Páginas

Mostrar mensagens com a etiqueta Drumming GP. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Drumming GP. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 2 de outubro de 2025

CONCERTO: "Steve Reich Highlights" | Drumming - Grupo de Percussão



CONCERTO: “Steve Reich Highlights”,
de Drumming - Grupo de Percussão
Direcção artística | Miquel Bernat
Com | André Dias, João Miguel Braga Simões, Lígia Madeira, Luís Duarte, Miquel Bernat e Pedro Góis
Casa de Mateus, Vila Real
27 Set 2025 | sab | 18:00


A celebrar 25 anos de actividade artística, o Drumming - Grupo de Percussão regressou à obra-talismã de Steve Reich, um dos criadores maiores da chamada música minimal / repetitiva, cuja energia rítmica, clareza formal e poder comunicativo abriram novas vias para a modernidade sem recorrer a complexidades opacas. No concerto do passado sábado, no bonito espaço do Barrão da Casa de Mateus, o grupo propôs uma retrospectiva concisa que percorreu diferentes fases do universo de Reich, com a percussão, o seu instrumento, em diálogo com dois pianos. Encomendada especificamente para uma coreógrafa e para um filme, “Dance Patterns” (2002), abriu o concerto da melhor forma, dando a ouvir o estilo minimalista característico de Reich, com padrões repetitivos, deslocamentos rítmicos (phasing) e uma estrutura clara, matemática e hipnótica. Embora breve e menos conhecida que as grandes peças como “Music for 18 Musicians” [ver crítica AQUI], “Dance Patterns” impressionou os presentes pelo seu ritmo intenso e clareza estrutural, ao mesmo tempo que chamou a atenção para a qualidade interpretativa dos músicos, capazes de recriar uma música envolvente e complexa mesmo em formatos mais concisos.

Percussionista de renome Tim Ferchen assinou “Three Marimba Duets: I”, o segundo momento do concerto. A escolha deste compositor teve a ver, conforme explicou Miquel Bernat, director artístico do Drumming GP, com a colaboração estreita que manteve com Steve Reich, mas também com a oportunidade de ampliar o repertório do grupo (quando Bernat chegou a Portugal, em 1998, havia apenas duas obras para percussão erudita disponíveis; hoje são mais de 170). A peça parte da diversidade de interpretações que uma determinada composição pode suscitar e a sua interpretação, desafiante a todos os títulos, pôs os dois músicos a pensar como uma só pessoa, soando como as mãos direita e esquerda de um pianista só. “Music for Pieces of Wood” (1973) foi um momento encantador, aquele que mereceu do público o mais sentido aplauso. Composição para cinco músicos, usando claves afinadas, a peça apresenta uma estrutura rítmica baseada em “construções”, substituindo as pausas por tempos. Steve Reich escreveu-a para criar música a partir dos instrumentos mais simples, como a sua obra anterior, “Clapping Music”, e a sua complexidade rítmica transforma-a numa das obras mais notáveis do compositor.

“Sextet” (1984), originalmente intitulada “Música para Percussão e Teclados”, foi a peça escolhida para encerrar o concerto. Estruturada em cinco andamentos contínuos, a peça oscila entre ritmos rápidos, moderados e lentos, com mudanças súbitas de tempo através de modulação métrica. Reich procurou ultrapassar os limites naturais da percussão - sons breves e efémeros - explorando o vibrafone com arco como voz contínua e reforçando os registos graves com piano, sintetizador e bombo. Esta combinação cria texturas mais ricas, especialmente nos andamentos centrais, onde o acompanhamento se transforma em melodia e vice-versa. A composição retoma técnicas presentes em obras anteriores: a substituição de batidas por silêncios pra gerar tensão, cânones em velocidades distintas e ambiguidades rítmicas inspiradas em tradições africanas. Mais do que confundir, estas ambiguidades transformam a percepção do ouvinte, conferindo à repetição movimento, surpresa e vitalidade. Apesar da sua curta duração, o concerto foi de uma riqueza enorme, com o público a aplaudir entusiasticamente a prestação do agrupamento, ciente de ter vivido uma experiência enriquecedora a todos os títulos, tanto pela clareza estrutural que os músicos souberam imprimir às peças, como pela sua extraordinária energia rítmica e carga expressiva.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2024

CONCERTO: "Time Poetries"



CONCERTO: “Time Poetries”
Drumming GP
Direcção artística | Miquel Bernat
Auditório de Espinho - Academia
16 Fev 2024 | sex | 21:30


Sexta-feira, 14h30. Estou no interior de uma relojoaria. Enquanto aguardo que me consertem os óculos, observo as inúmeras peças que me rodeiam. De pé ou de parede, de linhas sóbrias ou “barroquíssimos”, enormes ou de dimensões reduzidas, em madeira ou metal (ou ambos), estes relógios são verdadeiras obras de arte a convocar outros tempos, quiçá mais leves e pausados. De súbito, escuto um bater da meia-hora. E logo outro, e outro, e mais outro, ainda. O relojoeiro concertou o bater de cada um deles para que não o façam em simultâneo. Durante um par de minutos, é como se estivesse num auditório, brindado com uma verdadeira sinfonia à qual não falta o distinto cantar do cuco. Sexta-feira, 21h30. O auditório abre-se à música e ao tempo. Apesar das naturais diferenças, são inúmeros os pontos de contacto entre esta música e a “música” escutada ao início da tarde: A cadência é precisa, a harmonia faz-se contemplação, o ritmo impõe-se sobre todas as coisas. O compositor é um mestre relojoeiro e os músicos são artífices do tempo. O momento é mágico e mais mágico se torna quando volto a ouvir, no percutir das baquetas de Miquel Bernat, um cuco a cantar.

Composto por Carlos Guedes, “Time Poetries” teve no Auditório de Espinho a sua estreia nacional. Inspirando-se nas dinâmicas do tempo e na sua relação com o espaço – o segundo dos cinco andamentos intitula-se, muito justamente, “Euclidean imbalance” –, o compositor criou “um ciclo de peças para quarteto de lâminas e pequenos instrumentos de percussão e electrónica, sob suporte fixo, que exploram a passagem do tempo em música”. Ao longo de quase uma hora, o público é convidado a “pesar” o tempo, a valorizar o audível tanto quanto o silêncio, a sentir o seu pulsar, como acelera ou se distende, se faz onda e se desfaz, até recomeçar tudo de novo, uma e outra vez. Na relação entre o compositor, a sua obra e o público, o Drumming Grupo de Percussão – com Miquel Bernat, André Dias, Pedro Góis e João Miguel Braga Simões – foi o mediador perfeito, evidenciando uma notável atitude performativa em peças de enorme exigência, e valorizando-a com um elevado sentido coreográfico na abordagem aos vários instrumentos e nas passagens entre as peças.

Quem teve a oportunidade de assistir, neste mesmo auditório, aos inesquecíveis “Music for 18 Musicais”, de Steve Reich, e “Timber”, de Roberto Olivan, sabe do que o Drumming GP é capaz. “Vocacionado para a música contemporânea e de portas abertas a todos os mundos sonoros”, este agrupamento destaca-se pela qualidade das suas interpretações e pela relação cúmplice que sabe estabelecer com o público, assente em propostas ousadas e inovadoras. O concerto da passada sexta-feira é paradigmático da qualidade e coerência do grupo, nessa entrega apaixonada à música de Carlos Guedes, acrescentando-lhe magia como é apanágio dos grandes intérpretes e enriquecendo-a com uma componente cénica de belo efeito. “Viagem hipnótica”, tal era a proposta do Drumming GP, “induzindo [nos ouvintes] estados de transe e explorando sonoridades que evocam a música psicadélica”. Pressupostos que foram completamente atingidos, fazendo do tempo do concerto um tempo de sedução, fascínio e poesia.

[Foto: Auditório de Espinho - Academia  | https://www.facebook.com/auditoriodeespinhoacademia]

sábado, 25 de fevereiro de 2023

DANÇA | MÚSICA: "Timber"



DANÇA | MÚSICA: “Timber”
Direcção | Roberto Olivan
Assistente de ensaios | Cátia Esteves
Criação e interpretação | João Cardoso, Vanessa Cunha, Mafalda Cardoso, Liliana Oliveira, Ricardo Machado, Sara Garcia
Música | Michael Gordon
Direcção musical | Miquel Bernat
Interpretação musical | Drumming GP (André Dias, Daniel Araújo, João Miguel Simões, Jorge Pereira, Miquel Bernat, Pedro Góis)
Desenho de som e sonoplastia | Süse Ribeiro
Produção | Companhia Instável
Auditório de Espinho - Academia
24 Fev 2023 | sex | 21:30


Mantendo a aposta em dar a ver as amplas possibilidades que a música oferece na articulação entre os seus mais variados géneros ou na forma como se relaciona com outras linguagens artísticas, o Auditório de Espinho teve para oferecer na noite de ontem um espectáculo que vive da interacção entre percussão e dança. De um ponto de vista musical, “Timber” aposta na criação de paisagens sonoras que possam abrir espaço ao movimento e lhe sirvam de alimento. Coreograficamente, importa garantir a necessária fluidez entre bailarinos e percussionistas, rompendo com a dimensão tradicionalmente estática do músico e, ao mesmo tempo, adequando o movimento a um espaço que ora se abre, ora se fecha, como se de um respirar se tratasse. Para levar a cabo tão interessante quanto intenso desafio, em palco estiveram seis bailarinos da Instável - Centro Coreográfico e seis percussionistas do Drumming - Grupo de Percussão, sob a direcção do premiado coreógrafo Roberto Olivan e com música ao vivo do compositor nova-iorquino Michael Gordon. O resultado não poderia ser mais surpreendente.

Sendo difícil de pegar numa ponta por onde começar, agarro-me ao título do espectáculo, a esse “timber” que, em inglês, significa “madeira”. É ela a base da componente sonora do espectáculo, seis tábuas cortadas com diferentes dimensões, seis instrumentos aos quais correspondem diferentes tonalidades. Uma espécie de simantras, percutidas com baquetas que podem variar, permitindo alargar o leque de sons e criar melodias minimalistas onde a harmonia e o ritmo são elementos dominantes. Quem teve a oportunidade de assistir, neste mesmo espaço, a “Music For 18 Musicais”, de Steve Reich, com interpretação do Drumming GP, sabe perfeitamente de que música estou a falar e do que este grupo é capaz ao nível da percussão. Uma vez mais, a música contaminou o espaço com a sua ondulação insidiosa, transformando o momento numa experiência imersiva, hipnotizante, cuja força e energia nos prendeu ao seu âmago e nos predispôs para melhor percebermos o seu enquadramento e alcance no âmbito da peça.

O programa falava de “Timber” como “uma viagem às profundezas da nossa existência, uma visita a cada recanto que deixamos de visitar devido ao medo, ignorância ou abandono de nós mesmos. Uma desconexão pessoal daquilo que nos une à nossa única e autêntica natureza.” Pode ser que sim, pode ser que não. “A arte não se explica”, disse Ana Figueira, fundadora da Instável, no início de uma conversa com o público que teve lugar após o espectáculo, e esta afirmação deixa-me mais confortável. Há duas partes muito distintas na vertente de dança de “Timber”, sendo que a primeira tem apontamentos coreográficos interessantes mas não chega a deslumbrar. Aprecia-se a fisicalidade, o domínio do espaço, o constante estado de alerta dos bailarinos, mas parece tudo demasiado marcado, rígido, imperativo. A segunda metade corresponde a uma desaceleração, com uma enorme interacção entre músicos e bailarinos e uma maior liberdade de movimentos. Os últimos minutos são verdadeiramente sufocantes, as emoções à flor da pele, a gestualidade frenética dos bailarinos a contaminar o público e a transmitir-lhe um conjunto de sensações que vão da dor e do sofrimento à perda e à loucura. A rever, se possível!

[Foto: Auditório de Espinho - Academia | https://www.facebook.com/auditoriodeespinhoacademia]

sexta-feira, 16 de julho de 2021

CONCERTO: "Music for 18 Musicians"



CONCERTO: “Music for 18 Musicians” | Steve Reich
FIME Ensemble & Drumming GP
Direcção musical | Miquel Bernat
Interpretação | João Almeida, Lígia Madeira, Luís Duarte, Teresa Doutor (piano); Ângela Alves, Eva Braga Simões, Gabriela Braga Simões, Joana Valente (vozes); Vítor Vieira (violino); Nikolai Gimaletdinov (violoncelo), Ricardo Alves, Victor Pereira (clarinete e saxofone); André Dias, Pedro Gois, João Miguel Braga Simões, Nuno Simões, Rui Rodrigues, Pedro Oliveira, Miquel Bernat (percussão)
FIME – 47º Festival Internacional de Música de Espinho
Auditório de Espinho – Academia
10 Jul 2021 | Sab | 21:00


“Music for 18 Musicians” começou por ser uma das grandes apostas da anterior edição do FIME – Festival Internacional de Música de Espinho, entretanto transposta para esta 47ª edição por obra e graça de uma pandemia que teima em condicionar as nossas vidas. Escrita entre 1974 e 1976 por Steve Reich, verdadeira lenda viva da música contemporânea, a obra é emblemática a todos os títulos, sobretudo pela desmistificação que faz de um minimalismo percebido à data como refém de uma certa esterilidade electrónica, pondo em evidência todo o potencial harmónico desta corrente musical. Foi este o desafio a que Miquel Bernat, à frente do FIME Ensemble e do Drumming GP, soube abraçar da melhor maneira. E assim, num Auditório com algumas clareiras de dimensão apreciável, ao longo de uma hora, viveu-se numa espécie de transe, o corpo e a mente mergulhados num ambiente encantatório e fundidos numa experiência sensorial única.

Plim. Plim. Plim. Plim. São de inquietação os momentos iniciais do concerto. O ritmo vivo, o movimento compassado, o palpitar das cordas e da percussão e a respiração humana nas vozes e nos instrumentos de sopro parecem remeter para um tempo feito matéria, inexorável numa marcha que não admite pausas, conformado por linhas e círculos, num paradoxo que o breve sopro de uma vida não consegue resolver, apenas sentir. Será neste sentir que o espectador, refém de uma música hipnotizante, se vê irremediavelmente atraído para o interior da peça, aceitando o convite a escutar dentro de si o pulsar do tempo e a encontrar as respostas que melhor se adequam a questões tão existenciais como a relatividade do binómio tempo-espaço, o sentido da própria vida ou a existência de Deus.

Combinando uma intensidade de cortar a respiração com um poderoso apelo visual, “Music for 18 Musicians” começa por introduzir o espectador aos sons que se derramam de uma máquina, a ela juntando mais máquinas, numa sequência que parece não ter fim. A ideia de um gigantesco armazém onde o trabalho é feito em série acaba por se afirmar naturalmente, convocando imagens dos filmes “Metrópolis”, de Fritz Lang, ou “Tempos Modernos”, de Charlie Chaplin. Esta ideia de maquinaria irá permanecer em fundo ao longo da peça, acompanhada de um pulsar vigoroso, como a respiração de um corredor de fundo. De repente, o vibrar dos instrumentos de percussão oferecem a possibilidade de viajar com a mente ao encontro de um ritual de iniciação nas florestas de Java, da investidura de um feiticeiro numa aldeia do Gana, do frenesi dos corpos num jogo de capoeira ou do que se quiser. É isto “Music for 18 Musicians”, uma das obras mais fascinantes a que me foi dado assistir nesta minha não curta carreira de melómano. Absolutamente mágico.