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sábado, 9 de novembro de 2024

CONCERTO: Sara Serpa, André Matos, Craig Taborn e Jeff Ballard



CONCERTO: Sara Serpa, André Matos, Craig Taborn e Jeff Ballard 
Guimarães Jazz 2024
Centro Cultural Vila Flor
08 Nov 2024 | sex | 21:30


Desconsolador. Ainda a tentar apagar da memória o concerto que abriu o primeiro fim de semana do Guimarães Jazz, escrevo estas breves palavras sob o lema do desconsolo. A milhas do nível qualitativo a que o Festival nos vem habituando nas mais de três décadas que leva de vida, aquilo que sobressaiu na noite de ontem, nos sete ou oito temas interpretados, foi a debilidade das vocalizações e as composições desinspiradas, semelhantes, para pior, a música para embalar bebés. Talvez até fosse essa a intenção da cantora, a julgar pela esmagadora maioria do público que, em algum momento do concerto, com maior ou menor profundidade, “passou pelas brasas”. Os aplausos foram sendo dispensados a conta gotas, como que arrancados a ferros, e a ovação final, frouxa e breve, evidenciou o sentimento generalizado de quem quer dizer que “por hoje chega”, não fossem os músicos lembrar-se de voltarem ao palco para um indesejado e indesejável encore.

Havia Jeff Ballard e havia Craig Taborn. Seriam estes dois nomes suficientes para colocar em alta as expectativas e justificar uma deslocação (no meu caso) de duzentos quilómetros? Certamente que sim, não apenas pelo seu historial de muitas décadas de carreira e pelos territórios musicais pelos quais se passeiam com maestria, mas também pelo percurso afirmativo de consolidação artística ao lado de grandes nomes da história recente do Jazz, de Chris Lightcap a Vijay Iyer, de Pat Metheny a Chick Corea. Embora breves, os apontamentos a solo mostraram que não estava enganado (cabe aqui uma referência a André Matos, também ele com algumas intervenções solísticas de qualidade). O problema esteve mesmo em Sara Serpa e naquela sequência repetitiva e monocórdica de ti-ti-tis e pa-pa-pas, omnipresente e castradora, que fez do concerto um tempo de monotonia e fastídio. Na única vez que fugiu a este registo, interpretando em inglês o tema “A Mother’s Heart”, foi pior a emenda que o soneto. Resta-nos a consoladora certeza de que tudo o que o Guimarães Jazz nos trouxer daqui para a frente só pode ser melhor.

sexta-feira, 10 de novembro de 2023

CONCERTO: Vanguard Jazz Orchestra - Thad Jones 100



CONCERTO: Vanguard Jazz Orchestra - Thad Jones 100
Guimarães Jazz 2023
Centro Cultural Vila Flor
09 Nov 2023 | qui | 21:30


Está em marcha a trigésima segunda edição do Guimarães Jazz. Para o concerto de abertura, a organização do Festival convidou para subir ao palco do Centro Cultural Vila Flor uma das mais icónicas orquestras de jazz norte-americanas, a Vanguard Jazz Orchestra. Fundada no já distante ano de 1966 pelo trompetista e compositor Thad Jones e pelo baterista Mel Lewis, responsável pela direção musical, a orquestra toma a sua designação actual do mítico clube de jazz de Nova Iorque - Village Vanguard -, onde se estreou com enorme impacto na cena musical da época e onde continua a actuar, abrilhantando os serões de segunda-feira. Foi a segunda vez que esta orquestra visitou a cidade-berço, depois de aqui ter estado na edição de 1999, assegurando então o concerto de encerramento. A título de curiosidade, refira-se que a comparação entre as duas formações permite constatar que há nomes que se repetem, dos saxofonistas Ralph Lalama, Billy Drewes e Dick Oatts - o seu director musical -, ao trompetista Scott Wendholt, ao trombonista Douglas Purviance e ao baterista John Riley. O compositor residente da orquestra é o conceituado Jim McNeely, que este ano não marcou presença em Guimarães, mas que aqui tivemos o prazer de apreciar há dois anos atrás, à frente da Frankfurt Radio Big Band, na altura com a saxofonista Melissa Aldana.

Celebrando o centenário do nascimento de Thad Jones, a Vanguard Jazz Orchestra teve para oferecer um conjunto de standards do fundador e compositor residente durante a primeira década de atividade deste ensemble. Assim, ao longo de uma hora e meia de concerto, foi possível cruzar a inspirada veia artística deste membro de uma das famílias mais distintas do jazz (de lembrar que dois dos seus irmãos são os lendários Hank e Elvin Jones) com a classe e virtuosismo de uma orquestra que respira jazz por todos os poros. “Mean What You Say” abriu as hostilidades e o piano de Adam Birnbaum deu a primeira nota de mestria e savoir-faire. Mas não esteve só e os solos de grande qualidade do saxofonista Ralph Lalama e do trompetista Scott Wendholt foram apenas os primeiros de uma série que se prolongou no tempo e galvanizou o público, recebendo dele, a cada momento, os maiores incentivos e aplausos. “My Centennial” foi o senhor que se seguiu e o seu ritmo festivo, com um leve toque carnavalesco, incendiou a sala. Aqui brilharam o saxofone barítono de Frank Basile e a bateria de John Riley.

Se alguém entre o público não se havia rendido ainda à magia da orquestra, as dúvidas dissiparam-se com a sensibilidade e dolência de “Kids Are Pretty People”, um dos temas maiores do legado de Jones e que constituiu um dos momentos inesquecíveis da noite, o trombone de Dion Tucker a brilhar ao mais alto nível. Pleno de vivacidade, “Blues in a Minute” começou por confirmar a excelência do diálogo a três da secção rítmica, com destaque para o contrabaixo de Mike Karn e para o piano de Adam Birnbaum, a que se seguiram solos inspirados de Brandon Lee (trompete), Rob Edwards (trombone) e do incontornável saxofone tenor de Ralph Lalama. Os dois temas seguintes foram arranjos de Jim McNeely, o primeiro dos quais, “In The Wee Small Hours of The Morning” nos trouxe o veteraníssimo Dick Oatts e o seu saxofone alto num solo de sonho. Composto por McNeely, “Extra Credit” foi outro enorme momento, aqui com o combo de saxofones a elevar-se num todo, dele se destacando Chris Lewis. Para tema final do alinhamento, a escolha recaiu sobre “Fingers”, extraordinária obra-prima do mestre e que, nos seus quase dezoito minutos de duração, ofereceu a possibilidade a praticamente todos os membros da orquestra de usufruirem de um tempo a solo e de mostrarem mais-valias que passaram por momentos únicos de inspirada improvisação. Muito reclamado, o “encore” trouxe com ele outro dos temas maiores de Thad Jones e foi com “Don’t Get Sassy” que a Vanguard Jazz Orchestra se despediu do público numa noite de boa memória. O final perfeito a colocar muito alta a fasquia desta edição do Guimarães Jazz.

[Foto: Município de Guimarães | https://www.facebook.com/Municipio.Guimaraes]

quinta-feira, 24 de novembro de 2022

CONCERTO: Linda May Han Ho Quartet



CONCERTO: Linda May Han Ho Quartet
Guimarães Jazz 2022
Centro Cultural Vila Flor
11 Nov 2022 | sex | 21:30


O segundo dia do Guimarães Jazz ficou marcado pelo regresso ao palco do Centro Cultural Vila Flor da contrabaixista malaia Linda May Han Ho, depois de aqui ter estado no ano passado ao lado de Vijay Iyer e Tyshawn Sorey. Com ela vieram o saxofonista Greg Ward, o baterista Jeff Ballard e o guitarrista Matthew Stevens, completando o agrupamento que, na programação do Festival, substituiu o Archie Shepp 4tet, impedido de se deslocar a Guimarães por motivo de doença do seu líder. Aquilo que poderá ter começado por ser uma enorme desilusão para os muitos espectadores que tinham a ambição de ver ou rever um dos maiores ícones vivos do jazz, acabou por tornar-se numa muito grata surpresa, de tal forma a música que se fez ouvir fluiu intensa e vibrantemente ao longo de quase uma hora e meia. Com um pé nos tumultuosos ambientes jazzísticos de Nova Iorque e o outro na tranquilidade que emana dos grandes espaços abertos, os elementos como fonte musical por excelência, Linda May Han Ho ofereceu-nos um vislumbre do seu mundo criativo, extenso e fascinante, através de uma sucessão de temas onde energia e virtuosismo se passearam de mãos dadas.

Não preciso de recuar muito no tempo para reviver os momentos de um concerto em Espinho e a viva impressão que Linda May Han Ho me tinha deixado quando a escutei ao lado de Iyer e Sorey. Entre os dois gigantes, destacava-se a sua figura esguia pela relação que estabelecia com o contrabaixo, escalado com prazer, deleite e uma técnica primorosa. Em Guimarães, a história repete-se mal os primeiros acordes saltam do instrumento.  É em torno dele que Linda May Han Ho se move a um ritmo frenético, trazendo à ideia a figura incontornável de Esperanza Spalding, em particular depois de perceber, já numa fase adiantada do concerto, que Linda May Han Ho não teme correr o risco de emprestar a sua voz ainda que a um só tema, preenchendo-o de graça e lirismo. É essa mesma graça e esse mesmo lirismo que vamos encontrar nos fabulosos “Lucid Lullaby” ou “Speech Impediment”, do seu álbum “Walk Against Wind”, e noutros dois temas não menos extraordinários, dos quais não cheguei a reter o nome. É através deles que nos focamos na essência de um concerto que vai primando pela novidade, apostado na criação de paisagens sonoras entre o árido e o sobrepovoado e explorando o efeito surpresa que daí advém.

Do saxofone de Ward rompem melodias que são preces sussurradas, espécie de contraponto ao descaramento exibicionista do contrabaixo. Sob o olhar atento da bateria e da guitarra, mais daquela do que desta, é deslumbrante o diálogo encetado, sobretudo pela forma como Linda May Han Ho e o seu instrumento se impõem, fazendo questão de seguir firmemente na dianteira e apontar caminhos. De provisória, a conversa passa a definitiva nesse extraordinário momento que é “Other Side”, o tema que encerrou o concerto e que, tal como “Circles”, tocado anteriormente, fará parte de “The Glass Hours”, um novo trabalho discográfico que se anuncia para o início do próximo ano. Veremos o que vem por aí, mas pela amostra só pode ser muito bom. E, melhor ainda, sabendo que contará com a participação de Sara Serpa, cantora e compositora portuguesa radicada em Nova Iorque, onde tem vindo a desenvolver um trabalho de grande qualidade e que lhe tem valido os mais rasgados elogios por parte da crítica e do público. Fico na expectativa de rever Linda May Han Ho muito em breve. De preferência com Sara Serpa ao seu lado.

[Foto: Centro Cultural Vila Flor | https://www.facebook.com/CCVF.Guimaraes]

sábado, 19 de novembro de 2022

CONCERTO: Diane Reeves



CONCERTO: Diane Reeves
Guimarães Jazz 2022
Centro Cultural Vila Flor
10 Nov 2022 | qui | 21:30


Presença assídua nos palcos portugueses, Diane Reeves regressou ao nosso país com a responsabilidade de abrir a 31ª edição do Festival Internacional de Jazz de Guimarães. Pessoalmente, foi a oportunidade de voltar a escutá-la, cinco anos após esse momento magnífico na Casa da Música. Tal como acontecera no Porto, a cantora interpretou alguns dos maiores standards do jazz, de “Skylark”, da dupla Johnny Mercer e Hoagy Carmichael, a “(In My) Solitude”, de Duke Ellington, passando por “(Our) Love is Here to Stay”, de George e Ira Gershwin. Também aqui, a apresentação inicial dos extraordinários músicos que a acompanharam em palco - Edward Simon no piano, Romero Lubambo, na guitarra, Reuben Rogers no contrabaixo e Terreon Gully na bateria - foi feita toda ela em música e ritmo, numa afirmação daquilo que Diane Reeves entende como a melhor forma de comunicar com o seu público. O tom geral deste concerto, porém, teve muito a ver com ritmos próximos do samba, alicerçados na guitarra de Lubambo - “my brother from another mother”, nas palavras de Reeves -, na admiração confessa por nomes como os de Gilberto Gil e Milton Nascimento e naquilo que pode ser visto como uma homenagem a Gal Costa, falecida no dia anterior.

Depois de um tema instrumental, em jeito de “volta de aquecimento”, Diane Reeves irrompeu em palco para oferecer ao público que esgotou o CCVF a magia de temas tão intensos de significado como “Dreams”, “Minuano”, “I Remember” e “I'm All Smilles”, convocando memórias de paragens que tanto nos dizem e trazendo-nos a presença e a voz de Kurt Elling e Pat Metheny, Barbra Streisand e Rosa Passos. Veio depois o já referido “Skylark” e a plateia viu-se definitivamente rendida às extraordinárias qualidades e capacidades vocais da cantora, mais intensas e refinadas à medida que o tempo passa. Voz incontestada do jazz, como o atestam os cinco Grammys recebidos ao longo da sua carreira, Diane Reeves prosseguiu com um conjunto de temas onde ficou patente a cumplicidade com cada um dos seus músicos, em particular com Romero Lubambo, com quem a cantora encetou um diálogo que se prolongou no tempo e ficou marcado pela emoção que se desprende da doçura de uma voz combinada com a mestria e virtuosismo de um guitarrista de excelência.

Com a presença e o à-vontade de quem se sente realmente em casa, Dianne Reeves foi um verdadeiro espectáculo dentro do espectáculo. A força dos seus 66 anos permite-lhe falar com autoridade da actualidade que assola o planeta e invocar a tolerância, a bondade e a generosidade como valores a cultivar. Cativado, o público reagiu com emoção às palavras da cantora e com a mesma emoção fez questão de a acompanhar nas suas improvisações melódicas a uma segunda apresentação da banda, à qual os instrumentistas responderam com solos vibrantes que fizeram levantar a plateia. McCoy Tyner veio ao palco já no “encore”, só Diane Reeves e Romero Lubambo em palco, “You Taught My Heart to Sing” cantado com a emoção que só uma grande voz e um grande coração são capazes. Não será esta a única razão, mas a interpretação deste tema, a par de tudo o mais que se passou na noite do Vila Flor, bastariam para elevar Diane Reeves ao patamar das divas do jazz, ao lado de Etta James, Sarah Vaughan, Nina Simone, Natalie Cole, Aretha Franklin ou Ella Fitzgerald. Inesquecível!

[Foto: Centro Cultural Vila Flor | https://www.facebook.com/CCVF.Guimaraes]

quinta-feira, 17 de novembro de 2022

LUGARES: Museu de Alberto Sampaio, Guimarães


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ESPAÇOS: Museu de Alberto Sampaio
Rua Alfredo Guimarães, Guimarães
Horários | De terça a sexta, das 10h00 às 18h00. Sábados e domingos, das 10h00 às 13h00 e das 14h00 às 18h00
Ingressos | Bilhete normal 3,00 €


Situado em pleno centro histórico de Guimarães, no local onde a condessa Mumadona, no século X, mandou construir um mosteiro, o Museu de Alberto Sampaio foi criado em 1928 para albergar o espólio artístico da extinta Colegiada de Nossa Senhora da Oliveira e de outras igrejas e conventos de Guimarães, então na posse do Estado. Esta Colegiada vem dos alvores do séc. XII, sofrendo importantes obras de ampliação e beneficiação sob a égide de D. João I, em cujo reinado se iniciou e concluiu a construção de uma nova Igreja dedicada a Santa Maria de Guimarães. No séc. XVI, a igreja, claustro e Casa do D. Prior foram amplamente renovadas, sendo a Igreja palco constante de alterações e acrescentos nos séculos seguintes. A 14 de maio de 1928, tiveram início as obras de adaptação do claustro e do primeiro piso da Casa do Priorado. Em 1935, terminam as obras de adaptação do edifício, passando este a dispor, como espaço expositivo das suas coleções, do Claustro e de mais cinco salas. Em 1967, após vários anos de obras, procede-se à inauguração dos novos espaços, passando o Museu a poder contar com serviços modernos, com uma sala de conferências, e com salas para exposições temporárias. Entre 1999 e 2004, o Museu volta a sofrer obras de recuperação e remodelação ganhando um novo visual: renova-se a recepção e a loja do museu, bem como os espaços de exposição.

Mal acaba de entrar no Museu, logo o visitante é convidado a sair! Sim, é verdade. Ainda a refazer-se da modernidade acolhedora do espaço da Recepção, é convidado a sair para o Claustro, o belo claustro do Museu de Alberto Sampaio. O claustro, como hoje o vemos, é constituído por uma sequência de arcos de volta perfeita que assentam em colunas, cujos capitéis estão decorados com motivos vegetalistas, volutas simples ou perladas e pequenos rostos humanos. Os quarenta e dois capitéis são todos diferentes e alguns foram refeitos aquando do restauro do claustro entre 1928 e 1931. As galerias comunicam com o jardim por passagens rasgadas nos muretes, os chamados estilóbatos, em que assentam as bases das colunas, algumas das quais decoradas com folhas de videira. Nestes muretes podemos encontrar desenhos gravados de jogos medievais de tabuleiro, os alguergues, assim como algumas representações sagradas: uma custódia e uma pequena capela. É também no claustro que encontramos a colecção lítica do Museu, isto é, as peças em pedra como os brasões, as pias de água benta, os capitéis e as lápides, para além de algumas esculturas. No jardim fronteiro encontra-se o busto do fundador e primeiro diretor do Museu de Alberto Sampaio, Alfredo Guimarães.

As salas são seis, sendo a Sala de Santa Clara aquela que primeiro se oferece ao visitante, nela avultando dois anjos tocheiros de grandes dimensões e uma Fuga para o Egito. Na Sala da Talha expõem-se três retábulos seiscentistas. Na ala nascente do claustro encontra-se a primitiva Sala do Capítulo, em cujo interior podemos ver um teto apainelado com pinturas de brutesco feitas a têmpera. A Sala da Ourivesaria impressiona pelos objectos de culto que alberga, neles avultando o ouro, a prata, o marfim e as pedras preciosas. Trata-se de uma coleção singular, caracterizada pela sua unidade, pela sua qualidade bastante homogénea, por se encontrar invulgarmente bem documentada e ainda por incluir uma expressiva representação da produção local. É hoje um dos melhores conjuntos do género existentes em museus nacionais, ocupando um lugar único na História da Arte em Portugal. De salientar que dos doze tesouros nacionais que o Museu possui, dez se encontram na Sala de Ourivesaria, nomeadamente um cálice e patena de D. Sancho (1187), um cofre-relicário em prata (séc. XIII - XIV) e uma cruz processional mandada fazer pelo Doutor João das Regras (final séc. XIV).

A Sala de Aljubarrota é uma das principais salas do Museu e nela está exposto um conjunto de peças relacionadas com a batalha de Aljubarrota, travada a 14 de Agosto de 1385 entre o rei D. João I de Portugal e o rei D. João I de Castela, e que foi fundamental para a consolidação da independência nacional. Especial devoto de Santa Maria de Guimarães, foi a ela que o rei veio agradecer o ter vencido tão decisiva batalha, oferecendo-lhe as suas armas, para além do Loudel que envergava na refrega e o Tríptico de prata dourada que representa o nascimento do Menino Jesus. Estas duas peças integram o espólio dos tesouros nacionais. Pela sua natureza, a Sala de Pintura a Fresco é única no panorama dos museus em Portugal, nelas se encontrando expostos alguns dos trabalhos extraídos de igrejas do norte de Portugal nos anos 30 e 40 do séc. XX. Por fim, a Sala de Pintura e Escultura, na qual se destacam o Tríptico da Lamentação e a Nossa Senhora com o Menino, provenientes da Colegiada de Nossa Senhora da Oliveira e ainda as tábuas de Nossa Senhora do Leite entre São Bento e São Jerónimo e um São Miguel, provenientes da Igreja de São Miguel do Castelo e um São Gregório Magno da paroquial de São Cipriano de Tabuadelo. Fazendo contraponto com a pintura sobre tábua, expõe-se também a escultura, em pedra ou em madeira, datada dos séculos XIV a XVII, sendo uma parte significativa destas peças oriunda da Colegiada de Guimarães ou de outras instituições religiosas da cidade.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

CONCERTO: Frankfurt Radio Big Band & Melissa Aldana



CONCERTO: Frankfurt Radio Big Band & Melissa Aldana
Guimarães Jazz 2021
Centro Cultural Vila Flor – Grande Auditório
20 Nov 2021 | sab | 21:30 


O Guimarães Jazz cumpriu a tradição de encerrar o seu programa com a apresentação de uma renomada e competente orquestra do jazz europeu, cabendo essa responsabilidade, na edição do 30º aniversário, à Frankfurt Radio Big Band. Dirigida por Jim McNeely, prestigiado e experiente arranjador e diretor musical norte-americano, a formação germânica regressou ao festival oito anos depois de uma primeira presença com o projeto de interpretação das composições de John Abercrombie, sendo desta vez acompanhada pela jovem saxofonista chilena Melissa Aldana, na condição de solista. Foi um final de festa sensaborão, não pela competência da banda - a qual integrou o trompetista português Luís Miguel Macedo - mas pelo repertório escolhido, recaindo o alinhamento sobre o mais recente trabalho de Aldana, “Visions”, que viria a revelar-se de uma monotonia absolutamente desconsoladora.

A Frankfurt Radio Big Band construiu a sua reputação no jazz europeu em resultado do ecletismo da sua abordagem às múltiplas facetas deste género musical e pontuais incursões aos universos da pop e da world music. Atualmente considerada uma instituição da cultura alemã, esta orquestra promoveu, no decurso da sua atividade, programas ambiciosos e expansivos de colaboração não apenas com alguns dos nomes mais mediáticos do jazz contemporâneo, entre eles John Scofield, Django Bates ou Billy Cobham, entre outros, mas também com músicos e artistas provenientes dos mais diversos contextos criativos. À frente da orquestra esteve Jim McNeely, quatro décadas de carreira no jazz ao mais alto nível e unanimemente reconhecido como um dos mais distintos representantes da tradição jazzística orquestral, sendo disso prova as inúmeras nomeações para os Grammys que lhe foram concedidas ao longo do tempo. Por aqui fomos nós muito bem, os solistas da orquestra a pontuarem os vários temas, dando-lhes o vigor que pareceu escassear em Melissa Aldana.

Quanto a Melissa Aldana, são cinco os trabalhos discográficos em nome próprio editados até à data e que lhe vêm valendo notoriedade e reconhecimento. Introduzida no meio jazzístico norte-americano pelo pianista panamiano Danilo Pérez, Aldana estudou no Berklee College of Music de Boston, onde teve como professores grandes músicos como Joe Lovano, e está atualmente sedeada em Nova Iorque. Editou o seu primeiro álbum, “Free Fall”, em 2010 pela editora do saxofonista Greg Osby e, em 2013, tornou-se a primeira mulher sul-americana a ser galardoada com o reputado Thelonious Monk Music Award na competição de saxofone. Em paralelo à carreira como líder de formação e como solista, Melissa Aldana colabora regularmente com outros músicos de jazz como Peter Bernstein ou Christian McBride, entre outros. Em Guimarães não correspondeu às expectativas, mas qualquer artista tem direito a uma noite menos boa.


segunda-feira, 29 de novembro de 2021

CONCERTO: Ryan Cohan Quintet



CONCERTO: Ryan Cohan Quintet
Guimarães Jazz 2021
Centro Cultural Vila Flor – Pequeno Auditório
20 Nov 2021 | sab | 18:30 


Apesar de, como é amplamente sabido, o jazz ser primordialmente uma música negra com raízes nas expressões musicais africanas e seus equivalentes transplantados nos Estados Unidos da América, com o passar do tempo os princípios orgânicos desta música foram sendo incorporados na tradição clássica e intelectualizados de acordo com a matriz musical ocidental. Assim sendo, à medida que o jazz foi amadurecendo a sua identidade e expandindo o seu raio de influência, assimilando e reinterpretando outros géneros musicais, foram naturalmente surgindo músicos como Gil Evans, em colaboração com Miles Davis, ou, mais recentemente, Uri Caine (e estes são apenas dois exemplos entre muitos) que começaram a reivindicar a existência de uma linha de continuidade entre a música clássica europeia e o jazz, harmonizando assim numa mesma cosmologia musical compositores aparentemente tão distantes entre si como Schoenberg e Charlie Parker, Duke Ellington e Bach.

O pianista e compositor norte-americano Ryan Cohan é, duas décadas passadas desde que iniciou a sua carreira musical, um digno representante desta tendência, com um percurso onde se abrigam, não apenas a música clássica, mas também a música tradicional de geografias e culturas não-ocidentais. Bolseiro da Fundação Guggenheim em composição musical, Cohan editou até à data seis trabalhos discográficos em nome próprio, o último dos quais, “Originations”, reúne composições escritas para sexteto de jazz e quarteto de cordas que sintetizam elementos da música tradicional árabe e judaica, da música clássica e da improvisação. Nesta edição do Guimarães Jazz foi precisamente este álbum que constituiu a base do alinhamento do concerto de um quinteto onde, além do piano de Cohan, pontificaram o trompete de Tito Carrillo, os saxofones de Scott Burns, o contrabaixo de Lorin Cohen e a bateria de George Fludas.

Um dos aspectos marcantes deste concerto que praticamente encheu o Pequeno Auditório do Centro Cultural Vila Flor é a tendência de Cohan para o formato longo das suas composições e para a relação íntima e vigorosa com o piano, convidando a uma escuta imersiva, recheada de momentos de deleite e júbilo. Nalguns temas são perceptíveis o intimismo e espiritualidade que remetem para a Jordânia, Israel e Palestina e para as raízes históricas e culturais do próprio Cohan, enquanto noutros predominam os ambientes urbanos da sua Chicago natal, um leve toque de improviso a acrescentar-lhes graça e leveza. Fortes e vivos, os retratos musicais levam o público numa viagem fascinante e inspiradora por baladas que são carícias ou por composições vibrantes, numa verdadeira festa para os sentidos. Contagiantemente optimista, apontando caminhos de luz e fruição do que de bom a vida tem para oferecer, assim é a música de Ryan Cohan. Foi, pelo menos, assim que a senti em Guimarães, naquele que foi o melhor dos três concertos a que me foi dado assistir na 30ª edição do certame.  

[Texto construído com base no programa do Guimarães Jazz 2021, em https://www.guimaraesjazz.pt/detail-eventos/20211120-ryan-cohan-quintet/. Foto: Paulo Pacheco | https://www.facebook.com/CCVF.Guimaraes/photos/]

segunda-feira, 22 de novembro de 2021

CONCERTO: Samuel Blaser & Marc Ducret



CONCERTO: Samuel Blaser & Marc Ducret
Guimarães Jazz 2021
Centro Cultural Vila Flor – Pequeno Auditório
20 Nov 2021 | sab | 16:00


A crescente atenção que, em edições mais recentes, o Guimarães Jazz tem dedicado ao auditório secundário, onde concertos de menor perfil mediático têm lugar, prende-se com razões que estão intimamente ligadas aos mecanismos atuais de funcionamento do circuito da música em geral, e do jazz em particular. Se por um lado continuam a ser dominantes os princípios de autorregulação do mercado musical, extraídos a partir de considerações, cada vez mais obsoletas e desligadas da realidade, sobre as supostas preferências do público, é igualmente evidente que hoje as fronteiras entre aquilo que se designa por arte mainstream e por, do lado oposto, arte “independente”, parecem também cada vez mais esbatidas e em processo de esvaziamento de sentido.

É nesta ideia de programação que o duo formado por Samuel Blaser e Marc Ducret encaixa perfeitamente. Nascido em 1981, o trombonista e compositor suíço Samuel Blaser corporiza o espírito terceiro-milenar da música europeia, caracterizado essencialmente pela incorporação de um vasto espectro de influências no ato criativo e pela fluidez de discursos potenciada pelo novo esperanto sonoro gerado pela globalização. Enquanto instrumentista, dedica-se à exploração dos limites do seu instrumento a solo, operando o som a partir das diferentes qualidades arquiteturais e acústicas do contexto onde grava ou atua. Por seu lado, o guitarrista Marc Ducret é atualmente considerado, em virtude de um percurso de notável integridade ética e ousadia estética, um dos nomes mais influentes nos domínios da música improvisada e experimental contemporânea.

Perante um Auditório despido de público, ao duo coube abrir a programação do último dia do Guimarães Jazz 2021. Em pouco mais de uma hora de concerto, ficou patente o seu grande virtuosismo e cultura musical, bem como a sua “atração pelo risco e pela disrupção das fórmulas impostas pela indústria musical, qualidades criativas que são exploradas com intensidade numa performance sonora e física expansiva em que a irregularidade da contra-narrativa é sublimada em sacrifício da previsibilidade das convenções”. Dizer que a sua música é agradável para os ouvidos é fugir à verdade, mas dela resulta um conjunto de experiências sensoriais que tocam cordas indefinidas lá bem no íntimo, pedindo atenção e trabalho na sua descodificação. Para os indefectíveis do Roquefort (ou do Sushi) que começaram por odiá-lo, é tempo de lembrar que a evolução do(s) gosto(s) passa por fenómenos deste género.

[Texto construído com base no programa do Guimarães Jazz 2021, em https://www.guimaraesjazz.pt/detail-eventos/20211120-samuel-blaser-andamp-marc-ducret/. Foto: Paulo Pacheco | https://www.facebook.com/CCVF.Guimaraes/photos/]

domingo, 25 de outubro de 2020

CERTAME: Encontros da Imagem de Braga 2020


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CERTAME: Encontros da Imagem – Festival Internacional de Fotografia e Artes Visuais 2020
Braga, Barcelos, Guimarães, Porto e Avintes (vários locais)
11 Set > 31 Out 2020


Genesis é tudo isso: a origem ou criação e, como em todas as criações e também na arte, a génese sucede à destruição. Com cada criação surgem novos significados, outros juízos de valor, outras teorias científicas, novos mitos, novos algoritmos e, insidiosamente, velhos erros e revivalismos que atrasam os significados desta comunidade do futuro que, com o seu desleixo e as suas utopias de felicidade, não as quis e não as quer perder. Mudanças, deslocações de povos, efeitos de catástrofe ou de perseverança, criação e destruição, - o alfa e o ómega de uma cultura – e que, consensualmente, nos aparecem como a essência das novas artes visuais.

É sob o negro manto pandémico do novo coronavírus que tem lugar a 30ª edição dos Encontros da Imagem de Braga. Distribuído por vinte e três espaços diferentes, em Braga, Guimarães, Barcelos, Porto e Avintes, com um total de 36 exposições de 68 artistas, o maior Festival de Fotografia do país propõe um conjunto de reflexões profundas sobre temas candentes da actualidade, das tremendas alterações climáticas a uma poluição galopante, da irracionalidade política, governada pela finança, a um individualismo de vincada auto-estima. Esta marca é tão forte que as narrativas expressas nos vários projectos fotográficos tornam-se sujeito e complemento de si próprias, em permanente estado de (re)construção, fazendo com que Génesis, mais do que uma palavra, surja como um símbolo do que podemos e queremos em relação ao futuro.

Entre o Mosteiro de Tibães e a Galeria do Paço, passando pela Casa dos Crivos, Museu dos Biscainhos, gnration, Edifício do Castelo, Museu Nogueira da Silva e Theatro Circo, a minha “peregrinação” a Braga saldou-se pela visualização de 22 exposições, às quais acrescentaria “Estado do Tempo”, exposição da Colecção Encontros da Imagem, patente na Casa da Cultura de Avintes e sobre a qual me debrucei em crónica anterior aqui no blogue. Do que ficou visto, permito-me destacar as exposições “Love, Live, Refugee”, de Omar Imam, patente no Theatro Circo e “ReGenesis”, de Gonçalo Delgado, que se apresenta na Casa dos Crivos. Trent Davis Baley, com “The North Fork” (Mosteiro de Tibães) e ainda “Forest Family”, de Touko Hujanen e “Where The River Runs Through”, de Aaron Vincent Elkaim, ambos na Galeria do Paço, são exposições igualmente dignas de nota e das quais falarei separadamente ao longo dos próximos dias.

Pela mensagem fortíssima, importa referir “Wahala”, projecto que levou Robin Hinsch a países como a Índia, a Nigéria, a Polónia e a Alemanha, os combustíveis fósseis no cerne das suas (e nossas) preocupações. Hugo Delgado chama à discussão um conjunto de imagens muito fortes que reflectem o quotidiano das populações em tempo de pandemia, intitulando-o “Descontinuidade”. “Transatlántica”, de Elsa Leydier, questiona a influência política da fotografia na representação dos territórios. Com “The White Line”, Rosa Rodriguez conduz-nos aos lugares que o homem foi incapaz de conquistar e moldar ao seu gosto. João Ferreira propõe-nos “O Paraíso Segundo José Maria”, acompanhando os romeiros que percorrem a Ilha de S. Miguel ao som de orações. Felipe Romero Beltran apresenta "Redución", Prémio de Fotografia Contemporânea da Galiza 2019, questionando os procedimentos de redução policial e sua carga a pessoas ilegais em território espanhol. Finalmente, “(Sobre)viver”, de Nina Franco, na qual a autora aborda a violência contra a mulher e o feminicídio através de diversos meios como a fotografia, a instalação, o vídeo, a pintura e a performance. Muito e bom para ver nestes Encontros quase a chegarem ao fim.

domingo, 17 de novembro de 2019

CONCERTO: Joe Lovano Tapestry Trio com Marilyn Crispell e Carmen Castaldi



CONCERTO: Joe Lovano Tapestry Trio com Marilyn Crispell e Carmen Castaldi
Guimarães Jazz 2019
Centro Cultural Vila Flor, Grande Auditório
13 Nov 2019 | qua | 21:30


Depois de Charles Lloyd ter colocada a fasquia a uma altura incrível logo na abertura desta edição do Festival de Jazz de Guimarães, foi com enorme expectativa que assistimos ao concerto de Joe Lovano. A sua presença em palco, porém, acabaria por se revelar fracassada, sobretudo porque a música que Lovano nos trouxe, ainda que rica em texturas rítmicas, revelou uma dimensão demasiado livre, com reflexos negativos particularmente na consistência harmónica e melódica de alguns temas, bem como na coerência dum alinhamento que acabou por misturar preciosas pérolas com um experimentalismo de gosto duvidoso.

Com Marilyn Crispell no piano e Carmen Castaldi na bateria, este Trio Tapestry – que é também o título do álbum editado em Janeiro deste ano pela editora ECM – só a espaços conseguiu fazer passar a mensagem de uma “música introspetiva e contemplativa, desinteressada de ambições virtuosísticas, desligada de pretensões de inovação, focada sobretudo na expressão da beleza e comprometida apenas com o propósito da partilha e da congregação dos espíritos”. E se é verdade que “Rare Beauty”, “Tarrassa” ou “Night Creatures” poderiam facilmente suportar a carta de intenções do trio, temas como “Gong Episode” ou “Dream and That” acabam por deitar tudo a perder.

Há, todavia, um aspecto de enorme relevância neste concerto e que importa realçar pela positiva. Falo de Marilyn Crispell e da forma como brilha neste trio. Carregando sobre si a tarefa de alimentar o diálogo com o saxofone e, a espaços, com a bateria (ou com os dois), a pianista cota-se como a figura central do agrupamento, chamando a si o grosso das atenções. É inegável o virtuosismo de Joe Lovano, como é de louvar a forma “sussurrada” como Carmen Cristaldi faz ouvir a sua bateria. Crispell, contudo, destaca-se na sua forma de entender a música e de a mostrar, o que permite uma constatação óbvia: Fui a Guimarães para ouvir Lovano, mas foi Marilyn Crispell que trouxe comigo. Nos sentidos e no coração.

[Foto: Centro Cultural Vila Flor | facebook.com/CCVF.Guimaraes/]

domingo, 10 de novembro de 2019

CONCERTO: Charles Lloyd "Kindred Spirits"



CONCERTO: Charles Lloyd “Kindred Spirits”
Guimarães Jazz 2019
Centro Cultural Vila Flor, Grande Auditório
07 Nov 2019 | qui | 21:30


Primeiro, é o piano de Gerald Clayton que se insinua. Lento, sincopado, triste como um lamento. É dele o som que se derrama em fado, as notas a convidar à viagem interior, à introspecção, ao silêncio. Quebrando o solo, a bateria de Eric Harland e o contrabaixo de Harish Raghavan introduzem novos sons, reforçando o ritmo, e pensamos que nunca o fado e o jazz latino estiveram tão próximos. Já a guitarra de Marvin Sewell se adentra por terrenos dos blues quando o todo ganha outra expressividade e o resultado, indecifrável no início, remete cada vez mais para algo reconhecível. Mas é com o tom grave do saxofone de Charles Lloyd, o seu fraseado esclarecido e profundamente límpido, que temos a certeza de estarmos perante uma versão sublime de La Llorona, um tema imortalizado na voz de Chavela Vargas e que, mais do que ao folclore mexicano, pertence ao mundo. Tal como o fado!

Neste, como no inicial “Dream Weaver”, em Zoltan”, no hino identitário dos negros norte-americanos que é Lift Every Voice and Sing ou nos restantes temas oferecidos ao público por essa lenda viva do Jazz que dá pelo nome de Charles Lloyd, a nota foi de transcendência. “Kindred Spirits”, concerto de abertura do Guimarães Jazz 2019, foi todo ele um somar de momentos prodigiosos, deixando o vasto e esgotadíssimo auditório do CCVF completamente rendido ao talento e à vitalidade deste “jovem” de 81 anos. Ao longo de seis longos temas, nos quais se inclui um muito pleiteado e devido “encore”, Charles Lloyd soube encantar pela sua jovial presença em palco, mas sobretudo pelo seu virtuosismo no domínio do saxofone, mas também da flauta, surgida já na parte final do concerto com o tema “Dismal Swamp”.

Saxofonista superlativo e um compositor sofisticado, Charles Lloyd é um músico com uma componente histórica fortíssima, tendo tocado com praticamente todos os grandes nomes do jazz, de Cannonball Adderley a Don Cherry, de Tony Williams a Keith Jarrett. Desta vez, apresentou-se em palco com uma formação que nele é pouco usual, um quinteto, saindo reforçada a ideia de que sempre soube acompanhar-se de músicos de enorme valia. Gerald Clayton provou ser um pianista enorme, quer num registo mais clássico, quer em áreas que apelam à improvisação. Já Marvin Sewell encantou em acordes que fundiram no jazz os géneros do blues e do rock. Discretos mas tremendamente eficazes, Harish Raghavan e Eric Harland asseguraram na perfeição a componente rítmica, suportando os seus pares em melodias preciosas ou em improvisações puramente mágicas. Se há concertos que valem pelos momentos, há igualmente momentos que valem por uma vida. “Kindred Spirits” foi um desses momentos!

[Foto: © Guimaraes Jazz – Centro Cultural Vila Flor | facebook.com/CCVF.Guimaraes/]