Páginas

Mostrar mensagens com a etiqueta Julian Argüelles. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Julian Argüelles. Mostrar todas as mensagens

sábado, 11 de março de 2023

CONCERTO: "A Música dos Loose Tubes"



CONCERTO: “A Música dos Loose Tubes”
Orquestra de Jazz de Espinho
Direcção musical, composição e teclados | Django Bates
Convidado especial | Julian Argüelles
Auditório de Espinho - Academia
10 Mar 2023 | sex | 21:30


O concerto chegara ao fim e o “foyer” do Auditório de Espinho era ponto de encontro entre músicos e público. Enquanto Django Bates escrevia uma breve dedicatória no seu “Tenacity” que lhe pedira para assinar, aproveitava para lhe confessar a minha admiração e gratidão por tanta energia, por tão boa disposição, por tão extraordinários momentos. “Há muito tempo que não assistia a um concerto tão alegre, tão cheio de felicidade”, disse-lhe, na ressaca dessa imensa alegria, dessa onda de felicidade que submergiu o Auditório à boleia da música dos Loose Tubes. Porque esta música, feita há cerca de quatro décadas, numa altura em que o jazz europeu se reinventava na busca de novos caminhos, é naturalmente do melhor que podemos escutar ainda hoje. Mas também porque a Orquestra de Jazz de Espinho se mostrou ao seu melhor nível (a disposição dos músicos em torno da secção rítmica é uma excelente ideia, permitindo individualizar os vários naipes, em vez de uma certa amálgama de sons), porque o “convidado especial” Julian Argüelles mereceu mesmo o título de “especial” e porque Django Bates foi um espectáculo dentro do espectáculo.

Cruzando aquilo que podemos ler sobre o trajecto dos “Loose Tubes” e o que nos foi dado assistir na noite de ontem no Auditório de Espinho, diria que o público que esgotou praticamente a sala teve o privilégio de assistir à recriação de momentos ímpares da vida da banda e viver a atmosfera única que envolvia os seus concertos. Uma omnipresente nota de humor pede que nos libertemos das amarras de um quotidiano cada vez mais sombrio e nos deixemos arrebatar pela música. Nela encontramos, devidamente balanceados, a composição precisa e o pandemónio colectivo, o toque minimalista e o calor dos ritmos latinos, as notas de swing, de funk e de blues, num todo extraordinariamente enérgico, pleno de ritmo e harmonia. A atitude e a forte presença em palco é uma ode à vida e a todas as coisas boas que tem para nos oferecer e, neste capítulo, a Orquestra de Jazz de Espinho terá tido uma daquelas noites únicas e irrepetíveis. O último tema do alinhamento, “Arriving”, foi uma verdadeira apoteose, os músicos a subirem as escadas laterais sem pararem de tocar, o público ao alcance de uma mão estendida, a música mais bela e penetrante que nunca. Faltou o copo de cerveja na mão para um desejado e mais que merecido “cheers”.

Falemos então de Django Bates, reafirmando aquilo que pode ler-se na folha de sala que acompanhou o concerto: “Seja pelo humor irreverente, pela complexidade textural ou mesmo pelo carácter cativante deste multi-instrumentista e compositor britânico, os concertos de Django Bates são uma experiência sensorial que perdura muito além de se escutarem as últimas notas.” Tudo isto foi possível confirmar, tal como “o génio criativo e espírito iconoclasta que o caracterizam”. Temas como “Säd Afrika”, “Like Life”, “Yellow Hill”, “Eden Express” e “Night At The Circus” (já no “encore) são disso enormes exemplos, aos quais devo acrescentar “Creeper”, “Village” e o já referido “Arriving”, de Chris Batchelor, e, de Eddie Parker, “Exeter, King of Cities”, “Sosbun Brakk” ou “The Last Word”, o tema que abriu o concerto. Uma nota final para a Orquestra de Jazz de Espinho, com Julian Argüelles como um reforço de peso. A ele e ao seu saxofone se deveram alguns dos mais brilhantes solos da noite, nos quais foi extraordinariamente secundado por outros dois saxofonistas, Rafael Gomes e Bernal Muíños, pelos trompetistas João Almeida e Rodrigo Cunha, pelo clarinetista Edgar Silva ou pelo guitarrista Miguel Moreira. Grande noite em Espinho. Noite inesquecível!


segunda-feira, 6 de setembro de 2021

CONCERTO: "A Música de Duke Ellington"



CONCERTO: “A Música de Duke Ellington” | Orquestra de Jazz do Hot Clube de Portugal convida Julian Argüelles
Ovar em Jazz 2021
Centro de Arte de Ovar
04 Set 2021 | sab | 22:00 


Chegou ao fim a terceira edição do Ovar em Jazz. Ao longo de cinco dias, um vasto conjunto de espectáculos em sala e ao ar livre tomaram conta da cidade, oferecendo qualidade e variedade aos amantes desta particular forma de fazer e sentir a música. Com uma programação eclética, baseada em projectos suficientemente diferentes entre si de forma a puderem ir ao encontro de todos os gostos, o Ovar em Jazz voltou a constituir-se num dos mais relevantes momentos culturais do município, algo que continua a não ser entendido pelo público vareiro, as plateias a registarem números quase sempre aquém do desejável. Quero acreditar que o Festival continua a fazer o seu caminho e que tem uma boa margem para crescer, restando esperar pela próxima edição, supostamente em Abril do próximo ano, para que a tão desejada afirmação possa surgir em pleno.

A encerrar o ciclo de quatro concertos no Centro de Arte de Ovar, a Orquestra de Jazz do Hot Clube de Portugal trouxe-nos um programa de festa e celebração integralmente dedicado à música de Duke Ellington. Dirigida por Luís Cunha e tendo como convidado especial o saxofonista britânico Julian Argüelles, a Orquestra interpretou um conjunto de catorze temas escritos entre os anos de 1930 e 1950, permitindo recordar algumas das peças mais icónicas do compositor, a par de outras menos conhecidas mas nem por isso menos preciosas. Ao longo de uma hora e meia, o público teve a possibilidade de se deliciar com temas como “Jack the Bear”, “Blue Cellophane”, “Boy Meets Horn”, “Sunset and the Mockingbird”, o tema do filme de John Huston “The Asphalt Jungle” ou “Chinoiserie”, a primeira de oito partes da suite “The Afro-Eurasian Eclipse”.  The fora ficaram os imortais “Sophisticated Lady”, “Solitude”, “In a Sentimental Mood” ou “Take The A-Train” mas, enfim, não se pode ter tudo.

Julian Argüelles e a generosidade inspirada do seu saxofone foi, claramente, um dos pontos mais marcantes deste concerto. Distanciando-se das paisagens sonoras que fazem dele uma das referências maiores do jazz contemporâneo, soube acrescentar emoção e frescura à música de Ellington como a querer dizer-nos que a sua “zona de conforto” está onde está o jazz. Mas Argüelles não esteve só. Tomás Marques no saxofone alto, Paulo Gaspar no clarinete, Rui Ferreira no trombone e Tomás Pimentel e Johannes Krieger no trompete, raiaram o brilhantismo em solos plenos de inspiração e requinte. João Fragoso no contrabaixo e Pedro Felgar na bateria foram peças igualmente fundamentais na dinâmica de uma orquestra muitíssimo bem oleada e superiormente dirigida por Luís Cunha. Para o fim deixo Óscar Marcelino da Graça. Ele é, cada vez mais, um dos grandes pianistas que temos em Portugal. A sua prestação foi irrepreensível. Discreto ou exuberante, a sensação com que se fica é que por ele passou todo o concerto.

sábado, 20 de outubro de 2018

CONCERTO: Orquestra de Jazz de Espinho | Julian Argüelles



CONCERTO: “A Northern Wind”
Orquestra de Jazz de Espinho | Julian Argüelles
Direcção Musical | Daniel Dias, Paulo Perfeito
Auditório de Espinho – Academia
19 Out 2018 | sex | 21:30


O público atento ao fenómeno do Jazz saberá que Julian Argüelles é um dos mais reconhecidos compositores, arranjadores e instrumentistas da actualidade. Nascido em Lichfield, Staffordshire (Reino Unido), a sua carreira de saxofonista teve início em finais da década de 70, mas só em 1991 lançou o seu primeiro álbum como líder. Ao todo conta no currículo com 14 álbuns a título pessoal e inúmeras colaborações com nomes tão sonantes como os de Archie Shepp, Hermeto Pascoal, Dave Holland, Carla Bley, Kenny Wheller ou Django Bates. Foi precisamente esta figura enorme do mundo do jazz que esteve em palco ontem à noite, no Auditório da Academia de Música de Espinho, para o concerto “A Northern Wind”, com a Orquestra de Jazz de Espinho. E que bem que (se) esteve!

“You See, My Dear?”, suave balada que Argüelles escreveu para a sua “mais que tudo”, abriu o concerto da melhor forma, o artista a recuperar este tema do álbum “Momenta” (2009). Seguiu-se “Phaedrus”, tema que dá nome ao seu primeiro álbum, alguns preciosos momentos de Free Jazz a permitirem evidenciar a qualidade do solista. Os ritmos quentes da África do Sul viriam com “Mama Marimba”, uma composição de Johnny Dyani, com arranjos de Argüelles e, já no final, com “Mandisa”, um tema que Chris McGregor popularizou com essa verdadeira irmandade de virtuosos que foram os “seus” Brotherhood of Breath. Tempo ainda de escutar “Such Sweet Madness” e uma sequência de diálogos de metais absolutamente estonteante, de sentir uma fresca brisa da Escandinavia em “Charm Defensive”, uma das últimas encomendas para a banda Phronesis, com a Frankfurt Radio Big Band e que integra o álbum “The Behemoth” (2017) ou de vibrar com a intensidade e energia da música de Argüelles em “Hi Steve” e “Evan's Freedom Pass”, piano, bateria e vibrafone a imporem o ritmo e a mexerem com o público.

Aquilo que de mais emocionante teve este concerto foi a enorme sensibilidade, generosidade e humildade de Julian Argüelles, um artista que não vê a Orquestra como um apêndice mas como um parceiro cúmplice e comprometido, que se “apaga” sempre que sente que é importante dar espaço ao conjunto e que deixa a sua genialidade vir ao de cima em momentos a solo absolutamente sublimes. Esta atitude profundamente pedagógica, apenas possível numa pessoa que ama a música e a coloca acima de tudo, permitiu perceber a importância e o alcance desta parceria entre a Orquestra e o seu convidado, a sua riqueza em termos de aprendizagem e o notável trabalho e dedicação dos professores Daniel Dias e Paulo Perfeito, verdadeiras âncoras dum agrupamento com tanto de juventude como de virtuosismo. E se Julian Argüelles e a sua passagem por Espinho dificilmente se apagarão da memória, importa igualmente reter os nomes de Pedro Jerónimo, Rui Bandeira, João Sequeira, Pedro Mendes, João Cunha ou Diogo Dinis. Todos eles são exímios instrumentistas e, seguramente, muito em breve estarão aí a dar cartas no mundo do Jazz.

[Foto: André Gomes / facebook.com/auditoriodeespinhoacademia]