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sexta-feira, 13 de março de 2026

LIVRO: "A Arte de Roubar Fruta" | Francisco Duarte Mangas



LIVRO: “A Arte de Roubar Fruta”,
de Francisco Duarte Mangas
Edição | Carlos da Veiga Ferreira
Ed. Teodolito, Fevereiro de 2026


“Quando me arranjas uma galinhola, Mindo? O nosso acordo acabou, eu pago. Júlio, ó Júlio, quanto te deve o meu amigo? Anda cá, Mindo. Molha a palavra que eu cubro o lance! Nem que eu seja cão! Havemos de fazer desta terra a nossa terra, de gente fraterna, de gente igual. Não há ricos, nem pobres, há cidadãos. Júlio, será que eu falo chinês? Trazes ou não a conta e o vinho do nosso camarada, que tem a coragem de aprender a ler e a escrever depois dos cinquenta anos! Mais à frente, empresto-te o Amor de Perdição, depois sim, depois de o leres falarás como mitrado de Roma.”

Há livros que se nos oferecem como quem abre uma clareira na memória colectiva. “A Arte de Roubar Fruta”, de Francisco Duarte Mangas, é um desses raros romances onde a História não se limita a ser pano de fundo, respirando, sangrando e gritando no coração das personagens. Desde as primeiras páginas sabemos estar perante um livro sobre a coragem áspera de homens e mulheres que, em terras da raia, resistiram à violência fascista que cobria Portugal e a vizinha Espanha como um manto negro. Em Vilar de Piscos, o assassinato de um lavrador abastado desencadeia uma espiral de violência que conduz ao cerco de Cambedo em 1946, numa acção concertada das polícias de António de Oliveira Salazar e Francisco Franco. É neste território convulso que surgem as figuras inesquecíveis de António Geraldes e Armindo Pega, do Mirinho e do Justiniano, do Jaime e do Adriano, dos tenebrosos Benedito Valverde, Tomás Deslandes e Faustino Cavez. Entre o rumor das serras e o peso das perseguições, atravessam o romance ecos de Rosalía de Castro e do Grande Escritor Camilo Castelo Branco, como se a própria literatura viesse testemunhar que a dignidade humana nunca se rende por completo.

Mas este romance não vive apenas da força da sua matéria histórica. Vive, sobretudo, de uma paixão ardente pelas palavras. Francisco Duarte Mangas escreve como quem lavra a terra com minúcia e desvelo, abrindo sulcos onde germinam vocábulos raros e saborosos - aguazil, intonso, alcaiote, estopim, pardau, acédia, lhaneza, veniaga, côngrua -, palavras que soam a tesouro linguístico resgatado de um baú antigo. Muitas delas dão título a capítulos do livro, como se cada termo fosse uma pequena janela aberta sobre um mundo perdido. Há na escrita um prazer quase táctil, uma alegria em convocar a riqueza esquecida do português. O leitor avança, por vezes, como quem caminha por uma floresta de sons antigos, tropeçando em significados inesperados, redescobrindo o valor de cada palavra, a sua espessura etimológica. Essa exuberância vocabular não é ornamento gratuito. É a própria seiva da narrativa, a prova de que a língua, quando tratada com amor e rigor, pode devolver à literatura a sua mais profunda respiração.

A arquitectura narrativa do romance é, por sua vez, de uma inteligência admirável. As histórias avançam em dois tempos - o pós-guerra de 1946 e o chamado Verão Quente da Revolução - e entrelaçam-se com uma naturalidade que parece milagre de relojoaria literária. Personagens atravessam as décadas como quem cruza uma ponte invisível, e o leitor percebe pouco a pouco que a maldade, como diz Armindo Pega, tem algo de intemporal. A aldeia de S. Bento das Gavieiras torna-se então palco de outro tipo de tensão: o medo dos comunistas, os murmúrios da extrema-direita, a presença subterrânea da violência política. Mangas costura estes fios com uma mestria rara, criando uma urdidura narrativa de grande intensidade dramática, onde episódios de brutalidade convivem com momentos de humor rústico e de um lirismo inesperado. Ler este romance é, em grande medida, aceitar o desafio de acompanhar uma narrativa exigente, cheia de desvios e ecos, mas também profundamente recompensadora. É um livro extraordinário, actual na sua escrita, sábio na sua construção e luminosamente inteligente na forma como se debruça sobre a história recente.

Enfim, impõe-se olhar para o autor. Francisco Duarte Mangas tem construído, ao longo dos anos, uma obra singular e preciosa, onde se inscrevem romances como “A Cidade das Livrarias Mortas”, “Diário de Link” ou “O Alfarrabista de Ponta Delgada”, para além de uma obra poética delicada e coerente. Livros onde a inteligência narrativa se alia a uma profunda consciência histórica e a um amor indomável pela língua portuguesa. E, no entanto, como sucede a tantos escritores de mérito, Francisco Duarte Mangas permanece injustamente na sombra do universo literário português, longe da visibilidade que a sua obra amplamente merece. Talvez porque escreve com uma liberdade rara, talvez porque não se rende às modas passageiras. Seja qual fôr a razão, “A Arte de Roubar Fruta” surge como prova luminosa de um talento maior. Um romance poderoso, de leitura obrigatória, capaz de lembrar aos leitores que a literatura, quando é verdadeira, não apenas conta histórias, mas mostra-se capaz de devolver ao mundo a sua memória, a sua linguagem e a sua dignidade.

sábado, 13 de fevereiro de 2021

LIVRO: "A Cidade das Livrarias Mortas"



LIVRO: “A Cidade das Livrarias Mortas”,
de Francisco Duarte Mangas
Editor | Carlos da Veiga Ferreira
Ed. Teodolito, Fevereiro de 2020


“Aos treze anos vi pela primeira vez o Porto, e nesta casa entraria como marçano. Hoje, na primavera de dois mil e dezoito, conto oitenta e três: a piada do casado sinónimo de mártir da liberdade, creio não estar em erro, a contava o meu antigo patrão, homem decente, ensinou-me quase tudo da arte de velar o silêncio das palavras, de cuidar milhares e milhares de livros, formidável rebanho, muito mais abundante do que as reses do ‘reino maravilhoso’.”

Não de forma inocente, selecionei este excerto de “A Cidade das Livrarias Mortas” porque ele traz-me “um lugar no paraíso” pela voz, não de uma personagem de ficção, mas de uma figura real. A pessoa em causa é Nuno Canavez, dono e rosto da mítica Livraria Académica e um dos mais antigos alfarrabistas da cidade do Porto. Isto é importante na medida em que tive o privilégio de privar com o “senhor Nuno” durante o processo de recuperação de um impertinente problema de saúde. Dele ouvi esta e outras histórias aqui envoltas no manto da ficção e tão bem reproduzidas por Francisco Duarte Mangas, devolvendo a imagem de um homem culto, perspicaz, com uma história de vida riquíssima, senhor de uma memória prodigiosa e um exímio contador de estórias. Isto dito, compreende-se que este livro tenha para mim o valor do real, o que fez com que o visse com outro olhar, o sorvesse com deleite e o vivesse intensamente.

Juntando, num espaço bem delimitado da cidade do Porto, o neto de um camaroteiro do Teatro S. João, um poeta jovem e um poeta mais velho, um experimentado alfarrabista, um inquilino rabugento, um sem abrigo pacífico, um alegado ladrão de livros, o proprietário de um apartamento de alojamento local, o Presidente da Confraria dos Tascos e o “homem do capacete”, entre outros, “A Cidade das Livrarias Mortas” transporta-nos a um passado que é presente e que arrasta consigo grandes mudanças. É o tempo de uma cidade tornada invisível por força do turismo de massas, a peste bubónica e o cordão sanitário de há um século, ao tempo de Ricardo Jorge, a tomarem hoje a forma das gruas que se multiplicam sobre os prédios, das malas com rodinhas que raspam os passeios, das barbearias que são extensões de bares e petiscarias ou das cosmopolitas filas que se acumulam à porta da Livraria Lello.

Não deixa de ser irónico, num tempo em que se proíbem as livrarias de vender livros como se de ilícitos se tratasse, que Francisco Duarte Mangas nos venha alertar para o drama das “livrarias mortas”. Nos meandros de uma realidade que conhece bem – além da forte ligação à cidade é Presidente da Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto -, o autor junta a sua a outras vozes por uma causa a todos os títulos meritória, onde a palavra resistência é levada à letra, o dedo apontado à pressão imobiliária que enxota inquilinos de qualquer tipo e aos novos espaços de venda de livros com os quais as livrarias tradicionais têm muito poucas hipóteses de competir. Numa prosa viva e recheada de momentos bem humorados, Francisco Duarte Mangas oferece-nos o retrato de um Porto que se quer liberal, um Porto que resiste e onde se conspira nos recôncavos de cafés ou nas páginas de revistas clandestinas (“venda directa, quatro euros”). Gorki passeia-se por aqui. “Saúude”!