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segunda-feira, 20 de julho de 2026

CONCERTO: “The Last Sky” | Anouar Brahem



CONCERTO: “The Last Sky”
Com | Anouar Brahem (oud), Django Bates (piano), Anja Lechner (violoncelo), Mats Eilertsen (contrabaixo)
FIME – 52.º Festival Internacional de Música de Espinho
Auditório de Espinho – Academia
18 Jul 2026 | sab | 21:30

“Where should we go after the last frontiers?
Where should the birds fly after the last sky?
Where should the plants sleep after the last breath of air?
We will write our names with scarlet steam.
We will cut off the hand of the song to be finished by our flesh.
We will die here, here in the last passage.
Here and here our blood will plant its olive tree.”
Mahmoud Darwish, “The Earth Is Closing In On Us”

Quase na recta final do FIME – 52.º Festival Internacional de Música de Espinho, o compositor e oudista tunisino Anouar Brahem trouxe ao Auditório de Espinho o seu mais recente trabalho discográfico, “After the Last Sky”, confirmando que a sua música continua a ocupar um território onde tradição e contemporaneidade se misturam e confundem como matéria de um mesmo pensamento musical. Inspirado no verso do poeta palestiniano Mahmoud Darwish – “Where should the birds fly after the last sky?” -, o concerto olhou com o necessário distanciamento o drama humanitário de Gaza, assumindo-se como uma reflexão de cariz político e cujo alcance universal tocou as cordas do exílio, da perda, da memória e da resistência. Fazendo da contenção uma forma de profundidade, Anouar Brahem optou pela subtileza de uma escrita onde cada silêncio pesou tanto como cada nota. De “Remembering Hind” a “Edward Said's Reverie”, passando por “Never Forget”, “The Sweet Oranges of Jaffa” ou pelo tema que dá título ao concerto, a música derramou-se de forma deliberadamente lenta, permitindo que cada frase respirasse naturalmente e que o público pudesse descobrir, sem pressas, os delicados equilíbrios entre composição e improvisação.

Se Anouar Brahem se afirmou como centro gravitacional do concerto, a excelência do quarteto residiu precisamente na ausência de hierarquias ostensivas. Django Bates confirmou, uma vez mais, a sua extraordinária capacidade para encontrar cores harmónicas inesperadas, alternando momentos de delicada transparência com subtis desvios rítmicos que privilegiaram as margens agudas do piano e evitaram acomodações do discurso. No contrabaixo, Mats Eilertsen foi uma bela surpresa, sustentando toda a arquitectura sonora com uma autoridade discreta e uma notável economia de meios. O maior aplauso, porém, vai para Anja Lechner, que com o seu violoncelo soube acrescentar a “The Last Sky” uma dimensão camerística que o distingue claramente dos anteriores trabalhos de Brahem. Funcionando simultaneamente como prolongamento melódico dos restantes instrumentos e como voz autónoma, o violoncelo foi capaz de manter um diálogo profícuo com o oud e com o piano, fazendo emergir momentos de notável cumplicidade. O oud e o contrabaixo estiveram em evidência no inesquecível “The Eternal Olive Tree”, tema que soube afirmar-se como uma meditação serena sobre permanência e resiliência.

O silêncio quase reverencial que envolveu toda a sala ao longo do concerto tornou-se parte integrante da própria execução. As palavras dirigidas ao público foram escassas, sobressaindo a comunicação estabelecida integralmente através da música. Muito reclamado, o “encore” trouxe com ele “Vague”, síntese perfeita de um concerto contemplativo, mas que nunca perdeu de vista as dúvidas e inquietações expressas por Mahmoud Darwish e que são, afinal, as nossas próprias dúvidas e inquietações. Numa época em que o jazz contemporâneo vem privilegiando a complexidade estrutural ou a afirmação individual dos intérpretes, escutar Anouar Brahem foi precioso. Na sua forma de, através da música, desacelerar o tempo, eliminar o supérfluo e devolver ao silêncio uma função expressiva essencial, encontrou o público algo intrínseco à sua própria razão de existir. O resultado foi muito além do simples encontro entre o jazz e a música de raiz árabe, assumindo-se como espaço de encontro e de memória, como síntese madura entre diferentes tradições culturais. Em Espinho, Anouar Brahem reafirmou a sua singularidade enquanto criador e intérprete, demonstrando que a beleza, quando sustentada pela inteligência, rigor e humanidade, pode ser uma forma profundamente eficaz de resistência.

domingo, 12 de julho de 2026

CONCERTO: Martín Sued & Orquestra Assintomática com Yamandu Costa



CONCERTO: “Saga” | Martín Sued & Orquestra Assintomática com Yamandu Costa
Com | Yamandu Costa (violão de sete cordas), Martín Sued (bandoneón, arranjos e direcção), Gustavo Cabrera (violino), Sandra Martins (violoncelo), Cristian Basto (contrabaixo), Sergio Escalera (piano), Alan Plachta (guitarra)
FIME – 52.º Festival Internacional de Música de Espinho
Auditório de Espinho – Academia
10 Jul 2026 | sex | 21:30


O concerto de Martín Sued e da Orquestra Assintomática, com a participação especial de Yamandú Costa, constituiu um dos momentos mais singulares da primeira metade da 52.ª edição do Festival Internacional de Música de Espinho. No centro das atenções esteve “Saga”, projecto discográfico que remonta a 2023 e que faz da exploração da identidade musical sul-americana o seu grande desígnio. Embora o bandoneón de Martín Sued evoque inevitavelmente o universo do tango, a sua linguagem composicional vai muito além dessa referência, integrando elementos da música de câmara, do jazz, da improvisação e de diversas expressões populares das músicas da América do Sul. Criada pelo próprio músico argentino, a Orquestra Assintomática funciona como um verdadeiro laboratório sonoro, em cujo cerne cada instrumento assume a construção de narrativas ricas em contrastes, alternando momentos de grande delicadeza com passagens de intensa energia rítmica. O resultado é uma música profundamente expressiva, cinematográfica e contemporânea, que se mostrou capaz de transportar o público através de diferentes paisagens emocionais, num todo de enorme coerência artística.

A presença de Yamandú Costa acrescentou uma dimensão muito especial a este projecto. Reconhecido internacionalmente como um dos maiores intérpretes do violão de sete cordas, o músico brasileiro distingue-se não apenas pelo virtuosismo extraordinário, mas também pela forma como alia técnica, sensibilidade e imaginação. Em “Saga”, contudo, o seu papel vai muito além da participação de um solista convidado. As composições apresentadas são da sua autoria, tendo sido desenvolvidas e orquestradas por Martín Sued para esta formação, criando um diálogo permanente entre o violão, o bandoneón e o restante ensemble. Em vez de uma sucessão de momentos de exibição individual, o que emerge é uma verdadeira conversa musical, em que cada intervenção contribui para um todo maior. Inspiradas na tradição do sul do Brasil, as composições convivem de forma natural com as influências argentinas, uruguaias e bolivianas, enquanto os espaços dedicados à improvisação surgem integrados na arquitectura das obras, dotando-as de uma permanente sensação de descoberta, espontaneidade e liberdade.

Marcado pela cumplicidade entre os músicos e por um equilíbrio perfeito entre o rigor da escrita e a liberdade criativa, o concerto afirmou-se como um excelente exemplo da linha artística que o FIME tem vindo a consolidar nas últimas edições: uma programação que valoriza o encontro entre diferentes culturas, linguagens e formas de criação musical. “Saga” não procurou reproduzir modelos tradicionais nem revisitar repertórios conhecidos. Antes propôs uma visão atual da música sul-americana, aberta ao diálogo com a música erudita contemporânea, o jazz e outras formas de expressão instrumental. Foi quase hora e meia de espectáculo pensado para ser vivido como uma peça em contínuo, cada tema ligado ao seguinte através de uma narrativa musical cuidadosamente construída. Os apreciadores da intensidade emocional de Astor Piazzolla encontraram certamente ecos desse universo, mas descobriram igualmente uma linguagem própria, marcada pela elegância dos arranjos, pela riqueza tímbrica da orquestra e pela capacidade de surpreender a cada momento. Mais do que um concerto de tango, de jazz ou de música popular, esta foi uma celebração da criatividade, da escuta e do encontro entre músicos que partilham uma visão artística profundamente contemporânea, oferecendo ao público uma experiência envolvente e sofisticada. Memorável!

domingo, 5 de julho de 2026

CONCERTO: radio.string.quartet



CONCERTO: radio.string.quartet
Com | Bernie Mallinger (violino, sansula, voz, electrónica), Cynthia Liao (viola, voz), Sophie Abraham (violoncelo, garrafas, voz), Igmar Jenner (violino, electrónica)
FIME - 52.º Festival Internacional de Música de Espinho
Auditório de Espinho - Academia
03 Jul 2026 | sex | 21:30


Não saíram goradas as expectativas daqueles que, na noite da passada sexta-feira, acorreram ao Auditório de Espinho confiantes na possibilidade de assistir a um dos momentos mais singulares da presente edição do FIME. Sediados em Viena, os radio.string.quartet têm vindo, desde a sua fundação, a afirmar-se como uma das formações mais inventivas do panorama europeu, desafiando sistematicamente as fronteiras entre a música erudita, o jazz, a improvisação e a electrónica. Ao contrário de muitos quartetos contemporâneos que se limitam à interpretação do repertório clássico, o agrupamento austríaco parte das obras originais para as recriar, cruzando épocas, linguagens e referências, acrescentando-lhes novas camadas de significado sem jamais perder de vista a sua identidade. O resultado é um exercício de rara inteligência musical, onde imaginação, rigor técnico, bom gosto e um subtil sentido de humor convivem em absoluto equilíbrio. Em perfeita sintonia com o espírito do FIME, os radio.string.quartet ofereceram um concerto marcado pela imprevisibilidade e pela inovação, envolvendo uma plateia que faz do eclectismo uma marca da sua escuta e que respondeu, desde os primeiros compassos, com manifesta curiosidade e entusiasmo às sucessivas surpresas de um programa que recusou, do princípio ao fim, qualquer forma de convencionalismo.

A primeira parte do concerto recuperou o mais recente trabalho discográfico do quarteto, “aERO – four seasons VOL.1”, revisitando o universo das “Quatro Estações”, de Antonio Vivaldi. Sem comprometer ou desfigurar as linhas melódicas ou a arquitectura harmónica da obra original, Bernie Mallinger, Igmar Jenner, Cynthia Liao e Sophie Abraham expandiram-lhe o horizonte expressivo através de uma abordagem profundamente criativa, onde a improvisação assumiu um papel central. Muito distante da imagem tradicional dos músicos imóveis perante a partitura, o quarteto revelou uma comunicação permanente entre os seus elementos, transformando cada olhar, cada gesto e cada silêncio em matéria musical. A exuberância rítmica da “Primavera” e do “Verão” alternou com momentos de grande introspecção, desenhando um percurso sonoro pelo interior de cada um dos presentes, non qual avultou uma notável riqueza tímbrica e emocional. A utilização discreta da electrónica permitiu ampliar as sonoridades e multiplicar as possibilidades expressivas do conjunto, sem nunca ocultar a beleza natural dos instrumentos acústicos. O resultado foi uma leitura simultaneamente fiel e ousada, capaz de revelar facetas inesperadas de uma obra tantas vezes escutada, confirmando a excepcional maturidade artística do quarteto.

O ambiente barroco prolongou-se na segunda parte do programa com “B:A:C:H: – like waters”, trabalho editado em 2022 e inspirado na célebre “Sonata para Violino em Sol menor”, de Johann Sebastian Bach. Mais do que uma simples adaptação, a proposta dos radio.string.quartet mostrou-se capaz de traduzir a linguagem do compositor para o século XXI através de um discurso profundamente pessoal, preservando intacta a essência da escrita bachiana, ao mesmo tempo que a envolvia numa estética próxima do jazz contemporâneo e da música experimental. A metáfora da água, fio condutor de toda a obra, conduziu o público numa narrativa musical que partiu da luminosidade de “High Altitude Euphoria”, percorreu sucessivas paisagens sonoras e culminou num arrebatador “Presto”, onde a corrente inicial se transformou numa autêntica torrente de energia e virtuosismo. Ficou assim demonstrado que a tradição pode permanecer bem viva quando colocada nas mãos de intérpretes capazes de dialogar com ela sem receios nem excessiva reverência. O aplauso prolongado da assistência justificou um encore particularmente feliz, com “Song – Ode an den Freud”, do álbum Radiodream (2011), encerrando uma noite em que a liberdade criativa e a excelência interpretativa caminharam lado a lado e confirmaram os radio.string.quartet como uma das propostas mais estimulantes da actual cena musical europeia.

terça-feira, 30 de junho de 2026

CONCERTO: Elias David Moncado & Thomas Hoppe



CONCERTO: Elias David Moncado & Thomas Hoppe
Com | Elias David Moncado (violino) e Thomas Hoppe (piano)
FIME – 52º Festival Internacional de Música de Espinho
Auditório de Espinho – Academia
27 Jun 2026 | Sab | 21:30


O Festival Internacional de Música de Espinho persiste em afirmar, ano após ano, o estatuto que conquistou desde a sua criação, em 1964, como um marco incontornável da vida cultural da cidade e uma referência maior no panorama musical português. A abrir o segundo fim-de-semana da 52.ª edição do FIME, o Auditório de Espinho acolheu um recital de invulgar qualidade protagonizado pelo violinista Elias David Moncado e pelo pianista Thomas Hoppe, dois intérpretes de gerações distintas, mas artisticamente cúmplices, que ofereceram uma leitura exigente e profundamente expressiva de um programa tão diversificado quanto coerente. Do romantismo intimista de Johannes Brahms ao refinamento modernista de Maurice Ravel, passando pela monumental sonata de César Franck e culminando na exuberante “Carmen Fantasia” de Franz Waxman, o concerto revelou-se uma demonstração de virtuosismo ao serviço da música. A elegância da construção do programa permitiu estabelecer pontes entre diferentes linguagens estéticas, oferecendo ao público uma viagem por quase um século de criação musical.

A primeira parte evidenciou, desde logo, a maturidade interpretativa da dupla de intérpretes. Na “Sonata para violino e piano n.º 2, em Lá maior, Op. 100” de Johannes Brahms, Moncado fez sobressair um fraseado luminoso, de grande naturalidade, encontrando em Thomas Hoppe um parceiro de notável sensibilidade, cuja presença ao piano se afirmou muito para além do simples acompanhamento. O equilíbrio entre ambos revelou-se exemplar, permitindo que cada linha melódica respirasse com liberdade, num permanente diálogo de intenções e de cores tímbricas. A transição para a “Sonata para violino e piano n.º 2, em Sol maior, M. 77”, de Maurice Ravel, representou uma mudança radical de universo sonoro, explorada com inteligência e rigor. As influências jazzísticas do célebre andamento “Blues” foram abordadas com subtileza, evitando qualquer caricatura estilística, enquanto o fulgurante “Perpetuum mobile” colocou em evidência a extraordinária segurança técnica de Moncado, apoiada por um piano de impressionante precisão rítmica e clareza estrutural.

Após o intervalo assistiu-se ao momento alto do concerto, com a monumental “Sonata para violino e piano, em Lá maior”, de César Franck, a confirmar a profundidade artística da parceria, numa interpretação que conciliou intensidade emocional, amplitude arquitectónica e permanente sentido narrativo. A progressão cíclica da obra encontrou nos dois músicos uma leitura de grande unidade, sustentada por um equilíbrio exemplar entre tensão e lirismo, sem nunca perder a clareza das diferentes camadas discursivas. Thomas Hoppe voltou a afirmar-se como um pianista de recursos extraordinários, capaz de conjugar potência sonora com delicadeza de toque, enquanto Elias David Moncado impressionou pela riqueza tímbrica, pela afinação irrepreensível e pela expressividade de um som simultaneamente nobre e incisivo. O concerto encerrou com a arrebatadora “Carmen Fantasia”, de Franz Waxman, na célebre transcrição de Jascha Heifetz, autêntico desafio técnico que ambos superaram com assinalável brilhantismo. O prolongado aplauso da assistência confirmou o êxito de uma noite que honrou plenamente a tradição de excelência do Festival Internacional de Música de Espinho.

quinta-feira, 30 de abril de 2026

CONCERTO: Selma Uamusse & Projeto Benjamim



CONCERTO: Selma Uamusse & Projeto Benjamim
Com | Selma Uamusse (voz), Augusto Macedo (percussões, baixo, piano), Paulo das Cavernas (percussão), Ana Cortês (bateria)
Direcção musical Projeto Benjamim | Jonas Pinho, Daniela Leite Castro
Auditório de Espinho - Academia
26 Abr 2026 | dom | 18:00


Exercício pleno de liberdade, daqueles que rejeitam encerrar-se na memória breve de um concerto, o encontro de Selma Uamusse com o Projeto Benjamim foi um momento inesquecível, com tanto de inspirador e transformador, quanto de belo e livre. Desde o primeiro instante, percebeu-se que a energia em palco rasgava amarras, pronta a expandir-se pela sala de forma orgânica e a contagiar músicos e público. Fiel ao seu desígnio de cruzar linguagens e explorar novas fronteiras, o Projeto Benjamim da Escola Profissional de Música de Espinho encontrou neste desafio território fértil, através do qual alunos do Curso Básico de Instrumento se libertaram da rigidez académica para abraçar o risco, a improvisação e o diálogo com universos “não clássicos”. Essa vocação, iniciada em 2019 e amadurecida em colaborações diversas, atingiu aqui uma expressão particularmente eloquente, com cerca de noventa jovens em palco, não como meros acompanhantes, mas como corpos vivos de uma experiência colectiva que soube construir-se sob o signo maior da partilha, da cumplicidade e da emoção.

Selma Uamusse emergiu como verdadeiro eixo desta constelação, não apenas pela sua extraordinária voz, mas pela forma como corporizou uma ideia de liberdade que atravessou todo o espectáculo. Recusando categorias fixas, a sua presença abraçou territórios de uma vastidão imensa: entre Moçambique e Portugal, entre a tradição e a reinvenção, entre o íntimo e o político. Ao interpelar o público, ao convidar espectadores para o palco, ao irromper plateia acima e dissolver a distância convencional entre artista e audiência, Selma Uamusse fez do concerto um espaço comum, quase ritual, cruzando e reconfigurando gentes e lugares, estados de alma e modos de ver. A evocação de Zeca Afonso - em temas como “Menino do Bairro Negro”, “Canção de Embalar”, “Lá no Xepangara” ou a inevitável “Grândola, Vila Morena” - não surgiu como gesto nostálgico, mas como reafirmação de um legado vivo, reinterpretado à luz de outras geografias e outras lutas. E quando as vozes de adolescentes e jovens se uniram nesses cânticos, o que se ouviu foi menos homenagem e mais continuidade.

Por contraste implícito, o concerto deixou entrever o que teria sido impossível há pouco mais de meio século: uma mulher africana a cantar nas suas línguas, a dirigir um colectivo, a ocupar o palco sem tutela; jovens a escolher a música como prática quotidiana num contexto de ensino público e acessível; uma plateia convidada a desfilar, livre e feliz, pelas ruas desta “cidade sem muros nem ameias”. Nesse sentido, o concerto encerrou um gesto político de enorme significado e alcance, misturando e confundindo alegria, esperança, vontade, consciência e liberdade. Em músicas como “Hoyo Hoyo” ou “Xikwembu”, “Hope” ou “Mati”, a liberdade que Selma Uamusse e o Projeto Benjamim quiseram trazer não foi abstracta nem decorativa, mas histórica, concreta, afirmativa, conquistada, sofrida, viva. No final, por entre a imensa onda de aplausos, ficou a certeza de se ter vivido um raro momento em que a arte se cumpriu sem reservas e a liberdade foi matéria presente, pulsante, construída no dia a dia e que importa defender e preservar.

segunda-feira, 6 de abril de 2026

CONCERTO: “A Reforma de Mendelssohn” | Orquestra XXI



CONCERTO: “A Reforma de Mendelssohn”
Orquestra XXI
Piano e direcção musical | Dinis Sousa
Auditório de Espinho
04 Abr 2026 | sab | 18:00


Numa quadra atravessada por incertezas, tensões e uma difusa sensação de transição, o concerto de final de tarde do passado sábado, no Auditório de Espinho, assumiu um particular simbolismo. Integrado no período pascal - momento de recolhimento, mas também de renovação -, este programa da Orquestra XXI trouxe consigo uma ideia de recomeço que extravasou o mero gesto artístico. Há, nesta formação, algo de profundamente comovente: um colectivo extraordinariamente jovem, disperso pelos grandes centros musicais europeus, que regressa ciclicamente ao nosso país para reafirmar uma identidade comum. Sob a direcção de Dinis Sousa, a Orquestra XXI revela uma maturidade interpretativa que contrasta com a sua juventude, apresentando um som coeso, vibrante e intensamente comunicativo. Não se trata apenas de competência técnica - amplamente demonstrada -, mas de uma consciência estilística e de uma entrega expressiva que colocam este agrupamento num patamar de relevância raro no panorama nacional.

Inteligentemente concebido em torno da espiritualidade e da ideia de travessia, o programa abriu com o evocativo “Mar Calmo e Próspera Viagem, Op, 27”, de Felix Mendelssohn, cuja quietude inicial virá a dar lugar a uma energia luminosa, quase redentora. Seguiu-se o “Concerto para piano e orquestra n.º 1 em Ré menor, BWV 1052”, de Johann Sebastian Bach, com o próprio Dinis Sousa ao piano, numa leitura de grande clareza estrutural e refinamento tímbrico. Foi, contudo, no segundo andamento que se atingiu um momento de particular suspensão, uma página de beleza serena, o tempo como que a dilatar-se e a permitir à música respirar com uma naturalidade quase orgânica. Já na Sinfonia n.º 5 em Ré maior, Op. 107 “A Reforma”, Mendelssohn revelou-se plenamente como ponte de união do rigor clássico e da expressividade nascente do romantismo. O seu segundo andamento, de inspiração quase popular, trouxe uma leveza contrastante, como se a tradição se reinventasse num gesto de proximidade e humanidade, oferecendo um raro momento de intimidade no seio de uma obra de forte densidade simbólica.

No seu todo, o concerto afirmou-se como um acontecimento de elevada qualidade artística, mas também como um acto de resistência cultural. Numa semana particularmente difícil para o Auditório de Espinho - confrontado com a incompreensível recusa de apoio por parte da Direcção-Geral das Artes para o próximo quadriénio -, este momento adquiriu uma dimensão quase política. Ao longo de décadas, esta instituição construiu uma programação consistente e ambiciosa, trazendo a Espinho alguns dos mais relevantes nomes da cena clássica e jazzística internacional. O que ontem se ouviu em palco foi também o resultado desse trabalho continuado, dessa visão sustentada que agora parece ser ignorada por decisões difíceis de compreender. Perante tal cenário, resta sublinhar o contraste gritante entre a excelência artística vivida na sala e a fragilidade das estruturas que a tornam possível. E, sobretudo, reconhecer que, enquanto houver projectos como a Orquestra XXI e públicos dispostos a esgotar salas, haverá sempre uma razão para acreditar na persistência e na necessidade de projectos como os do Auditório de Espinho.

domingo, 22 de março de 2026

CONCERTO: Rabih Abou-Khalil



CONCERTO: Rabih Abou-Khalil
Com | Rabih Abou-Khalil (oud), Mateusz Smoczynski (violino), Krzysztof Lenczowski (violoncelo), Jarrod Cagwin (bateria e percussões)
Auditório de Espinho - Academia
20 Mar 2026 | sex | 21:30


A música de Rabih Abou-Khalil impõe-se nos dias de hoje como um dos mais lúcidos exercícios de superação de fronteiras, não apenas estéticas, mas também sociais, culturais, políticas e até religiosas. Nascido no caldo cosmopolita de Beirute e formado entre tradições aparentemente inconciliáveis, o músico construiu ao longo de décadas uma linguagem singular que recusa compartimentos estanques. O seu oud não se limita a ecoar heranças árabes, antes dialoga com o jazz, com a música erudita europeia e com uma ideia profundamente contemporânea de circulação cultural. Percebe-se nesse gesto a recusa explícita do exotismo fácil e da apropriação superficial, substituídos por um encontro de géneros em plano de igualdade, no qual cada frase sonora se expõe e se transforma. Ao escutá-lo, percebemos que a sua música não pretende cruzar geografias, antes dissolvê-las, criando um território outro onde identidade e alteridade coexistem sem hierarquias. Longe de qualquer discurso panfletário, esse desígnio concretiza-se numa escrita rítmica e melódica de grande complexidade, que soa simultaneamente estranha e familiar, desafiando o ouvinte a abandonar certezas e a habitar um espaço de escuta verdadeiramente plural.

Foi com o fito nesse horizonte que Rabih Abou-Khalil se apresentou no Auditório de Espinho, numa noite que viria a encerrar da melhor forma o primeiro trimestre de uma sala cuja programação prima, com notável consistência, pela qualidade e ecletismo. Perante um público que esgotou o espaço e reagiu com entusiasmo às propostas que preencheram o alinhamento, a mestria de Rabih Abou-Khalil revelou-se desde os primeiros instantes como eixo agregador de um quarteto em estado de graça, ao mesmo tempo que o músico mostrou sentir-se em casa, fazendo questão de se exprimir em português num registo próximo e bem-humorado. Nas suas palavras, os temas foram-se alinhando entre espiões americanos e gastronomia finlandesa, dois polacos pelo preço de um, a trabalheira que dá encontrar uma mulher, a dificuldade de explicar o que não tem explicação ou os sonhos de uma cidade a morrer, construindo uma narrativa paralela que ampliou a escuta. O violinista Mateusz Smoczynski acrescentou um lirismo incisivo, capaz de oscilar entre a delicadeza camerística e a energia improvisada, enquanto o violoncelista Krzysztof Lenczowski ancorou o discurso numa densidade tímbrica de grande subtileza. Já Jarrod Cagwin, na bateria e percussões, edificou uma arquitectura rítmica simultaneamente precisa e orgânica, sustentando e desafiando o colectivo.

Mais do que um simples concerto, o que se viveu na noite da passada sexta-feira em Espinho foi uma experiência de imersão total, os diálogos entre os instrumentos a abrirem possibilidades sonoras quase inesgotáveis e a manterem o público num estado de atenção vibrante, respondendo com entusiasmo a cada inflexão. O oud de Rabih Abou-Khalil teve tanto de narração como de provocação, lançando motivos que o violino e o violoncelo souberam expandir ou contrariar, ao mesmo tempo que a percussão redesenhava o chão rítmico. Houve momentos de rara contenção, em que o silêncio pareceu tão expressivo quanto as notas, seguidos de explosões de energia contagiante, plenos de clareza e intencionalidade. Em constante mutação, essa dinâmica consolidou uma relação de cumplicidade entre o palco e a plateia, com o humor das histórias e a densidade da música a entrelaçarem-se de forma natural. No final, restou a sensação de termos podido assistir a um acontecimento pleno e irrepetível, onde o virtuosismo, a escuta mútua e a imaginação convergiram num equilíbrio quase milagroso, confirmando não apenas a singularidade do músico libanês, mas também a relevância de um espaço que continua a afirmar-se como lugar privilegiado para experiências artísticas do mais vasto espectro.

domingo, 15 de março de 2026

CONCERTO: "Retorno" | Mário Laginha



CONCERTO: “Retorno”
Mário Laginha
Auditório de Espinho - Academia
13 Mar 2026 | sex | 21:30


O palco do Auditório de Espinho voltou a acolher um músico que ali regressa com a familiaridade de quem reconhece o lugar e a sua respiração. Mário Laginha apresentou “Retorno”, o seu mais recente trabalho discográfico, assumindo-o como um gesto de reencontro com o piano a solo quase duas décadas depois do lançamento de “Canções e Fugas”. Este não foi, porém, um regresso nostálgico, antes um movimento natural de um artista que, tendo percorrido inúmeros territórios de partilha musical, decide agora regressar a essa solidão criativa que, como o próprio reconhece, nunca lhe foi propriamente estranha. Sentado ao piano, Mário Laginha revelou as suas qualidades de compositor versátil e imaginativo, de executante exímio capaz de transformar cada frase numa pequena narrativa sonora. Num espaço onde afirma sentir-se “uma energia fantástica”, estabeleceu com o instrumento uma simbiose rara, como se cada tecla fosse a extensão imediata do pensamento. O concerto adquiriu, assim, um carácter de íntima revelação, pontuado por um diálogo cúmplice com o público, feito de breves comentários e de um humor discreto, sobretudo ao explicar a origem ou o título de cada peça. Essa leveza, longe de quebrar a intensidade musical, contribuiu para aproximar ainda mais a plateia de um universo sonoro que oscila entre a disciplina da composição e a liberdade do instante.

Entre os vários momentos que desenharam a arquitectura da noite, destacaram-se os dois improvisos que abriram, com fulgor quase inaugural, cada uma das metades do concerto. Neles se percebeu com particular nitidez a filosofia que atravessa “Retorno”: a fascinante possibilidade de se sentar ao piano sem saber exactamente o que virá a seguir. As peças nasceram diante do público com uma vitalidade imediata, como se a música estivesse a descobrir-se a si própria no momento da execução. Esse impulso criativo encontrou eco em temas de grande carácter. “Santo Amaro”, inspirado na pequena localidade costeira da ilha do Pico onde o músico costuma passar férias, revelou um lirismo ondulante, quase marítimo, deixando no ar uma melodia que parecia avançar e recuar como a própria maré. Já “Another Kind of Strike”, “Fogato Baião” e “Batuque” trouxeram para o centro do palco uma energia rítmica contagiante, o pianista a fazer valer um sentido de pulsação que tanto deve ao jazz como às múltiplas geografias musicais que tem atravessado. Ao longo destas peças, a escrita e a improvisação entrelaçaram-se com naturalidade: ora a música pareceu seguir um trilho cuidadosamente delineado, ora se libertou dele com uma espontaneidade luminosa. Nesse equilíbrio instável, mas sempre controlado, residiu grande parte do fascínio do concerto.

A atmosfera mudou de cor em “Retorno”, peça que deu nome ao álbum e que trouxe consigo uma doçura quase contemplativa, como se o pianista abrisse um espaço de recolhimento no meio da exuberância rítmica que atravessou a noite. A interpretação deixou perceber também as influências mais recentes do seu percurso, em particular o diálogo que manteve com o universo do fado através da colaboração com Camané, influência que o próprio reconhece ter deixado entrar, lentamente, na sua linguagem musical. Já no “encore”, Mário Laginha ofereceu ao público “Mãos na Parede”, homenagem delicada a Carlos Paredes, por alturas do centenário do seu nascimento, um gesto de memória que foi acolhido com emoção pelo publico. A fechar o concerto surgiu “Tanto Espaço”, composição originalmente editada no álbum “Espaço”, aqui revisitada num formato depurado que revelou novas transparências na escrita do compositor. Foi um final à altura de uma noite memorável, um concerto onde a técnica, a imaginação, a improvisação e a maturidade artística se fundiram num discurso profundamente humano. Mais do que apresentar um disco, Mário Laginha confirmou aquilo que “Retorno” já deixava adivinhar: que regressar, as mais das vezes, é apenas uma outra forma de seguir em frente.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

CONCERTO: “Fernando Lopes-Graça: Glosas e Embalos” | Luís Duarte



CONCERTO: “Fernando Lopes-Graça: Glosas e Embalos”
Com | Luís Duarte (piano)
Auditório de Espinho - Academia
31 Jan 2026 | sab | 21:30 


Na noite do passado sábado, o Auditório de Espinho acolheu um recital do pianista Luís Duarte, intitulado “Fernando Lopes-Graça: Glosas e Embalos”. Espaço de escuta partilhada, como se de uma confidência se tratasse, o concerto serviu de apresentação ao novíssimo álbum “Glosas, Embalos, Álbum do jovem pianista”, dedicado à obra pianística de Fernando Lopes-Graça. Centrado nas onze Glosas sobre canções tradicionais portuguesas e nos cinco Embalos, três dos quais gravados pela primeira vez, o concerto encerrou o facto raro e precioso de ter permitido ao público escutar estas séries na íntegra. O formato comentado, com a mediação cúmplice e esclarecida de Fausto Neves, ajudou a situar o público nesse território onde a música nasce do confronto entre a tradição e a inovação, o canto popular e a escrita moderna, a consonância prometida e a dissonância nunca plenamente resolvida. Um território que é espelho do percurso humano, político e intelectual do compositor, bem como do seu trabalho de investigador incansável de uma cultura musical vivida longe dos grandes centros e dos palcos oficiais, transmitida de geração em geração graças ao poder da oralidade.

Nas viagens e campanhas de recolha que o levaram a Penamacor, Mação, Paúl ou Vinhais, ao Ribatejo, ao Alentejo ou à Ilha da Madeira, Fernando Lopes-Graça procurou aquilo a que chamava “folclore autêntico”, em clara oposição às versões higienizadas e instrumentalizadas pelo Estado Novo - trabalho que dialoga directamente com o de Michel Giacometti, embora com um olhar de compositor que transforma a recolha em matéria crítica. Foi isso que pudemos apreciar nas Glosas, mostradas como pequenas arquitecturas de tensão, as melodias reconhecíveis emergindo ora protegidas, ora feridas, atravessadas por harmonias ásperas e por um discurso que sabe quando avançar e quando se deter em silêncios que são, eles mesmo, música. Na leitura de Luís Duarte, tudo pareceu dito com economia e convicção: uma eloquência sem retórica, capaz de fazer coexistir o impulso dançante, a rudeza telúrica e uma melancolia contida, quase ética, marcas distintivas da obra de Lopes-Graça. Profundamente identificado com este universo, o pianista evitou tanto a postura agreste como a tentação de alisar arestas, oferecendo uma interpretação onde o gesto popular passeou de mãos dadas com a sofisticação, a harmonia com a sensibilidade e emoção muito próprias do ser português.

O encore veio ampliar e aprofundar esse retrato. Do “Álbum do jovem pianista” - esse “jovem” que não é criança nem ingénuo - ouviram-se peças simples só na aparência, entre elas o belíssimo “Canto dos pequenos pedintes p’los Santos”, a economia de meios transformada em dignidade sonora e em silêncio carregado de sentido. Pensada com um intuito formativo e não como uma concessão a gostos ou modas, a peça confirma Lopes-Graça como alguém que nunca escreve para impressionar, antes para convidar a uma escuta atenta, resistente e ética. Houve igualmente tempo para um dos prelúdios bascos, “Dolor", de Aita Donostia (em castelhano, Padre Donostia), e uma delicada peça de Schumann, ambos colocados como espelhos distantes e reveladores de uma linhagem introspectiva que atravessa séculos. Luís Duarte interpretou-as com igual sobriedade, deixando que o som respirasse e que o tempo se ampliasse. O concerto terminou tal como havia começado: Subtil, intimista, sem grandiloquências, mas ciente do seu maior desígnio: Ter deixado no público a sensação de que algo verdadeiramente essencial foi partilhado.

quinta-feira, 16 de outubro de 2025

CONCERTO: Meredith Monk



CONCERTO: Meredith Monk
Com | Meredith Monk (voz e teclados), Katie Geissinger (voz), Allison Sniffin (voz, violino e teclados)
Auditório de Espinho – Academia
14 Out 2025 | ter | 21:30


““I still have my hands / I still have my mind / I still have my money / I still have my telefone / Hello, hello, hello?
I still have my memory / I still have my gold ring, / beautiful, I love it / I still have my allergies / I still have my philosophy.”
Meredith Monk, “The Tale”


Que extraordinário serão, o da passada terça-feira na companhia de Meredith Monk, uma artista que, aos 82 anos, permanece determinada em continuar a escavar a própria origem da voz e do som. Nascida num meio musical — a sua mãe era cantora profissional —, Meredith Monk sempre entendeu a voz como um instrumento ilimitado. A sua obra cresceu numa Nova Iorque fértil em experimentação artística, ao lado de figuras como Philip Glass ou Steve Reich, com quem partilhou o minimalismo como ponto de partida, mas que ultrapassou ao focar-se não tanto na repetição rítmica, antes na expressão corporal e vocal pura. Pioneira do que hoje se designa por “técnica vocal alargada” e “performance interdisciplinar”, as suas influências encontram-se tanto no Oriente como no Ocidente – do canto tibetano ao teatro Noh, da música medieval europeia às tradições indígenas —, não por uma fusão estilística, mas por um reconhecimento de que o som, antes de ser linguagem, é rito e respiração. Nela é claro esse impulso de regressar às fontes do som, explorando a voz como um território sagrado, íntimo e ilimitado, onde o tempo parece suspenso e o corpo é o primeiro instrumento da alma.

Atentemos nos primeiros momentos do concerto. Sozinha em palco, com as suas enormes tranças e um belo sorriso no rosto, começou por entoar “Wa-lie-ho”, um tema da maturidade apesar do seu meio século, abrindo-nos a imensidão do deserto do Novo México e a infinidade de sons que associamos às emoções, mais do que os sons que o próprio deserto nos devolve. O que à primeira escuta pode parecer uma música “simples”, revela-se, na verdade, como um refinado processo de despojamento, reduzindo a composição ao essencial, na busca de uma forma de pureza quase espiritual. Depurada ao máximo, esta, como todas as restantes peças que compuseram o concerto, não conta uma história no sentido narrativo convencional, antes convoca sensações, estados de alma, geografias interiores. A voz, esse enorme instrumento, é moldada com uma liberdade quase xamânica — como se Monk quisesse cantar antes das palavras, antes da gramática, antes mesmo da consciência de ser. Há algo de poeira e terra molhada, de vento nas montanhas, de infância da humanidade em cada composição. Cada emissão vocal, cada gesto ou respiração, convoca algo de profundo, atávico, como se estivéssemos a escutar a primeira tentativa de comunicação entre dois seres.

Primeiro com Katie Geissinger e depois com Allison Sniffin em palco, as músicas foram-se derramando não apenas em beleza ou emoção estética, mas também como experiência sensorial e espiritual total. Temas como “Gotham Lullaby”, “Scared Song”, “Simple Sorrow”, “Happy Woman” ou, já no “encore”, “The Tale”, são viagens imersivas onde corpo, som e silêncio se entrelaçam. Viagens que convidam a uma presença, não como espectadores passivos, mas como testemunhas de uma exploração da memória colectiva e corporal. Apesar de muitas das obras lidarem com temas como a transitoriedade e a fragilidade, a morte e o renascimento, há nelas, sempre, uma luz que brilha através da dor, uma aceitação radical da impermanência. E há, também, uma ética ecológica implícita: Em Meredith Monk, a comunhão com a natureza não é uma metáfora, mas uma vivência sensível, quase litúrgica. O canto torna-se ponte entre o humano e o mundo natural, um gesto de escuta e humildade. Por isso, escutar Monk é aceitar que a arte pode ser semente, oração e vestígio de civilizações esquecidas. A sua música não pertence a um tempo, antes ecoa em muitos tempos. Inclusive em tempos que estão para chegar.

quinta-feira, 10 de julho de 2025

CONCERTO: "Miroirs Vénitiens" | Orquestra Barroca da Academia de Ambronay



CONCERTO: “Miroirs Vénitiens”
Orquestra Barroca da Academia de Ambronay
Direcção Musical e violino | Amandine Beyer
Com | Laurène Patard-Moreau (violino), Paolo Martino Delmarco (violino), Enesh Dzhanykova (violino), Marta Guillen Pegueroles (violino), Joseph Lowe (violino), Hanna Crudele (violino), Tatiana Bechlitch-Szönyi (violino), Phaik Tzhi Chua (violino), Natascha Pichler (violino), Laura Vila Mayoral (violino), Mario Carpintero (viola), Mario Guedes Gutiérrez (viola), Luis Manuel Vicente Beltrán (viola), Moeko Aiba (violoncelo), Lucie Cazes (violoncelo), Nikita Ruzhavinskii (violoncelo), Ron Veprik (contrabaixo), Jorge  Vela-Hurtado Sánchez (fagote), Jorge  Silva (cravo), Giorgia Zanin (teorba)
FIME - Festival Internacional de Música de Espinho
Auditório de Espinho - Academia
06 Jul 2025 | dom | 18:00


Projecto de cooperação europeia de longo prazo, o S-EEEMERGING reúne mais de vinte organizações apostadas em apoiar jovens agrupamentos de música antiga na emergência e sustentabilidade das suas carreiras. O foco não reside apenas no incentivo à criação e desenvolvimento de novos projectos, no apoio à aquisição e desenvolvimento de competências e na construção de relações fortes com outros artistas, repertórios, públicos, lugares e instituições, mas também na sustentabilidade e preservação do meio ambiente, nas dinâmicas das culturas e lugares, na auto-suficiência e bem-estar dos artistas. Foi neste âmbito que um grupo de jovens talentos musicais rumou a Torroella de Montgrí para uma residência artística sob a direcção da violinista Amandine Beyer, numa co-produção entre o Ambronay - Centre culturel de rencontre e o Festival Torroella. O resultado pôde ser apreciado ao final da tarde de domingo no Auditório de Espinho - Academia, juntando a harmonia, a complexidade e os ornamentos musicais do Barroco, à graça, energia e talento de uma orquestra feita de jovens, todos eles com provas dadas e um enorme futuro à sua frente.

Torroella de Montgrí, Cidade da Música. Foi aqui, no extremo nordeste da Catalunha, à sombra de um dos mais renomados Festivais de Música Antiga da Europa, que vinte jovens de vários países se reuniram para trabalhar um exigente programa em torno do Barroco veneziano. Oriundos de países como França, Reino Unido, Espanha, Japão, Canadá, Rússia ou Portugal, abraçaram com entusiasmo o fulgor das composições de Dall’Abaco e Vivaldi, Hasse e Tomaso Albinoni, com a audácia própria da juventude, mas sobretudo a certeza das suas enormes qualidades. Coube ao português Jorge Silva, cravista deste agrupamento, dirigir as primeiras palavras ao público, focando-se na apresentação das várias partes do concerto e lembrando, com emoção, os quinze dias de trabalho conjunto, as relações estabelecidas no seio do grupo e a enorme cumplicidade em torno de um ideal que todos perseguem: Abraçar a música e espalhar por todos os quadrantes a sua mensagem de paz, tolerância e harmonia.

A música concertante do Barroco tardio constituiu o prato forte de um concerto que fundiu virtuosismo e artifício. Transcendendo fronteiras e marcando a música da época, a linguagem expressiva do Barroco italiano soube verter-se em teatralidade e expressividade, explorando os contrastes que permeiam o estilo concertante e misturando a arquitectura com a espontaneidade inventiva. O concerto da Orquestra Barroca da Academia de Ambronay foi disto um excelente exemplo, trazendo para diante Evaristo Felice Dall’Abaco, notável compositor deste período, mas muito pouco escutado. Dele foi interpretado, logo na abertura, o Concerto para violino e orquestra em Ré Maior, Op. 6 n.º 12 e, quase a fechar o alinhamento, o Concerto grosso em Ré Maior, op. 5 n.º 6, duas obras notáveis que fizeram as delícias do público. Num programa dominado por António Vivaldi - notável o Concerto para dois violoncelos em Sol Menor, RV. 531, com Lucie Cazes e Nikita Ruzhavinskii como solistas -, foi ainda possível escutar a “Sinfonia a 5 em Sol Maior, Op. 2 n.º 1, de Tomaso Albinoni, e a “Sinfonia a 4 em Sol Menor, Op. 5 n.º 6, de Johann Adolph Hasse. O “encore” traria ainda Vivaldi e o seu Concerto para violino RV. 372a, “Per Chiareta” - Andante, com Amandine Beyer como solista. Maravilhoso.

domingo, 6 de julho de 2025

CONCERTO: Trios de Schubert | Pedro Burmester, Pedro Meireles, Filipe Quaresma



CONCERTO: Trios de Schubert
Com | Pedro Burmester (piano), Pedro Meireles (violino), Filipe Quaresma (violoncelo)
FIME - Festival Internacional de Música de Espinho
Auditório de Espinho - Academia
04 Jul 2025 | sex | 21:30


A caminhar para o fim, o 51º FIME - Festival Internacional de Música de Espinho teve para oferecer aos amantes da grande música um concerto verdadeiramente imperdível na noite da passada sexta-feira. Interpretados por Pedro Burmester (piano), Pedro Meireles (violino) e Filipe Quaresma (violoncelo), os Trios com piano n.º 1 e n.º 2, de Franz Schubert, chamaram ao Auditório de Espinho um público atento e interessado que voltou a esgotar a lotação da sala. Fazendo gala de uma enorme sensibilidade, cumplicidade e virtuosismo, os três instrumentistas mergulharam no universo intimista e nostálgico do compositor, expressando com emoção o espírito imaginativo, lírico e melódico que fizeram dele uma das traves mestras da passagem do estilo clássico para o romântico e que o tornam, muito justamente, num dos maiores compositores do século XIX. Escritas pouco antes da sua morte, estas duas obras de Schubert têm a uni-las o facto de serem compostas por quatro andamentos e terem uma escala incomumente grande para trio com piano, levando mais de quarenta minutos cada uma para serem executadas. Isso, e um certo sabor de improviso, o que as torna vivas, espontâneas, calorosas, sentimentais e imaginativas.

Concluído em 1828, o Trio com piano n.º 1, em Si Bemol Maior, D. 898, só viria a ser publicado em 1836 como Opus 99, oito anos após a morte de Schubert. O primeiro andamento, Allegro moderato, apresenta-se em forma de sonata, com um primeiro tema caracterizado por ritmos pontuados e durações de frases irregulares, enquanto o segundo tema, em contraste, apresenta melodias líricas e frases regulares. A secção de desenvolvimento expande ambos os temas, tornando-se por vezes turbulenta e apresentando versões fragmentadas do tema principal numa sucessão de tonalidades, cada uma mais próxima da tonalidade central do que a anterior. Andante un poco mosso, o segundo andamento, segue o estilo de uma canção de gôndola, com uma melodia cadenciada e ritmo oscilante. Como alguns dos outros movimentos lentos tardios de Schubert, há uma secção contrastante mais turbulenta para, de pronto, a calma ser restaurada. Scherzo: Allegro, o terceiro andamento, segue a forma clássica do minueto. O scherzo propriamente dito apresenta um contraponto pesado, com os três instrumentos imitando-se constantemente, ao passo que a secção do trio é uma valsa descontraída. No último andamento, Rondo: Allegro vivace - Presto, predomina um ritmo de dois compassos, a música terminando com uma coda marcada Presto.

O Trio com piano nº 2, em Mi Bemol Maior, D. 929, data de Novembro de 1827 e foi também uma das últimas composições concluídas por Franz Schubert. Publicado pela Probst como Opus 100 no final de 1828, pouco antes da morte do compositor, e apresentado pela primeira vez numa festa privada, em Janeiro de 1828, para celebrar o noivado do amigo de escola de Schubert, Josef von Spaun, o Trio foi uma das raras composições do período final de Schubert que teve a possibilidade de ouvir serem executadas antes de sua morte. Tal como na peça anterior, também aqui o primeiro andamento, Allegro, se apresenta em forma de sonata. Sobejamente conhecido, Andante com motto, o segundo andamento, assume uma forma ternária dupla assimétrica e viu o tema principal ser usado como musica central no filme “Barry Lyndon”, de Stanley Kubrick, e numa enorme quantidade de outros filmes, séries e documentários. O terceiro andamento, Scherzo: Allegro moderato é uma peça animada em formato ternário duplo padrão. O quarto andamento, Allegro moderato, é em forma de sonata rondo e nele Schubert incluiu, em dois interlúdios, o tema de abertura do segundo movimento numa versão alterada.

O final da interpretação desta última peça teve num veemente e prolongado aplauso a eloquente demonstração do apreço do público pelo excepcional serão proporcionado. Os músicos responderam agradecidos com a interpretação do Notturno para Trio com piano, do mesmo Schubert, uma peça inicialmente pensada para o segundo andamento do Trio com piano n.º 1 e que acabou por ser recomposta e assumir uma faceta completamente nova. Ficou o Notturno - ou “Adagio”, para alguns - “pendurado”, mas não esquecido, a ponto de ser oferecido ao público num extraordinário “encore”. Beethoven dizia que as peças de Schubert o faziam sentir-se no paraíso, e foi um vislumbre do paraíso que Burmester, Meireles e Quaresma ofereceram aos presentes, com uma peça emotiva, rica em matizes sonoros, de uma grande harmonia e que, verdadeiramente, nos fez ver aquilo que somos. Franz Schubert morreu a 19 de Novembro de 1828, em Viena, com 31 anos de idade. Está sepultado no cemitério de Währinger, muito próximo de Ludwig van Beethoven, compositor que venerou em vida. No seu epitáfio, escrito pelo poeta Franz Grillparzer, podemos ler: “A arte da música enterrou aqui grandes riquezas, e esperanças ainda maiores”.

quarta-feira, 25 de junho de 2025

CONCERTO: ars ad hoc



CONCERTO: ars ad hoc
Com | Ricardo Carvalho (flauta), Horácio Ferreira (clarinete), Diogo Coelho (violino), Gonçalo Lélis (violoncelo), João Casimiro Almeida (piano)
FIME - Festival Internacional de Música de Espinho
Auditório de Espinho - Academia
22 Jun 2025 | dom | 18:00


Espaço para a criação e divulgação da grande música de câmara, o ars ad hoc surgiu em 2018, no contexto da “Arte no Tempo” e foca boa parte da sua actividade na interpretação de nova música para diferentes formações, interpretando e estreando, com regularidade, obras de compositores nacionais e estrangeiros, trabalhando sempre que possível em contacto directo com os criadores que, por vezes, escrevem música propositadamente para este agrupamento. Com programação de Diana Ferreira, o ars ad hoc é formado por músicos que, depois de se terem notabilizado em Portugal, complementaram os seus estudos no estrangeiro: Ricardo Carvalho (flauta), Horário Ferreira (clarinete), Diogo Coelho e Matilde Loureiro (violino), Ricardo Gaspar e Francisco Lourenço (viola) e Gonçalo Lélis (violoncelo). Foi justamente este agrupamento o convidado do Festival Internacional de Música de Espinho para fechar um fim de semana recheado de propostas aliciantes e riquíssimas a muitos títulos.

Uma vez que falei em aliciante, todos concordaremos que um recital de música de câmara dedicado aos modernismos não deixa de ser uma proposta aliciante. Proposta que o público, em muito considerável número, abraçou com entusiasmo, disposto a acompanhar a viagem musical pelos caminhos da tradição dos modernismos, contrapondo os seus primeiros passos às inovações espectralistas. “Prélude à l’après midi d’un faune”, de Claude Debussy, revelou-se uma escolha acertada num programa com um inegável cunho didáctico, já que falamos de uma peça cujo papel disruptivo no cenário musical de finais do século XIX e início do século XX é inegável, assinalando o nascimento da chamada “música moderna”. Num arranjo de Tim Mulleman, os músicos defenderam com brilhantismo uma peça irreverente e ousada na sua aparente falta de estrutura e toque quase improvisado. No bailar dos acordes, o público acompanhou com deleite as tentativas vãs de um fauno de seduzir duas ninfas, por entre o canto dos pássaros, o coaxar das rãs e a música que o próprio fauno extrai da sua flauta (notável a interpretação de Ricardo Carvalho).

Nenhuma composição do século XX se eleva com mais determinação acima das provações e tribulações terrenas do que o quarteto para violino, violoncelo, clarinete e piano que Olivier Messiaen completou e executou no campo de prisioneiros de guerra onde foi encerrado em Janeiro de 1941, o Stalag VIII A, perto de Görlitz, na Baixa Silésia. Tristan Murail quis homenagear o seu mestre, compondo alguns anos depois “Stallag VIIIa”, tema seguinte no alinhamento do concerto, interpretado pelo agrupamento com brilhantismo e que resultou numa experiência vivificadora pelo que acrescentou de diversidade modernista. Também ele aluno de Messiaen, Gerard Grisey compôs “Talea”, a terceira peça interpretada pelo ars ad hoc e cujo ímpeto dramático, textura espectral e vozes polifónicas independentes alcançou a excelência no trabalho dos músicos, com destaque para o “trovejar” do piano de João Casimiro Almeida. “Três andamentos de Pétrouchka”, de Igor Stravinsky, fechou o ciclo, acrescentando o olhar neoclassicista às tendências das composições anteriores e abrindo novos e mais vastos caminhos à Modernidade. Um enorme concerto, com um alinhamento inteligentemente trabalhado e interpretações a roçar o brilhantismo. Bravo!

terça-feira, 20 de maio de 2025

CONCERTO: Nduduzo Makhathini



CONCERTO: Nduduzo Makhathini
Com | Dalisu Ndlazi (contrabaixo), Lukmil Perez (bateria)
Auditório de Espinho - Academia
16 Mai 2025 | sex | 21:30


Na esteira de nomes como os de Egberto Gismonti, Danilo Perez, Uri Caine, Michael Wollny, Chano Dominguez, Vijay Iyer ou a saudosa Carla Bley, todos eles enormes pianistas que, nos anos mais recentes, pisaram o palco do Auditório de Espinho, Nduduzo Makhathini conduziu um serão inesquecível na noite da passada sexta-feira, mostrando o porquê de ser uma das figuras essenciais do jazz nos nossos dias. Desde que, em 2020, gravou o seu primeiro trabalho com o carimbo Blue Note, o pianista e compositor sul-africano vem sendo amplamente aclamado pela transcendência genuinamente espiritual da sua música. Para Makhathini, mais do que questões ligadas à estética, a música traz consigo uma ideia de cura, algo que ficou claramente demonstrado nas palavras dirigidas ao público, convidando-o a “ouvir com a música” e não apenas a “ouvir a música”. Eis a fórmula para sermos parte da música, do ritual, conectando-nos com o som, dissolvendo-nos nele. Um concerto será, pois, “uma oportunidade para nos podermos encontrar num ensaio e estar dentro do som. De criarmos outros futuros para os nossos bisnetos, para que possam viver num mundo que compreenda a pluralidade, a coexistência, a compaixão, a humildade, o amor do outro. Coisas muito simples que temos de ensaiar porque as esquecemos”, disse.

Apoiado no recente álbum “uNomkhubulwane”, o concerto desenrolou-se entre baladas harmoniosas e um fervoroso gospel assente na palavra, num dos seus momentos mais apimentados com recurso a um teclado capaz de absorver e distorcer a voz. Magnificamente acompanhado pelo contrabaixista Dalisu Ndlazi e pelo baterista Lukmil Perez, com os quais estabelece uma afinidade notável e uma comunicação quase telepática, Nduduzo Makhatini ofereceu um conjunto de sete temas altamente trabalhados, capazes de surpreender pelo contraste entre compassos não imediatamente compreensíveis e cativantes padrões repetitivos, geradores de uma forte empatia com o público. Uma escuta atenta do seu trabalho ao piano e do fraseado que se esconde por detrás das batidas, permite identificar um conjunto de fortes influências jazzísticas, que vão de músicos como Bheki Mseleku, Abdullah Ibrahim, John Coltrane, Randy Weston ou Thelonious Monk, aos ritmos de origem latina, na forma de um samba, de um bolero ou até de um fado. Simples e líricos ou densos e complexos, os temas têm essa tendência para o hipnótico, como se de um mantra se tratasse, sobretudo nos momentos em que o pianista, chegado ao microfone, entoa longos segmentos em Zulu, mesclados com uma impressionante variedade de estalidos com a língua.

Entre melodias de uma beleza pungente, temas angulares atacados pela percussão e peças furiosas de cores sombrias, as raízes da raiva tornam-se compreensíveis quando, a meio do recital, Makhathini se dirigiu ao público e falou de uma sala habitada pela beleza da música, mas também por “catástrofes, comunidades deslocadas, pessoas sem abrigo.” “Ntu” é a palavra com que Nduduzu Makhathini formula a sua reivindicação: um resquício sonoro de “Ubuntu”, um conceito do povo Bantu que significa uma espécie de altruísmo universalista. Foi esta a mensagem que impregnou um concerto que ficou marcado por dois momentos extraordinariamente longos de conversa com o público. E se o segundo momento, após o prolongado aplauso que se seguiu ao final da actuação e que obrigou os músicos a regressarem ao palco para o tão reclamado “encore”, foi de reflexão sobre estes conceitos enraizados na cultura e na tradição Zulu, tão caros ao músico, foi no primeiro momento que as palavras atingiram o público de forma certeira. “São muitos os problemas que estão a sufocar o mundo porque pensamos mais em ter do que em dar.” O seu conceito de espectáculo e o espaço que a música pode abrir para que o possamos preencher, implica uma escuta orientada para a rendição, para o vazio. Como nunca, os aplausos de pé foram mais que merecidos.

terça-feira, 8 de abril de 2025

CONCERTO: Efterklang



CONCERTO: Efterklang
Com | Casper Clausen (guitarra, voz), Mads Brauer (teclados), Rasmus Stolberg (baixo), Tatu Rönkkö (bateria) e Ensemble Vocal da Escola Profissional de Música de Espinho
Auditório de Espinho - Academia
06 Abr 2025 | dom | 18:00


Foi em 2004 que a banda de indie rock Efterklang (nome que vem do dinamarquês e significa “reverberação”) se deu a conhecer ao mundo com o álbum “Tripper”. Duas décadas depois desse trabalho inicial, e já com sete álbuns de estúdio gravados - o último dos quais, “Things We Have In Common”, lançado em finais de Setembro do ano passado -, a banda apresenta um currículo invejável, com várias colaborações com orquestras sinfónicas, documentários e centenas de concertos à volta do mundo. Mostrando uma frescura e uma vitalidade inabaláveis, os Efterklang continuam a dar cartas e ensaiaram, neste início de Abril, uma curta digressão pela Península Ibérica, pisando palcos em Barcelona, Madrid e Lisboa. No passado fim-de-semana foi a vez de Espinho abrir o seu Auditório para dois momentos aguardados com enorme interesse, como o comprova a procura dos bilhetes a fazer esgotar rapidamente as sessões. Mantendo o espirito aventureiro e a autenticidade das suas criações, o gosto por uma certa teatralidade e uma relação fortemente empática com o público, a banda não frustrou as expectativas e mostrou uma música calorosa e envolvente, densa e misteriosa, em harmonia perfeita com a natureza e o universo, a vida e a eternidade.

A abrir o concerto, os Efterklang recuaram a 2012 e ao álbum “Piramida”, revisitando os momentos marcantes de uma viagem à cidade-fantasma de Pyramiden, na ilha de Spitsbergen, apenas a mil quilómetros do Pólo Norte. Mais do que oferecer-nos a imensidão gelada, a força dos ventos glaciares ou o ruído abafado das passadas na neve, “Dreams Today” trouxe consigo uma proposta de viagem imersiva, convidando a escutarmos, na harmoniosa combinação de sons, aquilo que em nós há de mais íntimo. Num exercício de natural alienação, somos desarmados por uma música carregada de magnetismo, que chega até nós como uma dádiva: Catártica, fecunda, libertadora. Seguiram-se “Sentiment” e “Ambulance”, extraídos do álbum mais recente, e a veia interpretativa manteve-se, como se o fosso de doze anos entre ambos os trabalhos não existisse. Casper Clausen ensaiava a pose do menino que parece pedir desculpa por estar ali a mimosear o público com as suas “lamechices” analíticas e espirituais, mas o olhar travesso dizia o contrário. O público sabe que está a fazer “bluff”, ri-se e Clausen ri também. O público rende-se à banda, Clausen está rendido ao público.

Ao mergulhar nos primórdios, “Swarming” reforça a ideia de continuidade e complementaridade em temas como “Supertanker”, “Vi er Uendeling”, “Animated Heart” e o sublime “Sedna”. Está cumprida uma hora de concerto e os Efterklang despedem-se do palco, toda a gente de pé a aplaudir como se não houvesse amanhã. O público quer mais e vai ter mais, só que a nota seguinte é de absoluto desconcerto. A banda não regressa ao palco, vindo em seu lugar o Ensemble Vocal da Escola Profissional de Música de Espinho. Quinze frescas e bem cuidadas vozes, perfeitamente síncronas, começam por entoar o tradicional “Coro das Maçadeiras”, enriquecido com um invulgar exercício de percussão que embala o público e o deixa em êxtase absoluto. Já com a banda de novo em palco, o Ensemble Vocal acompanhará, de forma brilhante, “Hold Me Close When You Can” e “Cutting Ice to Snow”, dois dos temas mais emblemáticos da banda. Sempre em crescendo, ainda escutaremos “The Ghost”, “Living Other Lives” e “Modern Drift”. O grande momento chegará mesmo no fim, Clausen & companhia a subirem a escada lateral e a “estacionarem” na fila G para uma última canção, rodeados de um público completamente rendido, que não se cansa de cantar, dançar e bater palmas. A glória, enfim.

terça-feira, 1 de abril de 2025

CONCERTO: "Radiohead Recomposed" | Orquestra de Jazz de Espinho & Mário Delgado



CONCERTO: “Radiohead Recomposed”
Orquestra de Jazz de Espinho & Mário Delgado
Direcção musical | Eduardo Cardinho e Paulo Perfeito
Auditório de Espinho - Academia
28 Mar 2025 | sex | 21:30


Radiohead. A Enciclopedia Britannica refere-os como sendo, “sem dúvida, a banda de art-rock mais bem-sucedida do início do século XXI”, acrescentando que o quinteto “produziu algumas das músicas mais majestosas - se bem que saturadas de angústia - da era pós-moderna”. Formado em 1985 em Abingdon, Oxford, o grupo era composto pelo cantor e guitarrista Thom Yorke, o baixista Colin Greenwood, o guitarrista Ed O'Brien, o baterista Phil Selway e o guitarrista e teclista Jonny Greenwood. Cultores de bandas de rock norte-americanas como os R.E.M., Nirvana, Sonic Youth ou Pixies, os Radiohead não resistiram a ir beber ao Jazz algumas das suas influências, nomeadamente a Miles Davis, Charles Mingus e Alice Coltrane. Virá daqui, pelo menos em parte, a poderosa sensação de alienação que as suas músicas provocam, as paisagens sonoras intrincadamente texturadas, os longos silêncios de alguns dos seus temas mais icónicos a trazerem com eles notas mágicas e impressivas capazes de nos alçarem no seu voo e de nos transportarem aos confins do universo.

Foram precisamente os Radiohead e a sua música a estarem na mira da Orquestra de Jazz de Espinho, fazendo deles o alvo central de um projecto diferenciador e estimulante a muitos títulos, tanto para os músicos como para o público que esgotou o Auditório de Espinho nas duas sessões agendadas. Encontrar a combinação perfeita entre o jazz e o rock alternativo terá sido o grande desafio colocado aos oito músicos a quem coube a tarefa de trabalhar os arranjos de outros tantos temas, recompondo sem nada omitir e fundindo géneros sem os desvirtuar. Nazaré Silva, José Pedro Coelho, Paulo Perfeito, Telmo Marques, Estela Alexandre, Johannes Krieger, Daniel Bernardes e Carlos Azevedo puseram mãos à obra com a mestria que se lhes reconhece, ousando desconstruir e reerguer temas de grande complexidade, num processo não isento de riscos (afinal, não é de ânimo leve que se mexe em verdadeiros ícones, como é o caso de “Just” ou “Paranoid Android”, sob pena de se ser acusado de profanação). O resultado exprime-se numa simples palavra: Notável!

Passados pelo crivo do jazz, os temas escolhidos mostraram a sua enorme plasticidade e deram-se a ver numa roupagem cheia de swing, ritmo e alegria. Ao encontro das sonoridades idiossincráticas da banda, a guitarra não poderia ficar esquecida, recaindo em Mário Delgado o convite para se juntar à Orquestra de Jazz de Espinho. Com uma carreira de quase quatro décadas, Delgado é um guitarrista com recursos e técnicas variadas na guitarra eléctrica, o que lhe vem dos diversos estilos provenientes das suas influências, nas quais o rock o jazz ocupam lugar de destaque. Isso ficou bem patente no conjunto de apontamentos solísticos de altíssimo nível, sendo muito bem secundado por uma secção rítmica fortíssima - a par de Mário Delgado, José Diogo Martins, nos teclados, revelou-se fundamental nessa fixação das sonoridades próprias dos Radiohead - e pelo trabalho contrapontístico dos metais, com destaque para o trombonista Hugo Caldeira e para o trompetista João Tavares. Mais um grande concerto com o selo OJE.