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quinta-feira, 18 de junho de 2026

EXPOSIÇÃO: “Kerygma. El arte de evangelizar”



EXPOSIÇÃO: “Kerygma. El arte de evangelizar”
Arte Sacra Devocional
Catedral de Granada
08 Mai > 28 Nov 2026


Na monumentalidade renascentista da Catedral de Granada, “Kerygma. El arte de evangelizar” apresenta-se como um dos mais ambiciosos exercícios de valorização do património religioso andaluz das últimas décadas. Integrada nas comemorações do centenário da Real Federação de Irmandades e Confrarias de Granada, a mostra reúne mais de uma centena de peças entre escultura, pintura, ourivesaria, têxteis e documentação histórica, propondo um percurso que atravessa cinco séculos de cultura e devoção. O visitante inicia a viagem nos capítulos “Origens” e “Irmandades Passionistas e Vias Sacras”, ao longo dos quais se procura demonstrar que a Semana Santa granadina não é uma tradição tardia nem periférica, mas um fenómeno cujas raízes mergulham nos finais do século XV e nos alvores da modernidade espanhola. Aqui, a exposição cumpre eficazmente o seu propósito pedagógico, relacionando a organização das primeiras confrarias penitenciais com a construção de uma identidade urbana profundamente marcada pela Reconquista e pela afirmação do catolicismo tridentino. A narrativa tende a privilegiar uma leitura celebratória das origens, relegando para segundo plano as tensões sociais, políticas e religiosas que moldaram o surgimento destas associações. Ainda assim, a qualidade das obras reunidas, muitas delas raramente acessíveis ao público por se encontrarem em clausura ou fora dos circuitos museológicos, permite compreender como a devoção foi também um poderoso instrumento de representação colectiva, capaz de transformar imagens de culto em autênticos símbolos de pertença comunitária.

O percurso ganha densidade estética nos capítulos dedicados à dinastia dos Mora e à “Religiosidade Barroca”, verdadeiro núcleo conceptual da exposição. Se o barroco andaluz constituiu uma linguagem artística destinada a emocionar, persuadir e evangelizar através dos sentidos, poucas escolas o materializaram de forma tão intensa como a granadina. José de Mora, Diego de Mora e os seus continuadores surgem aqui como protagonistas de uma revolução visual que fez da escultura religiosa um veículo privilegiado de experiência espiritual. A reunião de imagens dispersas por igrejas, conventos e confrarias permite observar, num mesmo espaço, a extraordinária capacidade destes mestres para fundir dramatismo, elegância e intimidade. Rostos marcados pela dor contida, olhares suspensos entre o humano e o divino e uma delicada teatralidade formal revelam a singularidade da escola granadina perante outras correntes barrocas da Península. E mesmo que o discurso expositivo pareça assumir que a excelência artística decorre da sua função devocional, são muitas as obras que possuem autonomia estética suficiente para serem apreciadas para além do contexto religioso. Essa ambiguidade atravessa toda a exposição: entre museu e templo, entre contemplação artística e veneração, “Kerygma” prefere frequentemente a segunda hipótese, transformando a emoção espiritual no principal critério de interpretação.

Os capítulos “Ressurgir” e “Influências” procuram demonstrar como esta tradição sobreviveu às crises históricas, às transformações sociais e às mudanças de gosto artístico. A intenção é meritória, sobretudo ao evidenciar os processos de conservação patrimonial e os diálogos permanentes entre Granada e outros centros criativos da Andaluzia. O visitante percebe que a Semana Santa não constitui um legado cristalizado, mas uma realidade em contínua reinvenção, alimentada por sucessivas gerações de escultores, douradores, bordadores e confrades. Ainda que indirectamente, a abordagem questiona as implicações dessa constante reconstrução da memória, apresentando a continuidade como um valor absoluto. A selecção de peças e testemunhos privilegia uma narrativa linear de sobrevivência e esplendor, furtando-se a discutir rupturas, desaparecimentos ou conflitos patrimoniais que igualmente marcaram a história das confrarias. Ainda assim, a secção evidencia de forma convincente a capacidade das irmandades para se adaptarem aos tempos sem perderem a sua função agregadora. Mais do que simples guardiãs de objectos artísticos, estas instituições surgem como agentes activos na preservação de um imaginário colectivo que continua a moldar a paisagem cultural e religiosa andaluza.

A recta final, composta por “Miscelânea” e pelo capítulo dedicado ao Altar Itinerante e ao centenário federativo, funciona como síntese e celebração. Reunindo alfaias litúrgicas, bordados, peças de ourivesaria e documentos históricos, a penúltima secção oferece um olhar mais amplo sobre os elementos que sustentam o universo visual das confrarias para além da escultura. Já o encerramento assume sem reservas um carácter comemorativo, transformando a exposição numa homenagem institucional à Federação granadina e ao papel desempenhado pelas irmandades ao longo de um século. É neste ponto que “Kerygma” revela de forma mais evidente a sua dupla natureza. Por um lado, constitui uma operação patrimonial de enorme relevância, reunindo obras de valor excepcional e proporcionando leituras inéditas sobre a história artística de Granada. Por outro, nunca abandona a intenção catequética inscrita no próprio título, concebendo a arte como instrumento de evangelização e testemunho de fé. Esta opção pode revelar-se limitadora de algumas possibilidades de interpretação crítica, mas não diminui o impacto visual e emocional do conjunto. Entre a exposição de arte e o manifesto identitário, “Kerygma” confirma a vitalidade de uma tradição que continua a encontrar no barroco andaluz a sua expressão mais poderosa, recordando que, em Granada, a história da arte e a história da devoção permanecem indissociáveis.

quinta-feira, 17 de novembro de 2022

LUGARES: Museu de Alberto Sampaio, Guimarães


[Clicar na imagem para ver mais fotos]

ESPAÇOS: Museu de Alberto Sampaio
Rua Alfredo Guimarães, Guimarães
Horários | De terça a sexta, das 10h00 às 18h00. Sábados e domingos, das 10h00 às 13h00 e das 14h00 às 18h00
Ingressos | Bilhete normal 3,00 €


Situado em pleno centro histórico de Guimarães, no local onde a condessa Mumadona, no século X, mandou construir um mosteiro, o Museu de Alberto Sampaio foi criado em 1928 para albergar o espólio artístico da extinta Colegiada de Nossa Senhora da Oliveira e de outras igrejas e conventos de Guimarães, então na posse do Estado. Esta Colegiada vem dos alvores do séc. XII, sofrendo importantes obras de ampliação e beneficiação sob a égide de D. João I, em cujo reinado se iniciou e concluiu a construção de uma nova Igreja dedicada a Santa Maria de Guimarães. No séc. XVI, a igreja, claustro e Casa do D. Prior foram amplamente renovadas, sendo a Igreja palco constante de alterações e acrescentos nos séculos seguintes. A 14 de maio de 1928, tiveram início as obras de adaptação do claustro e do primeiro piso da Casa do Priorado. Em 1935, terminam as obras de adaptação do edifício, passando este a dispor, como espaço expositivo das suas coleções, do Claustro e de mais cinco salas. Em 1967, após vários anos de obras, procede-se à inauguração dos novos espaços, passando o Museu a poder contar com serviços modernos, com uma sala de conferências, e com salas para exposições temporárias. Entre 1999 e 2004, o Museu volta a sofrer obras de recuperação e remodelação ganhando um novo visual: renova-se a recepção e a loja do museu, bem como os espaços de exposição.

Mal acaba de entrar no Museu, logo o visitante é convidado a sair! Sim, é verdade. Ainda a refazer-se da modernidade acolhedora do espaço da Recepção, é convidado a sair para o Claustro, o belo claustro do Museu de Alberto Sampaio. O claustro, como hoje o vemos, é constituído por uma sequência de arcos de volta perfeita que assentam em colunas, cujos capitéis estão decorados com motivos vegetalistas, volutas simples ou perladas e pequenos rostos humanos. Os quarenta e dois capitéis são todos diferentes e alguns foram refeitos aquando do restauro do claustro entre 1928 e 1931. As galerias comunicam com o jardim por passagens rasgadas nos muretes, os chamados estilóbatos, em que assentam as bases das colunas, algumas das quais decoradas com folhas de videira. Nestes muretes podemos encontrar desenhos gravados de jogos medievais de tabuleiro, os alguergues, assim como algumas representações sagradas: uma custódia e uma pequena capela. É também no claustro que encontramos a colecção lítica do Museu, isto é, as peças em pedra como os brasões, as pias de água benta, os capitéis e as lápides, para além de algumas esculturas. No jardim fronteiro encontra-se o busto do fundador e primeiro diretor do Museu de Alberto Sampaio, Alfredo Guimarães.

As salas são seis, sendo a Sala de Santa Clara aquela que primeiro se oferece ao visitante, nela avultando dois anjos tocheiros de grandes dimensões e uma Fuga para o Egito. Na Sala da Talha expõem-se três retábulos seiscentistas. Na ala nascente do claustro encontra-se a primitiva Sala do Capítulo, em cujo interior podemos ver um teto apainelado com pinturas de brutesco feitas a têmpera. A Sala da Ourivesaria impressiona pelos objectos de culto que alberga, neles avultando o ouro, a prata, o marfim e as pedras preciosas. Trata-se de uma coleção singular, caracterizada pela sua unidade, pela sua qualidade bastante homogénea, por se encontrar invulgarmente bem documentada e ainda por incluir uma expressiva representação da produção local. É hoje um dos melhores conjuntos do género existentes em museus nacionais, ocupando um lugar único na História da Arte em Portugal. De salientar que dos doze tesouros nacionais que o Museu possui, dez se encontram na Sala de Ourivesaria, nomeadamente um cálice e patena de D. Sancho (1187), um cofre-relicário em prata (séc. XIII - XIV) e uma cruz processional mandada fazer pelo Doutor João das Regras (final séc. XIV).

A Sala de Aljubarrota é uma das principais salas do Museu e nela está exposto um conjunto de peças relacionadas com a batalha de Aljubarrota, travada a 14 de Agosto de 1385 entre o rei D. João I de Portugal e o rei D. João I de Castela, e que foi fundamental para a consolidação da independência nacional. Especial devoto de Santa Maria de Guimarães, foi a ela que o rei veio agradecer o ter vencido tão decisiva batalha, oferecendo-lhe as suas armas, para além do Loudel que envergava na refrega e o Tríptico de prata dourada que representa o nascimento do Menino Jesus. Estas duas peças integram o espólio dos tesouros nacionais. Pela sua natureza, a Sala de Pintura a Fresco é única no panorama dos museus em Portugal, nelas se encontrando expostos alguns dos trabalhos extraídos de igrejas do norte de Portugal nos anos 30 e 40 do séc. XX. Por fim, a Sala de Pintura e Escultura, na qual se destacam o Tríptico da Lamentação e a Nossa Senhora com o Menino, provenientes da Colegiada de Nossa Senhora da Oliveira e ainda as tábuas de Nossa Senhora do Leite entre São Bento e São Jerónimo e um São Miguel, provenientes da Igreja de São Miguel do Castelo e um São Gregório Magno da paroquial de São Cipriano de Tabuadelo. Fazendo contraponto com a pintura sobre tábua, expõe-se também a escultura, em pedra ou em madeira, datada dos séculos XIV a XVII, sendo uma parte significativa destas peças oriunda da Colegiada de Guimarães ou de outras instituições religiosas da cidade.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

EXPOSIÇÃO: "As Ilhas do Ouro Branco"



EXPOSIÇÃO: “As Ilhas do Ouro Branco”
Encomenda Artística na Madeira nos Séculos XV e XVI
Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa
16 Nov 2017 > 18 Mar 2018


A introdução do cultivo da cana-de-açúcar no arquipélago da Madeira, nos finais da primeira metade do século XV, e o desenvolvimento dessa produção em larga escala, permitiram a exportação de açúcar para os portos da Flandres, primeiro através de Lisboa, depois diretamente. Aumentou, assim, por toda a Europa, o consumo do «ouro branco», alterando hábitos alimentares e algumas práticas medicinais. Em paralelo, cresceu a importação para o arquipélago de bens destinados a satisfazer as devoções e a definir o estatuto social dos novos grupos populacionais constituídos à sombra dos canaviais e da economia açucareira.
 
Geograficamente isolado, em pleno Atlântico – no espaço ambíguo proporcionado pela ligação directa ao senhorio régio e pelo poder económico das elites que se foram estabelecendo e gerando redes comerciais -, o Arquipélago da Madeira conquistou, no território nacional, uma posição ela mesma ambígua, entre capital e província. Esta a razão da qualidade, quantidade e opulência do património artístico aí acumulado, apenas superado pela arte consumida no círculo directo da corte.
 
Marcando o arranque das Comemorações dos 600 Anos do Descobrimento da Madeira e Porto Santo, esta embaixada cultural do arquipélago em Lisboa é constituída por 86 obras de arte, agora patentes no Museu Nacional de Arte Antiga. Ao longo de uma narrativa que parte do espanto dos primeiros navegadores perante o novo território e prossegue com a evocação do esforço do povoamento e da implantação de estruturas económicas e administrativas no arquipélago, esta exposição dá a conhecer as elites comitentes locais através das suas encomendas – obras de pintura, escultura ou ourivesaria – provenientes da Flandres, do continente e até do Oriente.
 
Ilustrando a diversidade e a grandiosidade das encomendas e a sua ampla distribuição pelo território das duas grandes capitanias em que se dividiu a ilha da Madeira – Funchal e Machico -, expõem-se, no último núcleo desta mostra, algumas das mais destacadas obras-primas, como a Cruz Processional da Sé, a Virgem chamada de D. Manuel, do Machico, ou os conjuntos retabulares de grandes dimensões realizados para capelas da Sé do Funchal, para conventos urbanos ou mesmo para pequenas e médias igrejas paroquiais, como as da Ribeira Brava, da Madalena do Mar e da Calheta. No seu conjunto, permitem realizar uma síntese de toda a narrativa da exposição, documentando, com particular brilho, a riqueza do património madeirense dos séculos XV e XVI que resultou do esplendor cultural proporcionado pelo ciclo económico do “ouro branco”.