O palco do Auditório de Espinho voltou a acolher um músico que ali regressa com a familiaridade de quem reconhece o lugar e a sua respiração. Mário Laginha apresentou “Retorno”, o seu mais recente trabalho discográfico, assumindo-o como um gesto de reencontro com o piano a solo quase duas décadas depois do lançamento de “Canções e Fugas”. Este não foi, porém, um regresso nostálgico, antes um movimento natural de um artista que, tendo percorrido inúmeros territórios de partilha musical, decide agora regressar a essa solidão criativa que, como o próprio reconhece, nunca lhe foi propriamente estranha. Sentado ao piano, Mário Laginha revelou as suas qualidades de compositor versátil e imaginativo, de executante exímio capaz de transformar cada frase numa pequena narrativa sonora. Num espaço onde afirma sentir-se “uma energia fantástica”, estabeleceu com o instrumento uma simbiose rara, como se cada tecla fosse a extensão imediata do pensamento. O concerto adquiriu, assim, um carácter de íntima revelação, pontuado por um diálogo cúmplice com o público, feito de breves comentários e de um humor discreto, sobretudo ao explicar a origem ou o título de cada peça. Essa leveza, longe de quebrar a intensidade musical, contribuiu para aproximar ainda mais a plateia de um universo sonoro que oscila entre a disciplina da composição e a liberdade do instante.
Entre os vários momentos que desenharam a arquitectura da noite, destacaram-se os dois improvisos que abriram, com fulgor quase inaugural, cada uma das metades do concerto. Neles se percebeu com particular nitidez a filosofia que atravessa “Retorno”: a fascinante possibilidade de se sentar ao piano sem saber exactamente o que virá a seguir. As peças nasceram diante do público com uma vitalidade imediata, como se a música estivesse a descobrir-se a si própria no momento da execução. Esse impulso criativo encontrou eco em temas de grande carácter. “Santo Amaro”, inspirado na pequena localidade costeira da ilha do Pico onde o músico costuma passar férias, revelou um lirismo ondulante, quase marítimo, deixando no ar uma melodia que parecia avançar e recuar como a própria maré. Já “Another Kind of Strike”, “Fogato Baião” e “Batuque” trouxeram para o centro do palco uma energia rítmica contagiante, o pianista a fazer valer um sentido de pulsação que tanto deve ao jazz como às múltiplas geografias musicais que tem atravessado. Ao longo destas peças, a escrita e a improvisação entrelaçaram-se com naturalidade: ora a música pareceu seguir um trilho cuidadosamente delineado, ora se libertou dele com uma espontaneidade luminosa. Nesse equilíbrio instável, mas sempre controlado, residiu grande parte do fascínio do concerto.
A atmosfera mudou de cor em “Retorno”, peça que deu nome ao álbum e que trouxe consigo uma doçura quase contemplativa, como se o pianista abrisse um espaço de recolhimento no meio da exuberância rítmica que atravessou a noite. A interpretação deixou perceber também as influências mais recentes do seu percurso, em particular o diálogo que manteve com o universo do fado através da colaboração com Camané, influência que o próprio reconhece ter deixado entrar, lentamente, na sua linguagem musical. Já no “encore”, Mário Laginha ofereceu ao público “Mãos na Parede”, homenagem delicada a Carlos Paredes, por alturas do centenário do seu nascimento, um gesto de memória que foi acolhido com emoção pelo publico. A fechar o concerto surgiu “Tanto Espaço”, composição originalmente editada no álbum “Espaço”, aqui revisitada num formato depurado que revelou novas transparências na escrita do compositor. Foi um final à altura de uma noite memorável, um concerto onde a técnica, a imaginação, a improvisação e a maturidade artística se fundiram num discurso profundamente humano. Mais do que apresentar um disco, Mário Laginha confirmou aquilo que “Retorno” já deixava adivinhar: que regressar, as mais das vezes, é apenas uma outra forma de seguir em frente.
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