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domingo, 5 de julho de 2026

CONCERTO: radio.string.quartet



CONCERTO: radio.string.quartet
Com | Bernie Mallinger (violino, sansula, voz, electrónica), Cynthia Liao (viola, voz), Sophie Abraham (violoncelo, garrafas, voz), Igmar Jenner (violino, electrónica)
FIME - 52.º Festival Internacional de Música de Espinho
Auditório de Espinho - Academia
03 Jul 2026 | sex | 21:30


Não saíram goradas as expectativas daqueles que, na noite da passada sexta-feira, acorreram ao Auditório de Espinho confiantes na possibilidade de assistir a um dos momentos mais singulares da presente edição do FIME. Sediados em Viena, os radio.string.quartet têm vindo, desde a sua fundação, a afirmar-se como uma das formações mais inventivas do panorama europeu, desafiando sistematicamente as fronteiras entre a música erudita, o jazz, a improvisação e a electrónica. Ao contrário de muitos quartetos contemporâneos que se limitam à interpretação do repertório clássico, o agrupamento austríaco parte das obras originais para as recriar, cruzando épocas, linguagens e referências, acrescentando-lhes novas camadas de significado sem jamais perder de vista a sua identidade. O resultado é um exercício de rara inteligência musical, onde imaginação, rigor técnico, bom gosto e um subtil sentido de humor convivem em absoluto equilíbrio. Em perfeita sintonia com o espírito do FIME, os radio.string.quartet ofereceram um concerto marcado pela imprevisibilidade e pela inovação, envolvendo uma plateia que faz do eclectismo uma marca da sua escuta e que respondeu, desde os primeiros compassos, com manifesta curiosidade e entusiasmo às sucessivas surpresas de um programa que recusou, do princípio ao fim, qualquer forma de convencionalismo.

A primeira parte do concerto recuperou o mais recente trabalho discográfico do quarteto, “aERO – four seasons VOL.1”, revisitando o universo das “Quatro Estações”, de Antonio Vivaldi. Sem comprometer ou desfigurar as linhas melódicas ou a arquitectura harmónica da obra original, Bernie Mallinger, Igmar Jenner, Cynthia Liao e Sophie Abraham expandiram-lhe o horizonte expressivo através de uma abordagem profundamente criativa, onde a improvisação assumiu um papel central. Muito distante da imagem tradicional dos músicos imóveis perante a partitura, o quarteto revelou uma comunicação permanente entre os seus elementos, transformando cada olhar, cada gesto e cada silêncio em matéria musical. A exuberância rítmica da “Primavera” e do “Verão” alternou com momentos de grande introspecção, desenhando um percurso sonoro pelo interior de cada um dos presentes, non qual avultou uma notável riqueza tímbrica e emocional. A utilização discreta da electrónica permitiu ampliar as sonoridades e multiplicar as possibilidades expressivas do conjunto, sem nunca ocultar a beleza natural dos instrumentos acústicos. O resultado foi uma leitura simultaneamente fiel e ousada, capaz de revelar facetas inesperadas de uma obra tantas vezes escutada, confirmando a excepcional maturidade artística do quarteto.

O ambiente barroco prolongou-se na segunda parte do programa com “B:A:C:H: – like waters”, trabalho editado em 2022 e inspirado na célebre “Sonata para Violino em Sol menor”, de Johann Sebastian Bach. Mais do que uma simples adaptação, a proposta dos radio.string.quartet mostrou-se capaz de traduzir a linguagem do compositor para o século XXI através de um discurso profundamente pessoal, preservando intacta a essência da escrita bachiana, ao mesmo tempo que a envolvia numa estética próxima do jazz contemporâneo e da música experimental. A metáfora da água, fio condutor de toda a obra, conduziu o público numa narrativa musical que partiu da luminosidade de “High Altitude Euphoria”, percorreu sucessivas paisagens sonoras e culminou num arrebatador “Presto”, onde a corrente inicial se transformou numa autêntica torrente de energia e virtuosismo. Ficou assim demonstrado que a tradição pode permanecer bem viva quando colocada nas mãos de intérpretes capazes de dialogar com ela sem receios nem excessiva reverência. O aplauso prolongado da assistência justificou um encore particularmente feliz, com “Song – Ode an den Freud”, do álbum Radiodream (2011), encerrando uma noite em que a liberdade criativa e a excelência interpretativa caminharam lado a lado e confirmaram os radio.string.quartet como uma das propostas mais estimulantes da actual cena musical europeia.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2024

CONCERTO: "Time Poetries"



CONCERTO: “Time Poetries”
Drumming GP
Direcção artística | Miquel Bernat
Auditório de Espinho - Academia
16 Fev 2024 | sex | 21:30


Sexta-feira, 14h30. Estou no interior de uma relojoaria. Enquanto aguardo que me consertem os óculos, observo as inúmeras peças que me rodeiam. De pé ou de parede, de linhas sóbrias ou “barroquíssimos”, enormes ou de dimensões reduzidas, em madeira ou metal (ou ambos), estes relógios são verdadeiras obras de arte a convocar outros tempos, quiçá mais leves e pausados. De súbito, escuto um bater da meia-hora. E logo outro, e outro, e mais outro, ainda. O relojoeiro concertou o bater de cada um deles para que não o façam em simultâneo. Durante um par de minutos, é como se estivesse num auditório, brindado com uma verdadeira sinfonia à qual não falta o distinto cantar do cuco. Sexta-feira, 21h30. O auditório abre-se à música e ao tempo. Apesar das naturais diferenças, são inúmeros os pontos de contacto entre esta música e a “música” escutada ao início da tarde: A cadência é precisa, a harmonia faz-se contemplação, o ritmo impõe-se sobre todas as coisas. O compositor é um mestre relojoeiro e os músicos são artífices do tempo. O momento é mágico e mais mágico se torna quando volto a ouvir, no percutir das baquetas de Miquel Bernat, um cuco a cantar.

Composto por Carlos Guedes, “Time Poetries” teve no Auditório de Espinho a sua estreia nacional. Inspirando-se nas dinâmicas do tempo e na sua relação com o espaço – o segundo dos cinco andamentos intitula-se, muito justamente, “Euclidean imbalance” –, o compositor criou “um ciclo de peças para quarteto de lâminas e pequenos instrumentos de percussão e electrónica, sob suporte fixo, que exploram a passagem do tempo em música”. Ao longo de quase uma hora, o público é convidado a “pesar” o tempo, a valorizar o audível tanto quanto o silêncio, a sentir o seu pulsar, como acelera ou se distende, se faz onda e se desfaz, até recomeçar tudo de novo, uma e outra vez. Na relação entre o compositor, a sua obra e o público, o Drumming Grupo de Percussão – com Miquel Bernat, André Dias, Pedro Góis e João Miguel Braga Simões – foi o mediador perfeito, evidenciando uma notável atitude performativa em peças de enorme exigência, e valorizando-a com um elevado sentido coreográfico na abordagem aos vários instrumentos e nas passagens entre as peças.

Quem teve a oportunidade de assistir, neste mesmo auditório, aos inesquecíveis “Music for 18 Musicais”, de Steve Reich, e “Timber”, de Roberto Olivan, sabe do que o Drumming GP é capaz. “Vocacionado para a música contemporânea e de portas abertas a todos os mundos sonoros”, este agrupamento destaca-se pela qualidade das suas interpretações e pela relação cúmplice que sabe estabelecer com o público, assente em propostas ousadas e inovadoras. O concerto da passada sexta-feira é paradigmático da qualidade e coerência do grupo, nessa entrega apaixonada à música de Carlos Guedes, acrescentando-lhe magia como é apanágio dos grandes intérpretes e enriquecendo-a com uma componente cénica de belo efeito. “Viagem hipnótica”, tal era a proposta do Drumming GP, “induzindo [nos ouvintes] estados de transe e explorando sonoridades que evocam a música psicadélica”. Pressupostos que foram completamente atingidos, fazendo do tempo do concerto um tempo de sedução, fascínio e poesia.

[Foto: Auditório de Espinho - Academia  | https://www.facebook.com/auditoriodeespinhoacademia]

segunda-feira, 22 de novembro de 2021

CONCERTO: Samuel Blaser & Marc Ducret



CONCERTO: Samuel Blaser & Marc Ducret
Guimarães Jazz 2021
Centro Cultural Vila Flor – Pequeno Auditório
20 Nov 2021 | sab | 16:00


A crescente atenção que, em edições mais recentes, o Guimarães Jazz tem dedicado ao auditório secundário, onde concertos de menor perfil mediático têm lugar, prende-se com razões que estão intimamente ligadas aos mecanismos atuais de funcionamento do circuito da música em geral, e do jazz em particular. Se por um lado continuam a ser dominantes os princípios de autorregulação do mercado musical, extraídos a partir de considerações, cada vez mais obsoletas e desligadas da realidade, sobre as supostas preferências do público, é igualmente evidente que hoje as fronteiras entre aquilo que se designa por arte mainstream e por, do lado oposto, arte “independente”, parecem também cada vez mais esbatidas e em processo de esvaziamento de sentido.

É nesta ideia de programação que o duo formado por Samuel Blaser e Marc Ducret encaixa perfeitamente. Nascido em 1981, o trombonista e compositor suíço Samuel Blaser corporiza o espírito terceiro-milenar da música europeia, caracterizado essencialmente pela incorporação de um vasto espectro de influências no ato criativo e pela fluidez de discursos potenciada pelo novo esperanto sonoro gerado pela globalização. Enquanto instrumentista, dedica-se à exploração dos limites do seu instrumento a solo, operando o som a partir das diferentes qualidades arquiteturais e acústicas do contexto onde grava ou atua. Por seu lado, o guitarrista Marc Ducret é atualmente considerado, em virtude de um percurso de notável integridade ética e ousadia estética, um dos nomes mais influentes nos domínios da música improvisada e experimental contemporânea.

Perante um Auditório despido de público, ao duo coube abrir a programação do último dia do Guimarães Jazz 2021. Em pouco mais de uma hora de concerto, ficou patente o seu grande virtuosismo e cultura musical, bem como a sua “atração pelo risco e pela disrupção das fórmulas impostas pela indústria musical, qualidades criativas que são exploradas com intensidade numa performance sonora e física expansiva em que a irregularidade da contra-narrativa é sublimada em sacrifício da previsibilidade das convenções”. Dizer que a sua música é agradável para os ouvidos é fugir à verdade, mas dela resulta um conjunto de experiências sensoriais que tocam cordas indefinidas lá bem no íntimo, pedindo atenção e trabalho na sua descodificação. Para os indefectíveis do Roquefort (ou do Sushi) que começaram por odiá-lo, é tempo de lembrar que a evolução do(s) gosto(s) passa por fenómenos deste género.

[Texto construído com base no programa do Guimarães Jazz 2021, em https://www.guimaraesjazz.pt/detail-eventos/20211120-samuel-blaser-andamp-marc-ducret/. Foto: Paulo Pacheco | https://www.facebook.com/CCVF.Guimaraes/photos/]

sexta-feira, 16 de julho de 2021

CONCERTO: "Music for 18 Musicians"



CONCERTO: “Music for 18 Musicians” | Steve Reich
FIME Ensemble & Drumming GP
Direcção musical | Miquel Bernat
Interpretação | João Almeida, Lígia Madeira, Luís Duarte, Teresa Doutor (piano); Ângela Alves, Eva Braga Simões, Gabriela Braga Simões, Joana Valente (vozes); Vítor Vieira (violino); Nikolai Gimaletdinov (violoncelo), Ricardo Alves, Victor Pereira (clarinete e saxofone); André Dias, Pedro Gois, João Miguel Braga Simões, Nuno Simões, Rui Rodrigues, Pedro Oliveira, Miquel Bernat (percussão)
FIME – 47º Festival Internacional de Música de Espinho
Auditório de Espinho – Academia
10 Jul 2021 | Sab | 21:00


“Music for 18 Musicians” começou por ser uma das grandes apostas da anterior edição do FIME – Festival Internacional de Música de Espinho, entretanto transposta para esta 47ª edição por obra e graça de uma pandemia que teima em condicionar as nossas vidas. Escrita entre 1974 e 1976 por Steve Reich, verdadeira lenda viva da música contemporânea, a obra é emblemática a todos os títulos, sobretudo pela desmistificação que faz de um minimalismo percebido à data como refém de uma certa esterilidade electrónica, pondo em evidência todo o potencial harmónico desta corrente musical. Foi este o desafio a que Miquel Bernat, à frente do FIME Ensemble e do Drumming GP, soube abraçar da melhor maneira. E assim, num Auditório com algumas clareiras de dimensão apreciável, ao longo de uma hora, viveu-se numa espécie de transe, o corpo e a mente mergulhados num ambiente encantatório e fundidos numa experiência sensorial única.

Plim. Plim. Plim. Plim. São de inquietação os momentos iniciais do concerto. O ritmo vivo, o movimento compassado, o palpitar das cordas e da percussão e a respiração humana nas vozes e nos instrumentos de sopro parecem remeter para um tempo feito matéria, inexorável numa marcha que não admite pausas, conformado por linhas e círculos, num paradoxo que o breve sopro de uma vida não consegue resolver, apenas sentir. Será neste sentir que o espectador, refém de uma música hipnotizante, se vê irremediavelmente atraído para o interior da peça, aceitando o convite a escutar dentro de si o pulsar do tempo e a encontrar as respostas que melhor se adequam a questões tão existenciais como a relatividade do binómio tempo-espaço, o sentido da própria vida ou a existência de Deus.

Combinando uma intensidade de cortar a respiração com um poderoso apelo visual, “Music for 18 Musicians” começa por introduzir o espectador aos sons que se derramam de uma máquina, a ela juntando mais máquinas, numa sequência que parece não ter fim. A ideia de um gigantesco armazém onde o trabalho é feito em série acaba por se afirmar naturalmente, convocando imagens dos filmes “Metrópolis”, de Fritz Lang, ou “Tempos Modernos”, de Charlie Chaplin. Esta ideia de maquinaria irá permanecer em fundo ao longo da peça, acompanhada de um pulsar vigoroso, como a respiração de um corredor de fundo. De repente, o vibrar dos instrumentos de percussão oferecem a possibilidade de viajar com a mente ao encontro de um ritual de iniciação nas florestas de Java, da investidura de um feiticeiro numa aldeia do Gana, do frenesi dos corpos num jogo de capoeira ou do que se quiser. É isto “Music for 18 Musicians”, uma das obras mais fascinantes a que me foi dado assistir nesta minha não curta carreira de melómano. Absolutamente mágico.