programa construído em torno de temas da autoria de Eduardo Cardinho (“Lua” e “Bipolar Hallucination”) e de José Miguel Moreira (“Airhead” e “Coentros”), aos quais se juntou “LH422”, de Paulo Perfeito - director desta Orquestra em parceria com Daniel Dias -, “Encruzilhadas” apostou sobretudo na originalidade. Ao público coube o privilégio de escutar uma série de temas em estreia absoluta – isto se virmos como um “ensaio geral” o facto de este mesmo programa ter sido tocado algumas horas antes no “Serralves em Festa” -, servindo a proposta para divulgar o trabalho de composição destes jovens músicos, nos quais se deve reconhecer uma enorme qualidade e talento. Características que se estendem por inteiro à Orquestra de Jazz de Espinho e aos seus jovens músicos, de novo o suporte perfeito de dois instrumentistas de eleição.

Entre as frases musicais de grande riqueza harmónica e os momentos mais “free”, a musica a querer saltar das pautas e a clamar pela grande improvisação, o que de melhor há a reter em “Encruzilhadas” é o entendimento perfeito entre o vibrafone de Eduardo Cardinho e a guitarra de José Miguel Moreira. E não estou a falar de diálogo entre instrumentos, antes duma relação de complementaridade, de cumplicidade única, como se cada um deles vivesse de e para o outro. Prova disso é a parte inicial de “Coentros”, a fechar o programa, com as lâminas do vibrafone tocadas com arco e as cordas da guitarra postas a vibrar com a ajuda duma baqueta. Foi um momento sublime, o público suspenso da complexidade melódica que tomou conta do concerto, a música a fluir de forma expressiva e totalmente livre. Inesquecível!

[Foto: Auditório de Espinho – Academia | facebook.com/auditoriodeespinhoacademia/]

sábado, 16 de março de 2019

CONCERTO: "Origens"



CONCERTO: “Origens”
Orquestra de Jazz de Espinho | Ricardo Formoso (trompete)
Direcção musical | Daniel Dias, Paulo Perfeito
Auditório de Espinho - Academia
15 Mar 2019 | sex | 21:30


Quase uma década após a sua chegada a Portugal – onde se licenciou em Música variante de Jazz na Escola Superior de Música e Artes do Espectáculo do Porto -, Ricardo Formoso decidiu fundir num álbum as suas experiências musicais e pessoais com as influências dos diversos projectos em que se foi envolvendo, sobretudo no circuito de Jazz da Invicta. Foi assim que nasceu “Origens”, álbum de originais com o carimbo Porta Jazz, publicado em finais de 2017, e que contou com a colaboração de Carlos Azevedo no piano, José Carlos Barbosa no contrabaixo, Marcos Cavaleiro na bateria e André Fernandes na guitarra.

Entretanto, mais de um ano volvido, Formoso volta a pegar no projecto, revitalizando-o e vestindo-o de novas sonoridades graças aos arranjos para big band com assinatura de Miguel Blanco. O resultado pode ser apreciado em estreia absoluta no Auditório de Espinho, com o suporte duma Orquestra de Jazz de Espinho “reforçada” com dois músicos bem conhecidos da cena jazzística: o baterista João Martins e o guitarrista Virxilio da Silva. E o mínimo que se pode dizer é que foi uma noite de jazz memorável, a música a fluir ao peso e à medida do talento dos executantes, um toque de Wayne Shorter, John Coltrane ou Alex Sipiagin aqui e ali, a revelar algumas das influências do trompetista.

Do encantatório “Olhar Preguiçoso” ao cubaníssimo “Acere”, passando pelo ritmo e vibração de “Valsa para Medanich” ou “15” ou pela dolência e harmonia de “Lembrança” ou “Pequeno Gigante”, este último com uma dedicatória especial a Juan Carlos Otero, Ricardo Formoso e a Orquestra de Jazz de Espinho superaram as expectativas dum público conhecedor e exigente, honrando os seus pergaminhos. Os elogios ao trabalho de Daniel Dias e de Paulo Perfeito à frente desta jovem Orquestra serão sempre insuficientes, mas importa destacar nesta noite a excelência das performances de Ricardo Formoso e de Virxilio da Silva. Plenos de virtuosismo, rivalizaram em solos que arrancaram aplausos entusiásticos à plateia, fazendo desta uma noite inesquecível!

sábado, 20 de outubro de 2018

CONCERTO: Orquestra de Jazz de Espinho | Julian Argüelles



CONCERTO: “A Northern Wind”
Orquestra de Jazz de Espinho | Julian Argüelles
Direcção Musical | Daniel Dias, Paulo Perfeito
Auditório de Espinho – Academia
19 Out 2018 | sex | 21:30


O público atento ao fenómeno do Jazz saberá que Julian Argüelles é um dos mais reconhecidos compositores, arranjadores e instrumentistas da actualidade. Nascido em Lichfield, Staffordshire (Reino Unido), a sua carreira de saxofonista teve início em finais da década de 70, mas só em 1991 lançou o seu primeiro álbum como líder. Ao todo conta no currículo com 14 álbuns a título pessoal e inúmeras colaborações com nomes tão sonantes como os de Archie Shepp, Hermeto Pascoal, Dave Holland, Carla Bley, Kenny Wheller ou Django Bates. Foi precisamente esta figura enorme do mundo do jazz que esteve em palco ontem à noite, no Auditório da Academia de Música de Espinho, para o concerto “A Northern Wind”, com a Orquestra de Jazz de Espinho. E que bem que (se) esteve!

“You See, My Dear?”, suave balada que Argüelles escreveu para a sua “mais que tudo”, abriu o concerto da melhor forma, o artista a recuperar este tema do álbum “Momenta” (2009). Seguiu-se “Phaedrus”, tema que dá nome ao seu primeiro álbum, alguns preciosos momentos de Free Jazz a permitirem evidenciar a qualidade do solista. Os ritmos quentes da África do Sul viriam com “Mama Marimba”, uma composição de Johnny Dyani, com arranjos de Argüelles e, já no final, com “Mandisa”, um tema que Chris McGregor popularizou com essa verdadeira irmandade de virtuosos que foram os “seus” Brotherhood of Breath. Tempo ainda de escutar “Such Sweet Madness” e uma sequência de diálogos de metais absolutamente estonteante, de sentir uma fresca brisa da Escandinavia em “Charm Defensive”, uma das últimas encomendas para a banda Phronesis, com a Frankfurt Radio Big Band e que integra o álbum “The Behemoth” (2017) ou de vibrar com a intensidade e energia da música de Argüelles em “Hi Steve” e “Evan's Freedom Pass”, piano, bateria e vibrafone a imporem o ritmo e a mexerem com o público.

Aquilo que de mais emocionante teve este concerto foi a enorme sensibilidade, generosidade e humildade de Julian Argüelles, um artista que não vê a Orquestra como um apêndice mas como um parceiro cúmplice e comprometido, que se “apaga” sempre que sente que é importante dar espaço ao conjunto e que deixa a sua genialidade vir ao de cima em momentos a solo absolutamente sublimes. Esta atitude profundamente pedagógica, apenas possível numa pessoa que ama a música e a coloca acima de tudo, permitiu perceber a importância e o alcance desta parceria entre a Orquestra e o seu convidado, a sua riqueza em termos de aprendizagem e o notável trabalho e dedicação dos professores Daniel Dias e Paulo Perfeito, verdadeiras âncoras dum agrupamento com tanto de juventude como de virtuosismo. E se Julian Argüelles e a sua passagem por Espinho dificilmente se apagarão da memória, importa igualmente reter os nomes de Pedro Jerónimo, Rui Bandeira, João Sequeira, Pedro Mendes, João Cunha ou Diogo Dinis. Todos eles são exímios instrumentistas e, seguramente, muito em breve estarão aí a dar cartas no mundo do Jazz.

[Foto: André Gomes / facebook.com/auditoriodeespinhoacademia]

terça-feira, 5 de junho de 2018

CONCERTO: "Horns Ahead"



CONCERTO: “Horns Ahead”
Orquestra de Jazz da Escola Profissional de Música de Espinho
Fundação de Serralves
02 Jun 2018 | sab | 11:30


Para além de serem estrelas maiores no firmamento do Jazz, Kenny Doorham, Art Farmer, Chet Baker, Roy Eldridge, Dizzy Gillespie, Miles Davis ou Louis Armstrong têm em comum o facto de serem todos trompetistas de excepção. E foi precisamente em torno do trompete e da sua importância no desenvolvimento da linguagem jazzística, que a Escola de Jazz da Escola Profissional de Música de Espinho se apresentou na edição deste ano do Serralves em Festa para uma hora de grande música. Trouxe com ela, como solista, um virtuoso do trompete, João Moreira, actualmente Professor na Escola Superior de Música de Lisboa, um homem que conta com uma experiência de largos anos, tendo actuado com alguns dos mais relevantes músicos portugueses e estrangeiros e tocando actualmente com o cantor António Zambujo, para quem fez o arranjo orquestral do conhecidíssimo tema “Pica do 7”.

Seguindo um alinhamento muito próximo daquele que preencheu a noite do passado dia 21 de Abril, no Auditório de Espinho e, no dia seguinte, na Casa das Artes de Famalicão, a Orquestra de Jazz de Espinho “arrancou” com “Tiptoe”, de Thad Jones e prosseguiu com “Pipiwipi”, de Carlos Azevedo. Seguiu-se “I Remember Clifford”, de Benny Golson, com arranjos de Sammy Nestico, uma daquelas baladas únicas e intemporais, absolutamente marcantes na história do jazz e que constitui, ao mesmo tempo, uma bela e sentida homenagem a um dos maiores trompetistas de sempre, Clifford Brown, falecido num acidente de viação, aos 25 anos de idade. “Suite for Three”, de Bob Brookmeyer e “Extra Credit”, de Jim McNeely, foram igualmente momentos de grande música, tendo o concerto encerrado com Jovino Santos Neto e “The Fremont Seven”, um tema que integrará o programa do próximo desafio da Orquestra de Jazz de Espinho quando, ao final da tarde do dia 15 de Julho, se apresentar em palco ao lado do grande improvisador Hermeto Pascoal, multi-instrumentista brasileiro que Miles Davis classificou como “o músico mais impressionante do mundo”.

Tempo ainda para falar da Orquestra de Jazz de Espinho e dos seus dois mentores, Paulo Perfeito e Daniel Dias. Trata-se dum projecto extraordinariamente jovem e dinâmico, que teve a sua apresentação pública em 2009 e que encetou, desde então, um percurso artístico consistente no contexto da sua génese e especificidade ligada a uma escola Profissional de Música. Impulsionada e dirigida artisticamente na sua fase inicial por Paulo Perfeito, a Orquestra evoluiu para um modelo de Direcção Musical partilhada entre Paulo Perfeito e Daniel Dias, ambos maestros, pedagogos e trombonistas com carreira e não menos paixão no mundo do Jazz, responsáveis pela extraordinária evolução que a Orquestra entretanto conheceu ao longo dos últimos anos. Cerca de uma década após as primeiras notas, a Orquestra abalança-se agora a um patamar mais arrojado, assumindo um compromisso artístico mais abrangente, sem perder de vista, contudo, a sua identidade formativa e impulsionadora da interpretação da música para esta formação. Uma formação repetente no Serralves em Festa e que voltou a mostrar-se ao mais alto nível. A justificar um acompanhamento de muito perto, com o interesse que merece e o deleite que suscita.