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sexta-feira, 20 de março de 2026

TERTÚLIAS LITERÁRIAS: “Conversas às 5” | Francisco Duarte Mangas



TERTÚLIAS LITERÁRIAS: “Conversas às 5”
Com | Francisco Duarte Mangas
Moderação | Joaquim Margarido Macedo
Centro de Reabilitação do Norte
18 Mar 2026 | qui | 17:00


A assinalar a sua trigésima edição, as Tertúlias Literárias “Conversas às 5” convidaram o escritor Francisco Duarte Mangas para uma hora de partilha, reflexão e conhecimento em torno de um conjunto de livros que encontram na História, na memória e na linguagem os alicerces que sustentam uma obra de inegável valor no panorama da literatura em Portugal. Nascido em Rossas, Vieira do Minho, em 1960, o escritor estudou História na FULPorto, foi professor três anos e jornalista durante quase três décadas. Dedica-se hoje à escrita a tempo inteiro, é o actual presidente da Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto e director da revista Gazeta Literária. Autor premiado, tem editados mais de três dezenas de livros, entre obras de ficção, poesia e literatura infantil, além de quase outros tantos textos de que foi co-autor ou organizador. A estes apontamentos biográficos, Francisco Duarte Mangas acrescentou o facto de manter uma rotina de escrita diária - “dez linhas, vinte linhas, todos os dias” - e de “Diário de Link” ter sido o primeiro romance numa carreira literária que começou pela poesia. Uma carreira que se prepara para prosseguir na esteira de um livro anterior, e que nos irá trazer, esperamos que brevemente, a figura do escritor Antero do Quental e a sua ligação às ilhas dos Açores, onde viria a falecer.

Centrada no seu mais recente romance, “A Arte de Roubar Fruta”, a conversa começou por abrir espaço a outros trabalhos de Francisco Duarte Mangas, graças à partilha de um conjunto de curiosidades. Menino ainda, o escritor ouviu, assombrado, a história do último habitante a abandonar Vilarinho das Furnas, na altura em que a aldeia foi submersa pelas águas da barragem. A isso juntou a dúvida que o assaltou ao escutar a afirmação, a propósito da morte do ditador Francisco Franco, “que a terra lhe seja leve como chumbo”, o que abriu caminho, muitos anos depois, à escrita de “Diário de Link”. “A Cidade das Livrarias Mortas” é a cidade do Porto “vista por quem sente que há uma cidade que está a desaparecer e a nascer outra em seu lugar”. Já “O Alfarrabista de Ponta Delgada” - “que poderia muito bem chamar-se O Jardineiro de Ponta Delgada” -, faz-nos recuar dois séculos ao tempo em que os proprietários mais abastados competiam pelo título de melhor jardim. No caso de José do Canto, cujo jardim existe ainda hoje, a ideia inicial para o livro partiu da leitura de um panfleto turístico onde era mencionada a história de George Brown, o seu primeiro jardineiro, despedido na sequência da doença que vitimou as filhas. Uma história de prepotência e injustiça, à qual viriam a somar-se as precárias condições de vida da população, a exploração do trabalho infantil e o regime de quase escravatura nos vastos laranjais da ilha de S. Miguel no século XIX.

“Por vezes leio ou ouço uma palavra e penso que tenho de usar essa palavra para que ela faça parte de mim”, refere Francisco Duarte Mangas, a propósito da riqueza vocabular que ressalta dos seus livros. “A Arte de Roubar a Fruta” é disso exemplo maior, com o autor a chamar para título de alguns capítulos palavras como “alcaiote”, “estopim”, “pardau”, “garum” ou “veniaga” e cuja presença remete para obras como “A Peregrinação”, de Fernão Mendes Pinto, ou “Dom Quixote”, de Cervantes. Ao mergulharmos no romance, encontramos-lhe a dimensão política muito marcada, a narrativa a desenvolver-se numa aldeia raiana do norte e a oscilar entre dois momentos distintos: o pós-segunda guerra mundial e o pós-revolução dos cravos. “Ao escrever este livro, pretendi mostrar que a malvadez não tem tempo. As pessoas de 1946 que participaram nos massacres [resultantes da perseguição aos guerrilheiros anti-franquistas refugiados no nosso País] eram as mesmas da rede bombista no Verão Quente de 1975.” Isto leva-nos ao “Cerco de Cambedo”, acontecimento marcante do período do Estado Novo, ao encontro de proprietários abastados e populações submissas, guardas prepotentes, pides sinistros e uma igreja conivente com a repressão e a tortura. Mas também das células ligadas ao Partido Comunista Português que lideravam a resistência ao fascismo, da morte de dois dos guerrilheiros e da captura de um terceiro e sua prisão no “campo da morte lenta” do Tarrafal.

“Para o ficcionista, o momento da criação de uma personagem e a forma como se desenvolve é fundamental na construção do livro”, refere o convidado. Entre o real e o imaginário, a conversa cruza, então, a figura de Zulmira ou Armindo Pega, com as do Padre Max ou do Cónego Melo, reforçando o olhar sobre a natureza humana que atravessa todo o livro, a malvadez já referida, mas também a bondade de certas pessoas. A primeira manifestação após o 25 de Abril, as primeiras inscrições nas paredes ou as primeiras eleições livres, convergem naquilo que Francisco Duarte Mangas designa como “direito à fala, o podermos falar” e que é, na sua opinião, “a grande conquista revolucionária”. Para o final ficou a “descodificação” de um título que arrasta em si, em toda a plenitude, a ideia de liberdade. “A arte de roubar fruta tem a ver com a posse da terra. Antes do 25 de Abril, a terra era de meia dúzia de pessoas e só essas tinham os seus quintais - muralhados, com aquele vidro a proteger o topo dos muros - com árvores de fruta. O roubar fruta era a apropriação, a afirmação de algo que podia ser de todos.” Dominar o espaço e o silêncio e agir com rapidez fazem parte desta arte de roubar fruta, algo explicado com alguma graça por Francisco Duarte Mangas e exemplificado com um episódio revelador de que a arte de roubar fruta pode revelar-se de inúmeras formas.

sexta-feira, 13 de março de 2026

LIVRO: "A Arte de Roubar Fruta" | Francisco Duarte Mangas



LIVRO: “A Arte de Roubar Fruta”,
de Francisco Duarte Mangas
Edição | Carlos da Veiga Ferreira
Ed. Teodolito, Fevereiro de 2026


“Quando me arranjas uma galinhola, Mindo? O nosso acordo acabou, eu pago. Júlio, ó Júlio, quanto te deve o meu amigo? Anda cá, Mindo. Molha a palavra que eu cubro o lance! Nem que eu seja cão! Havemos de fazer desta terra a nossa terra, de gente fraterna, de gente igual. Não há ricos, nem pobres, há cidadãos. Júlio, será que eu falo chinês? Trazes ou não a conta e o vinho do nosso camarada, que tem a coragem de aprender a ler e a escrever depois dos cinquenta anos! Mais à frente, empresto-te o Amor de Perdição, depois sim, depois de o leres falarás como mitrado de Roma.”

Há livros que se nos oferecem como quem abre uma clareira na memória colectiva. “A Arte de Roubar Fruta”, de Francisco Duarte Mangas, é um desses raros romances onde a História não se limita a ser pano de fundo, respirando, sangrando e gritando no coração das personagens. Desde as primeiras páginas sabemos estar perante um livro sobre a coragem áspera de homens e mulheres que, em terras da raia, resistiram à violência fascista que cobria Portugal e a vizinha Espanha como um manto negro. Em Vilar de Piscos, o assassinato de um lavrador abastado desencadeia uma espiral de violência que conduz ao cerco de Cambedo em 1946, numa acção concertada das polícias de António de Oliveira Salazar e Francisco Franco. É neste território convulso que surgem as figuras inesquecíveis de António Geraldes e Armindo Pega, do Mirinho e do Justiniano, do Jaime e do Adriano, dos tenebrosos Benedito Valverde, Tomás Deslandes e Faustino Cavez. Entre o rumor das serras e o peso das perseguições, atravessam o romance ecos de Rosalía de Castro e do Grande Escritor Camilo Castelo Branco, como se a própria literatura viesse testemunhar que a dignidade humana nunca se rende por completo.

Mas este romance não vive apenas da força da sua matéria histórica. Vive, sobretudo, de uma paixão ardente pelas palavras. Francisco Duarte Mangas escreve como quem lavra a terra com minúcia e desvelo, abrindo sulcos onde germinam vocábulos raros e saborosos - aguazil, intonso, alcaiote, estopim, pardau, acédia, lhaneza, veniaga, côngrua -, palavras que soam a tesouro linguístico resgatado de um baú antigo. Muitas delas dão título a capítulos do livro, como se cada termo fosse uma pequena janela aberta sobre um mundo perdido. Há na escrita um prazer quase táctil, uma alegria em convocar a riqueza esquecida do português. O leitor avança, por vezes, como quem caminha por uma floresta de sons antigos, tropeçando em significados inesperados, redescobrindo o valor de cada palavra, a sua espessura etimológica. Essa exuberância vocabular não é ornamento gratuito. É a própria seiva da narrativa, a prova de que a língua, quando tratada com amor e rigor, pode devolver à literatura a sua mais profunda respiração.

A arquitectura narrativa do romance é, por sua vez, de uma inteligência admirável. As histórias avançam em dois tempos - o pós-guerra de 1946 e o chamado Verão Quente da Revolução - e entrelaçam-se com uma naturalidade que parece milagre de relojoaria literária. Personagens atravessam as décadas como quem cruza uma ponte invisível, e o leitor percebe pouco a pouco que a maldade, como diz Armindo Pega, tem algo de intemporal. A aldeia de S. Bento das Gavieiras torna-se então palco de outro tipo de tensão: o medo dos comunistas, os murmúrios da extrema-direita, a presença subterrânea da violência política. Mangas costura estes fios com uma mestria rara, criando uma urdidura narrativa de grande intensidade dramática, onde episódios de brutalidade convivem com momentos de humor rústico e de um lirismo inesperado. Ler este romance é, em grande medida, aceitar o desafio de acompanhar uma narrativa exigente, cheia de desvios e ecos, mas também profundamente recompensadora. É um livro extraordinário, actual na sua escrita, sábio na sua construção e luminosamente inteligente na forma como se debruça sobre a história recente.

Enfim, impõe-se olhar para o autor. Francisco Duarte Mangas tem construído, ao longo dos anos, uma obra singular e preciosa, onde se inscrevem romances como “A Cidade das Livrarias Mortas”, “Diário de Link” ou “O Alfarrabista de Ponta Delgada”, para além de uma obra poética delicada e coerente. Livros onde a inteligência narrativa se alia a uma profunda consciência histórica e a um amor indomável pela língua portuguesa. E, no entanto, como sucede a tantos escritores de mérito, Francisco Duarte Mangas permanece injustamente na sombra do universo literário português, longe da visibilidade que a sua obra amplamente merece. Talvez porque escreve com uma liberdade rara, talvez porque não se rende às modas passageiras. Seja qual fôr a razão, “A Arte de Roubar Fruta” surge como prova luminosa de um talento maior. Um romance poderoso, de leitura obrigatória, capaz de lembrar aos leitores que a literatura, quando é verdadeira, não apenas conta histórias, mas mostra-se capaz de devolver ao mundo a sua memória, a sua linguagem e a sua dignidade.

sábado, 21 de setembro de 2024

CERTAME: FLO - Festival Literário de Ovar 2024 (III)



CERTAME: Festival Literário de Ovar 2024
Carlos Nuno Granja, Eduardo Sá, Elisa Costa Pinto, Francisco Duarte Mangas, Joaquim Margarido, Luís Filipe Sarmento, Marta Hugon, Pedro Reisinho, Rui David, Sara Ludovico, Sílvia Sacadura
Biblioteca Municipal de Ovar | Escola de Artes e Ofícios
20 Set 2024 | sex | 18:00 e 21:00


Diversidade, intensidade e muita qualidade marcaram o programa do terceiro dia do Festival Literário de Ovar, “o irmão do meio”, como alguém observou. Apresentações de livros, uma conversa que juntou três editores e se debruçou sobre os novos desafios que se colocam à edição, uma mesa temática e ainda um concerto, foram momentos de conhecimento e partilha fortemente intensos e emotivos, que não deixaram indiferente um público que acorreu ao Festival em bom número. Começando pelo período da tarde, Eduardo Sá fez uma curta viagem desde Aveiro para apresentar “O Medo é um Bicho Mau”, numa edição da Livros Horizonte. Numa linguagem simples, fortemente empática, o autor colocou a tónica na importância de sabermos lidar com os nossos medos, independentemente da idade de cada um. “Todas as crianças e todas as pessoas crescidas têm medos. O medo é só uma questão de sabedoria. Quanto mais velhos, mais medos temos. Não por sermos mais frágeis, mas por sermos mais sábios”, disse. A abordagem à edição e aos seus novos desafios contou com a participação de Sílvia Sacadura, Pedro Reisinho e Sara Ludovico, numa conversa moderada por Carlos Nuno Granja. Da dificuldade em conquistar leitores no segmento dos 8 aos 16 anos, aos condicionamentos de ordem financeira que obrigam a descartar muitos e bons textos ou à recusa de qualquer tipo de censura, de tudo um pouco se falou nesta conversa onde, acima de tudo, se quis vincar a ideia de que importa, acima de tudo, “que os leitores redescubram e descubram o prazer de ler.”

Deixando para trás a Biblioteca, percorremos a margem direita do Rio Cáster numa breve caminhada até nos depararmos com o bonito e bem cuidado espaço da Escola de Artes e Ofícios, onde tiveram lugar as três iniciativas que preencheram o serão. Elisa Costa Pinto chamou a si a tarefa de apresentar “Ácido”, o mais recente livro de poemas de Luís Filipe Sarmento, chamando a atenção para as duas vertentes - prosa e poesia - que habitam a criação literária do escritor. Sobre o seu livro, Sarmento afirmou tratar-se de “uma homenagem a essa trip que a vida me proporcionou, que é a grande viagem de quem nasce numa ditadura, de quem é educado para uma guerra e que à beira de vestir o camuflado há uma revolução que me liberta.” A noite encerrou com “Censurados: A Música que Desafiou a Ditadura”, um espectáculo poético e musical que Rui David, autor e intérprete, definiu como “um exercício de memória e de trazer as vozes daqueles que se interpuseram entre nós e 48 anos de ditadura”. Às músicas de autores bem conhecidos como Adriano Correia de Oliveira e José Afonso, José Mário Branco, Sérgio Godinho ou Chico Buarque, juntaram-se a poesia de Sophia de Mello Breyner, José Carlos Ary dos Santos, António Gedeão, José Saramago, Egito Gonçalves e outros, juntamente com registos em vídeo que dão testemunho dos homens e mulheres que sofreram no corpo e na alma a violência, o medo, a repressão e a tortura nas cadeias do Estado Novo.

“Descarto de mim a parte menos positiva do crítico e a parte mais positiva do divulgador, que às vezes são uma e a mesma coisa. É como leitor que estou aqui e como leitor que eu quero inquietar os meus interlocutores nesta mesa, sabendo que as minhas inquietações são as inquietações deles, porque são leitores como eu.” Foi com estas palavras que Joaquim Margarido começou por saudar o público presente e os dois convidados desta terceira mesa temática do FLO 10, como se de uma carta de intenções se tratasse. Dos livros que se lêem à forma como se escrevem, da lente sobre o mundo ou de um espelho interior que um livro pode ser para quem o lê ou escreve, ou ainda da importância de ler Camões nos dias de hoje ou daquilo que o 25 de Abril acrescentou à liberdade da escrita, de tudo um pouco se falou numa mesa com tanto de informalidade como de generosidade. “Não quero cair no lugar que nos diz que ficou para trás aquilo que era bom e que para a frente já não é nada. E eu quero acreditar, até bater as colheres, que há coisas a esperar e, sobretudo, que há coisas a fazer e que cada um à nossa escala pode fazer a diferença na vida dos outras”, partilhou Marta Hugon, acrescentando que “cada um de nós tem que ter muito presente que tem que se fazer. Pensar, dizer, escrever, fazer, fazer, fazer. E escrever é uma forma de fazer.” Fazendo a ligação com o concerto que viria a encerrar a noite, este foi um dos muitos momentos excelentes de mais uma mesa de grande qualidade neste Festival Literário de Ovar.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2023

LIVRO: "O Alfarrabista de Ponta Delgada"



LIVRO: “O Alfarrabista de Ponta Delgada”,
de Francisco Duarte Mangas
Ed. Caminho das Palavras, Março de 2022


“Estou junto da árvore-da-borracha, no topo do jardim. Prim senta-se a meu lado, cativa odores na brisa e parece-me inquieto. Mau tempo não será, a manhã apresenta-se limpa, sem uma única nuvem a macular o azul do céu. Olho a árvore, o seu crescimento assinalável. Repito. Muitas gerações hão de vê-la a crescer, a soltar as raízes da terra, como veias gigantes, a alargar o perímetro do tronco, carecendo de vários homens para a abraçar. A árvore-da-borracha, esta, plantada por minha ordem, encerra o sagrado lume da eternidade, resistirá a tudo, aos temporais, a sismos; as raízes submersas vão beber nas profundezas do mar, onde dizem ser doce a água. Ou talvez não.”

Belo e delicado como uma flor, assim é “O Alfarrabista de Ponta Delgada”, o mais recente romance de Francisco Duarte Mangas. A sua prosa elegante e harmoniosa é um convite à contemplação e ao recolhimento. Pede que o folheemos comedidamente, em silêncio, como quem pousa o olhar num canteiro, preso da graça e formosura das suas flores, do aveludado das suas pétalas ricas em matizes, do suave perfume que libertam. Como o húmus, dá e recebe, entrega-se aos caprichos da mãe-natureza, à sua avareza como à sua prodigalidade. Habita-o o sopro do vento, o cantar dos melros, o nascer do dia, uma camélia que desabrocha, o diálogo que as raízes das araucárias, do pinheiro-de-damara, do mirtilo-magenta, da canforeira, da magnólia ou do til mantêm entre si. Anima-o o secreto desejo das sementes, que delas nasçam utopias e não se lhes exija serem comestíveis os seus frutos.

Cruzando as histórias de duas pessoas que habitam espaços e tempos diferentes, o livro traz com ele a ansiedade da espera, o desafio da novidade, a alegria da descoberta. George Brown é o autor de um velho manuscrito, Laura a sua leitora, mais de cento e cinquenta anos depois. Na leitura de um, o sentir do outro. Em ambos a mesma solidão, um passado carregado de dor e luto, uma mágoa irresolúvel face às injustiças do mundo, a mesma paixão pelas plantas. Jardineiro inglês contratado por um dos homens mais ricos de Ponta Delgada, a Brown se deve, a partir de 1845, o trabalho de plantação de alguns dos mais belos espécimes arbóreos dos Açores e que podem ser apreciados naquele que é hoje o Jardim Botânico José do Canto, em Ponta Delgada. Entusiásticas, ricas de sons e imagens, são dele as impressões vertidas nas páginas do diário, esse mesmo que Laura resgata num velho alfarrabista. A distância entre as duas personagens esbate-se. As alegrias são as mesmas. As angústias também.

Quem leu “Diário de Link” ou “A Cidade das Livrarias Mortas” sabe que Francisco Duarte Mangas é um escritor criativo, perspicaz e enormemente talentoso. A qualidade da sua escrita reflecte uma invulgar atenção ao detalhe, um refinamento no modo como burila as frases, uma grande inteligência na construção de personagens e situações complexas, tornadas simples graças a esta forma única de conduzir a narrativa. “O Alfarrabista de Ponta Delgada”, porém, suplanta tudo o que já li deste autor. A matriz poética da escrita de Francisco Duarte Mangas supera-se em refinamento e elegância. Há nele um prazer em socorrer-se de vocábulos menos correntes, prazer que se transmite ao leitor no resguardo de um “ensalmo”, nas “estrídulas” gaivotas, num precioso “adir”, no “fulgir” de um cálice do Santo Cristo. O próprio ritmo da narrativa é inteligentemente pensado, dando ao leitor o espaço e o tempo devidos ao recato e à contemplação. Uma flor preciosa que guardamos com amor.

sábado, 13 de fevereiro de 2021

LIVRO: "A Cidade das Livrarias Mortas"



LIVRO: “A Cidade das Livrarias Mortas”,
de Francisco Duarte Mangas
Editor | Carlos da Veiga Ferreira
Ed. Teodolito, Fevereiro de 2020


“Aos treze anos vi pela primeira vez o Porto, e nesta casa entraria como marçano. Hoje, na primavera de dois mil e dezoito, conto oitenta e três: a piada do casado sinónimo de mártir da liberdade, creio não estar em erro, a contava o meu antigo patrão, homem decente, ensinou-me quase tudo da arte de velar o silêncio das palavras, de cuidar milhares e milhares de livros, formidável rebanho, muito mais abundante do que as reses do ‘reino maravilhoso’.”

Não de forma inocente, selecionei este excerto de “A Cidade das Livrarias Mortas” porque ele traz-me “um lugar no paraíso” pela voz, não de uma personagem de ficção, mas de uma figura real. A pessoa em causa é Nuno Canavez, dono e rosto da mítica Livraria Académica e um dos mais antigos alfarrabistas da cidade do Porto. Isto é importante na medida em que tive o privilégio de privar com o “senhor Nuno” durante o processo de recuperação de um impertinente problema de saúde. Dele ouvi esta e outras histórias aqui envoltas no manto da ficção e tão bem reproduzidas por Francisco Duarte Mangas, devolvendo a imagem de um homem culto, perspicaz, com uma história de vida riquíssima, senhor de uma memória prodigiosa e um exímio contador de estórias. Isto dito, compreende-se que este livro tenha para mim o valor do real, o que fez com que o visse com outro olhar, o sorvesse com deleite e o vivesse intensamente.

Juntando, num espaço bem delimitado da cidade do Porto, o neto de um camaroteiro do Teatro S. João, um poeta jovem e um poeta mais velho, um experimentado alfarrabista, um inquilino rabugento, um sem abrigo pacífico, um alegado ladrão de livros, o proprietário de um apartamento de alojamento local, o Presidente da Confraria dos Tascos e o “homem do capacete”, entre outros, “A Cidade das Livrarias Mortas” transporta-nos a um passado que é presente e que arrasta consigo grandes mudanças. É o tempo de uma cidade tornada invisível por força do turismo de massas, a peste bubónica e o cordão sanitário de há um século, ao tempo de Ricardo Jorge, a tomarem hoje a forma das gruas que se multiplicam sobre os prédios, das malas com rodinhas que raspam os passeios, das barbearias que são extensões de bares e petiscarias ou das cosmopolitas filas que se acumulam à porta da Livraria Lello.

Não deixa de ser irónico, num tempo em que se proíbem as livrarias de vender livros como se de ilícitos se tratasse, que Francisco Duarte Mangas nos venha alertar para o drama das “livrarias mortas”. Nos meandros de uma realidade que conhece bem – além da forte ligação à cidade é Presidente da Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto -, o autor junta a sua a outras vozes por uma causa a todos os títulos meritória, onde a palavra resistência é levada à letra, o dedo apontado à pressão imobiliária que enxota inquilinos de qualquer tipo e aos novos espaços de venda de livros com os quais as livrarias tradicionais têm muito poucas hipóteses de competir. Numa prosa viva e recheada de momentos bem humorados, Francisco Duarte Mangas oferece-nos o retrato de um Porto que se quer liberal, um Porto que resiste e onde se conspira nos recôncavos de cafés ou nas páginas de revistas clandestinas (“venda directa, quatro euros”). Gorki passeia-se por aqui. “Saúude”!