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segunda-feira, 6 de abril de 2026

CONCERTO: “A Reforma de Mendelssohn” | Orquestra XXI



CONCERTO: “A Reforma de Mendelssohn”
Orquestra XXI
Piano e direcção musical | Dinis Sousa
Auditório de Espinho
04 Abr 2026 | sab | 18:00


Numa quadra atravessada por incertezas, tensões e uma difusa sensação de transição, o concerto de final de tarde do passado sábado, no Auditório de Espinho, assumiu um particular simbolismo. Integrado no período pascal - momento de recolhimento, mas também de renovação -, este programa da Orquestra XXI trouxe consigo uma ideia de recomeço que extravasou o mero gesto artístico. Há, nesta formação, algo de profundamente comovente: um colectivo extraordinariamente jovem, disperso pelos grandes centros musicais europeus, que regressa ciclicamente ao nosso país para reafirmar uma identidade comum. Sob a direcção de Dinis Sousa, a Orquestra XXI revela uma maturidade interpretativa que contrasta com a sua juventude, apresentando um som coeso, vibrante e intensamente comunicativo. Não se trata apenas de competência técnica - amplamente demonstrada -, mas de uma consciência estilística e de uma entrega expressiva que colocam este agrupamento num patamar de relevância raro no panorama nacional.

Inteligentemente concebido em torno da espiritualidade e da ideia de travessia, o programa abriu com o evocativo “Mar Calmo e Próspera Viagem, Op, 27”, de Felix Mendelssohn, cuja quietude inicial virá a dar lugar a uma energia luminosa, quase redentora. Seguiu-se o “Concerto para piano e orquestra n.º 1 em Ré menor, BWV 1052”, de Johann Sebastian Bach, com o próprio Dinis Sousa ao piano, numa leitura de grande clareza estrutural e refinamento tímbrico. Foi, contudo, no segundo andamento que se atingiu um momento de particular suspensão, uma página de beleza serena, o tempo como que a dilatar-se e a permitir à música respirar com uma naturalidade quase orgânica. Já na Sinfonia n.º 5 em Ré maior, Op. 107 “A Reforma”, Mendelssohn revelou-se plenamente como ponte de união do rigor clássico e da expressividade nascente do romantismo. O seu segundo andamento, de inspiração quase popular, trouxe uma leveza contrastante, como se a tradição se reinventasse num gesto de proximidade e humanidade, oferecendo um raro momento de intimidade no seio de uma obra de forte densidade simbólica.

No seu todo, o concerto afirmou-se como um acontecimento de elevada qualidade artística, mas também como um acto de resistência cultural. Numa semana particularmente difícil para o Auditório de Espinho - confrontado com a incompreensível recusa de apoio por parte da Direcção-Geral das Artes para o próximo quadriénio -, este momento adquiriu uma dimensão quase política. Ao longo de décadas, esta instituição construiu uma programação consistente e ambiciosa, trazendo a Espinho alguns dos mais relevantes nomes da cena clássica e jazzística internacional. O que ontem se ouviu em palco foi também o resultado desse trabalho continuado, dessa visão sustentada que agora parece ser ignorada por decisões difíceis de compreender. Perante tal cenário, resta sublinhar o contraste gritante entre a excelência artística vivida na sala e a fragilidade das estruturas que a tornam possível. E, sobretudo, reconhecer que, enquanto houver projectos como a Orquestra XXI e públicos dispostos a esgotar salas, haverá sempre uma razão para acreditar na persistência e na necessidade de projectos como os do Auditório de Espinho.

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