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segunda-feira, 20 de julho de 2026

CONCERTO: “The Last Sky” | Anouar Brahem



CONCERTO: “The Last Sky”
Com | Anouar Brahem (oud), Django Bates (piano), Anja Lechner (violoncelo), Mats Eilertsen (contrabaixo)
FIME – 52.º Festival Internacional de Música de Espinho
Auditório de Espinho – Academia
18 Jul 2026 | sab | 21:30

“Where should we go after the last frontiers?
Where should the birds fly after the last sky?
Where should the plants sleep after the last breath of air?
We will write our names with scarlet steam.
We will cut off the hand of the song to be finished by our flesh.
We will die here, here in the last passage.
Here and here our blood will plant its olive tree.”
Mahmoud Darwish, “The Earth Is Closing In On Us”

Quase na recta final do FIME – 52.º Festival Internacional de Música de Espinho, o compositor e oudista tunisino Anouar Brahem trouxe ao Auditório de Espinho o seu mais recente trabalho discográfico, “After the Last Sky”, confirmando que a sua música continua a ocupar um território onde tradição e contemporaneidade se misturam e confundem como matéria de um mesmo pensamento musical. Inspirado no verso do poeta palestiniano Mahmoud Darwish – “Where should the birds fly after the last sky?” -, o concerto olhou com o necessário distanciamento o drama humanitário de Gaza, assumindo-se como uma reflexão de cariz político e cujo alcance universal tocou as cordas do exílio, da perda, da memória e da resistência. Fazendo da contenção uma forma de profundidade, Anouar Brahem optou pela subtileza de uma escrita onde cada silêncio pesou tanto como cada nota. De “Remembering Hind” a “Edward Said's Reverie”, passando por “Never Forget”, “The Sweet Oranges of Jaffa” ou pelo tema que dá título ao concerto, a música derramou-se de forma deliberadamente lenta, permitindo que cada frase respirasse naturalmente e que o público pudesse descobrir, sem pressas, os delicados equilíbrios entre composição e improvisação.

Se Anouar Brahem se afirmou como centro gravitacional do concerto, a excelência do quarteto residiu precisamente na ausência de hierarquias ostensivas. Django Bates confirmou, uma vez mais, a sua extraordinária capacidade para encontrar cores harmónicas inesperadas, alternando momentos de delicada transparência com subtis desvios rítmicos que privilegiaram as margens agudas do piano e evitaram acomodações do discurso. No contrabaixo, Mats Eilertsen foi uma bela surpresa, sustentando toda a arquitectura sonora com uma autoridade discreta e uma notável economia de meios. O maior aplauso, porém, vai para Anja Lechner, que com o seu violoncelo soube acrescentar a “The Last Sky” uma dimensão camerística que o distingue claramente dos anteriores trabalhos de Brahem. Funcionando simultaneamente como prolongamento melódico dos restantes instrumentos e como voz autónoma, o violoncelo foi capaz de manter um diálogo profícuo com o oud e com o piano, fazendo emergir momentos de notável cumplicidade. O oud e o contrabaixo estiveram em evidência no inesquecível “The Eternal Olive Tree”, tema que soube afirmar-se como uma meditação serena sobre permanência e resiliência.

O silêncio quase reverencial que envolveu toda a sala ao longo do concerto tornou-se parte integrante da própria execução. As palavras dirigidas ao público foram escassas, sobressaindo a comunicação estabelecida integralmente através da música. Muito reclamado, o “encore” trouxe com ele “Vague”, síntese perfeita de um concerto contemplativo, mas que nunca perdeu de vista as dúvidas e inquietações expressas por Mahmoud Darwish e que são, afinal, as nossas próprias dúvidas e inquietações. Numa época em que o jazz contemporâneo vem privilegiando a complexidade estrutural ou a afirmação individual dos intérpretes, escutar Anouar Brahem foi precioso. Na sua forma de, através da música, desacelerar o tempo, eliminar o supérfluo e devolver ao silêncio uma função expressiva essencial, encontrou o público algo intrínseco à sua própria razão de existir. O resultado foi muito além do simples encontro entre o jazz e a música de raiz árabe, assumindo-se como espaço de encontro e de memória, como síntese madura entre diferentes tradições culturais. Em Espinho, Anouar Brahem reafirmou a sua singularidade enquanto criador e intérprete, demonstrando que a beleza, quando sustentada pela inteligência, rigor e humanidade, pode ser uma forma profundamente eficaz de resistência.

sábado, 11 de março de 2023

CONCERTO: "A Música dos Loose Tubes"



CONCERTO: “A Música dos Loose Tubes”
Orquestra de Jazz de Espinho
Direcção musical, composição e teclados | Django Bates
Convidado especial | Julian Argüelles
Auditório de Espinho - Academia
10 Mar 2023 | sex | 21:30


O concerto chegara ao fim e o “foyer” do Auditório de Espinho era ponto de encontro entre músicos e público. Enquanto Django Bates escrevia uma breve dedicatória no seu “Tenacity” que lhe pedira para assinar, aproveitava para lhe confessar a minha admiração e gratidão por tanta energia, por tão boa disposição, por tão extraordinários momentos. “Há muito tempo que não assistia a um concerto tão alegre, tão cheio de felicidade”, disse-lhe, na ressaca dessa imensa alegria, dessa onda de felicidade que submergiu o Auditório à boleia da música dos Loose Tubes. Porque esta música, feita há cerca de quatro décadas, numa altura em que o jazz europeu se reinventava na busca de novos caminhos, é naturalmente do melhor que podemos escutar ainda hoje. Mas também porque a Orquestra de Jazz de Espinho se mostrou ao seu melhor nível (a disposição dos músicos em torno da secção rítmica é uma excelente ideia, permitindo individualizar os vários naipes, em vez de uma certa amálgama de sons), porque o “convidado especial” Julian Argüelles mereceu mesmo o título de “especial” e porque Django Bates foi um espectáculo dentro do espectáculo.

Cruzando aquilo que podemos ler sobre o trajecto dos “Loose Tubes” e o que nos foi dado assistir na noite de ontem no Auditório de Espinho, diria que o público que esgotou praticamente a sala teve o privilégio de assistir à recriação de momentos ímpares da vida da banda e viver a atmosfera única que envolvia os seus concertos. Uma omnipresente nota de humor pede que nos libertemos das amarras de um quotidiano cada vez mais sombrio e nos deixemos arrebatar pela música. Nela encontramos, devidamente balanceados, a composição precisa e o pandemónio colectivo, o toque minimalista e o calor dos ritmos latinos, as notas de swing, de funk e de blues, num todo extraordinariamente enérgico, pleno de ritmo e harmonia. A atitude e a forte presença em palco é uma ode à vida e a todas as coisas boas que tem para nos oferecer e, neste capítulo, a Orquestra de Jazz de Espinho terá tido uma daquelas noites únicas e irrepetíveis. O último tema do alinhamento, “Arriving”, foi uma verdadeira apoteose, os músicos a subirem as escadas laterais sem pararem de tocar, o público ao alcance de uma mão estendida, a música mais bela e penetrante que nunca. Faltou o copo de cerveja na mão para um desejado e mais que merecido “cheers”.

Falemos então de Django Bates, reafirmando aquilo que pode ler-se na folha de sala que acompanhou o concerto: “Seja pelo humor irreverente, pela complexidade textural ou mesmo pelo carácter cativante deste multi-instrumentista e compositor britânico, os concertos de Django Bates são uma experiência sensorial que perdura muito além de se escutarem as últimas notas.” Tudo isto foi possível confirmar, tal como “o génio criativo e espírito iconoclasta que o caracterizam”. Temas como “Säd Afrika”, “Like Life”, “Yellow Hill”, “Eden Express” e “Night At The Circus” (já no “encore) são disso enormes exemplos, aos quais devo acrescentar “Creeper”, “Village” e o já referido “Arriving”, de Chris Batchelor, e, de Eddie Parker, “Exeter, King of Cities”, “Sosbun Brakk” ou “The Last Word”, o tema que abriu o concerto. Uma nota final para a Orquestra de Jazz de Espinho, com Julian Argüelles como um reforço de peso. A ele e ao seu saxofone se deveram alguns dos mais brilhantes solos da noite, nos quais foi extraordinariamente secundado por outros dois saxofonistas, Rafael Gomes e Bernal Muíños, pelos trompetistas João Almeida e Rodrigo Cunha, pelo clarinetista Edgar Silva ou pelo guitarrista Miguel Moreira. Grande noite em Espinho. Noite inesquecível!