A assinalar a sua trigésima edição, as Tertúlias Literárias “Conversas às 5” convidaram o escritor Francisco Duarte Mangas para uma hora de partilha, reflexão e conhecimento em torno de um conjunto de livros que encontram na História, na memória e na linguagem os alicerces que sustentam uma obra de inegável valor no panorama da literatura em Portugal. Nascido em Rossas, Vieira do Minho, em 1960, o escritor estudou História na FULPorto, foi professor três anos e jornalista durante quase três décadas. Dedica-se hoje à escrita a tempo inteiro, é o actual presidente da Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto e director da revista Gazeta Literária. Autor premiado, tem editados mais de três dezenas de livros, entre obras de ficção, poesia e literatura infantil, além de quase outros tantos textos de que foi co-autor ou organizador. A estes apontamentos biográficos, Francisco Duarte Mangas acrescentou o facto de manter uma rotina de escrita diária - “dez linhas, vinte linhas, todos os dias” - e de “Diário de Link” ter sido o primeiro romance numa carreira literária que começou pela poesia. Uma carreira que se prepara para prosseguir na esteira de um livro anterior, e que nos irá trazer, esperamos que brevemente, a figura do escritor Antero do Quental e a sua ligação às ilhas dos Açores, onde viria a falecer.
Centrada no seu mais recente romance, “A Arte de Roubar Fruta”, a conversa começou por abrir espaço a outros trabalhos de Francisco Duarte Mangas, graças à partilha de um conjunto de curiosidades. Menino ainda, o escritor ouviu, assombrado, a história do último habitante a abandonar Vilarinho das Furnas, na altura em que a aldeia foi submersa pelas águas da barragem. A isso juntou a dúvida que o assaltou ao escutar a afirmação, a propósito da morte do ditador Francisco Franco, “que a terra lhe seja leve como chumbo”, o que abriu caminho, muitos anos depois, à escrita de “Diário de Link”. “A Cidade das Livrarias Mortas” é a cidade do Porto “vista por quem sente que há uma cidade que está a desaparecer e a nascer outra em seu lugar”. Já “O Alfarrabista de Ponta Delgada” - “que poderia muito bem chamar-se O Jardineiro de Ponta Delgada” -, faz-nos recuar dois séculos ao tempo em que os proprietários mais abastados competiam pelo título de melhor jardim. No caso de José do Canto, cujo jardim existe ainda hoje, a ideia inicial para o livro partiu da leitura de um panfleto turístico onde era mencionada a história de George Brown, o seu primeiro jardineiro, despedido na sequência da doença que vitimou as filhas. Uma história de prepotência e injustiça, à qual viriam a somar-se as precárias condições de vida da população, a exploração do trabalho infantil e o regime de quase escravatura nos vastos laranjais da ilha de S. Miguel no século XIX.
“Por vezes leio ou ouço uma palavra e penso que tenho de usar essa palavra para que ela faça parte de mim”, refere Francisco Duarte Mangas, a propósito da riqueza vocabular que ressalta dos seus livros. “A Arte de Roubar a Fruta” é disso exemplo maior, com o autor a chamar para título de alguns capítulos palavras como “alcaiote”, “estopim”, “pardau”, “garum” ou “veniaga” e cuja presença remete para obras como “A Peregrinação”, de Fernão Mendes Pinto, ou “Dom Quixote”, de Cervantes. Ao mergulharmos no romance, encontramos-lhe a dimensão política muito marcada, a narrativa a desenvolver-se numa aldeia raiana do norte e a oscilar entre dois momentos distintos: o pós-segunda guerra mundial e o pós-revolução dos cravos. “Ao escrever este livro, pretendi mostrar que a malvadez não tem tempo. As pessoas de 1946 que participaram nos massacres [resultantes da perseguição aos guerrilheiros anti-franquistas refugiados no nosso País] eram as mesmas da rede bombista no Verão Quente de 1975.” Isto leva-nos ao “Cerco de Cambedo”, acontecimento marcante do período do Estado Novo, ao encontro de proprietários abastados e populações submissas, guardas prepotentes, pides sinistros e uma igreja conivente com a repressão e a tortura. Mas também das células ligadas ao Partido Comunista Português que lideravam a resistência ao fascismo, da morte de dois dos guerrilheiros e da captura de um terceiro e sua prisão no “campo da morte lenta” do Tarrafal.
“Para o ficcionista, o momento da criação de uma personagem e a forma como se desenvolve é fundamental na construção do livro”, refere o convidado. Entre o real e o imaginário, a conversa cruza, então, a figura de Zulmira ou Armindo Pega, com as do Padre Max ou do Cónego Melo, reforçando o olhar sobre a natureza humana que atravessa todo o livro, a malvadez já referida, mas também a bondade de certas pessoas. A primeira manifestação após o 25 de Abril, as primeiras inscrições nas paredes ou as primeiras eleições livres, convergem naquilo que Francisco Duarte Mangas designa como “direito à fala, o podermos falar” e que é, na sua opinião, “a grande conquista revolucionária”. Para o final ficou a “descodificação” de um título que arrasta em si, em toda a plenitude, a ideia de liberdade. “A arte de roubar fruta tem a ver com a posse da terra. Antes do 25 de Abril, a terra era de meia dúzia de pessoas e só essas tinham os seus quintais - muralhados, com aquele vidro a proteger o topo dos muros - com árvores de fruta. O roubar fruta era a apropriação, a afirmação de algo que podia ser de todos.” Dominar o espaço e o silêncio e agir com rapidez fazem parte desta arte de roubar fruta, algo explicado com alguma graça por Francisco Duarte Mangas e exemplificado com um episódio revelador de que a arte de roubar fruta pode revelar-se de inúmeras formas.
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