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domingo, 22 de março de 2026

CONCERTO: Rabih Abou-Khalil



CONCERTO: Rabih Abou-Khalil
Com | Rabih Abou-Khalil (oud), Mateusz Smoczynski (violino), Krzysztof Lenczowski (violoncelo), Jarrod Cagwin (bateria e percussões)
Auditório de Espinho - Academia
20 Mar 2026 | sex | 21:30


A música de Rabih Abou-Khalil impõe-se nos dias de hoje como um dos mais lúcidos exercícios de superação de fronteiras, não apenas estéticas, mas também sociais, culturais, políticas e até religiosas. Nascido no caldo cosmopolita de Beirute e formado entre tradições aparentemente inconciliáveis, o músico construiu ao longo de décadas uma linguagem singular que recusa compartimentos estanques. O seu oud não se limita a ecoar heranças árabes, antes dialoga com o jazz, com a música erudita europeia e com uma ideia profundamente contemporânea de circulação cultural. Percebe-se nesse gesto a recusa explícita do exotismo fácil e da apropriação superficial, substituídos por um encontro de géneros em plano de igualdade, no qual cada frase sonora se expõe e se transforma. Ao escutá-lo, percebemos que a sua música não pretende cruzar geografias, antes dissolvê-las, criando um território outro onde identidade e alteridade coexistem sem hierarquias. Longe de qualquer discurso panfletário, esse desígnio concretiza-se numa escrita rítmica e melódica de grande complexidade, que soa simultaneamente estranha e familiar, desafiando o ouvinte a abandonar certezas e a habitar um espaço de escuta verdadeiramente plural.

Foi com o fito nesse horizonte que Rabih Abou-Khalil se apresentou no Auditório de Espinho, numa noite que viria a encerrar da melhor forma o primeiro trimestre de uma sala cuja programação prima, com notável consistência, pela qualidade e ecletismo. Perante um público que esgotou o espaço e reagiu com entusiasmo às propostas que preencheram o alinhamento, a mestria de Rabih Abou-Khalil revelou-se desde os primeiros instantes como eixo agregador de um quarteto em estado de graça, ao mesmo tempo que o músico mostrou sentir-se em casa, fazendo questão de se exprimir em português num registo próximo e bem-humorado. Nas suas palavras, os temas foram-se alinhando entre espiões americanos e gastronomia finlandesa, dois polacos pelo preço de um, a trabalheira que dá encontrar uma mulher, a dificuldade de explicar o que não tem explicação ou os sonhos de uma cidade a morrer, construindo uma narrativa paralela que ampliou a escuta. O violinista Mateusz Smoczynski acrescentou um lirismo incisivo, capaz de oscilar entre a delicadeza camerística e a energia improvisada, enquanto o violoncelista Krzysztof Lenczowski ancorou o discurso numa densidade tímbrica de grande subtileza. Já Jarrod Cagwin, na bateria e percussões, edificou uma arquitectura rítmica simultaneamente precisa e orgânica, sustentando e desafiando o colectivo.

Mais do que um simples concerto, o que se viveu na noite da passada sexta-feira em Espinho foi uma experiência de imersão total, os diálogos entre os instrumentos a abrirem possibilidades sonoras quase inesgotáveis e a manterem o público num estado de atenção vibrante, respondendo com entusiasmo a cada inflexão. O oud de Rabih Abou-Khalil teve tanto de narração como de provocação, lançando motivos que o violino e o violoncelo souberam expandir ou contrariar, ao mesmo tempo que a percussão redesenhava o chão rítmico. Houve momentos de rara contenção, em que o silêncio pareceu tão expressivo quanto as notas, seguidos de explosões de energia contagiante, plenos de clareza e intencionalidade. Em constante mutação, essa dinâmica consolidou uma relação de cumplicidade entre o palco e a plateia, com o humor das histórias e a densidade da música a entrelaçarem-se de forma natural. No final, restou a sensação de termos podido assistir a um acontecimento pleno e irrepetível, onde o virtuosismo, a escuta mútua e a imaginação convergiram num equilíbrio quase milagroso, confirmando não apenas a singularidade do músico libanês, mas também a relevância de um espaço que continua a afirmar-se como lugar privilegiado para experiências artísticas do mais vasto espectro.

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