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segunda-feira, 29 de novembro de 2021

CONCERTO: Ryan Cohan Quintet



CONCERTO: Ryan Cohan Quintet
Guimarães Jazz 2021
Centro Cultural Vila Flor – Pequeno Auditório
20 Nov 2021 | sab | 18:30 


Apesar de, como é amplamente sabido, o jazz ser primordialmente uma música negra com raízes nas expressões musicais africanas e seus equivalentes transplantados nos Estados Unidos da América, com o passar do tempo os princípios orgânicos desta música foram sendo incorporados na tradição clássica e intelectualizados de acordo com a matriz musical ocidental. Assim sendo, à medida que o jazz foi amadurecendo a sua identidade e expandindo o seu raio de influência, assimilando e reinterpretando outros géneros musicais, foram naturalmente surgindo músicos como Gil Evans, em colaboração com Miles Davis, ou, mais recentemente, Uri Caine (e estes são apenas dois exemplos entre muitos) que começaram a reivindicar a existência de uma linha de continuidade entre a música clássica europeia e o jazz, harmonizando assim numa mesma cosmologia musical compositores aparentemente tão distantes entre si como Schoenberg e Charlie Parker, Duke Ellington e Bach.

O pianista e compositor norte-americano Ryan Cohan é, duas décadas passadas desde que iniciou a sua carreira musical, um digno representante desta tendência, com um percurso onde se abrigam, não apenas a música clássica, mas também a música tradicional de geografias e culturas não-ocidentais. Bolseiro da Fundação Guggenheim em composição musical, Cohan editou até à data seis trabalhos discográficos em nome próprio, o último dos quais, “Originations”, reúne composições escritas para sexteto de jazz e quarteto de cordas que sintetizam elementos da música tradicional árabe e judaica, da música clássica e da improvisação. Nesta edição do Guimarães Jazz foi precisamente este álbum que constituiu a base do alinhamento do concerto de um quinteto onde, além do piano de Cohan, pontificaram o trompete de Tito Carrillo, os saxofones de Scott Burns, o contrabaixo de Lorin Cohen e a bateria de George Fludas.

Um dos aspectos marcantes deste concerto que praticamente encheu o Pequeno Auditório do Centro Cultural Vila Flor é a tendência de Cohan para o formato longo das suas composições e para a relação íntima e vigorosa com o piano, convidando a uma escuta imersiva, recheada de momentos de deleite e júbilo. Nalguns temas são perceptíveis o intimismo e espiritualidade que remetem para a Jordânia, Israel e Palestina e para as raízes históricas e culturais do próprio Cohan, enquanto noutros predominam os ambientes urbanos da sua Chicago natal, um leve toque de improviso a acrescentar-lhes graça e leveza. Fortes e vivos, os retratos musicais levam o público numa viagem fascinante e inspiradora por baladas que são carícias ou por composições vibrantes, numa verdadeira festa para os sentidos. Contagiantemente optimista, apontando caminhos de luz e fruição do que de bom a vida tem para oferecer, assim é a música de Ryan Cohan. Foi, pelo menos, assim que a senti em Guimarães, naquele que foi o melhor dos três concertos a que me foi dado assistir na 30ª edição do certame.  

[Texto construído com base no programa do Guimarães Jazz 2021, em https://www.guimaraesjazz.pt/detail-eventos/20211120-ryan-cohan-quintet/. Foto: Paulo Pacheco | https://www.facebook.com/CCVF.Guimaraes/photos/]

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