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sábado, 21 de março de 2026

CINEMA: "Palestina 36" | Annemarie Jacir



CINEMA: “Palestina 36” / “Palestine 36”
Realização | Annemarie Jacir
Argumento | Annemarie Jacir
Fotografia | Sarah Blum, Tim Fleming, Hélene Louvart, Leandro Monti
Montagem | Tania Reddin
Interpretação | Robert Aramayo, Jeremy Irons, Liam Cunningham, Billy Howle, Hiam Abbass, Sam Hoare, Christopher Villiers, Yasmine Al Massri, Saleh Bakri, Yumna Marwan, Yahya Mahayni, Dhafer L’Abidine, Joanna Arida, Sofia Asir, Aya Khalaf, Karim Daoud Anaya
Produção | Ossama Bawardi
Territórios Palestinianos Ocupados, Reino Unido, Estados Unidos, França, Dinamarca, Noruega, Qatar, Arábia Saudita, Jordânia | 2025 | Biografia, Drama, História, Guerra | 115 Minutos | Maiores de 12 Anos
UCI Arrábida 20 - Sala 5
19 Mar 2026 | qui | 18:50


A História raramente se impõe por rupturas súbitas. Constrói-se, antes, por acumulações discretas que, só mais tarde, vêm a revelar o seu peso. É esse ponto de ignição que “Palestina 36”, de Annemarie Jacir, convoca com ambição invulgar. Recuando à revolta árabe de 1936 sob o mandato britânico, o filme assume-se como exercício de memória e acusação política, recusando a neutralidade confortável de um certo cinema histórico e documental. A realizadora opta por uma estrutura de feição quase romanesca, na qual múltiplas personagens e linhas narrativas se entrecruzam, compondo um fresco social denso, por vezes excessivo, mas raramente inerte. Se, por um lado, a compressão de acontecimentos e figuras em pouco mais de duas horas provoca uma sensação de urgência que roça o apressado, por outro, essa mesma vertigem reflecte o colapso progressivo de uma sociedade violada nos seus direitos, espoliada dos seus valores vitais e empurrada para as margens. Mais do que reconstituir factos, Annemarie Jacir procura recuperar uma experiência colectiva frequentemente omitida, assumindo o contraditório de uma historiografia dominante e de visão unilateral.

Essa ambição manifesta-se sobretudo na galeria de personagens que atravessa classes, geografias e sensibilidades políticas. Do campo à cidade, dos camponeses desalojados às elites urbanas divididas entre pragmatismo económico e fervor nacionalista, “Palestina 36” revela uma Palestina plural, longe de qualquer representação monolítica. Figuras como Khuloud, jornalista combativa, ou Khalid, jovem dividido entre a promessa urbana e as raízes rurais, funcionam como eixos de tensão entre acção e hesitação, resistência e adaptação. Ainda assim, a opção por delimitar com nitidez moral os campos em confronto — colonizadores britânicos e agentes da repressão de um lado, população palestiniana do outro — reduz zonas de ambiguidade que poderiam enriquecer o debate dramático. A crítica ao poder imperial britânico surge frontal, quase pedagógica, deslocando o foco habitual das narrativas centradas exclusivamente no conflito entre judeus e árabes. Este gesto, embora politicamente incisivo, implica também uma simplificação estratégica: ao privilegiar a denúncia, o filme sacrifica por vezes a complexidade psicológica em favor de uma clareza ideológica inequívoca.

Formalmente, porém, “Palestina 36” revela uma notável maturidade. A cinematografia — assinada por uma equipa tripartida — conjuga luz natural e uma paleta cromática evocativa, aproximando o espectador de uma paisagem simultaneamente idílica e ameaçada. A inclusão de imagens de arquivo, integradas com subtileza, acrescenta densidade histórica sem quebrar a fluidez narrativa. Há no filme uma recusa deliberada do espectáculo fácil: mesmo nas sequências de confronto, Annemarie Jacir privilegia a emoção contida em detrimento da espectacularidade da violência. O resultado é um objecto cinematográfico que oscila entre o épico e o íntimo, entre o documento e a ficção, conseguindo, apesar de algumas fragilidades estruturais, alinhar-se com o chamado “cinema de intervenção”. Num tempo em que o passado é constantemente reconfigurado à luz do presente, o filme não se limita a revisitar 1936. Ele interpela directamente o espectador contemporâneo, lembrando que as linhas de fractura, então traçadas, persistem nos dias de hoje e se afiguram longe de estarem resolvidas.

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